
Uma grande fatia do RS desprotegida e ignorada por parte da imprensa. Imagem: Bruno Correa Rodrigues
Por Sérgio Pereira*
O Pampa tem sido tema recorrente neste Observatório. Não poderia ser diferente, já que estamos tratando de um bioma que apesar de ocupar grande parte do território do Rio Grande do Sul tem sua importância praticamente ignorada pelos principais veículos de comunicação do Estado.
Ganchos para abordar o tema não faltam. Por exemplo, no dia 13 de maio, o MapBiomas, que faz o monitoramento ambiental brasileiro, divulgou levantamento inédito sobre a fragmentação da vegetação nativa dos seis biomas.
O consórcio explica que “fragmentação é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de vegetação nativa são divididas em porções remanescentes cada vez menores e mais isoladas por conta do desmatamento, seja para fins de expansão agropecuária, de urbanização, de abertura de estradas ou outras finalidades. Os efeitos negativos do desmatamento são ainda maiores quando as áreas remanescentes ficam muito fragmentadas”. Ou seja, quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação, sintetiza o pesquisador Dhemerson Conciani.
Conforme o mapeamento, todos os biomas apresentaram aumento no número de fragmentos nas últimas quatro décadas (1986-2023). “O Pantanal e a Amazônia foram os biomas com maior aumento da fragmentação, com 350% e 332%, respectivamente”, informa o texto de divulgação. Já o Pampa aparece em terceiro lugar, com 285% de crescimento. Depois surgem o Cerrado, com 172%, a Caatinga, com 90%, e a Mata Atlântica, com 68%.
Os três principais jornais do RS (Zero Hora, Correio do Povo e Jornal do Comércio) ignoraram completamente o levantamento em suas versões impressas. O Correio do Povo, no entanto, foi o único dos três jornais a dar a notícia em seu site, no mesmo dia 13, com o título “Fragmentos de vegetação nativa cresceram no país 163% em 38 anos, diz MapBiomas”, texto reproduzido da Agência Brasil.
Na realidade, a imprensa hegemônica gaúcha praticamente retirou o Pampa de suas pautas. A triste situação ambiental do principal bioma gaúcho não causa mais espanto aos jornalistas. Com exceção dos veículos alternativos, os principais jornais decidiram abraçar o agronegócio, principalmente o da soja, que tem ampliado sua área no Estado de forma impressionante. O MapBiomas denunciou, no ano passado, que 45,6% do bioma gaúcho estavam ocupados por algum tipo de uso antrópico em 2024, com predomínio do uso agrícola. E, conforme o consórcio, a área plantada com soja cresceu de 827 mil hectares para 3,2 milhões de hectares do Pampa entre 1985 e 2024, um aumento de 385%.
No dia 27 de maio, novo gancho. O Governo do RS divulgou em seu portal de notícias que o Estado apresentou queda na taxa de desmatamento em 2025, a partir de relatório elaborado pelo MapBiomas. Zero Hora e Correio do Povo incluíram a notícia em suas versões on-line. A matéria de Zero Hora tem o mérito de analisar o levantamento, já que em 2024 a inundação e os deslizamentos de terra resultaram em uma perda de vegetação de 70%. Os três diários, no entanto, nada registraram em suas edições impressas.
O ambiente digital, importante destacar, não permite avaliar a hierarquia editorial concedida ao fato. Primeiro que não há transparência sobre o número de visualizações (os veículos possuem ferramentas de métrica, mas não divulgam os dados). Segundo, porque não há como saber, algumas horas após a postagem, se a notícia ganhou ou não destaque na capa do site. Terceiro, as empresas cobram pelo acesso. É possível, portanto, destacar ou esconder uma informação na plataforma virtual.
Esse silêncio dos jornais tradicionais gaúchos cria um ambiente propício para a exploração desenfreada. Assim, os interesses coletivos, que deveriam predominar no jornalismo, ficam relegados a um segundo plano, favorecendo setores econômicos poderosos.
Como ensina o professor Wilson Bueno, o “jornalismo ambiental é, antes de tudo, jornalismo (que é o substantivo, o núcleo da expressão) e deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2007, p. 14). E o resto, como definiu Millôr, é armazém de secos e molhados.
Revisão: Luciano Velleda, integrante do GPJA
*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com
