O problema dos agrotóxicos não está somente na comida

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que “nenhum consumidor está sendo intoxicado” por agrotóxicos. Sua fala vem após a adoção de novas regras de classificação dos pesticidas, que na prática diminuiu de 702 para 43 o número de agrotóxicos extremamente tóxicos . Com a nova classificação, apenas os produtos letais são caracterizados como “extremamente tóxicos”. Os produtos que causam úlceras, corrosão na pele e opacidade da córnea também eram classificados assim. As informações dos rótulos destes produtos também terão novo sistema, com a adoção de símbolos, por exemplo.

Resolvi tratar nesse texto não apenas de uma ou duas matérias, mas tratar do contexto, algo que falta nas três matérias da Folha linkadas acima. A ministra fala sobre o perigo de se alardear que a “comida está envenenada”, que isto seria um desserviço para o Brasil e que poderia prejudicar a imagem do país perante o mercado internacional. Entretanto, um dos grandes problemas do uso de agrotóxicos e das novas regras de classificação não está no consumidor final. Está na aplicação.

Na última segunda-feira, dia 5, também foi publicada uma reportagem no jornal El País Brasil sobre uma aldeia Guarani Kaiowá que foi intoxicada por uma nuvem de pó de calcário e agrotóxicos. A aldeia Guyraroká está localizada em Caarapó, no Mato Grosso do Sul, e aguarda a demarcação de suas terras. A escola da comunidade está a 50 metros da cerca que separa o território indígena de uma fazenda. As crianças comiam merenda quando a nuvem chegou e foram as primeiras a serem atingidas. Em poucos minutos, toda a aldeia ficou coberta de poeira, inclusive as hortas. Vários indígenas, principalmente crianças e idosos, apresentaram sintomas de intoxicação por pesticidas – enjôos, irritação na pele, diarreia e dores de cabeça. Animais, como cães e galinhas, morreram. E falamos somente dos sintomas imediatos, pois a poeira também está ligada a problemas respiratórios.

A Guyraroká é cercada por plantações de cana, soja e milho e os cerca de 120 Guarani Kaiowá que vivem na aldeia são constantemente expostos a pesticidas, que são aplicados por aviões e tratores. Na reportagem, uma senhora da aldeia conta que recorrem a raízes e plantas medicinais para tratamento, pois o acesso a médicos e remédios é difícil. Entretanto, ela tem medo de que logo não restará mais essas plantas, pois as “nossas florestas estão virando pastos e lavouras”.

Com os cortes de orçamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), funcionários que atendam os indígenas são raros. Na região de Caarapó, com cerca de 10 mil indígenas e grandes conflitos, só há uma servidora da Funai . E quando os índígenas buscam o hospital regional, sofrem ameaças. Os fazendeiros chegam a pedir aos funcionários para não os atenderem ou darem remédios trocados.

E não são somente indígenas que sofrem com a pulverização de pesticidas em áreas impróprias. Reportagem da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil aponta que agrotóxicos estão sendo utilizados como arma química no Pará. Três acampamentos de agricultores sem-terra de uma comunidade quilombola foram alvos de ataques desde 2013. A reportagem trata do caso do acampamento Helenira Rezende, localizado na zona rural do município de Marobá, nas terras do complexo Cedro, área reivindicada pela Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S.A., empresa que pertence ao banqueiro Daniel Dantas. Cerca de 150 famílias foram vítimas do que chamam de “ataque químico”, ocorrido no dia 17 de março de 2018. Segundo os moradores, uma pequena aeronave sobrevoou a região durante toda a tarde, pulverizando agrotóxicos. A disputa judicial que trata dessas terras já completou 10 anos.

A guerra travada entre latifundiários e indígenas, entre latifundiários e agricultores sem terra, entre latifundiários e pequenos agricultores não é novidade. Em julho, se atingiu o número recorde de 290 ‘defensivos agrícolas” aprovados. Com as novas regras, os aplicadores saberão quais os produtos letais e quais os que “apenas” causam úlceras. O jornalismo brasileiro tradicional precisa entender que agrotóxicos não são apenas sobre alimentos, podemos observar que os agrotóxicos estão sendo utilizados até mesmo como armas pelos grandes fazendeiros. Para problematizar os agrotóxicos deve-se pensar também nos conflitos territoriais brasileiros e em quem sofre na pele com isso.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
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Desmatamento: o jornalismo precisa nos aproximar da Amazônia. 

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

O desmatamento na Amazônia, a partir de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), foi a principal pauta política e ambiental da semana. Conforme matéria publicada na Folha de São Paulo, com base em imagens de satélite, o órgão federal mostrou que mais de 1.000km2 de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena do mês de julho deste ano, um aumento de 68% em relação a julho de 2018. O valor mensal registrado em julho de 2019 é o mais alto da série divulgada desde agosto de 2015. Os dados mensais são do Deter, órgão do Inpe, que não mede o desmatamento, mas indica tendência de desmatamento, para auxiliar na fiscalização.

A divulgação dos dados gerou uma crise política no Brasil, que culminou com a exoneração do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, na última sexta-feira, dia 02. Sobre os dados do Inpe, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o percentual de aumento de desmatamento obtido pelo sistema Deter não condiz com a verdade. O Presidente da República também questionou o órgão federal.

Diante desta e de outras crises criadas atualmente sobre as questões ambientais, é necessário que o jornalismo se posicione pela informação e conscientização dos cidadãos brasileiros. Mas o que se vê em muitos veículos jornalismo é o que chamamos de jornalismo declaratório, reproduzindo somente as falas do ministro, do presidente, de representantes de órgãos ou autoridades. Na matéria apresentada acima, a maior parte do texto foca nas falas e respostas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é destacada no título, do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Busquei na Folha de São Paulo outras matérias a partir das palavras Amazônia e desmatamento e não encontrei nenhuma que aprofundasse, contextualizasse e simplificasse os dados do Inpe. Essa característica não é exclusividade deste jornal, e nem desta temática, mas de vários meios de comunicação. Para entendermos quem das autoridades acima está falando a verdade, precisamos de apuração detalhada e aprofundada e não apenas saber o que um disse e o outro falou.

A maioria dos brasileiros mora longe da Amazônia. Não tem a mínima ideia do que 1000 km2 de desmatamento em quinze dias na Amazônia pode representar em suas vidas. O que o desmatamento tem a ver com as secas frequentes? Com o aumento das temperaturas? Com a falta de água nas torneiras do sudeste? Como interfere nos mananciais das águas e assoreamento dos rios? E para os que moram na Amazônia, o que esses números representam? O que isso representa para as famílias extrativistas, tradicionais e indígenas que lá vivem? As áreas desmatadas se transformarão em que: pastagens e lavouras de soja? Que impactos essas atividades tem na região e na emissão de gases poluentes? Como nós, através dos produtos que consumimos, estamos contribuindo com esse desmatamento? Essas são algumas questões que nos surgem quando vemos dados sobre desmatamento na Amazônia que precisam ser respondidas pelos meios de comunicação para que a sociedade brasileira compreenda o tema e se posicione de forma cidadã.

Jornalisticamente, a pauta é quente, os dados são atuais e a oportunidade de produzir reportagens sobre o assunto é evidente. E a mídia internacional compreendeu muito bem essa oportunidade de aproximar o mundo da Amazônia. A revista Economist tratou o tema com reportagem de capa , contextualizando a crise política com informações ambientais. Os jornais The New York Times e The Guardian também abordaram o assunto.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.