Jornalismo torna complexo o olhar para a peleteria

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no Portal G1
Por Eutalita Bezerra*

Há muitos anos foi extinta a necessidade humana de proteger-se usando pele de animais. Apesar disso, este ainda é um dos argumentos utilizados em defesa da peleteria, atividade que extrai tecido animal para vestimenta. Na reportagem publicada no último dia 18, no Portal G1, esta explicação ainda aparece, porém, já se percebe certa vontade de mudança.
Impondo à atual juventude – os chamados Millennials – a responsabilidade pela pressão sobre as indústrias de moda, a reportagem afirma que vem do ativismo e da preocupação com a sustentabilidade desta geração a redução do uso de pele animal na moda. Contando com fontes como a Peta – e citando grandes labels, tais como Burberry, Gucci, Michel Kors e, mais recentemente, Chanel, o texto admite um recuo na utilização de couros considerados exóticos, extraídos, dentre outros, de cobras, lagartos e crocodilos. Os demais tipos de pele e outros tecidos provenientes de animais, como lã e seda, são citados muito brevemente, o que nos parece uma tentativa de tornar o questionamento mais palatável. Pudera: basta uma pesquisa rápida e se sabe, conforme o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, por exemplo, que o Brasil, conta com mais de 260 estabelecimentos do ramo e exporta mais de 2 bilhões de dólares por ano em couro para 80 países.
Porém, trazendo uma professora de moda da FAAP, a reportagem consegue navegar nos meandros da questão. Isto porque apresenta o consumo de pele animal como insustentável, com grandes danos ao meio ambiente, além do próprio sofrimento animal e do excessivo consumo de água. Afirma, ainda, que não é suficiente trocar o couro animal pelo sintético, que vem de matéria-prima derivada de petróleo.
E, o que mais nos agrada: se preocupa em apontar caminhos. Apresentando o couro de abacaxi, material preparado com as fibras das folhas do vegetal, como parte das coleções de grandes marcas, o jornalista mostra ao seu leitor que é possível, mesmo dentro da lógica de consumo atual, repensar a relação entre consumidores e insumos. O piñatex, que já foi tema de reportagem na Forbes e na Exame, é produzido nas Filipinas como subproduto da agricultura. Sua criadora, a designer Carmem Hijosa, trabalhou durante anos na indústria do couro animal, antes de buscar outras alternativas.
Podemos dizer que o jornalista se preocupa em olhar para os diversos viéses da situação e o faz com algum fôlego. Complexifica o assunto. Escolhe suas fontes com clareza daquilo que busca. Fala de moda trazendo à luz da Ciência. Fala de sofrimento animal como demonstração da insustentabilidade atual. Fala de indústria e suas controvérsias. E fala de futuro apresentando caminhos.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
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