No tempo das catástrofes, jovens jornalistas questionam critérios de noticiabilidade

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no portal Humanista
Débora Gallas Steigleder*

No último dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, participei do podcast #ConversaHumanista, produzido por estudantes da disciplina Laboratório de Jornalismo Convergente, do curso de Jornalismo da UFRGS. Em pauta, por ocasião da data, a cobertura jornalística sobre meio ambiente no Brasil. Representando o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, dividi a mesa com a estudante Camila Souza, que reportou ao portal Humanista as ameaças à produção agroecológica, a comunidades rurais e urbanas e à conservação da biodiversidade representadas por um grande empreendimento de mineração de carvão nas adjacências de Porto Alegre – assunto sobre o qual temos nos debruçado neste Observatório.
A reportagem do Humanista apresenta abordagem sistêmica diante do risco multifacetado que envolve o projeto. Assume um lado – o direito de existência das comunidades humanas e não-humanas – e dá voz ao contraditório, ouvindo o representante da mineradora Copelmi. Reconhece que a pluralidade de vozes vai além da pluralidade de fontes ao mapear a diversidade da produção agroecológica no assentamento Apolônio de Carvalho, no município de Eldorado do Sul, e relacioná-la à luta das famílias ali estabelecidas. Neste sentido, traz um relato sobre o modo de vida local, buscando proximidade leitores – quem mora em Porto Alegre, por exemplo, pode identificar consequências diretas da mineração em sua própria vida por conta da potencial contaminação da água e de alimentos.
E, mais importante do que corresponder individualmente a preceitos que identificamos como próprios do jornalismo ambiental, vemos que a reportagem foi apenas um primeiro movimento de cobertura contínua sobre o tema. O Humanista repercutiu a Audiência Pública realizada em Eldorado do Sul em 27 de junho e vem aproveitando o gancho para aprofundar o assunto, como nesta entrevista com Rualdo Menegat, autor do Atlas Ambiental de Porto Alegre. Este foi um desafio que apontamos como central ao jornalismo durante o #ConversaHumanista. Por que falar sobre problemas ambientais somente no dia 5 de junho? Por que limitar a cobertura à repercussão de crimes ambientais como os das mineradoras Samarco e Vale e não aprofundar os questionamentos sobre o sistema político e econômico em que vivemos, o qual permite relativizar a importância da precaução sob o pretexto do lucro financeiro?
O futuro é agora, e cabe orientarmos os jornalistas em formação a repensarem e atualizarem os critérios de noticiabilidade que engessam a agenda de repórteres e nos distanciam de um valor comum – a viabilidade de nossa existência neste planeta. Neste contexto, bem-vindas são as iniciativas que reconhecem a inovação no jornalismo como o fomento de uma consciência crítica da realidade, para além da mera inserção de gadgets e ferramentas tecnológicas na rotina de trabalho.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
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Projeto de megamina na região metropolitana de Porto Alegre merece maior aprofundamento pela grande imprensa

Fonte: Reprodução de ILEA UFRGS Vídeos.
Por Eliege Fante*

Audiências públicas já foram realizadas em Charqueadas e Eldorado do Sul (RS) onde o projeto Mina Guaíba da Copelmi é endereçado. Mas, Porto Alegre também reivindica a realização de uma audiência pública, cuja zona central fica a apenas 16 km da proposta de megamina de quase cinco mil hectares. Em geral, as notícias da grande imprensa têm abordado a geração de renda, empregos e novas tecnologias conforme a divulgação da empresa, e a poluição e os riscos impressos no projeto segundo técnicos ambientais. Contudo, ainda há muito a ser dito e debatido. Para tentar dar conta da complexidade entorno da tomada de decisão sobre autorizar ou não o projeto, jornalistas podem recorrer ao trabalho dos pesquisadores do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS), protocolado no último dia 4 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento ambiental. Trata-se de um contra laudo sobre o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) do projeto Mina Guaíba da Copelmi. A motivação decorre das inconsistências e erros percebidos pelos professores e pesquisadores.

A própria Fepam tem estudos em andamento sobre a mineração no Estado (Programas e Projetos, no site). Por se tratar de um projeto de implantação da maior mina a céu aberto da América Latina, seria pertinente apurar estes dados acumulados e a situação ambiental e econômica das regiões. Conferir a qualidade do ar, do solo e da água, bem como da saúde das comunidades afetadas, como se fosse uma radiografia da mineração gaúcha. No livro da Fepam de 2002, Meio Ambiente e Carvão, Impactos da exploração, o então diretor-presidente da Fundação, Nilvo Luiz Alves da Silva, alertava: “Um desenvolvimento energético sustentável significa que devemos ir além de algumas questões tradicionalmente abordadas como viabilidade técnica e econômica. O processo deve incorporar os impactos no ambiente e na saúde, esgotamento de fontes energéticas, equidade intra e intergeracional e a definição das políticas públicas relativas ao setor.”.

A questão intergeracional também preocupa o geólogo, professor e pesquisador da UFRGS, Rualdo Menegat. “O projeto não garante sustentabilidade ambiental, não convence do ponto de vista técnico, o EIA-Rima não é confiável. É uma injustiça geracional enorme, podemos deixar este problema para nossos filhos e netos gerenciarem este passivo daqui a 23 anos? Temos este direito?” Estas e outras questões levantadas por Menegat, como a do uso da água de dois aquíferos (Quaternário e Rio Bonito) pela pretendida Mina Guaíba, merece ser considerada pela grande imprensa com o aprofundamento correspondente à importância que o recurso tem para a vida. Menegat pergunta se não seria o caso de optarmos pela conservação deste recurso imprescindível já que a capital e municípios vizinhos têm o abastecimento dependente do Lago Guaíba. Ainda mais, diz ele, que não há plano de substituto em caso de haver uma impossibilidade para a captação. Antes da autorização do projeto pelo órgão licenciador, há respostas cruciais a serem buscadas. De fato, uma audiência pública em Porto Alegre poderia proporcionar este espaço.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

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Sobre o desmatamento do Bioma Pampa: é possível fazer jornalismo para além do senso comum

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S.Paulo
Por Ursula Schilling*

Repetidas vezes, em nossas análises para este observatório, damo-nos conta de um cenário nada animador, de acordo com o qual as pautas ambientais carecem de espaço na mídia e, quando o recebem, esses espaços trazem abordagens superficiais, enviesadas (com uma olhar desenvolvimentista ou da dita economia verde), sem propor um verdadeiro debate sobre o tema.
Mas se isso é verdade, também é verdade que há sinais de que um jornalismo sério e comprometido com a qualidade da informação não só é possível, como já existe em alguns casos. Um exemplo disso é a matéria “Pampa gaúcho sofreu desmate de 44%, aponta novo monitoramento do Inpe“, de autoria da jornalista gaúcha Paula Sperb, para a editoria de ambiente do site do jornal Folha de S.Paulo. Publicado em 5 de junho, o texto trata da questão do desmatamento do Bioma Pampa, trazendo dados inéditos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, segundo o qual, em 2016, 43,7% da vegetação nativa já estava suprimida, ou seja, desmatada.
O interessante da matéria não são os dados em si – o que já é “positivo”, uma vez que não se ouve ou não se lê comumente sobre o Bioma Pampa em veículos jornalísticos de referência – mas o fato de eles não virem sozinhos. Mesmo que de forma sucinta, há uma problematização do tópico, uma vez que são apontadas algumas das possíveis causas da destruição do Pampa, um dos seis biomas brasileiros, que só existe no Rio Grande do Sul.
A começar, o texto destaca, brevemente, o que é o Bioma Pampa, para que o leitor minimamente se situe, entenda do que se trata e, mais que isso, perceba a dimensão do que é tratado. Pode não parecer importante, mas quando o assunto são questões ambientais, trazer para a realidade próxima, explicar termos não muito conhecidos, faz diferença para que as pautas não sejam tão abstratas ou distantes para quem as lê. Além disso, há uma explicação sobre os impactos do desaparecimento desse bioma, envolvendo, até mesmo, questões culturais, geralmente tão caras ao povo gaúcho.
Em seguida, Sperb traz a fala de um professor da Universidade Federal do Pampa – Unipampa, apontando que o Bioma Pampa está perdendo espaço para o plantio de soja. Aqui, o trecho é duplamente interessante, pois além de apontar uma das possíveis causas para a destruição do bioma, ainda levanta, paralelamente, a problemática das monoculturas, hoje ainda pouquíssimo abordada. Vale destacar que a expressão “monocultura da soja” vem com link para um texto intitulado “Terras indígenas foram invadidas com soja transgênica, conclui Ibama”.

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S. Paulo

A notícia publicada por Sperb é curta, mas isso também é uma prova de que não são necessárias extensas reportagens para que se aborde um tópico com o mínimo de aprofundamento e problematização, saindo do senso comum. Até porque um assunto não há de se encerrar numa única abordagem. Trazer à luz, sistematicamente, temas que precisam de repercussão e espaço, como são os relacionados ao meio ambiente, é um princípio importante para proporcionar ao leitor um conhecimento mínimo acerca dessas questões e, com o tempo, o espírito crítico que se espera que o bom jornalismo nos ajude a desenvolver.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).