Análises e críticas sobre o projeto Mina Guaíba merecem integrar um aprofundamento devido pela imprensa 

Imagem – Sistema Online de Licenciamento https://secweb.procergs.com.br/sra/logon.xhtml, para leitura dos documentos vinculados ao processo administrativo 6354.0567/18-1 referente ao projeto Mina Guaíba
Por Eliege Fante*

Finalmente, um respiro: o Ministério Público Estadual (MPE) ingressou na 10ª. Vara da Fazenda Pública com uma Ação Civil Pública (ACP) visando “suspender a emissão de licença ambiental para qualquer empreendimento relacionado ao projeto de instalação do Pólo Carboquímico na Região Metropolitana de Porto Alegre”, inclusive, o projeto Mina Guaíba, da empresa Copelmi. A ação foi na primeira quinzena de setembro, mas divulgada durante audiência pública realizada, em Porto Alegre, no último dia 30.

Desde o protocolo do projeto em novembro de 2018 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento no Estado, vivemos sobressaltados. No entanto, explorar o carvão é uma política de estado; ao menos desde 2003, todos os governos mobilizaram os esforços para a sua concretização: Germano Rigotto (PMDB), Yeda Crusius (PSDB), Tarso Genro (PT), José Ivo Sartori (MDB) e o atual Eduardo Leite (PSDB). Estes governos, seus aliados e apoiadores não viam e continuam não enxergando o sentido em deixar o carvão “parado” ou “lá embaixo”, não obstante sua exploração provoque impactos sociais e ambientais e, também nas economias locais (como a agroecologia, etc.). E, ainda, desencadeie transformações nos ecossistemas.

Sobre o projeto Mina Guaíba, os problemas e os impactos temidos foram farta e exaustivamente enumerados, descritos e desenhados (através de mapas e quadros com dados) em dezenas de documentos produzidos por técnicos ambientais, professores e pesquisadores de universidades, associações, ONGs e demais entidades. Podemos (e deveríamos) ler esses documentos no site da Fepam . É preciso cadastrar-se e clicar sobre os pdfs.

O documento que escolhi foi o trabalho do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS) para mencionar um pouco do que está em jogo neste debate que é de interesse público e das futuras gerações. O referido trabalho é o item “Informação Outra número 175-2019”, onde lemos “Anexo II”. Além da análise do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), o grupo fez entrevistas na região pretendida pela Copelmi para explorar o carvão.

Este trabalho e os demais disponíveis no site da Fepam, merecem uma leitura atenta não só de jornalistas, mas também do público em geral, pois o projeto Mina Guaíba ameaça a qualidade da água, do ar, do solo e a conservação da biodiversidade. O uso da palavra “ameaça” se justifica pela opção da matéria-prima a ser explorada, o carvão, mineral extremamente tóxico e poluente (conferir apresentação do prof. Rualdo Menegat ), e pela inconsistência das informações constantes no projeto da Copelmi, segundo o grupo TEMAS.

Se sabe que o projeto é de 2014, mas os dados não poderiam ter sido atualizados? O TEMAS contou 189 famílias vivendo atualmente entre o loteamento Guaíba City e o Assentamento Apolônio de Carvalho. Os pesquisadores cobram o resultado da contagem nos demais loteamentos, assentamentos e aldeias indígenas. Mas, para a Copelmi, basta saber que em 2014 havia 53 unidades familiares. A área pretendida para exploração afetaria as etnias indígenas Mbyá-Guarani, Kaingang e Charrua. No Rima esta informação foi omitida e, no EIA, a Reserva Indígena Estadual é citada como “acampamento supostamente indígena”, o que significa conforme o TEMAS “negação e violação dos direitos” destas comunidades. Aliás, a imprensa nos deve uma contextualização desta ameaça que paira sobre a população indígena regional, pauta invisibilizada até o momento.

Quanto ao Assentamento Apolônio de Carvalho, o EIA-Rima aborda a atividade agropecuária de forma genérica, omite a produção agroecológica de arroz com expressão nacional e continental, e a produção para o autoconsumo. Porém, aos olhos da Copelmi, Apolônio de Carvalho é um local de pobreza e vulnerabilidade social e o seu veredito àquelas pessoas é um Plano de reassentamento. De fato, a Copelmi desconhece a realidade do Apolônio porque não coletou em 100% os dados sobre as famílias e suas atividades produtivas. A explicação é de que esta etapa poderia vir a ser cumprida na sequência do processo de licenciamento. Mas o TEMAS questiona: como avaliar os efeitos sobre a economia local sem o levantamento adequado dos dados? Qual o tamanho das áreas de cultivo que serão inviabilizadas na região caso o empreendimento seja levado adiante? Quais as consequências dessa inviabilização para a produção agrícola local e para a geração de empregos? Todos nós somos partes interessadas nestas respostas.

O TEMAS aponta contradição nos dados divulgados de potencial de exploração e tempo de produção de carvão previstos pelo projeto da Copelmi: o tempo varia entre 23 e 30 anos e o volume a ser extraído varia de 166 milhões de ton a 186 milhões e 300 mil ton. Nesta condição, perguntamos: quando poderemos saber o número correto do volume de rejeito a ser gerado? O Rima não diz qual a destinação e nem apresenta o plano de uso detalhado dos rejeitos. Sequer os planos de segurança e emergência foram apresentados. “O EIA/Rima negligencia informações imperativas a adequada análise da viabilidade socioeconômica de um empreendimento,” concluem os pesquisadores do TEMAS.

Posso concluir, além de agradecer aos pesquisadores do TEMAS-UFRGS pelas informações prestadas, que há muita informação disponível no site da Fepam para ser reverberada urgentemente pela imprensa e somar na qualificação deste debate público.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.
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As manchas de petróleo no Nordeste e a demora da imprensa em noticiar o caso nacionalmente

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Desde o início do mês de setembro, manchas de uma substância que se assemelha a piche estão sendo econtradas no litoral nordestino. Já são 53 municípios atingidos , 112 pontos em oito dos nove estados do Nordeste, sendo o litoral baiano o único não atingido da região. A substância é petróleo cru, que não é produzido no Brasil, conforme a Petrobras.

Nove tartarugas e uma ave bobo-pequeno foram encontradas cobertas com a substância, a ave e sete das tartarugas foram encontradas mortas ou morreram após resgate. Uma tartaruga foi limpa e devolvida ao mar e uma foi encaminhada a um centro de reabilitação. Um dos grandes riscos é que o petróleo atinja reservas ambientais e locais de desova de tartarugas.
A origem do óleo ainda é desconhecida, sendo o descarte ilegal do material por navios uma provável causa. Pesquisadores estão analisando imagens de satélite para tentar localizar uma possível fonte.

Por mais que as primeiras manchas foram descobertas já nos dois primeiros dias de setembro, foi somente essa semana, mais precisamente a partir de quarta-feira, 25, que a imprensa nacional começou noticiar o fato. Foram feitas algumas boas reportagens elucidando os acontecimentos, como esta do G1 , estas duas da Folha (https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/26/manchas-de-oleo-no-nordeste-o-que-se-sabe-sobre-o-problema.ghtml e https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/09/oleo-que-atinge-praias-do-nordeste-e-petroleo-e-nao-e-brasileiro-diz-ibama.shtml e este episódio do podcast Durma com Essa, do Nexo Jornal . Entretanto, essa demora para a cobertura atingir o âmbito nacional me gera desconforto. Foram precisos mais de 20 dias, quase 100 praias atingidas e dez animais afetados para o Brasil ficar sabendo?

Os critérios de noticiabilidade que aprendemos durante a faculdade não dão conta dos riscos ambientais. Podemos apontar diversos elementos que fazem essa ser uma notícia para todo o Brasil, como a chance de o petróleo atingir áreas protegidas e prejudicar a desova de tartarugas bem como o risco de atingir outros ecossistemas, como os manguezais e estuários; os prejuízos econômicos que uma porventura queda no número de turistas pode trazer; o riscos de as pessoas entrarem em contato com a substância possivelmente cancerígena; como e por que um material que nem é produzido no país chega nas nossas praias; o desmonte de órgãos públicos de fiscalização; entre outros tantos.

O Nordeste não deve ser tratado como aquele lugar longe do “centro país” interpretado pelo Sudeste/Sul. Precisamos enxergar o Brasil como um só. O jornalismo precisa saber avaliar que quando desastres ambientais acontecem em uma ponta do país, a outra ponta também pode ser atingida. Ao noticiar os fatos antes, alguns locais afetados poderiam ter se preparado antes mesmo que o óleo os atingisse, e as consequências poderiam ser amenizadas. A população estaria cobrando respostas há mais tempo, e, quem sabe, já as teria. Às vezes o jornalismo precisa esquecer alguns de seus critérios de noticiabilidade para também auxiliar a questão a ser resolvida.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A materialização das queimadas na economia: o jornalismo diante do boicote aos produtos brasileiros

Imagem – Captura de tela do Google
Por Eutalita Bezerra*

Nos últimos dias, desde os importadores de carne, couro e soja até gigantes fundos de investimento passaram a ter o Brasil como um país a não se investir, a menos que o governo tupiniquim apresente medidas para a proteção da Amazônia. Com o país como vilão do meio ambiente, o jornalismo tem se apoiado na sua principal muleta para tratar do meio ambiente, a Economia, para descrever o cenário. Nesse contexto, para o jornalismo, os boicotes surgem como a materialização do desmonte da economia brasileira frente ao mundo. E tais abstenções têm sido exploradas diariamente, com bastante fôlego, inclusive.

Uma breve busca por “boicote” nos leva a afirmar que cada passo que afasta o Brasil das grandes economias tem sido destacado pela imprensa nacional. O tom passa pelo já habitual catastrofismo, como o alerta lançado por El País ou aquele repercutido por O Globo passando pela negação do problema, conforme Correio Braziliense.

Seja como for, o fato de tornar palpável o problema, demonstrando de que maneira o Brasil é visto pela comunidade internacional quando abre mão de proteger a maior floresta tropical do mundo – e para a qual várias das grandes economias não negam ter seus olhos voltados – parece ser um caminho possível para acordar o Brasil para a necessidade de pressionar o seu governo. Ao que parece, a imprensa hegemônica, que durante anos esteve deitada em berço esplêndido, inclusive nos últimos governos -, os quais, não se pode negar, que pouco agiram para a proteção ambiental da Amazônia – começa a abraçar o discurso internacional sob pena de perda de dividendos ou mesmo de soberania.

As reportagens, muitas das quais extensas e devidamente complexas, fornecem informações importantes para a compreensão do tema. Falemos, por exemplo, da já citada incursão de El País sobre o assunto, intitulada “Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta”. Apresentando o banco norueguês Nordea, que suspendeu a compra de títulos brasileiros após incêndios, a matéria traz um especialista da Fundação Getúlio Vargas atestando a importância da instituição financeira estrangeira, cujo nome não é, de fato, habitual nos noticiários brasileiros.

Também se preocupa em esclarecer que a responsabilidade ambiental, social e de governança tem sido uma questão importante para diversos fundos de investimento, o que pode indicar ao leitor que o boicote pode aumentar e chegar a outros investidores, estes ainda mais impactantes para o nosso país. Além disso, traz ainda multinacionais do setor agropecuário que já sinalizaram a abstenção ou a revisão da compra de produto brasileiro. E, por fim, mostra o presidente do Brasil dando as costas aos apelos mundiais dizendo que “a Europa não tem nada a nos ensinar”.

É deste tipo de incursão que falamos ao discutir complexidade. É tornar o assunto próximo do leitor, permitir que ele entenda o porquê de uma queimada cuja fumaça se dissipa longe dos seus olhos pode impactar a economia de todo o país, inclusive afetando a sua mesa e o seu bolso. É o jornalismo que desdobra as questões que são de interesse público e do público de que falamos. É ele que tem muito a nos ensinar.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Noticiabilidade: o que os jornais valorizam mais? 

Imagem: Reprodução de parte do documento do MPF
Por Eliege Fante*

Recentemente o Ministério Público Federal (MPF) emitiu um documento de 21 páginas, bem justificado a partir da legislação vigente e documentado com notas públicas de servidores e notícias publicadas pela imprensa, recomendando ao Ministério de Meio Ambiente (MMA) que tome 13 ações emergenciais, em um prazo de 30 dias, para “frear os danos ambientais em curso no país”.

O jornalismo tem como premissa publicar as informações de interesse público. Mas, um dia após a emissão do documento (5 set. 2019), a constatação é de que apenas o jornal O Estado de SP noticiou a pauta sobre as recomendações que tentam reestabelecer o papel do MMA. A pesquisa através dos buscadores nos sites dos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Globo e Folha de SP não indicou nenhuma abordagem noticiosa. Será que estes meios de comunicação não perceberam o valor notícia de ruptura* nesta cobertura ambiental? A mudança no fluxo dos eventos, até porque o MMA tem 30 dias para responder oficialmente às recomendações do MPF, não é credível para o jornalismo privado? Estariam enxergando mais valor-notícia na continuidade da publicação dos atos do Ministro Ricardo Salles?

A leitura das recomendações feitas pelo MPF mostra a sua validade em se tratando do MMA, um poder público com compromissos nacionais e internacionais a corresponder e a cumprir, sejam no âmbito da Constituição Federal ou da ética. As recomendações listam ações esperadas por parte deste Ministério, tais como retirar e apreender o gado criado em áreas de desmatamento ilegal, obviamente em conjunto com o Ibama e o ICMBio; fiscalizar empresas frigoríficas que não possuem compromissos públicos de controle da origem de matéria-prima, também em conjunto com o Ibama; lavrar autos de infração e embargar áreas desmatadas ilegalmente “de maneira automatizada pelo Ibama e ICMBio, independente de vistoria de campo, quando os sistemas de monitoramento eletrônico apontarem a abertura e o responsável não apresentar a devida autorização”.

Outra recomendação ao MMA é quanto à falácia, amplamente difundida pelos meios de comunicação, sobre o trabalho do INPE e resultados do desmatamento na Amazônia. O MPF pede que sejam apresentadas, “de maneira objetiva, dados técnicos que comprovem cientificamente que as informações produzidas pelo INPE não seriam suficientes para uma estratégia de atuação e fiscalização em campo satisfatória, em conjunto com uso de outros sistemas como os alertas promovidos pelo CENSIPAM e a experiência de outros setores da administração pública, como nas Secretarias de Meio Ambiente Estaduais e Municipais”. Ainda neste sentido, o MPF pede que não contrate empresa de monitoramento (em substituição ao INPE) já que até o momento “não se revela tal necessidade, sob pena de violação aos princípios da economicidade e da razoabilidade”.

Estas duas recomendações, em especial, poderão vir a esclarecer o público que por ventura tenha se sentido confuso, sem saber no que acreditar: se nas palavras do governo que chama de fakenews o que não corresponde ao seu interesse ou nas palavras do órgão público de pesquisa científica, reconhecido mundialmente e com atuação premiada há décadas.

Destacamos ainda a recomendação para o estabelecimento de “uma política de comunicação pública adequada que permita aos servidores públicos […] cumprir o dever legal e constitucional de prestar contas à sociedade das ações específicas e necessárias adotadas diariamente para o cumprimento da legislação ambiental”. Ah, a comunicação pública! Ansiamos que o próximo documento a ser emitido pelo MPF contemple o reestabelecimento da instituição comunicação pública brasileira, vítima de desmonte pelo Governo Bolsonaro. Pois, a dita “reestruturação da Empresa Brasileira de Comunicação” consistiu na fusão da TV Brasil (comunicação pública) com a NBR (comunicação estatal). O resultado é a produção de uma comunicação estatal, de governo, e, portanto, alinhada às cores partidárias do mandato atual. O que fere o preceito constitucional de complementaridade entre os serviços: público, estatal e privado.

Incentivamos fortemente a leitura completa do documento aqui.

*ruptura e mudança no fluxo dos eventos, dimensões das qualidades da noticiabilidade. Franciscato em Silva, Silva e Fernandes. Critérios de noticiabilidade. 2014. p. 102-103.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutoranda em Comunicação e Informação pelo PPGCOM UFRGS. É também integrante do GPJA

Acontecimento global no jornalismo local: é hora de alinhar escalas e rever visões de mundo

Imagem: Edição de Zero Hora
Por Débora Gallas Steigleder*

O planeta se mobiliza pela Amazônia em chamas, e o jornalismo repercute os diferentes vieses que envolvem este conflito ambiental, evidenciado pela chegada de partículas das queimadas a São Paulo em 19 de agosto.

A edição do fim de semana de 25 e 26 de agosto de Zero Hora, que traz o assunto na capa, pretendeu aprofundar alguns tópicos a partir de apuração própria da redação do jornal gaúcho. O texto na primeira página da cobertura, não assinado, traz um apanhado geral dos aspectos políticos que envolvem o conflito por um viés declaratório, com a tradicional reprodução de pronunciamentos das fontes oficiais. Nada de novo aqui, portanto. A dimensão local é abordada em seguida, em texto de Leonardo Vieceli, que faz um gancho com a menção ao risco que a destruição da floresta representa ao acordo comercial recém firmado entre União Europeia e Mercosul. O repórter relata a preocupação de entidades exportadoras do Rio Grande do Sul com os danos do crime ambiental à imagem do país frente aos parceiros comerciais. Esta centralidade nos impactos econômicos segue a posição editorial da empresa e é repercutida por colunistas de Política e Economia na mesma edição. De certa forma, então, nada de novo até aqui também.

A seguir, um quadro informativo com mitos e verdades sobre a Amazônia ajuda a contextualizar o leitor e complementa o texto de Iarema Soares, que apresenta o olhar dos especialistas sobre as possibilidades de restauração e as perdas inestimáveis nos ecossistemas amazônicos. Assim como a entrevista com bombeiro que está trabalhando no combate às queimadas, realizada por Rodrigo Lopes, estes recursos permitem um diálogo entre escalas. Nada substitui a presença do repórter in loco, mas, em um contexto de limitações físicas (e financeiras), uma construção discursiva que oriente o olhar “daqui para lá” é interessante para gerar proximidade. Um passo importante, porém, seria incorporar uma reflexão constante na cobertura sobre os efeitos diretos da perda da Amazônia em nossas vidas independentemente da proximidade geográfica com ela. Afinal, já passou da hora de reconhecermos as interconexões que fundamentam a vida na Terra.

Talvez o conteúdo local mais expressivo da cobertura seja o histórico da destruição da floresta, assinado por Itamar Melo, com gráficos e comparativo da área desmatada na Amazônia com o território do Rio Grande do Sul. O texto menciona que gaúchos foram estimulados a ocupar a região a partir dos anos 50. E, amplificando a questão da continuidade, é interessante ver aqui o deslocamento de sentido sobre o tema em Zero Hora, por meio de uma espécie de reversão do silenciamento: em minha leitura, por exemplo, remeti imediatamente a todas as coberturas do veículo – e do Grupo RBS, em geral – com narrativas heroicas sobre a conquista do Centro-Oeste e do Matopiba por gaúchos envolvidos no monocultivo de soja. Ao longo de décadas, a expansão das fronteiras agrícolas foi relatada – e exaltada – nos veículos da empresa sem contraponto ambiental. Muitos jornalistas têm-se posicionado para apontar o discurso violento e mentiroso de representantes do governo federal como avalizador de crimes ambientais, e com razão. Mas já é tempo de as mídias e seus profissionais fazerem uma autoavaliação: em que medida terem corroborado para o mito do progresso também contribuiu para a “naturalização” da destruição?

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).