Novos formatos de negócios no jornalismo local: o que esperar da cobertura ambiental?

Por Débora Gallas Steigleder*

Foi lançado oficialmente neste mês de março o Grupo Matinal de Jornalismo, projeto que investe na produção de conteúdo para web enviado aos usuários cadastrados para recebimento de newsletters. O diferencial trazido pelo boletim Matinal, de acesso aberto, e por duas correspondências semanais disponíveis por planos de assinatura, é o foco no local: da cultura à política, são priorizadas notícias e reportagens sobre o Rio Grande do Sul e, mais especificamente, sobre a cidade de Porto Alegre. E o que podemos observar sobre a cobertura de meio ambiente?

Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese
Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese

A edição de número 15 da revista Parêntese, que é enviada aos sábados, abriu espaço para uma reportagem especial sobre os impactos da sojicultura no Rio Grande do Sul. Em Depois de enriquecer produtores gaúchos, soja ameaça o Pampa, a repórter Karen Viscardi expõe as origens do monocultivo e discute seu consequente entrelaçamento com a história da migração gaúcha para ampliação de fronteiras agrícolas pelo Brasil. Tal espaço dificilmente seria encontrado em veículos tradicionais, tanto por conta da limitação física e temporal imputada a produções impressas e audiovisuais, como pela dificuldade destas empresas realizarem autocrítica sobre o posicionamento ideológico construído ao longo de décadas, que apresenta a expansão dos grandes cultivos de soja enquanto evidência da postura aguerrida de gaúchos empreendedores – conforme já comentamos aqui no Observatório.


A transversalidade do olhar também está presente no discurso jornalístico em questão, que aborda as consequências do uso de agrotóxicos nas lavouras, da contaminação de indivíduos à mortandade de abelhas, além de mencionar o impacto da estiagem predominante no Rio Grande do Sul nestes meses de verão na economia do estado e dos produtores rurais. Em acréscimo, a reportagem discute como a sojicultura afeta a biodiversidade do campo nativo e faz minguar atividades produtivas predominantes na região por séculos, como a pecuária.


Apesar desta abordagem ampla sobre a questão, existem pontos a serem aprofundados em retornos futuros a este complexo tema. São diversas as fontes consultadas para a construção da reportagem, mas as vozes resumem-se majoritariamente a especialistas, autoridades e dirigentes de entidades. Seria de grande valia haver uma novidade no jornalismo local suficientemente sustentável em termos financeiros a ponto de viabilizar a ida de repórteres a campo para averiguar os impactos in loco, para além dos relatos de especialistas. Conversar com agricultores e comunidades que vivem o impasse deste modelo econômico baseado em commodities promove novas possibilidades à narrativa jornalística, podendo até mesmo confrontar o título da reportagem, que leva o leitor a interpretar os impactos da sojicultura como um problema recente, verificado apenas a partir do momento em os produtores deixam de lucrar com a safra.


Por fim, em tempos de discussão sobre as consequências locais das mudanças climáticas, faz-se cada vez mais necessário evidenciar que os eventos climáticos extremos tendem a agravar a estiagem já verificada com frequência na região Sul do estado. Urgem, portanto, discussões sobre mitigação e adaptação que considerem a impossibilidade de sobrevivência do Pampa soterrado por soja transgênica.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com

Agrotóxicos: poder econômico sempre encobre as questões de saúde e ambiente

Por Patrícia Kolling*

Essa semana a notícia de um navio carregado com 4 mil toneladas óleo, encalhado na costa do Maranhão, que talvez seja protagonista de um novo desastre ambiental nos próximos dias, foi destaque na imprensa. Como interessam para o jornalismo a novidade, os impactos imediatos e os grandes desastres ambientais, o assunto foi notícia na maioria dos meios de comunicação. Apesar da atualidade do tema, optei por falar neste texto de outro assunto que não é novidade, não causa impactos imediatos, mas que com certeza é precursor de desiquilíbrios ambientais sem precedentes e que também está na pauta da mídia: os agrotóxicos.

Fonte: Captura de tela do site da Agência Pública

Na Folha de São Paulo a manchete foi sobre a portaria publicada pelo Ministério da Agricultura que determina a aprovação automática dos agrotóxicos, pela Secretaria de Defesa Agropecuária, se a avaliação do produto não for realizada em 60 dias. A Secretaria de Defesa Agropecuária é uma das instâncias para liberação para a comercialização de agrotóxicos, tendo também que passar pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelo Ibama. A notícia destaca que no passado a Anvisa também alterou seu processo de autorização, que passou a considerar apenas o risco de morte para classificar a toxidade. Produtos que eram considerados extremamente tóxicos podem ser avaliados como pouco moderadamente ou pouco tóxicos. A notícia alerta para o fato de que a mudança faz parte de uma estratégia, do chamado “pacotão do veneno”, um projeto de lei proposto pela bancada ruralista que altera as atribuições da Anvisa e do Ministério do Meio Ambiente, dando mais poder ao Ministério da Agricultura na análise de impactos dos agrotóxicos na saúde e meio ambiente. Este projeto, que está parado e pronto para aprovação na Câmara, concentra o poder de veto justamente ao Ministério da Agricultura.

Na BBC Brasil a manchete foi “Brasil é o principal mercado de agrotóxicos ´altamente perigosos´, diz ONG” . O texto destaca que aproximadamente um terço da receita das principais fabricantes de agrotóxicos do mundo vem de produtos classificados como “altamente perigosos” – vendidos principalmente em países emergentes, como Brasil e Índia. Os dados são de um levantamento feito pela Unearthed, organização jornalística independente financiada pelo Greenpeace, em parceria com a ONG Suiça Public Eye. Em 2018, as vendas desse tipo de pesticidas renderam cerca de U$S 4,8 bilhões às cinco maiores companhias do setor, 35% da receitas dessas companhias. A publicação diz que o Brasil é o pais que mais compra pesticidas, movimentando em 2018, R$14,5 bilhões e que cresceu no Brasil nos últimos anos a regulamentação de produtos altamente perigosos.

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil

Já na Agência Pública a pauta foi o adiamento do julgamento, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, de um processo que pede o fim  dos benefícios fiscais dados às empresas produtoras de agrotóxicos no Brasil. O tema também foi abordado pela BBC Brasil. Pasme, desde 1997, um convênio entre o governo dos Estados concede isenção de 60% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e a justificativa é que seriam essenciais para a produção de alimentos. Os Estados deixam de receber em torno de R$ 6,2 bilhões, em valores de 2017, apenas neste imposto. Além do ICMS, alguns produtos ativos usados em defensivos agrícolas possuem isenção de 100% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), pago à União.

O processo a ser julgado pelo STF é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) apresentada em junho de 2016 pelo PSOL contra o governo federal, em que o partido alega que a isenção de impostos para os agrotóxicos desrespeita a Constituição — a Carta assegura o direito ao meio ambiente equilibrado, que estaria sendo violado pela política de subsídios. Enquanto no Brasil as empresas de agrotóxicos pagam menos impostos, alguns países da Europa aumentam as taxações fiscais dos produtos mais tóxicos que geram um custo alto ao Estado. Na Suécia os valores arrecadados com as taxações mais elevadas são utilizados para incentivar políticas de produção agroecológicas. Em outros países, investidos na saúde.

Em pouco mais de uma semana foram quatro matérias em três veículos de comunicação abordando a temática agrotóxicos. Isso é positivo, pois está se falando do assunto. Mas, é claro que o factual está por trás dessas pautas. Ações do Ministério da Agricultura e do STF mobilizaram o assunto. Porém, diante do retrocesso que o país sofre nas questões ambientais, será que essas abordagens são suficientes? O que tem isso tudo a ver com os alimentos que comemos todo dia, com o ar que respiramos e água que bebemos? Como essa liberação sem análise dos agrotóxicos pode comprometer a nossa saúde e a biodiversidade ambiental? Percebe-se uma restrita abordagem das questões da saúde e da diversidade ambiental, enquanto as preocupações econômicas aparecem em primeiro plano nas matérias jornalísticas. Sem dúvida, os interesses econômicos muito fortes estão por trás desse assunto. São bilhões de dólares que mega empresas ganham anualmente com a venda desses produtos. Quanto mais rápido esses produtos forem autorizados mais rápido estarão no mercado, independente se fazem mal ou não para a saúde e o meio ambiente.  

E como pode o Estado brasileiro ainda isentar essas empresas de pagar impostos?  Um estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz revela que, para cada dólar gasto com a compra de agrotóxicos no estado do Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem logo após a aplicação. O cálculo não leva em conta o custo das doenças crônicas, como o câncer. Os textos ainda destacam que com o fim da isenção, o consumidor final que irá pagar a conta pagando mais caro nos alimentos do dia a dia. É lamentável que o poderio econômico sempre prevaleça as questões sociais e ambientais e que não seja possível ao Estado brasileiro pensar e incentivar aás diversas alternativas de produção de alimentos saudáveis. 

*Patrícia Kolling, jornalista e doutoranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFRGS, colaboradora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental.

Políticas de desenvolvimento e aumento da temperatura: quais as relações?

Por Eliege Fante*

A temperatura média global está quase 1oC acima desde o início das medições, mas em Passo Fundo (RS) onde nasci, está 1,7oC acima, de acordo com a ferramenta do jornal NYTimes. A supressão de áreas naturais para a sua conversão em monoculturas de commoditties e cidades (urbanização, industrialização, etc.) estão entre as causas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e a mudança climática. A virada do milênio nos trouxe algumas certezas, como a de que os 20 anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking. Outra é que, segundo os cientistas, a temperatura média global não deve ultrapassar 1,5oC sob pena de sofrermos as consequências do desequilíbrio climático: impactos na saúde humana, perda da biodiversidade, prejuízos na economia, entre outras. 

Precisamos ficar preparados para o pior” é a instrução do diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Buckeridge, e também o título de reportagem sobre a vulnerabilidade das cidades neste contexto de mudança climática caracterizada por eventos extremos. Esta vulnerabilidade se evidencia nos “erros de urbanização” citados: canalização de rios e impermeabilização do solo. Todos conhecemos áreas de várzea, de banhado, de preservação permanente em nossos municípios natais que foram aterradas para facilitar ou promover o desenvolvimento através da construção de loteamentos, estádios de futebol, indústrias, parques, etc. Falamos de empreendimentos privados ou públicos, planejados e assinados por profissionais habilitados, licenciados pelos órgãos responsáveis e com as devidas compensações ambientais especificadas. Contudo, os registros de danos e perdas se acumulam, inclusive nas cidades mais desenvolvidas e ricas do país, como Belo Horizonte, vitimada pela chuva torrencial em janeiro, e São Paulo, com fortes chuvas neste mês de fevereiro. 

Devemos lembrar que não são apenas os formatos conhecidos de urbanização que dificultam ou impedem o necessário e adequado escoamento da água dos temporais e/ou a retenção e a conservação de água para os usos nos períodos de estiagem. A lógica desenvolvimentista igualmente determina a atividade econômica dominante e a respectiva política de conversão das áreas naturais no chamado meio rural. Retomando o caso de Passo Fundo, a expansão do agronegócio nos últimos 30 anos com a monocultura da soja e do milho foi de 37 mil hectares em 1987 para 52 mil em 2017 (ver quadro). A área florestal de Mata Atlântica foi preservada sob a proteção da lei vigente, mas a área campestre, como a do capim barba-de-bode, não. De fato, os campos sulinos são as áreas menos preservadas no país. Isso é importante também porque reflete a drástica redução da pecuária familiar, que é a atividade econômica principal do gaúcho. O gaúcho e o cavalo tem sido lembrados praticamente uma vez ao ano, durante as comemorações da revolução farroupilha em setembro. A tradição e alguns hábitos como o do chimarrão não devem desaparecer no Rio Grande do Sul, mas a pecuária está cada vez mais restrita por várias razões, principalmente a conversão dos campos nativos em monoculturas de grãos exóticos.

O Mapbiomas nos mostra que a área de pastagem em Passo Fundo no ano de 1987, de 15.611 hectares, caiu para 4.004 hectares em 2017. E que também caiu a área de mosaico entre agricultura e pastagem: de 12.606 hectares em 1987 para 5.881 hectares em 2017. Se relacionarmos esses dados ao fato de que “A atividade agropecuária domina a geração de gases de efeito estufa no Brasil”, em se tratando de monoculturas de exóticas e pastagens artificiais/cultivadas, não podemos deixar de problematizar o destino do maior aporte de recursos das políticas de desenvolvimento implantadas nesse período e as mudanças ocorridas em Passo Fundo: na paisagem, na atividade produtiva e até na temperatura. Por isso, cabe também às empresas de comunicação hegemônicas assumir mais esta pauta jornalística. Ao mesmo tempo que o potencial do agronegócio de commoditties gera muito lucro a poucos e exacerba a já conhecida desigualdade social, também desequilibra o meio ambiente e acelera os efeitos da mudança climática.   

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação e Informação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Jornalismo Ambiental Direto da Ciência

Imagem: captura de tela – Site de jornalismo científico publica reportagem exclusiva denunciando desmonte de bases cartográficas em São Paulo
Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo especializado em temas ambientais abriu espaço na imprensa brasileira quando adotou a ciência como fonte central das reportagens, segundo relato de repórteres que trabalharam com a pauta ecológica nos anos 1970 e 1980, entre eles Randau Marques e Liana John. De lá pra cá a perspectiva científica passou a fazer parte do que é considerado jornalismo ambiental de referência, nas grandes redações e também fora delas. 

Com as mudanças estruturais que assolaram o jornalismo devido à digitalização do mundo no século XXI, redações têm sumido e/ou murchado. Uma das consequências disso é a precarização do trabalho, a outra é o surgimento de pequenos empreendimentos produzindo jornalismo especializado de qualidade. Um exemplo é o site Direto da Ciência mantido por Maurício Tuffani. 

O site foi lançado em março de 2016 quando Tuffani deixou o cargo de editor-chefe da revista Scientific American Brasil, como ele mesmo relata. Política ambiental é uma das pautas objeto de análise, opinião e investigação do serviço jornalístico criado por ele. O editor trabalha com repórteres freelance. E quem paga a conta são os assinantes do serviço especializado.

Reportagem exclusiva publicada pelo repórter freelance José Alberto Gonçalves Pereira, no dia 3 de fevereiro mostra que o olhar especializado do jornalista permite descobrir falcatruas pouco visíveis ao olho do generalista. Ele mostrou como a gestão do governador João Doria (PSDB) desmantelou acervos e bases cartográficas de planejamento urbano.

O que isso tem a ver com a pauta ambiental? Tudo. Esses programas, produtos e sistemas de informações cartográficas são utilizados em políticas ambientais. Situação semelhante – extinção de estruturas de estado que dão suporte a políticas públicas na área ambiental – aconteceu no Rio Grande do Sul quando o ex-governador José Ivo Sartori (PMDB) extinguiu a Fundação de Economia e Estatística e a Fundação Zoobotânica. No caso de São Paulo, o site Direto da Ciência deu furo de reportagem denunciando mais um desmantelamento.

Essa informação exclusiva sobre os danos causados pela extinção da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) segue repercutindo em São Paulo, conforme suíte publicado pelo mesmo repórter, no dia 10 de fevereiro, e também nessa segunda-feira, com texto ampliando os bastidores da extinção.

Semana passada outro jornalista especializado em temas ambientais, com formação científica, também escreveu para o site Direto da Ciência . O repórter freelance Eduardo Geraque, que também é biólogo e tem mestrado em Oceanografia, publicou no dia 13 de fevereiro texto analisando a superficialidade da política para a Amazônia anunciada de improviso pelo atual governo federal , mais uma vez deixando de lado as pessoas que vivem e conhecem a região. Ele aponta como caminho possível a bioeconomia.

Sites jornalísticos como Direto da Ciência, O Eco, InfoAmazônia, Amazônia Real, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, Nexo Jornal, Envolverde e Eco Nordeste são alguns exemplos que demonstram a possibilidade da cobertura especializada de temas ambientais sobreviver às mudanças estruturais do jornalismo, ou seja, fora das redações tradicionais. Você já apoiou algum desses projetos?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Acontecimento global no jornalismo local: é hora de alinhar escalas e rever visões de mundo

Imagem: Edição de Zero Hora
Por Débora Gallas Steigleder*

O planeta se mobiliza pela Amazônia em chamas, e o jornalismo repercute os diferentes vieses que envolvem este conflito ambiental, evidenciado pela chegada de partículas das queimadas a São Paulo em 19 de agosto.

A edição do fim de semana de 25 e 26 de agosto de Zero Hora, que traz o assunto na capa, pretendeu aprofundar alguns tópicos a partir de apuração própria da redação do jornal gaúcho. O texto na primeira página da cobertura, não assinado, traz um apanhado geral dos aspectos políticos que envolvem o conflito por um viés declaratório, com a tradicional reprodução de pronunciamentos das fontes oficiais. Nada de novo aqui, portanto. A dimensão local é abordada em seguida, em texto de Leonardo Vieceli, que faz um gancho com a menção ao risco que a destruição da floresta representa ao acordo comercial recém firmado entre União Europeia e Mercosul. O repórter relata a preocupação de entidades exportadoras do Rio Grande do Sul com os danos do crime ambiental à imagem do país frente aos parceiros comerciais. Esta centralidade nos impactos econômicos segue a posição editorial da empresa e é repercutida por colunistas de Política e Economia na mesma edição. De certa forma, então, nada de novo até aqui também.

A seguir, um quadro informativo com mitos e verdades sobre a Amazônia ajuda a contextualizar o leitor e complementa o texto de Iarema Soares, que apresenta o olhar dos especialistas sobre as possibilidades de restauração e as perdas inestimáveis nos ecossistemas amazônicos. Assim como a entrevista com bombeiro que está trabalhando no combate às queimadas, realizada por Rodrigo Lopes, estes recursos permitem um diálogo entre escalas. Nada substitui a presença do repórter in loco, mas, em um contexto de limitações físicas (e financeiras), uma construção discursiva que oriente o olhar “daqui para lá” é interessante para gerar proximidade. Um passo importante, porém, seria incorporar uma reflexão constante na cobertura sobre os efeitos diretos da perda da Amazônia em nossas vidas independentemente da proximidade geográfica com ela. Afinal, já passou da hora de reconhecermos as interconexões que fundamentam a vida na Terra.

Talvez o conteúdo local mais expressivo da cobertura seja o histórico da destruição da floresta, assinado por Itamar Melo, com gráficos e comparativo da área desmatada na Amazônia com o território do Rio Grande do Sul. O texto menciona que gaúchos foram estimulados a ocupar a região a partir dos anos 50. E, amplificando a questão da continuidade, é interessante ver aqui o deslocamento de sentido sobre o tema em Zero Hora, por meio de uma espécie de reversão do silenciamento: em minha leitura, por exemplo, remeti imediatamente a todas as coberturas do veículo – e do Grupo RBS, em geral – com narrativas heroicas sobre a conquista do Centro-Oeste e do Matopiba por gaúchos envolvidos no monocultivo de soja. Ao longo de décadas, a expansão das fronteiras agrícolas foi relatada – e exaltada – nos veículos da empresa sem contraponto ambiental. Muitos jornalistas têm-se posicionado para apontar o discurso violento e mentiroso de representantes do governo federal como avalizador de crimes ambientais, e com razão. Mas já é tempo de as mídias e seus profissionais fazerem uma autoavaliação: em que medida terem corroborado para o mito do progresso também contribuiu para a “naturalização” da destruição?

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Quando o jornalismo ambiental encontra o literário

Captura de tela – Reportagem da edição de agosto da revista Piauí
Por Roberto Villar Belmonte*

Talvez somente nos meses que antecederam a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que aconteceu no Rio de Janeiro entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, tenha se falado tanto sobre questões ambientais do Brasil como nesses primeiros meses do Governo Bolsonaro. Os grandes eventos e as catástrofes têm esse efeito nos jornalistas. Eles mobilizam.

O desmonte da governança ambiental planejado no ano passado e colocado em prática no início de 2019 foi descrito detalhadamente em uma reportagem de 11 páginas da revista Piauí assinada por Bernardo Esteves. Na mesma edição de junho, a publicação mensal deu mais 11 páginas para capítulo inédito do livro A Terra inabitável: uma história do futuro, de David Wallace-Wells.

Essa edição tinha ainda um texto de uma página sobre o plantio de milho dos quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo, e mais cinco páginas sobre uma batalha jurídica para salvar uma árvore amazônica em Copacabana. Essas 28 páginas da Piauí de junho com pautas do campo ambiental poderiam ser atribuídas ao Dia do Meio Ambiente (5 de junho), período em que proliferam juras de amor à sustentabilidade. Mas não é o caso.

A pauta ambiental sempre esteve no radar editorial da publicação de referência criada por João Moreira Salles. Um exemplo é a reconstituição do crime praticado pela Samarco em Mariana (MG) realizada pela repórter Consuelo Dieguez na reportagem A onda publicada na edição de julho de 2016 na Piauí. Esse trabalho entrou para os anais do jornalismo brasileiro e é estudado em sala de aula.

Os recursos do jornalismo literário – imersão do repórter, humanização das personagens, reconstrução de cenas, reprodução de diálogos – ajudam a dar sentido aos dramas e conflitos que envolvem a relação sociedade e natureza. Tais recursos, incentivados na Piauí, são muito produtivos quando a pauta é ambiental devido à complexidade dos temas e as diversas relações necessárias.

A edição de agosto da revista Piauí chegou às bancas com mais uma pauta do campo ambiental: os furtos de abelha no interior de Minas Gerais. A reportagem de quatro páginas do repórter Leonardo Pujol leva o leitor ao mundo dos apicultores, conectando o modo de ver as pautas do jornalismo ambiental aos recursos narrativos do jornalismo literário.

Nesse mundo da criação de abelhas (insetos afetados pela mudança do clima e pelos venenos utilizados nas monoculturas do agronegócio), agora também há ocorrências policiais, como já ocorre há séculos com o gado. Pujol, que contou essa história, faz parte dessa nova geração de jornalistas sensibilizados pelas questões ambientais e, no caso dele, pelo jornalismo literário.

Como salienta o professor Reges Schwaab em um dos capítulos do e-book Jornalismo ambiental: teoria e prática, “o espaço da reportagem ampliada ou em profundidade e o pensamento socioambiental têm, em termos de estrutura de pensamento, um parentesco” (p.71). Prova disso é a revista Piauí, publicação que não apenas abre espaço para temas ambientais, mas também para novos talentos do jornalismo brasileiro.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).