Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

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Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).