Políticas de desenvolvimento e aumento da temperatura: quais as relações?

Por Eliege Fante*

A temperatura média global está quase 1oC acima desde o início das medições, mas em Passo Fundo (RS) onde nasci, está 1,7oC acima, de acordo com a ferramenta do jornal NYTimes. A supressão de áreas naturais para a sua conversão em monoculturas de commoditties e cidades (urbanização, industrialização, etc.) estão entre as causas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e a mudança climática. A virada do milênio nos trouxe algumas certezas, como a de que os 20 anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking. Outra é que, segundo os cientistas, a temperatura média global não deve ultrapassar 1,5oC sob pena de sofrermos as consequências do desequilíbrio climático: impactos na saúde humana, perda da biodiversidade, prejuízos na economia, entre outras. 

Precisamos ficar preparados para o pior” é a instrução do diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Buckeridge, e também o título de reportagem sobre a vulnerabilidade das cidades neste contexto de mudança climática caracterizada por eventos extremos. Esta vulnerabilidade se evidencia nos “erros de urbanização” citados: canalização de rios e impermeabilização do solo. Todos conhecemos áreas de várzea, de banhado, de preservação permanente em nossos municípios natais que foram aterradas para facilitar ou promover o desenvolvimento através da construção de loteamentos, estádios de futebol, indústrias, parques, etc. Falamos de empreendimentos privados ou públicos, planejados e assinados por profissionais habilitados, licenciados pelos órgãos responsáveis e com as devidas compensações ambientais especificadas. Contudo, os registros de danos e perdas se acumulam, inclusive nas cidades mais desenvolvidas e ricas do país, como Belo Horizonte, vitimada pela chuva torrencial em janeiro, e São Paulo, com fortes chuvas neste mês de fevereiro. 

Devemos lembrar que não são apenas os formatos conhecidos de urbanização que dificultam ou impedem o necessário e adequado escoamento da água dos temporais e/ou a retenção e a conservação de água para os usos nos períodos de estiagem. A lógica desenvolvimentista igualmente determina a atividade econômica dominante e a respectiva política de conversão das áreas naturais no chamado meio rural. Retomando o caso de Passo Fundo, a expansão do agronegócio nos últimos 30 anos com a monocultura da soja e do milho foi de 37 mil hectares em 1987 para 52 mil em 2017 (ver quadro). A área florestal de Mata Atlântica foi preservada sob a proteção da lei vigente, mas a área campestre, como a do capim barba-de-bode, não. De fato, os campos sulinos são as áreas menos preservadas no país. Isso é importante também porque reflete a drástica redução da pecuária familiar, que é a atividade econômica principal do gaúcho. O gaúcho e o cavalo tem sido lembrados praticamente uma vez ao ano, durante as comemorações da revolução farroupilha em setembro. A tradição e alguns hábitos como o do chimarrão não devem desaparecer no Rio Grande do Sul, mas a pecuária está cada vez mais restrita por várias razões, principalmente a conversão dos campos nativos em monoculturas de grãos exóticos.

O Mapbiomas nos mostra que a área de pastagem em Passo Fundo no ano de 1987, de 15.611 hectares, caiu para 4.004 hectares em 2017. E que também caiu a área de mosaico entre agricultura e pastagem: de 12.606 hectares em 1987 para 5.881 hectares em 2017. Se relacionarmos esses dados ao fato de que “A atividade agropecuária domina a geração de gases de efeito estufa no Brasil”, em se tratando de monoculturas de exóticas e pastagens artificiais/cultivadas, não podemos deixar de problematizar o destino do maior aporte de recursos das políticas de desenvolvimento implantadas nesse período e as mudanças ocorridas em Passo Fundo: na paisagem, na atividade produtiva e até na temperatura. Por isso, cabe também às empresas de comunicação hegemônicas assumir mais esta pauta jornalística. Ao mesmo tempo que o potencial do agronegócio de commoditties gera muito lucro a poucos e exacerba a já conhecida desigualdade social, também desequilibra o meio ambiente e acelera os efeitos da mudança climática.   

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação e Informação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Jornalismo Ambiental Direto da Ciência

Imagem: captura de tela – Site de jornalismo científico publica reportagem exclusiva denunciando desmonte de bases cartográficas em São Paulo
Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo especializado em temas ambientais abriu espaço na imprensa brasileira quando adotou a ciência como fonte central das reportagens, segundo relato de repórteres que trabalharam com a pauta ecológica nos anos 1970 e 1980, entre eles Randau Marques e Liana John. De lá pra cá a perspectiva científica passou a fazer parte do que é considerado jornalismo ambiental de referência, nas grandes redações e também fora delas. 

Com as mudanças estruturais que assolaram o jornalismo devido à digitalização do mundo no século XXI, redações têm sumido e/ou murchado. Uma das consequências disso é a precarização do trabalho, a outra é o surgimento de pequenos empreendimentos produzindo jornalismo especializado de qualidade. Um exemplo é o site Direto da Ciência mantido por Maurício Tuffani. 

O site foi lançado em março de 2016 quando Tuffani deixou o cargo de editor-chefe da revista Scientific American Brasil, como ele mesmo relata. Política ambiental é uma das pautas objeto de análise, opinião e investigação do serviço jornalístico criado por ele. O editor trabalha com repórteres freelance. E quem paga a conta são os assinantes do serviço especializado.

Reportagem exclusiva publicada pelo repórter freelance José Alberto Gonçalves Pereira, no dia 3 de fevereiro mostra que o olhar especializado do jornalista permite descobrir falcatruas pouco visíveis ao olho do generalista. Ele mostrou como a gestão do governador João Doria (PSDB) desmantelou acervos e bases cartográficas de planejamento urbano.

O que isso tem a ver com a pauta ambiental? Tudo. Esses programas, produtos e sistemas de informações cartográficas são utilizados em políticas ambientais. Situação semelhante – extinção de estruturas de estado que dão suporte a políticas públicas na área ambiental – aconteceu no Rio Grande do Sul quando o ex-governador José Ivo Sartori (PMDB) extinguiu a Fundação de Economia e Estatística e a Fundação Zoobotânica. No caso de São Paulo, o site Direto da Ciência deu furo de reportagem denunciando mais um desmantelamento.

Essa informação exclusiva sobre os danos causados pela extinção da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) segue repercutindo em São Paulo, conforme suíte publicado pelo mesmo repórter, no dia 10 de fevereiro, e também nessa segunda-feira, com texto ampliando os bastidores da extinção.

Semana passada outro jornalista especializado em temas ambientais, com formação científica, também escreveu para o site Direto da Ciência . O repórter freelance Eduardo Geraque, que também é biólogo e tem mestrado em Oceanografia, publicou no dia 13 de fevereiro texto analisando a superficialidade da política para a Amazônia anunciada de improviso pelo atual governo federal , mais uma vez deixando de lado as pessoas que vivem e conhecem a região. Ele aponta como caminho possível a bioeconomia.

Sites jornalísticos como Direto da Ciência, O Eco, InfoAmazônia, Amazônia Real, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, Nexo Jornal, Envolverde e Eco Nordeste são alguns exemplos que demonstram a possibilidade da cobertura especializada de temas ambientais sobreviver às mudanças estruturais do jornalismo, ou seja, fora das redações tradicionais. Você já apoiou algum desses projetos?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A água no Rio de Janeiro e a necessidade de expandir os impactos da pauta ambiental

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Por Michel Misse Filho*

Passado mais de um mês de evidência de um novo problema no abastecimento de água no Rio de Janeiro, o assunto dominou os noticiários locais e pautou o dia a dia de quase dez milhões de fluminenses clientes da Cedae. A empresa de economia mista responsável pelo serviço está, ao mesmo tempo, no início da fila para privatização desde 2017, acordada como contraponto com o Governo Federal para o Regime de Recuperação Fiscal do Rio. A atual crise hídrica –que é inerentemente ambiental- se desenrola pela política estadual: o governador Wilson Witzel (PSC), influenciado pelo correligionário Pastor Everaldo, indicou Helio Cabral – ex-conselheiro da Samarco e réu pelo crime ambiental de Mariana- para a presidência da empresa. Com a nova gestão, foram demitidos quase 40 engenheiros especializados no controle da qualidade de água, e a substância geosmina virou a “nova” vilã da rotina dos cariocas. Para piorar, a estação de tratamento ainda chegou a ser fechada após a localização de detergente na água. 

    Para além das diárias notícias que atualizavam o caso e mostravam o fim dos estoques de água mineral nos supermercados, algumas matérias chamam a atenção ao elucidarem melhor a questão. É o caso desta boa matéria de André Trigueiro para o RJTV e portal G1, que explica o passo a passo do sistema de tratamento; os erros operacionais; a falta de investimento da empresa mesmo com o lucro em torno de R$ 800 milhões em 2019; a não realização de projetos relativamente baratos que evitariam o problema; e a destinação, por parte do governo estadual, de apenas 15% da portentosa verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) para fins ambientais.

Ainda mais importante, outras reportagens denunciam o ponto central do problema: a alastrada falta de saneamento básico. A verdadeira causa da “crise”, mais do que o erro operacional da empresa que não eliminou a controversa geosmina, era o despejo de esgoto in natura em pontos próximos à captação, provindo de rios que afluíam no Guandu, levando os dejetos de cidades como Seropédica, Nova Iguaçu e Queimados. 

Longe de ser uma novidade, o problema do saneamento na Baixada Fluminense foi alçado midiaticamente pela “crise” e ganhou melhores contornos em abordagens como esta matéria de Juliana Gonçalves, do site The Intercept Brasil, que trata o problema da água sob a lógica da necropolítica e do racismo ambiental, afinal, não são os bairros da Zona Sul carioca que figuram nas piores posições dos índices de tratamento de esgoto do país. Diz a matéria: “O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras.”. A deficiência do abastecimento de água no Rio (e o peso financeiro de quem não tem o privilégio de comprar água mineral todo dia) mostra, mais uma vez, que é preciso expandir as consequências e impactos da pauta ambiental, abarcando as diversas dimensões sociais que ela carrega consigo. 

*Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).