Jornalismo da casa de garrafa de vidro

Por Míriam Santini de Abreu*

Pululam sem parar notícias e reportagens que buscam mostrar as alternativas dos brasileiros empobrecidos para sobreviver. O desespero – como usar lenha na falta de gás para cozinhar – vira “resiliência” e capacidade “empreendedora”. A reportagem do Globo Repórter intitulada “Ameaçadas de despejo, mãe e filha erguem casa com mais de 4 mil garrafas tiradas do lixo”, disponível em https://glo.bo/2PqUURa, enquadra-se nessa abordagem (1). Mas, tal como o vidro, na reportagem insinuam-se facetas que deixam a luz passar.

“Foi um trabalho de formiguinha e de muita consciência ambiental”, define a reportagem, ao se referir às incontáveis vezes que as duas mulheres recolheram garrafas jogadas no manguezal de uma praia de Itamaracá, em Pernambuco, para construir a moradia, aprendendo inclusive técnicas de construção.

Está-se diante da práxis inventiva, da prática criadora de que fala o sociólogo francês H. Lefebvre. O fazer humano de duas mulheres excepcionais para restaurar no cotidiano, sozinhas, o direito de morar. Mas a reportagem, ainda evocando o pensamento de Lefebvre, não tira a máscara das coisas para revelar as relações sociais. Nos quase 10 minutos não há menção a qualquer instância do poder público que possa dar sentido ao trabalho imposto à mãe e filha, abordando a dificuldade de pagar aluguel e/ou comprar moradia no mercado imobiliário, principalmente com os recursos públicos cada vez mais escassos e o fim dos grandes programas habitacionais.

Mesmo a ideia do reuso de materiais não se potencializa por não implicar a indústria no compromisso com o que produz. Fica apenas a menção genérica ao “descarte sem respeito à natureza”. Uma abordagem socioambiental, ainda que breve, não faria a reportagem resvalar para o discurso tão em voga de que “enfrentar desafios e vencer” – como anuncia o programa – depende unicamente da capacidade de resiliência dos indivíduos.

Mas há brechas notáveis na reportagem, como dar o conhecer o cotidiano de mãe e filha, as dificuldades pelas quais passaram, a amorosa trama que as une no cotidiano, e, em especial, a fala das duas sobre a dureza da existência, agravada por serem negras em um país que se ergueu sob os ombros de escravizados. A repórter entra na casa – algo raro, antes ou agora, na pandemia, iniciativa ligada ao fato de a casa ser ela própria uma personagem. Lá dentro estão as delicadezas do morar, a colcha de fuxico, as almofadas coloridas, os quadros, os objetos da cozinha. “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreveu o filósofo G. Bachelard. A repórter mostra rotinas como o preparo dos alimentos e o trabalho da filha, que estuda moda – tendo que gastar seis horas por dia para ir à faculdade – e cuida de um pequeno brechó nos fundos do terreno, divulgando nas redes sociais as peças vestidas por modelos negros.

Ao final da reportagem, a abertura da imagem aérea mostra a casa e, progressivamente, o seu entorno, o litoral recortado e habitado, a lembrar que cabe ao jornalismo desvendar por inteiro a experiência vivida no espaço, um produto social sobre qual a pequena casa de vidro tem, potencialmente, muito a contar.

1 – A reportagem foi exibida em 26 de março passado como parte de um programa intitulado “Conheça histórias de brasileiros que são exemplos de resiliência com o Globo Repórter” que continha, entre outras, a história de mãe e filha.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br

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