A boiada de Salles e o jornalismo ambiental

Imagem: captura de tela – Reportagem recente do site O Eco criado em agosto de 2004 para “dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los”.

Roberto Villar Belmonte*

No dia em que o Brasil passou a ser o segundo país mais afetado pelo novo coronavírus Sars-Cov-2, com mais de 330 mil casos oficialmente registrados e 21.048 mortes causadas pela Covid-19, o mundo descobriu que a pandemia não é apenas tratada como uma “gripezinha” pelos aloprados chefiados por Jair Bolsonaro, ela também vem sendo usada como cortina de fumaça para afrouxar ainda mais os regramentos ambientais. Foi o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já condenado em primeira instância por improbidade administrativa, quem explicou sem cerimônias essa estratégia macabra em reunião ministerial gravada dia 22 de abril no Palácio do Planalto e divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira, 22 de maio: “Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Uma crise nacional e um megaevento sempre mobilizam a atenção da imprensa e, por consequência, agendam a opinião pública. Por isso quando ocorre confisco da poupança, vazamento de petróleo, desabamento de barragem da mineração, denúncias de corrupção e uma pandemia todos ficam atentos. Foi o que aconteceu com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Brasil em 1992: jornais, revistas, rádios e tvs mantiveram a pauta ambiental em destaque durante vários meses. No entanto, tão logo terminou a Cúpula da Terra promovida pela ONU no Riocentro e no Aterro do Flamengo, o assunto passou a ser o impeachment de Fernando Collor de Mello. E o meio ambiente voltou à marginalidade. Muito já se escreveu sobre esse apagão na cobertura de temas ambientais no país pós-Rio 92. Dizia-se na época até que os jornalistas interessados e/ou especializados eram tão poucos que caberiam em uma Kombi.

Não é mais o caso e por isso os desmandos do ministro condenado são denunciados com veemência pela imprensa brasileira, mesmo durante a pandemia, e também pelos correspondentes estrangeiros que atuam no país. Atualmente existem mais de 30 serviços especializados na cobertura de temas ambientais no Brasil, principalmente sites e portais. Na Região Sudeste, os principais jornais têm repórteres que acompanham de perto a área, uns cobrindo com uma perspectiva científica, outros pelo viés econômico, mesmo sem uma editoria de meio ambiente. A pauta ambiental não é mais vista como um assunto exótico dentro das principais redações, como era no final do século passado. Também não existia naquela época empreendimentos jornalísticos como A Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, The Intercept Brasil, Amazônia Real, Infoamazônia, O Eco e nem uma articulação de ONGs ambientalistas com uma produção de conteúdo tão qualificada como a do Observatório do Clima.

O que Salles quis dizer então com “momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa”? A eleição dos amigos e simpatizantes das milícias armadas teve um efeito semelhante à realização da Rio 92 no Brasil: a imprensa brasileira colocou o meio ambiente na pauta denunciando crimes e estultices oficiais. A sustentabilidade ambiental já não é mais só um tema exótico, ela passou a ser vista também como diferencial econômico por parte do empresariado. Além disso, o negacionismo climático e o terraplanismo do governo federal surpreenderam até mesmo os que sempre defenderam, à esquerda e à direita, o desenvolvimento a qualquer custo. Por isso as manobras e maracutaias do ministro condenado ocupam espaço de destaque na agenda pública. Com a chegada da pandemia, as pessoas estão bem mais preocupadas com a sua própria saúde, com a má gestão da crise e com o futuro da economia. Mas as denúncias ambientais continuam sendo publicadas.

Cinco dias antes do STF liberar a gravação do vídeo mostrando a reunião de Bolsonaro com seus ministros em linguajar de botequim, o site de jornalismo ambiental O Eco, criado em agosto de 2004, publicou a segunda parte de uma série que investiga a relação entre o mercado financeiro e a indústria da carne no Brasil. Na reportagem de perspectiva econômica Muito discurso, pouca prática: empresas “verdes” financiam indústria da carne na Amazônia, Fernanda Wenzel, Naira Hofmeister, Pedro Papini e Juliana Lopes mostram que os três frigoríficos que mais compram bois na Amazônia – JBS, Marfrig e Minerva – receberam 18 bilhões de dólares em investimento entre 2013 e 2019, apesar de estarem entre os dez processadores de carne do país com maior chance de promoverem o desmatamento. Todos investidores foram identificados. A matéria mostra que o mercado financeiro é bom de discurso verde, mas ainda deixa a desejar em suas práticas.

A reportagem faz parte de projeto que busca melhorar a eficiência dos acordos da carne e da soja, realizado por meio de uma parceria do site O Eco com o Imazon e apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. O jornalismo ambiental praticado nos anos 20 do século XXI é mais experiente e preparado do que o da última década do século passado. Existem muito mais jornalistas interessados no tema, com diferentes níveis de engajamento com a causa ambiental, e mais iniciativas jornalísticas acompanhando de perto os problemas e as soluções possíveis. Prova disso foi a reação de toda a imprensa brasileira diante da confissão de culpa do ministro do Meio Ambiente do governo negacionista de extrema direita que parece gostar do caos produzido pelo avanço da pandemia. O apagão da cobertura ambiental ocorrido pós-Rio 92 não se repetirá durante o atual governo e nem tampouco nessa pandemia que tem, inclusive, causas ambientais. Salles e sua boiada cutucaram a onça com vara curta.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Governo parece objetivar a destruição ambiental

Fonte: Captura de tela do site Nexo

Por Nicoli Saft*

Enquanto o mundo se preocupa com a covid-19, a destruição de nossos ecossistemas perpetrada pelo governo federal não para. O Nexo Jornal fez um breve resumo das principais ações do governo a respeito do meio ambiente durante a pandemia, e podemos perceber que elas só levam ao agravamento da crise ambiental. Temos a demissão de servidores por fazerem seu trabalho e repelirem o garimpo em terras indígenas, a militarização da frente de combate ao garimpo ilegal, as mudanças de regras para a exportação de madeira, a anistia a desmatadores da Mata Atlântica e a gravíssima MP da Grilagem (Medida Provisória 910), que provavelmente se tornará um Projeto de Lei, visto que a MP caduca esta semana.

Gostaria que desse para fazer um texto do observatório sobre cada uma dessas questões, sobre como a mídia tem tratado elas. Infelizmente, a cobertura não tem sido tão extensa assim, e o mundo todo sofre com isso. Como bem falou minha colega Eloisa Beling Loose no último texto publicado aqui no Observatório, “É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas”.

O texto do Nexo é bom, aponta claramente os rumos do governo no que tange o meio ambiente. O problema é que o objetivo do governo parece ser a destruição do nosso ecossistema. O jornal lista cinco ações do governo Infelizmente temos já mais duas para somar: a militarização do ICMBio travestido de reforma administrativa e um decreto que passa o poder de concessão das Florestas Públicas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A reforma no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade já estava prevista desde fevereiro. As 11 coordenações regionais foram extintas, e no lugar delas foram criadas cinco gerências, uma para cada região do país. Três delas serão chefiadas por militares (Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste). A Sul ainda está vaga. A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente disse que irá vai recorrer ao Ministério Público Federal para que se investigue o atendimento aos critérios técnicos e gerenciais. Segundo a associação “As medidas tomadas até o momento ampliam os salários e os poderes em áreas intermediárias, em detrimento dos trabalhos finalísticos das Unidades de Conservação, como fiscalização e monitoramento. Aumentam os gastos com cargos políticos e de administração e pioram a autonomia e as condições de trabalho dos servidores, que terão maiores áreas para gerenciar, o que demonstra que as atividades finalísticas do ICMBio não são a prioridade”. Pode se achar mais detalhes na única e damasiada factual reportagem da Folha de S. Paulo sobre o assunto. Senti falta de gráficos explicativos, um fact-checking a respeito do aumento de salários apontado pela ASCEMA e uma explicação menos formal do que de fato muda.

Nesta última semana também Jair Bolsonaro assinou um decreto que transferiu o poder de concessão das florestas públicas federais do MMA para o MAPA. O texto, que não explica os motivos da mudança, transfere a competência de formular estratégias, políticas, planos e programas para a gestão das florestas. O ministério de Tereza Cristina ainda ficará responsável por escolher quais áreas serão concedidas e comandar o processo de licitação. O Globo e a Folha fizeram matérias sobre, seguindo rumos bem diferentes ao tentar encontrar os motivos da mudança. A Folha aponta que a medida seria uma resposta do governo ao adiamento da votação da MP da Grilagem. A reportagem cita “ambientalistas”, sem nunca explicar quem seriam esses. Entretanto, a reportagem nos dá uma boa explicação das mudanças e aponta possíveis consequências.

A matéria do Globo já traz uma outra perspectiva, a preocupação de que as florestas voltem a ser vistas sob a ótica mercantil. O motivo da transferência das florestas para a pasta de agricultura pode não ser primeiramente este, mas, com certeza, afeta a forma como vemos nossas florestas. A matéria do Globo não traz tantas explicações quanto à da Folha, mas a parabenizo por trazer essa interpretação, tão dolorosa se perceber mas ainda assim tão escancarada. Com a lista do Nexo Jornal, as ações tomadas quanto ao ICMBio e as matérias do Globo e da Folha, infelizmente só conseguimos concluir que a preservação do meio ambiente não é um dos objetivos do governo Bolsonaro, o objetivo parece ser justamente o contrário, a sua destruição. Tendo em mente esses sucessivos ataques, acredito ser papel do jornalismo não deixar de lado esse tema mesmo durante a pandemia. Temos que deixar o governo saber que estamos cientes do que estão fazendo, e comunicar a toda a sociedade. O jornalismo precisa assumir seu lado como defensor do meio ambiente para não deixar ele ser destruído.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Emergências que se encontram: junto à pandemia, a estiagem

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Por Angela Camana*

A situação da pandemia provocada pelo novo coronavírus, cujos efeitos se fazem sentir no Brasil de forma cada vez mais dramática, vem justificadamente dominando as manchetes dos jornais. O noticiário do país tem desdobrado a temática e produzido múltiplas conexões com outras esferas que não a da saúde unicamente, como este Observatório já apontou (por exemplo, as conexões com consumo e com a crise climática).


Sem ignorar as tensões que a Covid-19 coloca aos sujeitos e às instituições, pouco a pouco, outro assunto tem ganhado espaço no jornalismo do Rio Grande do Sul: a estiagem que assola o Sul do Brasil. Só no Estado, mais de 70% dos municípios já decretaram situação de emergência devido à seca. A falta de chuvas faz com que as barragens hidrelétricas estejam em níveis críticos, assim como está comprometida a produção agrícola esperada. A Defesa Civil diz que ainda não há desabastecimento para consumo doméstico, embora tenha mobilizado caminhões-pipa para levar água à população rural.


No site GaúchaZH, o tema ganhou algumas publicações na última semana, com destaque para a notícia veiculada em primeiro de maio, que foi capa do site, Estiagem afeta sete de cada 10 municípios gaúchos. São ouvidas diferentes fontes, as quais são unânimes em diagnosticar o caráter crítico da situação; todos os citados são dirigentes de instituições públicas do Estado, com exceção de uma meteorologista. O predomínio de fontes oficiais e científicas já foi apontado como um dos principais vícios do jornalismo sobre meio ambiente, o que se repete no caso desta notícia.


Há, ainda, uma galeria de fotos, as quais retratam o baixo nível das barragens e o solo seco rachado em açudes e rios. O texto em questão apresenta muitos indicadores, que são reunidos em uma espécie de box ao fim da publicação.

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Ainda que haja um esforço importante de apresentar dados (número de municípios afetados, nível dos rios), os mesmos poderiam ser mais bem contextualizados. No mesmo sentido, a cobertura da estiagem ainda parece bastante presa à fórmula das fontes oficiais e negligencia os sujeitos em detrimento da produção. Aliás, a cobertura é sobretudo agropecuária e econômica, pois destaca a urgência do setor em receber ajuda financeira do Governo Federal. Este tipo de foco, ao dar a entender que o dinheiro é solução para a questão, ignora o fato de que a seca no Sul do Brasil é um problema grave e recorrente, cujos efeitos cada vez mais severos já são relacionados à emergência climática. Ironicamente, o modelo produtivo empreendido na região é um dos fatores que se associam às mudanças do clima, o que não se vê debatido nos meios de comunicação.


Como a previsão é de que maio siga com baixo volume de chuvas, a tendência é que a cobertura da temática se intensifique ao longo do mês, conforme aumentarem também os efeitos da seca. Basta esperar que as conexões produzidas quando da veiculação do Covid-19 encontrem ecos no jornalismo gaúcho sobre a estiagem.

*Ângela Camana é Jornalista e socióloga, doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante dos Grupos de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS CNPq/UFRGS). angela.camana@hotmail.com

Hábitos de consumo em tempos de pandemia

Fonte: Captura de tela do site da Agência Brasil

Por Eutalita Bezerra*

O objetivo 12 da Agenda 2030, plano de ação global para mudar o mundo em mais 10 anos, situa a produção e o consumo sustentáveis como pilares para alcançar esta transformação. Conforme o objetivo, são medidas indispensáveis à redução da pressão sobre o meio ambiente um novo olhar para o consumo e para a produção. Por absoluta necessidade, o novo Coronavírus, que deflagrou uma pandemia, ao que parece, tem sido um catalizador desta mudança.

A Agência Brasil destacou, utilizando o indicador Intenção de Consumo das Famílias medido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, que houve uma retração de 2,5% na previsão de consumo na passagem de março para abril. Esta diminuição deveu-se, dentre outras coisas, à incerteza sobre as consequências que a pandemia pode provocar nos indicadores econômicos deste ano.

No início de abril, o Pioneiro  apontou como esta retração tem se traduzido em mudança de hábitos dos consumidores. Uma destas transformações diz respeito à consciência de comunidade. A reportagem citou, por exemplo, que com a pandemia os consumidores estão mais propensos à valorização de setores da economia criativa, a um interesse maior pelo consumo local e sustentável, além de estarem mais dispostos a consumir produtos de segunda mão, algo que ainda era carregado de estigmas.

A reportagem, que ouve especialistas da Psicologia, da Economia e do Marketing para traçar este panorama, ainda é complementada por levantamento realizado com mais de 2 mil pessoas pela Opinion Box, segundo a qual é possível afirmar que a pandemia forçou uma readequação do cotidiano, a começar pelos hábitos de consumo.

Fonte: Captura de tela do site O Pioneiro

Ainda na publicação há uma lista de caminhos a seguir para o momento de cautela. Nesta, itens como o uso racional da comida, a redução no consumo de luz e água e evitar gastos desnecessários nas compras online são propostos aos leitores.

No que tange ao consumo de supérfluos, dois momentos merecem ser destacados.  Passamos recentemente pela semana Fashion Revolution, encerrada no último dia 24, em que se busca questionar a indústria de moda sobre seus processos, desde a extração de matéria-prima até a destinação dos seus resíduos. Em tempos de pandemia, o varejo de moda sofrerá grandes mudanças que perpassam toda a sua cadeia produtiva. É o que aponta reportagem do Diario do Nordeste , segundo a qual existe uma tendência brasileira de aproximação com a corrente minimalista, criada nos Estados Unidos, relacionada a um estilo de vida mais baseado no que é essencial, com novos hábitos pautados pelo localismo, a sustentabilidade e o autocuidado.”

Um segundo ponto que levantamos diz respeito ao Índice Batom (lipstick index). Criado em 2001, por ocorrência dos atentados de 11 de setembro, este indicador aponta que em tempos de crise o consumo de produtos cosméticos de entrada costumam crescer. Porém, se no ano passado o mercado de beleza – que tem um impacto ambiental bastante significativo – andava aquecido, a pandemia pode ter levado abaixo o índice citado. Em reportagem publicada por Exame, o segmento deve ter neste ano uma retração de 2,5% . E o Brasil segue a tendência, com a expectativa de uma queda expressiva na venda de fragrâncias e produtos associados à vida social,categorias que representam um terço do mercado brasileiro de beleza.

Tais apontamentos nos permitem considerar que a mudança em curso pode nos direcionar a um consumo mais consciente e a uma retomada dos nossos interesses mais primitivos, pautados em necessidades racionais. As reportagens, porém, ainda carecem de fazer a interligação entre esta mudança e a menor pressão nos bens naturais, de forma que seja possível ao leitor médio entender de que maneira estes pequenos hábitos impactam toda a sociedade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com

Jornalismo em tempos de transe planetário

Por Mathias Lengert*

“Entramos em 2020 com a Terra em transe, já com vistas para 2030”. A afirmação do primeiro editorial do ano da revista Época Negócios não falava da pandemia, mas o transe antecipado retrata acertadamente os atuais acontecimentos.  

O momento é de mudança brusca de planos. A propagação do novo Coronavírus, organismo invisível a olho nu, mas com impactos nas dimensões humana e econômica, colocou o planeta em transe. Neste momento crítico, a física e ativista Vandana Shiva direciona a nossa busca por compreensão, lembrando a partir da nossa humanidade que “somos membros da família planetária”.

O relatório do Fórum Econômico de Davos, publicado em janeiro, apontou que os cinco principais riscos globais à prosperidade estão relacionados às questões ambientais. O documento sinalizou o tom das discussões no evento e não poupou o próprio capitalismo de receber a culpa sobre o aumento de catástrofes climáticas.

A urgência climática enfatizada no Fórum de Davos se refletiu na edição de março da Época Negócios, onde também foi destacado o capitalismo em transe. A revista expressa a preocupação que transpassa todas as páginas, afinal, em suas palavras, “a crise é grave. Gravíssima. E exige intervenção imediata”.

Fonte: Captura de tela de Época Negócios.

As pautas da revista transitam da energia renovável à alimentação vegetariana, da mobilização de Greta Thunberg ao mercado de carbono. O enriquecimento narrativo do jornalismo aprofundado remonta satisfatoriamente à complexidade ambiental, e assim, expressa que a mudança climática nos impacta de diferentes maneiras. Época Negócios é crítica, considerando que é uma publicação voltada à empresários e empreendedores, que ao elucidar o atual sistema econômico insustentável e as ações individuais brandas, indica alternativas e respostas para às questões ambientais.

A narrativa sobre a possibilidade de enfrentamento da revista sugere que monetizar bens naturais e coletivos é uma atitude viável – o que é problemático se considerarmos que estamos em déficit de recursos naturais, visto que consumimos mais do que a Terra consegue repor, o correspondente a 1,75 planeta. É especialmente na reportagem que explora os créditos de carbono, que a emissão de gases de efeito estufa é apresentada como item de compra e venda, como produto de um nicho de mercado.

Outro ponto discutível é a presença de uma promoção demasiada de organizações e startups que se autointitulam ecológicas nas reportagens. Fico com a sensação de que só há interesse da revista na sustentabilidade porque as organizações têm manifestado entusiasmo (ou até mesmo conveniência) em incorporar a questão às marcas.

Segundo esta publicação, o capitalismo precisa enfrentar “o mais árduo dos desafios” para permanecer viável: sair do seu transe. É possível mudar paliativamente o sistema econômico e adequar o consumo às tendências iminentes, no entendimento da revista. Penso que o jornalismo pode ir além, avaliando em profundidade esse ideal da sustentabilidade que prioriza a economia em detrimento das dimensões ambiental e social. As funções do jornalismo contemplam ações mobilizadoras e catalizadoras para um amplo debate público em torno de temas essenciais e pautas como essas que vimos aqui.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições da pandemia para a ação climática

Fonte: Ecoa/UOL
Por Cláudia Herte de Moraes*

Em 2019, a jovem sueca Greta Thunberg foi destaque nas mídias ao redor do mundo justamente por potencializar a mensagem sobre o que a ciência do clima tem feito há décadas. No Fórum Econômico em Davos, em janeiro de 2020, falando de emergência climática, a ativista disse que “Precisamos começar a ouvir a ciência e tratar esta crise com a importância que ela merece”, conforme reportagem da agência Sputinik. 

Em relação à pandemia, a ciência também amplia o seu papel através da indicação de caminhos para seu enfrentamento, com orientações sobre a gravidade da doença COVID-19, formas de evitar o contágio, pesquisas sobre medicamentos e vacinas. Mesmo com os alertas, alguns governantes levam suas populações a pagar um preço muito alto de contaminação e milhares de mortes, como o exemplo dos Estados Unidos, mostrado na crítica do New York Times. Parece que o valor econômico ainda está sendo colocado acima da vida. O mesmo ocorre com a crise climática, que bate à nossa porta de forma inequívoca, mas não mobiliza governos para seu enfrentamento. Então, a primeira lição é não ignorar os avisos da ciência.

Além da valorização dos cientistas, temos a lição, não menos importante, para agir de forma preventiva. Se há incerteza quanto ao funcionamento do vírus, o mais correto é agir a partir do princípio da precaução, definido na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) como uma garantia contra os riscos potenciais, mesmo que o estado atual do conhecimento não possa identificá-los, pois “a existência de um risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prever este dano”. 

Em terceiro, temos a oportunidade de priorizar a ajuda aos mais vulneráveis. Pela falta de políticas públicas eficazes ao longo do tempo, há milhões de pessoas doentes, pobres, sem moradia, saúde, saneamento, ou alimentação, e que são mais afetadas nas crises. Devem ser resgatadas pela sociedade, pois a construção da igualdade social é da ordem da sustentabilidade. Na retomada econômica, ao implementar políticas públicas para a superação das vulnerabilidades sociais, estaremos ampliando o esforço de adaptação à emergência climática. 

Para abordar a análise da imprensa neste cenário, cabe salientar que a maioria dos grandes veículos tem dado destaque ao papel da ciência e aos aspectos preventivos, mas poucos à desigualdade. Neste segundo grupo, encontramos a reportagem especial da plataforma Ecoa, do portal Uol: “No Brasil, quase 35 milhões de pessoas vivem sem acesso a água tratada, enquanto 100 milhões não possuem esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento em 2018.” Como esperar que sem acesso a bens essenciais as pessoas estariam protegidas? Ao lado disso, construir uma nova forma de agir em relação à política, como propõe Mariana Belmont, colunista da mesma plataforma: “Teremos um grande desafio político, e nesse sentido quero dizer que teremos que olhar a política como meio fundamental para o combate às desigualdades, um olhar para reconstrução.”.

Diante da crise, podemos pensar e agir de forma mais sustentável, reconectando o humano com o valor da vida, priorizando ecossistemas ao invés do lucro, de forma mais democrática e fraterna. O jornalismo é capaz de trazer grande contribuição social neste sentido, indicando ações que são coerentes com o patamar do conhecimento coletivo, de forma preventiva e pela igualdade. São lições adequadas ao enfrentamento tanto do coronavírus quanto da emergência climática.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação (UFRGS), professora na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS CNPq, email: chmoraes@gmail.com

Novos formatos de negócios no jornalismo local: o que esperar da cobertura ambiental?

Por Débora Gallas Steigleder*

Foi lançado oficialmente neste mês de março o Grupo Matinal de Jornalismo, projeto que investe na produção de conteúdo para web enviado aos usuários cadastrados para recebimento de newsletters. O diferencial trazido pelo boletim Matinal, de acesso aberto, e por duas correspondências semanais disponíveis por planos de assinatura, é o foco no local: da cultura à política, são priorizadas notícias e reportagens sobre o Rio Grande do Sul e, mais especificamente, sobre a cidade de Porto Alegre. E o que podemos observar sobre a cobertura de meio ambiente?

Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese
Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese

A edição de número 15 da revista Parêntese, que é enviada aos sábados, abriu espaço para uma reportagem especial sobre os impactos da sojicultura no Rio Grande do Sul. Em Depois de enriquecer produtores gaúchos, soja ameaça o Pampa, a repórter Karen Viscardi expõe as origens do monocultivo e discute seu consequente entrelaçamento com a história da migração gaúcha para ampliação de fronteiras agrícolas pelo Brasil. Tal espaço dificilmente seria encontrado em veículos tradicionais, tanto por conta da limitação física e temporal imputada a produções impressas e audiovisuais, como pela dificuldade destas empresas realizarem autocrítica sobre o posicionamento ideológico construído ao longo de décadas, que apresenta a expansão dos grandes cultivos de soja enquanto evidência da postura aguerrida de gaúchos empreendedores – conforme já comentamos aqui no Observatório.


A transversalidade do olhar também está presente no discurso jornalístico em questão, que aborda as consequências do uso de agrotóxicos nas lavouras, da contaminação de indivíduos à mortandade de abelhas, além de mencionar o impacto da estiagem predominante no Rio Grande do Sul nestes meses de verão na economia do estado e dos produtores rurais. Em acréscimo, a reportagem discute como a sojicultura afeta a biodiversidade do campo nativo e faz minguar atividades produtivas predominantes na região por séculos, como a pecuária.


Apesar desta abordagem ampla sobre a questão, existem pontos a serem aprofundados em retornos futuros a este complexo tema. São diversas as fontes consultadas para a construção da reportagem, mas as vozes resumem-se majoritariamente a especialistas, autoridades e dirigentes de entidades. Seria de grande valia haver uma novidade no jornalismo local suficientemente sustentável em termos financeiros a ponto de viabilizar a ida de repórteres a campo para averiguar os impactos in loco, para além dos relatos de especialistas. Conversar com agricultores e comunidades que vivem o impasse deste modelo econômico baseado em commodities promove novas possibilidades à narrativa jornalística, podendo até mesmo confrontar o título da reportagem, que leva o leitor a interpretar os impactos da sojicultura como um problema recente, verificado apenas a partir do momento em os produtores deixam de lucrar com a safra.


Por fim, em tempos de discussão sobre as consequências locais das mudanças climáticas, faz-se cada vez mais necessário evidenciar que os eventos climáticos extremos tendem a agravar a estiagem já verificada com frequência na região Sul do estado. Urgem, portanto, discussões sobre mitigação e adaptação que considerem a impossibilidade de sobrevivência do Pampa soterrado por soja transgênica.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com