Desmatamento: o jornalismo precisa nos aproximar da Amazônia. 

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

O desmatamento na Amazônia, a partir de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), foi a principal pauta política e ambiental da semana. Conforme matéria publicada na Folha de São Paulo, com base em imagens de satélite, o órgão federal mostrou que mais de 1.000km2 de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena do mês de julho deste ano, um aumento de 68% em relação a julho de 2018. O valor mensal registrado em julho de 2019 é o mais alto da série divulgada desde agosto de 2015. Os dados mensais são do Deter, órgão do Inpe, que não mede o desmatamento, mas indica tendência de desmatamento, para auxiliar na fiscalização.

A divulgação dos dados gerou uma crise política no Brasil, que culminou com a exoneração do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, na última sexta-feira, dia 02. Sobre os dados do Inpe, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o percentual de aumento de desmatamento obtido pelo sistema Deter não condiz com a verdade. O Presidente da República também questionou o órgão federal.

Diante desta e de outras crises criadas atualmente sobre as questões ambientais, é necessário que o jornalismo se posicione pela informação e conscientização dos cidadãos brasileiros. Mas o que se vê em muitos veículos jornalismo é o que chamamos de jornalismo declaratório, reproduzindo somente as falas do ministro, do presidente, de representantes de órgãos ou autoridades. Na matéria apresentada acima, a maior parte do texto foca nas falas e respostas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é destacada no título, do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Busquei na Folha de São Paulo outras matérias a partir das palavras Amazônia e desmatamento e não encontrei nenhuma que aprofundasse, contextualizasse e simplificasse os dados do Inpe. Essa característica não é exclusividade deste jornal, e nem desta temática, mas de vários meios de comunicação. Para entendermos quem das autoridades acima está falando a verdade, precisamos de apuração detalhada e aprofundada e não apenas saber o que um disse e o outro falou.

A maioria dos brasileiros mora longe da Amazônia. Não tem a mínima ideia do que 1000 km2 de desmatamento em quinze dias na Amazônia pode representar em suas vidas. O que o desmatamento tem a ver com as secas frequentes? Com o aumento das temperaturas? Com a falta de água nas torneiras do sudeste? Como interfere nos mananciais das águas e assoreamento dos rios? E para os que moram na Amazônia, o que esses números representam? O que isso representa para as famílias extrativistas, tradicionais e indígenas que lá vivem? As áreas desmatadas se transformarão em que: pastagens e lavouras de soja? Que impactos essas atividades tem na região e na emissão de gases poluentes? Como nós, através dos produtos que consumimos, estamos contribuindo com esse desmatamento? Essas são algumas questões que nos surgem quando vemos dados sobre desmatamento na Amazônia que precisam ser respondidas pelos meios de comunicação para que a sociedade brasileira compreenda o tema e se posicione de forma cidadã.

Jornalisticamente, a pauta é quente, os dados são atuais e a oportunidade de produzir reportagens sobre o assunto é evidente. E a mídia internacional compreendeu muito bem essa oportunidade de aproximar o mundo da Amazônia. A revista Economist tratou o tema com reportagem de capa , contextualizando a crise política com informações ambientais. Os jornais The New York Times e The Guardian também abordaram o assunto.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.
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