A humanização no jornalismo ambiental brasileiro

Imagem: Reprodução de notícia publicada em Mongabay no dia 18/01/2021

Por Patrícia Kolling*

Começar a ler um texto jornalístico, se deparando com a foto acima, que reflete um sorriso franco, um olhar firme e um rosto expressivo, é como sentir vida no texto e na história. O texto referente à foto conta a história de Osvalinda Alves Pereira, trabalhadora rural que vive no Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão, no sudeste do Pará. No dia 24 de novembro ela foi a primeira brasileira a receber o prêmio Edelstam, premiação sueca concedida as pessoas que contribuíram de forma excepcional, e com grande coragem para a defesa dos direitos humanos.

Segundo a notícia, em 2012, Osvalinda montou uma associação de mulheres para capacitar agricultores a difundir o projeto agroflorestal já consolidado em seu lote. O sistema criava alternativa de trabalho e renda para os assentados até então submetidos a condições análogas à de escravos na extração de madeira. Desde então, uma série de ameaças foram feitas a Osvalinda e ao seu marido Daniel. Duas sepulturas (com cruzes) foram construídas a 100 metros da sua casa em 2018, o que levou o casal a se retirar do assentamento durante 18 meses.

O assentamento é porta de entrada para um corredor de áreas protegidas e, cobiçadas por madeireiros ilegais. Ler a história, os dramas e as conquistas da mulher e trabalhadora rural Osvalinda nos aproxima da realidade vivida por ela e por outras centenas ou até milhares de pessoas que lutam pela preservação ambiental.

O jornalismo ganha seus méritos, quando suas notícias e reportagens abrem espaço para histórias de vida e relatos humanizados que nos aproximam das pessoas e das causas ambientais, como se elas estivessem acontecendo do lado da nossa casa, e não a milhares de quilômetros de distância. O texto vai entrelaçando a história de Osvalinda a outras informações, trazendo à tona as contradições nos discursos políticos, as irregularidades na fiscalização da exportação de madeira e também números sobre o aumento de áreas de desmatamento, que teve seu maior patamar da década, e, paralelamente, a redução das autuações por esse crime.

A reportagem, relação com a história de Osvalinda, mostra como a desestruturação das atividades de fiscalização ambiental, podem deixar ainda mais desprotegidas pessoas que, como ela, defendem os direitos humanos e se opõe a realização desta prática ilegal. Ou seja, nos permite ver como as determinações governamentais, criadas e aprovadas em Brasília, que privilegiam a impunidade, podem impactar no dia a dia das pessoas Brasil a fora, colocando em risco suas vidas.

É claro, que, jornalisticamente falando, Osvalinda foi pauta desta matéria devido ao prêmio recebido internacionalmente, o que dá caráter de atualidade e novidade a notícia, porém, mesmo que não tivesse sido premiada, é uma cidadã com uma história de vida determinante para instituir a empatia da sociedade às causas ambientais. No mesmo dia da publicação da notícia do Mongabay, 18 de janeiro, o Jornal Nacional veiculou uma notícia com números sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, incluindo o Pará, como estado em que o aumento do desmatamento foi mais significativo. Notícia bem produzida, com dados do Instituto Imazon, muitas imagens, mas na qual sentiu-se falta de uma Osvalinda para despertar no telespectador a sensibilidade às causas ambientais.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

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