Cobertura de biomas sendo arrasados. Até quando?

Imagem: Capturas da tela de notícia do National Geographic Brasil

Por Eloisa Beling Loose*

Nesta última semana, veículos de comunicação tradicionais, como IG e Exame,  por exemplo, cobriram o Dia da Amazônia (5 de setembro) com a mensagem de que não tínhamos muito a comemorar, afinal agosto registrou o maior volume de queimadas do ano e o segundo maior da década, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O problema se estende ao Pantanal, que arde em chamas e tem sido alvo da atenção da imprensa em diferentes veículos (Estadão, G1, Uol, Repórter Brasil, National Geographic Brasil, dentre outros), afinal, os focos de incêndio entre janeiro e agosto deste ano equivalem a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019, provocando muitas mortes e destruição.

No último dia 11, efeméride para mobilizar a preservação do Cerrado, o Correio Braziliense alertou: “[…] a degradação da savana é similar, ou até maior, ao desflorestamento na Amazônia, o que faz alguns pesquisadores afirmarem que, se assim persistir, o bioma poderá desaparecer em grande parte até 2030”.

Embora esses biomas tenham recebido mais visibilidade nos últimos dias, todos estão sendo devastados. A destruição da biodiversidade gera extinção de espécies, desequilíbrio dos serviços ecossistêmicos e agrava ainda mais as consequências das mudanças climáticas.

A Mata Atlântica, que compreende quase todo litoral brasileiro, é que vem sendo mais afetada desde o processo de colonização portuguesa e segue sendo pressionado, principalmente, pela expansão desordenada as cidades. Em julho, a Galileu reportou um estudo feito na Caatinga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que aponta a perturbação antrópica crônica (construção de estradas de terra, pilhas de madeiras, gado, lixo, por exemplo) como um dos fatores que gera forte impacto na degradação dos biomas, sendo tão significativa quanto o desmatamento.

Já o Pampa, quase sempre silenciado pela imprensa nacional, não ficou imune à lógica da destruição: o Inpe verificou um aumento de 343% no número de ocorrências no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período no ano anterior, e a região ainda enfrenta as ameaças geradas pela exploração de minérios. A série de reportagens chamada Devastação no Pampa, o bioma esquecido, publicada no dia 8 pelo Colabora, detalha como o avanço do agronegócio e a exploração de minérios coloca em risco o modo de vida tradicional dos pequenos pecuaristas, considerados guardiões da biodiversidade, e impede a preservação do pasto nativo.

Imagem: Captura da tela de reportagens no site Colabora

O jornalismo tradicional segue atento àquilo que foge à dita “normalidade” e, por isso, os números recordes de queimadas, as efemérides, os novos estudos e as cenas chocantes de animais sendo mortos no Pantanal trazem a pauta à tona. Mas, em um mundo no qual o futuro é cada vez mais incerto, onde está a anormalidade?

Quando a imprensa naturaliza a deterioração do planeta, o processo destrutivo deixa de ser notícia. Quando o argumento econômico não é questionado, todo o resto é apresentado como inevitável – quando, de fato, não o é.

Diante de um projeto de devastação em larga escala, que atinge todos os biomas brasileiros, cabe ao jornalismo observar de forma mais panorâmica as causas ou as cadeias de relação que permitiram (e permitem) que o discurso do progresso desmate, queime e altere vidas orientada pela maior “oportunidade” de lucros. Os negócios baseados na exploração da natureza só beneficiam, a curto prazo, os exploradores, enquanto produzem uma série de malefícios para uma grande parcela da população.

A forma de seleção dos fatos jornalísticos precisa considerar mais aquilo que impacta nosso futuro – e não apenas o presente. Uma visão de longo prazo é necessária porque as consequências parecem cada vez mais irreversíveis.

É importante que veículos alternativos tragam aquilo que não foi mostrado pela grande imprensa (é uma complementariedade desejável), porém, por outro lado, não podemos desobrigar que jornalistas em outros meios, que geralmente têm maior alcance, reflitam sobre os motivos de tantas questões serem reportadas quando não há muito mais a fazer.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

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