Jornada indígena: no foco da imprensa internacional, esquecida pela mídia brasileira

Imagem – Lideranças indígenas visitam 12 países da Europa. Foto Mídia Ninja.
Por Patrícia Kolling*

Desde o dia 25 de outubro, lideranças indígenas das cinco regiões brasileiras, estão percorrendo 12 países europeus na Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Em uma agenda lotada, estão reunindo-se com parlamentares, ministros, representantes de comissões internacionais, ativistas, acadêmicos, Organizações Não Governamentais (ONGs) e participando de mobilizações, debates, painéis e programas de comunicação. A Jornada, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), tem o intuito de denunciar as violações dos direitos dos povos indígenas e a destruição do meio ambiente, pelo governo atual.

A presença dos indígenas na Europa e a situação ambiental do Brasil tem sido tema de diversas reportagens na mídia em todos os países pelos quais a comitiva passou. O assunto, porém, não tem sido de muito interesse para a grande mídia brasileira.

Como, então, ficamos sabendo aqui no Brasil das atividades desta Jornada? Ficamos sabendo, porque paralelamente às atividades políticas, acontece um trabalho de assessoria de comunicação de divulgação das ações dos movimentos sociais indígenas e ambientais. Comunicação essa, que oportuniza, através das mídias sociais, a informação direta da sociedade. Junto com as lideranças que percorrem a Europa, estão indígenas comunicadores que cuidam da transmissão das informações sobre a Jornada. Em parceria com uma equipe colaborativa no Brasil e em diversos outros países, o grupo produz todos os dias releases que são encaminhados a grupos de whatsapp, veiculados nas mídias sociais e enviados a imprensa. No início de cada dia é divulgada a agenda dos eventos e no final do dia, em vídeo, um dos indígenas da comitiva faz um diário de bordo , relatando o que foi feito naquele dia e avaliando as atividades. Paralelamente, é produzido o clipping de tudo que é publicado sobre o assunto nos meios de comunicação, além de muitas fotografias e registros audiovisuais.

Felizmente, atualmente as novas tecnologias oportunizam essa outra comunicação e a transmissão de informações com uma perspectiva diferenciada da mídia hegemônica, dominada pelo poder econômico e político. Mártin-Barbero nos alerta que as tecnologias não são neutras e por isso mesmo “constitutivas dos novos modos de construir a opinião pública e das novas formas de cidadania, isto é, das novas condições em que se diz e se faz a política”. (2006, p.70)

Ou seja, temos na comunicação, que se viabiliza através das tecnologias digitais (vídeos, mídias sociais, internet) “um processo que por sua vez, introduz uma verdadeira explosão do discurso público, ao mobilizar a mais heterogênea quantidade de comunidades, associações, tribos, que ao mesmo tempo que liberam as narrativas do político, desde as múltiplas lógicas dos mundos de vida, despotencializam o centralismo burocrático da maioria das instituições, potencializando a criatividade social no desenho da participação cidadã.” (Mártin-Barbero, 2006, p. 70).

Frente a esta participação cidadã, parece que falta ao jornalismo brasileiro reconhecer as mídias e a comunicação realizada pelos movimentos sociais como legítimas, oportunizando espaços para a difusão da multiplicidade de informações, de culturas, de fatos, conhecimentos e pontos de vista.

Na semana passada, porém, dois fatos, com os critérios de noticiabilidade de atualidade, conflito e economia fizeram o tema entrar na pauta. A morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava um grupo de guardiões da Floresta, assassinado por madeireiros, e a presença da comitiva da Jornada na Bélgica solicitando a União Europeia a não ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, foram ganchos para que a Jornada fosse sutilmente citada na mídia brasileira.

Essa breve explanação, é na intenção de nos fazer refletir porque com tantas informações sendo produzidas sobre a sobrevivência ambiental do nosso país e dos nossos povos; a mídia insiste em fechar os olhos e não contextualizar a temática como poderia? Porque as questões ambientais, tão importantes para o futuro da humanidade, precisam pegar “carona” em assuntos de impactos factuais, de violência ou econômicos para serem abordadas na mídia?

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Tecnicidade, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis (Org.) Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

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