Paulo Guedes e o perigo do jornalismo declaratório

Imagem: captura de tela do site G1
Por Nicole Saft*

Na semana passada, ocorreu em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial. O Brasil esteve lá representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Eis que na terça-feira, dia 21, nosso nobre ministro faz a seguinte declaração: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Essas frases foram proferidas enquanto ele comentava a relação entre o meio ambiente e a indústria. Pelo que o ministro explicou depois, ele estava se referindo aos países que já destruíram suas florestas e são ricos, que eles agora coseguem se preocupar com o meio ambiente, enquanto o Brasil, por ser ainda um país pobre, tem outras questões mais urgentes.

A infeliz declaração foi título de matérias em diversos jornais, G1 e Folha de S. Paulo   como exemplos. E o jornalismo declaratório ataca novamente. Essas matérias em nenhum momento problematizam a fala de Paulo Guedes, apenas situam a declaração. No governo Bolsonaro, frases “polêmicas” de nossos comandantes ganham manchetes toda semana.  Mesmo depois de um ano, parece que ainda não sabemos como lidar com elas. Damos atenção? Nos revoltamos? Acusamos de “cortina de fumaça”? Não acredito que haja uma resposta certa, mas sei como o jornalismo não deveria tratar essas declarações.

Paulo Guedes é uma figura de autoridade. Segundo Datafolha de dezembro, o ministro é aprovado por 39% das pessoas que souberam identificá-lo. Ou seja, quando um veículo de jornalismo coloca como título “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza – diz Paulo Guedes” e a matéria não fornece informações contrárias, muita gente tende a acreditar que o que o ministro diz é verdade. Nós lemos a matéria a partir de vieses previamente estabelecidos de “Eu apoio Paulo Guedes” ou “Eu não apoio Paulo Guedes”, e como não há um aprofundamento da discussão, só confirmamos o que achávamos da questão.

Mesmo aqueles que são contra o governo, contra Paulo Guedes, podem pasar desapercebidos pela declaração e acreditar que é verdade. Isso porque, como mostra os estudos do psicólogo Daniel Gilbert nos anos 90, não acreditar em uma sentença envolve um segundo passo ativo de descrença, após o primeiro passo natural e passivo de acreditar que o que ouvimos e lemos é verdade. Essa inclusive é uma das facilidades de se propagar desinformação, a qual devemos combater. É um dos grandes perigos do jornalismo declaratório.

E para a discussão da questão de se são os pobres os maiores inimigos do meio ambiente, deixo algumas sugestões. Nesse último sábado, dia 25, completou-se um ano do crime de Brumadinho. Um ano que o rompimento da barragem da Mina do Feijão causou a morte de 259 pessoas. E esse é um crime ambiental que tem culpado, e não é a pobreza. A Vale, responsável pela barragem – também uma das empresas responsáveis por despejar 39 milhões de m³ de lama tóxica no Rio Doce no crime de Mariana em 2015 – já recuperou seu valor de mercado e agora atua buscando lucro. Como mostra a reportagem do Fantástico desse domingo, a empresa sabia os riscos de rompimento da barragem, mas não agiu a respeito. 

Essa discussão vai de encontro a outra, uma disputa semântica. Antropoceno é um conceito utilizado por diversos cientistas para caracterizar o período geológico em que vivemos, marcado pelas mudanças causadas pela ação humana. É um conceito que surgiu na década de 80 e desde lá ganha popularidade. Antropoceno é uma época demarcada pela capacidade humana de intervenção na Terra a partir da industrialização. Entretanto, o termo ainda é discutido, como mostra o artigo do professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Dr. Eduardo Álvares da Silva Barcelos no volume 31 da Revista Iberoamericana de Economia Ecológica. O artigo aborda um outro termo para definir esta era, Capitaloceno. Conforme conta Barcelos, em 2013, o historiador ambiental Jason Moore lançou a seguinte pergunta:

Estamos realmente vivendo o Antropoceno – com seu retorno a um ponto de vista curiosamente eurocêntrico da humanidade e sua confiança em noções e recursos bem estabelecidos e consolidados de seu determinismo tecnológico – ou estamos vivendo o Capitaloceno, uma era histórica formada por relações que privilegiam a acumulação interminável de capital?

O conceito surge mais como uma crítica a uma determinada narrativa do tempo do que como uma proposta de mudança de termo. Serve para não nos acomodarmos com a ideia de que não há alternativas, afinal destruir o meio ambente é da “natureza do homem”. Uma ideia no mesmo estilo de “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. 

Quando pensamos na fala do ministro não ligamos diretamente a Brumadinho, mas podemos. Podemos ligar a outras várias discussões em andamento. Enquanto o jornalismo se mantém “chapa branca” e puramente declaratório, a desinformação se espalha. Então, será que o jornalismo não deveria fornecer informação de qualidade para que o leitor tire suas conclusões e ter a responsabilidade de refletir sobre o que está sendo dito?

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Potencialidades e carências no jornalismo local sobre meio ambiente

Por Débora Gallas Steigleder *

Conforme a terceira edição do Atlas da Notícia, publicada no final de 2019, aproximadamente 75% dos municípios da Região Sul do Brasil são enquadrados como desertos ou quase desertos de notícias, onde não há quaisquer veículos jornalísticos ou, na melhor das hipóteses, existem apenas um ou dois deles. Viamão, município vizinho à capital sul-riograndense, Porto Alegre, não está enquadrado enquanto deserto de notícias, pois possui dez veículos listados em pesquisa no realizada no site do projeto. No entanto, foi difícil encontrar textos jornalísticos sobre o tema escolhido para análise desta semana no Observatório: o projeto de implantação de aterro sanitário na área rural do município, nas proximidades da Aldeia Guarani Cantagalo e de propriedades de produção de alimentos orgânicos.

Proposto pela Prefeitura de Viamão no início de 2019, o projeto recebeu inúmeras críticas da população local, repercutidas à época por veículos regionais de grande expressividade, como os jornais Zero Hora e Correio do Povo. Pelo fato de a comunidade local seguir mobilizada contra o empreendimento e por conta do agendamento de uma consulta pública pela Prefeitura, realizada na última terça-feira, 14 de janeiro, era de se esperar que as mídias locais estivessem atentas aos desdobramentos desse debate público de relevância para o município. Porém, afora postagens de cidadãos e figuras públicas nas redes sociais, não localizamos cobertura jornalística sobre o acontecimento.

De acordo com busca na ferramenta Google Notícias no dia 15 de janeiro, a única menção de caráter jornalístico à audiência pública aparece em texto do jornal Brasil de Fato publicado em sete de janeiro. O foco da notícia, no entanto, é a aprovação do Projeto de Lei 185/2019, que obriga a aprovação legislativa para instalação de empreendimentos de aterro sanitário, reciclagem e manuseio de lixo no município. Em buscas realizadas individualmente nos portais de veículos locais e regionais, nenhuma menção à realização de audiência pública ou aos desdobramentos do debate sobre a instalação do aterro sanitário – assim como no site da Prefeitura Municipal de Viamão.

Na página do Facebook Correio Viamonense, a qual conta com mais de 12 mil curtidas e se intitula enquanto empresa de mídia com sede em Viamão, há um post com foto da audiência pública e texto contrário ao projeto. Embora não apareça no Atlas da Notícia e seu conteúdo possa não ser caracterizado enquanto jornalismo por replicar textos e imagens sem indicar fonte ou por compartilhar postagens de perfis pessoais, por exemplo, é possível crer que tal página seja resultado de uma ação popular a fim de repercutir assuntos de interesse público. Isto porque, em comparação, a página do Diário de Viamão, veículo listado no Atlas da Notícia e que conta com mais de 23 mil curtidas, não publica quaisquer atualizações desde o dia 4 de janeiro.

Na série O jornalismo no Brasil em 2020, o fortalecimento do jornalismo local foi apontado por Nina Weingrill como uma urgência frente ao crescimento dos desertos de notícias. E são iniciativas da própria comunidade que podem suprir o vazio informativo, ainda que soluções para a sobrevivência financeira precisem ser testadas e aprimoradas. No caso de temas ambientais, esta necessidade é ainda mais evidente. Pautas relevantes para atuais e futuras gerações de comunidades heterogêneas como a população rural de Viamão, em vias de ser diretamente impactada pelo empreendimento do aterro sanitário, seguem invisibilizadas no contexto de crise do jornalismo enquanto instituição e modelo de negócios. 

Imagem 1: Resultado de busca por veículos do município de Viamão no portal Atlas da Notícia
Imagem 2: Resultado de busca no Google Notícias com os termos “aterro sanitário Viamão”

Imagem 3: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook Correio Viamonense

Imagem 4: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook do vereador Guto Lopes

Imagem 5: Resultado de busca de notícias mais recentes no site do Diário de Viamão
*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

“O homem é o que a terra, ou o solo, faz dele.”

Imagem: Ana Maria Primavesi (Divulgação)
Por Eliege Fante*

Em acordo com a frase do título, pode muito bem ser por isso que o ser humano anda tão adoecido, subnutrido ou tentando completar a sua nutrição buscando minerais, vitaminas, etc., além das refeições. Ou o que responderia Ana Maria Primavesi, se é que já não respondeu em um dos trabalhos entre as centenas que estão disponíveis para o nosso conhecimento no site que leva o seu nome.O solo da agricultura em grande escala ou empresarial, aquela das monoculturas e das commodities, vem sendo maltratado sob a pulverização de um número cada vez maior de agrotóxicos (em quantidade e toxicidade). Imaginemos o impacto sobre quatro quintos das terras do país, que segundo notícia da Agência Brasil, ainda em 2014 estavam sob o poder das médias e grandes propriedades rurais.

O manejo do solo era considerado errado pela agrônoma e pioneira da agroecologia em 1980. Em notícia veiculada em Zero Hora à época, ela afirmava que o Brasil não tinha uma política nacional de conservação de solos: “Quando se permite o desmatamento de enormes áreas, não existe política de conservação do solo”. Lembremos das queimadas provocadas nos estados do bioma amazônico em agosto de 2019, ações que ainda não cessaram por completo. E a mudança do clima também preocupava há 40 anos: “Existem leis que não são cumpridas e a modificação do clima, que tanto reclamam, está havendo em decorrência de uma intromissão sem planejamento”. As leis não só não são cumpridas como têm sido muito alteradas.

É o caso do “novo” Código do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. Nos últimos 15 anos foram noticiadas as demandas dos setores produtivos por atualização, flexibilização, modernização das regras, etc. Antes de terminar o primeiro ano de mandato, o governador Eduardo Leite (PSDB, 2019-2022) conseguiu a aprovação por maioria dos deputados do projeto de lei 431 de 2019 que tinha 480 alterações, definidas e escritas não se sabe por quem, conforme reportado pelo jornal Extra Classe no mês passado.

Recordemos que em 2009, o projeto de lei (PL) 154 do Executivo (Yeda Crusius, PSDB, 2007-2010) propunha “mesclar” todos os códigos em um só: o ambiental, o florestal, o de recursos hídricos e de solos (CP, 28 out. 2009). Mas foi tanta inconstitucionalidade que a Associação do Ministério Público sugeriu aos deputados que não o levassem ao plenário da Assembleia para votação (CP, 10 nov. 2009). E assim aquele PL acabou arquivado.

No Brasil pós-Golpe de 2016 com a radicalização do discurso neoliberal o “novo” Código foi publicado no Diário Oficial de 9 de janeiro de 2020, como Lei 15.434 que “Institui o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do RS”, ignorando a já instituída Lei 11.520 de 2000 e trabalhada por quase uma década com diversificada participação de atores sociais. Em acordo com as próprias demandas dos setores produtivos para uma alteração nesta lei, não teria sido mais adequado o verbo “Atualiza” do que “Institui”?

Ana Maria Primavesi, a agrônoma que faleceu aos 99 anos no quinto dia de 2020, dialogou por oito décadas com inúmeros atores sociais e de todas as classes. Que a pertinência do seu exemplo e de seus ensinamentos para o presente seja reconhecida também pelos jornalistas, a quem cabe informar a sociedade sobre a cronologia e as consequências do desmonte das políticas públicas ambientais.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

As narrativas restaurativas do podcast Mamilos

Imagem: captura de tela – Juliana Wallauer e Cris Bartis praticam um jornalismo de peito aberto no podcast Mamilos
Roberto Villar Belmonte*

O Pulitzer, principal prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, anunciou, dia 5 de dezembro, uma nova categoria: reportagem em áudio. “O renascimento do jornalismo em áudio nos últimos anos deu origem a uma extraordinária variedade de histórias de não ficção”, reconheceu Dana Canedy, administradora da premiação. Em parte isso ocorre em função do sucesso de público dos podcasts, fenômeno também observado no Brasil. Por aqui, um dos programas semanais de maior audiência é o Mamilos, produzido e apresentado por Juliana Wallauer e Cris Bartis desde 2014.

A proposta das duas é colocar semanalmente no ar o que elas chamam de narrativas restaurativas, uma espécie de jornalismo de paz para compreender temas polêmicos da atualidade. “Estamos mais preocupadas em criar pontes do que provar pontos”, afirmou Cris Bartis em um TEDx Talks em junho. Suas fontes sempre têm algo interessante pra dizer, mas também são pessoas interessadas em ouvir. “A gente conversa pra conectar, para mostrar nossa humanidade, pra mostrar que tem gente envolvida”, disse a apresentadora.

O episódio 229, Alter do Chão: paraíso em disputa , que foi ao ar dia 9 de dezembro, trouxe uma novidade ao programa. As duas apresentadoras estiveram no interior do Pará colocando em prática uma técnica de reportagem fundamental e que vem sendo destacada com frequência nesse observatório: a imersão. Por coincidência, elas foram convidadas por um dos brigadistas presos em novembro pela Polícia Civil local.

O convite foi feito após o programa “Povos Indígenas: de onde viemos e para onde vamos“, que foi ao ar em agosto desse ano com Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, e Adriana Ramos, especialista em políticas socioambientais e associada do Instituto Socioambiental (ISA).

Mamilos não é um podcast de jornalismo ambiental. Mas o jornalismo de peito aberto realizado nesse programa permite uma abordagem em profundidade dos temas. As narrativas restaurativas não apenas ajudam a construir pontes, mas também ampliam a compreensão do público acerca de temas polêmicos que exigem diferentes pontos de vista para serem tratados. No contexto brasileiro, não é pouca coisa: “Nossa busca, com curiosidade e humildade, é desenvolver um jornalismo construtivo, de soluções, não violento”.

O podcast Mamilos não reproduz notícias em excesso, característica presente em muitos podcasts jornalísticos, que acaba truncando a narrativa, ao invés de ajudar. A edição de áudio é muito bem feita, o que permite um mergulho na conversa das duas apresentadoras. O episódio Alter do chão: Paraíso em Disputa tem quase duas horas, mas a conversa flui de uma maneira agradável.

A observação de ambas, baseada em entrevistas em off para preservar as fontes que vivem na região conflagrada, e as conversas gravadas com os convidados permitem um reflexão profunda sobre a região: “Nessa jornada nos envolvemos em conversas que nos fizeram refletir sobre o direito à terra, a forma como ela é distribuída, como a especulação imobiliária age e afeta as comunidades, como um apanhado de pessoas de diferentes lugares do mundo, com diferentes sonhos e interesses podem formar uma comunidade. Essa expedição contou com muitos convidados. Só é possível pra entender o lugar vivendo o lugar e falando com as pessoas de lá. Muitas conversas foram feitas com gravador e sem gravador”.

Mamilos em estúdio já era um programa diferenciado, pela abordagem em profundidade. Esse episódio sobre Alter do Chão, que resultou de uma jornada no interior do Pará, reafirma a importância da observação, da reportagem, da proximidade com o acontecimento. As apresentadoras não têm uma formação jornalística clássica, não passaram pelas grandes redações do país, mas com essa proposta de narrativa restaurativa produzem um programa jornalístico fora da curva.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo de imersão de Eliane Brum

Patrícia Kolling*

Ela queria “cobrir” o mundo a partir do local que entende ser o centro do mundo, a Amazônia. Para tal, em 2017, fez as malas e mudou-se de São Paulo para Altamira, no Pará. Estamos falando da jornalista e colunista Eliane Brum, que ao participar recentemente do programa Córtex, da mídia independente Estúdio Fluxo , justificou a mudança dizendo: “eu queria inverter o lugar de onde eu olho mundo e o Brasil. Eu intui que isso ia me permitir entender as coisas de uma outra forma, melhor talvez”. Após dois anos morando na Amazônia, ela destaca que já se sente de outro jeito e entende outros jeitos de ser. “A cidade é uma camisa de força de concreto sob a natureza. A gente se desconectou de tal maneira, que não se sente parte de um organismo que é vivo, que é esse planeta. Quando você começa a viver aqui, e eu fico muito na floresta, você começa a se sentir de um outro jeito, entender um outro jeito de ser. Hoje me sinto parte deste planeta de forma orgânica, carne do planeta, o meu jeito de estar nesse planeta já mudou. Mudou até a linguagem. Não tenho palavras, língua, para falar das coisas que eu percebo. Estou buscando aprender outras línguas que possam dar conta desse novo jeito de habitar esse planeta”.

Em tempos em que o jornalismo é cada vez mais produzido em frente ao computador, com o uso da internet, em salas fechadas com ar condicionado, em que a maioria das fontes são entrevistas por telefone, e-mail ou whatsApp; a jornalista Eliane Brum quebra paradigmas para ver, ouvir e sentir no corpo e na alma o que os povos da floresta vivem e tem a dizer no olho no olho. Eliane Brum tem a sensibilidade de fazer um jornalismo que valoriza a história das pessoas e famílias que são suas fontes, ou seja, a subjetividade de cada uma delas. Em Altamira ela acompanha a história de muitas famílias que foram expulsas das suas casas na beira do rio, das ilhas onde viviam, ou seja, dos espaços em que haviam constituídos suas histórias de vida, devido a construção da hidrelétrica Belo Monte. “Na minha experiência de repórter as subjetividades são tão ou mais importantes que as objetividades para produzir o que acontece”, destaca a jornalista. Essas famílias hoje moram em casas construídas pela empresa Norte Energia, administradora do projeto da hidrelétrica, em bairros isolados da cidade, distantes do rio, em casas construídas sem valorizar sua cultura e seus costumes. “A cultura daqui é de receber as pessoas e amarrar a rede. Eles fizeram casas onde não tem espaço para a rede. Casa de ribeirinho sem espaço para rede é mesma coisa que não ter cozinha”, destaca Eliane, que ao viver próximo dessas famílias e com elas conviver frequentemente consegue compreender detalhes das suas vida, que um repórter que não vivencia situações semelhantes jamais perceberia.

Entre as contradições que ela aponta estão a que essas pessoas que viviam junto ao rio e dele tiravam seu sustento, hoje não tem água nem nas torneiras. “A água das caixas d´águas não tem pressão para chegar as torneiras. Elas foram expulsas para construir uma hidrelétrica e pagam uma das energias mais cara do Brasil. Eles tinham água, luz, peixe. Eles tinham a floresta, a roça. Eles tinham os amigos, os parentes, tinham a felicidade. Eles tinham vida. E agora foram jogados aqui.”, lamenta a jornalista

No vídeo em conversa com o jornalista Bruno Torturra, Eliane faz uma reflexão sobre o que é ser rico e pobre, a partir das subjetividade de cada povo. Ela explica que para os indígenas, quilombolas, ribeirinhos ser rico é não precisar de dinheiro. “Viver na floresta é ser rico. Eles eram ricos, porque não precisavam de dinheiro. Agora precisam de dinheiro para pagar luz, água e não tem. Hoje eles são pobres urbanos”, evidencia. Neste sentido, ela ressalta a dificuldade da sociedade de visualizar diferentes tipos de povos, costumes e culturas. “A forma como as pessoas se veem e acham que o mundo é só de um jeito, torna esses povos sempre invisibilizados” destaca. Ela evidencia a necessidade de enxergar e valorizar essas “outras humanidades”

Eliane nos dá uma aula de jornalismo ambiental, com a sua capacidade de compreensão dos fatos de maneira contextualizada e conectada. Ela consegue relacionar fatos políticos, sociais, ambientais e econômicos com muita rapidez e eficiência em vários momentos da conversa.
Ao citar o cientista da terra, Antônio Nobre, ela ressalta que uma árvore grande coloca na atmosfera mil litros de água por dia. Então, ela nos chama a refletir que ao encontrarmos na rodovia Transamazônica caminhões com dezenas de toras de árvores (segundo ela são muitos transitando): “Cada árvore daquelas são mil litros de água por dia a menos na atmosfera. A floresta inteira coloca 20 trilhões de litros de água por dia. A floresta transpira e salva o mundo todos os dias. Se esta floresta acabar, e ela está neste processo, vamos viver num planeta hostil. E quem pode impedir isso são os povos da floresta, porque se existe floresta em pé é onde estão os povos da floresta. Parte desta floresta foi plantada por estes povos. Os povos são a floresta. Ao matá-la, matamos eles também”.

Ao final ela explica que considera a Amazônia como o centro do mundo, “pois em época de emergência das mudanças climáticas, não tem como controlar o aquecimento global sem ter a floresta viva”. Ao lermos os textos ou ouvirmos as falas de Eliane Brum somos tocados, porque compreendemos o todo, e qual a nossa importância no contexto da preservação ambiental, como as perspectivas teóricas do jornalismo ambiental propõe.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

A prisão dos brigadistas de Alter do Chão e um podcast

Imagem: Capa do podcast café da manhã no Spotify
Por Nicoli Saft*

Para o texto de hoje do Observatório, resolvi destacar um bom exemplo de jornalismo, e um de um meio não tradicional, mas que nos últimos anos vem ganhando cada vez mais adeptos. No podcast diário Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, o jornalismo ambiental já apareceu diversas vezes este ano, como era de se esperar em um ano que teve Brumadinho, queimadas desenfradas, petróleo no litoral nordestino e o recorde de desmatamento na Amazônia. Na última quinta-feira, 28 de novembro, o assunto foi a prisão de quatro brigadistas acusados de atear fogo em uma área de proteção ambiental de Alter do Chão em setembro. Alter do Chão é um distrito da cidade paraense Santarém, e é conhecida mundialmente pelas suas belas praias de água doce.

Os quatro homens que foram presos são voluntários da Brigada de Incêndio do local, organização fundada em 2018 pelo Instituto Aquífero Alter do Chão e que atua em conjunto do Corpo de Bombeiros no combate às queimadas da floresta. A prisão fez parte da operação Fogo do Sairé, da Polícia Civil do Pará, que também apreendeu documentos da organização não-governamental Projeto Saúde e Alegria (PSA), que atua há 30 anos na floresta fornecendo serviços de saúde para a população. Os quatro brigadistas ficaram presos de terça à quinta-feira, quando foram liberados por decisão judicial.

O podcast da Folha é apresentado usualmente por Rodrigo Vizeu e Magê Flores, mas como esta está de férias, tem sido apresentado por Victoria Azevedo, repórter da coluna Mônica Bergamo. Os apresentadores entrevistam outros jornalistas da Folha e “trazem nas manhãs de segunda à sexta, de forma leve e simples, o fundamental sobre os assuntos do momento no Brasil e no mundo”, conforme descrição do podcast no Spotify. O programa segue a linha do americano The Daily, do New York Times, apresentado por Michael Barbaro.

Os entrevistados dessa quinta-feira foram Ana Carolina Amaral, do blog Ambiência, e João Pedro Pitombo, repórter da Folha em Salvador. Primeiramente Pitombo apresenta um pouco do que foi o incêndio que destruiu uma área de cerca de 650 mil m² e que levou quatro dias para ser controlado. Pitombo também apresentou a hipótese da Polícia Civil: os brigadistas iam até a floresta, iniciavam o fogo, saíam do local e pouco depois retornavam para apagar, fazendo também imagens do fogo, que vendiam para organizações internacionais para captar doações para as brigadas e ONGs da região. Outro argumento da Polícia é que houve mau uso dos recursos das ONGs, principalmente no que se refere a uma doação da ONG WWF Brasil, que teria pago 47 mil reais para fotos do incêndio, o que a organização nega. Essas fotos teriam sido utilizadas para obter outras doações, inclusive uma de 500 mil dólares da fundação do ator Leonardo Di Caprio, fato que também é negado pela WWF.

Ana Carolina Amaral conta sobre alguns detalhes do inquérito policial, e de suas inconsistências. A partir de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia Civil montou parte de seu inquérito. Há, conforme a repórter relata, abismos entre a intenção de falas em seus contextos originais nos diálogos e a interpretações que a polícia teve. Amaral ainda chama a atenção para o perigo de que essas táticas sejam utilizadas em outras investigações para culpabilizar as mais diversas organizações.

No restante do episódio, surgem as declarações do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e os esclarecimentos da WWF. Pitomba ainda conta sobre uma reportagem que fez sobre Alter do Chão logo antes da Operação Fogo do Sairé, nela, relata sobre as pressões imobiliárias que a região vem sofrendo, além das ocupações ilegais de grileiros. O Ministério Público Federal também investiga desde setembro a causa dos incêndios e, ao contrário da Polícia Civil, aponta como causa da degradação ambiental em Alter do Chão o assédio de grileiros, a ocupação desordenada e a especulação imobiliária.

Destaco esse podcast por nos tirar um pouco daquele jornalismo impessoal e imparcial. Aqui, há uma clara rejeição à postura de trabalho adotada pela Polícia Civil do Pará e um apontamento dos possíveis culpados. Na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro resolveu culpar Leonardo Di Caprio pelos incêndios na Amazônia, embora seja uma proposição aparentemente ridícula, eu sabia exatamente do que ele estava falando. E ainda, considero podcasts um meio interessante de levar o jornalismo ambiental às pessoas. Um dos grandes problemas que enfrentamos, e sobre o qual eu mesma já falei aqui no Observatório, é o distanciamento que temos em relação aos problemas ambientais, seja as mudanças climáticas ou o petróleo no litoral nordestino. O podcast por si só traz uma proximidade com os jornalistas e com o tema discutido. Sentimos quase como se fosse um amigo nos contando uma história, e portanto, aquilo que é dito importa. Não que seja a única solução possível, é claro, mas é uma alternativa.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo que subestima acidentes nucleares nos coloca em perigo

Imagem – Captura de tela do site da BBC Brasil.
*Por Eutalita Bezerra

No último dia 21, a BBC News Mundo divulgou, com alarde uma descoberta publicada em artigo científico por pesquisadores do Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha, segundo o qual a principal causa de mortes após o acidente nuclear de Fukushima, ocorrido no Japão em 2011, não foi a radiação, mas o frio.

Se você, leitor, ainda não entendeu exatamente, é preciso saber que a informação principal também não chega tão rapidamente na publicação original. Dividido em quatro subtópicos, somente no penúltimo deles a notícia começa a esclarecer a relação entre o acidente e as mortes por frio. E, ainda assim, nos deixa com mais questões que respostas. Um desserviço?

Além de não informar em que periódico o estudo foi publicado ou como ele foi metodologicamente construído, embora admita que quase 30% da população japonesa foi avaliada, o texto afirma que, com a redução na produção de energia nuclear no Japão pós-tsunami e acidente de Fukushima, o preço da eletricidade subiu até 38% em algumas regiões do país e conectam esse aumento à redução no consumo de eletricidade para aquecimento da população. Tal mudança de comportamento, no inverno rigoroso, diz o artigo, levou a mais de 1280 mortes, ante cerca de 130 causadas diretamente pela radiação, conforme estudos citados pelos pesquisadores ouvidos por BBC News, e outras 1232 pela evacuação após o acidente.

Neste momento, já nos caberia fazer uma soma simples: 1552 mortes causadas diretamente pelo acidente são subestimadas pela reportagem – ou pelo estudo? – ao trazer já em seu título a pomposa informação de que “ A surpreendente causa de centenas de mortes após acidente nuclear de Fukushima – não é a radiação”.

Não há dúvidas de que, caso se trate de um estudo consistente, sua publicação é válida . A divulgação científica não somente é desejada como é necessária para a vida social. O que não podemos, seja no papel de divulgadores de ciência ou de jornalistas ambientais (ou não) é diminuir o impacto de um acidente nuclear, como foi o de Fukushima, que só perdeu em extensão para o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Para que a publicação fosse realmente informativa, com um olhar complexo sobre o assunto e que permitisse aos seus leitores um conhecimento substancial sobre o tema, além de apresentar o estudo seria necessário, também, informar sobre os problemas derivados de um acidente ambiental de tamanha magnitude. Não são “somente” 130 mortes pela radiação e 1232 pela desocupação. Trata-se da contaminação de toda uma região pela dispersão de toneladas de material radioativo, seja na terra no ar ou na água.

Pouco tempo após o acidente, mais precisamente em 2012, o Jornal espanhol Diagonal divulgou informações sobre o estado atual de Fukushima. A reportagem foi traduzida e publicada pela Revista IHU, que, dentre outras informações, destaca que naquele momento, passados 26 anos do acontecido em Chernobyl, que no mundo ainda existia metade da radiação que havia sido despejada no momento daquele acidente, somado, na ocasião, a todo o restante despejado por Fukushima nos oceanos. Como informações como esta, que demonstram que a extensão do dano é mundial e é possível admitir que milhões de outros organismos estão sendo afetados e seguirão sendo ao longo de milhares de anos – “o plutônio 239 tem uma vida média de cerca de 24.000 anos e com o tempo se transforma em amerício 241, outro elemento radioativo que pode ser incorporado ao organismo humano (IHU, 2012)” – subestimar a repercussão direta de um acidente nuclear é um perigo que BBC News e diversas outras mídias que publicaram este estudo sem um trabalho aprofundado (Uol e Globo.com apenas republicaram a reportagem da BBC, por exemplo) não se preocuparam em correr. Mas, acreditamos e defendemos!, deveriam.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).