Livros-reportagem: o jornalismo respira em um mundo sem fôlego

Por Reges Schwaab*

A urgente abordagem qualificada das mudanças climáticas não significa pressa. Será necessário encontrar o tempo para a complexidade que o tema requer. Ela começa na compreensão individual que permita visualizar as drásticas alterações globais em curso, já documentadas por cientistas, bandeira de movimentos sociais, tema de filmes e capas de revistas e alvo do negacionismo desprovido de ética.

Já não é possível pensar nosso cotidiano sem o olhar socioambiental. A cobertura guiada por acontecimentos pontuais deve ser suplantada pela realidade implacável da emergência climática, que não escolherá lugar, hora ou fronteira, com verdadeiro potencial de alterar a vida como experimentamos hoje.

Trabalhos com rigor de apuração e abertura interpretativa são valiosas fontes de estudo. E servem a jornalistas e a toda pessoa que queira oxigenar sua compreensão dos múltiplos aspectos das mudanças climáticas.

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Imagem: Reprodução. Livro de Jonathan Safran Foer ainda sem tradução no Brasil

O escritor Jonathan Safran Foer, em “We are the weather”, não adia consequências nem decisões pela ação. As mudanças climáticas são um problema global e individual, mas essas não são hipóteses excludentes, afirma. Oferece um ensaio de grande investimento em pesquisa e forte apelo emocional. Aponta para a necessidade de ações governamentais sistêmicas e de transformação de hábitos de vida, pois o sofrimento causado pela crise do clima será irrestrito.

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 Imagem: Reprodução. David Wallace-Wells já pode ser lido em português

Elogiado por Safran Foer, “A terra inabitável”, do jornalista David Wallace-Wells, desconstrói a fantasia de que as mudanças climáticas têm ritmo lento. Traça um cenário de fome, calor, enchentes, desertificação e crise econômica, com grande capacidade de observação e prospecção. O poderoso embasamento que sustenta o livro faz pensar com assombro nas mudanças que tomarão forma ainda neste século.

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Imagem: Reprodução. Cláudio Angelo mescla reportagem, diário de viagem e relato científico

A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima”, de Claudio Angelo, dialoga com diferentes leitores sem perder o rigor. Uma “leveza” no tom do texto aparece mesmo nos detalhes do derretimento das calotas polares e nas consequências para a agricultura e para as cidades. A força do “repórter na rua”, ou “no mundo”, rende uma mescla de reportagem, diário de viagem e relato científico. As mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade, argumenta.

A literatura produzida sob a rubrica do jornalismo é campo em destaque na crítica especializada e em prêmios nacionais e internacionais. Fontes de qualidade para o debate, mesmo que o colapso seja, inevitavelmente, um componente do nosso futuro.

Para ampliar:
David Wallace-Wells – Desastres em cascata (Revista Piauí)

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Para encontrar as respostas, precisamos fazer as perguntas

Imagem: captura de tela do site The Intercept Brasil
*Ursula Schilling

Para que serve o jornalismo?

Faço essa pergunta, logo de começo, pois pretendo que esse texto verse sobre questionamentos, não somente sobre respostas. É comum esperarmos que o jornalismo nos revele aspectos da vida, pela cobertura de acontecimentos. É possível e previsível que ele faça isso. Mas, considerando seu papel social e seu potencial transformador da realidade, é importante que ele nos leve a pensar, a fazer o exercício reflexivo de entender o que está sob a superfície dos fatos noticiados.

Para ilustrar isso, parecem-me pertinentes duas matérias publicadas pelo The Intercept Brasil na última semana, que problematizam a questão da produção de lixo plástico e seu destino. A agência de notícias norte-americana, que se descreve como combativa e com liberdade editorial, divulgou informações de que a Coca-Cola seria a maior produtora do resíduo no mundoe que, mais do que isso, promoveria o discurso de “marca amiga do meio ambiente” na direção contrária daquilo que pratica. O texto traz dados de relatório internacional que elenca as corporações mais poluidoras do planeta. Tire um tempo para a leitura e veja que há ali, certamente, marcas “queridas” por todos nós e que, certamente, ao menos um item delas temos em casa.

Imagem: Pixabay

O caro leitor, a cara leitora pode estar pensando: mas e as manchas de óleo no Litoral do Nordeste? E as queimadas na Amazônia? Não seriam esse tópicos mais pertinentes para um Observatório de Jornalismo Ambiental?

Definitivamente essas temas, que têm ocupado os noticiários, merecem a devida atenção e uma análise continuada e cuidadosa. Mas eu garanto: o centro da minha reflexão tem relação com tudo isso. Por quê? Porque o que acontece com o ambiente tem causas, tem uma raiz. E são essas causas, a história que a história não conta, como cantou a Mangueira no carnaval 2019, que muitas vezes nem tangenciam a cobertura midiática, que precisam estar no nosso radar e na nossa mira.

Trecho do conteúdo do TIB provoca: “A duvidosa honraria recebida pela Coca-Cola, de figurar por dois anos seguidos como a maior responsável global pela produção de resíduos plásticos, vai de encontro à imagem de liderança ambiental cuidadosamente construída pela empresa”. Aqui está o eixo questionador. As instituições fazem o que realmente dizem fazer?

Não se trata de uma cruzada contra as marcas, de demonizar este ou aquele rótulo, mas de um movimento crítico em relação a todo um sistema produtivo, ancorado numa lógica de consumo muito bem estabelecida e dificil de ser revista.

Trata-se, também, de tirar das costas do consumidor o jugo exclusivo da culpa pelo caos ambiental que aí está. Veja bem, você e eu somos responsáveis por isso (também). Nossos hábitos contribuem, direta ou indiretamente, para a degradação assustadora e quase irreversível da Terra (no caso, a nossa casa). Mas se há consumo, há produção,e é essa instância que precisa ser cada vez mais questionada. É uma equação, com vários envolvidos.

Também não nos iludamos. Sozinho o Jornalismo (compreendidos aqui os jornalistas e sua rotina cada vez mais precarizada de trabalho) não poderá fazer frente à máquina de guerra do capitalismo. É uma luta inglória desafiar o discurso do desenvolvimento e o marketing competente pró-consumo. Um fio de esperança estaria, talvez, no jornalismo independente, uma vez que os veículos de comunciação tradicionais, a indústria da mídia, se mantém a custa dos espaços que vende. Vende para quem? Para quem anuncia. E quem anuncia? E, assim, entramos num looping infinito.

Para onde vai todo o lixo que produzimos? Como funciona, de fato, nossa cadeia produtiva? As empresas, grandes ou pequenas, que usam recursos da natureza e para ela devolvem resíduos, cumprem seus prometidos? E os governos? São comprometidos com a sociedade e o mundo onde ela está e deverá permancer? Ou dançam a dança do capital, protegendo e encobrindo as forças do mercado? Por que as praias do Nordeste brasileiro estão cobertas de petróleo? Por que a Amazônia arde em chamas? Por que os rios morrem? Por que nossas alimentos estão mais envenedados do que nunca? Por quê? Por quê? Por quê?

É um raciocínio simples, quase elementar, percebem? Mas quantos de nós consegue ativar essas interrogações nas atividades do dia a dia, especialmente as relacionadas a consumo (quase todas)?

E voltamos ao princípio: para que serve o jornalismo? Para manter em pauta essas perguntas, enquanto todos nós, não só os jornalistas, precisamos buscar pelas respostas.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O radiojornalismo socioambiental de Paulina Chamorro

Imagem: captura de tela – Episódios 101 ao 123 do podcast Vozes do Planeta estão no serviço de streaming Spotify
Roberto Villar Belmonte*

O podcast Vozes do Planeta, apresentado pela jornalista Paulina Chamorro, chegou em março ao Spotify e está com 23 episódios disponíveis.

Trata-se do primeiro podcast de jornalismo ambiental no formato de entrevista a chegar ao serviço de streaming. O segundo é o Não tem Fora, do jornal Correio do Povo, com apenas um episódio. O podcast mais antigo, o de André Trigueiro, que já tem cem episódios, é um comentário especializado, não segue o formato de entrevista.

O programa de Chamorro não começou no Spotify. Ele já tem 123 edições. Sua estreia foi em maio de 2016 na Rádio Vozes, emissora online criada pela jornalista Patrícia Palumbo, especializada em rádio, música e meio ambiente.

Palumbo foi pioneira na cobertura de temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, na Rádio Eldorado. Chamorro seguiu seus passos e mergulhou fundo na pauta. “O sócio e o ambiental não podem andar separados”, defendeu a apresentadora do programa Vozes do Planeta na sua primeira edição. O jornalista especializado em mudança do clima Claudio Angelo participa do programa desde o início.

Na edição 123, que foi ao ar na terça-feira da semana passada, Paulina Chamorro conversou com a advogada Dani Leite, criadora da plataforma Comida Invisível de conscientização sobre o desperdício de alimentos. Engajada na luta ambiental, Chamorro informa para conscientizar. E deixa claro seu lado, o do ambientalismo.

O jornalismo praticado no podcast Vozes do Planeta cumpre uma função pedagógica que “diz respeito à explicitação das causas e soluções para os problemas ambientais e à indicação de caminhos (que incluem necessariamente a participação dos cidadãos) para a superação dos problemas ambientais” (BUENO, 2008, p.110).

Atenta à participação dos cidadãos, na edição anterior (122) Chamorro ouviu representantes do Movimento Salve Maracaípe e do Instituto Biota da Conservação sobre o óleo que toma conta das praias da Região Nordeste desde o final de agosto. Como jornalista, já percorreu toda costa brasileira. Em março, ajudou a fundar a Liga das Mulheres pelos Oceanos.

Cientistas e ativistas são as vozes de um Brasil engajado na luta ambiental que a jornalista chilena radicada no país entrevista no seu podcast. Na edição 121, que foi ao ar no dia 3 de outubro, por exemplo, Chamorro conversou com Iago Hairon, um dos coordenadores do Engajamundo, e no programa anterior (120) um dos entrevistados foi o glaciologista Jefferson Cardia Simões.

O radiojornalismo socioambiental praticado há mais de duas décadas pela jornalista e ativista Paulina Chamorro procura mobilizar o público por meio de histórias de vida. O formato de entrevista do seu programa possibilita uma pluralidade de vozes nem sempre presente no jornalismo brasileiro. O seu trabalho é um exemplo para os jovens que estão descobrindo a magia do rádio por meio dos podcasts disponibilizados nos serviços de streaming.

Referência:

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo ambiental: explorando além do conceito. In: Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (orgs.). Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. p. 105-118.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo precisa ampliar entendimento sobre a atualidade para garantir pluralidade de vozes

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Imagem: Captura de tela do conteúdo publicado pela BBC Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*

A atualidade é razão de ser, critério imperativo do jornalismo. Trata-se, pois, de uma instituição baseada na cultura do tempo presente, como ressalta o professor Carlos Franciscato (2014). No entanto, à medida em que a circulação das informações se acelera e interconecta diferentes escalas, o tempo presente relatado pelo jornalismo é cada vez mais sorrateiro, escapando entre nossos dedos com tamanha rapidez que já nem mais lembramos o que exatamente nos causou tanta indignação no noticiário da semana passada.

Podemos dizer, por exemplo, que o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, proferido em 24 de setembro, foi rapidamente superado após a leva de checagem de fatos e reações inflamadas nas redes sociais que repercutiram, no máximo, até o final daquela semana. Afinal, era necessário passar à próxima pauta bombástica sobre meio ambiente e política. Em tempos de relações internacionais abaladas pela Amazônia em chamas, o cardápio é farto.

Por isso, fui positivamente surpreendida com conteúdo publicado no site da BBC Brasil em 13 de outubro. Em entrevista realizada por telefone com o cacique kayapó Raoni Metuktire, difamado por Bolsonaro à ocasião do discurso na ONU, o repórter João Fellet teve a oportunidade de retomar pontos que devem ser debatidos à exaustão no atual contexto de caos climático e humanitário.

É papel do jornalismo questionar gestos e políticas coniventes com o genocídio de populações historicamente oprimidas, desde crianças negras alvejadas durante operações policiais nas favelas até povos indígenas que se veem acuados em suas próprias terras por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pela realização de obras de grande impacto socioambiental. Dar a palavra a Raoni garante continuidade à disputa de visões de mundo evidenciada pelo posicionamento do atual governo, disputa que não se esgota nos discursos oficiais ou nas frases de efeitos proferidas em lives nas redes sociais. O debate público está em curso, e deve ser repercutido no jornalismo por meio de uma pluralidade de vozes.

Neste sentido, este movimento não deixa de ser uma recusa ao modus operandi do jornalismo meramente declaratório, que apenas traz a fala literal das autoridades sem repercutir os contrapontos de pessoas e grupos que têm legitimidade para comentar o assunto. É necessário aprendermos que estes demais atores podem, por cultura ou hábito, não seguir o mesmo tempo do jornalismo. E que sua manifestação não é menos importante por conta disto. Cabe ao jornalismo reconfigurar a percepção do tempo presente, ampliando a experiência da atualidade para além do imediato ou simultâneo através de mais detalhamentos, contextualizações e desdobramentos.

Referência:

FRANCISCATO, Carlos. O jornalismo e a reformulação da experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Brazilian Journalism Research, v.11, n.2, p.96-123, 2014.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

Quando o jornalismo vai além dos problemas: um bom exemplo sobre mudanças climáticas

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Imagem: Captura de tela da primeira página da reportagem de Zero Hora sobre mudanças climáticas
* Por Eloisa Beling Loose

A pauta ambiental é, na maioria das vezes, impulsionada por desastres, tragédias e prejuízos. Isso está relacionado não apenas aos acontecimentos mais visíveis ou concretos, que conseguem ser facilmente identificáveis pelos jornalistas na rotina de construir relatos sobre o presente, mas também aos critérios de noticiabilidade, que perpassam aspectos negativos – afinal, “notícias boas são notícias ruins”, pois são elas que prendem a atenção do público e geram desmembramentos (suítes), acarretando mais audiência e, consequentemente, maior faturamento. Inclusive existem estudos que indicam que as notícias com viés negativo são mais facilmente processadas e lembradas, chamando mais a atenção dos seres humanos (WENZEL, GERSON e MORENO, 2016). Contudo, especialmente quando falamos da cobertura da crise climática, não basta focar apenas no problema – que, dessa maneira, pode desencadear inércia ou apatia. Para que haja uma reação, sensibilização e, quiçá, uma mudança de atitude, é preciso que soluções ou boas práticas sejam visibilizadas pela imprensa.

Embora não seja tarefa difícil ampliar a abordagem dos relatos jornalísticos para além dos riscos e efeitos negativos – porque já existem muitas ações de enfrentamento em diferentes escalas -, a fragmentação típica da prática jornalística (especialmente dos veículos com produção em tempo real e diária) reproduz com muita frequência o enfoque unilateral dos problemas. É por isso que destaco, positivamente, a reportagem “O alerta climático ressoa no Sul”, de Itamar Melo, no jornal Zero Hora.

Além de expor a urgência e gravidade das mudanças do clima a partir do Rio Grande do Sul, a escala geográfica mais próxima do seu público-alvo, por meio de exemplos sentidos e acompanhados pelos gaúchos, o texto avança sobre o alarme da situação e dá espaço para apresentar medidas que podem ser feitas em nível individual e as adaptações necessárias no principal setor econômico do estado, o da agropecuária.

Ao tratar das respostas à emergência climática, tomando como gancho a repercussão dos jovens nas greves pelo clima, é possível visualizar uma perspectiva mais orientada para a ação, de um jornalismo que cumpre com a responsabilidade de informar e envolver as comunidades na resolução de seus problemas – diferente daquela cobertura centrada somente na negatividade, que provoca desânimo e desesperança. Ao pontuarmos que o Jornalismo Ambiental deve ser engajado, estamos sublinhando que é preciso construir relatos propositivos, que subsidiem de forma qualificada os cidadãos para suas tomadas de decisão.

Vale ressaltar também a consulta por fontes de informação que conhecem a realidade local, além de outras que contribuem com a contextualização de forma ampla. As mudanças climáticas são um fenômeno interdisciplinar e que se manifesta em múltiplos níveis, e os relatos jornalísticos devem refletir essa complexidade buscando ouvir diferentes vozes e investir na contextualização humanizada, que toque de alguma forma os públicos. É claro que há limites no fazer jornalístico e que nenhuma reportagem dará conta de tudo, entretanto, bons exemplos como esse, publicados frequentemente, contribuem com a formação e percepção ambiental da sociedade. Porque a crise climática, como bem lembra a reportagem, diz respeito, sobretudo, a nossa vida na Terra: “Vamos salvar a nós mesmos. Porque o planeta sobrevive. Se eu eliminar a espécie humana, a Terra volta ao equilíbrio e vive ainda bilhões de anos. E nós, será que conseguimos sobreviver se continuarmos a fazer o que estamos fazendo?” (ZH, Caderno doc, 12 e 13/10/19, p.11).

Referência:

WENZEL, Andrea; GERSON, Daniela; MORENO, Evelyn. Engaging Communities Through Solutions Journalism, 2016.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Análises e críticas sobre o projeto Mina Guaíba merecem integrar um aprofundamento devido pela imprensa 

Imagem – Sistema Online de Licenciamento https://secweb.procergs.com.br/sra/logon.xhtml, para leitura dos documentos vinculados ao processo administrativo 6354.0567/18-1 referente ao projeto Mina Guaíba
Por Eliege Fante*

Finalmente, um respiro: o Ministério Público Estadual (MPE) ingressou na 10ª. Vara da Fazenda Pública com uma Ação Civil Pública (ACP) visando “suspender a emissão de licença ambiental para qualquer empreendimento relacionado ao projeto de instalação do Pólo Carboquímico na Região Metropolitana de Porto Alegre”, inclusive, o projeto Mina Guaíba, da empresa Copelmi. A ação foi na primeira quinzena de setembro, mas divulgada durante audiência pública realizada, em Porto Alegre, no último dia 30.

Desde o protocolo do projeto em novembro de 2018 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento no Estado, vivemos sobressaltados. No entanto, explorar o carvão é uma política de estado; ao menos desde 2003, todos os governos mobilizaram os esforços para a sua concretização: Germano Rigotto (PMDB), Yeda Crusius (PSDB), Tarso Genro (PT), José Ivo Sartori (MDB) e o atual Eduardo Leite (PSDB). Estes governos, seus aliados e apoiadores não viam e continuam não enxergando o sentido em deixar o carvão “parado” ou “lá embaixo”, não obstante sua exploração provoque impactos sociais e ambientais e, também nas economias locais (como a agroecologia, etc.). E, ainda, desencadeie transformações nos ecossistemas.

Sobre o projeto Mina Guaíba, os problemas e os impactos temidos foram farta e exaustivamente enumerados, descritos e desenhados (através de mapas e quadros com dados) em dezenas de documentos produzidos por técnicos ambientais, professores e pesquisadores de universidades, associações, ONGs e demais entidades. Podemos (e deveríamos) ler esses documentos no site da Fepam . É preciso cadastrar-se e clicar sobre os pdfs.

O documento que escolhi foi o trabalho do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS) para mencionar um pouco do que está em jogo neste debate que é de interesse público e das futuras gerações. O referido trabalho é o item “Informação Outra número 175-2019”, onde lemos “Anexo II”. Além da análise do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), o grupo fez entrevistas na região pretendida pela Copelmi para explorar o carvão.

Este trabalho e os demais disponíveis no site da Fepam, merecem uma leitura atenta não só de jornalistas, mas também do público em geral, pois o projeto Mina Guaíba ameaça a qualidade da água, do ar, do solo e a conservação da biodiversidade. O uso da palavra “ameaça” se justifica pela opção da matéria-prima a ser explorada, o carvão, mineral extremamente tóxico e poluente (conferir apresentação do prof. Rualdo Menegat ), e pela inconsistência das informações constantes no projeto da Copelmi, segundo o grupo TEMAS.

Se sabe que o projeto é de 2014, mas os dados não poderiam ter sido atualizados? O TEMAS contou 189 famílias vivendo atualmente entre o loteamento Guaíba City e o Assentamento Apolônio de Carvalho. Os pesquisadores cobram o resultado da contagem nos demais loteamentos, assentamentos e aldeias indígenas. Mas, para a Copelmi, basta saber que em 2014 havia 53 unidades familiares. A área pretendida para exploração afetaria as etnias indígenas Mbyá-Guarani, Kaingang e Charrua. No Rima esta informação foi omitida e, no EIA, a Reserva Indígena Estadual é citada como “acampamento supostamente indígena”, o que significa conforme o TEMAS “negação e violação dos direitos” destas comunidades. Aliás, a imprensa nos deve uma contextualização desta ameaça que paira sobre a população indígena regional, pauta invisibilizada até o momento.

Quanto ao Assentamento Apolônio de Carvalho, o EIA-Rima aborda a atividade agropecuária de forma genérica, omite a produção agroecológica de arroz com expressão nacional e continental, e a produção para o autoconsumo. Porém, aos olhos da Copelmi, Apolônio de Carvalho é um local de pobreza e vulnerabilidade social e o seu veredito àquelas pessoas é um Plano de reassentamento. De fato, a Copelmi desconhece a realidade do Apolônio porque não coletou em 100% os dados sobre as famílias e suas atividades produtivas. A explicação é de que esta etapa poderia vir a ser cumprida na sequência do processo de licenciamento. Mas o TEMAS questiona: como avaliar os efeitos sobre a economia local sem o levantamento adequado dos dados? Qual o tamanho das áreas de cultivo que serão inviabilizadas na região caso o empreendimento seja levado adiante? Quais as consequências dessa inviabilização para a produção agrícola local e para a geração de empregos? Todos nós somos partes interessadas nestas respostas.

O TEMAS aponta contradição nos dados divulgados de potencial de exploração e tempo de produção de carvão previstos pelo projeto da Copelmi: o tempo varia entre 23 e 30 anos e o volume a ser extraído varia de 166 milhões de ton a 186 milhões e 300 mil ton. Nesta condição, perguntamos: quando poderemos saber o número correto do volume de rejeito a ser gerado? O Rima não diz qual a destinação e nem apresenta o plano de uso detalhado dos rejeitos. Sequer os planos de segurança e emergência foram apresentados. “O EIA/Rima negligencia informações imperativas a adequada análise da viabilidade socioeconômica de um empreendimento,” concluem os pesquisadores do TEMAS.

Posso concluir, além de agradecer aos pesquisadores do TEMAS-UFRGS pelas informações prestadas, que há muita informação disponível no site da Fepam para ser reverberada urgentemente pela imprensa e somar na qualificação deste debate público.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

A cobertura sobre meio ambiente entre o desenrolar de tragédias e o bom exemplo localizado

Observatório de JA - fotos

Imagens: Capturas de tela das reportagens citadas

 

Por Michel Misse Filho*

Os grandes veículos de mídia brasileiros têm dado especial enfoque noticioso, nas últimas semanas, a dois temas ambientais: a discussão em torno da floresta amazônica –e o que ela desencadeia em termos de política externa para o Brasil, concomitantemente à realização da Assembleia Geral da ONU – e, mais recentemente e com menos ênfase, o aparecimento de petróleo cru em mais de cem praias do Nordeste.

O primeiro tema, após sucessivas reportagens e a criação de uma crise internacional para o governo, passa agora pela atuação militar nas missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Em meio às empreitadas, reportagem d’O Globo mostra que fiscais do IBAMA acusam o exército de negar apoio às ações de combate aos garimpos ilegais e focar apenas nas de incêndio – ações notadamente de maior visibilidade, afirmam funcionários do órgão ambiental. O descompasso entre as duas instituições ocorreria em função da possibilidade de destruição de equipamentos para mineração ilegal, e é fundamental levarmos em conta a desautorização pública que o governo fez, em abril, da destruição de maquinário em Rondônia – esta semana, o presidente também sustentou que o interesse na Amazônia é na mineração. Já as notícias do crime ambiental que mancha as praias do litoral nordestino passam, agora, pela investigação do rastro de origem da substância, em que a Venezuela desponta como principal suspeito, em matéria da revista Época.

O que as duas matérias têm em comum é a ascensão de um caráter cada vez mais investigativo e menos ambiental, mesmo que essas duas instâncias não sejam contraditórias entre si – muito pelo contrário, se completam. O objetivo aqui não é o de criticar a construção dessas matérias, mas notar uma trajetória aparentemente frequente na pauta ambiental: surge inicialmente com uma tragédia e, como tal, necessita de uma investigação que, ao desenrolar a história, parece ganhar autonomia jornalística frente ao próprio fato ambiental em si.

O jornalismo diário também apresenta abordagens que vão ao extremo oposto das tragédias. Deparei-me quarta-feira (02/10) com a seção “Dias melhores”, da Folha de São Paulo, que noticiou a conquista de um prêmio de sustentabilidade pela cidade sergipana de São Cristóvão, devido à sua política hídrica, com água tratada em quase 100% das casas. A pequena matéria é bonita, importante e inspiradora para outras cidades, mas também se restringe à pequena localidade.

Chama a atenção, ademais, a já conhecida dificuldade de sair da polarização “tragédia” e “bom exemplo localizado”, em que pese a necessidade de trazer complexidade aos fatos noticiados. Comumente perdem-se oportunidades de ir além do factual, podendo abarcar uma visão sistêmica, construtora de um jornalismo ambiental que fosse mais do que simples notícias sobre meio ambiente, como já foi observado e reiterado diversas vezes por pesquisadores deste Observatório.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).