Jornalismo precisa ampliar entendimento sobre a atualidade para garantir pluralidade de vozes

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Imagem: Captura de tela do conteúdo publicado pela BBC Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*

A atualidade é razão de ser, critério imperativo do jornalismo. Trata-se, pois, de uma instituição baseada na cultura do tempo presente, como ressalta o professor Carlos Franciscato (2014). No entanto, à medida em que a circulação das informações se acelera e interconecta diferentes escalas, o tempo presente relatado pelo jornalismo é cada vez mais sorrateiro, escapando entre nossos dedos com tamanha rapidez que já nem mais lembramos o que exatamente nos causou tanta indignação no noticiário da semana passada.

Podemos dizer, por exemplo, que o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, proferido em 24 de setembro, foi rapidamente superado após a leva de checagem de fatos e reações inflamadas nas redes sociais que repercutiram, no máximo, até o final daquela semana. Afinal, era necessário passar à próxima pauta bombástica sobre meio ambiente e política. Em tempos de relações internacionais abaladas pela Amazônia em chamas, o cardápio é farto.

Por isso, fui positivamente surpreendida com conteúdo publicado no site da BBC Brasil em 13 de outubro. Em entrevista realizada por telefone com o cacique kayapó Raoni Metuktire, difamado por Bolsonaro à ocasião do discurso na ONU, o repórter João Fellet teve a oportunidade de retomar pontos que devem ser debatidos à exaustão no atual contexto de caos climático e humanitário.

É papel do jornalismo questionar gestos e políticas coniventes com o genocídio de populações historicamente oprimidas, desde crianças negras alvejadas durante operações policiais nas favelas até povos indígenas que se veem acuados em suas próprias terras por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pela realização de obras de grande impacto socioambiental. Dar a palavra a Raoni garante continuidade à disputa de visões de mundo evidenciada pelo posicionamento do atual governo, disputa que não se esgota nos discursos oficiais ou nas frases de efeitos proferidas em lives nas redes sociais. O debate público está em curso, e deve ser repercutido no jornalismo por meio de uma pluralidade de vozes.

Neste sentido, este movimento não deixa de ser uma recusa ao modus operandi do jornalismo meramente declaratório, que apenas traz a fala literal das autoridades sem repercutir os contrapontos de pessoas e grupos que têm legitimidade para comentar o assunto. É necessário aprendermos que estes demais atores podem, por cultura ou hábito, não seguir o mesmo tempo do jornalismo. E que sua manifestação não é menos importante por conta disto. Cabe ao jornalismo reconfigurar a percepção do tempo presente, ampliando a experiência da atualidade para além do imediato ou simultâneo através de mais detalhamentos, contextualizações e desdobramentos.

Referência:

FRANCISCATO, Carlos. O jornalismo e a reformulação da experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Brazilian Journalism Research, v.11, n.2, p.96-123, 2014.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

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