Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

Imagem: Captura de tela do site G1 Brasil
*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Imagem: Captura de tela do site Veja

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As narrativas restaurativas do podcast Mamilos

Imagem: captura de tela – Juliana Wallauer e Cris Bartis praticam um jornalismo de peito aberto no podcast Mamilos
Roberto Villar Belmonte*

O Pulitzer, principal prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, anunciou, dia 5 de dezembro, uma nova categoria: reportagem em áudio. “O renascimento do jornalismo em áudio nos últimos anos deu origem a uma extraordinária variedade de histórias de não ficção”, reconheceu Dana Canedy, administradora da premiação. Em parte isso ocorre em função do sucesso de público dos podcasts, fenômeno também observado no Brasil. Por aqui, um dos programas semanais de maior audiência é o Mamilos, produzido e apresentado por Juliana Wallauer e Cris Bartis desde 2014.

A proposta das duas é colocar semanalmente no ar o que elas chamam de narrativas restaurativas, uma espécie de jornalismo de paz para compreender temas polêmicos da atualidade. “Estamos mais preocupadas em criar pontes do que provar pontos”, afirmou Cris Bartis em um TEDx Talks em junho. Suas fontes sempre têm algo interessante pra dizer, mas também são pessoas interessadas em ouvir. “A gente conversa pra conectar, para mostrar nossa humanidade, pra mostrar que tem gente envolvida”, disse a apresentadora.

O episódio 229, Alter do Chão: paraíso em disputa , que foi ao ar dia 9 de dezembro, trouxe uma novidade ao programa. As duas apresentadoras estiveram no interior do Pará colocando em prática uma técnica de reportagem fundamental e que vem sendo destacada com frequência nesse observatório: a imersão. Por coincidência, elas foram convidadas por um dos brigadistas presos em novembro pela Polícia Civil local.

O convite foi feito após o programa “Povos Indígenas: de onde viemos e para onde vamos“, que foi ao ar em agosto desse ano com Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, e Adriana Ramos, especialista em políticas socioambientais e associada do Instituto Socioambiental (ISA).

Mamilos não é um podcast de jornalismo ambiental. Mas o jornalismo de peito aberto realizado nesse programa permite uma abordagem em profundidade dos temas. As narrativas restaurativas não apenas ajudam a construir pontes, mas também ampliam a compreensão do público acerca de temas polêmicos que exigem diferentes pontos de vista para serem tratados. No contexto brasileiro, não é pouca coisa: “Nossa busca, com curiosidade e humildade, é desenvolver um jornalismo construtivo, de soluções, não violento”.

O podcast Mamilos não reproduz notícias em excesso, característica presente em muitos podcasts jornalísticos, que acaba truncando a narrativa, ao invés de ajudar. A edição de áudio é muito bem feita, o que permite um mergulho na conversa das duas apresentadoras. O episódio Alter do chão: Paraíso em Disputa tem quase duas horas, mas a conversa flui de uma maneira agradável.

A observação de ambas, baseada em entrevistas em off para preservar as fontes que vivem na região conflagrada, e as conversas gravadas com os convidados permitem um reflexão profunda sobre a região: “Nessa jornada nos envolvemos em conversas que nos fizeram refletir sobre o direito à terra, a forma como ela é distribuída, como a especulação imobiliária age e afeta as comunidades, como um apanhado de pessoas de diferentes lugares do mundo, com diferentes sonhos e interesses podem formar uma comunidade. Essa expedição contou com muitos convidados. Só é possível pra entender o lugar vivendo o lugar e falando com as pessoas de lá. Muitas conversas foram feitas com gravador e sem gravador”.

Mamilos em estúdio já era um programa diferenciado, pela abordagem em profundidade. Esse episódio sobre Alter do Chão, que resultou de uma jornada no interior do Pará, reafirma a importância da observação, da reportagem, da proximidade com o acontecimento. As apresentadoras não têm uma formação jornalística clássica, não passaram pelas grandes redações do país, mas com essa proposta de narrativa restaurativa produzem um programa jornalístico fora da curva.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Relatos jornalísticos sobre a COP-25: a discussão extravasou o evento

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Imagem: Reprodução Envolverde – Carta Capital. Entrega da carta climática de povos indígenas das Américas, Caribe e Antilhas na COP-25
* Eloisa Beling Loose

Muito antes da COP-25 começar, em 2018, ela já era assunto no Brasil. Falava-se em sair do Acordo de Paris, em proteger as riquezas naturais brasileiras dos interesses estrangeiros, colocava-se em suspeição a realidade das mudanças climáticas. Por fim, em novembro daquele ano houve o cancelamento da realização da COP em solo brasileiro.

Mesmo com a retirada da candidatura para sediar a COP-25, a agenda climática no país se fez muito presente em 2019, especialmente devido ao aumento das queimadas na Amazônia, amplamente noticiado pela imprensa nacional e internacional desde agosto, e que não pode ser isolado da crise climática. O desmonte de políticas públicas ambientais brasileiras e as manifestações já sentidas na pele em diferentes lugares fomentam o debate midiático e político de forma constante. Se no começo o receio apontado era que o Brasil perdesse o protagonismo internacional na discussão das mudanças climáticas – e com isso perderia também oportunidades de investimentos e negócios -, o fim do evento revelou que o país conseguiu ir além, sendo considerado “parte do problema” por negociadores que tentam avançar no enfrentamento do clima.

A BBC já noticiava em dia 11 de dezembro que Países em desenvolvimento acusam Brasil de tentar bloquear avanço em negociações do clima e, no fim da conferência, no domingo, dia 15,  a mais longa das cúpulas do clima realizadas pela ONU, manifestou mais sinais da postura contrária do governo: “O responsável pelo último dos impasses foi o Brasil, que não aceitava inicialmente dois parágrafos incluídos no acordo que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global”, expõe o texto Após atrasos e impasses, países aprovam texto final da COP25, publicado no portal R7. A proposta de fazer algo ambicioso já (o slogan da COP-25 é “Time for Action”) foi frustrada pela priorização dos interesses econômicos nacionais, baseados em combustíveis fósseis e em uma lógica de mercado calcada na exploração da natureza.

O papel do governo brasileiro já havia sido relatado pela imprensa e também criticado. O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou claro que o “Esforço do Brasil é para conseguir recursos”, mesmo quando a finalidade da COP é outra. Muitos veículos, como G1, Uol, IG, Carta Capital e Veja, mostraram como o Brasil estava sendo malvisto quando divulgaram as anti-premiações do “Fóssil do Dia” e do “Fóssil do Ano”, reconhecimento da Rede Internacional de Ação Climática (CAN) aos países que tiveram a pior atuação na área.

O jornalista André Trigueiro, em podcast sobre a COP-25, nomeou de desastrosa a participação brasileira na Conferência, alertando para a gravidade do contexto. Também Amelia Gonzalez, em blog no G1, discute as regras feitas em torno dos mercados que buscam lucro sem considerar as pessoas, trazendo o exemplo de Belo Monte, que “ajuda que o Brasil mantenha uma boa imagem em Conferências sobre o Clima, como gerador de energia ‘limpa’, mesmo sendo um dos mais poluidores do mundo”. Em notícia do Nexo Jornal, o único aspecto positivo ressaltado recai sobre a participação da sociedade civil e outros setores e atores que buscam acordos pró-clima de forma direta, desvinculando-se do governo federal.

É importante recordar que a mudança de sede do Brasil para o Chile e depois para Madri há pouco mais de um mês da data do evento prejudicou a participação e articulação da sociedade civil, especialmente da América Latina, que contava com a oportunidade para pressionar os líderes de Estado. A colunista do El País, Eliane Brum, escreveu sobre a perda de uma oportunidade histórica, mas motivada por interesses que permitam a manutenção do status quo: “Os negociadores não querem sujar as mãos com as ruas da América Latina em diferentes tipos de convulsão. Preferem manter as negociações intermináveis em ambiente climatizado. A ironia aqui não é opcional. Querem mesmo controlar o clima do debate e não ser pressionado por aqueles que sofrem a falta de políticas públicas para enfrentamento do maior desafio da trajetória humana”. Ao promover o encontro na Europa, economicamente inviável para a participação da maioria dos impactados, pode-se pensar mais em como lucrar com os mercados de carbono e arquitetar caminhos para fazer mudanças mais brandas.

Apesar de as fontes oficiais ainda serem as mais procuradas e os discursos econômicos e políticos serem constantes nos relatos jornalísticos, percebe-se que a própria urgência de uma virada mobiliza outros atores, que passam também a ter espaços nas notícias (antes, durante e depois das COPs). Se na análise realizada a partir da cobertura de revistas brasileiras das COPs 15 e 16 identificou-se dificuldade dos veículos na construção de discursos próximos à sustentabilidade real, a perda de liderança do governo atual proporcionou que as vozes afetadas estivessem mais presentes nas matérias, como foi o caso da ativista adolescente Greta Thunberg, eleita a “Personalidade do Ano de 2019” pela revista Times e que chama a atenção para os mais vulneráveis aos riscos climáticos, e, em menor escala, da quilombola Luceli Morais Pio e da liderança indígena Sônia Guajajara.

Se houve um tempo em que a questão climática só era pautada de forma pontual, a partir da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e das próprias COPs, percebe-se que está ocorrendo, gradualmente, uma extrapolação do assunto, que está conectado com aspectos políticos, econômicos, culturais, de saúde, de segurança… Tal transversalização do tema contribui para manter a atenção pública sobre o colapso e, quiçá, sensibilização para seu enfrentamento.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que tem como o objetivo frear as emissões de gases de efeito estufa causadores da amplificação de riscos climáticos. A COP ocorre anualmente desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no mundo e discutir formas de reduzir sua intensificação e, consequentemente, seus impactos. Os delegados governamentais dos países signatários dessa Convenção são os únicos com poder de voto, mas participam também dos eventos jornalistas e membros da sociedade civil. Desde 2015, quando foi assinado um grande acordo climático global, o Acordo de Paris, as conferências anuais têm se dedicado a como colocá-lo em prática, mas os processos decisórios costumam ser longos e lentos, pois as deliberações são tomadas por consenso entre as Partes – o que exige inúmeras negociações e nem sempre acarretam medidas à altura dos desafios impostos pela emergência climática.

A COP-25 encerrou, os resultados ficaram aquém do esperado mais uma vez, notou-se a desconexão das preocupações políticas com a urgência e gravidade do problema que precisamos enfrentar, porém ainda há tempo para agir. E o jornalismo deve fazer a sua parte enquanto prática social voltada para o interesse público. Que as mudanças observadas ao longo do tempo na cobertura jornalística sobre clima tenham um ritmo maior e possam ser amplificadas para alertar a todos sobre o que está de fato em risco quando falamos de crise climática: a nossa existência nesse planeta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

“É impressionante a imprensa dar espaço para esses adultos aí”

Por Reges Schwaab*

Diz. Afirma. Duas expressões recorrentes nas manchetes dos jornais de referência, em especial em seus portais digitais. Mas não só. Nesta quarta, 14, a manchete de terça ainda se repetia: “Bolsonaro chama Greta de ‘pirralha’ e diz ser contra desmatamento ilegal”. Diz. Afirma. E o fato de alguém dizer parece desobrigar o jornalismo da apuração. A triste frase do presidente, que rodou o mundo, e fez com que Greta Thunberg alterasse sua descrição no Twitter (imagem a seguir), pode não parecer caso para uma grande análise.  Mas, na verdade, faz lembrar do contexto mais amplo da disputa de sentidos acerca da emergência climática, a bandeira de protesto de Greta e outras milhares de pessoas, luta que mobiliza jovens, ativistas e cientistas em diferentes países.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Poderíamos esperar uma grande repercussão do jornal acerca da afirmação sobre Greta? Talvez não. Mas a proposta é ver aqui outro viés. O “diz” e o “afirma” acompanham, recorrentemente, as manchetes sobre os chamados negacionistas, a quem o jornalismo resolve, em intervalos regulares, conceder espaço e mostrar que o aquecimento global não existe, ou não é fruto da intervenção humana. Isso porque todo jornal ainda insiste em se denominar “imparcial” e “comprometido com a verdade”, tendo de ouvir os “dois lados”.

“É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, foi a frase de Bolsonaro na terça. Poderíamos fazer um jogo de inversão? Melhor não, pois cairíamos no mesmo preconceito. O insulto proferido contra Greta ecoa a desconsideração da criança e de que a infância seja um lugar de saber. Então, a luta de Greta é uma pirraça infantil. E não sendo nada mais do que gritos de uma criança, por que haveriam de ser considerados? Apareceram charges retratando Bolsonaro como um bebê diante de Greta. Mas soam na mesma direção, a criança que faz pirraça diante do adulto. A luta geral vai em outro sentido.

O “impressionante”, nos parece, é que mesmo diante de pilhas de dados científicos, produzidos por diferentes correntes acadêmicas, os que negam a interferência humana no ecossistema tenham suas afirmações amplificadas em nome da encenação de pluralidade jornalística. Sobre esse tema, merece leitura o texto de Herton Escobar na ComCiência (Dar voz à mentira não é imparcialidade, é irresponsabilidade). Basta verificar, são atores que nunca participaram de um debate científico sério sobre o tema. Só dizem. Isso inclui o presidente e o ministro do Meio Ambiente brasileiros.

Na semana em que as mudanças do clima foram um dos assuntos mais comentados no Twitter, diante da COP25, a Conferência da ONU sobre o clima, o Brasil dos já crescidos segue sem entender de futuro. Na crítica de Greta, que incomodou Bolsonaro, estava a evidência da culpa pública e coletiva pelo extermínio dos indígenas e pela falta de proteção ao território da Amazônia. E como escreveu Eliane Brum no El País, se a COP 25 não frear a destruição da Amazônia, seria melhor nem ter saído de casa. Greta não diz ao vento. A despeito de críticas direcionadas a ela, que aparecem a todo momento, Greta sabe: nada foi feito efetivamente pelos senhores tão adultos, nós aí incluídos.

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Imagem: Reprodução/Greta é eleita pela Time a personalidade do ano

Para ampliar: Crise climática e justiça ambiental

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo de imersão de Eliane Brum

Patrícia Kolling*

Ela queria “cobrir” o mundo a partir do local que entende ser o centro do mundo, a Amazônia. Para tal, em 2017, fez as malas e mudou-se de São Paulo para Altamira, no Pará. Estamos falando da jornalista e colunista Eliane Brum, que ao participar recentemente do programa Córtex, da mídia independente Estúdio Fluxo , justificou a mudança dizendo: “eu queria inverter o lugar de onde eu olho mundo e o Brasil. Eu intui que isso ia me permitir entender as coisas de uma outra forma, melhor talvez”. Após dois anos morando na Amazônia, ela destaca que já se sente de outro jeito e entende outros jeitos de ser. “A cidade é uma camisa de força de concreto sob a natureza. A gente se desconectou de tal maneira, que não se sente parte de um organismo que é vivo, que é esse planeta. Quando você começa a viver aqui, e eu fico muito na floresta, você começa a se sentir de um outro jeito, entender um outro jeito de ser. Hoje me sinto parte deste planeta de forma orgânica, carne do planeta, o meu jeito de estar nesse planeta já mudou. Mudou até a linguagem. Não tenho palavras, língua, para falar das coisas que eu percebo. Estou buscando aprender outras línguas que possam dar conta desse novo jeito de habitar esse planeta”.

Em tempos em que o jornalismo é cada vez mais produzido em frente ao computador, com o uso da internet, em salas fechadas com ar condicionado, em que a maioria das fontes são entrevistas por telefone, e-mail ou whatsApp; a jornalista Eliane Brum quebra paradigmas para ver, ouvir e sentir no corpo e na alma o que os povos da floresta vivem e tem a dizer no olho no olho. Eliane Brum tem a sensibilidade de fazer um jornalismo que valoriza a história das pessoas e famílias que são suas fontes, ou seja, a subjetividade de cada uma delas. Em Altamira ela acompanha a história de muitas famílias que foram expulsas das suas casas na beira do rio, das ilhas onde viviam, ou seja, dos espaços em que haviam constituídos suas histórias de vida, devido a construção da hidrelétrica Belo Monte. “Na minha experiência de repórter as subjetividades são tão ou mais importantes que as objetividades para produzir o que acontece”, destaca a jornalista. Essas famílias hoje moram em casas construídas pela empresa Norte Energia, administradora do projeto da hidrelétrica, em bairros isolados da cidade, distantes do rio, em casas construídas sem valorizar sua cultura e seus costumes. “A cultura daqui é de receber as pessoas e amarrar a rede. Eles fizeram casas onde não tem espaço para a rede. Casa de ribeirinho sem espaço para rede é mesma coisa que não ter cozinha”, destaca Eliane, que ao viver próximo dessas famílias e com elas conviver frequentemente consegue compreender detalhes das suas vida, que um repórter que não vivencia situações semelhantes jamais perceberia.

Entre as contradições que ela aponta estão a que essas pessoas que viviam junto ao rio e dele tiravam seu sustento, hoje não tem água nem nas torneiras. “A água das caixas d´águas não tem pressão para chegar as torneiras. Elas foram expulsas para construir uma hidrelétrica e pagam uma das energias mais cara do Brasil. Eles tinham água, luz, peixe. Eles tinham a floresta, a roça. Eles tinham os amigos, os parentes, tinham a felicidade. Eles tinham vida. E agora foram jogados aqui.”, lamenta a jornalista

No vídeo em conversa com o jornalista Bruno Torturra, Eliane faz uma reflexão sobre o que é ser rico e pobre, a partir das subjetividade de cada povo. Ela explica que para os indígenas, quilombolas, ribeirinhos ser rico é não precisar de dinheiro. “Viver na floresta é ser rico. Eles eram ricos, porque não precisavam de dinheiro. Agora precisam de dinheiro para pagar luz, água e não tem. Hoje eles são pobres urbanos”, evidencia. Neste sentido, ela ressalta a dificuldade da sociedade de visualizar diferentes tipos de povos, costumes e culturas. “A forma como as pessoas se veem e acham que o mundo é só de um jeito, torna esses povos sempre invisibilizados” destaca. Ela evidencia a necessidade de enxergar e valorizar essas “outras humanidades”

Eliane nos dá uma aula de jornalismo ambiental, com a sua capacidade de compreensão dos fatos de maneira contextualizada e conectada. Ela consegue relacionar fatos políticos, sociais, ambientais e econômicos com muita rapidez e eficiência em vários momentos da conversa.
Ao citar o cientista da terra, Antônio Nobre, ela ressalta que uma árvore grande coloca na atmosfera mil litros de água por dia. Então, ela nos chama a refletir que ao encontrarmos na rodovia Transamazônica caminhões com dezenas de toras de árvores (segundo ela são muitos transitando): “Cada árvore daquelas são mil litros de água por dia a menos na atmosfera. A floresta inteira coloca 20 trilhões de litros de água por dia. A floresta transpira e salva o mundo todos os dias. Se esta floresta acabar, e ela está neste processo, vamos viver num planeta hostil. E quem pode impedir isso são os povos da floresta, porque se existe floresta em pé é onde estão os povos da floresta. Parte desta floresta foi plantada por estes povos. Os povos são a floresta. Ao matá-la, matamos eles também”.

Ao final ela explica que considera a Amazônia como o centro do mundo, “pois em época de emergência das mudanças climáticas, não tem como controlar o aquecimento global sem ter a floresta viva”. Ao lermos os textos ou ouvirmos as falas de Eliane Brum somos tocados, porque compreendemos o todo, e qual a nossa importância no contexto da preservação ambiental, como as perspectivas teóricas do jornalismo ambiental propõe.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

A prisão dos brigadistas de Alter do Chão e um podcast

Imagem: Capa do podcast café da manhã no Spotify
Por Nicoli Saft*

Para o texto de hoje do Observatório, resolvi destacar um bom exemplo de jornalismo, e um de um meio não tradicional, mas que nos últimos anos vem ganhando cada vez mais adeptos. No podcast diário Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, o jornalismo ambiental já apareceu diversas vezes este ano, como era de se esperar em um ano que teve Brumadinho, queimadas desenfradas, petróleo no litoral nordestino e o recorde de desmatamento na Amazônia. Na última quinta-feira, 28 de novembro, o assunto foi a prisão de quatro brigadistas acusados de atear fogo em uma área de proteção ambiental de Alter do Chão em setembro. Alter do Chão é um distrito da cidade paraense Santarém, e é conhecida mundialmente pelas suas belas praias de água doce.

Os quatro homens que foram presos são voluntários da Brigada de Incêndio do local, organização fundada em 2018 pelo Instituto Aquífero Alter do Chão e que atua em conjunto do Corpo de Bombeiros no combate às queimadas da floresta. A prisão fez parte da operação Fogo do Sairé, da Polícia Civil do Pará, que também apreendeu documentos da organização não-governamental Projeto Saúde e Alegria (PSA), que atua há 30 anos na floresta fornecendo serviços de saúde para a população. Os quatro brigadistas ficaram presos de terça à quinta-feira, quando foram liberados por decisão judicial.

O podcast da Folha é apresentado usualmente por Rodrigo Vizeu e Magê Flores, mas como esta está de férias, tem sido apresentado por Victoria Azevedo, repórter da coluna Mônica Bergamo. Os apresentadores entrevistam outros jornalistas da Folha e “trazem nas manhãs de segunda à sexta, de forma leve e simples, o fundamental sobre os assuntos do momento no Brasil e no mundo”, conforme descrição do podcast no Spotify. O programa segue a linha do americano The Daily, do New York Times, apresentado por Michael Barbaro.

Os entrevistados dessa quinta-feira foram Ana Carolina Amaral, do blog Ambiência, e João Pedro Pitombo, repórter da Folha em Salvador. Primeiramente Pitombo apresenta um pouco do que foi o incêndio que destruiu uma área de cerca de 650 mil m² e que levou quatro dias para ser controlado. Pitombo também apresentou a hipótese da Polícia Civil: os brigadistas iam até a floresta, iniciavam o fogo, saíam do local e pouco depois retornavam para apagar, fazendo também imagens do fogo, que vendiam para organizações internacionais para captar doações para as brigadas e ONGs da região. Outro argumento da Polícia é que houve mau uso dos recursos das ONGs, principalmente no que se refere a uma doação da ONG WWF Brasil, que teria pago 47 mil reais para fotos do incêndio, o que a organização nega. Essas fotos teriam sido utilizadas para obter outras doações, inclusive uma de 500 mil dólares da fundação do ator Leonardo Di Caprio, fato que também é negado pela WWF.

Ana Carolina Amaral conta sobre alguns detalhes do inquérito policial, e de suas inconsistências. A partir de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia Civil montou parte de seu inquérito. Há, conforme a repórter relata, abismos entre a intenção de falas em seus contextos originais nos diálogos e a interpretações que a polícia teve. Amaral ainda chama a atenção para o perigo de que essas táticas sejam utilizadas em outras investigações para culpabilizar as mais diversas organizações.

No restante do episódio, surgem as declarações do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e os esclarecimentos da WWF. Pitomba ainda conta sobre uma reportagem que fez sobre Alter do Chão logo antes da Operação Fogo do Sairé, nela, relata sobre as pressões imobiliárias que a região vem sofrendo, além das ocupações ilegais de grileiros. O Ministério Público Federal também investiga desde setembro a causa dos incêndios e, ao contrário da Polícia Civil, aponta como causa da degradação ambiental em Alter do Chão o assédio de grileiros, a ocupação desordenada e a especulação imobiliária.

Destaco esse podcast por nos tirar um pouco daquele jornalismo impessoal e imparcial. Aqui, há uma clara rejeição à postura de trabalho adotada pela Polícia Civil do Pará e um apontamento dos possíveis culpados. Na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro resolveu culpar Leonardo Di Caprio pelos incêndios na Amazônia, embora seja uma proposição aparentemente ridícula, eu sabia exatamente do que ele estava falando. E ainda, considero podcasts um meio interessante de levar o jornalismo ambiental às pessoas. Um dos grandes problemas que enfrentamos, e sobre o qual eu mesma já falei aqui no Observatório, é o distanciamento que temos em relação aos problemas ambientais, seja as mudanças climáticas ou o petróleo no litoral nordestino. O podcast por si só traz uma proximidade com os jornalistas e com o tema discutido. Sentimos quase como se fosse um amigo nos contando uma história, e portanto, aquilo que é dito importa. Não que seja a única solução possível, é claro, mas é uma alternativa.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).