Observatório de Jornalismo Ambiental

Mais uma vez, a desinformação ambiental é a pauta

Imagem: Reprodução IstoÉ Dinheiro

Por Eloisa Beling Loose*

Na última terça-feira, dia 21 de setembro, durante discurso na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mais uma vez, tivemos uma autoridade pública à serviço da disseminação de informações descontextualizadas e manipuladas para endossar sua própria realidade. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, exagerou, tirou do contexto e pronunciou inverdades a respeito do meio ambiente,  conforme checado pelo Fakebook.eco, uma iniciativa de checagem dos fatos do Observatório do Clima.

A produção de conteúdos descontextualizados ou criados com a intenção de enganar e gerar confusão no público não afeta apenas a área ambiental, mas se expande por todos os setores da nossa sociedade. Tal fenômeno foi chamado pela Organização Mundial da Saúde (2020) de infodemia, já que gera dificuldade na distinção entre as informações verdadeiras e as falsas, e deixa dúvidas sobre em quem devemos realmente confiar.

As distorções sobre o desmatamento e as queimadas na Amazônia, apresentadas nos discursos do presidente na ONU, integram a lista das mais de 30 violações de direitos humanos e retrocessos propagadas nos mil dias pelo governo de Jair Bolsonaro, divulgada nessa sexta-feira, dia 24, pela Anistia Internacional. Não há mais lugar ou contexto que restrinja a circulação de palavras enganosas – ao contrário, parece que, se pronunciadas em espaços respeitáveis, ganharão, automaticamente, estatuto de confiáveis. Afinal, quem ousaria, publicamente, mentir para o mundo todo?

Diante de tal problema, que se intensificou com a postura do governo de descredibilizar o trabalho da imprensa e de tentar reduzir a questão ambiental a um aspecto ideológico, o que o jornalismo pode fazer? Já não são apenas por mensagens via aplicativos e redes sociais que nos chegam as mentiras, mas elas são propagadas pelos próprios meios de comunicação, ao dar espaço para as fontes emissoras de desinformação. Até que ponto reproduzir os discursos dos responsáveis pela infodemia é serviço público? Como não normalizar o problema e, ao mesmo tempo, reduzir a visibilidade desses propagadores?

Profissionais da área estão aprendendo a combater a enxurrada de distorções com agências, editorias e matérias baseadas na verificação dos fatos (ou fact-checking). A ênfase sobre a repercussão negativa das mentiras ditas pelo presidente apareceu em grande parte dos veículos, como IstoÉ, G1, Estadão, Folha de S. Paulo, Veja – só para citar alguns, e também rendeu manchetes internacionais que em nada beneficiam nosso País. Porém, ainda é difícil saber se essa abordagem contribui para a redução da circulação ou interfere na credibilidade do que já foi falado.

Mais do que os veículos jornalísticos enfatizarem a checagem das informações, seria preciso que a infodemia fosse vista como um problema social, que fosse enfrentado por todos, inclusive com políticas públicas. Fomentar um olhar crítico sobre os conteúdos, que muitas vezes reproduzem o formato dos produtos jornalísticos, é algo que se mostra urgente e necessário para que as evidências científicas não sejam contestadas e para que possamos avançar no debate sobre as crises que ameaçam o futuro da humanidade.

* Jornalista, doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Arrabalde, o dossiê sobre a(s) Amazônia(s) apurado e escrito por Moreira Salles

Imagem: Captura de tela – Versão digital da sexta e última parte do especial escrito por João Moreira Salles publicada na edição de abril de 2021 da revista piauí
 

Por Roberto Villar Belmonte*

O especial Arrabalde foi publicado em seis edições da revista piauí como um dossiê, formato de texto jornalístico do gênero interpretativo. Os artigos – “resultado de dois anos de pesquisa e cinco meses de apuração diretamente na região Norte” – de autoria de João Moreira Salles, editor fundador da publicação, poderiam também ser classificados como grande reportagem seriada, ensaio jornalístico, reportagensaio ou reportagens atravessadas, como diria Eduardo Geraque (2006).

Juntando as seis partes publicadas nas edições mensais da versão impressa da piauí, de novembro de 2020 até abril de 2021, o especial ocupa 77 páginas: 49,5 delas com texto, 7 com ilustrações e 20,5 com anúncios da Natura, da Vale, do Itaú e da Agropalma. Moreira Salles destrincha relatos históricos, pesquisas econômicas e estudos ecológicos sobre a floresta amazônica e mobiliza uma quantidade surpreendente de fontes (mais de 70 entrevistados), com destaque para personagens do Pará.

Parte I: A floresta difícil

O principal objetivo da apuração de fôlego empreendida por Moreira Salles é mostrar que o modelo de desenvolvimento para o bioma, que ocupa metade do território nacional, precisa levar em conta uma economia florestal baseada em produtos nativos. “As forças que avançaram sobre a floresta nunca tentaram compreender a real vocação da mata, aquilo de que ela é capaz. O processo de ocupação da Amazônia pode ser entendido como um grande fracasso epistêmico.” Resgatando relatos históricos sobre a região, o autor identifica três estratégias narrativas: um adjetivismo apoteótico, um panteísmo mágico e um derrotismo fatalista. Ele busca um outro caminho para tecer seus artigos, o da bioeconomia como oportunidade de negócio sustentável.

Parte II: Sete bois em linha

A ocupação da Região Norte lembra a conquista do oeste dos Estados Unidos, com uma grande diferença, observa Moreira Salles, aqui “não desenvolvemos uma épica amazônica para compartilhar entre nós”. Faltou construir, ressalta, uma Amazônia simbólica. “Exercermos uma espécie de colonialismo indiferente, ocupamos sem querer conhecer.” O Brasil optou por destruir muito em troca de pouco e a um custo imenso, denuncia entre relatos sobre a importância da diversidade biológica para a sobrevivência dos ecossistemas. A imagem que o repórter presenciou subindo a BR 163 de sete bois em linha para resistir ao calor na sombra de um tronco solitário de árvore sintetiza o modelo predatório que já devastou pelo menos 1/5 da floresta.

Parte III – A fronteira é um país estrangeiro

A entrevista que fez com Robert Schneider, economista aposentado do Banco Mundial, é um ponto alto da série de artigos, pois Moreira Salles esmiuça com ele o relatório Governo e Economia na Fronteira Amazônica que publicou em 1995 mudando a maneira de compreender a destruição do bioma. “‘Mineração de nutrientes’ foi a expressão criada por Schneider para nomear a extração não sustentável de nutrientes do solo florestal mediante corte e queima da vegetação, com o objetivo de abrir espaço para a lavoura e a pecuária extensiva.” O engenheiro agrônomo e pesquisador Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), participou da conversa, e aparece em outras partes do dossiê.

Parte IV – A reviravolta

“A cultura do boi produz uma estética, um gosto, define hábitos, uma identidade, formas de enxergar a realidade. Em regiões como Paragominas, o agronegócio é muito mais que uma atividade econômica. É um modo de estar no mundo que une jovens e velhos, modernos e arcaicos, liberais e conservadores, além, é claro, de reacionários. É a cultura hegemônica que os vitoriosos impuseram à Amazônia. São as cabines duplas, os adereços taurinos nos para-choques das picapes com tração nas quatro rodas, os rodeios, a música sertaneja, a glorificação do cavalo e a submissão do boi, as feiras agropecuárias, a brasa e o churrasco. Em suma: o contrário da selva, a sua negação.”

Parte V – O reencontro

Entrevistando Ester Ymeriki Kaxuyana com ajuda da filha Vaneusa, de 20 anos, Moreira Salles conta a saga do povo Kaxuyana desterrado por causa de epidemias e ações missionárias. Depois apresenta os Sakaguchi, imigrantes japoneses de Tomé-Açu, município localizado no nordeste do Pará, que adotaram o sistema agroflorestal como uma forma de fazer a agricultura trabalhar com a floresta, não contra ela. “É outro modo de fazer as coisas, ou outro modo de estar no mundo. A mecanização é difícil, por exemplo. A diversidade de espécies exige não apenas uma competência, como as monoculturas, mas várias, tantas quanto forem as plantas ali presentes. É uma agricultura para artesãos, não para industriais.”

Parte VI – O que queremos?

A narrativa em prol da bioeconomia é apoteótica no final. “Levada adiante, a ideia de um Brasil que retira do seu patrimônio natural, e da Amazônia em particular, o fundamento de sua identidade e de seu destino, que transforma o arrabalde em nossa casa, por assim dizer, impõe ao país uma tarefa magnífica. No limite, a de desenvolver em terras brasileiras o Vale do Silício da biodiversidade.” Moreira Salles percebe seu tom utópico e termina assim o dossiê: “Pouco importa se o objetivo é fantasioso e difícil de alcançar. O que importa é o rumo. Para um país que sempre sonhou baixo, é uma linda ambição, apta a evitar que, no futuro, uma criança olhe para um mogno e aprenda que está diante de uma pilha de tábuas de compensado”.

Assim como o documentário No Intenso Agora, de 2018, considero o dossiê da revista piauí chamado Arrabalde (2020/2021) uma obra de referência do cineasta, editor e (agora também) repórter João Moreira Salles. Um jornalismo ambiental de profundidade sobre futuros possíveis para a nação brasileira.

Referência:

GERAQUE, Eduardo Augusto. Reportagens atravessadas: um mergulho, via Teoria Geral dos Sistemas, na cobertura da poluição atmosférica feita por jornais brasileiros e mexicanos. Tese (doutorado). 2006. 243 f. Programa de Pós-Graduação em Integração na América Latina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo de opinião pode perpetuar negacionismos? 

Imagem: Reprodução do jornal Zero Hora

Por Matheus Cervo*

No dia 9 de agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) emitiu um dos mais completos e conclusivos relatórios sobre a grave crise ecológica e planetária que enfrentamos. O documento tem mais de 3 mil páginas que foram escritas por aproximadamente 200 cientistas oriundos de 60 países diferentes a partir de anos de pesquisa sobre o tema, citando mais de 14 mil estudos que dão base às conclusões feitas. 

Após apenas um mês de emissão do relatório, o jornal Zero Hora (ZH) publicou um infeliz artigo de opinião de Flávio Juarez Feijó chamado “Aquecimento Natural”. Apesar de ser geólogo e ser mestre em geociências, Flávio foi abraçado pelo jornal da capital gaúcha por suas opiniões descabidas que não possuem nenhum embasamento científico. 

Nesse artigo aprovado por ZH, ele ousou em dizer que o relatório do IPCC é alarmista e que tem como meta o impedimento do crescimento de países subdesenvolvidos como o Brasil. Como supostos argumentos científicos, afirma que as mudanças climáticas atuais fazem parte de um ciclo natural da terra e que não é necessário reduzir nenhuma emissão de gases de efeito estufa. Ainda, opina que as metas de carbono zero fariam a sociedade voltar a andar a cavalo e que a agricultura do nosso país voltaria a ser movida por arados a boi.

Em letras miúdas quase imperceptíveis ao(à) leitor(a), o jornal ZH escreve no rodapé da página do artigo: “Os textos não representam a opinião do Grupo RBS”. Contudo, essa não é a primeira vez que ZH abraça as opiniões de Flávio, já que publicou outro texto do geólogo em 2018 chamado “descarbonizar não é preciso”. Neste texto, sem nenhuma referência científica, diz que o derretimento das geleiras não acrescentaria uma “gota no oceano”, que o gelo da Antártica está protegido e que o nível do mar não irá subir. Ainda assim, não se contém e diz que, caso várias áreas do planeta derretam devido ao “aquecimento natural”, deve-se aproveitar as “benesses” do contexto e criar novas rotas de navegação e vastas áreas de agricultura (!).

Não é preciso dizer mais nada para afirmar que escolhas editoriais como essa são perigosas e devem ser apontadas como tal. Pequenas notas em rodapé não devem justificar a falta de responsabilidade de veículos de comunicação para com a pauta do colapso climático. É importante dizer que essas escolhas estão sendo feitas por muitos jornais brasileiros, como Folha de São Paulo, que publicou um péssimo texto de Leandro Narloch chamado “Negacionistas e aceitacionistas se equivalem na reação histérica contra quem questiona seus dogmas”. A publicação foi feita apenas 8 dias depois da emissão do relatório do IPCC e apenas 3 dias após manifestação do ombudsman da Folha contra o mesmo colunista.

Esse pronunciamento do ombudsman só ocorreu devido à grande polêmica que os diversos textos negacionistas de Narloch causaram na opinião pública através das redes sociais. Por isso, devemos nos manter alerta às decisões editoriais como as de Zero Hora e nos manifestarmos criticamente para que o jornalismo brasileiro não aja como se o colapso climático fosse questão de opinião.

*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.

Produção de hidrogênio verde: menos discursos de persuasão e mais de precaução

Em dois meses, estaremos na metade da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26 (entre 1º e 12/11/2021), na Escócia. O acontecimento vai exigir dos países a apresentação de metas de redução das emissões dos gases de efeito estufa que sejam coerentes com o contexto do Antropoceno. Neste percurso, as notícias jornalísticas de meios de referência (como a Folha, o Estadão e o Valor Econômico) já persuadem leitores a respeito da produção de hidrogênio verde (H2V) com fontes renováveis (usinas eólicas e solares, mas também nucleares).


Essa persuasão, basicamente, se nutre de duas justificativas. A primeira é possibilitar a descarbonização global dos setores produtivos que mais poluem: siderurgia e mineração; indústria química; transporte aéreo e rodoviário (especialmente o de cargas pesadas); geração de eletricidade; produção de amônia e fertilizantes para agricultura. A segunda é atender às demandas de consumo dos países desenvolvidos, como Alemanha e França, entre outros europeus, e os Estados Unidos, ou seja, de importar H2V de modo a manter suas economias ativas. Os links, nas palavras em destaque neste texto, conduzem às notícias que basearam a nossa análise.


Segundo as notícias, o Ceará, através do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, está mais avançado nos acordos com megaempresas transnacionais: a Enegix e a White Martins e, recentemente, com a EDP. Na sequência, o Rio de Janeiro tem memorando assinado com a Fortescue pelo Porto do Açu. Soubemos por outros meios, que Minas Gerais e Rio Grande do Sul também estão na disputa pela atração de investidores aos nominados hub’s de hidrogênio. Tanto os executivos como as megaempresas seguem os princípios da ESG (Environmental, Social e Corporate Governance) através das chamadas boas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa. Contudo, não deixam claro como essas práticas vão frear a devastação da natureza e os consequentes efeitos da mudança do clima, já que a exploração capitalista vai continuar voraz sobre os territórios. Esta problematização tampouco é feita pela Folha e pelo Valor Econômico, que reportam em espaços específicos essas iniciativas no âmbito da ESG, como o hidrogênio verde, além da cobertura nas editorias convencionais. Age igualmente o jornal O Estado, que nomeou o espaço como Retomada Verde.


Se considerarmos o jornalismo como mais uma forma de conhecimento, assim como os teóricos Robert Park (1864-1944), Adelmo Genro Filho (1951-1988) e Eduardo Medistch, a reprodução das informações obtidas através das fontes oficiais não adere ao princípio do jornalismo de atendimento ao interesse público. Não por ter faltado o contraditório nas notícias, mas sim, pela restrita abordagem economicista/crematística, como se essa visão de mundo (particular) fosse universal no nosso país, um dos mais megabiodiversos (tanto em termos ecológicos como socioantropológicos). Um exemplo disso, a dramática questão da água no país reportada como “oportunidade de investimento em meio à crise hídrica e perspectiva de escassez no futuro” por O Estado.


De modo semelhante, notícia da Folha destacou o que seria uma boa prática ambiental pela Embraer através do “primeiro voo com um avião elétrico produzido pela fabricante no Brasil”. O detalhe é que o modelo Ipanema é “usado para pulverizar lavouras com pesticidas”. Até aqui, as notícias indicaram a proposta do norte global de descarbonizar os oligopólios econômicos como a licença que vai possibilitar o neoextrativismo no sul. O presidente da Siemens Energy na América Latina, Tim Holt, disse: “Todos os países [da América Latina] estão em ótima posição [para o hidrogênio verde], pela abundância de recursos renováveis, hídrico, solar e vento. Na Europa, não temos recursos naturais para produzi-lo em quantidade suficiente para todo o consumo. Então, temos a política de apoiar ativamente outros países, como Chile e Colômbia, para criar oportunidades de produção e exportação”.


Em 7 de setembro de 2020, O Estado exaltava “o potencial” e “a vocação” do Brasil para produzir hidrogênio verde enquanto explicava o processo de eletrólise da água. Que nesta semana da pátria possamos considerar tudo o que está em jogo nessa produção e na exportação do hidrogênio verde pelo Brasil. Só encontramos um texto [ainda que não jornalístico] contemplando os interesses das comunidades locais e populações dos países do nosso continente. Segundo Maximiliano PROAÑO, como a produção de H2V depende de eletricidade e água (sendo este o bem comum essencial à vida), o risco de escassez hídrica e seca nos territórios precisa ser avaliado. Além disso, alerta que utilizar água dessalinizada como alternativa à doce vai interferir na temperatura da água do mar, reduzindo o oxigênio e provocando graves danos à vida aquática. Esse é um relevante apontamento em meio à crise hídrica e energética que vivemos no Brasil, visto que há previsão de apagões no fornecimento de água e eletricidade dentro de um ano se não forem tomadas medidas adequadas.

Por tudo isso, acreditamos na prática jornalística como forma de conhecimento (produtora e reprodutora) sob princípios da ética cidadã diante dos bens comuns. No caso do H2V, cuja tecnologia está em desenvolvimento, incorporar o princípio da precaução pode fazer a diferença na interpretação sobre os fatos e os respectivos discursos. Recente artigo do nosso Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental concluiu que a “aplicação da ideia de precaução está ainda distante da discussão jornalística na academia e nas redações, apesar de todos os sinais de que estamos vivendo uma crise ambiental sem precedentes”.


*Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com.

Marco temporal: jornalismo e o não reconhecimento dos indígenas

Imagem: Projeção em prédio de Brasília na semana da mobilização indígena contra o Marco Temporal. Do perfil no Instagram @projetemos.

Por Reges Schwaab

Foi adiado para esta semana o que é considerado o julgamento mais importante dos últimos trinta anos para os povos indígenas. A tese do “marco temporal” prevê que os povos indígenas só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia cinco de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Ou precisariam comprovar uma disputa judicial ou um conflito pela área na mesma data. 

O marco temporal e sua defesa expõem uma perspectiva perversa, achatada, contrária à alteridade. São cortadas dela a racionalidade ambiental, a consciência histórica e a centralidade do outro como balizadores da vida em comum. O fator ambiental desconsiderado pelos seus defensores também extingue as possibilidades de diálogo compreensivo e a necessidade de reparação histórica aos povos originários. No lugar, como vimos acontecer tantas vezes, vêm as sementes modificadas pela lógica da terra como propriedade, um objeto a ser explorado. Por séculos, os indígenas foram massacrados e expulsos de seus espaços. Só esse grave fator já invalida a defesa do marco temporal. Mas temos outros elementos. É notório que a permanência dos indígenas em seus territórios é garantia de preservação e conservação ambiental. Além disso, a cultura desses povos é desenvolvida a partir de um conhecimento que interliga profundamente seu modo de vida ao ambiente, uma inteligência autônoma e radical, uma das raras chaves para a autêntica ação diante do cenário de crise ambiental que vivemos. Preferimos devastá-los em lugar de compreendê-los, entretanto. 

Quando o jornalismo insiste em faltar, é preciso dar a manchete na rua, como na projeção flagrada na imagem acima. Termos seis mil indígenas mobilizados em Brasília já é um acontecimento digno de acompanhamento jornalístico qualificado. Requer trabalho de reportagem e exploração das distintas compreensões sobre o tema. Em vez disso, lemos novamente um jornalismo calado diante do complexo, e guiado pelo patrocínio do agronegócio em seu interesse pela posse de todos os terrenos possíveis. 

Em páginas duplas no primeiro caderno da edição de 22 de agosto, O Estado de S. Paulo mostra o tom: Julgamento do STF pode afetar propriedades de todo o Brasil. Nele, assim como em outros meios de referência, durante a semana em que o julgamento deveria começar, indígenas nunca foram protagonistas da sua própria questão e nem vozes para contar como sua própria história poderia ser acolhida. A violência contra os povos originários se capilariza de muitas formas no Brasil, e emerge forte no discurso, especialmente porque ainda está nos jornais uma capacidade de circulação desses dizeres. No centro da construção de sentidos sobre o ambiental, para o avanço do capital na colonização do imaginário, temos visto que não há limites. As parcerias pagas em jornais e canais informativos se ampliam, em que pese o fato de que toda cobertura já é, há tempos, acentuada pelo modelo de agronegócio como único caminho, não importa a temática. Como este mesmo Observatório já comentou tantas vezes, patrocínio, pagamento por conteúdo, falta de pluralidade de fontes estão entre os fatores que contaminam a produção jornalística, desconfiguram sua narrativa, fazendo emergir um simulacro de produção informativa, sem contrapontos e sem debate. 

Além da negativa de espaço a uma narrativa mais completa, temos de evidenciar a ausência de um gesto anterior ao fazer jornalístico. Seis mil indígenas estiveram em Brasília, mas o jornalismo, em geral, não quis falar com eles, não teve tempo para escutá-los em sua temporalidade e, por isso, não considera o conhecimento originário, a visão de mundo desses povos, nem seus direitos. Ver as falhas no diálogo entre as distintas vozes permite um olhar crítico ao que o jornalismo oferece em acontecimentos históricos cruciais. Além disso, permite recordar de um apagamento histórico de muitos sujeitos, da desconsideração do outro e do meio ambiente, dois dos elementos de sustentação das sociedades democráticas e sustentáveis. 

 O próprio julgamento do STF, que deve ser estendido por várias sessões, tem uma temporalidade distinta da temporalidade indígena, ou de uma temporalidade humana, da urgência da vida. Há, inclusive, apostas na demora como modo de esvaziar a mobilização. A temporalidade jornalística é, igualmente, distinta de ambas, especialmente a dos povos originários. A história, a cultura e a cosmovisão desses povos não cabem em nossas páginas tão apressadas. O jornalismo adianta a resposta e prefere logo fechar questão no que considera o ideal. 

O desrespeito e a negativa em abrir-se a uma compreensão dos indígenas deve seguir sendo criticada. É preciso lembrar que só pela alteridade podemos estabelecer o espaço comum, conviver e avançar de modo igualitário. É o que a filosofia nomeará como o gesto do reconhecimento. O outro como o compromisso primeiro para a comunicação e o jornalismo, tendo a alteridade como projeto para a produção do conhecimento, é inegociável, não parece haver outro caminho para trabalhar as crises do nosso tempo. Que história cada um desses seis mil indígenas poderia reportar? Que encontro seus relatos poderiam nos proporcionar se não fosse oferecida apenas a cobertura protocolar? E se pudéssemos, a partir do gesto do reconhecimento, escutá-los e aprender a dizer com eles?

O rosto do outro me afirma e torna minha própria existência humana ao solicitar-me uma escuta e, ao mesmo tempo, uma palavra. Sob esse aspecto, o dizer estabelece uma relação entre duas liberdades, afirmando a identidade dos interlocutores. Nos reconhecemos quando interpelados pelo rosto do outro: não se trata de submissão, mas de um comando ou apelo feito de uma identidade à outra. O rosto, o humano, abre uma fresta na casca do ser, tornando-o refém do outro, do estrangeiro que bate à nossa porta. A exposição ao outro define as identidades e faz com que o outro se torne importante, vital para a existência do eu (MARTINO; MARQUES, 2019, p. 35). 

Referência:

MARTINO, Luís Mauro Sá; MARQUES, Angela Cristina Salgueiro. A comunicação como ética da alteridade: pensando o conceito com Lévinas. Intercom (SÃO PAULO. ONLINE), v. 42, p. 21-40, 2019.

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Depois da boiada, o cardume: novos dados sobre contaminação por mercúrio decorrente do garimpo ilegal devem servir de alerta

Imagem: Captura de tela

Por Ângela Camana*

O Governo Bolsonaro, como as publicações deste Observatório indicam, tem sido de intenso ataque ao ambiente a aos direitos humanos no Brasil. Para além do desmatamento recorde e do desmonte de políticas públicas de conservação promovidos pela atual gestão, a imprensa também nos alerta para o recrudescimento dos conflitos ambientais envolvendo povos indígenas no país. O incentivo ao garimpo ilegal de ouro e os confrontos que dele decorrem não são novidade e já ganharam até linha do tempo em grandes portais. No entanto, nesta semana pudemos acompanhar um novo capítulo nesta escalada de violência e de descaso com a vida: os efeitos do garimpo ilegal já se fazem sentir na água, no solo, no ar e nos corpos da Amazônia.

Estudos estimam que o mercúrio utilizado no garimpo ilegal entre 2019 e 2020 excede as 100 toneladas: destas, 30% vai parar nos rios. Os peixes são a base da alimentação de grande parte dos povos indígenas amazônicos e pesquisas indicam que quatro a cada dez crianças menores de cinco anos nas regiões Yanomami estão contaminadas por altas concentrações do metal – entre os Munduruku, são seis em cada dez. Uma plataforma lançada no dia 20 de julho, o Observatório do Mercúrio, reúne diferentes pesquisas sobre a temática, além de dispor informações georrefenciadas que facilitam a identificação e correlação entre a atividade mineradora e os casos de contaminação humana e de peixes. Ainda que o assunto seja sério e exceda em muito as fronteiras amazônicas, a cobertura da imprensa em grande medida se restringiu à publicação do release produzido pela WWF, uma das instituições responsáveis pela plataforma.

Uma exceção é o bom trabalho publicado no El Pais, que situa o lançamento do Observatório do Mercúrio em uma rede de acontecimentos mais ampla, escutando pesquisadores responsáveis pelas investigações. O texto é competente ao articular o cenário de contaminação ao discurso permissivo do Governo Federal, e alerta para os riscos do PL 490, já aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, que – ao dificultar a demarcação de terras indígenas – abre margem para a ampliação do cenário de mineração. Na semana anterior, a Revista Piauí também já havia pautado a questão do mercúrio em um texto de título sagaz: Desensinando a Pescar. Bem, em um governo no qual um coordenador da FUNAI sugere “meter fogo” em indígenas isolados, recomendar a reeducação alimentar dessas populações já nem nos gera tanto espanto. Oxalá que o bom jornalismo siga se recusando a normalizar este e outros absurdos.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Liana John: uma pioneira do jornalismo ambiental brasileiro

Crédito: Débora Gallas

Por Roberto Villar Belmonte*

A jornalista Liana John (1958-2021) publicou seu último texto neste sábado, 24 de julho de 2021, um dia depois de perder a luta contra um câncer no pâncreas. Como repórter que sempre foi, ela fez questão de escrever sua própria despedida. “Não queria ir embora sem agradecer a todos”, explicou-se em comovente mensagem.

Em sua homenagem, o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) reproduz aqui trechos da palestra que ministrou dia 28 de setembro de 2018 em Porto Alegre (RS) durante o IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, realizado na Fabico/UFRGS.

Conheci Liana John nos encontros preparatórios para a cobertura da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92. Sempre foi uma referência profissional. Ela ajudou a consolidar o jornalismo ambiental brasileiro, como pode ser constatado em seu depoimento a seguir, registrado no evento de 2018.

Influências no início da carreira

Nessa lista, um dos meus heróis, as pessoas que eu olhava, no Estadão tinha o Rubens Rodrigues dos Santos, que depois fundou o Jornal Verde, e que era uma pessoa que falava de deslizamento, do problema que se tinha com poluição, começava a ter alguma coisa de Mata Atlântica, ainda não existia a SOS Mata Atlântica. Então o Rubens Rodrigues dos Santos era uma pessoa que no Estadão ele fazia umas matérias bem interessantes.

Tinha a Roseli Tardelli, da Rádio Eldorado, e depois ela parou de fazer jornalismo ambiental e começou a trabalhar com divulgação de AIDS, porque ela teve um irmão que morreu de AIDS, então nos anos 80 ela saiu dessa área.

Tinha a Eliana Lucena que trabalhou muito com a Funai com índios, que era uma pessoa que fazia um material muito interessante.

E eu lia bastante coisa de fora. Tinha algumas reportagens que eu gostava demais. Teve uma que era sobre as tempestades. O repórter tinha embarcado num avião, isso dos Estados Unidos, entrava na tempestade, media o tornado. Eu queria ser uma jornalista dessas. Tipo aquele que vai junto. Teve uma outra reportagem de uma revista especializada de natureza que era uma viagem pelos tepuis, entre o Brasil e a Venezuela você tem vários tepuis, no caso a reportagem era na Venezuela. Era um jornalista que acompanhava os cientistas e ia ver como é que o cara sabe que aquilo é potencialmente uma planta nova, que as pessoas não conhecem. Como é que o cara sabe. Por que o jornalista estava na expedição científica. Eu quero ser esse jornalista aí. O cara que vai lá junto. Que vai lá na Antártica. Minha mãe dizia que eu tinha nascido com rodinhas. Falou em viajar é comigo mesmo. Eu já tô arrumando a mala. A parte melhor é essa.

Meta: jornalismo ambiental

Então o meu ideal nesse início, eu estava lá na TV Tupi fazendo buraco de rua, era ser esse jornalista que vai junto com o cientista e vai descobrir junto. Vai tá lá junto no fim do mundo saber o que tá acontecendo. Eu comecei no jornalismo fazendo outras coisas. Trabalhei em uma revista de supermercados. Trabalhei nas primeiras edições do Meio e Mensagem, um jornal dirigido a publicitários. A minha meta era chegar no jornalismo ambiental.

Cheguei a escrever algumas matérias no jornal Movimento falando de índio de algumas coisas que o Movimento nem tratava. Era uma época em que a tônica econômica era o desenvolvimento. A gente teve um ministro que falou isso. Se for pra passar por cima do meio ambiente não tem importância. O que a gente quer é o desenvolvimento econômico. Estava na época do milagre econômico.

Ser do jornalismo ambiental era uma coisa que dentro das próprias redações era visto como esquisito. Era esse bando de poeta, sei lá, uma pessoa que não tinha crédito nenhum. Nos anos 1980 a gente começa a ter alguns sinais de que realmente esse desenvolvimento a qualquer preço não estava dando muito certo. Estava causando vários efeitos colaterais muito graves.

Em São Paulo, o Vale da Morte que era Cubatão, aquela concentração de indústrias poluindo uma área e tinha toda aquela população que morava ao lado das indústrias e começou a surgir casos de crianças que nasceram sem cérebro. Muito afetados pela poluição. Já não dava para esconder tão facilmente que aquele desenvolvimento a qualquer preço não estava tendo consequências.

Nesse tempo eu fui trabalhar cobrindo férias na IstoÉ, na editoria de Geral, já com o propósito de fazer meio ambiente. Em 1983. Então eu comecei a fazer isso. A primeira batalha era dentro da redação porque os editores achavam aquilo um jornalismo menor. Os jornalistas feras eram os que faziam ou política ou economia. Não era o pessoal de Geral.

Revista Veja (1984-1985)

De lá eu fui pra Veja contratada como jornalista de meio ambiente. Era complicadíssimo. […] A escola que eu tive de passar uma pauta de meio ambiente foi a reunião de pauta da Veja porque eu tinha que argumentar com o Elio Gaspari, com a Dorrit Harazim, pra provar que aquela pauta era pertinente e que deveria sair na revista semanal. Você passa a construir. Você não pode chegar assim eu acho que tem que fazer uma coisa sobre Cubatão. Eu tinha que convencer que eles tinham que me mandar pra Cubatão pra eu fazer as entrevistas, pra eu fazer uma apuração, gastar tempo pra ir lá e ver o que tá acontecendo. E era complicadíssimo porque era uma época em que as empresas não abriam dados de nada, os dados de empresa eram super fechados, os dados de governo pior ainda. Você tinha que arrancar as coisas meio de saca rolha. Eu fui várias vezes a Cubatão entrevistar pessoas da população, da área médica e tentar fazer essa conexão entre a poluição e o que a gente estava vendo de consequências, as doenças nas pessoas. Era uma coisa muito trabalhosa. Eu tenho que ter uma coisa com substância suficiente para que os editores lá concordem em publicar. Era realmente uma escola. Não posso argumentar “eu acho”. Eles tratavam como lixo. Por isso eu fui caminhando pra essa área da investigação.

[…]

Então realmente essa foi uma escola muito interessante, num ambiente interno da redação completamente avesso ao tema ambiental. Consegui emplacar algumas matérias. Trabalhei na Veja em 1984 e 1985. A minha última matéria na Veja foi sobre a primeira vez que a Nasa fez convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais pra fazer um levantamento da atmosfera na Floresta Amazônica. Na época tinha muitas previsões… se a Amazônia fosse toda desmatada ia acontecer isso…. tinha muitas previsões de pessoas que nunca tinham pisado na Amazônia e só falavam abobrinha. Então a gente combinou de fazer uma matéria assim… nós não vamos falar nada sobre o que vai acontecer com a Amazônia se a floresta for desmatada. Vamos lá na Amazônia, fiquei lá 15 dias, e fiz uma série de reportagens pra saber o que já estava acontecendo nas áreas que já haviam sido desmatadas. Tinha o começo do projeto de fragmentos florestais do Thomas Lovejoy.

Eu fui entrevistá-los. Participei dos primeiros levantamentos de atmosfera baixa, abaixo de um quilômetro, na Floresta Amazônica, feitos pela Nasa com o pessoal do INPE. Entrevistei lá várias pessoas da Nasa. Foi muito interessante entrar no avião deles, saber como eles estavam fazendo todas aquelas medições. Fiz amigos, fontes que depois eu passei a entrevistar por telefone para saber que dados eles tinham tido das coletas de dados que tinham sido feitas ali.

Da Veja eu fui para o Guia Rural Abril, que estava sendo criado naquele momento, que era o Anuário. Era um editor fantástico todo voltado para a área do desenvolvimento sustentável, pra agricultura orgânica, então eu fui correr o Brasil nas Embrapas todas procurar as pesquisas que trabalhavam com uma agricultura conservacionista, uma agricultura que não fosse simplesmente botar tudo no chão. Então todo o trabalho de substituição do agrotóxico, como é que você melhora o solo, trabalhei vários anos ali, fizemos muitas coisas interessantes. E de lá eu fui pra Agência Estado. Final dos anos 1980.

Crédito: Eloisa Loose

Jornalismo ambiental científico

Esse trabalho no Guia Rural e na Veja também acho que aproximou. Não era só eu, tinha outros jornalistas que começaram a trabalhar nessa área, a tentativa de aproximar o jornalismo ambiental do científico. Como é que você vai falar que tal poluente causa o nascimento de crianças com anencefalia. Você tem que se basear em levantamentos e estudos. A gente não tinha internet na época. O fato de falar inglês, por exemplo, me facilitou muito porque todas as viagens que eu fiz pra fora eu trazia material.

[…]

Aos poucos foi com muito custo que a gente conseguiu ir passando do jornalismo bando de hippie, maluco, um jornalismo menor, para um jornalismo que tinha importância. Que podia entrar. Que podia ser uma página de jornal. Que podia dar capa. Que podia ter chamada na capa da Veja. Realmente foi um trabalho que eu considero muito importante, a reportagem e esse embasamento científico.

E também a gente ir falar com as pessoas responsáveis pela poluição. E tive entrevistas muito difíceis com donos de mineração na Amazônia. Com gente que era o inimigo. Você tinha que tá lá. Você tinha que fazer isso. Respeitando a questão de ouvir os dois lados. Porque o cara tá fazendo isso? Qual é a visão de quem está decidindo desmatar, de quem tá decidindo trocar a floresta por uma estrada? Teria que ouvir tanto os cientistas que vão embasar as consequências como aqueles que estão promovendo se não você faz um jornalismo muito parcial. O máximo de parcialidade que a gente admitia nesse jornalismo era bom eu sou a favor do meio ambiente. Isso eu sou. Agora você tem que saber do que você está falando. Você tem que ler sobre as coisas que está falando. Isso foi uma coisa dos anos 1980. Começava a existir mais jornalistas que faziam isso. A Teresa Urban mesmo era uma pessoa que trabalhava muito no Paraná com isso.

Agência Estado (1988-2003)

Do Guia Rural eu fui pra Agência Estado. […] Eu fui convidada pelo Rodrigo Lara Mesquita. Ele tinha sido presidente da SOS Mata Atlântica [criada em 20 de setembro de 1986], um dos fundadores, e na família Mesquita era um hippie verde. Era o meu interlocutor. A Agência Estado já existia dentro da empresa como uma unidade que cuidava dos correspondentes. E o Rodrigo transformou numa agência de notícias de verdade. Passou a funcionar vendendo material pra jornais regionais no Brasil inteiro, mais de 250 jornais que recebiam, e mais tarde, mais pra frente um pouco, o Rodrigo também conseguiu fazer acordos com cinco agências internacionais então o nosso material era distribuído na Reuters, em várias agências internacionais, e também a gente distribuía o material deles no Brasil.

Com isso o alcance daquilo que a gente fazia na Agência Estado foi se ampliando muito. E eu tinha no Rodrigo o meu interlocutor porque ele era uma pessoa que sabia da necessidade de pensar meio ambiente e ele tinha esse veio jornalístico que veio do pai, embora o pai sempre trabalhasse na área política e na área econômica, ele tinha esse sentido de jornalista que é nós temos grandes temas que nós precisamos trabalhar. E na área ambiental eu sentava com ele pra definir quais eram os grandes temas que nós iríamos trabalhar na Agência Estado. Como a gente tinha os correspondentes no Brasil e no exterior trabalhando para a Agência Estado, a gente conseguiu gradualmente montar vários projetos pra fazer essa discussão mobilizando os correspondentes.

Por exemplo, a gente fez uma série, que foi dos mangues do Brasil, que eu mobilizei todos os correspondentes do litoral brasileiro onde tem mangue. Então cada um produziu matérias, a gente foi orientando, a gente quer mostrar isso, que condição que estão esses mangues, quais são os principais problemas, falar da importância do mangue, falar com a área científica porque o mangue não é só um negócio mal cheiroso que a gente precisa eliminar e aterrar, mas ele precisa existir, porque aquele pedaço de mangue precisa ser preservado, precisa ser suficiente pra fazer o papel ali de berçário dos peixes. Então a gente falava da importância daquele ecossistema e falava também em que condição ele estava. Lá no Paraná, em Santa Catarina, no Amapá. Fizemos toda uma cobertura e demos isso em várias sequências. Fizemos uma cobertura de Amazônia.

A Agência Estado começou com o Rodrigo e mais quatro editores no fundo de um corredor com uma mesinha desse tamanho assim. Depois ela virou uma unidade mesmo na empresa dentro do Grupo Estado. Eu comecei nessa época que era no fundo do corredor com quatro pessoas. Mas a gente fazia e a gente foi progredindo. Um dia teve uma visita… Foi uma época que a gente começou a publicar o levantamento do desmatamento da Amazônia feito pelo INPE. Houve uma disputa entre o Estadão e a Folha porque a Folha falou uma coisa o Estadão falava outra. E eu fiquei encarregada de ir no INPE e fazer as reportagens todas.

Amazônia em chamas

Então eu tinha vários pesquisadores que eu conhecia no INPE que trabalhavam com isso e esse pesquisador o Alberto Setzer que trabalhava com as queimadas. Aí teve uma visita, porque a gente foi celebrar lá um acordo para área de meteorologia, previsão do tempo, e eu combinei com o Alberto Setzer de desviar a comitiva dos editores e levar eles pra ver as imagens de satélite que mostravam os pontos de queimadas. E fizemos isso. Vem ver uma coisinha aqui. O Alberto Setzer pôs na tela do computador. Você via ali delimitada a área da Amazônia Legal e dentro da Amazônia Legal aquele monte de pontinho que eram as queimadas. Nesse desvio que a gente fez nasceu a série que nós fizemos que era a Amazônia em Chamas.

Conexão com as fontes

Então tudo isso com o apoio enorme, eu tinha uma conexão muito grande com as fontes. Eram eles que me davam essa possibilidade de ter uma reportagem mais interessante. Eu cheguei a fazer reportagens a partir do que via no satélite ir lá e ver o que estava acontecendo lá no lugar. A gente teve uma área lá do Maranhão que foi feito monitoramento de satélite um ano, em que a cidade era um pontinho, um cruzamento de rodovias, e dez anos depois era uma mancha preta no satélite. Que diabo era essa mancha preta no satélite? Aquela cidade estava na rota do minério de ferro de Carajás pra exportação e criou guzeras, que transforma minério de ferro em ferro guza. E pra fazer isso o que eles estavam fazendo, usando carvão vegetal. Então estavam desmatando. O que a gente enxergava preto era fuligem de carvão. Que cobria a cidade inteira. A investigação… A gente podia olhar e dizer que a imagem de satélite estava meio borrada, mas a gente foi lá e viu o que que era aquele negócio preto.

Gradativamente a gente foi conquistando respeito para a cobertura ambiental. Uma cobertura já não daquele bando de hippie, mas que realmente começou a conquistar respeito.

A Rio 92

Na Rio 92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), a gente sabia dessa importância. Começamos a fazer reuniões com as pessoas. Primeiro a gente começou a produzir vários materiais, um glossário de temas ambientais para os jornalistas que não eram especializados e que seriam deslocados para a cobertura entenderem minimamente o que eles estavam cobrindo. A gente teve que dar preferência pra pessoas que falavam duas línguas. A gente teve jornalista de esporte deslocado pra fazer a Rio 92.

Na primeira reunião que a gente teve da Rio 92, de coordenação, com o Luiz Maranhão, chefe da sucursal do Rio de Janeiro da Agência Estado, no fim de 1990, início de 1991, ele queria deslocar quatro repórteres pra cobrir esse evento. Eu e o Rodrigo perguntamos se ele tinha ideia do que seria o evento. Pra vocês terem uma ideia ele queria por quatro e a Agência Estado levou 50. A gente deslocou todos os correspondentes. O William Wack era correspondente em Berlim. O Rabino (Moisés Rabinovich) era correspondente em Washington. O Paulo Sotero era em Nova Iorque. E o Reali Junior era de Paris. O Reali foi deslocado de Paris não fez nem um dia de cobertura e teve um infarto.

De 4 a gente foi pra 54 jornalistas. A gente fez vários acordos. O governo brasileiro foi transferido para o Riocentro. Além da cobertura da própria conferência a gente tinha a cobertura de Brasília que foi toda deslocada para o Rio de Janeiro. Os ministérios estavam lá. O presidente estava lá. Estava tudo lá. Estava começando o impeachment do Collor. Um acordo que foi interessante foi com a Motorolla. Eles forneceram pra gente pagers com mensagem pra testar. O que existia na época era bip. Você ligava pra uma central pra saber qual era o recado. O pager já dizia qual era a mensagem. “Oh… tá chegando o Fidel Castro, vão lá entrevistar ele”. Você recebia a mensagem em si. Não podia ainda mandar de volta, mas recebia. Eu fiquei na cobertura do evento oficial. O Riocentro é longe pra caramba de tudo. Nossa sucursal era no Flamengo, do lado do Aterro do Flamengo. A gente teve que montar um laboratório de fotos perto do Riocentro porque não tinha nada perto. Alugamos uma suíte no motel Monza com cama redonda e era o nosso laboratório de fotografia porque era perto do Riocentro. Os fotógrafos montaram lá um laboratório na banheira e revelavam os filmes. Tinha telefoto que a gente transmitia.

Outro acordo que a gente fez foi com a RNP, a Rede Nacional de Pesquisas. A sede era em Campinas. A RNP era a responsável pelo backbone da Bitnet, antecedente da Internet. A sede da RNP ficava na rua onde eu morava em Campinas. A gente conhecia o Tadau, que era o chefe da RNP, e ele tava tendo uma demanda do mundo acadêmico porque as pessoas não teriam condições de vir a Rio 92, mas queriam saber notícias. Então fizemos um acordo com a RNP. Eles colocaram uma série de tradutores lá no Instituto de Matemática do Rio de Janeiro e a gente foi repassando todas as notícias mais interessantes da Agência Estado, o pessoal da coordenação fazia uma triagem, para os tradutores que traduziam em tempo real para o inglês e colocavam na bitnet. Era só texto. Nem existia www. Fornecemos então para 180 países em tempo real o noticiário da Agência Estado para a RNP e em troca a RNP instalou no topo do prédio do Estadão lá na Marginal uma antena de micro-ondas voltada para a Fapesp que recebia o material da bitnet e a outra antena na minha casa que apontava para a Unicamp. A minha casa é bem perto da Unicamp e de lá tinha o tráfego pra Fapesp.


PERGUNTAS DO PÚBLICO

Mário Rocha: Cobertura ambiental transversal passando por todas as editorias, cobertura segmentada em cadernos e espaços específicos ou um mistura das duas coisas?

A gente já tinha na Agência e ao longo desses meus anos todos de jornalismo a gente sempre teve essa discussão da editoria especializada versus a transversalidade em todas as editorias ou da mista. Eu diria que é importante que o jornalismo ambiental seja feito por jornalistas especializados porque você precisa entender toda uma série de conceitos que são importantes pra você construir a matéria. Agora a publicação é muito importante que ela seja transversal. A resposta é mista. Eu acho que você tem que ter uma produção de matérias ambientais por jornalistas especializados, mas a publicação em diversas editorias. A gente começou a fazer isso na Agência em várias coberturas, por exemplo, a discussão do prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes lá em São Paulo que era um assunto da Editoria de Brasil, no entanto eu trabalhei nessa cobertura na parte que era de avaliação dos impactos ambientais. Aí você vai falar com um público que não é iniciado. Eu acho que esse é um dos problemas do jornalismo ambiental que é você falar para quem já está convertido. A gente precisa das outras editorias para falar para um público não convertido porque meio ambiente é justamente um bem comum. Se você consegue conquistar um dono de empresa poluente para pelo menos mudar algumas práticas é muito mais eficiente do que você conquistar um monte de gente que pode fazer uma manifestação na frente da empresa dele e o cara vai ficar com medo da violência e não vai querer nem ouvir o que as pessoas estão falando. Em termos de eficiência para o resultado que a gente quer que é um meio ambiente mais saudável, um desenvolvimento mais sustentável, alternativas mais interessantes, acho que você tem que falar com um público que não é o seu público fácil que é o seu público já convertido.

Eloisa Loose: O jornalismo ambiental pode ser feito em formato de notícia na cobertura factual?

Uma coisa que eu acho muito importante é essa coisa do jornalista ter agenda própria. Não só as comunicações oficiais de governo ou de empresas procuram dirigir a notícia que vai ser produzida ou a reportagem que vai ser produzida, mas também as das ONGs ambientalistas. Cada um tem sua agenda própria. Cada fonte de informação tem uma agenda própria. Então o jornalista não pode estar nem alinhado com as empresas ou publi-informação, nem alinhado a agenda das ONGs, que não é a mesma agenda do jornalista ambiental. Embora no fundo, no fundo todos queremos defender meio ambiente, existem agendas específicas de ONGs que não é nosso papel reproduzir fielmente. Eu acho que a gente tem que manter o espírito crítico. Quando eu falo reportagem, não é só exclusivamente a reportagem de ir lá no lugar, não é todo tempo que você pode fazer isso, você sendo um jornalista especializado você consegue identificar dentro da notícia aquilo que é um posicionamento de comércio exterior, um posicionamento de barreira ambiental com finalidade de exportação/importação. Tudo isso existe. Nós estamos em um mundo que é cheio de interesses. Então o jornalista tem que ter essa capacidade de diferenciar aquilo que é de fato uso do bem comum daquilo que puxar brasa pra minha sardinha. É importante que o jornalista tenha sua própria agenda. Por isso era extremamente rico esses grandes temas que a gente discutia na Agência Estado, a gente sentava e discutia o que estamos precisando discutir nesse momento. Então como a gente vai trabalhar esses temas. Ai o resultado disso, já respondendo a questão da notícia e da reportagem especial, era uma série de publicações que podiam ser notícia ou não, mas que estavam dentro de um tema que nós havíamos discutido entre nós que era a nossa agenda, da Agência Estado. O que nós queremos, qual a nossa postura pra defender isso. Por que às vezes quando você tem um jornalista especializado cobrindo uma coisa que vai ser a notícia do dia, você pode enriquecer aquela notícia com um conhecimento que não necessariamente você obteve ali na hora. Mas, você pode dar o contexto, pode falar de um acidente como Mariana, mas dar o contexto daquilo, dizendo como aconteceu, estava sem monitoramento a lagoa de contenção dos dejetos, enfim. O contexto faz parte da notícia também.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Incêndios florestais, seca, chuvas e a Havan em Canoas

Imagem: Reprodução do Matinal

Por Nicoli Saft*

À medida que a última semana transcorria, ficava cada vez mais difícil decidir sobre o que escrever para este Observatório. Começa a semana com o decreto de situação de emergência no Mato Grosso do Sul devido a incêndios florestais e a seca, seguindo com os também incêndios florestais nos Estados Unidos. Na quarta-feira, foi divulgada uma pesquisa do Inpe apontando que a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que absorve. Na quinta, uma excelente reportagem sobre a construção da Havan em Canoas (RS), eliminando com ela a última grande área verde do centro da cidade. Mas, então, chegou a sexta-feira, e as chuvas na Europa Central já haviam matado 120 pessoas. E o que todos estes acontecimentos informam sobre nosso tempo?

A emergência climática não está apenas no futuro, está acontecendo agora. E o que estamos fazendo? Bom, construindo lojas de departamento em áreas de preservação permanente, é claro. A reportagem “Instalação da Havan em Canoas abre caminho para o fim da última grande área verde no centro da cidade” foi escrita pelos estudantes Júlia Ozório, Nicole Goulart, Rafael Pereira, Eduarda Stefenon e Valentina Bressan, da UFRGS, e por Naira Hofmeister, do Matinal. A investigação foi produzida pelos estudantes para a disciplina de Ciberjornalismo III, do curso de Jornalismo, ministrada pelo professor Dr. Marcelo Träsel.

A matéria denuncia o pouco caso que a administração municipal faz da destruição da mata em virtude de novos empreendimentos no local. Como um exemplo emblemático, poucos dias antes da derrubada das árvores, biólogos encontraram no local indícios de uma espécie de lagostim nunca descrita pela ciência, e temem que ela irá desaparecer com as obras. A reportagem é dividida em três: a primeira relata os problemas envolvendo a construção do prédio da Havan em Canoas, uma segunda mostra o histórico da empresa em desrespeitar o meio ambiente e as legislações municipais, e uma terceira relembra casos em que a Prefeitura de Canoas negligenciou o meio ambiente, recomendo a leitura de todas.

Não se fala em aquecimento global ou emergência climática na reportagem, mas o texto mostra como a degradação daquela área verde pode afetar os moradores. Sem os banhados para reter a água no solo, ocorrerão inundações frequentes. A fauna do Arroio Araçá, destino da água da inundação, poderá ser afetada também. O microclima do bairro será impactado, ficando mais quente. E com o aumento dos carros, aumenta a poluição atmosférica. A reportagem explica como tudo está ligado, como as coisas acontecem.

Algumas matérias sobre as chuvas nos países europeus ou sobre os incêndios florestais citam a crise climática, outras chegam até a apontar o que especialistas estão falando, trazendo a conexão existente entre os fatos e as transformações globais. Eu não espero que no dia de um desastre já se possa explicá-lo, é claro. Mas o que eu gostaria que acontecesse, no caso da tempestade, dos incêndios florestais, das secas e das ondas de calor, é que os jornais mostrassem, de forma clara, qual a ligação desses eventos com a destruição do planeta pela humanidade, algo que se pode ver – atentando para suas devidas proporções e diferenças – no rigoroso trabalho publicado pelo Matinal.

Não parece ser por acaso que a única reportagem aprofundada sobre o terreno em Canoas que eu encontrei foi escrita por estudantes e publicada em um veículo de mídia independente. Ir contra grandes empresários não é exatamente o que o jornalismo tradicional faz no seu dia a dia, infelizmente. Então temos aqui duas questões que podem ser aprendidas com o colegas que ainda está na faculdade: confrontar empresas e governos que destroem o meio ambiente e explicar como essa destruição nos envolve e nos afeta.

Para finalizar, deixo uma questão: o que podemos fazer agora para interromper este processo de exploração da Terra? O jornalismo precisa explorar pautas sobre quais ações são necessárias tanto para evitar o agravamento do aquecimento global quanto para fornecer qualidade de vida a todos durante a emergência climática que já estamos. É triste pensar isso, mas espero que agora que países ricos europeus também estão sendo brutalmente atingidos, possamos olhar para essas questões com mais seriedade.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Oportunidades para avançar na pauta da crise hídrica

Imagem: Pixabay

Por Eloisa Beling Loose*

Desde maio é possível observar, em diferentes meios de comunicação, uma frequente cobertura sobre os impactos, sobretudo econômicos, derivados da escassez da água. O sinal de que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão baixos desencadeou aumento na conta de luz e o receio de um novo apagão, como aquele sentido em 2001. Contudo, mais do que falar da água como recurso energético, o registro da pior seca dos últimos 91 anos serve de gatilho para que o jornalismo aborde os muitos interesses que envolvem sua disputa, como noticiou a CNN, e seu futuro em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.


Ao tratar esse contexto como de crise é preciso avaliar o quanto essa situação é mesmo atípica ou pode ser remediada no curto prazo. Uma nota técnica da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia aponta que este momento não é um desvio da curva que voltará ao normal, mas parte de uma tendência. As hidrelétricas estão com menos água porque os regimes de chuva estão mudando, resultado das alterações do clima – e isso não terá efeitos apenas em 2021. Mas, o que estamos fazendo para nos precavermos? O aumento da geração de energia por termelétricas, além de pesar no bolso do consumidor, contribui para a intensificação das mudanças climáticas em razão da maior emissão de gases de efeito estufa. Sofremos os efeitos da escassez hídrica e reagimos com medidas que tendem a potencializar o problema. Por quê? Quem ganha com isso?


A matéria do El País O que liga o aumento na conta de luz ao desmatamento da Amazônia e à emergência climática? Tudo” trouxe uma conexão importante, não apenas com o clima, mas também com o desmatamento da Amazônia (que nem sempre é vinculado à crise climática). É importante repetir que os fenômenos estão interligados e que o desmonte de políticas públicas ambientais afeta todo nosso modo de vida porque não há nada isolado na natureza. A perspectiva ambiental ajuda a compreender que água é um bem que deve ser cuidado por toda humanidade. O que estamos fazendo?


Apelar para a consciência do usuário também não é (ou deveria ser) o bastante. Utilizar a água com parcimônia é necessário, porém vale investigar quem são os grandes consumidores deste País e como se dá sua gestão. Nossa situação não é decorrente do acaso, de “um azar”, como declarou o presidente Jair Bolsonaro, mas de falta de planejamento e ações efetivas contra as mudanças climáticas. Leonardo Sakamoto, em sua coluna do UOL, destaca a conexão da falta d’água com a emergência climática, finalizando seu texto com o chamado para atuarmos em diferentes frentes: na geração de energia, no abastecimento, na produção industrial e na agropecuária.


Uma das poucas matérias encontradas nesta última semana que discute o uso da água pela agropecuária e coloca em xeque sua forma de produção é feita pela BBC Brasil. Nela, além da articulação entre a questão climática e o desmatamento, atrelada à expansão agrícola, é abordado o processo de irrigação das lavouras – em parte da bacia do Paraná, ela é responsável por 90% do consumo, que poderia ser destinado para o abastecimento das cidades ou geração de eletricidade. Segundo relatório da Agência Nacional das Águas de 2021, a irrigação é responsável por quase 50% da demanda de todo Brasil e esse número deve crescer para ampliar ou até mesmo manter a produtividade. Quais serão as consequências disso para os outros setores?


As secas, decorrentes da falta de chuvas, são processos longos e que costumam ser “normalizadas” com o tempo, recebendo menos atenção midiática do que outros eventos extremos mais intensos e de curto prazo. Que o aumento da conta da luz ou a ameaça do apagão para a reeleição de Bolsonaro transforme-se em oportunidades para que a cobertura da água seja mais problematizada e ganhe diversos enfoques. A questão hídrica é somente uma das facetas de um emaranhado de crises gerado pelo nosso modelo de desenvolvimento. Quando vamos falar mais sobre isso?

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Do frio brasileiro ao calor do Canadá, a importância de contextualizar a pauta do clima

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Uma onda de frio percorreu grande parte do país nesta última semana, do Sul ao Centro-Oeste. Já se tornou relativamente comum que, nesses momentos e em todos os anos, saiam dos porões — há muito abertos — negacionistas de plantão vociferando contra a existência e intensificação do aquecimento global. Quando acontece, trata-se de uma pseudodisputa: não interessa a eles a vitória de suas narrativas mentirosas, basta o simples questionamento na sociedade, a pura suspensão da certeza científica, o desvio do foco de atenção do que realmente importa. É possível que até mesmo a família Bolsonaro já tenha se cansado de propagar a mentira do frio, dessa vez mais preocupados com o desenrolar da CPI da covid-19 e com as denúncias sobre o ex-ministro, Ricardo Salles, relacionadas ao favorecimento de madeireiros ilegais na Amazônia.

Ondas sazonais de frio em nada contradizem a emergência climática (ao contrário, podem ser efeitos dela), e é importante que isso esteja claro sempre que a desinformação mentirosa ousar aparecer. Acontece que, nesta semana, isso ficou mais explícito diante do contraste radical e concomitante ao nosso “frio”, a partir das ondas históricas de calor registradas, mais uma vez e ano após ano, em países do hemisfério norte. Que o verão deles é no nosso inverno, não é novidade; mas um país como o Canadá bater três recordes seguidos, alcançando históricos 49,6º C, é mais do que preocupante. As centenas de mortes em decorrência direta das ondas de calor evidenciam um novo risco à saúde humana tão importante quanto aqueles relacionados aos grandes desastres já intensificados pela emergência climática, como furacões, ciclones, entre outros fenômenos. Pessoas com doenças crônicas, idosos e crianças são ainda mais vulneráveis ao estresse térmico provocado pelas ondas de calor, como informa a Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade.

Entre as matérias publicadas no G1 sobre o tema, uma de autoria da BBC News e restrita à editoria Natureza (seção Aquecimento Global) é a mais qualificada, ao abordar os fatores meteorológicos para o calor e contendo uma breve análise de um especialista sobre o aumento da probabilidade desses eventos em função do aquecimento global. Já a notícia com pauta mais factual e inédita (no jargão jornalístico, mais “quente”) sobre o caso, na editoria Mundo e de autoria do próprio G1, falha ao apenas noticiar as mortes e as temperaturas do Canadá, negligenciando a discussão sobre a emergência climática, relegada a uma pequena frase no final da matéria. No dia seguinte, esta matéria do mesmo portal noticia o incêndio que devastou um vilarejo canadense e, novamente, relega as mudanças climáticas à última frase da matéria, desta vez em tom de inevitabilidade: “Cientistas avisam que, com as mudanças climáticas, fenômenos do tipo ficarão mais frequentes”.

A frase não está errada, e é importante que se frise a direção trágica que a humanidade caminha. No entanto, é imprescindível que o jornalismo não se ausente da elucidação dos contextos, causas (sobre os efeitos climáticos irreversíveis “em dominó”, a BBC publicou ótima matéria nesta semana) e medidas a serem tomadas, sobretudo nas publicações para o grande público, para além das editorias especializadas no assunto. Fica também implícita, aí, a necessidade de uma dimensão política e ativa inerente ao exercício jornalístico. Vale tanto para elucidar um tipo de senso comum sobre o frio, quanto para realçar e lembrar, sempre que possível, a altíssima associação, em termos probabilísticos, do aquecimento global com as ondas de calor.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Como comunicar as novas propostas de recuperação do Arroio Dilúvio?

Imagem: Simulação do passeio de caiaque / Instituto de Pesquisas Hidráulicas e Núcleo de Tecnologia Urbana da UFRGS

Por Matheus Cervo*

No dia 27 de maio de 2021, o Zero Hora publicou uma notícia sobre a proposta do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) e do Núcleo de Tecnologia Urbana (NTU) da UFRGS para revitalização do Arroio Dilúvio de Porto Alegre. A notícia é exposta pelo jornal Zero Hora como um “jornalismo de soluções”, o que é descrito como “o debate de saídas para problemas relevantes, com diferentes visões e aprofundamento dos temas (…), visando o aprofundamento da sociedade”. De início, a notícia afirma que o Dilúvio é um “símbolo dos problemas de saneamento” de Porto Alegre, já que se trata de um córrego com 17,6 quilômetros de extensão que se encontra há muitas décadas poluído.


As obras que realizaram a canalização e a retificação do arroio são um problema para a cidade até hoje, tanto em relação às questões ambientais referentes às águas urbanas quanto em relação à impossibilidade de aproximação e uso do arroio devido à estrutura urbanística criada. Não é trivial que esse projeto tenha surgido e que esteja sendo noticiado em 2021 – afinal, as obras de revitalização da orla do Guaíba seguem o seu curso após as polêmicas causadas, e o Dilúvio deságua justamente em uma parte do trecho três da reforma urbanística. Desde o ano passado, existem equipes que estão realizando um projeto de limpeza e revitalização em uma parte do arroio de aproximadamente dois quilômetros.


Neste ano, idealiza-se uma intervenção em um trecho pequeno que fica no cruzamento da avenida Ipiranga e da avenida Cristiano Fischer – o que também não é trivial, posto que essa localização está próxima do complexo institucional da PUCRS. Um dos proponentes deste projeto é Fernando Dornelles, professor adjunto do IPH. O pesquisador docente expôs ao Zero Hora que esse projeto vislumbra uma paisagem urbana que tenha exposições de arte, espaços para apresentações, cafeterias flutuantes, aluguel de caiaque e outras formas de revitalização. Contudo, expôs também que esse seria um projeto urbanístico piloto que poderia limpar apenas uma pequena parte do Arroio Dilúvio, já que a complexidade da limpeza total desse curso d’água envolve questões muito mais complexas como a resolução dos problemas de saneamento básico da população – um problema clássico em Porto Alegre.


Como não se cogita um projeto mais complexo que realizaria de fato a despoluição do dilúvio, o Zero Hora relata que os pesquisadores estão avaliando a construção de uma galeria nas laterais para desviar parte do fluxo d’água que “não seria possível tratar”. Almeja-se instalar ecobarreiras e wetlands em várias partes do curso do arroio, mas a finalidade principal é revitalizar esse trecho que fica próximo à PUCRS para que as águas sejam desfrutadas por moradores urbanos que possuem um estilo de vida muito específico. O próprio jornal escreve alguns pequenos parágrafos sobre a duração desse problema ambiental na nossa cidade, mostrando como outras gestões municipais tentaram realizar projetos mais complexos do que esse.


Em 2012, professores da UFRGS e da PUCRS lançaram um plano de ação que listava 171 ações consideradas necessárias para realmente recuperar a bacia e despoluir toda água. Entre essas inúmeras ações, o próprio Zero Hora destaca que essa equipe propusera a criação de políticas públicas para saneamento básico, regularização fundiária, educação ambiental, trânsito (entre outras) para que fosse possível uma real recuperação do Arroio Dilúvio. Importante lembrar também que, poucos anos antes dessa proposta, foram feitas pesquisas antropológicas na UFRGS acerca da memória desse curso d’água relacionado aos problemas socioambientais de Porto Alegre, o que culminou no documentário chamado Habitantes do Arroio.


Essas informações são fundamentais para realizar uma genealogia deste conflito na nossa cidade e para recuperar a memória dos espaços urbanos, já que um arroio de 17,6 quilômetros de extensão é um espaço muito grande para ser reduzido à uma área urbana de classe média/alta como as redondezas da PUCRS. Por isso, acredita-se que o Zero Hora poderia ser mais crítica e propor um “jornalismo de soluções” que esteja unido aos princípios básicos do jornalismo ambiental desenvolvido pela UFRGS. Afinal, uma das bases desse tipo de jornalismo é o pensamento crítico e sistêmico, o que pode envolver a recuperação da memória de certos conflitos socioambientais para que seja possível propor soluções que realmente aprofundem os problemas citadinos que temos. Falta uma cobertura jornalística por parte de Zero Hora que tenha uma pluralidade de vozes maiores.

* Cientista Social com ênfase em antropologia e atual mestrando do programa de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com bolsa Capes.

Jornalismo ou comunicação ambiental?

Imagem: Captura de tela – Assuntos em destaque na capa do movimento editorial Um Só Planeta, do Grupo Globo, no dia 22 de maio de 2021

Roberto Villar Belmonte*

O Grupo Globo lançou em 2021 um movimento editorial para enfrentar a crise climática chamado Um Só Planeta. Formada por 19 veículos, entre eles os jornais O Globo, Valor Econômico e a rádio CBN, a iniciativa tem desde o início quatro patrocinadores: Ambipar Group, Braskem, Engie e Natura.

Manifesto publicado no final de março explica que o objetivo é produzir um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira: “Estamos aqui para, ao seu lado, provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais e comportamentais em relação ao lugar que moramos”.

O portal do movimento tem cinco editorias: clima, energia, finanças, sociedade e biodiversidade. Há também 22 colunas e blogs de especialistas, entre eles Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, e Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável.

Angelina Jolie posa coberta de abelhas e pede mais conservação era uma das cinco notícias mais lidas no sábado passado, 22 de maio, assim como o primeiro sequenciamento genético de uma serpente brasileira — a jararaca e o plano de Joe Biden para tornar as casas e edifícios americanos “mais verdes”.

No mesmo dia, a manchete de capa do portal criado pelo Grupo Globo para enfrentar a crise climática era a seguinte: “Do cativeiro à vida boa no Cerrado: elefantes ganham segunda chance em Santuário na Chapada dos Guimarães”. O texto descreve a curiosa iniciativa com apenas uma fonte, o diretor do local.

Inaugurado em 2015, o local resgata animais que passaram a vida em circos e zoológicos. Ainda segundo a notícia, a presença dos elefantes, atualmente quatro animais vivem por lá, ajudaria na regeneração da antiga fazenda de gado localizada no cerrado mato-grossense.

Apesar de não ter relação com a crise climática, a iniciativa foi divulgada pelo movimento editorial que pretende “provocar uma real e transformadora mudança de padrões mentais”. Histórias interessantes rendem pauta neste tipo de jornalismo de soluções, desde que sem conflito, sem denúncia e sem investigação.

Já o cerco ao ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, principal pauta ambiental dos últimos dias, tem tudo a ver com enfrentar a crise climática. Mas esse não é considerado um tema para o Um Só Planeta. Para esse movimento editorial patrocinado, só importam as soluções econômicas e tecnológicas.

Por que a política de desmonte e o agora cerco ao ministro que incentiva a destruição da floresta amazônica são pautas frequentes no jornal O Globo e são ignoradas no portal construído pelo mesmo grupo para praticar um jornalismo que combate a indiferença, encoraja e gera a faísca que inspira para enfrentar a crise climática?

O que está em disputa no campo do jornalismo brasileiro desde os anos 1990, quando o setor empresarial entrou no debate ambiental, é o que pode e deve ser dito sobre o meio ambiente. Os consultores de marketing batem insistentemente na tecla da comunicação de boas histórias, consideradas, essas sim, inspiradoras e dignas de atenção.

E o jornalismo que combate os poluidores? Desmobiliza, assusta e afasta os consumidores da causa ambiental, dizem. É por isso que quando o Grupo Globo cria um portal patrocinado para “enfrentar a crise climática” o que aparece é um conteúdo de comunicação ambiental em sintonia com o mercado (“verde”).

A mistura entre jornalismo e comunicação é uma das características da atual fase da profissão consolidada no último quarto do século passado. Segundo Charron e De Bonville (2016, p.30), nesse jornalismo de comunicação “o tom e o estilo do discurso promocional impregnam o discurso da imprensa”.

Tal confusão parece ser menos latente em empreendimentos jornalísticos que surgiram no país nas últimas duas décadas, entre eles revista piauí, O Eco, Repórter Brasil, Infoamazônia, Agência Pública, The Intercept Brasil e Amazônia Real. Jornalismo ambiental sem combate é (só) comunicação.

Obviamente que a comunicação ambiental, praticada por todo tipo de profissional e em qualquer mídia, é necessária e fundamental no enfrentamento da crise climática. No entanto, jornalistas não deveriam, em nome da mobilização da sociedade para um novo mercado, abrir mão da função crítica que define a profissão.

Referência:

CHARRON, Jean; DE BONVILLE, Jean. Natureza e transformação do jornalismo. Florianópolis/Brasília: Insular/FAC Livros, 2016.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Licenciamento ambiental: a complexidade além da didática

Imagem: Reprodução da reportagem publicada na Folha de São Paulo

Patrícia Kolling*


Com o objetivo de escrever para este observatório, fui em busca de textos jornalísticos que tratassem da pauta da semana: o projeto de lei com novas regras para o licenciamento ambiental e sua aprovação na Câmara dos Deputados. Numa busca rápida encontrei no G1, a matéria Nova lei do licenciamento ambiental: entenda os próximos passos e o que está em jogo que, de forma didática e interessante, tornou o tema compreensível em sete pontos: o que é licenciamento ambiental, o que diz o novo projeto aprovado na Câmara, os argumentos dos dois lados (a favor ou contra), os próximos passos, o que está em jogo, o que dizem as organizações ligadas ao meio ambiente e o que diz o relator do projeto. O tema é técnico e, ao ser instrumento de uma lei, torna-se ainda mais complexo, sendo necessário que o texto jornalístico o decodifique para uma linguagem acessível à população. A jornalista Carolina Dantas faz isso, ao explicar e exemplificar termos, como “licenciamento simplificado” ou “bifásico”, “de fase única” e “por adesão e compromisso”, propondo um comparativo com a lei em vigor. O texto traz um especialista em direito ambiental para detalhar o ponto mais criticado da nova lei, a Licença por Adesão de Compromisso (LAC) que exige apenas uma autodeclaração do empreendedor. Mostra os argumentos de quem é a favor do Projeto de Lei: “acelerar o processo e reduzir a burocracia e dos contrários novos empreendimentos” e de quem é contrário: “aumentar a destruição dos biomas brasileiros, colocar em risco populações tradicionais e piorar ainda mais a imagem do Brasil no exterior”. O texto também mostra o que aconteceria na prática hoje, se o projeto fosse aprovado no Senado e sancionado pelo presidente: estradas como a BR-163, que corta a Amazônia e faz o transporte de grãos entre Pará e Mato Grosso, e a BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, poderiam ser asfaltadas sem a necessidade de um licenciamento ambiental.


A matéria jornalística, porém, não nos permite compreender, como um projeto de lei tão criticado por dezenas de organizações, ambientalistas, políticos e pesquisadores e que deve piorar ainda mais a imagem internacional do Brasil frente as questões ambientais, consegue ser aprovado na Câmara dos Deputados por 300 votos. Ou seja, os meandros políticos e econômicos do cenário de aprovação deste projeto de lei não são apresentados pela jornalista do G1.


Na Folha de São Paulo, dois textos trazem à tona alguns destes aspectos. A repórter Danielle Brant, na matéria Câmara conclui votação de projeto que flexibiliza licenciamento ambiental, citando o deputado Camilo Capiberibe (PSB-AP), destaca que com a aprovação deste projeto de lei o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, entrega ao presidente da República o que foi combinado quando ele foi apoiado à presidência da Câmara e que este é sonho do presidente: ocupar a Amazônia, sem nenhum tipo de restrição, como na época da ditadura militar.


Uma análise de Ana Carolina Amaral, Licenciamento de exceção traz risco ao ambiente e também ao empreendedor, também na Folha de São Paulo, traz os argumentos das organizações ambientais para o perigo do projeto de lei, que pode criar uma insegurança jurídica, pois dá aos estados e municípios o poder de definir as atividades ou empreendimentos que necessitam de licenciamento. Além de abordar a necessidade de debate público do projeto, o que não foi realizado até o momento. Os textos da Folha nos dão indícios de que a aprovação em regime de urgência desse projeto, em um momento de tensão na CPI da covid, e sem debate público, foi uma estratégia dos deputados ligados ao agronegócio, ao centrão e à base do governo. Porém, não aprofundam os interesses econômicos do projeto, que são levantados nos comentários de um leitor da Folha, ao reclamar do jornalismo produzido: “nenhuma palavra sobre: ao se transferir a responsabilidade do licenciamento a estados e municípios, estimular-se um afrouxamento dos patamares mínimos de restrições no sentido de atraírem-se investimentos; o autor do projeto ser um produtor rural já condenado; as diversas modalidades de exploração que, injustificadamente, tornaram-se isentas de fiscalização”. Ele ainda questiona o fato de nenhum ambientalista ou ONG ter sido fonte da matéria. “Mais parece propaganda da lei”, encerra do leitor.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Desertos de notícias imprescindíveis

Imagem: Reprodução de JornalJá/ Deriva Jornalismo.

Por Eliege Fante*

Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, foi construída pelos imigrantes europeus sobre um território de encontro entre os biomas Mata Atlântica e Pampa, ou seja, um florestal, outro campestre. A transformação dos hábitats das outras espécies da flora e da fauna nas estruturas que sustentam o desenvolvimento econômico inspira os demais municípios do estado. No entanto, a qualidade da água e do ar estão precárias, apesar do cumprimento dos padrões legais, com o agravante de a conservação dos ecossistemas não ser uma prioridade na gestão deste território. Por exemplo, através da atualização da lista das espécies ameaçadas da flora de POA, tão reivindicada pelo movimento ambientalista. Documento elaborado pelo Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Ingá) em 2016, e entregue ao Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comam) e a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM), explicava: “Sem as informações do estado de conservação de nossa flora e fauna e da capacidade de suporte de atividades de impactos negativos e potencialmente sinérgicos, estaremos licenciando empreendimentos no ‘escuro’. Ou seja, sem a base de dados necessária para predizermos as consequências futuras de tais atividades, em geral progressivamente degradadoras, em um contexto local de expansão urbana quase sem limites”.

Enquanto a pauta da conservação, para o próprio desenvolvimento, segue sob disputa de sentidos entre os grupos sociais, com representação no Comam e na Secretaria, informações circulantes denunciam o avanço da especulação imobiliária sobre o que resta de áreas naturais em Porto Alegre. E, com o agravante de constituir uma ameaça às vidas humanas, e suas culturas, que estão no Território Indígena (TI) Pindó Poty, no bairro Lami, Zona Sul. A maior parte das informações tem sido divulgada pelas próprias fontes – que poderiam ser entrevistadas pela imprensa-, através dos seus sites e páginas de redes sociais, a respeito de invasões na área, que ainda não teve concluído o processo de regularização fundiária pela União e a Fundação Nacional do Índio (Funai). A mobilização da comunidade Mbya Guarani e de diversas entidades apoiadoras, entre elas, muitas não-indígenas, segue intensa: denunciando, cobrando a responsabilidade dos órgãos, realizando eventos públicos e atividades no território, como o plantio e replantio de mudas frutíferas. No entanto, a qualidade da cobertura dessa pauta imprescindível, pela imprensa porto-alegrense, está precária. É o que sugere o resultado de uma busca, realizada em oito de maio último, em oito sites de jornalismo com palavras-chaves “Indígenas”, “Índios”, “Lami”.

Nos quatro sites da imprensa hegemônica, apenas no Correio do Povo, a busca resultou em uma notícia com a palavra-chave Índios e com Lami (a mesma), publicada em 22 de abril de 2021: “Ato reivindica demarcação de terra indígena, em Porto Alegre”. Reportou a mobilização em prol da demarcação do Território Indígena (TI) com as seguintes fontes citadas: o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), José Otávio Catafesto de Souza, que confirmou que o processo não está andando e as informações sobre motivações dos invasores se referirem a especulação imobiliária; nota do Ministério Público Federal sobre ação ajuizada em 2019 determinando a finalização dos procedimentos administrativos de identificação e delimitação das áreas de ocupação tradicional indígena pela União e Funai e, ainda que, em julho de 2020, soube de um casebre irregular situado na TI; e a Funai, que apenas repetiu que o processo está em andamento. Impossível não deixar aqui para refletirmos: por que nenhum membro da comunidade Mbya foi entrevistado? Caso chegue alguma resposta, poderemos publicar neste espaço.


Abaixo, um quadro apresenta as palavras-chaves e os links cuja busca atribuiu os resultados. E, ao clicar no nome do jornal, o link conduz à apresentação que a empresa de comunicação faz de si.

Fonte: Elaboração própria.

Imprensa não hegemônica: correlação invertida


Já nos quatro sites da imprensa não-hegemônica, a busca com as palavras-chaves que, não trouxe nenhum resultado relativo à pauta em questão aqui, ocorreu em apenas num deles. É o que mostra o site do Extra Classe clicando em Indígenas, Índios ou Lami. Neste caso, assim como nos casos das outras três buscas (nos jornais hegemônicos) que não resultaram em notícias como era esperado, vale ressalvar que a falta de ordem na data pode ter impedido a sua identificação. A seguir, veremos um pouco de cada uma das únicas notícias publicadas pelos outros três sites.


O Jornal Já publicou reportagem do jornalismo independente “Deriva”, que está acompanhando no local a sucessão de acontecimentos, intitulada “Invasores montam barracos e desmatam território indígena no Lami, em Porto Alegre”. A pesquisa no site do Já apontou a notícia, de 20 de abril de 2021, através das palavras “indígenas” e “Lami” (não foi possível copiar o link). Além de trazer as informações dos órgãos públicos responsáveis, disponibilizou uma entrevista no YouTube com o cacique da TI, informações sobre os estragos causados pelos invasores e o contexto histórico: “A Aldeia Pindó Poty está em um território ancestral. Compõe junto com as aldeias do Cantagalo, Itapuã, Ponta do Arado, Lomba do Pinheiro uma grande área de circulação e de ocupação deste povo originário nas matas da Zona Sul da cidade de Porto Alegre.” Fotos grandes e de qualidade ilustram ricamente o encontro presencial do jornalista com as fontes principais.


Também ilustrada com imagens, o Matinal publicou, em 22 de abril, “Por omissão da Funai, guaranis de todo o Estado vêm a Porto Alegre blindar território de invasores”. A reportagem foi a mais completa, na diversificação das fontes, em comparação com as outras deste grupo. Foi localizada a partir das palavras-chaves Índios e Lami.

Ligada à palavra-chave “Lami”, o Sul21 trouxe informações importantes a partir de entrevista com uma fonte vinculada a entidade indigenista, em 20 de abril, sob o título “Mbya Guarani denunciam invasão de terra indígena no Lami para construção de loteamentos irregulares”. Parece que nenhum membro da comunidade Mbya Guarani foi entrevistado: “De acordo com o Cimi, a comunidade já notificou o Ministério Público Federal (MPF) e a Fundação Nacional do Índio (Funai) cobrando medidas para evitar as invasões. Os indígenas, segundo o Cimi, temem ser expulsos de suas casas pelos invasores.”


Em comum, nos oito sites selecionados para este exercício de observação, foi marcante a insistência dessa imprensa porto-alegrense, em seguir repetindo (das fontes), reproduzindo, e assim, produzindo, o conceito equivocado de “índio”. Daniel Munduruku tem explicado com generosidade o que nos cabe aprender como o Nonada, entre outros, já fizeram.


Já entre os quatro sites que publicaram a pauta, marcou, também, a coincidência entre a data da publicação e a convencional comemoração do “Dia do Índio”. Como as Retomadas Indígenas estão bastante ativas, a cobertura sobre o estado de conservação das últimas áreas remanescentes dos dois biomas nos municípios gaúchos, especialmente em Porto Alegre, deve se ampliar significativamente, ainda mais podendo-se ouvir as fontes “guardiãs da biodiversidade” conforme a ONU classificou os povos indígenas recentemente.


Não obstante seja conhecido o conjunto de dificuldades enfrentadas nas redações jornalísticas em geral, as crescentes demissões e a consequente sobretensão naqueles profissionais mantidos, além da sobreposição da pauta da covid-19, as pautas não mudam os status, como o de imprescindíveis. A qualidade das informações que os habitantes dos municípios necessitam para exercer a cidadania, também aparece na iniciativa Atlas da Notícia, que visa mostrar onde se encontram os chamados “desertos de notícias”, ou seja, aqueles que não possuem meios jornalísticos. Porto Alegre que possui os sites mencionados, e muitos outros, certamente não é um deserto, entretanto, a precária e limitada cobertura coloca esta população sob o risco de viver em um deserto de pautas imprescindíveis.

*Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com.

Conteúdos patrocinados vão esvaziar ainda mais a dimensão coletiva e política da pauta ambiental?

Imagem: Captura de tela do Estadão

Por Reges Schwaab*


Tendência entre grandes grupos de jornalismo, os estúdios de conteúdo – que se ancoram em elementos do fazer jornalístico, mas oferecem conteúdo sob encomenda -, começam a ter nas temáticas ambientais um filão de mercado. O fenômeno também pode ser lido no contexto de uma discussão sobre os rumos da economia no pós-pandemia e da própria crise do jornalismo (ou das empresas de mídia).


Um exemplo recente é o Estadão Blue Studio, do jornal O Estado de S. Paulo, que nos últimos dias entregou diversos conteúdos relacionados ao ambiental sob o guarda-chuva do projeto Retomada Verde, lançado no ano passado. O argumento central do Retomada é, justamente, dar conta de um “movimento global” que estaria ganhando espaço no Brasil, “com empresários, economistas e personalidades endossando a necessidade de fortalecimento da bioeconomia, de cidades mais sustentáveis e de um novo modo de vida e consumo”.

Tais projetos editoriais evidenciam o ambiental como eixo central do contemporâneo, e um “verde” tomado como objeto pelo próprio jornalismo. O extinto Movimento Planeta Sustentável, da editora Abril, revistas com edições verdes ou guias de sustentabilidade, o movimento Um só Planeta, do Grupo Globo, bem como o exemplo aqui assinalado, traduzem também uma tentativa de apaziguamento da natureza complexa e plural de um tema multifacetado.


Essas proposições estão ancoradas na parceria com atores econômicos selecionados, bastante cientes da importância de estarem colados a um discurso de referência. Os próprios causadores da degradação ambiental se apropriam da crítica à sua atuação para usá-la a seu favor, como argumenta André Soares em “A natureza e a cultura do eu” (Ed. Univali, 2003). Os jornais, por sua vez, utilizam seu valor simbólico e a imagem que usufruem na comunidade discursiva que alimentam como seus grandes produtos. Uma perspectiva crítica não deve ser perdida, uma vez que o viés jornalístico nem sempre é o preponderante, os horizontes editorial e empresarial têm sempre mais força nessas iniciativas. Fosse somente pelo interesse jornalístico, as editorias de meio ambiente seriam permanentes e alvo de real investimento.

Imagem: Captura de tela do Estadão

Neste exemplo, temos um texto bem escrito, com a utilização de fonte de alta credibilidade e reconhecida competência no tema. Ao navegar pela página do Retomada, os conteúdos que têm origem em ações com empresas, sob encomenda, recebem uma tarja de conteúdo patrocinado. Todavia, ao termos o tema assumido como projeto editorial e empresarial do próprio grupo de mídia, sempre caberá perguntar quem define a agenda. As pautas emergem naturalmente da observação apurada da realidade cotidiana? Ou elas estão determinadas por um contrato? Todas ou somente algumas? E se, eventualmente, algum dos patrocinadores estiver no centro de um acontecimento negativo, como isso se processará jornalisticamente? E mais: em um país assolado por ondas sucessivas de informação fraudulenta (fake news), em que a estética da notícia é usada para gerar identificação com conteúdos falsos como se fossem verdadeiros, haverá, no exercício da leitura e visualização desses conteúdos, o real entendimento e separação do que é genuinamente jornalístico do que atende a interesses acordados previamente? Com o andar da carroça, as abóboras não estarão tão acomodadas a ponto de não mais haver diferença de tom ou enquadramento entre os dois tipos de conteúdo?

Talvez estejamos observando, nesse caso, movimentos da busca por sobrevivência das empresas jornalísticas. Se for, que resultados trarão para a pauta ambiental nos jornais e revistas? Tudo isso merece ser debatido também a partir do estatuto do jornalismo, questionando se ele ainda pode ser preservado. Pensando nas premissas da liberdade, da pluralidade e da independência, a produção de conteúdo sob demanda pode ser classificada como produto jornalístico, pode figurar no mesmo espaço do jornal/site? E quando tudo está no mesmo espaço, seguindo o mesmo formato e linguagem, a tarja de conteúdo patrocinado é suficiente? Vale lembrar que lavouras de milho transgênico interferem e modificam as variedades tradicionais plantadas nas lavouras vizinhas.

Em se tratando de jornalismo, o interesse privado, que é igualmente central na economia verde, jamais trará resultados de matiz coletivo, ou seja, no sentido de amplificar a compreensão do social e ajudar a produzir o bem comum de forma equânime. Considerando a necessidade de um debate público realmente abrangente, e diante do cenário de desmonte das políticas ambientais no Brasil, a fragilidade do jornalismo enfraquece ainda mais a compreensão macro do ambiental, e sempre acaba por esvaziar a dimensão política do tema. Certamente a tecnologia tem seu papel no desenho de soluções, há muito que se discutir. Como adverte o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, no entanto, o caminho não está em transformar problemas éticos em problemas técnicos apenas.

* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo ambiental e a arte de contar boas histórias, mesmo que sejam más

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

*Por Ursula Schilling

Em tempos de #ForaSalles e de Cúpula do Clima, pode parecer difícil disputar espaço para outras abordagens sobre a pauta ambiental, mas é necessário e, felizmente, há exemplos de que é possível. Chamo a atenção para a reportagem publicada no site The Intercept Brasil, “Syngenta sabia dos riscos de agrotóxico que matou 100 mil pessoas, mas preferiu lucrar”, sobre a omissão da referida empresa no manejo do herbicida “paraquate”, um dos seus produtos mais vendidos. O químico, que é extremamente tóxico para humanos, segundo a matéria, também “perturba as membranas celulares das plantas e interfere no processo de fotossíntese, de modo que os efeitos podem ser vistos dentro de algumas horas. Por funcionar com tanta rapidez, o paraquate foi celebrado como um avanço significativo quando foi introduzido nos anos 1960”.

A longa reportagem levou em consideração 400 documentos, e o esforço de investigação resultou numa história bem apurada e com uma série de elementos. Se levar informações qualificadas ao leitor/espectador é a premissa básica do profissional de imprensa, o bom jornalismo também é, como diz o jargão, a arte de contar histórias — ainda que sejam más histórias. O desenvolvimento adequado, rítmico e consistente da narrativa envolve o leitor e, assim, ajuda a promover o engajamento no tema, em especial numa área que, como pontuado neste Observatório, necessita de ativa militância para que seja cotidianamente pautado pela opinião pública.

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil

Considerando a necessidade de uma perspectiva sistêmica para a cobertura midiática ambiental e não isolada das pautas cotidianas, o tema em questão — agrotóxicos — parece ainda pouco explorado, sobretudo nos meios de comunicação de massa. No caso de um portal como o The Intercept, a pauta recebeu um espaço grande o suficiente para atestar a importância do assunto. O tom é de denúncia, e o primeiro acerto se dá logo no título: sem meias palavras, destaca-se a importante informação — por vezes silenciada ou naturalizada nas coberturas-padrão — de que agrotóxicos, literalmente, matam.

Ao aprofundar o tema, no entanto, há um foco excessivo na questão da ingestão deliberada do paraquate (em suicídios), não trazendo um elemento central para a denúncia: estes produtos são usados em larga escala em lavouras de todo tipo, e os alimentos produzidos a partir da agricultura tradicional, que se vale de tais recursos para ganhar produtividade, vão para os nossos pratos. Haveria, certamente, espaço para uma melhor amarração, para uma abordagem que não desse a impressão de que o problema está em tomar deliberadamente uma dose do veneno. De qualquer forma, são importantes os fatos e dados trazidos pela matéria, mostrando a lógica da empresa e os efeitos funestos dela decorrentes.

Cabe reiterar ainda que, para o tipo de jornalismo que vai na contramão do desmonte das redações e da sobrecarga dos seus profissionais, é preciso uma porção de recursos fundamentais: humanos (jornalistas com condições dignas de trabalho e capacitados), materiais (para pesquisa, deslocamentos e tudo o mais necessário para uma boa apuração) e imateriais (tempo, coragem e retaguarda para fazer frente à oposição de gigantes da indústria de sementes e agroquímicos, por exemplo). Não é fácil fazer jornalismo de qualidade, mas torna-se cada vez mais imprescindível.

*Jornalista e membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo da casa de garrafa de vidro

Por Míriam Santini de Abreu*

Pululam sem parar notícias e reportagens que buscam mostrar as alternativas dos brasileiros empobrecidos para sobreviver. O desespero – como usar lenha na falta de gás para cozinhar – vira “resiliência” e capacidade “empreendedora”. A reportagem do Globo Repórter intitulada “Ameaçadas de despejo, mãe e filha erguem casa com mais de 4 mil garrafas tiradas do lixo”, disponível em https://glo.bo/2PqUURa, enquadra-se nessa abordagem (1). Mas, tal como o vidro, na reportagem insinuam-se facetas que deixam a luz passar.

“Foi um trabalho de formiguinha e de muita consciência ambiental”, define a reportagem, ao se referir às incontáveis vezes que as duas mulheres recolheram garrafas jogadas no manguezal de uma praia de Itamaracá, em Pernambuco, para construir a moradia, aprendendo inclusive técnicas de construção.

Está-se diante da práxis inventiva, da prática criadora de que fala o sociólogo francês H. Lefebvre. O fazer humano de duas mulheres excepcionais para restaurar no cotidiano, sozinhas, o direito de morar. Mas a reportagem, ainda evocando o pensamento de Lefebvre, não tira a máscara das coisas para revelar as relações sociais. Nos quase 10 minutos não há menção a qualquer instância do poder público que possa dar sentido ao trabalho imposto à mãe e filha, abordando a dificuldade de pagar aluguel e/ou comprar moradia no mercado imobiliário, principalmente com os recursos públicos cada vez mais escassos e o fim dos grandes programas habitacionais.

Mesmo a ideia do reuso de materiais não se potencializa por não implicar a indústria no compromisso com o que produz. Fica apenas a menção genérica ao “descarte sem respeito à natureza”. Uma abordagem socioambiental, ainda que breve, não faria a reportagem resvalar para o discurso tão em voga de que “enfrentar desafios e vencer” – como anuncia o programa – depende unicamente da capacidade de resiliência dos indivíduos.

Mas há brechas notáveis na reportagem, como dar o conhecer o cotidiano de mãe e filha, as dificuldades pelas quais passaram, a amorosa trama que as une no cotidiano, e, em especial, a fala das duas sobre a dureza da existência, agravada por serem negras em um país que se ergueu sob os ombros de escravizados. A repórter entra na casa – algo raro, antes ou agora, na pandemia, iniciativa ligada ao fato de a casa ser ela própria uma personagem. Lá dentro estão as delicadezas do morar, a colcha de fuxico, as almofadas coloridas, os quadros, os objetos da cozinha. “A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreveu o filósofo G. Bachelard. A repórter mostra rotinas como o preparo dos alimentos e o trabalho da filha, que estuda moda – tendo que gastar seis horas por dia para ir à faculdade – e cuida de um pequeno brechó nos fundos do terreno, divulgando nas redes sociais as peças vestidas por modelos negros.

Ao final da reportagem, a abertura da imagem aérea mostra a casa e, progressivamente, o seu entorno, o litoral recortado e habitado, a lembrar que cabe ao jornalismo desvendar por inteiro a experiência vivida no espaço, um produto social sobre qual a pequena casa de vidro tem, potencialmente, muito a contar.

1 – A reportagem foi exibida em 26 de março passado como parte de um programa intitulado “Conheça histórias de brasileiros que são exemplos de resiliência com o Globo Repórter” que continha, entre outras, a história de mãe e filha.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br

A humanização no jornalismo ambiental brasileiro

Imagem: Reprodução de notícia publicada em Mongabay no dia 18/01/2021

Por Patrícia Kolling*

Começar a ler um texto jornalístico, se deparando com a foto acima, que reflete um sorriso franco, um olhar firme e um rosto expressivo, é como sentir vida no texto e na história. O texto referente à foto conta a história de Osvalinda Alves Pereira, trabalhadora rural que vive no Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão, no sudeste do Pará. No dia 24 de novembro ela foi a primeira brasileira a receber o prêmio Edelstam, premiação sueca concedida as pessoas que contribuíram de forma excepcional, e com grande coragem para a defesa dos direitos humanos.

Segundo a notícia, em 2012, Osvalinda montou uma associação de mulheres para capacitar agricultores a difundir o projeto agroflorestal já consolidado em seu lote. O sistema criava alternativa de trabalho e renda para os assentados até então submetidos a condições análogas à de escravos na extração de madeira. Desde então, uma série de ameaças foram feitas a Osvalinda e ao seu marido Daniel. Duas sepulturas (com cruzes) foram construídas a 100 metros da sua casa em 2018, o que levou o casal a se retirar do assentamento durante 18 meses.

O assentamento é porta de entrada para um corredor de áreas protegidas e, cobiçadas por madeireiros ilegais. Ler a história, os dramas e as conquistas da mulher e trabalhadora rural Osvalinda nos aproxima da realidade vivida por ela e por outras centenas ou até milhares de pessoas que lutam pela preservação ambiental.

O jornalismo ganha seus méritos, quando suas notícias e reportagens abrem espaço para histórias de vida e relatos humanizados que nos aproximam das pessoas e das causas ambientais, como se elas estivessem acontecendo do lado da nossa casa, e não a milhares de quilômetros de distância. O texto vai entrelaçando a história de Osvalinda a outras informações, trazendo à tona as contradições nos discursos políticos, as irregularidades na fiscalização da exportação de madeira e também números sobre o aumento de áreas de desmatamento, que teve seu maior patamar da década, e, paralelamente, a redução das autuações por esse crime.

A reportagem, relação com a história de Osvalinda, mostra como a desestruturação das atividades de fiscalização ambiental, podem deixar ainda mais desprotegidas pessoas que, como ela, defendem os direitos humanos e se opõe a realização desta prática ilegal. Ou seja, nos permite ver como as determinações governamentais, criadas e aprovadas em Brasília, que privilegiam a impunidade, podem impactar no dia a dia das pessoas Brasil a fora, colocando em risco suas vidas.

É claro, que, jornalisticamente falando, Osvalinda foi pauta desta matéria devido ao prêmio recebido internacionalmente, o que dá caráter de atualidade e novidade a notícia, porém, mesmo que não tivesse sido premiada, é uma cidadã com uma história de vida determinante para instituir a empatia da sociedade às causas ambientais. No mesmo dia da publicação da notícia do Mongabay, 18 de janeiro, o Jornal Nacional veiculou uma notícia com números sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, incluindo o Pará, como estado em que o aumento do desmatamento foi mais significativo. Notícia bem produzida, com dados do Instituto Imazon, muitas imagens, mas na qual sentiu-se falta de uma Osvalinda para despertar no telespectador a sensibilidade às causas ambientais.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Bots, automação de dados e o jornalismo no encalço do garimpo

Por Mathias Lengert*

Imagem: InfoAmazônia. Bot do Amazônia Minada mapeia requerimentos minerários em áreas protegidas.

Nas redes sociais, especialmente no Twitter, robôs estão se tornando ferramentas ágeis para que jornalistas atualizem os leitores – e a si próprios – sobre informações de interesse público, sendo especialmente relevantes na cobertura de questões ambientais. Essas contas automatizadas, também chamadas de bots, são programadas com o auxílio de algoritmos para monitorar acontecimentos, decisões judiciais e colaborar com a transparência de dados.

A automação de dados favorece o rápido acesso a informações brutas e possibilita uma atuação jornalística aprofundada, que dispõe de mais tempo para investigar os dados levantados. Entre diversas iniciativas, três projetos estão vinculados à proposições ambientais, o bot do Amazônia Sufocada, que emite alertas sobre focos de queimadas nesse bioma, e o bot do Amazônia Minada, responsável por monitorar requerimentos de mineração em terras indígenas e unidades de conservação da Amazônia, ambos gerenciados pelo InfoAmazônia com apoio do Rainforest Journalism Found e do Pulitzer Center; e o Robotox, um projeto da Agência Pública e da Repórter Brasil, que informa sobre os agrotóxicos liberados pelo governo federal.

Embora essas ferramentas estejam alinhadas com um interesse por informações instantâneas, sem tratamento, elas não dispensam a responsabilidade do jornalista em contextualizar em seus textos os dados coletados pelos bots. Ao promover interrelações de um acontecimento com as suas circunstâncias, o jornalismo explora o contexto de dados e informações, até então fragmentados, e apresenta distintas realidades aos leitores. 

As pautas ambientais, como o avanço sórdido do garimpo em terras indígenas, por exemplo, demandam atenção para sua complexidade e urgência. A partir do bot Amazônia Minada, o InfoAmazônia organiza os dados e direciona as suas reportagens para essas necessidades. Ao investigar os recorrentes ataques de garimpeiros aos Yanomami, os dados do projeto indicaram que ao menos um terço de seu território estava sendo requerido para mineração na Agência Nacional de Mineração (ANM), uma área equivalente ao tamanho da Bélgica. Em reportagem recente, o veículo denuncia os pedidos de uma cooperativa de mineração para explorar uma série de territórios indígenas. Para isso, o InfoAmazônia mapeou os dados disponibilizados pelo Sistema de Informação Geográfica da Mineração, da ANM, além de questionar autoridades.

Enquanto os retrocessos da especulação e invasões em terras indígenas possuem o apoio de integrantes do governo de Jair Bolsonaro, o jornalismo do InfoAmazônia, por sua vez, realiza um significativo trabalho de monitoramento da destruição da floresta, seja a partir de dados ou da escuta de indivíduos impactados, e assim, contextualiza os impasses da exploração de minérios no ambiente amazônico. A automação de dados, por sua vez, é uma aliada produtiva ao jornalismo, permitindo que as investigações se estruturem a partir dos fatos mais alarmantes, sem deixar de promover interlocuções com o público.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

COP26 é mote para cobertura climática, mas busca ativa por pautas deve ser constante

Débora Gallas Steigleder*

A crise climática é uma pauta urgente e vem ganhando cada vez mais espaço no noticiário. Mas será que a cobertura jornalística de fato evidencia a complexidade dos cenários identificados pela ciência e de seu impacto em nosso cotidiano?

À época da divulgação do sexto relatório do Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU (IPCC), em agosto deste ano, o texto de Cláudia Herte de Moraes publicado neste Observatório citou a justiça climática como viés incontornável para termos coberturas qualificadas e aprofundadas sobre as consequências do aquecimento do planeta. Por esse entendimento, dar voz às populações afetadas pela desigualdade socioambiental é parte importante para a definição de prioridades no enfrentamento às mudanças climáticas.

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), que ocorrerá a partir de 31 de outubro, em Glasgow, na Escócia, a cobertura midiática, de forma geral, repercute as reivindicações do setor privado e os posicionamentos de líderes globais sobre as questões climáticas. Ao buscar por “COP26” no Google Notícias, em 14 de outubro, encontramos resultados como a notícia de Canal Rural que relata a exigência de conselho de empresários brasileiros para que o governo federal regule o mercado de carbono no país. Outra notícia com forma e conteúdo de press release, publicada no site EmTempo, do Amazonas, detalha o encontro do Ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, com o embaixador da Noruega no Brasil, em que o mercado de carbono e a bioeconomia também foram pauta.

No entanto, ainda carecem abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática que utilizem a COP26 como mote. Algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática através das redes sociais. Em sua conta no Instagram, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), por exemplo, noticiou a realização da Oficina de Mudanças Climáticas com lideranças indígenas brasileiras que acompanharão a COP26. Mas é necessário que este seja um compromisso constante do jornalismo.

Como resultados da COP26, esperamos não somente metas mais ambiciosas, mas também planos de ação dos governos que participarão da Conferência para não ultrapassarmos o já inevitável aquecimento do planeta em 1,5ºC. Do jornalismo, esperamos narrativas mais aprofundadas, que sensibilizem e mobilizem a população em torno do tema.

*Jornalista, pós-graduada em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com

Consumo pós-pandemia: temos algo a comemorar?

Imagem: Captura de tela do site de O Globo

Por Eutalita Bezerra


Com a média móvel de mortes por covid-19 em queda – mesmo com o Brasil atingindo, nos últimos dias, um patamar aterrador de 600 mil vidas perdidas -, a expectativa de retomar a vida “normalmente” já é uma realidade para diversos setores. No comércio, uma consequência esperada (e até fomentada, como abordaremos a seguir) é chamada de revenge buying, revenge shopping ou, em bom Português, consumo de vingança. O termo, que começa a se popularizar em reportagens no Brasil, traz consigo um apelo às compras derivado do período de restrição. Isso se reflete, claro, em mais pressão no planeta e leva-nos a um espiral perigoso. Mas como o jornalismo tem lidado com o assunto?

Embora o termo não seja novo, a discussão sobre revenge buying ganhou força em meados de 2020, após o confinamento na China, determinado pela pandemia do novo Coronavirus. O fenômeno social de consumo, que foi facilmente percebido pelo mercado de luxo, contou com dois momentos auge naquele país: o primeiro, online, ainda durante a quarentena; e o segundo, em compras no ambiente físico, logo após o período de distanciamento físico.

Em nosso país, no qual o lockdown nunca foi uma política pública e o comércio ficou restrito por um período muito curto de tempo, parece-nos um malabarismo enorme apostar que um possível aumento no consumo decorra das mesmas bases encontradas na China. Apesar disso, não raro localizamos o termo no jornalismo brasileiro.

Em reportagem publicada no último dia 1º deste mês, intitulada “Retorno da noite de São Paulo, abalada pela pandemia, é marcado por ‘consumo de vingança’ e incertezas” , a prática de comprar mais que o habitual (e necessário) é descrita como uma “pequena indulgência” para comemorar o fato de estar vivo (!). Tratando dos hábitos de consumo em bares e restaurantes, a discussão no texto de O Globo não ultrapassa os limites dos tão convencionais “retomada da economia” e “projeção de receita a níveis pré-pandêmicos” e o consumo exacerbado é descrito como “uma farra que não vai durar muito tempo”.

Para além do insulto, considerando a situação econômica do país, em que vísceras e aparas de pescados ou ossos de animais são vendidos para alimentação de uma população cada vez mais pobre,   sustentar a discussão de consumo como apenas uma lógica comercial, pela qual se poderia salvar a economia, é ser superficial demais. Ou, no mínimo, mal intencionado.

As consequências ambientais decorrentes de um consumo acima dos limites do planeta colocam a todos em risco. E fazê-lo para festejar a sobrevivência ou para alcançar um sentimento de completude é um contrassenso que nos empurra a passos largos para o colapso. 

O consumismo como passaporte para o bem-estar, aliás, é assunto que El Pais Brasil, explorou nos últimos dias, com uma reportagem intitulada ” Consumir procurando uma felicidade que nunca chega, como compramos para construir nossa identidade“. Nesta, destacamos:

“Ao consumo são atribuídas uma série de vantagens que ele na verdade não tem, mas o consumismo continua sendo encorajado, já que é o combustível principal do atual sistema econômico.”


Neste sentido, além de discutir as razões para o consumismo e o modo como a publicidade (ou, mais especificamente, os mais de 6000 estímulos publicitários que recebemos diariamente, como dito na reportagem) constrói a ideia de compra como terapia e atividade de lazer, a reportagem reconstitui o surgimento do consumismo como fenômeno próprio de sociedades desiguais.


No subtitulo “Contra os limites do planeta”, El Pais Brasil pontua que consumimos hoje como se tivéssemos à disposição 1,7 planetas Terra, e esse ímpeto está relacionado aos nossos valores, ao que nos emociona. Levando isso em conta, um consumo dito ecológico, sustentável e, porque não, anticapitalista pode, em vez de ser uma forma de se afastar do exagero, tornar-se mais uma opção de compra. O que muda é como estas lógicas se alinham com o que tomamos como correto. 

Assim, propiciar um entendimento mais amplo acerca das causas e consequências das nossas ações individuais – nesse caso, do consumo, seja ele por vingança ou pelo desejo de alcançar a felicidade – embora não seja a chave para a resolução dos nossos problemas ambientais, é uma maneira de construir novos valores que repercutirão na nossa tomada de decisão perante um mercado cada vez mais agressivo.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do GPJA. E-mail: eutalita@gmail.com

Jornalismo e o “haboob” à brasileira

Imagem: Captura de tela de site da BBC Brasil

Por Míriam Santini de Abreu*

As fotografias e vídeos da tempestade de poeira que atingiu 25 cidades do nordeste de São Paulo e do Triângulo Mineiro no dia 26 de setembro, com nova ocorrência em 1º de outubro, varreram as mídias sociais. O “haboob” – nome dado pelos meteorologistas para as tempestades de areia nas regiões mais áridas do planeta – pautou os veículos de comunicação, com destaque para a reportagem da BBC News Brasil assinada pelo jornalista João Fellet e intitulada “Desmatamento e modelo agrícola aumentam risco de ‘tempestade de poeira’”. A notícia, em https://bbc.in/3zVYvIc, aborda a relação do fenômeno com a existência de grandes porções de solo seco e sem cobertura vegetal na região, onde há forte presença do agronegócio.

A notícia traz quatro imagens de satélite, cinco fotos e um mapa dos remanescentes de vegetação natural em São Paulo em 2008/2009 revelando que a concentração do que restou está no litoral do estado. Três fontes – o coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas, o presidente da Fundação Florestal do Estado de São Paulo e o diretor técnico da Unica, principal associação que representa o setor de cana-de-açúcar no Brasil – desenvolvem o argumento. O repórter consultou ainda o Relatório de Qualidade Ambiental 2020 feito anualmente pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo de São Paulo e o Censo Agropecuário de 2017.

Um destaque da notícia é a menção ao Dust Bowl, como foi chamada a série de tempestades de poeira que atingiram o sul dos Estados Unidos nos anos 1930, quando milhões de hectares de terras antes consideradas férteis se tornaram inaptas para a agricultura. A notícia não imerge no espaço geográfico onde ocorreu o “haboob” à brasileira, mas, ao se apresentar como aprendiz de agrofloresteiro e meliponicultor em sua conta no Twitter, o repórter João Fellet – @joaofellet – faria bonito ao desenvolver a pauta in loco e de lá trazer uma baita história.

Com relação ao tema cabe mencionar também o trabalho feito pela AFP no “Checamos”. A agência verificou sete imagens de tempestades de poeira compartilhadas mais de 40 mil vezes nas redes sociais de 26 a 28 de setembro vinculadas ao fenômeno e constatou que ao menos três eram anteriores ao fato e algumas sequer haviam sido feitas no Brasil – em https://bit.ly/3omIOrr. Uma das mais compartilhadas era de uma tempestade ocorrida em Phoenix, no estado do Arizona (Estados Unidos), em 2 de agosto de 2018 e creditada ao fotógrafo Jerry Ferguson. Essa foto foi usada até para montagem do conhecido meme do cão caramelo, em https://bit.ly/3oqhM2r. Os comentários nesta postagem, parte deles de moradores da região atingida no dia 26 de setembro, revelam a preocupação com o fenômeno, suas causas e consequências, apontando caminhos para mais pautas aprofundadas sobre o fato que, neste domingo (3), também foi abordado nos programas “Fantástico” e “Cidades e Soluções”, da Rede Globo, com pauta alinhada à da notícia da BBC News Brasil.

*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo. E-mail: misabreu@yahoo.com.br

Joaquim Leite ignora a imprensa. E vice-versa

Por Sérgio Pereira*

Fonte: Captura de tela do site G1

Nesta segunda-feira (23), completam-se exatos dois meses da demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Nos dois anos e meio em que ficou à frente da pasta, Salles se comportou exatamente de forma oposta ao que se espera de um ministro da área. Durante sua gestão, o Brasil bateu recordes de desmatamento e de áreas destruídas por queimadas na Amazônia e no Pantanal. Sua saída foi vista como um alívio não apenas pelos ambientalistas, mas por todos que se preocupam minimamente com a questão ambiental.
Em seu lugar assumiu o pouco conhecido Joaquim Alvaro Pereira Leite e, como sempre, a mídia se apressou em apresentar o perfil do recém-empossado, inclusive informando que sua família está envolvida em disputa de terras indígenas em São Paulo. Desde então, o MMA e, principalmente, o novo titular da pasta deixaram praticamente de ser notícia, como se a exoneração de Salles tivesse resolvido todos os problemas.
Uma busca personalizada no Google já é reveladora. Nos dois primeiros meses no ministério, Salles foi citado em 2.037 notícias (1.310 em janeiro e 727 em fevereiro de 2019). Já Leite tem apenas 816 (600 entre junho e julho e 116 entre julho e agosto deste ano), a maioria pautada por sua nomeação em 23 de junho e pela apresentação de seu currículo pela imprensa.
Estratégico, Leite não busca a polêmica e evita dar entrevistas. O oposto de seu antecessor, que chegou ao absurdo de ser fotografado em frente a dezenas de toras de árvores quando foi ao Pará, com o surreal objetivo de devolver aos madeireiros a carga ilegal apreendida pela Polícia Federal.
Leite quase busca o anonimato. No site do Ministério do Meio Ambiente, ele foi citado em notícias apenas 11 vezes em dois meses, uma média de um texto a cada seis dias. Uma forma de acompanhar seus passos é consultar sua agenda oficial, também disponível no site da MMA. Assim é possível verificar que o ministro já esteve reunido com diversas entidades empresariais, como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Fiesp, Confederação Nacional da Indústria/CNI, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil/CNA, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos/Apex, Associação Brasileira dos Produtores de Algodão/Abrapa, e com representantes de empresas como Vale, Shell, Klabin (a maior exportadora de papéis para embalagens do Brasil) e Cidade Matarazzo (empreendimento imobiliário paulista), em audiências individuais.
Sua agenda aponta apenas um horário com entidades ambientais, no dia 17 de julho, registrado como “Reunião com ONGs”. O encontro, de apenas uma hora, foi com integrantes da Conservation International Brasil, The Nature Conservancy Brasil, Tropical Forest Alliance e Save Cerrado, entre outras. O tema na agenda eletrônica identifica a reunião como “Processo de Escuta Pré COP26”. Ou seja: uma reunião de preparação para a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acorrerá em Glasgow, na Escócia, em novembro deste ano.
Por sinal, o novo ministro viajou para Londres, em julho, para participar de encontro preparatório para a COP26. Curiosamente, o site do MMA não traz postagens sobre seu compromisso no Reino Unido. Os jornais tradicionais brasileiros também, praticamente, ignoraram a viagem.
Outro dado indicador de seu estilo registrado em sua agenda é que reservou horário apenas uma vez para conceder entrevista até agora, três dias após a posse, para uma equipe do Valor Econômico.
Numa análise sobre os sites de notícias G1, Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, é possível verificar que o estilo discreto de Joaquim Leite contaminou a pauta dos três veículos. No portal da Globo, o atual ministro aparece como destaque apenas em uma oportunidade após a sua posse, quando de uma visita à base militar do Pará.
A Folha segue o mesmo compasso. Destaque apenas para um elogio do vice-presidente Hamilton Mourão ao novo titular da MMA. O jornal paulista, no entanto, merece menção pelo editorial de 7 de julho (“Circo amazônico”), que cobra do vice-presidente e de Leite solução para o desmonte na fiscalização no Norte do país. O Estadão, por sua vez, é ainda mais econômico ao abordar o assunto, e os poucos registros se resumem a algumas colunas de opinião e com enfoque favorável ao governo, como as constantes viagens à Amazônia e uma suposta cobrança do ministro em reunião com o presidente da COP26 para “reconhecimento de esforços de países subdesenvolvidos”.
Não resta dúvida que Joaquim Leite quer seguir a política predadora de Salles e Jair Bolsonaro bem longe dos jornalistas. Estamos entrando no período crítico das queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste. No ano passado, tivemos recordes de destruição. A imprensa precisa cumprir seu papel de fiscalizador e buscar formas de contornar a estratégia furtiva do novo ministro. Caso contrário, corremos o risco de deixar a boiada passar novamente. E no maior silêncio.

*Jornalista. E-mail: spimprensa@gmail.com