O jornalismo que subestima acidentes nucleares nos coloca em perigo

Imagem – Captura de tela do site da BBC Brasil.
*Por Eutalita Bezerra

No último dia 21, a BBC News Mundo divulgou, com alarde uma descoberta publicada em artigo científico por pesquisadores do Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha, segundo o qual a principal causa de mortes após o acidente nuclear de Fukushima, ocorrido no Japão em 2011, não foi a radiação, mas o frio.

Se você, leitor, ainda não entendeu exatamente, é preciso saber que a informação principal também não chega tão rapidamente na publicação original. Dividido em quatro subtópicos, somente no penúltimo deles a notícia começa a esclarecer a relação entre o acidente e as mortes por frio. E, ainda assim, nos deixa com mais questões que respostas. Um desserviço?

Além de não informar em que periódico o estudo foi publicado ou como ele foi metodologicamente construído, embora admita que quase 30% da população japonesa foi avaliada, o texto afirma que, com a redução na produção de energia nuclear no Japão pós-tsunami e acidente de Fukushima, o preço da eletricidade subiu até 38% em algumas regiões do país e conectam esse aumento à redução no consumo de eletricidade para aquecimento da população. Tal mudança de comportamento, no inverno rigoroso, diz o artigo, levou a mais de 1280 mortes, ante cerca de 130 causadas diretamente pela radiação, conforme estudos citados pelos pesquisadores ouvidos por BBC News, e outras 1232 pela evacuação após o acidente.

Neste momento, já nos caberia fazer uma soma simples: 1552 mortes causadas diretamente pelo acidente são subestimadas pela reportagem – ou pelo estudo? – ao trazer já em seu título a pomposa informação de que “ A surpreendente causa de centenas de mortes após acidente nuclear de Fukushima – não é a radiação”.

Não há dúvidas de que, caso se trate de um estudo consistente, sua publicação é válida . A divulgação científica não somente é desejada como é necessária para a vida social. O que não podemos, seja no papel de divulgadores de ciência ou de jornalistas ambientais (ou não) é diminuir o impacto de um acidente nuclear, como foi o de Fukushima, que só perdeu em extensão para o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Para que a publicação fosse realmente informativa, com um olhar complexo sobre o assunto e que permitisse aos seus leitores um conhecimento substancial sobre o tema, além de apresentar o estudo seria necessário, também, informar sobre os problemas derivados de um acidente ambiental de tamanha magnitude. Não são “somente” 130 mortes pela radiação e 1232 pela desocupação. Trata-se da contaminação de toda uma região pela dispersão de toneladas de material radioativo, seja na terra no ar ou na água.

Pouco tempo após o acidente, mais precisamente em 2012, o Jornal espanhol Diagonal divulgou informações sobre o estado atual de Fukushima. A reportagem foi traduzida e publicada pela Revista IHU, que, dentre outras informações, destaca que naquele momento, passados 26 anos do acontecido em Chernobyl, que no mundo ainda existia metade da radiação que havia sido despejada no momento daquele acidente, somado, na ocasião, a todo o restante despejado por Fukushima nos oceanos. Como informações como esta, que demonstram que a extensão do dano é mundial e é possível admitir que milhões de outros organismos estão sendo afetados e seguirão sendo ao longo de milhares de anos – “o plutônio 239 tem uma vida média de cerca de 24.000 anos e com o tempo se transforma em amerício 241, outro elemento radioativo que pode ser incorporado ao organismo humano (IHU, 2012)” – subestimar a repercussão direta de um acidente nuclear é um perigo que BBC News e diversas outras mídias que publicaram este estudo sem um trabalho aprofundado (Uol e Globo.com apenas republicaram a reportagem da BBC, por exemplo) não se preocuparam em correr. Mas, acreditamos e defendemos!, deveriam.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).