O problema do distanciamento do leitor ao tratar sobre mudanças climáticas

campo gelo patagonia

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Em uma curta matéria, a jornalista Natalia A. Ramos Miranda escreve para a Agência Reuters sobre o rompimento de um campo de gelo de 12 mil quilômetros quadrados na Patagônia chilena. O G1 publicou a notícia no dia 24 de maio.

Trazendo uma entrevista com o diretor da Divisão de Neve e Geleiras na DGA (autoridade de Águas do Chile), Gino Casassa, a notícia é dada por um viés científico, mas não aprofundado. A causa do aumento de temperaturas na Cordilheira dos Andes não é mencionada e os impactos do rompimento desses blocos de gelo muito menos. Temos então dois problemas, um jornalismo que não se preocupa em aproximar o leitor do tema e que não fala diretamente da responsabilidade humana nas mudanças climáticas.

A influência humana no clima é clara, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês). A matéria poderia citar dados que apontassem nessa direção, por exemplo de que entre os cientistas do IPCC existe a confiança de 95% de que as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) resultantes das atividades humanas foram responsáveis por mais de metade da elevação média da temperatura registrada entre 1951 e 2010. Esses dados foram apresentados no quinto relatório do Painel, de 2014, que foi formulado diretamente por 259 autores de 39 países que avaliaram mais de 9200 estudos sobre o tema.

Mudanças climáticas sempre existiram. O planeta se aquece e resfria. Se não deixarmos claro que a ação humana influencia nas mudanças climáticas e os problemas que isso causa no planeta, uma visão negacionista do aquecimento global pode ser facilmente alcançada pelo leitor. Na matéria no G1 há alguns comentários nesse sentido. Para combater essa visão é necessário contextualizar as informações. As pesquisadoras Julia B. Corbett e Jessica L. Durfee publicaram em 2004 um estudo sobre a representação da mídia do aquecimento global. Segundo elas, quanto maior for a contextualização das afirmações sobre ciência climática, menor vai ser a incerteza sobre o assunto e sua importância. Quanto menor a incerteza, maior a capacidade de se fazer algo sobre.

E agora entramos no outro problema. Tratamos as mudanças climáticas como algo distante, sem impacto direto nas nossas vidas. Entretanto, o relatório do IPCC mencionado anteriormente prevê uma frequência maior de eventos extremos climáticos (tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis) com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais. Também aponta que o aumento da temperatura média do planeta tem elevado o nível do mar devido ao derretimento de calotas polares e desses campos de gelo e que isso pode causar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas.

Ao tratar somente do fato do campo de gelo ter se rompido, a matéria se distancia da realidade do leitor. Este não é motivado a pensar a fundo sobre as mudanças climáticas e a agir a respeito. A falta de contexto, a falta de ligação com o leitor os deixa só com uma pergunta na mente: mas e daí?

Um jornalismo consciente e ambiental motiva a reflexão do leitor sobre o tema tratado. Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Eloisa Beling Loose tratou sobre como o jornalismo local noticia as mudanças climáticas. Segundo ela, “a conexão do local com o global é fundamental para se pensar em outras atitudes e o jornalismo, como campo de excelência de medição e legitimação de discursos, precisa estar atento às formas com que dissemina a questão”. Para gerar a reflexão pretendida pelo jornalista, a notícia precisa estar contextualizada, é necessário mergulhar na realidade do leitor e mostrar porque o aquecimento global é importante.

Referências:

CORBETT, C. Julia; DURFEE, Jessica L. Testing public (un)certainty of science media representantions of global warming, Science Communication, v.26, n.2, 2004. p.129-151.

LOOSE, Eloisa B. Riscos climáticos no circuito da notícia local: percepção, comunicação e governança. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento). Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná, 2016.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

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Desafios à moda sustentável

Reportagem Época

Imagem: Captura de tela – Reportagem publicada no site da Época Negócios
Por Eutalita Bezerra*

Há alguns dias vivemos a semana Fashion Revolution. Porto Alegre, por exemplo, sediou diversas atividades alusivas ao evento cuja pauta propunha um olhar reflexivo sobre a cadeia da moda, uma das mais poluentes do mundo e que cresce exponencialmente. Época Negócios afirma em reportagem publicada no último dia 13 de maio que, hoje, a indústria da moda deixa a desejar em investimentos quando o assunto é sustentabilidade. Isto vai na contramão do que se apregoava nas discussões recentes – inclusive ao que ela mesma noticiava dois meses antes, conforme retomaremos.

Apontando como justificativa a falta de esforço conjunto dos players do mercado, Época apresenta um novo relatório publicado por consultorias internacionais que verificaram metas de sustentabilidade das labels de moda e sua efetiva aplicação, atestando que a indústria havia subido dois pontos a menos que o ano anterior neste quesito.

Época descreve o cenário catástrófico que pode se confirmar em pouco mais de 20 anos caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas por essas empresas, visto que a indústria da moda gera mais destes poluentes que todos os voos internacionais e cargas marítimas juntos. Para a mitigação, sugere, por parte das empresas, a implementação de soluções de maneira ampla e rápida. Do poder público, a criação de regras mais rígidas. Às mídias, que se mantenham atentas aos problemas do setor. Aos investidores, que apoiem marcas dedicadas à causa. E recorre, ainda, ao consumidor, propondo que este pressione as marcas que consomem, considerando que as empresas se preocupam com a sustentabilidade à medida que são demandadas pelos clientes.

A esta gama de soluções apresentadas e ao caminho possível trazido por Época, entendemos tratar-se de um olhar amplo e apurado, como propõem os preceitos do jornalismo ambiental. Além de trazer diversos vieses sobre a questão, que esclarecem desde as causas até as suas consequências, a reportagem é rica em números e em exemplos que aproximam a leitura do consumidor, afinal, a vestimenta é um dos poucos itens de consumo que é comum a tantas sociedades.

Para um enriquecimento da abordagem, e então retomamos o que foi pontuado no início, sobre a longa reportagem feita dois meses antes na mesma revista, se poderia ter ouvido outras fontes que não apenas um dos coautores do relatório. O que dizem outros interessados no assunto? As empresas concordam que têm investido menos?  O que as fez tomar passos para trás nesse caminho considerando que, conforme outros relatórios trazidos também por Época, cada vez mais o consumidor exige uma postura economicamente sustentável dessas empresas? Sobraram questões e faltaram respostas.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Por que o jornalismo deve se posicionar diante da ameaça à vegetação nativa no Brasil

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Imagem: Captura de tela – Reportagem de Daniela Chiaretti publicada no site do jornal Valor Econômico

 

Por Débora Gallas Steigleder*

A Lei de Proteção da Vegetação Nativa, popularmente denominada Código Florestal, sancionada em 2012 pela presidenta Dilma Rousseff após mais de uma década de debates no Congresso Nacional, voltou à pauta no último mês. Isto porque os senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e colega Marcio Bittar (MDB/AC) apresentaram o Projeto de Lei 2362/2019, que propõe o fim da reserva legal nos imóveis rurais de todo o País.

Publicada em 29 de abril no site do jornal Valor Econômico, a reportagem da jornalista Daniela Chiaretti busca traduzir o impacto da aprovação da proposta. O título dá destaque aos números, como é de se esperar de um veículo que costuma repercutir e informar o mercado financeiro, mas permite ao leitor visualizar a dimensão das áreas afetadas ao equivalê-las à área de “três Bahias”.

Ao longo do texto, a repórter aborda os principais pontos do PL, marcado por afirmações desprovidas de embasamento, tais como a de que o Brasil é “um dos [países] que mais preserva sua vegetação no mundo”. Tais afirmações são contrapostas às análises de uma fonte especializada, um pesquisador, cuja relevância diante do tema é justificada pela jornalista logo após o lead.

Esta postura proativa, de prezar a apuração jornalística frente à mera reprodução de versões das fontes oficiais, é um aspecto pouco verificado nas diversas pesquisas do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) sobre coberturas da mídia hegemônica** e, portanto, deve ser incentivado. Isto porque um dos princípios-chave do jornalismo ambiental é sua preocupação com o ambiente enquanto bem comum.

Na continuidade da cobertura, valeria trazer mais vozes ao texto para reforçar a complexidade do tema. A fonte especialista tem autoridade a partir do seu saber científico, mas diversos outros atores sociais também podem argumentar contra a proposta a partir de seus saberes. Porém, de forma geral, a cobertura está alinhada com o jornalismo ambiental ao já partir do pressuposto de que o PL é prejudicial à biodiversidade e à qualidade de vida das comunidades humanas. E esta postura deve ser assumida por todos os jornalismos, tanto os hegemônicos quanto os especializados em economia e finanças.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
** Uma das mais recentes publicações do Grupo atenta para a importância de envolver outros atores para além do Estado na discussão sobre possíveis soluções para situações de injustiça ambiental. Ver em: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; SILVA, Jamille Almeida da; LOOSE, Eloisa Beling. Injusticia ambiental en el periodismo: análisis de reportajes sobre contaminación por pesticidas. La trama de la comunicación, Rosario (Argentina), v.23, n.1, p.15-29, jan./jul. 2019.

 

 

 

 

 

O Jornalismo entre políticas

05.05

Imagem: Reprodução de notícia publicada no dia 18.04.19 no jornal Correio do Povo (p.6)
Por Eliege Fante*

Toda vez que leio a respeito da “ineficiência das políticas públicas” referente à redução das emissões de gases de efeito estufa causadores da mudança climática, fico pensando se seriam as políticas ambientais ou as econômicas…

O motivo da crítica às políticas públicas é o dado apresentado na notícia Aquecimento Global: Concentração de CO2 bate novo recorde histórico, publicada no site Apolo11, onde diz que “2018 registrou o quarto maior crescimento de emissão de CO2 na atmosfera nos últimos 60 anos”. Este resultado revela a distância que tomamos da ideia de voltar ao patamar de 350 ppm (partes por milhão)  – acesse a campanha 350 – de dióxido de carbono na atmosfera, já que atualmente alcançamos a presença de 410 ppm.

Uma rápida pesquisa no acervo do jornal Correio do Povo (RS) no mês de abril de 2019, através do seu buscador online, com a palavra-chave “Petrobras”, indicou a abordagem de alguns assuntos ligados ao petróleo. Sem surpresas, nenhuma menção ao iminente fim desse recurso natural.

As datas das edições encontradas foram: 12, 13, 15, 16, 18, 20 e 27 de abril. Tratar do aumento ou não do preço do diesel e da gasolina não é o suficiente, mesmo que essa seja a única abordagem do governo. Aliás, um dos papeis do Jornalismo é difundir justamente o que não é dito pelos governantes a respeito das questões de interesse público.

Pelo contrário, uma notícia local de 16 de abril, p. 5, citava a iniciativa “Gás para crescer”. Notícia anterior sobre o mesmo evento, em 12 de abril, p. 10, adiantava que a discussão seria sobre a “modernização do setor de gás natural e […] criação de um mercado nacional com oferta abundante e preços competitivos.” As palavras que destaquei seriam a justificativa para o aprofundamento da exploração do gás, também energia fóssil.

Certamente governo e empresários estão a par da mudança do clima por causa do aumento da temperatura da atmosfera, que não pode superar 2º C, mas temos atualmente 50% de chance de isso não ocorrer, visto o aumento de um grau confirmado em 2018. Então, a pergunta seria: como pretendem ou imaginam dar continuidade aos seus ramos de negócio se a sua matéria-prima original está com os anos para a exploração (ou produção) contados? (Leia Antecipar o fim do petróleo, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil).

A resposta à pergunta feita provavelmente apontaria como solução o uso de tecnologias mais modernas como o fracking (Leia mais informações sobre o assunto aqui) ou aquelas empregadas para a extração do Pré-Sal.

A notícia de 18 de abril, p. 6, reproduzida no começo da análise, abordou a ajuda aos estados com o repasse de recursos provenientes dessa exploração nos próximos anos. Se o governo brasileiro quisesse mesmo ajudar os estados, além de manter intocado o Pré-Sal, não teria determinado um teto de gastos (por 20 anos!) nas áreas da educação, saúde e segurança. As mais lembradas durante as campanhas eleitorais.

Sobre o teto, vale recordar a manifestação da Organização das Nações Unidas feita em 2016 (Brasil: teto de 20 anos para o gasto público violará direitos humanos, alerta relator da ONU): “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social.”

O governo não parece mesmo interessado em ajudar, já que as políticas públicas atuais convergem com este cenário de retrocesso social arquitetado há mais de dois anos. Afinal, o mês de abril não terminou sem o anúncio do “corte de 30% em verbas para todas as universidades federais” (veja notícia do Correio do Povo publicada no dia 30.04.19). Mais uma questão apenas repassada pela imprensa e carente de justificativas por parte do governo.

Os preceitos do Jornalismo determinam o interesse em ajudar a sociedade, trabalhando em busca de respostas às questões de interesse público. O que o público espera da nossa profissão é mais profundidade ao reportar os temas e menos repasse de informações oficiais. Podemos transcender às políticas que fixam os temas em editorias assim como em Ministérios e Secretarias dos governos.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.