Observatório de Jornalismo Ambiental

Dia Mundial do Leite: entre preços, importações e as questões ambientais que ficam fora da cobertura

Imagem de Couleur por Pixabay

Por Gabriella de Barros *

Celebrado em 1º de junho, o Dia Mundial do Leite foi criado pela Food and Agriculture Organization para destacar a importância nutricional, econômica e social do leite em diferentes países. No Brasil, a data coincide com um momento de intenso debate sobre as importações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai, as medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e os impactos dessa disputa sobre produtores e consumidores.

Para esta análise, foram observadas cinco notícias: Entenda: Brasil importa leite em pó, mas é um dos gigantes em lácteos, Preço do leite volta a subir com menor oferta no campo e Governo aprova medidas antidumping contra leite da Argentina e Uruguai, da CNN Brasil; Camex aprova medidas antidumping contra leite em pó importado de Argentina e Uruguai, do MilkPoint; e MDIC confirma suspensão imediata de antidumping sobre leite em pó do Mercosul, publicada pelo UOL com conteúdo da Agência Estado. As matérias abordam diferentes aspectos do tema: a posição do Brasil no mercado internacional de lácteos, a alta recente dos preços do leite, as medidas antidumping contra produtos importados da Argentina e do Uruguai e a posterior suspensão dessas medidas pelo governo federal.

O que as matérias destacam

Ao analisar o conjunto das notícias, observa-se que a cobertura é fortemente orientada por uma perspectiva econômica. Concentram-se nos impactos das importações sobre a competitividade dos produtores brasileiros, nas oscilações dos preços pagos ao produtor, nas decisões governamentais relacionadas ao comércio internacional e nos possíveis reflexos dessas medidas para a inflação dos alimentos.

As fontes mais presentes são representantes do governo, entidades do setor leiteiro, especialistas em mercado e organizações ligadas à produção agropecuária. Nesse enquadramento, a disputa é apresentada principalmente como um conflito entre dois interesses legítimos: a proteção dos produtores nacionais e a manutenção de preços acessíveis para os consumidores.

A própria suspensão das medidas antidumping é justificada, nas matérias, pela preocupação com os preços dos alimentos e seus efeitos sobre o consumidor final. Dessa forma, a cobertura constrói uma narrativa em que a principal questão é econômica, como equilibrar a renda dos produtores brasileiros com a necessidade de evitar aumentos no preço do leite e de seus derivados.

O que as matérias deixam de lado

Embora a cobertura jornalística ofereça informações relevantes sobre mercado, comércio exterior e inflação, chama atenção a ausência de discussões ambientais mais amplas relacionadas à cadeia produtiva do leite. Pouco ou nada é mencionado sobre os impactos das mudanças climáticas na produção leiteira, mesmo em um contexto no qual secas, enchentes e eventos climáticos extremos vêm afetando a agropecuária em diferentes regiões da América do Sul. Também não aparecem reflexões sobre a vulnerabilidade dos sistemas alimentares diante das transformações climáticas ou sobre os desafios de construir modelos de produção mais sustentáveis.

Da mesma forma, as matérias não exploram como a permanência ou o desaparecimento de pequenos produtores pode afetar a organização dos territórios rurais, a segurança alimentar e a resiliência das cadeias de abastecimento. O debate fica concentrado nas dimensões comerciais e econômicas, enquanto aspectos socioambientais permanecem periféricos ou ausentes.

A disputa em torno do leite importado do Mercosul mostra que questões aparentemente econômicas também são questões ambientais. Discutir a produção de alimentos significa discutir território, clima, modos de vida rurais e a capacidade das sociedades de garantir abastecimento sustentável em um cenário de crescente instabilidade climática. Essa talvez seja a principal pauta ausente em boa parte da cobertura recente: não apenas quanto custa produzir leite, mas qual modelo de produção e de sistema alimentar está sendo construído para o futuro.

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA

* Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

Pampa, bioma (cada vez mais) esquecido

Uma grande fatia do RS desprotegida e ignorada por parte da imprensa. Imagem: Bruno Correa Rodrigues

Por Sérgio Pereira*

O Pampa tem sido tema recorrente neste Observatório. Não poderia ser diferente, já que estamos tratando de um bioma que apesar de ocupar grande parte do território do Rio Grande do Sul tem sua importância praticamente ignorada pelos principais veículos de comunicação do Estado.

Ganchos para abordar o tema não faltam. Por exemplo, no dia 13 de maio, o MapBiomas, que faz o monitoramento ambiental brasileiro, divulgou levantamento inédito sobre a fragmentação da vegetação nativa dos seis biomas.

O consórcio explica que “fragmentação é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de vegetação nativa são divididas em porções remanescentes cada vez menores e mais isoladas por conta do desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades. Os efeitos negativos do desmatamento são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas”. Ou seja, quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação, sintetiza o pesquisador  Dhemerson Conciani.

Conforme o mapeamento, todos os biomas apresentaram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas (1986-2023). “O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente”, informa o texto de divulgação. Já o Pampa aparece em terceiro lugar, com 285% de crescimento. Depois surgem o Cerrado, com 172%, a Caatinga, com 90%, e a Mata Atlântica, com 68%.

Os três principais jornais do RS (Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio) ignoraram completamente o levantamento em suas versões impressas. O Correio do Povo, no entanto, foi o único dos três jornais a dar a notícia em seu site, no mesmo dia 13, com o título “Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos, diz MapBiomas”, texto reproduzido da Agência Brasil.

Na realidade, a imprensa hegemônica gaúcha praticamente retirou o Pampa de suas pautas. A triste situação ambiental do principal bioma gaúcho não causa mais espanto aos jornalistas. Com exceção dos veículos alternativos, os principais jornais decidiram abraçar o agronegócio, principalmente o da soja, que tem ampliado sua área no Estado de forma impressionante. O MapBiomas denunciou, no ano passado, que 45,6% do bioma gaúcho estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico em 2024, com predomínio do uso agrícola. E, conforme o consórcio, a área plantada com soja cresceu de 827 mil hectares para 3,2 milhões de hectares do Pampa entre 1985 e 2024, um aumento de 385%. 

No dia 27 de maio, novo gancho. O Governo do RS divulgou em seu portal de notícias que o Estado apresentou queda na taxa de desmatamento em 2025, a partir de relatório elaborado pelo MapBiomas. Zero Hora e Correio do Povo incluíram a notícia em suas versões on-line. A matéria de Zero Hora tem o mérito de analisar o levantamento, já que em 2024 a inundação e os deslizamentos de terra resultaram em uma perda de vegetação de 70%. Os três diários, no entanto, nada registraram em suas edições impressas.

O ambiente digital, importante destacar, não permite avaliar a hierarquia editorial concedida ao fato. Primeiro que não há transparência sobre o número de visualizações (os veículos possuem ferramentas de métrica, mas não divulgam os dados). Segundo, porque não há como saber, algumas horas após a postagem, se a notícia ganhou ou não destaque na capa do site. Terceiro, as empresas cobram pelo acesso. É possível, portanto, destacar ou esconder uma informação na plataforma virtual.  

Esse silêncio dos jornais tradicionais gaúchos cria um ambiente propício para a exploração desenfreada. Assim, os interesses coletivos, que deveriam predominar no jornalismo, ficam relegados a um segundo plano, favorecendo setores econômicos poderosos.

Como ensina o professor Wilson Bueno, o “jornalismo ambiental é, antes de tudo, jornalismo (que é o substantivo, o núcleo da expressão) e deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2007, p. 14). E o resto, como definiu Millôr, é armazém de secos e molhados.

Revisão: Luciano Velleda, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Erro jornalístico ou negacionismo da ciência? O caso da Lei 12.651/2012 e suas consequências

Pesquisa da Rede Campos Sulinos em andamento nos campos da Estação Experimental Agronômica da UFRGS. Foto: Clara Naressi

Por Eliege Fante*

Um dos projetos de leis antiambientais mais citados pela imprensa nessa semana é o PL 364/2019, que foi aprovado pelos deputados nessa terça-feira (19/05) para ir à análise e votação no Senado. Caso passe nessa casa legislativa, a recomendação de cientistas é pelo veto do Governo Federal. Essa postura não é novidade: há seis anos esse PL tem o rechaço de integrantes e de órgãos governamentais técnicos, de pesquisadores de universidades, de entidades, associações e instituições, enfim, de todos que são reconhecidos pelo trabalho na proteção da biodiversidade brasileira.

Não obstante, a imprensa em geral repete, desde o início do trâmite, o discurso de autores e de apoiadores do referido PL, o qual pretende viabilizar a desproteção da biodiversidade campestre a uma escala estimada em 48 milhões de hectares no país, distribuídos entre todos os biomas, inclusive os predominantemente florestais como a Amazônia. O problema de a imprensa fazer essa repetição reside em veicular dois erros jornalísticos e que dificultam a compreensão do público sobre o que está em jogo na disputa entre quem é contrário e quem é favorável ao PL 364/2019. 

O primeiro erro da imprensa é manter, desde 2012, o nome “Código Florestal” e “novo Código Florestal” para a nova lei, a Lei 12.651 de Proteção da Vegetação Nativa. A mudança do nome não foi em vão: revogou a Lei  4771/1965 que instituía o novo Código Florestal e demarcou a ampliação da proteção para todos os biomas e ecossistemas brasileiros. Portanto, ignorar isso é omitir que áreas não florestais têm o mesmo status legal de proteção e é negar-se a compreender e a aprender o papel ecológico dos demais biomas. Neste sentido, chama a atenção a abertura destoante do texto atual feito pela Revista Fórum que discorre sobre os campos, mas intitula as matas.

Em raras exceções, a imprensa chegou a veicular o equívoco prescrito no PL 364 de considerar como área rural consolidada aquelas áreas dos imóveis rurais com campo nativo que tiveram o uso antrópico por meio da atividade agrossilvipastoril preexistente a 22 de julho de 2008, ainda que como coluna, como aqui: “imprudente presunção de que os ecossistemas campestres nativos tradicionalmente utilizados pela atividade pecuária seriam, invariavelmente, áreas rurais consolidadas”.

Entre outros cientistas ouvidos sobre o PL 364/2019, o professor do Instituto de Biociências da UFRGS e coordenador do grupo de pesquisas Rede Campos Sulinos Valério Pillar explica que o uso pastoril conserva a biodiversidade campestre conforme demostram os resultados dos estudos. Assinala, também, que sendo a vegetação nativa campestre anterior à florestal, a presença de campo nativo não indica o desmatamento da área. Finalmente, para dirimir as dúvidas, recomenda a todos expressarem “supressão de vegetação nativa” quando ocorrer a conversão (o mesmo que destruição, devastação) da vegetação nativa para outros usos, tais como implantar lavouras, construir moradias, urbanizar, etc. Dessa forma, esse é o segundo erro jornalístico verificado nesses anos todos, já que desmatamento aplica-se apenas onde houve floresta, como informa a notícia do IHU Humanitas.


“A confusão terminológica também tem culpa do Ministério do Meio Ambiente, que coloca destruição de vegetação nativa como desmatamento”, afirma Valério Pillar. Segundo o professor, o termo “desmatamento” implica o desaparecimento de florestas, também chamada de vegetação lenhosa. “O problema do Pampa não é desmatamento, é a destruição da vegetação campestre nativa. Infelizmente, a divulgação é feita como se estivesse em queda”, diz Pillar.

A simplificação errônea veiculada pela imprensa, por meio do uso de desmatamento em vez de supressão da vegetação nativa, viola o compromisso ético de profissionais jornalistas, os quais assistiram algumas vezes seus títulos e textos serem alterados por editores e chefes, maculando a rigorosa pesquisa e apuração realizada com as fontes da ciência. A consequência é dificultar ainda mais a compreensão sobre a real ameaça defendida pelo PL 364, que é (1)  livrar da regularização áreas convertidas indevidamente e  (2) dispensar de autorização futura para o corte de vegetação nativa campestre ou nativa em regeneração. Portanto, esse resultado é muito mais do que “flexibilizar” o que estabelece a Lei 12.651/2012, significa anular a imprescindível proteção da biodiversidade campestre tão rica e tão importante quanto a florestal para a sociedade. Até mesmo a comunicação pública erra ao meramente repetir um dos principais argumentos do deputado autor do PL, que distrai o público afirmando:  “não há previsão de autorização de corte de árvores no projeto”.

Diversos documentos científicos podem auxiliar a imprensa. “There are more than just trees and forests to be conserved and restored” (“há mais do que apenas árvores e florestas para serem conservadas e restauradas”) é o título da carta aberta de cientistas denunciando a grave situação do Cerrado. Em “Brazil’s natural grasslands under attack” (“Os campos nativos do Brasil estão sob ataque”), cientistas denunciam especificamente o PL 364/2019. E em “Campos e savanas precisam entrar no debate público sobre conservação e restauração ecológica”, cientistas justificam a compensação ambiental e restauração ecológica, “desmistificando tabus” difundidos a respeito desse tipo de vegetação que constitui a tão falada e incompreendida ou negada,  megabiodiversidade brasileira, da qual toda a população depende dos benefícios. Sem esquecer o trauma pós-enchente de 2024 no Rio Grande do Sul e a previsão do super El Niño neste segundo semestre, o benefício da regulação hídrica se destaca.   

Revisão: Eutalita Bezerra e Luciano Velleda, integrantes do GPJA.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e atua como jornalista no serviço público gaúcho.

Uma década de Belo Monte

Imagem da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Crédito: Ângela Camana

Por Ângela Camana*

Na semana em que se completam dez anos de inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situada em Altamira, no Pará, o jornalismo – tão afeito a efemérides deste tipo – apresenta uma abordagem insuficiente diante desta obra repleta de controvérsias. A ausência de conteúdos de maior fôlego impede o aprofundamento desejado na história e nos efeitos desta obra que marcou a Amazônia e o Brasil: dez anos passados, o que este acontecimento nos ensina? Ou em bem-vinda autocrítica: como o próprio jornalismo tomou parte no conflito instaurado pelo desenvolvimento e futuro desejável da região?

Grande parte da imprensa tem se dedicado a reproduzir uma carta-manifesto assinada por entidades que cobram reparação e questionam a pertinência de novos empreendimentos de grande porte na região, como é o caso de Belo Sun – projeto de mineração que ameaça novamente aquele território. A despeito da importância de oferecer visibilidade à correspondência, a ausência de investigações mais profundas contrasta com o porte e os impactos de Belo Monte, maior hidrelétrica da Amazônia e uma das cinco maiores do mundo. A exceção até aqui é a reportagem de Nadia Pontes, publicada em parceria na Folha de S. Paulo  e na DW, cujo título relembra o que pode de melhor o jornalismo fazer, ao questionar: Como Belo Monte mudou para sempre o Xingu.

O texto de Nadia oferece aos leitores uma perspectiva de como a vida de um rio e, por conseguinte, de comunidades inteiras que o habitavam foi desorganizada, em um processo repleto de controvérsias técnicas e burocráticas. A repórter acompanha o caso há uma década e já dedicou outras publicações ao tema. Neste sentido, o seu texto nesta semana é exemplar de um jornalismo de longa duração, que não permite que pautas sensíveis sejam facilmente esquecidas ou superficialmente reportadas.

Destacar efemérides sem qualquer exercício de reflexão acerca dos efeitos das datas e acontecimentos rememorados é sintoma de um jornalismo praticado sob o signo da urgência e sem compromisso com a memória compartilhada. Insuficiente, portanto, do ponto de vista do interesse público. Resta questionar se, não fosse o manifesto lançado por entidades engajadas com a luta por justiça aos afetados, os dez anos de Belo Monte seriam lembrados.  Veículos locais e nacionais têm divulgado a carta aberta “Belo Monte: dez anos de operação, mais de uma década de danos sem reparação”, mas não avançam oferecendo outros dados e perspectivas para além do que a própria correspondência informa. Mais do que um reconhecimento de boas práticas jornalísticas, a repercussão do manifesto mostra como a sociedade civil organizada é capaz de agendar e apelar à imprensa – e não apenas de esperar por ela.

Tema de numerosas teses e dissertações, inclusive no que tange os discursos da imprensa a seu respeito, a hidrelétrica também figurou em especiais jornalísticos, como o A Batalha de Belo Monte,  de 2013, para citar apenas um exemplo. Completados dez anos da primeira turbina a entrar em operação no Xingu e proliferando denúncias que vão da morte do rio a violações de direitos de indígenas, ribeirinhos e pescadores artesanais, era de se esperar que a pauta fosse retomada com o mesmo fôlego.

Revisão: Eloisa Beling Loose, integrante do GPJA.

* Ângela Camana é jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental(CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com.

O jornalismo segue submerso dois anos depois da inundação de 2024

Foto: Isabelle Rieger

Por Luciano Velleda*

Na primeira semana que marcou os dois anos da tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul, em maio de 2024, o portal GZH, site do maior grupo de comunicação do estado, foi escolhido para analisar quantas reportagens ou colunas trataram do tema das obras de proteção contra futuras enchentes e inundações. Ao todo, entre os dias 24 de abril e 3 de maio, foram publicados sete textos, sendo quatro de colunistas e três matérias.

Principal colunista de política do Grupo RBS, Rosane de Oliveira assinou três das quatro colunas publicadas no período. Em todas, a essência do texto é declaratória em relação as afirmações das fontes oficiais, sem contraponto ou visão crítica. O governador Eduardo Leite é a autoridade com maior visibilidade, sendo o personagem central em quatro dos sete textos publicados. Só a entrevista do governador, no último dia 29 de abril, ao programa “Gaúcha Atualidade”, da rádio Gaúcha, foi desdobrada em três publicações. Apenas uma reportagem, assinada pelas jornalistas Gabriela Plentz e Isadora Garcia, trouxe um panorama crítico da situação das obras dos sistemas de proteção de Eldorado do Sul e Canoas, duas das cidades mais atingidas em 2024.

O primeiro texto traz a cobertura de uma agenda oficial do governo estadual, um balanço das ações executadas até o momento. O título reproduz a afirmação do governador no ato, ao dizer que o “estado está muito preparado para enfrentar novos episódios”. A matéria informa que o governo estadual, por meio do Plano Rio Grande, empenhou R$ 13,9 bilhões na “reconstrução de estruturas e locais atingidos, sem acrescentar outros investimentos feitos, como pelo governo federal”. Na sequência, o texto elenca as ações desenvolvidas por tópicos: infraestrutura; rodovias; governança; gestão e habitação. Entretanto, as informações são apresentadas sem detalhes e contextos, dando a impressão de apenas reproduzirem os dados divulgados pelo governo.

Eduardo Leite

No dia 29 de abril, a entrevista do governador na rádio Gaúcha ganha a primeira repercussão no veículo online em texto assinado por Paulo Rocha. O destaque é o sistema de proteção da cidade de Eldorado do Sul, sem abordar outros projetos de proteção pendentes no RS. O texto, novamente, apenas reproduz as falas de Eduardo Leite na entrevista, sem contraponto ou análise crítica. É anunciada a apresentação, oito meses após a contratação, da atualização do anteprojeto de proteção de Eldorado do Sul. Agora, o governo estadual precisa contratar os projetos básico e executivo, fazer os estudos ambientais e então, depois destas novas etapas, começar a execução da obra.

Na esteira da entrevista ao programa “Gaúcha Atualidade”, no mesmo dia 29 de abril, Rosane de Oliveira publica sua primeira coluna sobre a efeméride dos dois anos da tragédia climática. O texto entrega o que o título promete: “Governador quer mais destaque ao que foi feito depois da enchente”. Pedido feito, pedido aceito.

“O governador reconhece que ainda há muito por ser feito, mas diz que prefere celebrar o que conseguiu entregar. Destaca que o Rio Grande do Sul tem carência de engenheiros, o que afeta o ritmo das empresas e do andamento de projetos, como os que envolvem as bacias dos rios Gravataí e Caí, citados por Leite como exemplos de trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelas mesmas equipes”, diz o texto.

Falta, entretanto, um contraponto, como as críticas dos Comitês de Bacia Hidrográfica do estado, em que muitos gestores reclamaram da falta de diálogo e apoio do governo Leite antes e depois da enchente. Por outro lado, a coluna ressaltou os R$ 300 milhões investidos pelo governo estadual na dragagem de rios, canais e córregos menores de 145 municípios.

No mesmo dia 29 de abril, a colunista de política dá visibilidade ao ato da prefeitura de Canoas, que fez agenda oficial para entregar o chamado “muro da Cassol”, com pouco mais de 100 metros de extensão e dois de largura. A construção, no bairro Rio Branco, foi noticiada como a “primeira obra de reconstrução e fortalecimento do sistema de proteção contra cheias da cidade”. O muro deve integrar a estrutura do dique Rio Branco, com a finalidade de proteger parte da cidade contra o aumento do nível do Rio Gravataí. Porém, mais uma vez, a coluna não abre espaço para críticas relacionadas a obra, algo que vai aparecer na reportagem de Gabriela Plentz e Isadora Garcia.

Ainda no dia 29 de abril, dessa vez é a colunista de economia, Giane Guerra, que retoma num curtíssimo texto de apenas dois parágrafos, a entrevista concedida pelo governador à rádio Gaúcha. O foco é a proteção (ou a falta de) do aeroporto Salgado Filho. A colunista enfatiza que Leite se comprometeu a liberar, “imediatamente”, R$ 30 milhões para a obra que irá proteger o aeroporto de futuras enchentes e inundações.

“Mas os prazos preocupam porque há a previsão de que o El Niño provoque chuvas fortes em setembro. Para a obra ficar pronta até lá, teria que começar em julho e ainda não se sabe nem se o Exército aceitará fazer o serviço. Questionado pela coluna sobre esta apreensão, o governador disse que ajudará na articulação”, diz trecho do primeiro parágrafo. O segundo parágrafo é uma frase do governador afirmando que ajudará na articulação para a obra ser liberada. Sem contexto, sem melhores explicações sobre os motivos que fazem uma obra tão importante nem ter sido iniciada, a coluna acaba. Para saber mais, o leitor precisa ouvir a entrevista de 30 minutos anexada ao texto.

A terceira e última coluna de Rosane de Oliveira no período analisado, foi publicada dia 3 de maio. Assim como nos exemplos anteriores, é uma coluna declaratória, sem ponderação ou contraditório. O texto trata da agenda do prefeito Sebastião Melo, que acompanhou o teste das comportas do sistema de proteção da Capital. O teste virou lei em 2024 e deve ser feito anualmente no dia 3 de maio.

“Melo acompanhou o fechamento das comportas 1, na Usina do Gasômetro, e 2, no Cais Embarcadero, que receberam melhorias de vedação e mobilidade – assim como as comportas 4 e 6, na Avenida Mauá”, descreve trecho da coluna. Na sequência, dá voz ao prefeito: “Assumimos o compromisso de qualificarmos o sistema de proteção contra cheias e temos cumprido esse objetivo com transparência e agilidade. Estamos mais preparados do que antes”, disse Melo.

A coluna informa que a comporta 9 deve ser fechada completamente, assim como outras sete já foram fechadas definitivamente, enquanto as comportas 11 e 12 devem ser substituídas até junho. O texto não aborda o status de nenhuma outra obra ou melhoria do sistema de proteção de Porto Alegre.

Jornalismo

A reportagem publicada no dia 30 de abril por Gabriela Plentz e Isadora Garcia é a única digna de ser chamada pelo nome, sendo o primeiro texto a citar as mudanças climáticas. O destaque são os projetos do sistema de proteção das cidades de Canoas e Eldorado do Sul. O tom é mais crítico, não meramente declaratório como os anteriores.

A reportagem também é a primeira a dar nome e imagem ao drama vivido pelos gaúchos, ao contar um pouco da história da moradora de Eldorado do Sul que perdeu a casa e vive, com o marido e três filhos, num módulo provisório enquanto espera a casa nova ficar pronta. A reportagem conta também um pouco da rotina sob o medo de moradores de Canoas.

“Enquanto o governo do Estado sustenta que o Rio Grande do Sul está mais preparado, quem mora nos dois municípios convive com o descompasso entre o cronograma oficial de obras e o medo de cada nova chuva”, diz trecho da matéria, que segue: “Conforme a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, nenhum dos projetos novos do sistema de proteção teve a construção iniciada. Mas parte das estruturas já existentes foram reformadas e outras reforçadas”.

Ao se referir ao dique de Eldorado do Sul, a reportagem explica que a proteção, uma estrutura de 8,6 quilômetros ao redor do município, “ainda não saiu do papel”.

Em Canoas, cidade que já contava com um sistema de proteção (que se mostrou insuficiente), a reportagem narra a união dos moradores dos bairros Fátima, Rio Branco e Mato Grande para fiscalizar as obras. “Eles reclamam ao ver estruturas incompletas e dizem que há pouco ou nenhum avanço no dia a dia”, conta o texto. Em relação ao andamento do dique do bairro Rio Branco, a matéria traz fragilidades na execução do trabalho de proteção, além de apontar outras obras que nem iniciaram, como a estrutura de contenção próximo à empresa Bianchini, as casas de bombas nº 9 e 10, além do dique do bairro São Luís, que ainda precisa de projeto.

A matéria encerra destacando a previsão de que o sistema de proteção na Região Metropolitana seja concluído até 2031. E abre espaço para o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, afirmar que a segurança envolve também treinar a sociedade para lidar com as mudanças climáticas. “Não existe proteção total baseada em obra de infraestrutura. E isso é fundamental que a sociedade saiba”, diz ele. Enfim, jornalismo.

*Luciano M. Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

Quando a água recua, ficam os impactos sociais e a falta de um jornalismo comprometido com a educação climática

Pelotas – Rio Grande do Sul, Julho/2024. Foto: Myke Sena/DPU


Por Carine Massierer*

As consequências econômicas, ambientais, físicas e emocionais dos desastres climáticos ficam registradas a partir das narrativas e das percepções tornadas públicas pela imprensa, como houve com a inundação de maio de 2024. O evento climático atingiu várias regiões do Rio Grande do Sul, incluindo não só a capital, mas intensamente os Vales do Taquari e Rio Pardo. A tragédia que deixou 185 mortos e 23 pessoas desaparecidas completa dois anos em maio de 2026 e a incidência do fenômeno El Niño deixa apreensivos todos aqueles que de alguma forma sofreram as consequências.

Entre a tragédia e a narrativa da imprensa está a pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari”, feita pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), que foi recentemente divulgada.

Nas matérias a imprensa deu bom espaço para o estudo que traz a percepção de 389 moradores de 11 municípios atingidos pelas cheias nos Vales do Rio Pardo e Taquari. Os conteúdos podem ser conferidos em Portal Arauto, Folha do Mate, AHora, Brasil de Fato e Extraclasse.

O Instagram e Facebook dos veículos também foram utilizados para a ampliação de espaços de divulgação da pesquisa como é o caso do Portal Arauto, em que a postagem não teve nenhuma interação escrita. 

No caso do Grupo A Hora, a matéria consta no link  do Facebook: https://www.facebook.com/grupoahoraoficial/videos/-a-experi%C3%AAncia-das-enchentes-de-202324-mudou-a-forma-como-a-popula%C3%A7%C3%A3o-enxerga-as/2248617299301585/ e o que chama a atenção é que a empresa tem 265 mil seguidores na plataforma e a postagem recebeu apenas quatro comentários, sendo três abordando a tristeza e o sofrimento do povo e um de cunho político. A publicação conta com imagens em vídeo e informações em tela refletindo os principais resultados da pesquisa, mostrando que o conteúdo foi visualizado por 7.7 mil. Dentre os canais de televisão, apenas o programa Jornal do Almoço, que possui edição regional, veiculou a pesquisa pelo Grupo RBS/Globo.

Observa-se que além da imprensa regional, outros veículos que se ativeram a temática foram os de comunicação independentes e alinhados a pautas e movimentos sociais, como o Extra Classe e o Brasil de Fato, que tem abrangência nacional e atuação popular. Os canais de televisão vinculados a imprensa hegemônica não deram espaço e novos sentidos e apropriações da pesquisa ocorreram por parte de políticos e outras autoridades que acabaram fazendo podcasts e outras publicações incluindo a participação dos coordenadores da pesquisa. 

Segundo a pesquisa as inundações alteraram a percepção da população sobre as mudanças climáticas pois 90% dos entrevistados relacionam o agravamento dos eventos extremos à ação humana e ao aquecimento global. Além disso, 54,9% dos participantes percebem uma relação forte entre as enchentes e as mudanças climáticas. Assim, o estudo revela nuances interessantes mostrando que as pessoas associam eventos extremos e água a emoções negativas e destruição, mas apenas 26,9% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas têm causas humanas e 15% apontam que os motivos são divinos ou naturais.

Mesmo sendo muito relevantes, os resultados da pesquisa mostram que os sentidos se alteram ao entrarem na esfera pública virtual. E, ainda, que vai depender do reconhecimento do público para que o tema permaneça nas arenas de discussão e, sobretudo, cheguem até a imprensa hegemônica e consigam romper com a bolha regional de divulgação. 

A recorrência de eventos climáticos extremos requer o investimento em educação para preservar vidas, especialmente, uma educação climática. Espera-se que a imprensa hegemônica participe contribuindo com amplas estratégias de mobilização, também em espaços virtuais, para capilarizar as informações das cidades aos rincões. E, de fato, levar a ações coletivas em prol de melhores condições de vida e de resiliência climática. 

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Jornalismo é oferecer polêmicas, sem abandonar o contexto

Fotos Públicas/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Sérgio Pereira*

A imprensa brasileira é um espelho da visão elitizada da sociedade no que se refere à representatividade. Em outras palavras: integrantes dos denominados grupos minorizados têm sempre mais chances de virar notícia nas páginas policiais. Já em certas editorias, como política, cultura e economia por exemplo, os casos são raros. E, quando ocorre, estamos diante de um fenômeno bissexto e que serve apenas para afiançar a regra. Mas, como poderia ter dito Forrest Gump, um jornal é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar.

Em sua edição impressa do dia 16 de abril, por exemplo, o diário rio-grandense Zero Hora deu voz, em sua valorizada página 2, a uma integrante dos povos originários do Brasil. A participação da influencer Ysani Kalapalo em um fórum de debates realizado em Porto Alegre seis dias antes foi o gancho para justificar a matéria. Em formato pingue-pongue, a entrevista também foi disponibilizada no digital GZH um dia antes.

O título não poderia despertar mais a atenção, como recomendam os manuais de redação: Culturalmente, os princípios de direita se assemelham mais à cultura indígena, diz influenciadora digital Ysani Kalapalo”. Pra quem não conhece, a entrevistada se apresenta nas redes sociais como “ativista, comunicadora, liderança indígena do Alto Xingu e mato-grossense com orgulho”, com quase 300 mil seguidores no Instagram. Ela se declara abertamente eleitora de candidatos da extrema direita, como indica a chamada de ZH.

Não deixa de ser peculiar a posição da entrevistada. Afinal, as principais lutas indígenas são, entre outras, pela conservação e delimitação de suas áreas, a proteção dos biomas onde vivem, políticas públicas específicas para a saúde e educação (intercultural e bilíngue) e uma maior representação na política. E, com certeza, essas não são pautas da direita brasileira. Que o diga o povo da etnia yanomami, cujo número de mortes por desnutrição aumentou 331% nos quatro anos do governo Bolsonaro.

Ineditismo, porém, é uma das características do jornalismo. A velha máxima ensinava que um homem precisa morder um cachorro para virar notícia. Já no caso da “ativista” de GZH, a singularidade está em sua posição política, equivalente à de um líder sindical pregando a implantação de robôs nas linhas de montagem. Mas estamos experimentando tempos atípicos em que quase nada mais causa espanto.  

Antes de Ysani, ZH perdeu a oportunidade de ouvir outra liderança dos povos originários, essa muito mais famosa e reconhecida, inclusive internacionalmente. Ailton Krenak, autor de sucessos livreiros como “Ideias para adiar o fim do mundo”, imortal da Academia brasileira de Letras (ABL) e com mais de 412 mil seguidores na mesma rede social.

Uma das maiores vozes indígenas do país com livros traduzidos para mais de 19 países, Krenak veio à capital gaúcha para a aula inaugural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizada no dia 9 de março passado. GZH, que não deixou de noticiar a vinda do escritor, perdeu a oportunidade de dar aos seus leitores uma visão legítima dos movimentos indígenas nacionais e uma mostra da sabedoria ancestral do autor. 

Já em 21 de abril, GZH postou pingue-pongue com a ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, com questões envolvendo temas como racismo ambiental, demarcação de terras e marco temporal. O material, assinado pelo jornalista Eduardo Rosa, foi produzido a partir da participação da agora deputada federal no programa digital da mesma RBS “Conversas Cruzadas” do dia 20, por conta do Dia dos Povos Indígenas (19 de abril). A entrevista, no entanto, não constava em nenhuma versão impressa de ZH até o dia 22. 

O primeiro pressuposto do Jornalismo Ambiental é a ênfase na contextualização. Essa característica epistemológica busca superar a fragmentação e a descontinuidade dos textos, sugerindo uma visão ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e apresentando uma perspectiva sistêmica (Girardi et al., 2020, p. 284-285). Na entrevista com Ysani Kalapalo, ZH poderia ter oferecido aos leitores as contradições no posicionamento da influencer, as críticas que recebe e as polêmicas em que se envolve. Também poderia informar que ela é vista como uma “traidora da causa” por entidades representativas dos povos originários.

A produção de um veículo impresso exige escolhas. Os editores decidem o que será publicado e o que será engolido pelos fatos. Para fazer essa triagem, critérios são primordiais e definir parâmetros sólidos e bem-fundamentados significa navegar com precisão mesmo em águas turbulentas. Em tempos em que quase tudo suscita polêmica, equilíbrio, bom-senso e contexto se transformam em equipamentos de proteção para o jornalismo. Fica a recomendação: não edite sem eles.

Revisão: Ilza Girardi, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

FORREST GUMP: O contador de histórias. Direção: Robert Zemeckis. Produção: Wendy Finerman, Steve Tisch, Steve Starkey. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1994. 1 DVD (142 min).

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053.

“A resposta somos nós”: Povos indígenas são decisivos para a transição socioambiental 

Foto: Antonio Augusto/Fotos Públicas

Gabrielly Menezes da Silva* 
Cláudia Herte de Moraes**

A Esplanada dos Ministérios em Brasília tornou-se, mais uma vez, o centro da resistência originária com a realização do 22º Acampamento Terra Livre (ATL), entre os dias 5 e 11 de abril de 2026. O evento foi um momento importante para a reafirmação do protagonismo dos povos originários na política ambiental. Para discutir a cobertura jornalística desse evento, decidimos fazer uma análise comparativa que demonstra como diferentes projetos editoriais podem evidenciar facetas diferenciadas da mesma mobilização.

Um Só Planeta se apresenta como projeto editorial multiplataforma ligado à Editora Globo. Na sua reportagem “Povos indígenas apresentam proposta para fim dos combustíveis fósseis e cobram ação do Brasil” destaca a entrega de um plano de sugestões ao governo, focado na construção de um “mapa do caminho global” para a transição energética justa. As principais propostas foram a defesa do fim imediato da abertura de novos campos de petróleo, gás e carvão, além da proposta de criação de “Zonas Livres de Combustíveis Fósseis (FFZs), que proibiriam a exploração em áreas de alta relevância ecológica, como a Amazônia. A representação indígena que aparece na reportagem é Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do ATL. Tuxá afirma que “não há transição energética justa sem a garantia dos territórios”, evidenciando a demarcação como uma medida concreta de enfrentamento à crise climática.

Na parte política, a reportagem de Um Só Planeta critica o governo brasileiro por ter “dois pesos e duas medidas”, já que o país tenta ser líder no exterior, mas não resolve seus problemas em casa. O texto mostra que o governo já ultrapassou o prazo de dois meses para criar um plano que livre o Brasil da dependência de petróleo e carvão. Existe uma disputa entre os ministérios, enquanto o Meio Ambiente e a Fazenda pressionam por um plano sério de mudança, o Ministério de Minas e Energia tenta enfraquecer a proposta usando projetos antigos que, na verdade, aumentam o uso de combustíveis poluentes. Com a saída de ministros importantes como Marina Silva e Fernando Haddad para as eleições, há um grande medo de que o plano dos indígenas seja “enterrado”, após o empenho realizado pelo governo Lula na COP30. 

Um ponto positivo da reportagem do Um Só Planeta é que ela explica com detalhes como o clima e a natureza dependem do saber dos indígenas para que as soluções ambientais funcionem de verdade. O ponto negativo é que o texto pode ficar muito técnico e “difícil”, o que às vezes também esconde a violência real sofrida nas terras sob pressão de garimpeiros, algo que o Brasil de Fato destaca mais.

A matéria do Brasil de Fato, como uma mídia popular, foca no que é mais urgente para quem vive nas aldeias desde o seu título: “Demarcação e denúncia de mineração em terras indígenas dominam debate no Acampamento Terra Livre”. Neste texto, é destaque que os entraves sofridos pelos indígenas se dão por conta de serem interesses contrários ao modelo de exploração. “Estão litigando contra esse modelo capitalista, enfrentando aquilo que é mais caro e mais precioso para o capitalismo, que é o controle dos territórios” nas aspas da fonte ouvida, Luis Ventura, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Também traz à tona a criação de uma Comissão da Verdade Indígena para investigar crimes que ocorrem, inclusive, no “período democrático atual”, indicando que a violência contra esses povos é uma constante do Estado, independentemente do governo.

Enquanto Um Só Planeta critica a gestão de políticas públicas e foca em grandes acordos globais sobre energia, o Brasil de Fato prioriza o olhar sobre as formas de opressão, com uma crítica estrutural e histórica, sobre a luta e a sobrevivência física dos povos contra invasores dos territórios. No fim, os dois jornais concordam em um ponto, embora com enfoques diferenciados, pois o único caminho para um futuro sustentável do planeta depende do reconhecimento do protagonismo indígena. Como diz o mote do ATL: “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, Bolsista de Iniciação Científica. E-mail: gabrielly.menezes@acad.ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O retorno do El Niño à pauta e a ausência da precaução na cobertura

Centro Histórico de Porto Alegre – 13/05/24. Foto: Isabelle Rieger

Por Débora Gallas*

O fenômeno El Niño, que consiste no aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, pode contribuir para a intensificação de eventos climáticos extremos no Brasil – em sua última ocorrência, em 2024, tivemos um período de recordes de calor, inundações no Rio Grande do Sul e seca na Amazônia. Um alerta lançado na última semana pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) afirma que há mais de 80% de probabilidade de ocorrência do fenômeno novamente neste ano, a partir do trimestre agosto-setembro-outubro.

Devido à distância temporal, a nota técnica explica que o Cemaden trabalha no momento com cenários hipotéticos baseados em ocorrências passadas, como a diminuição das chuvas no Norte do Brasil e o aumento delas no Sul, além de ondas de calor nas regiões Sudeste e Centro-Oeste caso o El Niño se desenvolva. Para verificar como o jornalismo brasileiro está abordando o assunto, realizamos busca na ferramenta Google Notícias em 6 e 7 de abril pela palavra-chave “El Niño 2026”, que retornou 36 resultados.

O enquadramento focado em lembrar os eventos passados e, a partir deles, antecipar possíveis impactos regionais, foi o selecionado para repercussão na maioria dos veículos – como TV Tapajós, no Pará, Estadão, em São Paulo e ABC+, no Rio Grande do Sul. As vozes de especialistas como José Marengo, Carlos Nobre e Karina Lima, ouvidos por essas três matérias, legitimam as preocupações e contribuem para que a população compreenda as consequências do fenômeno.

Um grupo minoritário de veículos abordou as medidas necessárias de adaptação aos possíveis impactos de um El Niño. Um exemplo é a matéria de Marcelo Gonzatto em GZH, que relata o status das obras para contenção de cheias em Porto Alegre, como a reparação de diques e comportas para conter a água do Guaíba no caso de novas inundações. O Jornal Razão, de Santa Catarina, também trata das obras e iniciativas da Defesa Civil estadual para coibir cheias e deslizamentos de terra diante da possibilidade do El Niño, embora com foco na narrativa oficial, que destaca números positivos, em detrimento da apuração in loco.

O princípio da precaução, um dos pressupostos do Jornalismo Ambiental, reconhece as incertezas inerentes ao campo científico, mas por isso mesmo preconiza um olhar atento às evidências de que determinado fenômeno ou acontecimento possa representar impactos negativos na relação sociedade-natureza.

Nesse sentido, entendemos ser necessário que o jornalismo questione o poder público sobre ações em andamento para proteger a população de futuros eventos climáticos extremos. De acordo com a teoria do Jornalismo Ambiental, essa abordagem deve ser complexa — conectando os fenômenos globais ao que ocorre em escala local e diversificando as fontes para ir além do discurso oficial.

As eleições de outubro podem ser um bom gancho para abordar o assunto ao longo do ano. O que os atuais governantes têm feito para nos adaptarmos ao crescente impacto desses eventos em nossas rotinas? O que potenciais candidatos propõem? É importante lembrar, ainda, que a questão climática é multifacetada e tem efeitos que vão da produção de alimentos à organização das cidades. Para além da previsão do tempo, toda a redação precisa se atentar a essas pautas potenciais de acordo com as atualizações da ciência e com os interesses da população – sobretudo da parcela que vive em áreas de risco e tem a vida mais ameaçada por secas, enchentes, tempestades e outros desastres.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq

O que a votação do Plano Diretor tem a ver com o meio ambiente?

Foto: Filipe Karam/PMPA

Nico Costamilan* e Eloisa Loose**

Desde o início de março, a imprensa local tem coberto as discussões que cercam a votação do novo Plano Diretor de Porto Alegre. Entre disputas partidárias que se conectam a diferentes interesses sobre os rumos da capital, mais de 500 emendas foram apresentadas. As emendas são propostas de modificações, acréscimos ou supressões feitas ao texto original. Neste caso, o texto original parte de alterações propostas ao Plano Diretor anterior, que vigora desde o ano 2000. No campo político, as emendas são mecanismos que também servem para  adiar ou transformar a pauta, uma forma de medir forças com os opositores. Mas, o que essas decisões implicam no nosso dia a dia?

Nesta análise, o Observatório analisou as notícias publicadas por alguns dos veículos que acompanharam as discussões do Plano Diretor no último mês, a saber: GZH, Matinal, Correio do Povo, Jornal do Comércio e Brasil de Fato. A seleção das notícias foi feita a partir de buscas no Google Notícias e nos sites de cada veículo. Buscamos identificar os pontos mais mencionados sobre o planejamento da cidade e como são reportadas as consequências desta decisão para a qualidade de vida dos moradores, proteção ambiental, prevenção de desastres e adaptação às mudanças climáticas.

É importante recordar que a capital dos gaúchos ficou parcialmente debaixo d’água em 2024. Assim, é  esperado que, na oportunidade de atualizar e  melhorar o  planejamento urbano, isso seja  necessariamente feito de modo a garantir uma cidade mais resiliente e preparada para enfrentar a intensificação  dos eventos extremos climáticos, já assinalados pelos cientistas. No entanto, os debates acalorados na Câmara Municipal evidenciam que essa preocupação não é consensual.  Há uma tentativa, por parte da oposição, de  inclusão das medidas adaptativas e supressão de outras que agravariam a situação, em caso da deflagração de um desastres semelhante ao já vivido; por outro lado, uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano. 

Por um lado, a base parlamentar de oposição ao governo do prefeito Sebastião Melo tenta incluir emendas que visam ampliar a proteção ambiental, a exemplo da manutenção do conceito de área livre permeável e vegetada, criação de corredores ecológicos, proteção de plantas raras, manutenção da função ecológica de topos de morros, além de propostas relacionadas à segurança hídrica e, especialmente, à questão das ilhas de calor, que podem ser ampliadas com a liberação para aumentar a altura de prédios em alguns pontos da cidades. Por outro lado, percebe-se uma uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano e amplia as facilidades para o mercado de especulação imobiliária. E como esse embate repercute na vida dos moradores de Porto Alegre?

Na cobertura realizada por GZH, a relação entre as votações do Plano Diretor com o meio ambiente foi pouco apresentada. Entre as várias matérias curtas sobre as movimentações na Câmara, não houve  aprofundamento das questões criticadas por ambientalistas  – mesmo mencionando que “críticos” sem nome “dizem que” e “apontam que” existem diversos pontos  problemáticos no Plano em questão. A cobertura é  descritiva das sessões, mas simplista e fechada no acontecimento do dia ou da semana, sem contextualização. A única menção à enchente identificada nessas notícias foi feita em uma coluna de opinião de Rodrigo Lopes. Quem quiser ler mais pode acessar matérias do último ano sobre possíveis problemas urbanísticos. 

Já no Correio do Povo, as sessões da Câmara são cobertas de forma objetiva, mas também há matérias explicativas e que tratam dos  impactos causados pelas alterações feitas no Plano Diretor. São citadas falas de vereadores de ambas as alas. Como um bom exemplo de abordagem, a matéria “Às vésperas dos 254 anos, Porto Alegre discute novo Plano Diretor enquanto debate melhorias no saneamento”, de Felipe Faleiro, pauta a votação, a concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) e adaptações climáticas devido às inundações de 2024, de forma a relacionar  as votações noticiadas ao futuro na cidade.

No Brasil de Fato RS, as notícias trazem críticas explícitas aos erros e possíveis danos ambientais. A posição do veículo sobre o assunto se mostra clara ao dar destaque às falas de vereadores da oposição em notícias e quase não traz as justificativas governistas. De imediato, lembram os impactos das inundações e mencionam a necessidade de adaptações climáticas.

Já no Jornal do Comércio, que frequentemente aborda o Plano Diretor pela coluna Pensar a Cidade, da jornalista  Bruna Suptitz, as notícias são  informativas sobre as decisões de cada sessão. No mês analisado, a coluna não aprofundou nenhuma crítica ambiental feita ao texto original proposto, nem às diferentes emendas. 

A Matinal traz contextualizações amplas e críticas ambientais à revisão do  Plano, com destaque para a reportagem “Prédio de 40 andares em áreas de inundação: os erros do Plano Diretor de Porto Alegre”, de Claudia Bueno e Naira Hoffmeister. Nela, as autoras relacionam a crise climática com o planejamento urbano, a especulação imobiliária e os riscos de desastres na capital. 

Ao analisar as coberturas do último mês, fica claro que é possível trazer informações objetivas sobre o debate político da cidade sem esquecer que o meio ambiente está intrinsecamente ligado ao urbanismo. A circulação de pessoas, o transporte, o número de áreas verdes, a adaptação de ruas, edifícios e de toda uma capital para lidar com chuvas extremas, calor extremo, e muito mais. A crise climática exige que as cidades mudem, e rápido. Sob as lentes do Jornalismo Ambiental, comprometido com a mudança de pensamento, precisamos trazer a reflexão para que os veículos locais articulem as mudanças climáticas às notícias diárias. 

A questão climática não deve ser apenas mencionada no momento em que há um desastre e no qual a Praça da Alfândega só pode ser acessada com caiaques, ela está imbricada em todas as discussões sobre onde e como vivemos. A prática de um jornalismo míope, focado apenas no registro do fato imediato, é um desserviço público. Urge que a visão sistêmica seja endossada pelo campo jornalístico e aplicada, ainda que parcialmente, na produção constante de notícias. 

Revisão de Heverton Lacerda, integrante do GPJA.

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Jornalismo deve cobrar prevenção antes que aconteça novamente


Sérgio Pereira*


Área central de Porto Alegre inundada em 2024
Foto: Fotos Públicas/Gustavo Mansur/Palácio Piratini

O Rio Grande do Sul está perto de completar dois anos de sua maior tragédia climática e as consequências das cheias de abril/maio de 2024 ainda reverberam. Pelo menos 23 pessoas continuam desaparecidas (conforme o último levantamento, de agosto do ano passado), milhares de famílias seguem aguardando moradia e municípios permanecem na dependência de obras de recuperação e prevenção.

Para não permitir que o tempo feche cortinas na memória coletiva, GZH lançou em junho daquele mesmo ano o “Painel da Reconstrução”, um hotsite que “monitora as medidas de apoio financeiro provenientes dos governos federal e estadual para a recuperação do Estado”. A iniciativa merece reconhecimento pois se propõe a oferecer uma radiografia sobre os principais investimentos e compromissos pós-enchente. Torna-se, assim, um instrumento útil para controle social e cobrança de recursos públicos destinados ao restabelecimento do RS.

O painel está focado em três áreas prioritárias: infraestrutura, habitação e prevenção a novos eventos climáticos extremos. Há informações valiosas na ferramenta, que em 24 de março deste ano, data dessa consulta, havia sido atualizada 13 dias antes. A começar pelos repasses financeiros. Graças à plataforma, pode-se conferir que o Governo Federal pagou 63,8% (R$ 75,2 bilhões) dos R$ 118 bilhões prometidos. O Governo do RS, por sua vez, aplicou apenas 40,9% (R$ 4,6 bilhões) dos R$ 11,3 bilhões previstos.

Outro exemplo da relevância do levantamento diz respeito à circulação: ainda há no Estado pelo menos 15 trechos de rodovias bloqueadas, total ou parcialmente. As obras da ERS-348, entre Agudo e Dona Francisca, para citar um caso, sequer foram iniciadas.

As informações envolvendo moradias, porém, não são atualizadas há pelo menos seis meses. São mais de 25 mil habitações projetadas, conforme GZH. O portal cientifica que, até agora, foram disponibilizadas 520 temporárias pelo Estado e que o Governo Federal já entregou as chaves definitivas para 5.733 famílias pelo programa Compra Assistida.

Os dados sobre “Prevenção”, contudo, são ainda mais preocupantes. Primeiro, porque os números desse item da plataforma não são alterados há mais de oito meses. Também causa apreensão o andamento dos trabalhos das oito obras prioritárias relacionadas, nenhuma concluída. Dessas, a metade não saiu da fase de elaboração de projeto: dique em Eldorado do Sul; arroio Feijó (Porto Alegre e Alvorada); bacia do Rio do Sinos; e bacia do Rio Gravataí.

As outras quatro listadas, todas em Porto Alegre, superaram as etapas de projeto e licitação e estão em andamento: fechamento em concreto das comportas 8, 9, 10 e 13 do sistema de proteção; substituição das comportas 11, 12 e 14; manutenção de 1,4 quilômetro do chamado dique da Fiergs, na zona norte da capital; e manutenção de 3,4 quilômetros do dique do Sarandi. Os prazos previstos para o término de três dessas quatro obras estão expirados, conforme o levantamento revela. E a quarta está programada para ser concluída agora em março de 2026.

É preciso dizer que o painel poderia estar mais atualizado no campo “Prevenção”. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi noticiado o fechamento em definitivo das comportas 8, 10, 13 e 14 do sistema de proteção de Porto Alegre, mas na plataforma não consta essa informação. Nem mesmo na relação de matérias mais recentes sobre o tema, com links disponíveis logo abaixo das obras prioritárias. Essa latência acaba por comprometer sua eficiência como mecanismo de transparência e vigilância pública.

Afora a desatualização, outra questão surge: por que o painel não é mais explorado como instrumento de cobrança? Principalmente no que se refere à prevenção. Nos últimos dias, a notícia de formação de novo El Niño no Hemisfério Sul fez ligar o sinal de alerta. Conforme o instituto Climatempo, o “risco de chuva extrema sobre o Sul do Brasil é maior este ano”. O Rio Grande do Sul vai estar melhor preparado para uma nova enchente? O jornalismo pode e deve responder a esse questionamento.

O Princípio da Precaução, incorporado aos pressupostos do Jornalismo Ambiental, ensina que devemos ampliar o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardi et al., 2020). Loose e Girardi (2017) acrescentam que a noção de que o jornalista ambiental deve colaborar para o alerta e o enfrentamento dos riscos climáticos está em sintonia com sua responsabilidade de reduzir alarmismo e evitar medidas que desconsiderem as incertezas intrínsecas ao seu fenômeno.

O desastre climático de 2024, que causou a morte de 185 pessoas, deixou traumas profundos no povo gaúcho. Desde então, a cada chuva intensa, o fantasma das cheias faz ressurgir o medo de novas inundações. É missão do jornalismo estar conectado aos interesses e preocupações da sociedade. De que vale então estar de posse de um dispositivo importante e não aproveitar ao máximo o seu potencial? Afinal, ferramenta em uso não acumula poeira. Tanto na carpintaria quanto no jornalismo, esse adágio pode ser de muita utilidade.

Revisão: Ângela Camana, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 23 mar. 2026.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin, v. 22, n. 2, Jul/Dez 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169150/001048279.pdf?sequence=1&isAllowed=y22(2):154-72. Acesso em: 23 mar. 2026.

Muito mercado, pouca comida: o que a guerra do Oriente Médio tem a ver com isso?

Foto: Wikicommmons | Dennis G. Jarvis


Por Gabriella de Barros*

Embora à primeira vista pareçam temas distantes, a guerra no Oriente Médio pode gerar impactos diretos na alimentação no Brasil, especialmente quando observada sob uma perspectiva ambiental. A relação comercial entre Brasil e Irã ajuda a explicar essa conexão: o Irã está entre os principais compradores do milho brasileiro, cuja produção se concentra em estados como Goiás e Mato Grosso, regiões marcadas por expansão agrícola e pressões sobre biomas como o Cerrado.

Ao mesmo tempo, o Irã também se destaca como fornecedor de fertilizantes nitrogenados, em especial a ureia, insumo que ajuda a sustentar o atual modelo de produção agrícola. De acordo com a CNN, os dados de 2025 mostram que Irã e Omã tiveram participação relevante no fornecimento de ureia ao Brasil, respondendo por 18,4% das importações, o que corresponde a aproximadamente 1,5 milhões de toneladas de um total de 8,2 milhões.

Como grande parte dessas exportações depende de rotas que atravessam o Golfo Pérsico, eventuais tensões na região podem comprometer a logística e elevar custos. Esse encarecimento não afeta apenas o mercado, mas reforça a dependência de insumos externos e intensivos em impactos ambientais, colocando em evidência a fragilidade do sistema produtivo, como é apontado pelo estudo de Ana Luíza Cordeiro Lima, da Universidade Federal de Uberlândia, em que cerca de 66% das emissões de óxido nitroso (N₂O) estão ligadas à agricultura, um percentual que abrange não apenas práticas agrícolas, mas também a produção industrial de fertilizantes. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados desregula o ciclo do nitrogênio e está associado a impactos ambientais duradouros.

Para entender como esse assunto repercutiu na imprensa, a análise do Observatório de Jornalismo Ambiental examinou as abordagens de dois portais sobre os possíveis desdobramentos da guerra nos preços dos alimentos e nos insumos do agronegócio brasileiro.

No portal independente Instituto Conhecimento Liberta (ICL), o tema aparece em um programa do dia 06 de março, no YouTube, que discute como o conflito pode influenciar o acesso à alimentação. A conversa aponta que instabilidades geopolíticas tendem a elevar custos logísticos e produtivos, o que pode dificultar ainda mais o acesso a alimentos. A professora da FGV Carla Beni destacou possíveis efeitos sobre a produção agrícola global e o aumento recente nos preços dos fertilizantes. Ainda que o debate avance ao relacionar economia e acesso à comida, há pouco aprofundamento sobre os impactos ambientais associados a esse modelo produtivo dependente de insumos químicos.

Já na cobertura de O Globo, a ênfase recai sobre dados econômicos e projeções de mercado. A notícia indica que milho e soja podem registrar aumentos mais rápidos que produtos de origem animal, embora o encarecimento da ração possa, ao longo do tempo, pressionar também carnes e ovos. As informações se baseiam em dados de entidades do agronegócio e instituições financeiras, como CNA, Anda e Rabobank. No entanto, a análise se concentra no comportamento de preços e na dinâmica do mercado, sem explorar de forma mais ampla as implicações ambientais desse cenário, como o uso intensivo de fertilizantes e seus efeitos sobre o solo e os ecossistemas.

Ao comparar as duas abordagens, percebe-se uma diferença de enquadramento. O ICL busca aproximar o tema da realidade social, enquanto O Globo prioriza indicadores econômicos. Ainda assim, ambas as coberturas deixam em segundo plano a dimensão ambiental do problema, tratando os fertilizantes principalmente como variáveis de custo, e não como elementos centrais de um modelo agrícola com impactos ecológicos relevantes.

Outra lacuna importante está na ausência de contextualização sobre a dependência estrutural do Brasil em relação a insumos importados. Esse fator não apenas expõe a vulnerabilidade do país diante de crises internacionais, mas também levanta questionamentos sobre a sustentabilidade de longo prazo do atual padrão produtivo. Alternativas como a diversificação de fontes, o incentivo a práticas agroecológicas ou a redução do uso de insumos químicos praticamente não aparecem nas narrativas analisadas.

Também chama atenção a limitada diversidade de fontes. Predominam representantes do setor econômico e do agronegócio, enquanto especialistas em meio ambiente, segurança alimentar e políticas públicas são pouco ou nada ouvidos. Essa escolha restringe o debate e reforça um olhar voltado ao mercado, deixando em segundo plano discussões sobre acesso à alimentação, desigualdade social e impactos socioambientais.

Esse enquadramento contribui para uma cobertura que prioriza custos e projeções, mas oferece pouca reflexão sobre quem será mais afetado pelo aumento dos preços e quais são as consequências ambientais desse modelo. Em um contexto de desigualdade, a elevação no valor dos alimentos tende a atingir de forma mais intensa as populações vulneráveis, ao mesmo tempo em que a intensificação produtiva pode ampliar pressões sobre recursos naturais.

Dessa forma, embora as reportagens ajudem a compreender os possíveis efeitos da guerra sobre o mercado agrícola, ainda há espaço para uma abordagem mais integrada. Incorporar dimensões ambientais e sociais permitiria avançar na compreensão das relações entre geopolítica, produção agrícola e segurança alimentar, elementos centrais para o jornalismo ambiental.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

**Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA.

Referências

CASTRO, Mayra. Guerra no Oriente Médio já tem impacto em fertilizantes e preço dos alimentos pode subir no Brasil. O Globo, 11 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/11/guerra-no-oriente-medio-ja-tem-impacto-em-fertilizantes-e-preco-dos-alimentos-pode-subir-no-brasil.ghtml. Acesso em: 13 mar. 2026.

CNN BRASIL. Ureia dispara e mercado reduz negociações em meio à guerra do Irã. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ureia-dispara-e-mercado-reduz-negociacoes-em-meio-a-guerra-do-ira/. Acesso em: 17 mar. 2026.

INSTITUTO CONHECIMENTO LIBERTA (ICL). Guerra no Oriente Médio pode encarecer alimentos no Brasil. YouTube, 2026. Disponível em: https://youtu.be/j3HmXbLbaZw. Acesso em: 13 mar. 2026.

LIMA, Ana Luíza Cordeiro. Fertilizantes nitrogenados: uma revisão bibliográfica sobre impactos ambientais. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Química Industrial) – Instituto de Química, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/42062/1/FertilizantesNitrogenadosUma.pdf. Acesso em: 17 mar. 2026.

Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

Foto: RS via Fotos Públicas

Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Guerra e clima não coabitam manchetes

Número de mortes e aspectos técnicos dominam enfoques da cobertura jornalística sobre guerras e desastres naturais, enquanto contexto climático fica fora do radar

Fonte: RS/Fotos Públicas

Heverton Lacerda*

Quem acompanha, com olhar atento, as publicações da imprensa brasileira a respeito da tragédia em Ubá (MG) e sobre as guerras patrocinadas por superpotências militares pode identificar, com facilidade, a falta de correlacionamento das pautas com as mudanças climáticas. As abordagens são muito similares: notícias factuais sem contextualização ampla, mantendo os fatos principais isolados.

É como se os enormes impactos ao meio ambiente não contribuíssem para ampliar a tragédia comum que afeta a vida em todo o planeta. As matérias não dão conta de identificar – sequer em notas de rodapé – que as destruições causadas pelas guerras e pelas próprias catástrofes climáticas ampliam o problema ambiental. Quanto mais agressões o corpo planetário sofre, mais diminui sua resiliência natural. Consecutivamente, a Terra perde capacidade de absorção de impactos e regeneração. 

Além de ceifar vidas e destruir territórios, infraestruturas e habitats naturais, guerras e tragédias climáticas ampliam emissões de gases de efeito estufa e os riscos sobre estruturas artificiais críticas. Um exemplo são as tecnologias que envolvem radiações ionizantes, muito utilizadas nas áreas de energia, indústria, médica, farmacêutica e agricultura, entre outras. Além do potencial de causar mortes por intoxicação, ferimentos ou traumas, os acidentes radiológicos comprometem a saúde mental e podem contaminar o solo, a água e o ar. O acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior do mundo fora de usina nuclear, aconteceu em 1987. Até hoje, o Brasil abriga mais de três mil instalações radioativas em seu território, conforme o Ministério da Saúde.

Um alerta nesse sentido, ainda que sem mencionar a relação direta com o contexto climático, aparece no portal Opera Mundi, entre outros, quando noticia que a Rússia adverte risco de ‘catástrofe radiológica’ em guerra de EUA e Israel contra Irã.

As guerras e as catástrofes climáticas guardam relações e apresentam distinções. Ambas são reflexos de ações humanas, de decisões tomadas por grupos de poder político e econômico.  As guerras modernas geram toneladas de escombros e emitem gases poluentes em proporções muito maiores do que as atividades do dia a dia. São foguetes, mísseis, drones, veículos blindados – terrestres, marítimos, aéreos -, tecnologias de comunicação de última geração e muito mais. Tudo isso consome muita água e energia, desde a mineração dos materiais utilizados na construção dos equipamentos até as emissões de poluentes de origem fóssil e eletromagnética durante as operações. O volume de recursos financeiros gastos na indústria da guerra seria suficiente para abastecer os fundos climáticos mundiais e apoiar comunidades em risco em todas as partes do mundo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, atingido pelas enchentes em 2024, até hoje não conseguiu reconstruir seu território e prepará-lo para o futuro incerto e preocupante que a ciência projeta, diante dos dados disponíveis.

Diferente das guerras, os eventos climáticos extremos já resultam, em grande parte, do acúmulo de atividades degradantes praticadas pela humanidade ao longo dos últimos dois séculos e meio. As catástrofes mais intensas que estamos testemunhando nos anos recentes são consequências do nosso passado. Já os resultados das destruições podem ser considerados agentes de enfraquecimento da resiliência natural dos territórios, exigindo ações preventivas mais eficazes e urgentes. Neste sentido, no entanto, tanto as guerras quanto as catástrofes ambientais intensificam ainda mais a crise climática. 

Talvez o jornalismo, de modo geral, não tenha condições, na correria diária, de ampliar a contextualização ao nível do detalhe, o que poderia comprometer um pouco a objetividade e a facilidade de compreensão das pautas. No entanto, a criatividade e os atuais recursos de design multimídia podem ser aliados estratégicos de apoio à intenção de contextualizar. Intenção é o ponto chave. Guerra e clima podem e devem coabitar não só manchetes, mas as melhores matérias jornalísticas. 

Cabe lembrar que, além da contextualização, o princípio da precaução é outro pressuposto teórico do Jornalismo Ambiental. Ele pode ajudar os colegas jornalistas a compreenderem, identificarem e explicarem os efeitos colaterais – neste caso, os reflexos na crise do clima – dos fatos em destaque na pauta. O compromisso com a fidelidade dos fatos e o alerta para as possíveis causas e consequências, diretas e indiretas, são elementos-chave para manter a pauta climática na transversalidade da boa cobertura jornalística. A visão sistêmica e o olhar para além das cortinas de fumaça demonstram a sagacidade do jornalista, fundamental para a cobertura de pautas complexas.

Revisão: Gabriella Barros, integrante do GPJA

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

Imagem: Freepik

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

Imagem: Pexels

Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

A cobertura ambiental de 2025: o que esperar depois da COP brasileira?

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em 2025, o jornalismo de meio ambiente no Brasil lidou com uma agenda intensa: da política e legislação ambiental em chamas aos holofotes da COP-30 em Belém, que, para além da cobertura dos preparativos, contou com iniciativas de mobilização e discussão durante o ano todo. Foi possível observar notícias pautadas pela urgência na prevenção e mitigação de desastres climáticos, e mais visibilidade às demandas dos povos originários. Contudo, ainda é cedo para dizer que esses enfoques persistirão no médio e longo prazos.

Na publicação “O Jornalismo no Brasil em 2025”, da Associação Brasileira de Jornalismo e do Farol Jornalismo, veiculada no final de 2024, profissionais e pesquisadores de Jornalismo apontaram temáticas a se atentar nas coberturas. Entre elas, “Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025” da Rede Wayuri, e “Em 2025, coberturas de desastres climáticos vão exigir novos jornalismos”, fruto das observações do que foi vivenciado no Rio Grande do Sul a partir da eclosão do desastre em maio de 2024.

Uma análise retrospectiva do trabalho da imprensa ao longo deste ano indica que algumas previsões se concretizaram, mas muitos desafios persistem. Embora tenhamos tido um ano com muita cobertura ambiental, a fragmentação do assunto dificulta a compreensão da população, enfraquecendo o debate público. Mesmo com o mundo de olho na Amazônia em razão da COP, os políticos brasileiros aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (ou PL da Devastação), que prejudica a proteção do meio ambiente. 

Com o Observatório, analisamos os enquadramentos, termos e lacunas das reportagens percebidas pelo viés do Jornalismo Ambiental. Em maio, nossa análise “A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?” demonstrou que os veículos hegemônicos trouxeram contrapontos importantes ao PL, mas focaram de forma majoritária em fatores econômicos, com espaço exacerbado aos interesses do agronegócio e das petroleiras. Em agosto, Ilza Girardi e Isabelle Rieger seguiram observando de perto os termos utilizados na mídia hegemônica e independente para tratar da nova lei, sendo “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” os mais citados pela primeira, enquanto a segunda focou na possível destruição do meio ambiente causada pela aprovação. 

No texto de 2024 que buscava apontar o que estava por vir, a ampliação do debate ambiental no País estava prevista. Porém, notamos a predominância de uma perspectiva político-econômica, que favorece o desenvolvimentismo a qualquer custo. Com relação à cobertura do PL da Devastação, de forma específica, o Observatório identificou as contradições de se flexibilizar a proteção ambiental enquanto se fala cada vez mais no combate à emergência climática. 

Outra contradição marcante em 2025 foi a concessão da licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas em data próxima à realização da Conferência das Partes. Embora anfitrião da COP, o governo federal defendeu o discurso de que a exploração do petróleo viabilizaria a transição energética. Na previsão de 2024, já se apontava que “explorar petróleo para garantir a transição energética ou vender o mercado de carbono como uma saída para a crise climática são falácias que deveriam ser mais bem checadas pelo jornalismo.”

Também foi notado o amplo apelo de setores econômicos, como a mineração e o agronegócio, que contribuem para as emissões de gases de efeito estufa fazendo lobby no ano da COP, para se venderem como protagonistas das soluções climáticas. Entretanto, em alguma medida, jornalistas apenas foram porta-vozes das disputas que atravessam a questão ambiental, como se o nosso futuro neste planeta não fosse a principal pauta de interesse público da contemporaneidade.

A perspectiva de maior volume de notícias em razão  da COP-30 se realizou, sendo que muitos aspectos climáticos foram bem explicados e aprofundados na mídia. O evento impulsionou o crescimento de projetos jornalísticos especializados, cursos de formação para comunicadores e uma cobertura mais intensificada por veículos tradicionais e independentes. Neste Observatório, avançamos na produção de críticas de mídia, com o especial “De olho na COP”. A imprensa, particularmente a não hegemônica, cobriu intensamente a contradição de o Brasil sediar a COP-30 enquanto licenciava a perfuração de poços. A omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da COP-30 foi o tema mais criticado pela imprensa brasileira, que relatou a frustração do resultado da conferência.

Segundo o texto da Rede Wayuri, a importância da comunicação e dos saberes indígenas é considerada decisiva para o enfrentamento da crise climática, representando não apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. O texto vislumbrando o Jornalismo em 2025, destacava mais espaço para a comunicação popular e as redes comunitárias,.

A partir da COP-30, esse protagonismo indígena ganhou relevo. Com a maior participação de povos originários em três décadas, cerca de 400 representantes indígenas estiveram credenciados nas salas de negociação oficial. A mobilização indígena foi um fator de destaque em alguns veículos, especialmente os independentes e dedicados à pauta ambiental, sendo considerada uma grande força política.

Apesar da presença inédita, a análise da cobertura midiática durante os eventos, como a Pré-COP, realizada em Brasília, indicou que a imprensa tradicional tratou as manifestações e reivindicações de povos indígenas e quilombolas de forma tímida, deixando suas vozes à margem do debate público midiático. Em decisões cruciais, como a aprovação da Lei Geral do Licenciamento e da exploração em território ambiental sensível como a Foz do Amazonas, suas vozes continuam sendo ignoradas, com poucas execeções. Logo, a reivindicação por mais visibilidade segue sendo uma demanda dos povos indígenas – e de muitos outros grupos que não são vistos como fontes qualificadas para a elaboração de notícias. Uma luta que deve avançar nos próximos anos.

Para 2026, o Farol Jornalismo e a Abraji lançaram novamente uma publicação de previsões para o Jornalismo – e aqui destacamos o texto: “Emergência climática e integridade da informação num cenário polarizado”. Nele, os autores indicam que o tema da emergência climática é tensionado por simpatias e antipatias políticas. Com as eleições presidenciais no próximo ano e o contexto de polarização interna, é esperado crescentes ondas de desinformação e produção de falsos conteúdos com o auxílio da Inteligência Artificial. Diante desses desafios, a confiança do público no Jornalismo é evidenciada, sendo que as informações devem ser íntegras, com checagem e fundamentação de qualidade, baseadas na ciência. Essa análise destaca também a importância do jornalismo local, cuja cobertura deve questionar as falhas e pressionar o dedo nas feridas dos governos regionais por todo o Brasil.

Além disso, alertam para outra tarefa do Jornalismo: a COP não acaba quando termina. As inúmeras pautas ambientais levantadas em 2025, impulsionadas pelo evento, não podem ser esquecidas. O trabalho pela preservação do meio ambiente é contínuo e deve estar presente durante todo o ano, em todas as editorias, de forma sistêmica. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O agro que sonhava ser pop agora quer virar lição de casa

Foto: Matinal/Isabelle Rieger

Por Ilza Maria Tourinho Girardi* e Sérgio Pereira**

Ser brasileiro com consciência ambiental e de cidadania exige muita saúde ou ter um amparo psicológico permanente.

A COP30, realizada em Belém (PA) no mês de novembro, deixou muito a desejar pelas decisões aguardadas e que não aconteceram. Além disso, foi liberada a exploração, em forma de estudos iniciais, do petróleo na foz do rio Amazonas. As vozes indígenas, demais povos da floresta, dos cientistas e dos ecologistas não foram ouvidas. Nem os pedidos do cacique caiapó Raoni sensibilizaram Lula. Agora, o presidente da República pede a seus ministros das pastas de Minas e Energia, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Fazenda e da Casa Civil que elaborem o mapa para a substituição dos combustíveis fósseis. Então, por que liberar agora?

Vivemos no Brasil tempos de dissonância cognitiva. Nesse cenário político perturbador somos surpreendidos com a matéria da independente Matinal Jornalismo do dia 8 de dezembro sobre as atividades da associação De Olho no Material Escolar (DONME). Assinado pela jornalista Brenda Fernández, a reportagem “Como o agro quer controlar o que é ensinado nas escolas gaúchas” traz alerta importante para organização criada por produtores rurais e que está tentando mudar a forma como o agronegócio é abordado nas escolas públicas.

Conforme a matéria, a DONME já palestrou em 18 cidades gaúchas, a maioria conhecidas por sua tradição agrícola, como Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Pelotas, Rio Grande e Dom Pedrito, entre outras. As atividades quase sempre são realizadas em feiras agrícolas ou em formato de visita a fazendas modelos de empresas associadas ao projeto. Conforme dados da entidade, até agora, cerca de 3,7 mil alunos e professores do RS foram impactados com os seus cursos entre 2024 e 2025.

A principal missão da associação é tentar fazer prevalecer seu discurso sobre como o agronegócio é importante para a economia. “Na pauta da DONME, estão sete prioridades elencadas em uma cartilha divulgada pela associação (leia aqui) em que a entidade deixa claro os seus objetivos. Entre as propostas para o PNE, está aplicar uma prova em professores ‘inspirada na experiência bem-sucedida do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil’, aumentar a participação da sociedade na indicação de avaliadores responsáveis pela revisão dos livros e criar uma etapa em que órgãos e instituições científicas auditem ‘de forma independente’ os conteúdos dos livros antes da publicação”, relata a jornalista na reportagem.

O agro quer agora fazer prevalecer sobre o imaginário de nossos estudantes uma narrativa parcial, incompleta e, por vezes, negacionista. A exemplo do movimento de extrema direita Escola Sem Partido, a entidade tenta apagar da realidade informações sobre o agronegócio brasileiro e seus problemas. É o caso da silenciosa destruição dos biomas brasileiros, inclusive o Pampa afetado sem perdão pelo avanço da soja; do uso indiscriminado de agrotóxicos; ou do grave problema da deriva de pesticidas que afeta não somente a saúde de todos, mas também a economia de produtores de outras culturas.

As últimas notícias não têm dado descanso aos brasileiros que travam a luta ambiental e que defendem um país melhor para todos, não apenas para alguns, como a classe ruralista. É grande a força do agro, cada vez mais mecanizado, com sua majoritária bancada no Congresso Nacional determinando os rumos da política, com a predominância em nossas lavouras da monocultura da soja, exportada em sua grande maioria como ração para gado. A escola, no entanto, não é lugar para versões, mas sim um espaço para o aprendizado, a convivência social e, agora mais do que nunca, para consolidação da verdade.

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS 

E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br

**Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

A devastação retorna à pauta: entre a derrota política e o risco sistêmico

Por Cláudia Herte de Moraes*

Em geral, os temas ambientais são complexos, refletindo a própria vida em sociedade. Em contraposição, a tônica do Jornalismo, em alguma medida, reside na possibilidade de simplificar a realidade para apresentar ao leitor um panorama dos principais pontos da pauta. Em um cenário de intensa disputa política pós-COP30, selecionei duas reportagens para observar o tratamento dado à derrubada dos vetos do presidente Lula na Lei Geral do Licenciamento Ambiental (popularmente chamada de “PL da Devastação”), ocorrida nesta semana. Escolhi ambas por serem detalhadas, permitindo identificar diferentes aspectos e refletir sobre como o Jornalismo pode atuar na vigilância e na fiscalização da agenda ecológica no Brasil.

A reportagem da Agência Pública focou no significado do fato, encarado como uma derrota para os ambientalistas e a base do governo. O texto detalhou o retorno de pontos perigosos, como a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC) para projetos de médio potencial poluidor, modalidade na qual se encaixam as barragens de Mariana e Brumadinho. Já a BBC News abordou a fragilização das normas e a insegurança territorial aos povos tradicionais. Neste caso, o foco na derrota política do governo também veio acompanhado da descrição dos pontos que voltaram ao arcabouço legal e que reduzem a proteção ambiental, tais como a regionalização de critérios, a ampliação da LAC, a diminuição da defesa da Mata Atlântica e a não vinculação de pareceres de órgãos como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Executivo cogita a judicialização (STF) como resposta.

As reportagens analisadas mostram que há ênfase na contextualização. A BBC, ao mencionar a judicialização e a iminente “guerra de flexibilizações” entre estados, ilustra uma cobertura sistêmica, conectando o ato político (do Legislativo) às esferas jurídica, econômica e federativa. A Pública reforça essa conexão ao ligar o LAC aos desastres de Mariana e Brumadinho, conferindo peso histórico e social ao risco iminente.

Os textos usam a voz de autoridades técnicas e ambientais (Ibama, MMA, ONGs) demonstrando que o saber ambiental foi uma lente importante para a apuração. Observei que há um tom de alerta e advertência, ao preverem o aumento do desmatamento e a insegurança jurídica, diretamente alinhado com o Princípio da Precaução. O Jornalismo, neste caso, atua como um sistema de alarme social, amplificando as vozes que buscam antecipar e evitar o dano irreversível.

Embora as reportagens tragam informações importantes e contextualizadas, diante do cenário de destruição, constatei que ainda há espaço para aprofundamentos, especialmente em direção à transformação social. Os textos citam o argumento dos defensores do PL (que apontam maior “segurança jurídica” e/ou a possibilidade de maior “desenvolvimento”) de forma superficial, geralmente em uma única frase. O indicado é aprofundar a lógica por trás do lobby e dos argumentos pró-flexibilização. É fundamental entender o que o chamado setor produtivo espera e como essa agenda se articula no Congresso, expondo, por exemplo, os interesses da bancada ruralista. A reportagem deve investigar se esses interesses são contemplados economicamente e até mesmo se o produto do agro brasileiro, sem fiscalização, perde valor e competitividade em mercados externos exigentes.

Percebi que a complexidade da derrubada de vetos (56 de 63) e dos mecanismos legais (LAC, regionalização dos critérios) pode ser densa para o público leigo. A indicação aqui seria melhorar a qualidade da informação com o uso estratégico de recursos visuais que detalhem o retrocesso ambiental e a dinâmica dos vetos de forma mais didática e acessível.

Adotar o tom da derrota do Executivo pode ser um risco, desviando o foco do problema estrutural. A ideia é que o Jornalismo assuma a responsabilidade de ir além da reação política imediata. Para isso, é preciso manter a cobertura constante sobre os impactos concretos da nova lei, associados ao aumento do desmatamento e a novos desastres socioambientais. Cobrar a responsabilização dos parlamentares que derrubaram os vetos, e sugerir alternativas e soluções é uma proposição da função política do jornalismo ambiental, servindo para orientar a ação do cidadão, e não apenas sua indignação.

 Em conclusão, posso afirmar que as duas reportagens representam um avanço na cobertura ambiental brasileira, agindo com as lentes do jornalismo ambiental ao expor a gravidade de uma decisão legislativa que foi contrária à posição de inúmeras organizações sociais, ambientalistas e científicas. Mas, para consolidar-se como agente para a mudança de pensamento e não apenas de informação, deve refinar sua prática na desconstrução das narrativas do lobby (a partir da pluralidade de perspectivas e da qualificação da informação), trazendo para si o compromisso com o monitoramento a longo prazo dos impactos, garantindo que a “vitória” do Congresso sobre os vetos não se torne uma derrota permanente para o interesse público.

*Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br 

Como a imprensa brasileira avaliou a COP30: tensões, omissões e avanços limitados

Por Nadja Nobre*

A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.

Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.

Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.

O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.

A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.

Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.

A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.

Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.

No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.

Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.

A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.

* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.

Oceano perde destaque na decisão final da COP30, mas entra no radar da cobertura jornalística

Foto: samsommer/unsplash

Por Débora Gallas*

Berçário da vida na Terra, hoje o oceano é o principal viabilizador da sobrevivência de nossa e de muitas espécies – mesmo as que, como a nossa, vivem em solo firme. O oceano é responsável por absorver cerca de 30% dos gases causadores do efeito estufa da atmosfera e mais de 90% do excesso de calor gerado por essas emissões. Assim, consegue produzir mais de 50% do oxigênio do planeta. Porém, o aquecimento desenfreado das águas por conta das mudanças climáticas está prejudicando sua capacidade de regular o clima global.

É curioso, portanto, que somente na 30ª Conferência do Clima da ONU tenha recebido mais destaque. De maneira inédita, o tema contou com uma enviada especial, Marinez Scherer, professora da Universidade Federal de Santa Catarina. A Conferência também propôs uma agenda de ação climática, que consiste em caminhos propostos para a implementação de soluções, considerando o oceano como um de seus eixos temáticos.

Durante a COP30, houve, por exemplo, o lançamento da Força-Tarefa Oceânica, liderada por Brasil e França, um esforço de 17 países para incluírem a preservação das áreas marinhas e costeiras nas suas metas voluntárias para o clima, as chamadas NDCs. Também ocorreu o anúncio do Pacote Azul, uma espécie de portifólio de soluções para o oceano já em curso em todo o mundo, em áreas como gestão de resíduos, pesca sustentável e restauração ambiental, a fim de monitorar e acelerar sua implementação.

Questões relacionadas ao oceano também foram pautadas pelo conselho científico da COP30 e em espaços como o Pavilhão da Ciência Planetária e o Pavilhão do Oceano, na Zona Azul – que recebe os participantes credenciados.

Dentro das salas de negociação, o esforço pode não ter obtido os resultados esperados, visto que o oceano foi timidamente citado no documento final – a Decisão Mutirão. Mas o jornalismo notou o tema ao longo da Conferência, ainda que em coberturas pontuais. Verificamos esse interesse através da pesquisa, no Google Notícias, pelos termos “oceano” + “COP30” publicadas entre 6 e 27 de novembro.

A atuação de uma enviada especial para o oceano foi notícia em sites como Agência Brasil, Um Só Planeta, Envolverde e Repórter Brasil. Este, aliás, foi um dos poucos veículos que apresentou algum tipo de continuidade na cobertura sobre o tema, publicando matérias de Vinícius Konchinski. A primeira aborda a ausência de discussões sobre o plástico na agenda da COP30 – muito embora uma reação coordenada dos países sobre a questão tenha sido frustrada também em agosto deste ano com a suspensão das negociações sobre um tratado internacional contra a poluição plástica.

Já a reportagem seguinte traz um balanço final de especialistas sobre o avanço da pauta na COP30. A enviada especial Marinez Scherer avalia que esta edição foi um ponto de virada para o oceano por conta da Força-Tarefa Oceânica e do Pacote Azul. Já o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo Alexander Turra considerou frustrantes os diversos debates sobre oceano na Conferência não estarem contemplados na declaração final. O Portal NeoMondo, por sua vez, publicou boletins diários do professor sobre sua participação na Conferência.

Publicada antes do encerramento da COP30, em 21 de novembro, a reportagem de Herton Escobar para o Jornal da USP também relatou a expectativa dos especialistas em relação ao tema, mas ainda em um tom mais otimista, em que os entrevistados destacam a edição de Belém como uma arena fundamental para visibilizar a contribuição do oceano no combate às mudanças climáticas. 

Já veículos da imprensa hegemônica, como UOL e O Globo, repercutiram sobretudo as cifras que envolvem o Pacote Azul, antecipado por reportagem de Jéssica Maes para a Folha de S.Paulo em 6 de novembro. O documento prevê investimentos de ao menos 116 bilhões de dólares nos eixos conservação, alimentos, energia renovável, transporte e turismo.

Embora não apareçam nos resultados da pesquisa no Google Notícias, destacamos, ainda, a cobertura de outros veículos que, como Repórter Brasil, integraram a iniciativa da Casa do Jornalismo Socioambiental, na qual mais de 20 iniciativas de jornalismo independente de todo o Brasil organizaram sua cobertura e a publicação conjunta de conteúdos produzidos pelas equipes.

Alice Martins Morais, do Amazônia Vox, conversou com o representante de Tuvalu na COP30, um arquipélago no Oceano Pacífico que corre o risco de desaparecer por conta do aumento do nível do mar. Já Meghie Rodrigues e Chloé Pinheiro, do podcast Ciência Suja e da newsletter Polígono, conversaram com as cientistas Marina Hirota e Regina Rodrigues (UFSC) sobre o papel da ciência na COP. As convidadas abordaram o papel do corpo de cientistas fornecendo e organizando as evidências disponibilizadas aos tomadores de decisão – e mencionam perdas irreversíveis relacionadas ao oceano e ocasionadas pelo aquecimento global, como o branqueamento de corais e o colapso da corrente marítima AMOC, que regula a temperatura climática global.

Sabemos que o aquecimento das águas do oceano está relacionado à maior recorrência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ciclones e furacões, além de causar erosão costeira, aumento do nível do mar e impacto direto em atividades produtivas como pesca e turismo. Por isso, é fundamental que não somente sua participação cresça nas próximas decisões multilaterais sobre o meio ambiente, mas que a imprensa siga acompanhando o tema de forma constante e transversal.

Para sensibilizar a população sobre a importância do oceano e gerar mobilizações sociais que alcancem os tomadores de decisão, um caminho incontornável é conectar questões ambientais como a degradação das águas e dos ecossistemas que nela vivem a temas cotidianos dos campos político, econômico e cultural. Como discurso que orienta o olhar coletivo, o jornalismo é essencial nesse processo.

*Jornalista, doutora em comunicação, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e da Rede Ressoa Oceano, pela qual acompanhou a COP30 em Belém.

Enquanto discutimos o mapa do caminho, o futuro nos escapa

Por Franchesco de Oliveira* e Cláudia Herte de Moraes**

Depois de dias intensos em Belém, a COP-30 deixa de ser apenas um encontro global e se torna um ponto de virada (ou de cobrança) para o mundo. Agora, no pós-COP-30, é hora de olhar para além dos discursos e avaliar o que realmente ficou: os compromissos firmados, as tensões expostas, os avanços possíveis e as lacunas que persistem. Entre análises que apontam divergências internas, acordos considerados tímidos e expectativas não atendidas por cientistas, ambientalistas e negociadores, estamos em um momento decisivo para entender o que, de fato, mudou e o que ainda permanece na agenda climática mundial.

A conferência terminou com promessas de acelerar a transição energética, elevar o financiamento climático e estabelecer mecanismos mais rígidos de adaptação. Houve avanços, mas também frustrações: os países maiores emissores ainda resistem a metas vinculantes, e o financiamento aos países do Sul Global continua marcado por burocracias e disputas políticas. Ainda assim, Belém deslocou o eixo das discussões: a urgência climática tem território, tem povo, tem nome. E tem pressa. 

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, acompanhamos a preparação e a realização da COP-30 a partir de diferentes abordagens e jornalismos. Podemos afirmar que a pauta se consolidou como mais relevante e mais aprofundada nesta edição do evento, realizado no coração da Amazônia. A atmosfera e a proximidade da COP-30 trouxeram elementos de destaque para o debate sobre a emergência climática que, afinal, já está sendo vivenciada de forma avassaladora no mundo. 

Para a análise do Nexo, mesmo com a inclusão de temas na COP que geralmente passam ao largo da visibilidade midiática (justiça racial, gênero e participação social com a Cúpula dos Povos), o ponto central sobre os combustíveis fósseis e desmatamento foi considerado vago e incapaz de reparar minimamente a dívida histórica do Norte Global com o Sul Global. Neste sentido, a reportagem analisada colabora para um debate mais aprofundado sobre as causas do aquecimento global e não apenas sobre as consequências já sentidas em vários cantos do mundo. 

Da mesma forma, a BBC destacou que a COP-30 terminou sob o peso das ausências, sobretudo a dos Estados Unidos, e de um texto final que frustrou ambientalistas ao não incluir qualquer referência aos “mapas do caminho” para abandonar os combustíveis fósseis e zerar o desmatamento, duas das propostas centrais defendidas por Lula. Embora o “Mutirão Global” tenha sido saudado por evitar a implosão do Acordo de Paris, o recuo diante da pressão de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China, marcou um dos pontos mais sensíveis da conferência. Ainda assim, a BBC apontou avanços moderados, como o aumento do financiamento para adaptação agora com a meta de triplicar até 2035, a inclusão histórica do termo “afrodescendentes” nos documentos oficiais e a adoção de 59 indicadores globais para medir a capacidade de adaptação climática. Ou seja, o veículo destacou o avanço da justiça racial, incorporando uma visão mais complexa da questão climática que é socioambiental em sua base.

Para o G1 a palavra que resume a COP30 é frustração. A principal decepção foi a ausência total de menções aos combustíveis fósseis nos documentos finais, assim como  nos textos de Nexo e BBC.  O portal inclui uma avaliação de que  houve avanços simbólicos, como a inclusão inédita de referências a afrodescendentes. Indicou ainda que para a ONU, a falta de ambição reflete a conjuntura geopolítica fragmentada, com os Estados Unidos ausentes, a União Europeia enfraquecida e China relutante em assumir liderança. Observamos que a análise do G1 trouxe a visão da governança global, de forma indireta, indicando que para a construção de um caminho ainda há fortes entraves de Estados negacionistas e/ou pressionados pelas elites econômicas que atuam globalmente.

Diante desse conjunto de avanços pequenos e problemas que continuam sem solução, os textos do pós-COP funcionam como um alerta: o mundo não está discutindo apenas metas, mas o que ainda é possível evitar diante da crise climática. Belém mostrou a força dos povos da floresta, das vozes que quase nunca são ouvidas e da pressão social que tenta mudar o centro das decisões. 

Ficou evidente que as grandes potências defendem de forma cada vez mais aguerrida os seus interesses ligados aos combustíveis fósseis e que a política internacional segue dividida. Relembramos aqui uma análise deste Observatório sobre a cobertura da COP-28, em 2023, que tratava do mesmo tema: o abandono dos combustíveis fósseis é uma exigência de nosso tempo

Durante a “barqueata” que integrou a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30, o cacique Raoni disse: “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro.” O pós-COP-30 não é um encerramento, e sim um aviso: o planeta continua cobrando medidas concretas enquanto muitos países ainda hesitam em agir. O relógio climático não para e a história vai registrar quem escolheu empurrar o problema para depois, enquanto o futuro escapava.

*Franchesco de Oliveira é graduando em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A crise climática precisa ouvir quem herda o planeta: As crianças!

Por Carine Massierer*

Se as crianças são o futuro do nosso país e seguem sendo educadas desconectadas da natureza, desvinculadas das matérias primas naturais e não conhecendo os processos de produção, como exigir delas uma conexão para a preservação ambiental? Em paralelo, a midiatização acaba por promover o distanciamento das relações sociais e cada vez mais temos a informação vinculada ao que as mídias virtuais nos entregam.

E o que tudo isso tem a ver com a COP 30? Se o futuro do Brasil e das crianças não está na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, onde ele pode estar?

Em 11 dias o Brasil comemorou ser sede dos 30 anos da COP em uma edição especial por acontecer na Amazônia, destacando a importância da floresta para o clima global e por reunir contribuições de mais de 600 crianças de 12 países e quatro continentes, reforçando a urgência de incluir as novas gerações nas decisões climáticas. Representando o Rio Grande do Sul, o município de Estância Velha se fez presente, por meio de uma carta de sugestões com ações de combate aos problemas causados pelo fator climático.

Além do movimento infantil, Unicef e outras entidades representativas e ONGs, como o Instituto Alana, movimentaram os espaços de debate na Conferência e também as mídias virtuais para chamar a atenção dos governantes e da Imprensa.

A imprensa não ficou de fora: o Correio Braziliense, Agência Brasil,  O Globo, CNN Brasil, TVT News, G1, Band, Folha de São Paulo. Todos estes veículos noticiaram esta edição da Conferência como a mais significativa no que se refere a manifestação pública pela necessidade de garantia de direitos às crianças frente aos agravamentos das vulnerabilidades em contextos de emergências climáticas.

No entanto, a matéria da Folha de São Paulo mostra o contraponto dos demais textos, apresentando a manifestação de ONGs que lutam pela cidadania das pessoas mais vulneráveis. As crianças estão entre as principais vítimas, de acordo com estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alerta para o fato de que seis de cada dez crianças brasileiras já sofrem os impactos das mudanças climáticas.

Segundo as fontes do texto da Folha, dos 50 mil credenciados na COP 30, apenas 100 eram crianças e adolescentes que estavam presentes por força da sociedade civil. Isso descortina o fato de que se as crianças estão entre as principais vítimas das emergências e precisam ser prioridade neste debate. 

Assim, a COP 30 além de ser o evento mais importante destas duas semanas no Brasil e de ter a imprensa reverberando de alguma forma a presença das infâncias, os governantes precisam refletir e agir rapidamente fazendo com que as políticas públicas e a educação deste país estejam preparadas para as emergências climáticas.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Uma semana e muitos impasses: a cobertura da imprensa sobre as negociações da COP-30

Por Alice Balbé* e Caroline Garcia**

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-30, terminou e tem repercutido na cobertura midiática pela falta de consenso sobre as pautas principais e pela aguardada conclusão das negociações políticas. As discussões na primeira COP no Brasil seguem em Belém, no Pará, até o dia 21 de novembro de 2025.

A luta contra os combustíveis fósseis e o financiamento climático têm sido um dos principais desafios nas negociações das COPs. Os principais impasses estão em torno do financiamento climático robusto, da adaptação, da eliminação dos combustíveis fósseis e da transparência nas metas nacionais (NDCs). A CBN caracterizou a primeira semana como de “avanços mínimos e pressão”, a BBC Brasil como um “cabo de guerra” entre custeio e investimento no petróleo e o Estadão como “morna”. A Folha de SP destacou o clima de tensão política, a tentativa brasileira de assumir protagonismo e a busca por novas estratégias para destravar negociações em temas sensíveis ao futuro da governança climática global.

Já a Reuters explicou o processo de discussões que exige consenso entre os 194 países envolvidos e descreveu que um dos impasses para os acordos é o próprio modelo de votação. Lembrando que um dos acordos para “eliminar gradualmente” o uso global de carvão foi diluído após uma objeção de última hora da Índia na COP-26, em Glasgow, em 2021. No entanto, discutir mudanças na estrutura das negociações pode comprometer ainda mais as tentativas de acordos, que já lidam com políticas anti-clima, como dos Estados Unidos, que não enviaram delegados à COP-30. 

O Colabora destacou os ineditismos e o protagonismo no Brasil, com a promessa do “Mapa do Caminho”, que segue fora da agenda principal, mas em negociações, e com a aprovação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Também houve destaque para o tema da desinformação ter entrado na agenda e para a mobilização social com o protagonismo indígena sem precedentes. 

A inclusão da desinformação na agenda oficial refletiu uma preocupação inédita. Seguindo uma tendência de grande volume de publicações nas redes sociais nos primeiros dias da COP (Balbé; Carvalho, 2017) e diante do desafio de enfrentar desinformação, foi realizado um monitoramento nas redes sociais TikTok, Instagram e X. O jornal GLOBO revelou que, só no primeiro dia do evento, mais de 1.114 postagens foram classificadas como falsas. Os dados mostram que esses conteúdos foram publicados por perfis de oposição ao governo, contendo informações falsas, descontextualizadas e imagens manipuladas. Esses dados reforçam a importância do lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima liderada pelo Brasil e que, por enquanto, conta com a assinatura de 11 países e visa trazer uma resposta institucional ao impacto da desinformação em contextos climáticos.

A COP-30 tem a maior participação de povos originários em três décadas de conferências do clima, resultado de uma articulação inédita com o governo federal. Dados da Agência Brasil destacam o feito: cerca de 400 representantes indígenas atuam credenciados nas salas de negociação oficial, enquanto uma aldeia montada em Belém reúne aproximadamente 3 mil pessoas de etnias do Brasil, de outras regiões da América Latina e de comunidades tradicionais da África e Ásia. 

Por outro lado, é um duplo momento dos povos originários: a participação inédita e a luta contínua por mais voz. Nas ruas, apelos pela demarcação de terras e denúncias sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, como repercutiu o jornal O Povo. Essas manifestações representam uma retomada do espaço de protesto público, após duas edições de COP realizadas em países com fortes restrições à mobilização civil no Egito (COP-27) e Emirados Árabes (COP-28).

Além das pautas políticas, questões logísticas também ganharam destaque. A CNN Brasil repercutiu críticas à organização do evento, incluindo falhas de segurança, no abastecimento de água nos banheiros e problemas de refrigeração nos pavilhões. O incômodo gerado entre a sociedade civil foi tal que a ONU chegou a enviar uma carta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, criticando a estrutura e exigindo ajustes imediatos, uma medida incomum por parte da organização.

De forma geral, a cobertura trouxe um misto de “primeiros passos” dados e de expectativa para as reuniões políticas que se iniciam esta semana. Qual será o protagonismo que o Brasil quer assumir? Qual será o legado da primeira COP na Amazônia?

*Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

**Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista de iniciação à popularização da ciência no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: carol.diasgarcias@gmail.com

Referência:

BALBÉ, A. D.; CARVALHO, A. (2017). As mudanças climáticas no Twitter: a ascendência da mídia e da política. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 40. https://doi.org/10.5380/dma.v40i0.49047

Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração

Por Karina Gomes Barbosa*

No último dia 5 de novembro, Mariana relembrou os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. O desastre-crime matou 19 pessoas, provocou um aborto, destruiu comunidades tradicionais em Minas Gerais e devastou o Rio Doce até a foz, no Espírito Santo. Aqui, do epicentro do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, considerado o pior desastre socioambiental da história do país, vemos esta década de forma ambígua e amarga.

De um lado, as comunidades atingidas conseguiram – e conseguem – vitórias inegáveis, graças a uma mobilização incansável ainda que sem direito a integrar as mesas decisórias da reparação desde 2015. Entre essas conquistas estão o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), em 2016, e a promessa de melhores condições de saúde com a construção de um hospital universitário em Mariana, neste ano. Na última sexta-feira, 14, a anglo-australiana BHP foi condenada nos tribunais ingleses pelo colapso da barragem de rejeitos.

Do outro, porém, são 10 anos de lutas desiguais, contra corporações minerárias transnacionais que emperram o andamento das ações judiciais no Brasil (foram absolvidas das acusações criminais, junto com os principais executivos e as empresas que atestaram a segurança da estrutura); contra ações de reparação sem escuta ativa e sem respeitar as necessidades e desejos das pessoas atingidas; contra preconceitos; e contra a invisibilidade.

Um dos espaços onde essa falta de presença se dá com mais força é o jornalismo. De 2015 para cá, houve mudanças perceptíveis na cobertura. Aquilo que num primeiro momento se configurou quase como um assédio a pessoas em choque, traumatizadas, incapazes de elaborar aquilo por que haviam passado, aos poucos se transformou numa escrita jornalística fria, distante.

Por anos, os temas relacionados a Fundão que emergiam na imprensa nacional diziam respeito às ações judiciais, aos desdobramentos nas investigações criminais e aos anúncios feitos pela Renova, entidade criada para, supostamente, gerenciar a reparação, e que sempre foi controlada pelas antigas rés do crime, dissolvida em 2025 porque não cumpriu suas obrigações.

Uma cobertura mais humanizada aparecia apenas nas efemérides, e nem em todas elas, quando veículos do país inteiro vinham dar conta do que estava ocorrendo aqui com as pessoas e comunidades atingidas, ou em veículos independentes ou laboratoriais produzidos no curso de Jornalismo da UFOP. Nos últimos anos, nem isso. Muitos veículos, inclusive mineiros, usaram material produzido pela Agência Brasil para não terem de se deslocar a Mariana.

Aos poucos o cenário vem se transformando, modesta e sazonalmente. Alguns veículos ampliaram, em certa medida, o olhar sobre o crime de 2015, trazendo temas caros às pessoas atingidas, como a violação cotidiana de direitos e os problemas de saúde decorrentes da catástrofe socioambiental. Essa presença mais constante, de uma abordagem menos emotiva e mais focada na perspectiva da luta e dos direitos humanos, modificou inclusive a relação de muitos e muitas atingidas com a imprensa: de desconfiança absoluta a uma atitude mais colaborativa com aqueles que mostravam as angulações para poderem ser atendidos por quem tem uma agenda de luta sem tréguas.

Em 2025, essa mudança ficou perceptível. Fundão já havia voltado aos holofotes desde junho, quando o presidente Lula e uma caravana de ministros estiveram em Mariana para anunciar um controverso acordo de repactuação – uma revisão dos termos da reparação assinada em 2016 –, elaborado mais uma vez sem a presença ou sequer uma escuta responsável e comprometida de atingidos e atingidas. Em novembro, a cobertura, de modo geral, foi respeitosa e buscou equilibrar as dimensões econômicas, jurídicas, socioambientais e o aspecto humano.

Contudo, uma ausência notável permanece e se perpetua, como miopia ou dificuldade de o jornalismo olhar para os acontecimentos com uma perspectiva sistêmica. Pouco ou nada se fala da conexão entre a exploração minerária predatória e a emergência climática. Os efeitos da extração de minerais são visíveis a olho nu, todos os dias, e obviamente cobram sua conta para a cidade, a bacia hidrográfica, o país, o planeta. Parece que mais uma vez, após mais de dois séculos, o minério consegue se esconder de sua responsabilidade sobre a devastação socioambiental do mundo.

Aqui em Mariana, a exploração protagonizada por Samarco, Vale, BHP, Cedro e, em breve, Cidreira – fora a moda das mini minas como a Patrimônio Mineração, na comunidade do Botafogo, em Ouro Preto – prevê o uso de uma quantidade abissal de água, jamais claramente apurada, inclusive para assentar o pó das atividades. Curiosamente, as duas cidades sofrem com falta d’água, a despeito de estarem rodeadas de nascentes.

A poeira que chega à zona urbana leva a diversos problemas respiratórios e de pele e a uma sobrecarga do sistema de saúde. Os serviços de saúde não são os únicos onerados. Mariana enfrenta problemas de saneamento básico e coleta de lixo, devido ao excesso populacional trazido pelos trabalhadores da mineração, além de aluguéis e comida inflacionados. O fluxo de ônibus de transporte de funcionários e de caminhões, alguns de carroceria tripla para transportar máquinas de ficção científica, geram poluição sonora, engarrafamentos, danos abundantes ao asfalto e, óbvio, emissão de gases poluidores.

Uma caminhada nas proximidades das barragens (agora, dizem, em descomissionamento) e pelas áreas de extração exibe a face mais explícita dos danos: o que eram montanhas e morros repletos de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado vão se tornando aos poucos zonas áridas, terrosas, terra arrasada. O reflorestamento parece uma eterna promessa que não se cumpre, porque a expropriação nunca tem fim.

Se vemos grandes reportagens apontando o desmatamento na Amazônia e o garimpo ilegal como vilões das mudanças climáticas, corporações como a Vale surgem como empresas comprometidas com a mineração verde – enquanto transformam a comunidade de Antônio Pereira em cenário de filme de terror em tons avermelhados. Isso sem falar que a zona rural de Mariana e todas essa outras localidades não existem para a mídia.

Quem já ouviu falar de Campinas, Pedras, Ponte do Gama, Águas Claras, ou até mesmo de Paracatu de Baixo e Gesteira, dois subdistritos arrastados, como foi Bento Rodrigues?

Andando um pouco mais, quem, num raio de menos de 100 km de Mariana, já leu ou escutou o nome de Socorro, distrito de Barão de Cocais que guarda semelhanças profundas históricas e demográficas com Bento Rodrigues, mas que carrega o estigma de não ter entrado para a história como terra arrasada, já que lá a barragem da Vale não rompeu, mas expulsou as pessoas de sua tricentenária comunidade desde 2019?

Os impactos imediatos e futuros gerados pelas mineradoras em pequenas cidades de 60, 80 mil habitantes (o IBGE não considera a população flutuante minerária) são desconsiderados pelo jornalismo, que parece não conectar a criação de diversas Marianas, Brumadinhos, Itabiras pelo país com os regimes de chuva irregulares, às tempestades que desalojam populações em vulnerabilidade, às ondas de calor que se multiplicam a cada ano, a secas inclementes, ao desaparecimento de áreas verdes, à morte de nascentes.

São cidades pequenas, desimportantes no cenário geral, parece. Cujos modos de vida esmagados pela mineração não têm noticiabilidade suficiente. A mineração legalizada, chancelada por ANM, MME e tantas siglas governamentais, tem credibilidade para dizer que não polui, mitiga, repara, refloresta, recompõe, devolve o que tirou, ao mesmo tempo que submete comunidades a processos de terrorismo de barragens, chantagens financeiras, violências e incertezas.

Enquanto isso, a Samarco começa um processo de expansão chamado Longo Prazo, com o objetivo de ampliar em 100% a capacidade de extração até 2042. Mais uma vez, o jornalismo parece dar pouca atenção à perspectiva distópica que se avizinha sobre a região, onde nasceu Minas Gerais graças ao ouro e que vive sob a maldição/dádiva do minério desde então.

A cegueira do jornalismo ante a essa conexão flagrante vai custar caro, como já custou em 2015, 2019 e ao longo da história mineira. Quando nossos pequenos problemas explodirem na foz de um rio, quando nossos pequenos danos se tornarem 272 mortos, quando nossas pequenas minas contribuírem para o fracasso do país com as metas de qualquer COP, eles serão novamente noticiados, com surpresa, horror e, provavelmente, a mesma incompreensão estrutural.

A autora agradece a André Luís Carvalho pela leitura e pelas contribuições.

* Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), convidada por este Observatório em razão de seus estudos que envolvem o desastre-crime que completou recentemente dez anos. E-mail: karina.barbosa@gmail.com.

Rio Bonito do Iguaçu: quando um evento extremo é noticiado sem raízes

Por Eutalita Bezerra*

O Sul do Brasil enfrenta um novo episódio de destruição: mal se recupera das enchentes, agora lida com os danos causados por nova tempestade severa. Se na enxurrada o principal atingido foi o Rio Grande do Sul, desta vez, ainda que o estado gaúcho também tenha sido impactado pela tempestade, a destruição se abateu mais fortemente sobre Santa Catarina e Paraná. O primeiro foi afetado por pelo menos três tornados durante a onda de chuvas ocorrida no último dia 7. Já o segundo contou um dos mais intensos tornados registrados no planeta neste ano, com ventos de até 330 km/h, conforme a Metsul Meteorologia e os governos estaduais. O fenômeno dizimou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, que teve 90% dos imóveis danificados ou totalmente destruídos.

Para esta análise, buscamos entender a forma que os veículos de comunicação se debruçaram sobre a questão, na fase de rescaldo. Tomamos como foco o Paraná, considerando a repercussão mais significativa, dada a singularidade do fenômeno. Optamos por utilizar o ChatGPT como ferramenta de busca**. Valemo-nos do seguinte prompt: “Na ultima sexta-feira (7), o Paraná foi atingido por uma tempestade severa e por tornados. Me indique links de veículos jornalísticos com presença digital consolidada que tenham divulgado essa notícia.”. A pesquisa inicial retornou sete links, entre veículos brasileiros e estrangeiros (Associated Press, India Times e El Pais), dos quais um, o da AP News, apareceu duas vezes. Um dos textos foi descartado por não se tratar de veículo reconhecidamente jornalístico, embora produza notícias: o Climatempo. 

Chegamos à publicação da CNN Brasil, “Tornado no Paraná deixa ao menos 1.000 pessoas desalojadas”, veiculada em 8 de novembro. As fontes ouvidas foram o Governo do Paraná e a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil, mas há citação direta apenas do governador. O texto inicia contabilizando as perdas verificadas até aquele dia. Também relaciona as ações emergenciais do Governo do Paraná, citando abrigos e estruturas montadas para alimentação, triagem e encaminhamento dos afetados. Apresenta-se o número de mortos e feridos. De forma educativa, a repórter também diferencia “desabrigados” e “desalojados”. A publicação é finalizada com hiperlinks para uma reportagem sobre a classificação do tornado e outra metodológica, explicando como a categorização é feita. 

Ao longo do texto, outras hiperligações também são disponibilizadas, quais sejam: para publicação sobre luto oficial de três dias no estado, para pronunciamento do secretário de saúde citando “cenário de guerra” após tornado e para entrevista do governador, segundo o qual esta seria uma catástrofe sem precedentes na história do Paraná. Na mesma publicação também há uma subdivisão chamada “Leia mais”, que direciona para outras três publicações: “Veja quem são os mortos na catástrofe”, “Passagem de três tornados causa destruição no Oeste de Santa Catarina” e “O que é um ciclone extratropical? Saiba o que fazer durante uma tempestade”.

A segunda publicação disponibilizada pela ferramenta de busca foi da Agência Brasil, “Tornado destrói 90% de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e causa seis mortes”, também do dia 8. A publicação tem como foco a cidade mais afetada, com imagens da destruição, citando dados de Defesa Civil, Governo do Paraná e Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Do mesmo modo que no texto anterior, citações diretas apenas do governador Ratinho Júnior, que fala sobre as ações emergenciais e que os estudos sobre a força do fenômeno ainda estavam em andamento. A publicação é finalizada com duas matérias relacionadas: Ciclone causa destruição, deixa 4 mortos e 400 feridos no Paraná e outra de alerta para ciclone em São Paulo na mesma data

O ChatGPT retornou, ainda, a publicação do The Times of India, veiculada em 9 de novembro, intitulada “Video: Moment tornado hit Brazil’s Parana; six killed hudreds injured”. Além de descrever o evento climático, a matéria trouxe vídeo do momento em que o tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu, replicado do perfil “WeatherMonitors” no X, antigo Twitter. Também se referiu a imagens aéreas que demonstraram o estrago deixado pelo tornado, embora não as tenha mostrado. Como fontes, foram citadas a Al Jazeera; o Governador do Paraná e o Presidente da República.

A Associated Press publicou que “Powerful tornado in Brazil kills 6 people and injures hundreds more”. De forma bastante breve, a publicação descreveu brevemente o fato, sem contextualizá-lo, e referiu-se ao luto oficial e à expressão de solidariedade do Presidente Lula. Embora cite “autoridades estaduais” para descrever a situação naquele momento, não especifica quem foi o emissor da informação.

Com efeito, entendemos que a ferramenta nos permitiu um panorama breve, mas indicativo de como tem se dado a cobertura sobre eventos climáticos extremos: a abordagem apressada de desastres que pedem profundidade.  Quando o jornalismo se limita a contabilizar perdas sem explicar causas, contextos ou conexões, ele se distancia de sua função social mais profunda: a de ajudar o público a compreender, e não apenas a lamentar, o que o vento levou.

Nenhuma das publicações contextualizou o fato, classificou como evento extremo ou localizou Rio Bonito do Iguaçu no mapa ambiental. Aqui o fazemos: a cidade, ao longo dos anos, foi transformada pelo desmatamento, colocando-se como o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, segundo a ONG SOS Mata Atlântica. De acordo com publicação da BBC , ainda em 2021, até aquele momento já haviam sido destruídos 24,9 mil hectares de floresta no município. Eis a reflexão e, por que não, a sugestão de pauta.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Por ser a primeira utilização deste formato de busca no Observatório, optei por descrevê-la mais aprofundadamente nesta nota. A opção deveu-se à experimentação: consideramos estudos recentes que demonstram uma incipiente mudança no comportamento de usuários que migram de buscadores tradicionais para ferramentas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT (Tibau, Siqueira e Nunes, 2024; Reuters, 2025). Também questionamos, na oportunidade, a ferramenta, a fim de verificar os critérios para a indicação de tais links. Segundo o ChatGPT, observou-se o critério de relevância jornalística (Histórico de produção noticiosa contínua, independência editorial e registro formal como empresa de mídia, equipe de redação identificável e canais oficiais); presença digital consolidada (domínio verificado, SEO e histórico indexado pelo Google Notícias, política de correção ou contato editorial visível no site); variedade geográfica e editorial.

“O agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental.

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Plantando tecnologia, colhendo silêncio: o enquadramento do agronegócio como herói climático no Jornal Nacional

Por Gabriella de Barros*

Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.

Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.

A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.

O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.

Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.

A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.

Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.

A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática. 

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI). 

Referências

GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.

NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Farms and forests can fight climate change. Roma: FAO, 04 dez. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/newsroom/detail/Farms-and-forests-can-fight-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Special Report: Global Warming of 1.5°C. Geneva: IPCC, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/ . Acesso em: 31 out. 2025.

INSTITUTE FOR ENVIRONMENTAL RESEARCH & EDUCATION (IERE). How is agriculture affecting climate change? Vashon: IERE, jan. 2025. Disponível em: https://iere.org/how-is-agriculture-affecting-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.

A importância da cobertura crítica do jornalismo não hegemônico na COP-30

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

Assuntos latentes nas discussões que circundam a COP-30, a começar no próximo dia 11 em Belém do Pará, como a exploração de petróleo na Amazônia, são temas que, por vezes, perpetuam-se apenas em discussões ambientadas nesses espaços formais. Entretanto, a popularização destas pautas ambientais e climáticas são essenciais e intrinsecamente ligadas à formulação de uma agenda justa e eficaz acerca de ações de adaptação e mitigação.   

Tendo em vista a relevância da COP-30, um dos eventos mais importantes que guiam as tomadas de decisões acerca do clima e do ambiente no âmbito global, é pertinente avaliar quais são os veículos que estão tratando destes assuntos de forma aprofundada e crítica.

É a partir da cobertura realizada pela mídia não hegemônica que a população pode entrar em contato com olhares mais criteriosos sobre o que representa, no caso em questão, a autorização pelo governo federal à exploração de petróleo em uma região estratégica ao equilíbrio climático e por sediar a COP 30. 

O jornalismo não hegemônico, também denominado de alternativo, contra hegemônico, independente, de oposição, se refere às práticas jornalísticas de meios com posição comprometida e engajada com o “combate à injustiça social, sendo, muitas vezes, fortemente relacionado com os movimentos sociais, com escala de influência mais limitada na sociedade, estrutura econômica mais instável e, na maioria das vezes, atuando sem fins lucrativos” (Loose, 2020, p.39).

A exploração de petróleo na Foz do Amazonas representa um duro golpe para quem quer mudar a trajetória das mudanças climáticas e vê nas discussões da Conferência uma saída ambiental que barre a produção de combustíveis fósseis. 

O site do Sumaúma, um dos projetos jornalísticos não hegemônicos mais relevantes atualmente na cobertura da COP-30, traz a notícia sobre a exploração do petróleo na região com uma crítica frontal e contundente ao governo Lula, apontando ministros que eram favoráveis à perfuração de poços e como ocorreu a aprovação e liberação do Ibama, bem como as repercussões, sob forte pressão política. A partir do texto, o leitor entende o enredamento governamental com o Congresso e a inação presidencial diante do avanço dos interesses políticos e petrolíferos. Além disso, a notícia expõe a contradição da decisão a poucos dias da realização da COP.

A cobertura realizada pelo veículo jornalístico O Eco, o qual se dedica a evidenciar os avanços e desafios acerca do cenário ambiental e climático no país, traz também uma visão crítica da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, além de ressaltar os efeitos  negativos da exploração gera ao meio ambiente. A matéria enfatiza o risco de acidentes e a extrema poluição climática que este movimento causará ao ambiente e como tal atitude está sendo vista no cenário internacional.

De mesmo modo, o  #Colabora, expôs, na última semana, a denúncia feita por ONGs ao governo acerca da exploração no foz do Amazonas.  A matéria apresenta, de forma crítica ao governo, o ativismo conjunto de outras organizações que lutam pela justiça climática e que, por vezes, não tem visibilidade na cobertura hegemônica. O veículo ressalta a importância do reconhecimento destas atuações ambientalistas realizadas por populações indígenas, ribeirinhas, pescadoras e outras organizações no debate ambiental e climático no Brasil. 

Diante dos apontamentos aqui apresentados, verificamos a necessidade de que meios não comprometidos com os interesses da indústria petrolífera produzam notícias e circulem. Muitas vezes, a tomada de consciência sobre os problemas ambientais só é possível nestas alternativas. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS) e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (CNPq/UFRGS) . E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

Referência:

LOOSE, E. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/220347. Acesso: 01.nov.2025

A tempestade do século e o aquecimento global

Foto: NOAA

Por Patrícia Kolling*

Nesta semana, o furacão Melissa, com ventos de até 298 km/h, atingiu a Jamaica, República Dominicana, o Haiti e Cuba. No dia 28 de outubro, quando o furacão estava chegando na Jamaica e nos dias que antecederam, a imprensa brasileira deu espaços significativos ao fenômeno, trazendo informações técnicas para que o leitor compreendesse o furacão, com dados sobre a escala e velocidade dos ventos.

Na Uol, o leitor encontrava alternativas para acompanhar o fenômeno em tempo real. Muitas notícias destacavam o fato do furacão atingir a escala 5, o nível máximo de intensidade, e na Jamaica, ter sido o mais forte a atingir o solo na costa do Atlântico em 90 anos.

Os dados eram assustadores, e os textos jornalísticos faziam questão de ressaltar isso. A previsão era de que o furacão atravessasse a Jamaica de ponta a ponta e a Cruz Vermelha Internacional alertava para um “impacto massivo”. Cerca de 1,5 milhão de pessoas – metade da população da ilha – deveria ser afetada direta ou indiretamente. Tanto que, em uma das matérias, um morador da Jamaica entrevistado dizia não acreditar que iria sobreviver, portanto não sairia de sua casa. As previsões se confirmaram, e a tempestade, considerada a maior do mundo, causou muita destruição e mortes.

A Folha de São Paulo trouxe informações técnicas sobre velocidades dos ventos, áreas que seriam atingidas e as ações da Defesa Civil para tirar as pessoas da região e protegê-las. A Folha também reproduziu um texto do Washington Post, ‘Caçadores de Furacões’ sobrevoam olho do Melissa no Caribe; um relato de um meteorologista que junto com outras 18 pessoas voou sobre o olho do furacão, e narrou a perfeição meteorológica do fenômeno.

Acredito que os meios jornalísticos precisavam, sim, apresentar os dados concretos da gravidade do fenômeno, porém, senti que foram além disso, ao fazer do fato um espetáculo sem precedentes, beirando ao sensacionalismo.
Mas, foi na National Geographic Brasil, que encontramos a relação entre o aquecimento global e o aumento dos furacões de categoria 5. “O furacão Melissa se intensificou rapidamente ao se arrastar sobre águas oceânicas excepcionalmente quentes, cerca de 1,4 °C mais quentes que a média, algo até 700 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causadas pelo homem”, informa a Climate Central (entidade independente de cientistas e jornalistas que pesquisa informações sobre mudanças climáticas e seus impactos).

(…) “Quanto mais quente estiver o oceano, mais combustível haverá para os furacões se intensificarem, desde que outras condições atmosféricas (como o cisalhamento do vento) também sejam favoráveis”, informa a NOAA.

Senti falta desta conexão entre o furacão e as mudanças climáticas na maioria dos textos que li. É mais que urgente que o jornalismo traga essas relações contextuais ao falar de fenômenos climáticos. É preciso dizer que a intensificação destes acontecimentos tem relação com as mudanças climáticas, entre elas o aquecimento, e que a responsabilidade está na emissão de combustíveis fósseis e de poluentes.

Coincidentemente, nesta semana a ONU apresentou o Relatório Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas de 2025 (NDC Synthesis Report 2025), consolidando as metas climáticas apresentadas pelos países entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados não são nada animadores, pois o relatório diz que, conforme as metas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris, o corte de emissões de gases ficará em 17%, enquanto a Ciência diz que seria necessário cortar 60% das emissões de gases até 2035. Isso significa que se a metas apresentadas a ONU forem cumpridas, o mundo terá um aquecimento de 2,5º até 2100.

Além do site o((eco)), o portal InfoAmazonia também analisou o relatório , mas em outros sites de notícias não encontrei informações sobre esse relatório.

Portanto, a semana foi a oportunidade dos meios jornalísticos conectarem os dados pessimistas do relatório e os fenômenos extremos que estão acontecendo no Planeta. Conexões que não encontrei nos veículos que pesquisei.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Repercussão da exploração na Foz do Amazonas, às vésperas da COP-30, escancara discursos ambientais vazios 

Breve análise da cobertura da Folha de S. Paulo indica a crítica à falta de comprometimento com as pautas da COP-30

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose* 

A menos de um mês da realização da 30ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que busca discutir caminhos para o enfrentamento da emergência climática, a Petrobras recebeu a licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas, próxima à costa do Amapá. A exploração de pesquisa por petróleo na região estava em negociação desde o início do ano, e exigia múltiplos pareceres técnicos de segurança contra vazamentos e de asseguração à biodiversidade local. A licença é para o primeiro poço, mas deve destravar uma corrida por reservas na área. 

O governo defende a proposta de exploração do que denomina “riqueza”, e esteve em embate com o Ibama pela licença. A área, antes de ser licenciada, já estava incluída no primeiro leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que ocorreu em junho, e vem despertando grande interesse econômico e político. No leilão, a ANP concedeu 34 blocos exploratórios, 19 localizados na bacia da Foz do Amazonas.

Arte: Petrobras/Divulgação

A justificativa principal para seguirmos ampliando a indústria do petróleo – e agravando a crise climática – é econômica: as reservas seriam uma importante garantia para o Brasil,  possibilitando, inclusive, a transição energética. Aí está uma das maiores contradições da política ambiental do Brasil nos tempos recentes. 

Nosso Observatório, nesta semana, faz uma breve análise da repercussão dessa licença do Ibama, às vésperas da COP-30, num dos maiores veículos do País, a Folha de São Paulo. De 15 a 22 de outubro, a Folha publicou 25 matérias que mencionam a expressão “Foz do Amazonas”. 

De 15 a 19 outubro, antes da licença ser  liberada pelo Ibama, a editoria Ambiente já informava movimentos do presidente do Congresso Nacional,  Davi Alcolumbre, para derrubada de vetos de Lula no senado, por interesse na Foz do Amazonas. Através da Licença Ambiental Especial, dispositivo presente no conhecido  “PL da Devastação”,  empreendimentos estratégicos ao governo têm o seu processo agilizado. Também nesse período, a Folha informou que a Petrobras apresentou os últimos esclarecimentos técnicos para o Ibama, e quanto a petroleira gastou com as medidas para evitar danos ambientais – no mesmo texto, indica que a exploração é aprovada pela maioria da população, segundo o Datafolha. 

Na imediata repercussão da notícia de liberação da licença, de 20 a 22 de outubro, houveram 20 publicações na Folha. Dessas, 15 eram notícias e reportagens, a maioria delas publicada na editoria Ambiente (12) , depois na editoria da Economia (2) e Política (1). Das notícias e reportagens analisadas, 8 mencionaram a sua proximidade com a COP-30; 7 trouxeram os riscos ambientais da exploração; 5 mencionaram as contradições com a transição energética defendida pelo governo; 5 realizaram entrevistas com ambientalistas ou mencionaram as principais críticas; e apenas 3 mencionaram os possíveis danos aos povos indígenas da região. 

Dividindo-se entre notícias declaratórias, com os discursos do governo federal, da Petrobras e da ANP, de justificativa econômica para a exploração da Foz, e matérias que trazem as nuances dos riscos ambientais e sociais à exploração, a Folha parece se preocupar em trazer as críticas sobre o fato. No entanto, vale mencionar que essa repercussão ocorre majoritariamente na editoria dedicada ao meio ambiente, e “outros pontos de vista” aparecerem rapidamente e raramente em matérias factuais sobre a exploração. Isso representa, do ponto de vista do Jornalismo Ambiental, um problema, ao encapsular grande parte da discussão em um único espaço dentro do jornal.

Chama atenção a matéria sobre falas de Janja da Silva na última terça (21), ao defender a licença do Ibama para a Petrobras: “A gente não pode negar a importância que ainda têm os combustíveis fósseis para o desenvolvimento do país”, e “É utópico achar que, de um dia para o outro, a gente vai deixar de usar combustível fóssil”. O texto da Folha questiona as contradições da primeira-dama que, no mesmo dia, esteve em um evento sobre transição energética na Sorbonne, e parece não ver problema algum com a perfuração de uma nova área no País. E a matéria lembra: a autorização foi dada à Petrobras a 20 dias da COP-30. 

Foto: Felipe Werneck/Ibama – Wikimedia

Também no mesmo período, a Folha publicou um editorial com a opinião do veículo: “Apostar em combustível fóssil é olhar para trás”, destacando os movimentos do governo federal como retrocessos na transição energética. Enquanto a opinião declarada da Folha é contra o combustível fóssil, cabe contínua análise sobre o tamanho da plataforma dada aos discursos petroleiros na editoria de economia e nos seus conteúdos patrocinados. 

Enquanto o Brasil se coloca como líder global da transição energética e do combate às mudanças climáticas, continua a investir nos recursos fósseis.  Na Assembleia-Geral, o presidente Lula afirmou em seu discurso de abertura que a COP-30, liderada pelo Brasil, será a COP da verdade: “o momento dos países comprovarem seu compromisso com o planeta”, disse. O compromisso do Brasil, um mês depois, parece ser o de garantir suas reservas de petróleo ao extrair mais matéria prima comprovadamente desastrosa e diretamente ligada às mudanças climáticas. O fim dos combustíveis fósseis foi recentemente silenciado no discurso do presidente Lula na ONU, como analisado no Observatório pelo colega Luciano Velleda

Em meio à flexibilização das licenças ambientais no País (já construídas de olho na Margem Equatorial) e  o discurso de que reservas de petróleo pagarão pela transição, a licença para a pesquisa na Foz do Amazonas era, infelizmente, só questão de tempo. Enquanto a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia, com todo o seu poder de decisão e recursos, não alinharem seus planos de futuro às metas do Acordo de Paris, à estratégia nacional de mitigação definida no Plano Clima e à meta de redução de emissões do Brasil, o discurso brasilero apenas não faz sentido.

A transição energética justa não depende necessariamente de novas explorações de petróleo, mas do impulsionamento de energias renováveis (de verdade). Fazer circular os discursos que apontam alternativas ao petróleo e entender as contradições que envolvem o cuidado com o ambiente e a falácia do desenvolvimentismo também são finalidades de um jornalismo responsável e orientado para o interesse público.

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Vozes indígenas e quilombolas seguem à margem da cobertura antes da COP-30

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**

Cerca de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas, estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações, secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna, de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.


Essa questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a 21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67 delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação aos eventos climáticos extremos.


Além das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil, em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.


Mas, ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.


Por outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.

A pouca atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas mais eficazes para todos nós.


*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.
**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

O Pampa, o jornalismo gaúcho e o juiz Wakefield 

Por Sérgio Pereira*

Em “Traffic” (2000), filme do laureado diretor Steven Soderbergh, o ministro da Suprema Corte Robert Wakefield (interpretado por Michael Douglas) ganha notoriedade por seu incansável combate às drogas. Essa fama o leva a assumir o cargo de chefe do departamento de combate ao tráfico dos EUA. O magistrado vive entre viagens, palestras e reuniões, todas envolvendo o foco de sua luta moral. Na sua visão, o tráfico de narcóticos está corroendo as entranhas do país e é preciso agir. Um dia, no entanto, tudo muda na sua vida quando, para seu espanto, descobre que sua única filha, a adolescente Caroline (papel de Erika Christensen), era uma dependente química. Ele então decide se retirar da vida pública para priorizar a reabilitação da filha, que acredita ter negligenciado enquanto se dedicava à causa antidrogas. 

Wakefield é mais do que um personagem, é um símbolo da visão equivocada que por vezes nos absorve e nos faz lançar o olhar para aquilo que está distante, desprezando o que está bem abaixo dos nossos olhos. 

Saindo agora da ficção, podemos refletir que equívoco idêntico ao do ministro Wakefield pode ser observado em grande parte da imprensa. Por exemplo, quando veículos regionais dão espaço para noticiar ações de facções que agem longe de sua área de abrangência, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou o Comando Vermelho (CV), sem se preocupar com o crime organizado em seus estados. Ou quando repercutem toda e qualquer declaração polêmica do alto comando de Brasília, mas desprezam falas controversas de importantes políticos locais. 

E também é o que acontece em geral com o jornalismo gaúcho quando o assunto envolve o Bioma Pampa. Destruição na Amazônia, queimadas no Pantanal, tragédias ambientais mundo afora, por exemplo, ganham mais espaço na imprensa do RS do que a destruição ambiental que acontece de forma gradativa na metade sul do Estado. 

Na semana passada, por exemplo, o Mapbiomas divulgou novo relatório sobre o bioma sulino. Conforme o estudo, o Pampa hoje é o segundo bioma brasileiro com o menor percentual de cobertura de vegetação nativa (fica atrás apenas da Mata Atlântica). A rede global e multi-institucional, formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia, revela ainda que, no ano passado, “45,6% do Pampa estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico, com predomínio do uso agrícola (agricultura e mosaico de usos: 41%) e da silvicultura (4%), além de outros, como áreas urbanas e mineração”. 

O Mapbiomas também denuncia que o Pampa, de 1985 a 2024, registrou a maior perda proporcional de vegetação nativa nos últimos 40 anos dentre todos os biomas brasileiros. Um dos principais motivos para essa redução é o crescimento voraz do plantio da soja. Conforme a análise técnica, entre 1985 e 2024, “a área plantada com essa oleaginosa passou de 827 mil hectares para 3,2 milhões de hectares – um aumento de 385%”. 

Apesar da gravidade dos dados revelados, a imprensa gaúcha, que invariavelmente se orgulha de valorizar a cobertura local, praticamente ignorou o alerta. Nas edições impressas, os tradicionais Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio nada trouxeram. Uma rara exceção foi uma nota de 1,2 mil caracteres, sem assinatura, na plataforma digital GZH, com o título “Áreas ocupadas por atividades humanas ultrapassam a cobertura de vegetação nativa do Pampa”. O texto pinça dados do texto divulgado pelo Mapbiomas, sem contextualizar, sem repercutir o fato com autoridades fiscalizadoras, grupos ambientais ou até mesmo com os representantes do setor do agronegócio ou da soja especificamente.  

Ao contrário dos veículos gaúchos, no entanto, os sites da revista Veja, da CNN Brasil e do Brasil de Fato souberam valorizar a notícia. O texto da Veja, por sinal, assinado pelo jornalista Ernesto Neves, abre no melhor estilo, alertando que o Bioma Pampa “vive uma erosão silenciosa”. E é esse silêncio que está contribuindo para a destruição do bioma sulino.  

*Jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Mudanças climáticas no topo do mundo

Foto: Wikicommons

Por Ângela Camana*

Na semana em que o mistério envolvendo o assassinato de Odete Roitman, no remake da novela Vale Tudo, fez parar o Brasil, outra cena angustiante tem emergido nos noticiários: são centenas de montanhistas que, desde o final de semana, estão à espera de resgate no Monte Everest. A ocorrência de fortes tempestades de neve deixou sitiadas cerca de 200 pessoas, que estão acampadas a quase 5 mil metros de altitude; outras 350 já foram resgatadas. Uma morte devido à exposição ao frio foi registrada. O jornalismo internacional tem repercutido sobreviventes que relatam jamais terem vivenciado um episódio climático desta magnitude, corroborados por guias da região que dizem que neste ano “o clima não está normal”. Pesquisadores argumentam que as mudanças climáticas estão tornando mais intensas as monções, o que torna imprevisíveis e irregulares fenômenos como rajadas de chuva.

Este episódio não é o primeiro do tipo registrado no pico mais alto do mundo. Em 2023, um dos anos com maior registros de acidentes fatais envolvendo montanhistas, a Reuters repercutiu a alegação de especialistas que as mudanças do clima eram responsáveis por pelo menos 17 mortes no Everest. No Brasil, canais como o podcast O Assunto e o The Conversation destacaram como as transformações ambientais e o turismo de massa têm impactado as geleiras, que sofreram redução de mais de 25% quando comparadas a 1970.

Não é novidade para aqueles que se dedicam ao tema das mudanças do clima e sua intersecção com a comunicação que o risco e a incerteza são objetos de difícil abordagem, haja vista que escapam aos critérios de noticiabilidade predominantes no jornalismo. Igualmente já se sabe e se argumenta que as mudanças climáticas nos colocam diante de um imponderável que ultrapassa editorias. O recente episódio no ponto mais alto do mundo é exemplar destas duas considerações.

Ao jornalismo em geral tem bastado republicar notícias de agências internacionais sobre os esforços de salvamento, acompanhadas de vídeos desoladores. Quando muito, os portais apresentam duas frases de especialistas não nominados sobre as alterações nos regimes de chuva. Não há esforço de contextualização, tampouco de qualificação das informações recebidas. Uma lástima, já que o drama humanitário e ambiental vivido no Everest escancara que as mudanças do clima impedem a manutenção da vida como a conhecemos. O esporte e o turismo não escapam às alterações, e as imagens das centenas de sitiados no topo do mundo não nos deixam negar. O que está sendo reportado, contudo, não faz jus ao momento vivido: ao não nos permitir ver para além dos frames do espetáculo trágico dos montanhistas, o jornalismo também nos nega o conhecimento de riscos climáticos, sociais e éticos muito mais amplos.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: angela.camana@hotmail.com

Projetos jornalísticos e formações climáticas para comunicadores crescem com a realização da COP no Brasil

Reunião virtual do Conselho de Segurança da ONU. Foto: Wikicommons

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em preparação para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que será sediada em Belém, no Pará (PA), o jornalismo brasileiro apresenta iniciativas para informar o público sobre o evento sob diferentes perspectivas: econômica, política, ambiental, social, cultural, entre outras. Similar ao que ocorreu na Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) e na Rio+10 (Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável), reconhece-se um esforço de organizações jornalísticas e não jornalísticas  para ampliar o debate ambiental e, em alguns casos, qualificar a cobertura sobre a COP.

Veículos com linhas editoriais diferentes, sobretudo independentes e/ou especializados, procuram informar de modo educativo sobre o que é a Conferência, sua função e o que se pode esperar da sua realização no Brasil. Projetos como podcasts exclusivos sobre o evento, bem como episódios específicos sobre o tema crescem em número nas plataformas digitais. 

O podcast “Tempo Quente”, criado em 2022 pela Rádio Novelo para falar de mudanças climáticas, por exemplo, realiza nesse ano o especial “Esquenta pra COP30”, em parceria com a Agência Pública e o Observatório do Clima. Outros podcasts e programas que evidenciam essa preocupação com o entendimento do evento e o que está por trás de sua realização (o enfrentamento das mudanças climáticas) são: “COP Meio Cheio, Meio Vazio”, do Brazil Journal; “Entrando no Clima”, do ((o))eco; “Las Niñas”, de Carol Prolo e Natalie Unterstell. Dentre os temas mais abordados, estão: o financiamento climático, a governança global, o papel dos combustíveis fósseis, a transição energética e o protagonismo de comunidades tradicionais na tomada de decisões pelo clima. 

Entre veículos públicos, como a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que será emissora anfitriã, estão sendo intensificadas a produção de conteúdos especiais em preparação para a COP-30, em novembro em Belém (PA). A mobilização da EBC inclui parcerias, como o acordo com a Funtelpa (Fundação Paraense de Radiodifusão), para ampliar o alcance da cobertura; a veiculação de interprogramas na TV Brasil sobre os biomas brasileiros; reportagens especiais nos telejornais; programas temáticos e boletins nas rádios; e iniciativas nas redes sociais e veículos governamentais.

Presente de forma recorrente na programação de programas diários como O Assunto, do G1, e Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, a COP-30 está sendo mais discutida e evidenciada pelo jornalismo tradicional do que em edições anteriores. Isso se deve ao ineditismo de sua realização na Amazônia brasileira e também ao foco internacional que as decisões pró-ambiente ganham.

Veículos independentes, como ((o))eco, Sumaúma e Agência Pública, debruçam-se sobre aspectos nem sempre presentes na cobertura oficial do evento, bastante atreladas às fontes políticas. Em matéria da última semana de Lorena de Paula, o Sumaúma tratou da desigualdade em Belém e como ela implica até na diferença de calor sofrido pelos moradores da cidade. Segundo dados da reportagem “Na Belém da COP30, até a sombra é desigual”, há uma diferença de até 8 graus Celsius entre bairros ricos e pobres na capital paraense.

Em notícia assinada por Cristiane Prizibisczki no veículo ((o))eco em julho, o leilão realizado pela Agência Nacional de Petróleo é destacado junto à fala da presidência brasileira da COP sobre transição energética. Na publicação “Em semana de leilão de petróleo, Brasil fala à comunidade internacional sobre transição energética” as informações da semana foram apresentadas com questionamentos de enfrentamento às contradições políticas e econômicas. 

Por ser uma profissão orientada para a factualidade, na qual a questão “tempo” é fator de decisão sobre as pautas, as expressões “em ano de COP”, “a x meses da COP” ou  “a poucas semanas da COP” têm sido usadas de maneira repetida e quase clichê pelos jornalistas em 2025. No entanto, esse momentus pode ser útil para popularizar a problematização de questões ambientais com mais espaço midiático do que tradicionalmente identificamos. A partir disso, iniciativas independentes dão exemplo de contextualização e questionamento jornalístico diante de notícias e reportagens rasas e declaratórias na mídia hegemônica. 

 Foco na cobertura jornalística 

A poucas semanas da COP-30 em Belém, intensificam-se as menções ao evento na mídia. Em meio à problemas logísticos, bate-bocas diplomáticos, crises políticas internas e projetos ambientais numerosos, é fácil que um comunicador perca de vista suas prioridades na hora da cobertura e se disperse quanto à pautas, fontes e abordagens. Visando a complexidade que é cobrir um evento de tal magnitude, diversas entidades, organizações e associações jornalísticas organizaram ao longo do ano iniciativas para a preparação de profissionais. 

Entre alguns projetos mapeados estão cursos online, seminários, webnários, palestras, materiais e guias para os jornalistas interessados. A grande maioria dessas iniciativas é produzida por veículos independentes, organizações não-governamentais e associações de jornalismo. 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em parceria com a Transparência Internacional e da Agence Française de Développement, disponibilizou ao final de 2024 um curso gratuito sobre democracia ambiental e climática, com o objetivo de preparar para a COP. Neste ano, a Abraji disponibilizou também o curso “COP30 em pauta”, com apoio do Itaú e do site ((o))eco.  

Outras formações com o mesmo objetivo foram “COP30: o essencial para cobrir o evento”, da InfoAmazônia, “Cobertura climática e COPs: ferramentas, fontes e narrativas para jornalistas e comunicadores”, da Knight Center, e “Mudanças Climáticas: Agricultura na era da produtividade e sustentabilidade, da Embrapa e do Sebrae.

Entre os desafios da cobertura está a desinformação, que se espalha com o objetivo de manipular grupos, sustentar teorias conspiratórias, desacreditar figuras públicas ou movimentos políticos e até gerar lucro por meio de cliques. Seus impactos podem ser graves e podem influenciar percepções sobre temas cruciais, como a crise climática. Em momentos decisivos como a conferência em Belém seus efeitos tornam-se ainda mais perigosos, exigindo que jornalistas redobrem a atenção diante das redes. Pensando nisso, a Agência France-Presse (AFP), promove atualmente um treinamento online sobre desinformação climática para jornalistas com apoio da Embaixada da França no Brasil.

Além de formações online, iniciativas presenciais especializadas também vêm ocorrendo neste ano, como as Formações para Comunicadores Populares das Baixadas de Belém, pelo Na Cuia e o Fundo Casa Socioambiental. 

Com seminários, o Instituto Clima e Sociedade; o Observatório da Imprensa, a Associação Brasileira de Imprensa e Federação das Indústrias do Estado do Pará também realizaram ações para jornalistas. 

O Pulitzer Center abriu uma chamada especial no início de 2025 para propostas de subsídios voltadas à cobertura da COP30. Jornalistas, editores e veículos de mídia independentes puderam enviar projetos que abordem temas ambientais considerados essenciais para a conferência.

A Associação de Jornalismo Digital, em parceria com a InfoAmazonia e com o Instituto Serrapilheira lançou em maio o edital “Sala Colaborativa: Construção de Coberturas Socioambientais no ano da COP no Brasil”, projeto para produção de pautas e produção jornalística sobre questões socioambientais, focados nos estados da Amazônia Legal.

Outra iniciativa é a “Central Belém: Clima com a Natureza na COP30”, criada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com Nature4Climate, The Nature Conservancy Brasil e o PNUMA, que busca apoiar e conectar jornalistas na sua cobertura do evento. O projeto oferece suporte editorial, acesso a especialistas e fontes locais, além de oficinas, webinars e visitas de campo. A proposta é fortalecer narrativas que deem visibilidade a vozes diversas e ampliem a compreensão global sobre o papel da Amazônia nas soluções climáticas.

Ações para o público 

Além de formações para comunicadores, organizações e universidades planejaram iniciativas voltadas para todos os interessados no evento, com diferentes enfoques pelo Brasil. O Fundo Casa Socioambiental e a Rede Comuá lançaram a publicação “Rumo à COP 30”, guia voltado especialmente para comunidades locais, povos tradicionais, periferias urbanas periféricas, comunicadores, jornalistas, educadores populares e o público em geral.

O Observatório do Clima, com o projeto nacional Estação Central da COP, convidou a criação de espaços de informação e formação para grupos diversos (escolas, comunidades, coletivos, etc.) sobre a Conferência através de materiais e orientações disponibilizadas.

Além disso, ao longo de 2025 ocorrem iniciativas de universidades, como o podcast “Vozes do Clima” do PET Educom Clima da UFSM, e o “De olho na COP”, do Observatório de Jornalismo Ambiental do Grupo de Pesquisa em Jornalismo (CNPq/UFRGS), também em parceria com o PET Educom Clima. Esses dois projetos procuram, através do jornalismo e da extensão universitária, aproximar a comunidade dos debates e discussões que acontecerão na COP-30, e que perpassam a sua realização.

Dentre a parcela de iniciativas mencionada, percebe-se a valorização do jornalismo independente, de veículos e organizações comunitárias, locais e especializadas em comunicação engajada com a causa ambiental. É possível notar, também, preocupação com uma cobertura qualificada, aprofundada e consciente da COP-30. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Imprensa brasileira ignora os nexos internacionais que antecedem a COP 30

Por Eutalita Bezerra*

A Assembleia Geral da ONU, realizada de 23 a 29 de setembro, em Nova York, já mereceu atenção neste observatório. Na publicação veiculada no último dia 26, Luciano Velleda discutiu a abordagem do jornalismo sobre o discurso do presidente brasileiro durante o referido evento. Considerando a importância da assembleia e o fato de que esta precede a realização da conferência das partes, a COP 30, que será realizada no Brasil em novembro, retornamos aos veículos de imprensa a fim de entender o que, além da fala de Lula, foi notícia, naquele contexto.

Pesquisa realizada na ferramenta de busca do Google utilizando como palavras-chave “Assembleia Geral da ONU” e “COP 30” na aba de notícias retornou 62 publicações, das quais foram selecionadas apenas aquelas veiculadas durante o evento.

Em 23 de setembro, o site de Carta Capital destacou a conversa entre Lula e a Presidenta do Peru, Dina Boluarte, que aconteceu à margem da Assembleia. De acordo com a publicação, citando o Planalto, Boluarte teria confirmado a presença na COP-30 e expressado “interesse em fortalecer a cooperação bilateral para superar alguns dos desafios que afetam a região, como a insegurança alimentar, a escassez de conexões viárias e o crime organizado”.

Na mesma data, o site do jornal paraense O Liberal divulgou o início da assembleia. Na publicação “Líderes mundiais discursam na Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque“, o veículo destaca que “a reunião acontece no momento em que a comunidade internacional se prepara para a COP 30, que será realizada em Belém, em 2025, e outros encontros multilaterais voltados a questões ambientais e humanitárias”.

Em 27 de setembro, o site da Rádio França Internacional (RFI) publicou sobre o discurso do presidente de Cabo Verde durante a Assembleia Geral da ONU: “Cabo Verde exige limite do aquecimento do planeta a 1,5 graus centígrados”. De acordo com a reportagem, Antonio Correia e Silva saudou a realização concomitante da Reunião Especial sobre o Clima, convocada pelo secretário geral, António Guterres, e pelo presidente do Brasil, Lula da Silva, em preparação para a COP 30. Ele também afirmou que “A COP de Belém representa um momento crucial para a implementação plena do Acordo de Paris e para garantir que a ambição climática se traduza em acções justas.”

Já em 29 de setembro, o site O Progresso Digital republicou material da ONU News, segundo o qual  “CEO da COP30, Ana Toni, diz que reunião na ONU reforça otimismo com evento”. Trata-se da única publicação que trouxe mais aprofundamento sobre as implicações do que foi discutido na Assembleia e a Conferência; um balanço feito pela diretora executiva da COP30. Não à toa, produzido pela própria ONU.

Em síntese, o levantamento revela que apenas quatro publicações deram atenção explícita à interlocução entre a Assembleia Geral da ONU e a COP 30. Mesmo nesses casos, o tratamento foi pontual, com exceção do material da ONU News. O quadro evidencia uma lacuna importante: a cobertura jornalística não aproveitou a oportunidade para relacionar um dos mais relevantes fóruns multilaterais do planeta à conferência que o Brasil sediará em 2025.

A baixa conexão entre os dois eventos mostra como a imprensa brasileira ainda prioriza discursos individuais, em especial o do presidente da República, em detrimento da construção de narrativas que permitam ao público compreender os nexos diplomáticos e ambientais mais amplos. Esse recorte reforça a necessidade de um jornalismo ambiental atento aos processos internacionais, capaz de iluminar os caminhos que conduzem à COP 30 e de situar a sociedade brasileira diante da centralidade do país nas negociações climáticas globais.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As exclamações e os silêncios de Lula na ONU

Por Luciano Velleda*

O esperado discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (23), teve pouco mais de 18 minutos, tempo que se mostrou suficiente para o mandatário brasileiro dar recado sobre alguns dos assuntos mais urgentes na conjuntura política mundial.

Lula defendeu a democracia e o multilateralismo, criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão política e econômica, definiu como genocídio o massacre em Gaza perpetrado por Israel, abordou a guerra entre Ucrânia e Rússia, e ainda defendeu a Justiça brasileira e a legalidade do julgamento que condenou a 27 anos de prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre tantos temas quentes da geopolítica atual, menos de três minutos do discurso foram dedicados à crise climática. E foram, ao fim, três minutos que ocuparam as manchetes de alguns veículos de imprensa do Brasil, escolhidos para essa análise por sua posição de destaque e tradição no jornalismo brasileiro. Em comum entre eles, o destaque de que a COP 30, em Belém, será a “COP da verdade”, a COP para os líderes mundiais mostrarem seu compromisso com o planeta.

O G1, por exemplo, intitulou: “Na ONU, Lula chama conferência do clima no Brasil de ‘COP da verdade’ e reforça importância de presença de líderes mundiais”. A Folha S.Paulo disse: “União Europeia atrasa meta climática, e Lula cobra países em discurso na ONU”. O jornal Valor decidiu pela manchete: “COP30 será momento para líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula na ONU”, quase igual muito ao destaque da Band Jornalismo: “COP 30 será momento de líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula”.

O Correio Brasiliense optou pela manchete: “Lula cobra ação climática e defende reforma global em discurso na ONU”, enquanto a Exame escolheu uma frase emblemática do discurso do presidente brasileiro: “Lula na Assembleia da ONU: ‘Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática’”.

Ao longo dos textos, os veículos repercutiram os três minutos ambientalistas do discurso na ONU, como a ênfase de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, a redução do desmatamento ilegal na Amazônia brasileira, o anúncio do lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende remunerar os países que mantêm suas florestas em pé, assim como a forte crítica feita aos países que ainda não apresentaram suas novas metas de redução de emissões de gases causadores do aquecimento global, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs).

“Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas [as NDCs], caminharemos de olhos vendados para o abismo”, declarou Lula, uma das frases de efeito destacadas pela imprensa. Os desafios enfrentados pelas nações em desenvolvimento devido a mudança do clima enquanto os países ricos “usufruem de padrão de vida obtido às custas de 200 anos de emissões” foi outra frase do presidente que repercutiu.

Um olhar mais crítico ao discurso veio de dois veículos jornalísticos especializados em meio ambiente, ambos dando voz a análise feita pelo Observatório do Clima, entidade que reúne 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais.

O site(o) eco trouxe para sua manchete uma contradição de Lula ao dizer: “Fim dos combustíveis fósseis fica de fora do discurso de Lula na ONU”. O veículo ressaltou que,  para organizações brasileiras, “o pronunciamento foi correto, mas nada mais do que isso”.

Repercutindo a nota oficial do Observatório do Clima, (o) eco ponderou que a “fala de Lula foi apenas ‘correta’, mas previsível, já que o líder brasileiro tinha na pauta muitas outras questões, como a defesa da soberania nacional e o tarifaço americano, regulação das plataformas digitais, conflitos armados e crise no multilateralismo”.

O veículo ainda destacou o trecho final da nota do Observatório do Clima, a qual diz: “Quem estava esperando um discurso do grande líder climático do Sul Global que arrancou aplausos do mundo em 2022 na COP 27, no Egito, pode ter se frustrado: a fala de Lula não foi a de um anfitrião de uma conferência do clima decisiva para garantir um futuro seguro para a humanidade”.

O mesmo trecho também foi enfatizado pelo site climainfo, entretanto, reproduzindo o parágrafo completo da nota do Observatório do Clima, que finaliza assim: “Porém, o mundo e o Brasil de 2025 tampouco são os de novembro de 2022. A COP30 precisará triunfar num ambiente político e geopolítico muito desfavorável, e esse climão fica evidente em tudo que Lula disse e principalmente no que não disse”.

Segundo a análise proposta pelo Observatório do Clima, a COP30, em Belém, poderá ficar marcada mais pelo silêncio ensurdecedor da omissão diante da crise climática, do que pelas afirmações de quem tem a obrigação de agir. Enquanto isso, os eventos extremos da natureza ocorrem no mundo todo cada vez mais frequentes, cada vez mais intensos.

*Luciano M. Velleda é jornalista, sócio do Sul21 e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Um olho no peixe da camada de ozônio, outro no gato da crise climática

Imagem de satélite da terra à noite. Fonte: Joshua Stevens / NASA / Miguel Román / Goddard Flight Center

Por Cláudia Herte de Moraes *

A cobertura jornalística sobre a recuperação da camada de ozônio em 16 de setembro, embora positiva e informativa, ainda carece de uma contextualização que conecte o tema de forma aprofundada às mudanças globais e à noção de limites planetários. Nas notícias do Dia Internacional para Preservação da Camada de Ozônio, a informação divulgada pelo Relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostra que a região da estratosfera atingiu os seus melhores níveis em décadas.

 Ao observar as notícias, o ponto fraco foi a falta de explicação sobre o fato de que a camada de ozônio é apenas um dos limites que a humanidade está conseguindo reverter. Entre os nove limites planetários, seis foram ultrapassados, como a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, mudanças no uso do solo (especialmente por desmatamento e urbanização), fluxos bioquímicos (contaminação por fósforo e nitrogênio devido ao uso excessivo de fertilizantes), novas entidades (por exemplo, microplásticos) e uso de água doce (já em níveis críticos). A acidificação dos oceanos é um dos limites próximos da violação e somente dois são considerados seguros: além do ozônio estratosférico, está a carga de aerossóis.

Print de tela na busca das principais notícias sobre o tema (17 de set. 2025) Fonte: Autora

A contextualização importa para que o leitor entenda que o enfrentamento à crise ambiental é interconectado; são limites interdependentes. No caso do G1, a matéria indica o avanço de forma celebrativa, com uso das fontes oficiais, sem fazer essa conexão com outros limites planetários de alto risco. 

A abordagem fragmentada em notícias pode gerar uma percepção equivocada de que “o meio ambiente está sendo consertado”, diminuindo a urgência de ações em outras frentes. O jornalismo, neste caso, perde a oportunidade de exercer sua função educativa, sem trazer as conexões entre causas e consequências de forma abrangente. 

Outro ponto de atenção no trabalho jornalístico é que as fontes oficiais são essenciais, como a ONU e os dados científicos, porém é preciso lembrar das populações que podem ser atingidas ou que já sofreram com os efeitos de impactos ambientais noticiados. Por exemplo, seria o caso de trazer à memória do público o que a luta contra a destruição da camada de ozônio mobilizou milhares de cientistas, ativistas, movimentos socioambientais de décadas atrás e que, por conta dessa pressão, os acordos foram efetivados. Um texto bem posicionado neste sentido foi da Deutsche Welle, publicado no portal Terra: A história de sucesso da recuperação da camada de ozônio.

Aproximar esse tema do leitor é uma indicação importante para que as pessoas percebam a relevância dos fatos em seu cotidiano. A menção, por exemplo, sobre como a recuperação da camada de ozônio impacta as taxas de câncer de pele no Brasil foi lembrada, mas outras questões que afligem nosso país poderiam ser destacadas. Por que não usar esse exemplo de cooperação global para inspirar as soluções locais, mostrando como a agricultura pode se organizar para secas ou enchentes? 

Por fim, a cobertura peca ao olhar apenas para o passado, celebrando o sucesso do Protocolo de Montreal. Porém, ao pensarmos sob o princípio da precaução, que orienta o jornalismo a olhar para o futuro e alertar sobre novos riscos, a conquista histórica pode ser um importante alerta: quais as novas substâncias químicas não regulamentadas podem ameaçar a atmosfera? Como os substitutos dos CFCs (os HFCs) impactam o aquecimento global? Como observar as conexões entre os limites planetários que ainda necessitam de cuidado, regulamentação, regeneração? Celebrar o passado não pode ofuscar a necessidade de vigilância para o futuro.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática.
E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Guaíba: mineração de areia, riscos ambientais e a cobertura da imprensa

Por Gabriella de Barros*

Após mais de uma década de disputas judiciais e paralisação, o governo do Rio Grande do Sul projeta liberar até dezembro de 2025 a mineração de areia no Guaíba. A medida é baseada em um zoneamento ambiental elaborado pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), em cumprimento a decisões judiciais que exigiram regras específicas para a atividade. O movimento busca encerrar um impasse que se arrasta desde 2013, mas levanta dúvidas sobre governança, transparência e os limites de exploração de um corpo hídrico sensível e estratégico.

O Guaíba é ecologicamente complexo. Independentemente da definição geográfica, rio, lago ou estuário, a região abriga ecossistemas interdependentes, fundamentais para biodiversidade, abastecimento humano e regulação hídrica. Alterações no leito por dragagens ou extrações de areia podem gerar efeitos em cascata: erosão em margens urbanas, mudanças nas correntes, assoreamento e impactos diretos sobre captações de água potável. Diante das enchentes históricas de 2024, que já evidenciaram a vulnerabilidade climática do sistema, a retomada da mineração sem estudos robustos de cenários futuros soa precipitada.

O zoneamento em consulta pública foi anunciado como resposta a essas preocupações, mas apresenta inconsistências importantes. Entidades como a Fundação Curicaca identificaram fragilidades metodológicas: ausência de detalhamento de pesquisas socioeconômicas, falta de integração entre estudos temáticos e carência de sobreposição das áreas mais sensíveis à mineração. Em vez de indicar claramente zonas de exclusão, o documento delega ao licenciamento caso a caso decisões que deveriam ser tomadas de forma estratégica. O resultado é um instrumento que mais abre brechas do que estabelece salvaguardas ambientais.

Na cobertura da imprensa, portais como Sul21 e GZH destacaram sobretudo o cronograma do governo e os possíveis efeitos econômicos da liberação. O G1 trouxe análises visuais sobre bancos de areia formados após as enchentes, explicados por pesquisadores da UFRGS. Embora esses materiais informem o leitor sobre a conjuntura, raramente incluem fontes destoantes da narrativa governamental, como a própria Curicaca, a Assema (Associação dos Servidores da Secretaria Estadual do Meio Ambiente) ou a Asfepam (Associação dos Servidores da Fepam). Essas vozes têm alertado há anos para os limites técnicos da mineração, a defasagem tecnológica do setor e os riscos de comprometer áreas de extrema sensibilidade ambiental. Ao não ouvi-las, a cobertura reduz a pluralidade do debate e fortalece uma visão de que a retomada é um processo inevitável.

A mineração de areia no Guaíba não é apenas uma questão de desenvolvimento econômico, é um tema que envolve segurança hídrica, justiça socioambiental e adaptação climática. A liberação da atividade, diante de estudos frágeis e pressões políticas, pode se configurar como um equívoco grave. Mais do que nunca, é necessário que a imprensa cumpra seu papel crítico, abrindo espaço para as vozes que destoam do discurso oficial e dando centralidade à ciência independente e às comunidades impactadas.

Referências:

Sul21. Zoneamento ambiental deve permitir mineração de areia no Guaíba após nove anos de suspensão. Publicado em 9 set. 2025. Disponível em: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2025/09/zoneamento-ambiental-deve-permitir-mineracao-de-areia-no-guaiba-apos-nove-anos-de-suspensao/.

GZH. Governo do RS planeja liberar mineração de areia do Guaíba até dezembro, após 12 anos de disputa judicial. Publicado em 27 ago. 2025. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2025/08/governo-do-rs-planeja-liberar-mineracao-de-areia-do-guaiba-ate-dezembro-apos-12-anos-de-disputa-judicial-cmex4yq6d01cf01e99k25r2b3.html.

G1 RS. “Ilhas se formam, ilhas são destruídas”, diz pesquisador sobre banco de areia formado no Guaíba após enchente no RS. Publicado em 25 jul. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2024/07/25/ilhas-se-formam-ilhas-sao-destruidas-diz-pesquisador-sobre-banco-de-areia-formado-no-guaiba-apos-enchente-no-rs-veja-imagens.ghtml.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integra o Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

“Liberar desinformação pode ter consequências diretas na segurança das pessoas”, afirma especialista

Roda Viva/Reprodução

Por Valéria Baptista*

Jaqueline Sordi é bióloga e jornalista especializada em pautas ambientais. Doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também Especialista em Sustentabilidade pela Universidade da Califórnia (UCLA). Publica em veículos nacionais e internacionais como Sumaúma, Agência Lupa, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Mongabay e Skeptical Science.

Em 2020, recebeu financiamento do Google News Initiative para desenvolver o projeto Lupa na Ciência, focado no combate à desinformação sobre a covid-19. O projeto se tornou referência no país durante a pandemia. Em 2021, foi um dos cinco profissionais de comunicação indicados para o Prêmio Comunique-se na categoria Sustentabilidade, considerado o “Oscar” do jornalismo no Brasil. Em 2023, foi uma das três brasileiras vencedoras do programa Disarming Disinformation, do International Center For Journalists (ICFJ), focado no combate à desinformação científica e ambiental.

Em 2024, teve uma de suas reportagens publicadas em Sumaúma premiada pelo Digital Media Americas Awards. Atualmente é gerente de engajamento do Greenpeace no projeto COP-30.

Nesta entrevista, concedida no âmbito da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, Sordi destaca as implicações da desinformação climática e maneiras de combatê-la.

Valéria Baptista (VB) – Segundo pesquisa do DataFolha divulgada em 1º/05/2025, a parcela de brasileiros que nega os riscos das mudanças climáticas aumentou nos últimos meses. A pesquisa informa que o índice passou de 5% em junho de 2024 para 9% em abril de 2025. O número já havia subido para 7% em outubro de 2024, sinalizando uma tendência de alta entre os que minimizam as ameaças do aquecimento global. Os dados mostram, contudo, que a maioria da população ainda considera as mudanças climáticas um risco real:  53% dos entrevistados afirmam que o perigo é imediato, outros 35% dizem que os impactos afetarão as próximas gerações, somando 88% de percepção de risco – patamar inferior aos 94% registrados em junho e aos 92% de outubro do ano passado. Sobre a percepção pública da crise climática, pode-se dizer que as pessoas estão abertas para a informação climática e dispostas a cooperar no enfrentamento da crise?

Jaqueline Sordi (JS) – Eu entendo que sim, porque – nos últimos anos – as pessoas estão sofrendo tão diretamente as consequências da crise climática que acabam se tornando mais abertas para receber informações e para internalizar que a crise climática realmente existe. Elas estão cada vez mais abertas para as informações sobre o assunto, principalmente porque isso afeta diretamente a vida delas; no entanto, por se tratar de um tema tão difícil e complexo, tão cheio de dúvidas e de medos, também abre um caminho muito fértil para a desinformação climática. Uma das estratégias da desinformação é exatamente trazer soluções fáceis e respostas absolutas para questões complexas como a crise climática. Em um momento em que as pessoas estão mobilizadas, em que a emoção fala mais alto que a razão, elas acabam buscando essas estratégias como uma forma de conforto. E ao mesmo tempo que as pessoas estão no momento atual mais abertas à informação, estão também mais suscetíveis à desinformação.

VB – A desinformação climática vai na contramão da educação ambiental provocando um desserviço à causa ambiental, já que consegue muitas vezes ter um efeito danoso junto à opinião pública. Qual o papel da educação ambiental no combate à desinformação climática?

JS – A educação ambiental tem um papel fundamental. A gente precisa ter uma base conceitual sobre meio ambiente, sobre a natureza e sobre a nossa relação com a natureza muito bem estabelecida e internalizada para não ficar vulnerável aos discursos falsos, aos discursos de negação. E essa base só é possível pela educação primária, ou seja, desde a infância. A gente vê nas gerações que cresceram distantes da natureza e cada vez mais nas que estão crescendo as consequências disso, que é exatamente essa vulnerabilidade de acreditar nessas narrativas. E isso é muito pela deficiência dessa conexão com a natureza, não só com a ciência da natureza, mas também com a conexão física da natureza. De entender que fazemos parte de algo maior. As nossas gerações cresceram muito com a ideia de humanos de um lado e natureza do outro como sendo coisas diferentes e separadas. E essa ideia já não se sustenta mais, porque já sabemos que o mundo não funciona dessa forma. Essa deficiência nesta percepção acaba nos deixando vulneráveis. Eu entendo que a educação ambiental trabalhada na forma de reaproximar desde a infância e acabar com a construção da ideia de homem e natureza como algo separado é fundamental para não nos deixar mais vulneráveis a essas narrativas.

VB – Uma pesquisa da Broadminded realizada ao longo do mês de janeiro de 2025 entrevistou pessoas de seis países da América Latina sobre a Meta e o uso de suas redes sociais. Um dos tópicos foi a mudança na política de moderação de conteúdo e o fim do programa de checagem da empresa. Nesta pesquisa, 77% dos brasileiros discordam que disseminar notícias falsas seja “direito democrático”. Os brasileiros foram os que mais rejeitaram a mudança, com 41% discordando dela por acreditarem que a medida pode favorecer a disseminação de notícias falsas e discurso de ódio. Outros 34% disseram concordar por se tratar de liberdade de expressão. Os que concordam que remover iniciativas de checagem de fatos das plataformas de social media representa uma ameaça direta à democracia somam 54%. Diante disso, quais são as consequências da desinformação para a sociedade em geral?

JS –Asconsequências da desinformação são extremamente danosas. Liberar discursos de ódio sob o argumento da liberdade de expressão pode ter consequências diretas na segurança das pessoas. E liberar desinformação também. Eu entendo que, sobre essas medidas, é preciso ter um debate mais aprofundado sobre a moderação das redes, porque estamos entrando em um universo completamente novo. Antigamente a informação era passada de um para muitos, de poucos para muitos, e esses poucos trabalhavam com uma base de um processo de curadoria, de checagem de informação. Mas hoje em dia isso não existe mais. Só que essa nova realidade nos foi imposta sem que houvesse uma reflexão sobre ela. E hoje estamos vendo as consequências disso. Então, o ideal seria: parar tudo, dar um passo atrás e ver que potencial dano pode causar e, dessa forma, minimizar. Eu defendo a ideia de lugares de checagem, de restrição de publicações desde que não sejam vinculados a um viés político, mas sim científico.

VB – As redes sociais são um terreno fértil para a propagação de desinformação devido ao fácil acesso e ao grande número de pessoas conectadas. Como combater a desinformação climática neste contexto?

JS – Temos uma frente maior, que é a de combater a raiz do problema, que está dentro de grandes estratégias de desinformação oriundas de grandes empresas com interesses outros nessas narrativas, ou seja, interesses de manter o status quo. Um exemplo é a indústria do petróleo que, para manter o lucro, nega as consequências desse modelo de produção. Nós temos um trabalho maior que é o de mudar esse espectro mais complicado próprio da indústria. Mas também temos estratégias que cada um pode aplicar e exercer para evitar esse tipo de situação, entre as quais está em saber identificar uma notícia falsa, cuidar antes de circular, sempre desconfiar de informações que vêm com verdades absolutas, soluções mágicas ou certezas que contrariam o senso comum por mais atrativas que sejam. E também em situações de vulnerabilidade em que o emocional acaba falando mais alto que o racional, por exemplo, quando houve a enchente no RS. É aconselhável ter isso em mente para manter o racional sempre atento e não se deixar levar por essas narrativas que são muito atrativas nesses momentos.

VB – Devido às últimas chuvas intensas ocorridas no mês de junho no RS, alguns políticos levantaram a discussão de que a formação de bancos de areia no rio Guaíba agravaria as enchentes, sendo necessário fazer o desassoreamento do rio. No entanto, especialistas rebatem essa teoria dizendo que os bancos de areia são um tipo de formação geológica que ocorre devido a um processo natural de sedimentação e que a dragagem do rio Guaíba seria desnecessária. O que separa a desinformação climática de um ponto de vista distinto sobre uma questão como essa, por exemplo?

JS – Temos que pensar que a questão traz um ponto de vista político e um ponto de vista científico. A política não tem o papel de assumir o lugar da ciência. Os políticos têm que ouvir a ciência e, a partir do que a ciência diz, tomar as decisões. É claro que a ciência quase nunca traz certezas absolutas, pois ela é feita de consensos, é feita de maiorias que levam para um mesmo caminho. Então, o papel político é sempre ouvir e tentar entender quais são os consensos e como agir a partir daí. Discordâncias sempre vão haver. Para que as melhores iniciativas sejam tomadas, as iniciativas mais corretas ou menos danosas, temos que entender que a ciência não é feita de certezas absolutas, lembrando que em diversos casos dentro da própria ciência vamos ouvir opiniões divergentes. Em propostas do âmbito político as tomadas de decisões têm mais chances de acerto quando há espaço para discussão científica. Acredito que falta um pouco dessa capacidade que a gente perdeu de dialogar, de discutir, de entender diferentes pontos, de entender o que é ciência e o que não é, e quais são as limitações da própria ciência.

VB – Nesta questão fiquei pensando no público em geral que fica na dúvida sobre qual lado tem razão. Mas aí entra o papel da escola, não é mesmo?

JS – Talvez não precise abrir tanto essas divergências, mas sim mostrar o que é consenso ou quais são os caminhos possíveis. Isso precisa ficar claro que foi feito a partir de discussões científicas. Mas, é claro, entra o papel da escola, dos veículos de comunicação e da própria política.

VB – O homem se afastou da natureza especialmente a partir da Revolução Industrial e da intensificação da urbanização. O que o homem contemporâneo precisa mudar na sua relação com a natureza, em tempos de crise climática, de maneira que seja possível construir uma sociedade consciente, colaborativa e crítica com relação às questões ambientais?

JS –O homem precisa voltar a ouvir quem nunca se afastou da concepção de que homem e natureza são uma coisa só. Temos aí milhares de pessoas, povos indígenas, comunidades tradicionais que há milênios vivem em harmonia com a natureza. Não se afastaram desse conceito e, por isso, são exemplos de como viver sem destruir. O nosso modelo de sociedade já se mostrou insustentável, e a gente precisa aprender a escutar quem ainda vive num modelo de vida sustentável. E quem tem a resposta para essa pergunta são esses povos.

VB – Em uma de suas matérias, você cita as falsas dicotomias como uma das cinco estratégias usadas para manipular e confundir a opinião pública. Como exemplo disso, grupos de interesse econômico divulgam a falsa ideia de que desenvolvimento e preservação estão em lados opostos. Poderia falar sobre essa falsa dicotomia e apontar quais interesses estariam por trás desse tipo de desinformação climática?

JS – A gente tem a ideia de que o modelo de sociedade ocidental no qual vivemos representa desenvolvimento, mas, na verdade, ele representa um modelo de exploração insustentável com relação aos recursos que a gente tem. Na verdade, a gente nem deveria chamar de recursos. Eu usei esse termo para que fique mais fácil de entender. Não são recursos, e sim elementos naturais. A gente associa a ideia de desenvolvimento a esse nosso modelo, mas hoje em dia já se sabe que esse modelo não representa necessariamente desenvolvimento, porque é um modelo insustentável. As grandes indústrias que se sustentam  a partir desse modelo seguem alimentando essa narrativa para continuar lucrando e manter o status quo. E essa é a falsa dicotomia. A gente pode entender que desenvolvimento está muito mais ligado a estabelecer uma relação com o meio ambiente sem destruí-lo, que, no final das contas, é uma relação muito mais complexa, mais tecnológica e muito mais intensa e profunda do que esse modelo de chegar a um local, explorar, retirar recursos e ir embora. Essa falsa dicotomia está também relacionada muito com a apropriação da ideia de um desenvolvimento que não condiz mais com a realidade.

VB – A educação para a cidadania já se comprovou um processo lento na sociedade brasileira devido principalmente ao baixo investimento em políticas públicas por parte dos governos. Não dá para esperar que a sociedade atinja a maturidade nesse aspecto, ou seja, é preciso agir rápido com medidas de mitigação no que se refere à emissão de gases de efeito estufa, já que eventos extremos estão acontecendo com muita frequência. Como podemos ter esperança de que a sociedade capitalista vai se engajar na luta para salvar o planeta, a própria vida e a das gerações futuras?

JS – Acredito que temos que trabalhar com três frentes: uma a curto prazo, outra a médio e outra a longo prazo. A frente a curto prazo seria pensar em medidas que estão inseridas na lógica atual para tentar mitigar e adiar, porque a gente precisa reduzir as emissões. A gente não vai conseguir mudar esse sistema econômico nem tampouco reeducar o homem na sua relação com a natureza agora. Então temos essa dicotomia e precisamos trabalhar dentro da própria lógica para implementar ações de redução – seja por meio da própria tecnologia de captura de carbono, seja por investimento em energia renovável, seguindo o modelo de produção, só que dentro da energia renovável. E aí pensar a médio prazo em políticas públicas que ajudem nesse sentido, políticas tanto de educação como de redução de desmatamento, de taxação para poluentes entre outras; e medidas a longo prazo, sendo a principal delas a que está dentro dessa questão mais profunda da educação, a de educar pela escola, pelos sistemas de educação, retrabalhando a questão ambiental a partir de uma nova perspectiva que não separa o homem da natureza. O desafio tem que ser encarado nessas três frentes, senão fica impossível mesmo, já que não dá tempo de a gente mudar o modelo de sistema econômico atual para resolver a crise climática, porque quando a gente conseguir fazer isso o planeta já terá acabado.

*Revisora de Textos da UFRGS. Cursou a disciplina Jornalismo e Meio Ambiente em 2025/1, quando produziu essa  entrevista sob orientação da professora Eloisa Loose.

O eco de fatos ambientais diante do Princípio da Precaução

Por Heverton Lacerda*

O deserto de notícias sobre pautas ambientais nesta semana nos portais dos principais jornais do Brasil me chamou a atenção. A percepção foi ampliada a partir da ciência de que há pautas ambientais importantes a serem noticiadas e analisadas. Um exemplo é a decisão judicial que, por precaução, suspendeu as atividades de uma usina termelétrica e uma mina de carvão em Candiota (RS) por falta de atenção aos planos climáticos do Estado gaúcho e da União. A notícia ficou circunscrita, basicamente, ao âmbito de alguns portais gaúchos de notícias, os chamados alternativos, e na RBS TV de Bagé, emissora da rede RBS (afiliada à Globo) que cobre a região onde fica a mina, na cidade de Candiota. Trata-se de uma ação civil pública que cobra a responsabilidade da União, do Estado e de órgãos públicos, a exemplo do Ibama, para que as mudanças climáticas não fiquem ainda mais graves. A notícia da RBS TV, segundo conversa que tive com a repórter que fechou a pauta, apresentou as demandas da ação e entrevistou representantes dos réus. 

A partir dessa percepção, fui pesquisar no portal O Eco, um veículo de imprensa especializado em pautas sobre o meio ambiente, para me certificar dessa impressão sobre a falta de notícias. Não foi surpresa constatar a existência de uma série de matérias e reportagens importantes. 

É compreensível e de amplo conhecimento no campo do jornalismo, que, por diversos aspectos e circunstâncias, há a necessidade de priorizar pautas. No entanto, aponto aqui duas observações. A primeira é que pautas como Nem Taís Araujo nem o público estão felizes com a mudança dos rumos de Raquel em ‘Vale Tudo’, publicada pela Folha de São Paulo, e Grêmio anuncia a contratação de Arthur: “Eu bati o pé pra voltar. É minha casa! Minhas raízes!”, do portal GZH (Rádio Gaúcha e Zero Hora), encontram facilmente espaços nesses veículos hegemônicos, enquanto temas ambientais, a exemplo dos citados acima, ficam de fora. O jornalismo tem produzido cada vez mais entretenimento, que é uma produção “leve”, que gera audiência, no lugar de promover o debate de assuntos de interesse público.  

A segunda observação é que o Princípio da Precaução ainda não está devidamente assimilado pelo jornalismo geral, visto que, em boa parte, continua-se priorizando notícias de tragédias ambientais para ecoar o tema meio ambiente. Espera-se que o risco se torne desastre para, então, tratar das decisões equivocadas e que beneficiam apenas grupos econômicos, prejudicando a compreensão de que o meio ambiente está em tudo, inclusive em nós, o tempo todo.

Pressuposto teórico do jornalismo ambiental, o Princípio da Precaução é um conceito que orienta para a tomada de decisões em situações onde há incerteza científica sobre riscos de um dano, especialmente no contexto ambiental. Ele pode servir de base para decisões sobre pautar notícias ambientais que não sejam necessariamente tragédias. A ideia central é exatamente a intenção de tentar evitar que tragédias aconteçam. O jornalismo tem condições de fazer isso, e estará realizando um papel extraordinário, se atentar para esse princípio.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).
E-mail: heverton.lacerda@ufrgs.br

Visibilidade indígena na COP-30: entre a luta por protagonismo e silenciamentos recentes

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

A COP-30 que ocorrerá em Belém (PA), no Brasil, em novembro de 2025, tem como um de seus objetivos correlatos ser mais inclusiva e participativa. Acredita-se que a pressão que os grupos sociais e populações marginalizadas com interesse direto no tema influencie as negociações de leis e políticas internacionais para combater o aquecimento global e alcançar metas climáticas. Em carta, André Corrêa do Lago, presidente da COP-30, coloca as pessoas como centro do debate sobre o clima, o que põe em evidência a importância da participação de diferentes representações. 

A organização do evento vem realizando esforços para viabilizar a maior participação das comunidades indígenas. Em agosto, alguns movimentos foram observados em três frentes. Primeiro, a organização oficial anunciou o calendário de dias temáticos para debates alinhados à Agenda de Ação, com o intuito de envolver a sociedade e interessados na proposição de soluções reais para o clima – haverá um período especial para destaque aos povos indígenas (17-18 de novembro). Ainda, no segundo movimento, a presidência da COP-30 ressaltou que “as comunidades tradicionais são as mais vulneráveis aos efeitos da crise climática e que por essa razão precisam ocupar o protagonismo nas discussões da agenda de resposta às mudanças do clima”. Por fim, a própria assessoria de imprensa da COP-30 intensificou a comunicação sobre as vias de acesso à participação  dos povos indígenas — mas não só —, demonstrando uma tentativa de mudança contundente na narrativa da conferência ao buscar posicionar estes atores como agentes fundamentais da transformação necessária para a mitigação e adaptação das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. Portanto, cabe uma indagação situada sobre como os meios de comunicação estão dando visibilidade a esses movimentos. 

No veículo O Globo, percebe-se que, apesar de o site contar com seção específica chamada “COP30 Amazônia”, grande parte das notícias giram em torno das polêmicas sobre os altos custos de hospedagem em Belém (PA). Em maio, consta uma única notícia sobre as vivências indígenas e ribeirinhas na crise climática que serão levadas ao evento por representantes de organizações destes povos. 

Em outros veículos locais, como Pará Terra Boa, a ênfase da cobertura centra-se, sobretudo, em notícias de cunho internacional sobre a conferência, pouco situada na participação de comunidades locais, como indígenas e ribeirinhas. Além disso, quando cita a participação de famílias agricultoras, por exemplo, é comum que a notícia enfatize outras atividades de abastecimento e menos a atuação política-social destas populações. 

Portanto, é visível que a COP-30 e sua organização precisam inserir no debate lideranças de movimentos que representam comunidades presentes nos diferentes territórios. Mais do que isso, trazer estas pessoas para o centro da discussão também na cobertura midiática é essencial para dar visibilidade a decisões que guiarão o futuro do nosso planeta. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática (ComClima) e do Grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade, ambos da UFRGS. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

A água nas torneiras, o peixe que alimenta, o rio que é parente

Gustavo Lima/Arquivo Pessoal/Observatório de Jornalismo Ambiental

Por Patrícia Kolling*

Uma matéria publicada na Folha de S. Paulo relata que os níveis dos reservatórios de água em São Paulo estão abaixo dos registrados na crise hídrica de 2015. O texto traz dezenas de números para mostrar que o quadro é mais grave do que há 10 anos, quando a região viveu a maior crise hídrica de sua história. Os níveis dos mananciais estão caindo desde 2023 e a previsão é de que o mês de agosto será mais seco que o normal. O texto informa que “as chuvas só devem voltar com força suficiente para recuperar os reservatórios no fim de setembro, quando iniciar a primavera, a tendência é que o nível atual continue a baixar diariamente”.

Apesar das empresas responsáveis pelo abastecimento da região metropolitana de São Paulo dizerem não acreditar em uma nova crise hídrica, devido aos investimentos em infraestrutura de abastecimento, a situação exige preocupação, pois especialistas alertam que os últimos anos têm sido muito secos, e que entre as causas estão as mudanças climáticas e o desmatamento.

Quando se fala em desmatamento, é preciso dizer que ele acontece bem longe de São Paulo e apesar das áreas desmatadas na Amazônia terem diminuído, os números de desmatamento no Cerrado continuam a crescer. São as raízes profundas das plantas do Cerrado que abastecem os lençóis freáticos. É na região do Cerrado que estão oito das doze bacias hidrográficas do país. “Estudo do Instituto Cerrados, em parceria com o ISPN [Instituto Sociedade, População e Natureza], aponta que 88% de 81 bacias hidrográficas do bioma já tiveram redução de vazão causada pelo desmatamento entre 1985 e 2022.”

Enquanto em São Paulo a água pode faltar novamente nas torneiras e chuveiros, a série Exlcuídos do Clima, da Folha de S. Paulo mostra que para algumas populações o problema é ainda maior. A reportagem apresenta a situação do Quilombo Águas do Miranda, em Bonito (MS), localizado às margens do rio que dá nome à comunidade.  Para as famílias, a água do rio é fonte de renda, com a prática do turismo e da pesca artesanal. Com as secas constantes e as queimadas dos últimos anos, o nível das águas dos rios diminuiu e, consequentemente, a redução na quantidade de oxigênio na água levou à mortandade de peixes. Famílias que viviam da pesca e do turismo tiveram que buscar outras fontes de renda. “Aí você vai no rio para pegar um peixe para comer, você não pega, porque não tem. Quem sabe se virar, se vira de qualquer maneira”, reflete um morador da comunidade. Apesar das dificuldades, os moradores não desejam sair do quilombo, pois ali formam uma comunidade em que todos se ajudam.  Apesar do repórter manifestar uma preocupação com a perda dos costumes culturais da comunidade, ele não explora no texto aspectos relacionais e culturais da comunidade entre si e com o rio.

Mais ao norte do país, na Terra Indígena Xipaya, do Povo Indígena Xipai, passa o rio Iriri, que é o maior de Altarmira, sudoeste do Pará. “É como parte da família. O Rio sempre foi Rio, e Xipai sempre foi Xipai. São corpos diferentes entrelaçados como um só”, escreve Wajã Xipai, no portal Sumaúma. Para falar sobre o rio, a repórter indígena foi conversar com quem muito o conhece, os anciões da aldeia.  E, como ela diz, mergulhou nele até se afundar, ou seja, se aprofundou na temática “para que quem falasse fosse o próprio Iriri”.  Ela conta que o dia a dia dos Xipai gira em torno do rio. “As famílias saem para pescar nos pedrais em frente ao porto da aldeia ou mais distante dali. Às vezes, passam a tarde inteira na beira do Rio. As mães lavam roupa ou se banham. As crianças, que na maioria já sabem nadar, brincam na água […]. Os homens saem para a pesca, e as mulheres esperam que eles voltem para preparar os peixes para a refeição da família. À noite, as famílias se juntam numa roda e contam histórias do que viram e viveram no Rio ou na mata”. Dos indígenas, ela ouviu sobre a morte dos peixes, a cor esverdeada do rio, a falta de chuvas e que o rio não enche mais como antes. Com especialistas, ela foi entender por que isso acontece. No ano passado, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico declarou situação crítica de escassez hídrica no Rio Xingu e no Rio Iriri, seu afluente.

Do sudeste ao norte do Brasil, esses três textos jornalísticos relatam, de formas diferentes, cenários da escassez de água no Brasil. Mostram, em números, em relatos e em histórias, como a falta de água impacta, de diferentes formas, a vida das pessoas, da fauna e da flora. São textos que estão em editorias e veículos diferentes, mas que se conectam não só pela temática da água, mas também pelo relato das pessoas. Sob a perspectiva do jornalismo ambiental, o ideal seria que esses três textos fossem base para um texto apenas, em que os leitores pudessem compreender as verdadeiras relações que existem entre água da torneira, as raízes do cerrado não desmatado, o peixe que é alimento, as crianças brincando no rio e a cosmovisão indígena que compreende o rio como parente. Porém, é preciso compreender que na maioria dos veículos de comunicação as práticas de produção não permitem a abrangência complexa das pautas, não oferecendo aos repórteres tempo e condições financeiras para a apuração. Mas, vale a reflexão, será que nós jornalistas já estamos preparados para de tirar as temáticas das caixinhas das editorias e conectá-las nas mais diferentes esferas da vida, como um rio se liga a seus afluentes e povos.  

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

No prato e na pauta: a importância da agricultura familiar no debate da COP-30

Crédito: Fotos Públicas

Por Jéssica Thaís Hemsing * e Cláudia Herte de Moraes**

Na reunião técnica preparatória para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30) em Bonn, na Alemanha, foi anunciada uma decisão inédita sobre a alimentação dos participantes: pela primeira vez na história, alimentos oriundos da agricultura familiar e de povos e comunidades tradicionais estarão incluídos no cardápio da cúpula. 

No evento ocorrido em junho, o Brasil comprometeu-se a utilizar, no mínimo, 30% de alimentos produzidos na região, fortalecendo produtores locais. Mais do que incentivar a economia regional, essa medida impacta diretamente o combate às mudanças climáticas, contribuindo para a redução das emissões de carbono e outros gases de efeito estufa. Isso porque as cadeias curtas de alimentos reduzem o uso de transporte, enquanto a agroecologia utiliza menos insumos fósseis.

Fica, no entanto, a questão: trata-se apenas de um “prato bonito” para a foto oficial ou de um compromisso histórico capaz de deixar legado?  

A comunidade tem se mobilizado para que não seja um gesto pontual. A Comissão de Meio Ambiente (CMA) realizou uma audiência pública no Senado para lançar o Manifesto do Cooperativismo da Agricultura Familiar para a COP 30, reunir propostas sobre justiça climática, energias renováveis e agroecologia. 

Esse é um tema que merece centralidade no debate da COP-30. O que nos leva a questionar sobre a forma como a imprensa brasileira tem abordado essa relação.

Uma das poucas repercussões surgiu na revista Veja, que destacou o  fortalecimento de práticas agrícolas que respeitam a floresta e os saberes ancestrais das populações amazônicas. Por outro lado, o jornal independente Brasil de Fato, além de falar sobre a importância da preservação ambiental, buscou entender os desafios e oportunidades para a agricultura familiar e a agroecologia na COP30. O artigo do Brasil de Fato evidenciou que, pela primeira vez, a proposta de transformação dos sistemas alimentares é um eixo da Agenda de Ação da COP.

A existência de projetos e instituições dedicados à promoção da agricultura sustentável é fundamental. Um exemplo é o projeto “Na mesa da COP”, idealizado pelos institutos Regenera e Comida do Amanhã, que acompanharão de perto a implementação dessa nova política e atuarão na mobilização por políticas públicas e práticas alimentares capazes de fortalecer a agricultura familiar mesmo após a COP.

Segundo o Regenera, a compra de alimentos para o evento pode injetar até R$ 3,3 milhões na economia da agricultura familiar da região. Além de gerar renda, a política protege a diversidade biológica e cultural, junto com povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas e agricultores familiares que, acima de tudo, mantêm práticas agrícolas sustentáveis, respeitando os ciclos naturais e preservando o meio ambiente.

Uma das funções do jornalismo é – ou deveria ser, chamar a atenção de temas importantes e relevantes para a sociedade. Como é o caso da agricultura familiar e sua relação com as mudanças climáticas. Mesmo com o anúncio de que a COP-30 contará com alimentos da agricultura familiar, esta pauta pouco repercutiu na discussão climática.

A agricultura familiar é potencialmente regeneradora e é uma forma de mitigação e adaptação climática. Isso demonstra um compromisso com os desafios socioambientais. A COP precisa pautar a soberania alimentar brasileira, e o jornalismo precisa dar a atenção devida a um debate que é central para nossa sociedade. Reportar a agricultura familiar não é apenas cobrir um evento, mas pensar que estamos diante do futuro do nosso planeta, a partir daquilo que será  semeado hoje na Amazônia.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima (UFSM), E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br.

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Vetos, brechas e petróleo: o olhar da imprensa sobre o licenciamento ambiental

Por Eutalita Bezerra*

Nas duas últimas semanas, neste observatório, as análises versaram em torno do chamado PL da Devastação, o Projeto de Lei que dispõe sobre o Licenciamento Ambiental no Brasil e que já tramitava há mais de 20 anos. A temática foi explorada inicialmente por Isabelle Rieger e Ilza Maria Tourinho Girardi em publicação que abordou os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do referido projeto.

Em texto mais recente, Débora Gallas abordou a cobertura sobre a demanda para que o presidente Lula vetasse todo o projeto. Na ocasião, avaliou se que a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto, destacando a presença do assunto em veículos de imprensa de renome. Ocorre que, na última sexta (8), último dia do prazo, Lula sancionou o projeto com 63 vetos. Deste modo, entendemos a necessidade de retomar o assunto neste observatório, agora, com a finalidade de avaliar de que maneira se deu a cobertura da decisão presidencial em grandes veículos.

Para tanto, buscamos no Google por “veto + Lula + Licenciamento Ambiental” e escolhemos aleatoriamente as primeiras publicações com data de 8/8/25. Encontramos a do portal G1, que publicou texto extenso, intitulado Lula veta 63 trechos de nova lei que muda regras de licenciamento ambiental. Destacamos que o título foi mudado, conforme a URL na qual aparecem os dizeres “Lula sanciona com vetos projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental”. A opção por retirar a menção ao ‘enfraquecimento das regras’ na versão final nos parece sintomática. 

A publicação dividiu a decisão do presidente em nove pontos principais, e ainda trouxe, dentre outras explicações , a tentativa do governo de equilibrar os pratos, com ministros contrários e favoráveis ao PL; a análise dos ambientalistas – citando Greenpeace e SOS Mata Atlântica; e as principais polêmicas do texto, com destaque para a proposta de autodeclaração para atividades de baixo impacto.

Na mesma data, o portal G1 também publicou o texto Entenda o que muda com vetos ao projeto que enfraquece regras de licenciamento ambiental. A publicação traz a visão de representantes de entidades ambientais; esclarece os vetos e suas justificativas, aponta os próximos passos e os bastidores da decisão presidencial, além de esclarecer os trâmites anteriores do projeto e finalizando com a preocupação com a possível exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

O Estadão, por sua vez, foi mais crítico. No texto “Licenciamento ambiental: Lula sanciona com 63 vetos projeto e edita MP que atende Alcolumbre”, o veículo de comunicação traz desde o título a preocupação com a exploração de petróleo, que citamos anteriormente. Indicando que é um interesse do senador Davi Alcolumbre, cujo estado seria o principal recebedor de royalties no caso de prospecção do combustível fóssil.
 
Já o Metrópoles não aprofunda a discussão. O subtítulo da publicação Lula sanciona mudanças no licenciamento ambiental, mas veta 63 pontos aponta a crítica dos ambientalistas ao projeto. Já no texto, indica o aceno de Lula a Alcolumbre e cita muito brevemente os trechos vetados. O UOL, por sua vez, destacou o projeto que segue ao congresso com modificações no PL propostas pelo governo.  O repórter também cita pontos sensíveis do projeto, marcando, também, a emenda patrocinada pelo presidente do Senado.

Na cobertura sobre a sanção presidencial, os grandes veículos mantiveram espaço para as vozes dissidentes, garantindo destaque às manifestações de ambientalistas. Também foram firmes, a maioria deles, em destacar o jogo político que não se encerra após o “voto” de Lula. O desafio agora é aprofundar o debate: investigar as brechas que ainda podem permitir retrocessos e acompanhar de perto os desdobramentos políticos do “toma lá, dá cá” que se desenha após a decisão de Lula. Uma imprensa vigilante e responsiva pode não impedir todas as investidas contra o meio ambiente, mas é fundamental para reduzir os espaços por onde a boiada insiste em tentar passar.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: eutalita@gmail.com

Meio ambiente também é hard news: demanda por veto total ao PL da Devastação repercute em grandes jornais

Por Débora Gallas*

Aprovado pela Câmara dos Deputados em 17 de julho, o PL que fragiliza o licenciamento ambiental  no Brasil pode ser sancionado ou vetado pelo presidente Lula até 8 de agosto. Representantes da sociedade civil pressionam pelo veto total do chamado de PL da Devastação, que ameaçará ainda mais a saúde, a subsistência e a qualidade de vida da população, conforme avaliam especialistas da Organização das Nações Unidas.

O objetivo desta análise é verificar se a grande imprensa manteve o tema em pauta entre a aprovação do projeto na Câmara e sua chegada ao Planalto. Ou seja, se a cobertura se limitou ao “fato quente” – o aval dos deputados –, ou se os veículos seguiram acompanhando o debate, reconhecendo que a decisão ainda não está encerrada.

Observou-se que os principais jornais do país repercutiram os argumentos contrários à sanção ao longo da última semana. Levantamento de notícias publicadas entre 21 e 28 de julho em Folha, Estadão e O Globo, com a palavra-chave “licenciamento ambiental”, mostra que os três veículos destacaram o posicionamento do Observatório do Clima, coalizão que reúne cerca de 100 entidades ambientalistas. Folha e O Globo, por exemplo, noticiaram a nota técnica divulgada pelo Observatório no dia 24, que recomenda o veto total do PL ao presidente Lula.

O texto de Gabriel Gama publicado na Folha em 25 de julho destaca ainda a recomendação e a avaliação de Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, de que a Licença Ambiental Especial (LAE), mecanismo do PL que permite acelerar a licença de empreendimentos tido como estratégicos – como a exploração de petróleo na foz do Amazonas –, deve ser completamente suprimida porque vincula diretamente o licenciamento a pressões políticas.

O texto de Luís Felipe Azevedo e Lucas Altino publicado em O Globo em 24 de julho também traz no título a recomendação de veto total, mas foca nas consequências políticas do PL para o presidente Lula – dividido entre a ala ambientalista do governo, representada pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ala desenvolvimentista, que abrange o ministro da Casa Civil, Rui Costa.  Na mesma semana, o jornal também deu espaço ao posicionamento de entidades vinculadas ao agronegócio e à indústria, que defendem a sanção integral do PL alegando necessidade de “modernização” do Estado.

Já o Estadão não noticiou a nota técnica do Observatório do Clima, mas repercutiu, em texto de Isabela Moya (21/7), a análise de Marcio Astrini, diretor da entidade, em sua coluna na Rádio Eldorado. Ele relaciona a necessidade de veto de Lula à credibilidade do Brasil como nação comprometida com a preservação ambiental, especialmente a quatro meses da COP30, em Belém. O projeto também foi citado, ainda que de forma indireta, na entrevista de Roberta Jansen com Francilene Procópio Garcia, nova presidente da SBPC, que criticou a ausência da ciência nas decisões sobre meio ambiente.

Apesar das lacunas da cobertura desses veículos após a aprovação do projeto no Senado, em maio deste ano, há um reconhecimento crescente de que pautas ambientais fazem parte da agenda política e econômica. Embora o Congresso tenha promovido retrocessos em favor de interesses setoriais, é positivo que o jornalismo passe a dar espaço a vozes críticas – que encontram na imprensa um espaço para debate diante de um Legislativo pouco receptivo às demandas da sociedade civil.

Contudo, conforme os pressupostos do jornalismo ambiental, é essencial ir além do contraditório imediato. É preciso considerar a complexidade dos fenômenos ambientais e sua relação com decisões políticas. É importante aprofundar, por exemplo, as repercussões do PL sobre eventos globais como a COP30 e a incorporação de evidências científicas nas políticas públicas – assuntos que foram apenas tangenciados pelos veículos analisados.

Esse tipo de cobertura não pode depender apenas do esforço individual de jornalistas especializados. Deve orientar o direcionamento editorial dos veículos, com compromisso com o interesse público. Meio ambiente também é hard news: merece espaço constante e coberturas aprofundadas.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.


Flexibilização x antiambientalismo: os termos utilizados pela imprensa hegemônica e independente na cobertura da aprovação do PL da devastação

Votação do PL 2159/2021 no dia 16 de julho na Câmara dos Deputados.
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Nesta última semana, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2159/2021, que fragiliza as regras para o licenciamento ambiental. O chamado PL da devastação agora segue para sanção do presidente Lula, que pode vetar trechos ou todo o texto da proposta. O projeto já tramitava há 21 anos no Congresso e tinha como apoiadores setores da agricultura e da pecuária, como a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), que afirma que as novas regras vão desburocratizar processos para obtenção de licenças ambientais, segundo o portal G1. Os termos “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura”  estão aparecendo nos editoriais da imprensa hegemônica, enquanto veículos independentes focam na possível destruição ambiental causada pela aprovação. 

O portal G1 também menciona o enfraquecimento do licenciamento ambiental e pondera sobre a possibilidade de obras de alto impacto. O portal usa os termos de flexibilização para se referir às normas do PL. Em análises anteriores também no Observatório de Jornalismo Ambiental, na época de outra votação em maio deste ano que tratava sobre o PL, as colegas Eloisa Loose e Nico Costamilan analisaram o posicionamento de três jornais mainstream (Estadão, Folha de São Paulo e O Globo) e entenderam que a ideia da devastação, associada ao PL pelos setores mais críticos, foi minimizada, sendo apresentada nas declarações de ambientalistas.

Em Porto Alegre, o Jornal do Comércio, voltado à economia e negócios, republicou a coluna de Edgar Lisboa, em que destacam a flexibilização para implementação de empreendimentos. Em relação à imprensa internacional, o jornal The Guardian afirma que o PL enfraquece drasticamente o licenciamento ambiental. 

Já a mídia alternativa, como no caso do Brasil de Fato, critica a medida e sublinha que o projeto aprovado ignora a crise climática e facilita o autolicenciamento para o agronegócio e a mineração. O portal Intercept foca na relação dos congressistas com o meio ambiente, e confirma que esse é a disposição mais anti ambientalista da Câmara na história, mais ainda que no governo Bolsonaro.

*Isabelle Rieger é jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
E-mail: belle.rieger@gmail.com

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS.
E-mail: ilza.girardi@gmail.com

Os desafios do Brasil como anfitrião: expectativas internacionais e contradições internas expostas

Por Fernanda Vargas* e Alice Balbé**

Em novembro de 2025, o Brasil sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), reunindo líderes globais para discutir o enfrentamento da crise climática. Para além das discussões acerca da mitigação, adaptação, financiamento e transição energética justa, o preparo e o gerenciamento da COP-30, em Belém, no Pará, têm sido intensamente discutidos e criticados no país e internacionalmente, especificamente no que tange como o país sede da conferência lida com a emergência climática em seu próprio território. O jornal alemão DW já questionou: “O Brasil está abandonando suas promessas climáticas?”. A menos de cinco meses da COP-30, também discutem-se as armadilhas diplomáticas que precisarão ser desfeitas para o avanço em acordos climáticos centrais como a eliminação dos combustíveis fósseis e a redução do desmatamento. 

No começo de 2025, se confirmou a construção da estrada de quatro faixas que cortará dezenas de milhares de hectares da Floresta Amazônica. Segundo o governo, a ação se deve para facilitar o trânsito do evento que vai receber mais de 50 mil pessoas. O fato não repercutiu de forma positiva na cobertura internacional pela incoerência com as políticas ambientais que precisam ser tomadas pelo Brasil, tendo sido motivo de piada em Portugal em comentário na Rádio Comercial.

A repercussão negativa cresceu no mês de julho com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, chamado de “Lei da Devastação”. No jornal português Público, é referida essa aprovação, dizendo que “coloca o presidente Lula numa “saia justa” perante a comunidade internacional”. No espanhol El País, a aprovação foi considerada uma “ameaça ao planeta”. O jornal The Guardian explica que essa proposta desmantela a regulamentação “na agricultura, na mineração e na energia, aumentando o risco de destruição generalizada” indo contra os compromissos do país no combate às mudanças climáticas. 

Apesar da diminuição do desmatamento em 32% no ano passado, segundo o MapBiomas, o governo decepcionou ambientalistas em outras áreas, especialmente pela defesa à exploração de petróleo. O jornal britânico ainda refere-se ao Brasil como realizador de um “leilão do direito à exploração de petróleo meses antes de sediar a Cúpula Climática da ONU”, ação apoiada pelo presidente Lula que visa transformar o país no quarto produtor de petróleo do mundo.

Com a repercussão internacional em grande parte negativa sobre o gerenciamento de pautas e o planejamento técnico do Brasil para sediar a cúpula, questiona-se, a partir desses espaços de cobertura, quais as reais possibilidades e contradições que um evento desse porte evidencia. Mais do que isso, nos mostra quais são os verdadeiros desafios políticos e econômicos que rondam o debate acerca das disputas climáticas vigentes na COP-30. 

* Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática e no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

** Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

Clima tenso: guerras comerciais e militares ofuscam e comprometem combate à crise climática

Foto: Reprodução/Instagram/@realdonaldtrump

Por Heverton Lacerda*

Em uma semana dominada por notícias sobre os reflexos econômicos do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a relação com a tornozeleira de Jair Bolsonaro, pautas sobre questões climáticas e a COP-30 perderam espaço na imprensa brasileira.

No entanto, uma importante matéria da jornalista Eliane Oliveira, publicada nas edições impressa e digital de O Globo no dia 23 de junho, indica que a pressão do presidente dos Estados Unidos por mais gastos militares de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça verbas contra mudança climática na COP. Ela informa que os gastos militares totalizaram cerca de R$15,3 trilhões em 2024, considerando a soma dos valores de todos os países. A meta de investimento para combater a crise climática é chegar a “algo em torno de R$7 trilhões por ano, até 2035, conforme acordado em 2024, durante a COP-29, no Azerbaijão”. 

Conforme a matéria, embaixadores europeus e o presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, expressaram a preocupação de que essa realocação de verbas possa ter um impacto direto nos investimentos ambientais, inclusive nas preparações e nos resultados da COP-30, que será sediada em Belém, no Brasil, em novembro.

A diretora-executiva da COP, Ana Toni, uma das entrevistadas por Oliveira, metaforicamente descreve a crise climática como uma “guerra silenciosa” que intensifica a pobreza e a desigualdade, argumentando que os conflitos comerciais e militares não só causam destruição, mas também desviam fundos da “batalha mais urgente” contra as mudanças climáticas.

A entrevistada ainda afirma que o setor de defesa contribui para as emissões de gases poluentes, mas suas emissões não são contabilizadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o que impede um monitoramento completo de seu impacto ambiental. Neste ponto, percebe-se um bom aproveitamento do espaço editorial para analisar um elemento que pode ser significativo nos cálculos sobre o tempo que nos resta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Afinal, é preciso considerar que ultrapassamos o limite de 1,5ºC acima da média pré-industrial seis anos antes do previsto pelo IPCC. Ainda que não esteja configurada uma nova média, o pico antecipado acima de 1.5ºC é preocupante e precisa ser considerado um fator relevante para revisões de cenários.

As guerras, assim como os gastos militares ampliados, precisam ser inseridos nos cálculos, pois podem representar mais emissões de gases poluentes e menos recursos para ajudar a solucionar a crise climática.

Outro ponto relevante da matéria é o fato de que manter em pauta questões climáticas, mesmo sem a relação direta com notícias factuais – em especial as tragédias -, é positivo. Isso ajuda a contextualizar o tema a partir de uma perspectiva sistêmica, um pressuposto do Jornalismo Ambiental que busca superar a fragmentação e a descontinuidade da cobertura jornalística.  

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

O jornalismo precisa pautar o debate climático desde a América Latina

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes** 

A preocupação com a geopolítica, quando o assunto é a realização da 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) em Belém, acendeu o alerta sobre os desafios que estão postos, entre eles, a postura do presidente Trump ao retirar novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris. A tarefa do Brasil como país sede e um dos líderes do debate climático é ainda maior, como analisado pelo site Brasil de Fato, em função da necessidade de que os BRICS, bloco econômico que reúne países emergentes ao redor do mundo, sejam atraídos para a pauta ambiental, fazendo frente aos desafios globais.

Na primeira semana de julho, os países do BRICS enviaram um importante recado à comunidade internacional: países do Norte Global teriam que assumir mais protagonismo e responsabilidade na luta contra o aquecimento global. Em uma declaração divulgada em conjunto, o bloco cobra a ampliação da  participação dos países mais ricos nas metas de financiamento climático, reivindicando US$1,3 trilhões de dólares em investimento até a COP-30. 

Esse apelo relembra uma dura realidade: enquanto os países do Norte Global estão entre os que mais emitem gases de efeito estufa, quem ainda está mais vulnerável aos efeitos da crise climática são os países do Sul Global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, queimadas mais constantes e destrutivas afetam cada vez mais regiões que, como a América Latina, já enfrentam desigualdades sociais profundas. 

O governo brasileiro busca influenciar o debate para a questão climática com várias iniciativas, como noticiou o portal G1, quando o presidente Lula pautou o tema junto ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Também o site Opera Mundi relatou os esforços do Brasil em dar prioridade para o debate climático em razão da realização da COP, até mesmo como uma bandeira da política externa do governo federal. No entanto, a pauta econômica é ainda o foco principal da atualidade, especialmente pelo aumento de tarifas ao comércio internacional, impostas pelo governo estadunidense, o que dificulta que o meio ambiente receba maior ênfase entre os desafios regionais dos blocos econômicos e políticos.

Vale lembrar que os países latino-americanos, mais que apenas vulneráveis ao aquecimento global, também aparecem como protagonistas na busca por soluções para esta crise. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes, o continente latino-americano tem uma das regiões mais biodiversas do planeta. Sediar a COP-30 dentro da maior floresta tropical do mundo não é apenas importante simbolicamente, mas estrategicamente. Assim, podemos dizer que a COP-30 representa um espaço mais plural aos países latino-americanos e reacende uma integração regional em torno da luta contra as mudanças climáticas.

A América Latina pode se tornar referência em um desenvolvimento verde, mais justo e que respeite suas especificidades sociais, culturais, econômicas e ecológicas. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), 60% da eletricidade da América Latina é gerada a partir de energia renovável, posicionando-a como uma das redes elétricas mais limpas do mundo. Países como Brasil, México e Chile lideram o caminho para diversificação de fontes de energia eólicas e solares. A agroecologia, por sua vez, também está se enraizando cada vez mais nos países latino-americanos. Um estudo realizado em quase duas mil propriedades rurais na América Central constatou que os locais onde são implementadas práticas agroecológicas têm um solo mais arável, com mais umidade e menos erosão, e sofrem menos perdas do que os sistemas convencionais. A agroecologia representa uma alternativa ao modelo agroindustrial e propõe novas economias centrada no cuidado das pessoas e da natureza. 

A COP-30 pode ser o recomeço para pensarmos em uma sustentabilidade menos colonialista. Enquanto não olharmos para quem mais sofre com as mudanças climáticas, não poderemos desenvolver ações mais justas e eficazes para enfrentá-las. Ser mais sustentável talvez tenha a ver com assumir a latinidade de forma ampla, o que inclui perceber a rica diversidade biológica e cultural, seus povos originários, as influências diversas e saberes construídos coletivamente. Para o jornalismo ambiental importa trazer esse debate de forma aprofundada, pautando o papel da América Latina, como tratado por Um Só Planeta. A inclusão de um sentido de engajamento regional ao enfrentamento da crise climática passa por entender os caminhos possíveis desde os nossos territórios.

*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

IA também pode ser pauta para o jornalismo ambiental

Foto: Freepik

Por Débora Gallas*

Proferida em 26 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determina a remoção proativa de conteúdos ilegais pelas plataformas digitais deu novo fôlego à discussão sobre os limites e responsabilidades desses serviços. No jornalismo ambiental, que se baseia no princípio da precaução, o tempo das redes é incompatível com o do bom exercício profissional. Assim, a tensão entre o jornalismo e as big techs já mereceria atenção porque a lógica das redes confunde, distrai e aliena, prejudicando o entendimento sobre a complexidade do mundo e sobre a conexão entre os fenômenos.

Contudo, há também um impacto material que precisa ser repercutido pelo jornalismo: a infraestrutura necessária para processar o volume cada vez maior de dados compartilhados através de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X e Youtube – potencializados pela popularização da inteligência artificial generativa.

Por isso, é oportuna a série de reportagens “A boiada da IA”, do site The Intercept Brasil em colaboração com a AI Accountability Network, iniciativa do Pulitzer Center. Assinado por Laís Martins, o especial investiga o impacto de projetos para instalação de data centers no Brasil. Os data centers são edificações que demandam uso intensivo de recursos naturais – da energia para que suas máquinas sejam capazes de atender aos comandos dos usuários de serviços digitais à água para resfriar os equipamentos.

A quarta reportagem da série, publicada em 23 de junho, revela o projeto de instalação de data center no município gaúcho de Eldorado do Sul, que teve mais de 80% das residências atingidas pelas inundações de maio de 2024. Chama a atenção a aquisição, pela empresa Scala AI, de terreno fora da área de risco de alagamento enquanto a população afetada pelo desastre segue no aguardo de moradias em lugar seguro. O poder público, por sua vez, se limita a comemorar a transformação do município em um polo tecnológico.

Segundo a quinta reportagem, publicada em 3 de julho, um projeto de data center no município cearense de Caucaia estima que o consumo diário de energia das instalações será equivalente ao consumo diário residencial de 2,2 milhões de brasileiros. Quem assina oficialmente o projeto é a empresa Casa dos Ventos, mas investigação anterior do site apontou que a empresa chinesa ByteDance, dona do TikTok, é quem irá ocupar as instalações.

A reportagem acerta ao ponderar a alegação da Casa dos Ventos de que o abastecimento de energia será realizado por parques eólicos e solares. Afinal, o fato de a geração de energia não causar a emissão de gases de efeito estufa não significa geração sem impactos ambientais. É papel do jornalismo se debruçar sobre as consequências, na vida da população, de iniciativas do setor privado e de decisões políticas que as corroboram.

Por isso, mais investigações jornalísticas são bem-vindas para ajudar o público a dimensionar a crescente presença da inteligência artificial e das plataformas digitais em nosso cotidiano – inclusive suas repercussões ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.