A explosão em Beirute e as verdades que o jornalismo insiste em não contar

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Por Ursula Schilling*

Uma imagem que lembra um cenário de guerra. Assim foi o momento da explosão em um depósito portuário de nitrato de amônio em Beirute, capital do Líbano. Assim também serão muitos dias para as milhares de pessoas afetadas pelo evento. Foram quase três mil toneladas da substância que viraram uma nuvem em formato de cogumelo, muito semelhante a uma bomba atômica. Acredite, isso não é uma coincidência. 

O acontecimento tomou conta dos noticiários. Mídias impressas, televisivas, radiofônicas e digitais deram (e seguem dando) amplo espaço à questão, atendendo a critérios jornalísticos de noticiabilidade. O Jornal Nacional de 5 de agosto, um dia após a tragédia, dedicou 5 minutos – um tempo expressivo quando falamos de TV – ao assunto, mas, como a maioria dos veículos, não passou da superfície da notícia em sua abordagem. 

Foi uma cobertura-padrão: o primeiro minuto e meio trouxe os números oficiais de mortos e feridos e uma sequência de imagens de agências de notícia sobre a explosão e os instantes seguintes. Depois, hipóteses para a explosão, o pronunciamento do governo libanês, segundo o qual o depósito estocava o material de forma incorreta há seis anos (seis anos!). Uma das preocupações, além da evidente destruição, são os problemas respiratórios que a liberação de gases vai causar. Aos que ainda têm suas casas, as autoridades estão pedindo que evitem sair. 

Na sequência, o de sempre: mobilização internacional, mensagens de solidariedade, buscas por soterrados, prejuízos financeiros. Falou-se em instabilidade política e até em terrorismo. Mencionou-se a iminência de escassez de alimentos, reforçando o mito de que somente com as monoculturas de commodities, que acarretam ampla utilização de agroquímicos, é possível alimentar o mundo. 

A essa altura, o leitor deve se perguntar “mas e o jornalismo ambiental?”, “não é este um observatório para analisar tópicos relativos ao tema?”. O nitrato de amônio é a base para muitos fertilizantes sintéticos amplamente utilizados em diferentes tipos de cultivo. Na continuação da matéria sobre o desastre em Beirute, durante mais quatro minutos, o Jornal Nacional apontou a substância, que tem nitrogênio em sua fórmula, como essencial para a agricultura. Para justificar sua utilização, apesar dos riscos, trouxe diferentes “vozes de autoridade”. Um engenheiro agrônomo e a ANDA – Associação Nacional de Difusão do Adubo – que definiram a substância como fundamental para a qualidade de vida das pessoas –, ambos defendendo o caráter comum, estável, seguro (supostamente mediante o manejo correto) do composto, cujas entrada no Brasil, estocagem, e manipulação são controladas pelo Exército. 

Trabalhadores da indústria dos fertilizantes não foram ouvidos. Pessoas afetadas pela sua produção, incluindo por eventos como explosões, tampouco. Estudiosos que defendem a agroecologia, nem falar. Prevalece o viés da necessidade pela “segurança alimentar” e pela empregabilidade das pessoas. É a prevalência da lógica do “Agro é pop”, defendida pela emissora do programa em questão. Além disso, nada foi dito sobre a história dos fertilizantes, originalmente utilizados pela indústria bélica para a fabricação de bombas. Os “adubos” vieram somente depois, haja a vista a necessidade de lucro, encontrar utilidade para o produto e manter o negócio após a grandes guerras. É um caminho obscuro de interesses, lobbies e incontáveis mortes. Esses produtos, sem falar nos agrotóxicos utilizados em larga escala, estão na nossa mesa diariamente. Isso sequer tangenciou a cobertura. 

Fonte: Captura de tela do Globoplay

Qual é a solução? É a realização de um jornalismo mais “alargado”, como propõem as discussões acerca do jornalismo ambiental. Afinal, quase todas as pautas são ambientais – habitamos este mundo e nossa existência está ancorada nos seus recursos (naturais). Começar questionando aquilo que é tido como “fato dado” é um ponto de partida importante. É pelo questionamento que se chega ao ímpeto de mudança, uma mudança com potencial de gerar real transformação. 

Os valores-notícia são importantes, mas devem acompanhar o aperfeiçoamento e a busca por conhecimento por parte dos jornalistas. Não basta responder às perguntas “o quê, quem, como e onde”. Os “por quês” devem ser explorados com mais profundidade e compromisso com o papel/potencial educativo que as mídias de massa têm. A TV aberta, por exemplo, segue sendo a que tem maior alcance entre os brasileiros. 

É preciso romper a superfície dos fatos. É preciso contar histórias mais completas, suscitar o debate, provocar a reflexão. Por ora, nesses quesitos, o jornalismo hegemônico, quase como um todo, tem falhado miseravelmente. 

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições dos (a)típicos fenômenos climáticos para o jornalismo

Fonte: Captura de Tela do site de Zero Hora

Há cerca de um mês, a palavra ciclone-bomba tornou-se comum nas conversas cotidianas dos brasileiros da Região Sul e no repertório do jornalismo. No dia 30 de junho, 12 pessoas morreram em Santa Catarina, Paraná, e Rio Grande do Sul, e outras milhares ficaram desalojadas devido ao vendaval que alcançou 168 km/h em alguns locais.

Uma semana depois, no dia 7 de julho, outro ciclone extratropical, mas de ventos menos intensos, provocou chuvas fortes no Estado gaúcho. Rios, já cheios do fenômeno anterior, transbordaram. No dia 11 de julho, 7,1 mil gaúchos estavam desalojados ou desabrigados e, até 20 de julho, 194 pessoas permaneciam fora de suas casas.

No centro do debate sobre a tragédia gerada por ambos os fenômenos – uma amostra de quadros que poderão ser cada vez mais comuns no futuro e que não podemos dissociar dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul – deveriam estar as mudanças do clima. Cabe lembrar que, há poucos meses, uma estiagem, abordada por Ângela Camana neste Observatório, impactava, ao menos, 70% dos municípios do Estado.

Embora não haja consenso científico sobre esses fenômenos meteorológicos decorrerem das mudanças climáticas, sabe-se que a alternância de situações extremas, da falta de chuva ao seu excesso, é um dos sinais que cientistas apontam estar relacionados às alterações do clima. Essa é uma das conclusões da reportagem de Zero Hora que indicou propostas possíveis para mitigar os efeitos desses desastres ambientais, como promover ações integradas entre prefeituras, construir estruturas públicas de absorção de água, oferecer programas de habitação para moradores de áreas de risco e usar tecnologias eficientes.

Inspirado na noção de jornalismo de soluções, que busca resoluções para problemas sociais, o texto de Zero Hora oferece ideias de caminhos que a gestão pública pode trilhar. Mas o problema é complexo e, sobretudo, humano. Os habitantes de áreas de risco, não têm suas vozes ecoadas na reportagem. O destaque coube a pesquisadores e autoridades da Defesa Civil. A falta de espaço aos atingidos pelas enchentes não se restringiu a essa matéria, mas pôde ser notado de modo reincidente na cobertura de diversos jornais da imprensa gaúcha.

Fonte: Lauro Alves para Agência RBS

Em notícia de 02 de julho, o Jornal do Comércio tratou dos impactos do ciclone-bomba com base nas informações da Defesa Civil, sem, no entanto, ouvir pessoas que presenciaram os momentos de pânico. No Correio do Povo, a cobertura da enchente na Capital Gaúcha foi mais ampla que a realizada no Vale dos Sinos. Ao passo que uma notícia sobre o desalojamento de famílias do arquipélago de Porto Alegre realizou entrevistas com as pessoas atingidas, outra matéria, também sobre famílias que sofreram com a inundação, agora em São Leopoldo, usou apenas as informações disponibilizadas pela secretaria municipal.

Desastres como esses, provam a necessidade de o jornalismo ver humanidade em cada número da Defesa Civil. Especialmente considerando a constância das enchentes nas bacias hidrográficas que abastecem o Guaíba, os dois ciclones não devem ser tratados como fenômenos traumáticos já superados, ou já saturados. São exemplos da necessidade de empenho da gestão pública quanto à mitigação, e de uma discussão mais aprofundada, no âmbito das notícias locais, que possibilite conectar a maior seca dos últimos anos, seguida, semanas depois, de uma enchente histórica, com as alterações climáticas que aí se manifestam.

As milhares de pessoas fora de casa no estado perderam bens, passaram frio, sofreram medo de saques em suas residências, sem esquecer, é claro, dos riscos em função da pandemia do Coronavírus. O jornalismo pode, mais do que contar a tragédia, se deixar impregnar pelos narrares de quem sofreu com a força dos ventos ou a invasão das águas em seus lares, ouvindo as suas demandas, e pautando, com maior complexidade, os desafios que esses fenômenos climáticos geram.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com

Floresta Camboatá, você já ouviu falar?

Fonte: Captura de tela do site da Revista Piauí

Cláudia Herte de Moraes*

Desde junho de 2018, conforme histórico publicado pelo site Globo Esporte, a cidade do Rio de Janeiro planeja a construção de um autódromo para receber as grandiosas competições internacionais de Fórmula 1. A construção do Autódromo de Deodoro está cercada de dúvidas e controvérsias, com atuação do Ministério Público Estadual e Federal indicando que a obra é contrária ao interesse público, na medida em que vai destruir parte de Mata Atlântica, protegida por lei, conforme artigo de Sônia Rabello republicado no Estadão.  Em 18 de julho de 2020, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Tofolli, autorizou a realização de audiência pública, requisito necessário para o andamento do projeto. Em 22 de julho, a referida reunião foi marcada para 7 de agosto, em formato virtual.  

A Floresta Camboatá então reapareceu no noticiário, com as ressalvas trazidas pelos movimentos ambientalistas, que indicam a completa falta de senso ao propor uma obra de tamanho impacto junto a uma floresta que está descrita pela revista Piauí como “uma área de 2 milhões de metros quadrados, no subúrbio carioca de Marechal Deodoro, onde habitam capivaras, tatus, guaxinins, jacarés, papagaios, corujas e pelo menos 180 mil árvores (há dezoito espécies em extinção, de acordo com uma listagem municipal).” Além disso, a realização de audiências é prevista na legislação para dar oportunidade de participação social nas ações relacionadas ao meio ambiente com uma discussão qualificada do relatório de impacto ambiental. Em meio à pandemia e em formato virtual, este modelo atende a essa previsão legal?

Sobre a Floresta Camboatá, poucos veículos estão de fato repercutindo, com algumas exceções, especialmente pelo trabalho das reportagens da Piauí que acompanha com detalhes o envolvimento do poder público e da política (prefeito, governador e presidente concordam com a obra), do consórcio Rio Motorsports e do grupo Movimento SOS Floresta do Camboatá e do Ministério Público. O jornalismo de forma geral segue o caminho factual e repercute os pontos em que aos agentes públicos agem em relação às pautas. 

Além do ataque à Floresta Camboatá, quantos outros projetos estão tramitando para a destruição ambiental? Como dar conta desta crise em meio a tantas outras? Em 18 de julho, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) completou 20 anos, e a notícia foi dada apenas em mídias ambientais, como O Eco, que destacou a destruição ambiental em curso: “Um dos golpes mais duros propostos foi recortar em uma tacada só 60 unidades de conservação para acomodar a construção de estradas, ferrovias, portos e aeroportos”.

Entre outros exemplos e denúncias, observamos que o desministro Salles segue firme tentando fazer passar a boiada (leia aqui a crítica do Observatório feita pelo colega Roberto Belmonte). Com estes dois temas (Camboatá e SNUC) confirmamos o papel fundamental das mídias ambientais e do jornalismo especializado em meio ambiente para enfrentar o desmonte das políticas ambientais. Aprofundar e qualificar o debate é função social do jornalismo, o que envolve, cada mais mais, tanto a busca da informação relevante quanto o enfrentamento à desinformação. A propósito,  destacamos uma iniciativa recente: a criação de um consórcio contra a desinformação ambiental – o chamado ‘Fakebook.eco’, lançado em junho, com o objetivo de checar mitos, discursos de autoridades públicas e informações falsas que circulam sobre a temática. Trabalho não vai faltar.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br

A “revitalização” dos trechos II e III da orla do Guaíba como risco aos trabalhadores e ao ecossistema citadino

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Matheus Cervo*

No mês de junho, precisei me deslocar pela cidade para receber um serviço essencial. Passei pela orla do Guaíba e fiquei espantado com o que vi: a margem do Guaíba estava extremamente desmatada com muitos trabalhadores operando mesmo neste período de pandemia.

Pesquisei e vi que Porto Alegre continua no ritmo da transformação urbana a todo custo com o Programa ORLA POA – programa de “revitalização” da orla centro/sul da capital gaúcha. Conforme site da própria prefeitura, os trechos II e III das obras continuam em andamento apesar da situação pandêmica que a cidade enfrenta. Ao entrarmos na matéria “Obras do trecho 3 da Orla do Guaíba avançam mesmo com impacto da pandemia” publicada em 26/05/2020, recebemos um pop-up que avisa a todos os habitantes da cidade que estamos enfrentando o “Desafio Porto Alegre” para chegarmos em 55% de isolamento social na capital. Após fechar o pop-up, encontramos duas imagens de trabalhadores operando na transformação da orla do Guaíba.

Fonte: Site da Prefeitura de Porto Alegre, 2020

Imagens 2 e 3 – Porto Alegre, RS – 26/05/2020: Prefeito Nelson Marchezan Junior e o Secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, Marcelo Gazen, realizam visita as obras do Trecho 3 da Orla

Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020
Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020

Essa comunicação paradoxal da prefeitura também está expressa no texto que noticia heroicamente que o “o impacto da pandemia do novo coronavírus vem sendo absorvido pelo consórcio que realiza as obras […]”. Procurei matérias jornalísticas sobre essa questão em específico e fiquei espantando com a forma de cobertura dessa pauta sobre a cidade em 2020.

O Jornal do Comércio, em 20/03/2020, apenas noticiou que o trecho 2 foi suspenso por tempo indeterminado e ainda ressaltou que a concessionária responsável pela obra “ficará encarregada […] do cuidado com a flora e a fauna do parque”. Publicou ainda um artigo em 02/07/2020 em que é emitida a opinião de que a gestão municipal está acertando em não parar as obras para tornar a cidade “muito mais bonita, funcional e atrativa”.

A Zero Hora segue uma forma de cobertura semelhante em duas matérias: 1) uma em 20/03/2020 que somente mostrou a suspensão temporária da licitação do trecho que terá uma roda-gigante; 2) outra em 24/04/2020 que apenas mostra que as obras foram retomadas com previsão de conclusão em outubro. Além disso, o veículo publicou matéria em 02/07/2020 que mostra simulações da mega pista de skate que está sendo construída em tempo de pandemia. O Sul21 também noticiou matéria sobre a roda-gigante em 14/01/2020 e não pautou mais essa questão desde então.

Existem outros exemplos de matérias jornalísticas publicadas neste primeiro semestre de 2020, mas a base da discussão que aqui levanto é geral para a comunicação desta pauta em Porto Alegre. Primeiramente, está sendo feita pouca crítica ao trabalho de obras nos trechos II e III da orla do guaíba na pandemia. Em segundo lugar, não há sinal de uma crítica aos impactos socioambientais que essa grande obra tem à nossa cidade e à nossa relação com o rio/lago.

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Há, sim, uma glorificação do projeto imbuída no uso das palavras “revitalização”, “embelezamento”, “roda-gigante”, “maior pista de skate da América Latina”. A noção de progresso aliada ao gigantismo das concepções modernas de espaço urbano são glorificadas mesmo que isso esteja causando um risco enorme aos trabalhadores (não há forma de criar segurança nessa situação pandêmica como algumas dessas matérias afirmam) e aos ecossistemas existentes na nossa urbe. Acredito que precisamos pensar melhor essa pauta em 2020.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605.

Pela maior inclusão da ecologia no debate progressista: responsabilidades e confluências políticas e jornalísticas

Fonte: Pixabay

Inimigo de maior urgência da sociedade global hoje, a pandemia do novo coronavírus não está desassociada a fatores ambientais de diversas esferas, cuja discussão já foi abordada neste Observatório. Sabemos, ainda, que a redução prevista de cerca de 7% nas emissões de carbono em virtude da recessão causada pela pandemia, embora positiva para uma “conta climática” de 2020, não será suficiente na luta contra as mudanças climáticas, caso a retomada econômica permaneça — como foi no pós-crise de 2008 — ainda baseada em combustíveis fósseis e nos velhos modelos de desenvolvimento. 

Assistimos ainda, como contraponto à onda populista e negacionista que se alastrou e elegeu políticos de altos escalões em muitos países, os partidos ecológicos ganharem paulatinamente maior espaço na Europa, com capacidade de influenciar positivamente o debate sobre um pacto verde para a retomada econômica no continente. Já nos Estados Unidos, a antes utópica — e já rejeitada no Senado americano — proposta de um Green New Deal parece ressurgir no programa democrata de Joe Biden para as eleições deste ano. A coluna de Mathias Alencastro para a Folha de São Paulo passa por esses pontos para afirmar que, no contexto brasileiro, a pauta ecológica e a urgência climática estão ausentes dos debates e de tentativas de criação de um Frente Ampla progressista no país. Argumenta-se que apesar dos ataques estarem concentrados, com razão, na criminosa gestão de Salles e em temas consensuais como o desmatamento, pouco se fala sobre a “necessidade de um programa de reorganização industrial e financeira adaptado ao desafio ecológico”.

 Para além de nossas fronteiras e problemas domésticos, uma notícia que correu o mundo nas últimas semanas foi o recorde de 38ºC registrado numa cidade da Sibéria. A pequena notícia da Associated Press, publicada pelo portal G1, permanece na superfície do tema e sequer menciona o aquecimento global. A matéria da Folha sobre o mesmo assunto, ao contrário, contextualiza e amplia as dimensões ligadas às mudanças climática naquela região, como chuvas torrenciais, incêndios e uma explosão de mariposas devoradora de árvores. 

Ainda segundo a coluna da Folha citada anteriormente, notícias como o superaquecimento do Ártico são frequentemente ignoradas pelas redes sociais de políticos progressistas brasileiros. De fato, falar em reorganização econômica verde no desastroso cenário político de um país em frangalhos parece soar totalmente descolado da realidade nacional. Mas se mesmo líderes políticos de oposição custam a se apropriarem da pauta, cabe ao jornalismo, como importante impulsionador do debate político, cumprir seu papel social e trazer à tona, com profundidade, as nuances do maior desafio de nossos tempos. 

Se entendemos que uma maior inserção do debate climático no Brasil passa, necessariamente, pelas responsabilidades e confluências das searas política e jornalística, cabe nossa menção a um importante personagem que fará falta justamente pela capacidade de introdução da pauta ambiental nestas duas esferas: Alfredo Sirkis, jornalista, ex-deputado federal, ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, falecido dias após lançar “Descarbonário”, seu novo livro que trata de mudanças climáticas. Sirkis vinha militando pela colocação, na pauta nacional e mundial, do debate sobre a valoração econômica do “menos carbono”, expostas nesta entrevista ao jornal Le Monde e traduzida pelo portal da think thank Centro Brasil no Clima. Militância e propostas ousadas, como devem ser, para um desafio urgente que se descortinará ao crepúsculo da atual pandemia, e que deve habitar redações e parlamentos mundo à fora. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

No caminho da praga, tinha um ser humano

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada pela Agência Pública
Por Carine Massierer*

No final de junho, uma grande nuvem de gafanhotos vinda da Argentina ameaçou chegar à fronteira brasileira. O Ministério da Agricultura do Brasil publicou uma portaria declarando estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Essa medida tem duração de um ano e permite, temporariamente, a contratação de pessoal, a importação de agrotóxicos para conter a praga e a flexibilização do uso dos produtos já autorizados para novas culturas. Com isso, pode ser aprovado o uso de agrotóxicos que não estariam autorizados para o controle de gafanhotos.

A decisão tomou as páginas dos principais jornais do Brasil, como a Folha de São Paulo (Ministério declara emergência em RS e SC para combate de gafanhotos) que fez matéria expondo a decisão ministerial e o monitoramento dos gafanhotos feito pelo governo do estado. Mesmo assim, não aprofundou a informação sobre as possíveis causas do fenômeno. Diante dessa forma de comunicar este problema socioambiental, os questionamentos se mantiveram: quais as causas desse fenômeno? 

Também encontrei matérias do Correio do Povo (Entenda o fenômeno da nuvem de gafanhotos que assola o Norte da Argentina), do UOL Economia (Como se forma uma nuvem de gafanhotos? É comum? Veja perguntas e respostas) e da Agência Pública (Para combater nuvem de gafanhotos, governo libera mais usos para agrotóxicos). Esses jornais dedicaram mais espaço para explicações científicas de como se formam as nuvens de gafanhotos. A Agência Pública e a Repórter Brasil ouviram cinco pesquisadores em entomologia – o estudo dos insetos – para entender como a ação humana influencia este fenômeno.

Um dos motivos para a formação dessas nuvens são as mudanças climáticas. Estamos vivendo períodos de temperaturas altas com clima seco na entrada do inverno (enquanto o habitual seria as temperaturas baixas na região sul do Brasil), o que favoreceu  a proliferação dos insetos. Outra causa é a eliminação dos inimigos naturais do gafanhoto (pássaros, sapos, fungos e bactérias) parcialmente ocasionado pelo uso incorreto e abusivo de inseticidas e agrotóxicos.

Esses argumentos corroboram com o alerta  de Loose (Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento) sobre como o jornalismo deve agir frente esses fenômenos:

Urge que o jornalismo tome o tema como central seja pelo seu compromisso com o interesse público (já que falamos da sobrevivência da humanidade), seja pela premência do problema (que pode ser mais rapidamente enfrentado com a colaboração da imprensa, que constrói sentidos de riscos e possibilidades de combatê-los)”.

O assunto ainda carece de mais atenção, especialmente no que tange a medidas de mitigação e adaptação – respostas que mostram que é possível viver sob outras lógicas menos danosas ao planeta e à nossa própria espécie.

Referências: 

BELING LOOSE, Eloisa. Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento. Revista Alceu, v. 20, n. 38, 2019, p. 107-128.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Sustentabilidade no jornal: conteúdo patrocinado

*Eutalita Bezerra

Tem cara de jornalismo, está onde deveria estar o jornalismo. Mas é publicidade. Nos últimos dias, diversos informes publicitários a respeito da sustentabilidade tomaram espaço em páginas de jornais conhecidos. Um conceito que, muitas vezes, tem cara de preocupação com o meio ambiente, está onde deveria estar a preocupação com o meio ambiente. Mas também é só publicidade.

Não é novidade que o conteúdo de marca tem se apropriado da construção discursiva típica do jornalismo a fim de disseminar publicidade como se fosse notícia. Admitimos publicações dos últimos dias sobre o assunto como temática desta análise por se tratar de momento em que alargar as discussões sobre sustentabilidade é imperativo.
Em conteúdo patrocinado, que questiona “Como sustentabilidade e o agronegócio podem ser aliados?” , a Chevrolet sugere que está interligação beneficia tanto os consumidores, com alimentos mais saudáveis, como os produtores, que podem cobrar mais caro e “acessar mercados mais exigentes”. O material publicado no G1 no último dia 19 de junho, oferece como exemplo fazendas que unem a preservação do meio ambiente com a sua produção – que inclui pecuária extensiva, sabidamente problemática do ponto de vista ambiental. É claro que o informe não poderia desprezar a citação à produção orgânica, assunto que já está, de certa maneira, cristalizado no conhecimento do leitor médio como sendo, de fato, benéfico. A empresa se utiliza deste discurso para reforçar que é possível conectar a agricultura em larga escala com a sustentabilidade, levando a crer que aquela é a lógica que recorre no setor.

O Correio da Bahia também publicou material publicitário sobre o assunto poucos dias depois. O texto “sustentabilidade: um compromisso de todos”, foi produzido pelo Estúdio Correio, braço do jornal voltado à publicidade. Embora inicie se referindo à Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, se percebe rapidamente que a proposta é apresentar as ações da Multinacional Bracell, produtora de celulose solúvel que cultiva eucalipto em 31 municípios baianos. A empresa, segundo a publicação, “busca preservar, manter e estudar a biodiversidade das áreas onde atua”. Recorde-se que a produção de celulose é altamente poluente do ar, da água, e que a plantação de eucalipto é deveras danosa à terra. Nenhum desses assuntos, por certo, aparece num conteúdo patrocinado, que se assemelha ao discurso jornalístico na sua feitura, mas nada tem em comum com os preceitos que regem está atividade.

Destacamos tais passagens para reforçar a necessidade de se tomar o discurso sobre sustentabilidade a partir do jornalismo, questionando empresas e instituições sobre aquilo que o discurso publicitário – que há tantos anos abraça esse conceito como maquiagem para as suas campanhas – tem apagado. Que pensemos sobre este conceito – o da sustentabilidade – tal como o mundo pede que ele seja: referente à proteção do meio ambiente como sujeito, interligando-se a questões como bem-viver e as perspectivas dos povos originários, afastando-se do ponto de vista mercadológico em que, em geral, a palavra é empregada. Somente então falaremos de sustentabilidade que não é publicidade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*

“Quando o Brasil vai entender que sem os povos indígenas nós não vamos constituir uma nação?”

Eliege Fante*

A descontinuidade da cobertura jornalística possivelmente seja uma das causas do nosso precário conhecimento sobre a questão indígena. A essa abordagem insuficiente relaciona-se a falta de reação à altura por parte dos cidadãos brasileiros diante da iminência de genocídio dos povos originários, apesar das inúmeras denúncias de diversas entidades. Isto é expresso na pergunta-título, feita por Ailton Krenak em sua palestra no Simpósio “Ciência, Arte e Educação em tempos de pandemia” em 12 de junho de 2020. A crítica que toca, inclusive ou principalmente, a comunicação social hegemônica está na invisibilidade sobre esses povos, “mesmo no período de vida democrática do nosso país”, salientou.
Segundo Krenak, “Temos um governo que está a cada dia e a cada semana produzindo um novo instrumento de violência, de negação dos direitos dos povos que vivem na floresta [e em outras regiões do país onde conflitos fundiários sempre incidem sobre territórios indígenas] e uma cooptação da opinião pública desinformada sobre esses povos”. De fato, é a internet através das redes sociais que tem “noticiado” muitas mobilizações relevantes, ao contrário do que tem feito os meios/empresas de comunicação hegemônica de modo geral. Foi dessa maneira que ficamos sabendo, na semana passada, da nona entrega em apenas três meses de alimentos, roupas, cobertas, cobertores, garrafas de vidro, duas mudas, sendo uma de abacate e outra de araucária, ao povo da Retomada Indígena de Maquiné (RS). Um coletivo de voluntários organizou uma campanha permanente porque “toda ajuda é bem-vinda e necessária” diante do abandono e negligência dos órgãos públicos em plena pandemia da Covid-19. Residem na aldeia 15 famílias com 37 crianças, cuja sobrevivência dependia da venda do artesanato nas cidades.
Um voluntário dessa mobilização nos contou que, no início da pandemia, os órgãos públicos ligados à questão indígena realizaram uma entrega de alimentos e outros recursos, como máscaras e álcool gel. Esta entrega foi repercutida em alguns meios/empresas de comunicação hegemônica, talvez devido a predileção por fontes oficiais. Contudo, os/as jornalistas sabem que as fontes de credibilidade não são apenas aquelas ligadas aos poderes de Estado ou aquelas autorizadas pela política editorial/comercial das empresas. As fontes estão envolvidas com os fatos e têm informações constantes, como é o caso dos integrantes de movimentos sociais e entidades não-governamentais, além, evidentemente, dos próprios envolvidos que, não raro, não têm vínculo algum com nenhuma organização. Ao mesmo tempo, não desconsideramos que os órgãos dos governos devem ser cobrados pela imprensa sobre as informações e a garantia do atendimento das necessidades nas aldeias e não apenas neste período de isolamento/distanciamento social, mas também em favor das demarcações dos territórios e outras demandas da população indígena.

Fonte: Captura de tela do site Cimi

Contudo, não será a falta de informação que dificultará a continuidade da cobertura da pauta indígena nem o nosso acompanhamento sobre este tema essencial. O site do Conselho Indigenista Missionário abriu a editoria “Povos indígenas e o coronavírus” para manter as informações de contágio atualizadas. Ao mesmo tempo, encontrar fontes indígenas e escutá-las durante a pandemia é uma possibilidade inadiável através dos diversos sites e redes sociais que trazem a comunicação social indígena, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Mídia Índia e a Comunicação Kuery.

*Jornalista pós-graduada em Comunicação e Informação PPGCOM-UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e filiada ao Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

As marcas da pandemia na sociedade e no meio ambiente

Patrícia Kolling*

Fonte: Captura de tela da Folha de São Paulo

Na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente dezenas de lives debateram a questão ambiental. No Brasil, o Programa de Meio Ambiente, da Organização das Nações Unidas, promoveu os debates A Hora da Natureza, que no dia 04 de junho reuniu Sebastião Salgado e Rosyska Darcy. O projeto 342 Amazônia permitiu o encontro de André Trigueiro e Caetano Veloso falando sobre meio ambiente e promovendo o lançamento do playlist do projeto, com música gravadas no ano passado. No dia 5, uma mega live de cinco horas reuniu diferentes pessoas em torno do tema, desde artistas, cientistas, pesquisadores, lideranças e representantes indígenas. Os debates em plataformas digitais surpreendem pela diversidade humana, o que num evento presencial seria improvável, devido aos altos custos e logísticas de deslocamento. Além disso, por ser remota a participação de todos, sem dúvida, a poluição causada pelo deslocamento das pessoas em carros e aviões caiu a zero. E por estar disponível na internet, pode proporcionar o acesso a milhares de pessoas que não teriam condições de se deslocar a um evento presencial, promovendo a democratização da informação. Oxalá, que essa uma forma de encontro e comunicação perdure pós pandemia.

Mas semana do meio ambiente a temática ambiental não teve lá muito destaque na imprensa brasileira. A data coincidiu com uma semana de recorde nos números de mortos pela Covid19. Felizmente, entretanto, a pauta socioambiental tem ganhado espaço nos meios de comunicação nas últimas semanas, apesar da pandemia. Matérias sobre a situação do desmatamento, queimadas e garimpo na Amazônia têm tido repercussões em vários veículos. 

Um caso chama atenção por unir o tema preponderante no momento com a questão ambiental. Na Folha de S.Paulo, a repórter Ana Carolina Amaral destaca que, neste ano, o ar está mais limpo, as cidades com menos ruídos, é possível ver animais circulando mais próximos das ocupações humanas e as emissões  de gases-estufa foram reduzidas, apesar do desmatamento, as queimadas  e o garimpo ilegal na floresta Amazônica terem apresentados números elevados nos últimos meses (ver: Queda na poluição inspira busca de soluções sustentáveis pós pandemia). De acordo com a Global Carbon Project, as emissões de carbono devem cair entre 4 e 7% no mundo, principalmente devido à queda de 50% nas emissões de transportes superficiais ao redor do globo. Segundo a matéria, se a taxa for mantida anualmente, por meio de políticas de retomada econômica, o mundo poderia cumprir o acordo de Paris e evitar as graves consequências do aquecimento global. 

A pergunta que nos instiga neste momento é exatamente neste sentido: será que teremos condições, interesse e ações para manter reduzidos os níveis de poluição do ar, da água e poluição sonora, a partir do momento que os números de mortes e infectados pelo coronavírus diminuir, as pessoas começarem a sair do isolamento e as empresas retomarem produção e comercialização?

A repórter da Folha refere-se no texto ao manifesto “Queremos respirar um novo agora”, elaborado por 24 Organizações Não-Governamentais. O documento solicita ao poder público que na retomada econômica inclua condicionantes ambientais nos pacotes de ajuda ao setor privado.  Entre as medidas sugeridas estão a produção de veículos mais limpos, incentivo ao transporte individual ativo com o planejamento de vias urbanas para pedestres e ciclistas, frota de ônibus não poluentes e o combate ao desmatamento e as queimadas. Infelizmente, na China, onde a retomada econômica já está em curso, os índices de poluição também já retomaram os números anteriores ao período crítico da pandemia.

No debate A Hora da Natureza, o fotografo Sebastião Salgado e a escritora Rosyska Darcy defenderam mudanças mais profundas e individuais que a quarentena pode ser capaz de promover. Sebastião Salgado nos fez refletir sobre o que é essencial para sobrevivermos. Quando apenas os comércios essenciais estavam funcionando, continuamos vivendo muito bem, com o que já tínhamos a nosso dispor, argumentou. Fica a pergunta: o que é essencial para vivermos bem? Rosyska Darcy destacou a vida em comunidade, as relações com as pessoas e a vida rodeada de nossos afetos. “É preciso repensar o cotidiano. O que pra nós faz sentido? Esse algo novo que precisa ser construído é o bem estar das pessoas. Um viver menos submetido a ganancia. Um bem estar que vale a noção de sustentabilidade”, respondeu. 

Para ambos, mais do que ações grandiosas para se viver num mundo novo e melhor, a mudança está na vida comunitária e na solidariedade. “Fala-se em construir um mundo novo, diria que esse mundo mais justo e solidário, começa com mais intensidade agora no auge da pandemia. Se ele não começa agora, eu tenho sérias dúvidas que vingará amanhã. A solidariedade precisa ser exercida agora como virtude cívica e obrigação moral”, defendeu Rosyska.  Sebastião Salgado reforçou que isso requer a participação de todas as pessoas: “A necessidade de todos irmos para o debate. Todos irmos para a solidariedade. Todos exercermos respeito pelo outro”. A perspectiva reforça o trabalho comunitário e democrático: “O problema é pessoal, é autocritica, é necessário olhar para si. Só vamos construir com os outros… sozinhos não vamos conseguir”, concluiu o fotógrafo. 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e  professora da UFMT

Quem tem medo do jornalismo engajado?

Fonte: Captura de Tela do site do projeto “De olho nos ruralistas”

Por Débora Gallas Steigleder*

“Faça textos imparciais e objetivos”, recomenda o Manual de Redação do jornal O Estado de São Paulo aos editores, repórteres e redatores da empresa. De fato, a precisão é um valor essencial à produção noticiosa. Um texto baseado em juízos de valor, além de não informar, pode confundir e desorientar. Não é jornalismo, portanto. Porém, proponho aqui entender a função do jornalismo para além de categorias que aparecem a ele associadas de forma recorrente, como “imparcialidade”, “objetividade” e “neutralidade”.
O engajamento não nega o ímpeto de perseguir a objetividade enquanto método de apuração e verificação dos fatos, mas rompe com a crença de que o jornalista consegue se despir de sua subjetividade no exercício da atividade. Por isso, costuma ficar de fora do rol dos ideais identificados com o jornalismo. Quando defendemos o engajamento como um elemento característico do jornalismo ambiental, entendemos que se trata de um caminho para garantir coerência com a pauta abordada.
As críticas ao engajamento envolvem o temor de que o jornalismo flerte com o ativismo e que isso levaria à perda de credibilidade. No entanto, o momento atual é de disputa pela sobrevivência. Para conectar o público a pautas de urgência como o caos climático e a conexão entre a devastação ambiental à propagação da pandemia do COVID-19, é necessário agregar às estratégias de sensibilização do público formatos que ultrapassem a impessoalidade associada ao jornalismo tradicional e ilustrem as conexões entre os fenômenos da realidade.
Iniciativas derivadas de posturas engajadas têm como aspectos positivos a transparência sobre a orientação político-ideológica e a independência em relação ao financiamento, já que um veículo com posicionamento crítico ao agronegócio não aceitará publicidade ou patrocínio desse setor, por exemplo. É o que propõe o projeto De Olho Nos Ruralistas ao repercutir o processo de devastação ambiental sob o governo de Jair Bolsonaro.

No dia 26 de maio, o texto de Alceu Luís Castilho informou detalhadamente as entidades responsáveis por veicular anúncio de apoio à gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A publicação retomou levantamento realizado pelo próprio portal em 2019 com a lista de empresas que financiam a Frente Parlamentar Agropecuária através de associações do agronegócio brasileiro. O assunto foi retomado por conta do discurso de Salles durante a reunião ministerial de 22 de abril, em que o ministro defendeu aproveitar o foco da cobertura jornalística da pandemia para “ir passando a boiada” e afrouxar ainda mais os regramentos das políticas públicas ambientais. Na mesma semana, também repercutindo a frase de Salles, Observatório do Clima, ClimaInfo e Greenpeace Brasil iniciaram uma campanha nas redes sociais intitulada #nomeaosbois, pela qual cobraram posicionamento público das empresas representadas pelas entidades que assinaram o manifesto em apoio ao ministro. Neste caso, o jornalismo engajado esteve em sintonia com outras estratégias de comunicação que buscaram dar visibilidade à pauta e mobilizar o debate público sobre as responsabilidades do governo e do setor privado na crise ambiental.
Esta ampliação do diálogo entre jornalismo e outros atores é um movimento muito importante no contexto atual de devastação dos biomas brasileiros que pode ser irreversível. Não temos mais tempo: o jornalismo precisa incorporar novos elementos de sensibilização do público para atentar à urgência do tema. Isto não significa renunciar aos seus princípios e valores ou às formas já consolidadas da atividade jornalística; significa, apenas, a ampliação de possibilidades nas coberturas. A pluralidade de olhares e abordagens será bem-vinda para uma mobilização social representativa.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).