Microplástico nos oceanos e a necessidade jornalística de ir além da tradução de artigos científicos

Foto GPJA

Imagem: Captura de tela de matéria da BBC News
Michel Misse Filho*

Não raro observamos, nos noticiários televisivo, digital e impresso, reportagens que atentam para o problema das quantidades crescentes e absurdas de plásticos nos oceanos. Foram diversas matérias nos últimos anos, construídas com um especial enfoque, por exemplo, nas ilhas de plástico do Oceano Pacífico (somadas, compreendem uma área maior do que a de países como a França), bem como nas terríveis fotos de tartarugas, peixes e baleias envoltas em sacolas ou garrafas de refrigerante.

Muito além das fotografias espetaculares das ilhas de resíduos, a problemática do microplástico tem se mostrado notadamente importante, transpassando o sistema digestivo de inúmeros seres que habitam os oceanos – e que também chegam à nossa mesa de jantar, finalmente. Uma matéria publicada este mês pela BBC News , em seu site, é um bom exemplo para tratarmos do assunto em correlação com a divulgação científica na mídia.

Intitulada “Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes”, a notícia revela um estudo inédito, que aponta para o aparecimento de fragmentos de plásticos nos locais ricos em plâncton, como em certos “corredores” na superfície do mar onde se concentram materiais orgânicos, propiciando uma zona de maior concentração de alimentos para as larvas. Apesar de pesquisadores já desconfiarem do fato, cientificamente só se tinha a confirmação da ingestão da substância plástica em peixes adultos e, portanto, cientistas se alarmam com as consequências da ingestão dessas toxinas no estágio mais vulnerável do desenvolvimento das espécies. Em vez de tartarugas com grandes sacolas, emerge a figura dos fragmentos plásticos, menores que cinco milímetros e originados por decomposição dos plásticos maiores, agora sabidamente ingeridos desde o início da cadeia alimentar, com consequências ainda não desveladas pelos estudiosos.

A análise da matéria é uma boa oportunidade em confluir divulgação científica e a pauta do microplástico em corpos hídricos, cada vez mais recorrente. Sob o ponto de vista da ciência, a matéria cumpre o seu papel de informar, com clareza, as descobertas do estudo, traduzindo-as para um público não especializado, como deve ser de praxe na atividade jornalística. O problema, contudo, é a dificuldade em se utilizar de um gancho como esse (a própria publicação do estudo) para que se possa descortinar uma série de relações – causais ou não, contingentes ou não – que tenham a ver com o assunto mencionado. Limitar a divulgação científica na mídia à simples tradução de um artigo científico em linguagem jornalística não parece ser proveitoso nem à percepção da ciência pela sociedade, e nem ao jornalismo que, empobrecido e com redações cada vez mais enxutas, se mantém distante da rua e do olhar in loco. No caso do jornalismo ambiental, em que a divulgação científica faz parte da própria gênese de criação do campo, realçar o intercâmbio entre academia e sociedade parece ainda mais importante para que a pauta ambiental possa adquirir um olhar mais sistêmico e complexo da questão.

Sendo a próxima década (2021-2030) definida pela ONU como a “Década para a Oceanografia”, é fundamental abordar o assunto além das imagens chocantes das grandes montanhas de lixo, mas também para temas não visíveis à olho nu, mas que crescem de forma avassaladora, como a questão dos microplásticos, da acidificação dos oceanos, e da importância dos oceanos contra as mudanças climáticas. Mais do que isso, cabe também ao jornalismo ampliar o seu leque de olhares e, portanto, de perguntas: quem sabe, assim sejam ensaiadas novas respostas.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

O jornalismo que subestima acidentes nucleares nos coloca em perigo

Imagem – Captura de tela do site da BBC Brasil.
*Por Eutalita Bezerra

No último dia 21, a BBC News Mundo divulgou, com alarde uma descoberta publicada em artigo científico por pesquisadores do Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha, segundo o qual a principal causa de mortes após o acidente nuclear de Fukushima, ocorrido no Japão em 2011, não foi a radiação, mas o frio.

Se você, leitor, ainda não entendeu exatamente, é preciso saber que a informação principal também não chega tão rapidamente na publicação original. Dividido em quatro subtópicos, somente no penúltimo deles a notícia começa a esclarecer a relação entre o acidente e as mortes por frio. E, ainda assim, nos deixa com mais questões que respostas. Um desserviço?

Além de não informar em que periódico o estudo foi publicado ou como ele foi metodologicamente construído, embora admita que quase 30% da população japonesa foi avaliada, o texto afirma que, com a redução na produção de energia nuclear no Japão pós-tsunami e acidente de Fukushima, o preço da eletricidade subiu até 38% em algumas regiões do país e conectam esse aumento à redução no consumo de eletricidade para aquecimento da população. Tal mudança de comportamento, no inverno rigoroso, diz o artigo, levou a mais de 1280 mortes, ante cerca de 130 causadas diretamente pela radiação, conforme estudos citados pelos pesquisadores ouvidos por BBC News, e outras 1232 pela evacuação após o acidente.

Neste momento, já nos caberia fazer uma soma simples: 1552 mortes causadas diretamente pelo acidente são subestimadas pela reportagem – ou pelo estudo? – ao trazer já em seu título a pomposa informação de que “ A surpreendente causa de centenas de mortes após acidente nuclear de Fukushima – não é a radiação”.

Não há dúvidas de que, caso se trate de um estudo consistente, sua publicação é válida . A divulgação científica não somente é desejada como é necessária para a vida social. O que não podemos, seja no papel de divulgadores de ciência ou de jornalistas ambientais (ou não) é diminuir o impacto de um acidente nuclear, como foi o de Fukushima, que só perdeu em extensão para o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Para que a publicação fosse realmente informativa, com um olhar complexo sobre o assunto e que permitisse aos seus leitores um conhecimento substancial sobre o tema, além de apresentar o estudo seria necessário, também, informar sobre os problemas derivados de um acidente ambiental de tamanha magnitude. Não são “somente” 130 mortes pela radiação e 1232 pela desocupação. Trata-se da contaminação de toda uma região pela dispersão de toneladas de material radioativo, seja na terra no ar ou na água.

Pouco tempo após o acidente, mais precisamente em 2012, o Jornal espanhol Diagonal divulgou informações sobre o estado atual de Fukushima. A reportagem foi traduzida e publicada pela Revista IHU, que, dentre outras informações, destaca que naquele momento, passados 26 anos do acontecido em Chernobyl, que no mundo ainda existia metade da radiação que havia sido despejada no momento daquele acidente, somado, na ocasião, a todo o restante despejado por Fukushima nos oceanos. Como informações como esta, que demonstram que a extensão do dano é mundial e é possível admitir que milhões de outros organismos estão sendo afetados e seguirão sendo ao longo de milhares de anos – “o plutônio 239 tem uma vida média de cerca de 24.000 anos e com o tempo se transforma em amerício 241, outro elemento radioativo que pode ser incorporado ao organismo humano (IHU, 2012)” – subestimar a repercussão direta de um acidente nuclear é um perigo que BBC News e diversas outras mídias que publicaram este estudo sem um trabalho aprofundado (Uol e Globo.com apenas republicaram a reportagem da BBC, por exemplo) não se preocuparam em correr. Mas, acreditamos e defendemos!, deveriam.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Abordagens transversais em pautas sobre a Amazônia evidenciam a resistência do jornalismo

*Débora Gallas Steigleder

Na quarta-feira passada, 13 de novembro, assisti ao evento Conexões Amazônicas, promovido por integrantes de diversos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que têm a Amazônia como interesse de pesquisa. Na ocasião, Ilza Girardi, Eloisa Loose e Jamille Almeida representaram o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e incentivaram os participantes a refletirem sobre a importância da construção de pontes entre o conhecimento científico e os saberes das comunidades tradicionais. Também destacaram a necessidade de, na atual conjuntura de desinformação, em que há circulação de informações imprecisas ou deliberadamente enganosas, contarmos permanentemente com produções midiáticas qualificadas para além de editorias específicas, que assumam o princípio da precaução frente aos conflitos e riscos ambientais.

Muito já falamos neste Observatório, antes e depois de as queimadas criminosas na floresta amazônica dominarem o noticiário, sobre o dever do jornalismo de abordar a crise ambiental como sistêmica, na qual se conectariam as escalas global e local. A mais recente reportagem de Eliane Brum, publicada em El País em oito de novembro, é um ótimo exemplo para pensarmos a contextualização da pauta frente a este cenário. Erro de projeto coloca estrutura de Belo Monte em risco transcende escalas ao tensionar passado e futuro: ao apontar equívocos estruturais desconsiderados pelo consórcio na construção de reservatório da usina hidrelétrica, Eliane destaca que a crise climática vai piorar a situação, pois a vazão do rio Xingu já é diretamente influenciada pela derrubada da mata para a expansão do cultivo de soja na região de Volta Grande do Xingu.

A reportagem é motivada pela seguinte questão elaborada pela jornalista: “como é possível que o projeto da maior hidrelétrica da Amazônia e uma das maiores do mundo não tenha contemplado o comportamento medido e documentado do rio Xingu?”. A transversalidade da pauta fica evidente quando as fontes consultadas remetem às relações políticas e econômicas que levaram à realização do projeto de Belo Monte e às consequências do empreendimento em dimensões diversas, desde a saúde de ribeirinhos e indígenas até a dinâmica de todo um ecossistema. Além disso, a busca de conexões com outras tragédias, como o rompimento de barragens de rejeitos de mineração em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, localiza a discussão temporalmente, pois estamos falando de projetos que materializam a ideologia capitalista vigente, do desenvolvimento a qualquer custo.

Eliane Brum mostra, portanto, que a busca por novas formas de contar histórias na Internet não precisa se afastar dos elementos que compõem uma boa reportagem ambiental em qualquer mídia: abordagem aprofundada, diversidade de saberes e preocupação com as condições de existência no planeta.

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Jornada indígena: no foco da imprensa internacional, esquecida pela mídia brasileira

Imagem – Lideranças indígenas visitam 12 países da Europa. Foto Mídia Ninja.
Por Patrícia Kolling*

Desde o dia 25 de outubro, lideranças indígenas das cinco regiões brasileiras, estão percorrendo 12 países europeus na Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Em uma agenda lotada, estão reunindo-se com parlamentares, ministros, representantes de comissões internacionais, ativistas, acadêmicos, Organizações Não Governamentais (ONGs) e participando de mobilizações, debates, painéis e programas de comunicação. A Jornada, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), tem o intuito de denunciar as violações dos direitos dos povos indígenas e a destruição do meio ambiente, pelo governo atual.

A presença dos indígenas na Europa e a situação ambiental do Brasil tem sido tema de diversas reportagens na mídia em todos os países pelos quais a comitiva passou. O assunto, porém, não tem sido de muito interesse para a grande mídia brasileira.

Como, então, ficamos sabendo aqui no Brasil das atividades desta Jornada? Ficamos sabendo, porque paralelamente às atividades políticas, acontece um trabalho de assessoria de comunicação de divulgação das ações dos movimentos sociais indígenas e ambientais. Comunicação essa, que oportuniza, através das mídias sociais, a informação direta da sociedade. Junto com as lideranças que percorrem a Europa, estão indígenas comunicadores que cuidam da transmissão das informações sobre a Jornada. Em parceria com uma equipe colaborativa no Brasil e em diversos outros países, o grupo produz todos os dias releases que são encaminhados a grupos de whatsapp, veiculados nas mídias sociais e enviados a imprensa. No início de cada dia é divulgada a agenda dos eventos e no final do dia, em vídeo, um dos indígenas da comitiva faz um diário de bordo , relatando o que foi feito naquele dia e avaliando as atividades. Paralelamente, é produzido o clipping de tudo que é publicado sobre o assunto nos meios de comunicação, além de muitas fotografias e registros audiovisuais.

Felizmente, atualmente as novas tecnologias oportunizam essa outra comunicação e a transmissão de informações com uma perspectiva diferenciada da mídia hegemônica, dominada pelo poder econômico e político. Mártin-Barbero nos alerta que as tecnologias não são neutras e por isso mesmo “constitutivas dos novos modos de construir a opinião pública e das novas formas de cidadania, isto é, das novas condições em que se diz e se faz a política”. (2006, p.70)

Ou seja, temos na comunicação, que se viabiliza através das tecnologias digitais (vídeos, mídias sociais, internet) “um processo que por sua vez, introduz uma verdadeira explosão do discurso público, ao mobilizar a mais heterogênea quantidade de comunidades, associações, tribos, que ao mesmo tempo que liberam as narrativas do político, desde as múltiplas lógicas dos mundos de vida, despotencializam o centralismo burocrático da maioria das instituições, potencializando a criatividade social no desenho da participação cidadã.” (Mártin-Barbero, 2006, p. 70).

Frente a esta participação cidadã, parece que falta ao jornalismo brasileiro reconhecer as mídias e a comunicação realizada pelos movimentos sociais como legítimas, oportunizando espaços para a difusão da multiplicidade de informações, de culturas, de fatos, conhecimentos e pontos de vista.

Na semana passada, porém, dois fatos, com os critérios de noticiabilidade de atualidade, conflito e economia fizeram o tema entrar na pauta. A morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava um grupo de guardiões da Floresta, assassinado por madeireiros, e a presença da comitiva da Jornada na Bélgica solicitando a União Europeia a não ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, foram ganchos para que a Jornada fosse sutilmente citada na mídia brasileira.

Essa breve explanação, é na intenção de nos fazer refletir porque com tantas informações sendo produzidas sobre a sobrevivência ambiental do nosso país e dos nossos povos; a mídia insiste em fechar os olhos e não contextualizar a temática como poderia? Porque as questões ambientais, tão importantes para o futuro da humanidade, precisam pegar “carona” em assuntos de impactos factuais, de violência ou econômicos para serem abordadas na mídia?

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Tecnicidade, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis (Org.) Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

Jornalismo Ambiental e a Justiça em favor dos direitos do cidadão

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios todos os dias, para aliar os ideais de um jornalismo sistêmico comprometido e centrado na visão holística dos fatos com a cultura vigente de construção das notícias. Mas em tempos sombrios, uma liminar do judiciário pode contribuir para que temas extremamente relevantes, como a proposta de um novo Código Ambiental do Rio Grande do Sul, ressurja na imprensa e, ao mesmo tempo, permita que a população e os deputados ganhem tempo para tomar conhecimento e façam um debate sobre o tema.

A liminar que suspendeu o regime de urgência da tramitação da proposta do Novo Código chamou a atenção da imprensa e da sociedade desde que foi protocolada pelo governador atual, em 27 de setembro. Já na época da solicitação do governo, o fato foi noticiado, e muitos deputados já se posicionaram, afirmando que o prazo para a análise da proposta era muito curto, o que impossibilitava a apreciação do conteúdo e a reflexão sobre o tema. A pressa do governo, segundo a matéria publicada no G1 , deve-se, entre outras coisas, ao objetivo de “desburocratizar o processo para quem quer empreender sem descuidar do meio ambiente”.

A modificação em uma legislação é um processo que requer tempo de análise, em função da complexidade e da importância para todos os cidadãos. Justamente por isso, deveria ter sido colocada em discussão pública, caso os legisladores quisessem saber a opinião da população.

As leis e as questões que afetam os cidadãos também devem ser informadas e as empresas jornalísticas do Rio Grande do Sul e do Brasil – no caso o G1, como exemplifica a matéria aqui referida – tem conseguido abrir espaços para temas ambientais, com o auxílio do judiciário, apesar dos muitos desafios (MASSIERER, 2007) que o Jornalismo Ambiental ainda tem pela frente em razão da lógica capitalista de produção, das rotinas intensas e da diminuição das jornalistas nas redações.

No entanto, mesmo com a cobertura dada desde o protocolo da proposta em 27 de setembro – o que sinaliza o comprometimento com o tema e com a qualificação da informação – existem outros pressupostos do Jornalismo Ambiental que desafiam os jornalistas diariamente (LOOSE e GIRARDI, 2017) e que passam pela ênfase na contextualização, pluralidade de vozes, assimilação do saber ambiental, cobertura próxima à realidade do leitor, responsabilidade com a mudança de pensamento e incorporação do princípio da precaução.

MASSIERER, Carine. O olhar jornalístico sobre o meio ambiente um estudo das rotinas de produção nos jornais Zero Hora e Correio do Povo. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Informação) -Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2007.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos.Interin,,Curitiba. V.22, n.2, p.154-172, jul./dez. 2017.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)