Jornalismo deve cobrar prevenção antes que aconteça novamente


Sérgio Pereira*


Área central de Porto Alegre inundada em 2024
Foto: Fotos Públicas/Gustavo Mansur/Palácio Piratini

O Rio Grande do Sul está perto de completar dois anos de sua maior tragédia climática e as consequências das cheias de abril/maio de 2024 ainda reverberam. Pelo menos 23 pessoas continuam desaparecidas (conforme o último levantamento, de agosto do ano passado), milhares de famílias seguem aguardando moradia e municípios permanecem na dependência de obras de recuperação e prevenção.

Para não permitir que o tempo feche cortinas na memória coletiva, GZH lançou em junho daquele mesmo ano o “Painel da Reconstrução”, um hotsite que “monitora as medidas de apoio financeiro provenientes dos governos federal e estadual para a recuperação do Estado”. A iniciativa merece reconhecimento pois se propõe a oferecer uma radiografia sobre os principais investimentos e compromissos pós-enchente. Torna-se, assim, um instrumento útil para controle social e cobrança de recursos públicos destinados ao restabelecimento do RS.

O painel está focado em três áreas prioritárias: infraestrutura, habitação e prevenção a novos eventos climáticos extremos. Há informações valiosas na ferramenta, que em 24 de março deste ano, data dessa consulta, havia sido atualizada 13 dias antes. A começar pelos repasses financeiros. Graças à plataforma, pode-se conferir que o Governo Federal pagou 63,8% (R$ 75,2 bilhões) dos R$ 118 bilhões prometidos. O Governo do RS, por sua vez, aplicou apenas 40,9% (R$ 4,6 bilhões) dos R$ 11,3 bilhões previstos.

Outro exemplo da relevância do levantamento diz respeito à circulação: ainda há no Estado pelo menos 15 trechos de rodovias bloqueadas, total ou parcialmente. As obras da ERS-348, entre Agudo e Dona Francisca, para citar um caso, sequer foram iniciadas.

As informações envolvendo moradias, porém, não são atualizadas há pelo menos seis meses. São mais de 25 mil habitações projetadas, conforme GZH. O portal cientifica que, até agora, foram disponibilizadas 520 temporárias pelo Estado e que o Governo Federal já entregou as chaves definitivas para 5.733 famílias pelo programa Compra Assistida.

Os dados sobre “Prevenção”, contudo, são ainda mais preocupantes. Primeiro, porque os números desse item da plataforma não são alterados há mais de oito meses. Também causa apreensão o andamento dos trabalhos das oito obras prioritárias relacionadas, nenhuma concluída. Dessas, a metade não saiu da fase de elaboração de projeto: dique em Eldorado do Sul; arroio Feijó (Porto Alegre e Alvorada); bacia do Rio do Sinos; e bacia do Rio Gravataí.

As outras quatro listadas, todas em Porto Alegre, superaram as etapas de projeto e licitação e estão em andamento: fechamento em concreto das comportas 8, 9, 10 e 13 do sistema de proteção; substituição das comportas 11, 12 e 14; manutenção de 1,4 quilômetro do chamado dique da Fiergs, na zona norte da capital; e manutenção de 3,4 quilômetros do dique do Sarandi. Os prazos previstos para o término de três dessas quatro obras estão expirados, conforme o levantamento revela. E a quarta está programada para ser concluída agora em março de 2026.

É preciso dizer que o painel poderia estar mais atualizado no campo “Prevenção”. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi noticiado o fechamento em definitivo das comportas 8, 10, 13 e 14 do sistema de proteção de Porto Alegre, mas na plataforma não consta essa informação. Nem mesmo na relação de matérias mais recentes sobre o tema, com links disponíveis logo abaixo das obras prioritárias. Essa latência acaba por comprometer sua eficiência como mecanismo de transparência e vigilância pública.

Afora a desatualização, outra questão surge: por que o painel não é mais explorado como instrumento de cobrança? Principalmente no que se refere à prevenção. Nos últimos dias, a notícia de formação de novo El Niño no Hemisfério Sul fez ligar o sinal de alerta. Conforme o instituto Climatempo, o “risco de chuva extrema sobre o Sul do Brasil é maior este ano”. O Rio Grande do Sul vai estar melhor preparado para uma nova enchente? O jornalismo pode e deve responder a esse questionamento.

O Princípio da Precaução, incorporado aos pressupostos do Jornalismo Ambiental, ensina que devemos ampliar o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardi et al., 2020). Loose e Girardi (2017) acrescentam que a noção de que o jornalista ambiental deve colaborar para o alerta e o enfrentamento dos riscos climáticos está em sintonia com sua responsabilidade de reduzir alarmismo e evitar medidas que desconsiderem as incertezas intrínsecas ao seu fenômeno.

O desastre climático de 2024, que causou a morte de 185 pessoas, deixou traumas profundos no povo gaúcho. Desde então, a cada chuva intensa, o fantasma das cheias faz ressurgir o medo de novas inundações. É missão do jornalismo estar conectado aos interesses e preocupações da sociedade. De que vale então estar de posse de um dispositivo importante e não aproveitar ao máximo o seu potencial? Afinal, ferramenta em uso não acumula poeira. Tanto na carpintaria quanto no jornalismo, esse adágio pode ser de muita utilidade.

Revisão: Ângela Camana, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 23 mar. 2026.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin, v. 22, n. 2, Jul/Dez 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169150/001048279.pdf?sequence=1&isAllowed=y22(2):154-72. Acesso em: 23 mar. 2026.

Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

Foto: RS via Fotos Públicas

Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Guerra e clima não coabitam manchetes

Número de mortes e aspectos técnicos dominam enfoques da cobertura jornalística sobre guerras e desastres naturais, enquanto contexto climático fica fora do radar

Fonte: RS/Fotos Públicas

Heverton Lacerda*

Quem acompanha, com olhar atento, as publicações da imprensa brasileira a respeito da tragédia em Ubá (MG) e sobre as guerras patrocinadas por superpotências militares pode identificar, com facilidade, a falta de correlacionamento das pautas com as mudanças climáticas. As abordagens são muito similares: notícias factuais sem contextualização ampla, mantendo os fatos principais isolados.

É como se os enormes impactos ao meio ambiente não contribuíssem para ampliar a tragédia comum que afeta a vida em todo o planeta. As matérias não dão conta de identificar – sequer em notas de rodapé – que as destruições causadas pelas guerras e pelas próprias catástrofes climáticas ampliam o problema ambiental. Quanto mais agressões o corpo planetário sofre, mais diminui sua resiliência natural. Consecutivamente, a Terra perde capacidade de absorção de impactos e regeneração. 

Além de ceifar vidas e destruir territórios, infraestruturas e habitats naturais, guerras e tragédias climáticas ampliam emissões de gases de efeito estufa e os riscos sobre estruturas artificiais críticas. Um exemplo são as tecnologias que envolvem radiações ionizantes, muito utilizadas nas áreas de energia, indústria, médica, farmacêutica e agricultura, entre outras. Além do potencial de causar mortes por intoxicação, ferimentos ou traumas, os acidentes radiológicos comprometem a saúde mental e podem contaminar o solo, a água e o ar. O acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior do mundo fora de usina nuclear, aconteceu em 1987. Até hoje, o Brasil abriga mais de três mil instalações radioativas em seu território, conforme o Ministério da Saúde.

Um alerta nesse sentido, ainda que sem mencionar a relação direta com o contexto climático, aparece no portal Opera Mundi, entre outros, quando noticia que a Rússia adverte risco de ‘catástrofe radiológica’ em guerra de EUA e Israel contra Irã.

As guerras e as catástrofes climáticas guardam relações e apresentam distinções. Ambas são reflexos de ações humanas, de decisões tomadas por grupos de poder político e econômico.  As guerras modernas geram toneladas de escombros e emitem gases poluentes em proporções muito maiores do que as atividades do dia a dia. São foguetes, mísseis, drones, veículos blindados – terrestres, marítimos, aéreos -, tecnologias de comunicação de última geração e muito mais. Tudo isso consome muita água e energia, desde a mineração dos materiais utilizados na construção dos equipamentos até as emissões de poluentes de origem fóssil e eletromagnética durante as operações. O volume de recursos financeiros gastos na indústria da guerra seria suficiente para abastecer os fundos climáticos mundiais e apoiar comunidades em risco em todas as partes do mundo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, atingido pelas enchentes em 2024, até hoje não conseguiu reconstruir seu território e prepará-lo para o futuro incerto e preocupante que a ciência projeta, diante dos dados disponíveis.

Diferente das guerras, os eventos climáticos extremos já resultam, em grande parte, do acúmulo de atividades degradantes praticadas pela humanidade ao longo dos últimos dois séculos e meio. As catástrofes mais intensas que estamos testemunhando nos anos recentes são consequências do nosso passado. Já os resultados das destruições podem ser considerados agentes de enfraquecimento da resiliência natural dos territórios, exigindo ações preventivas mais eficazes e urgentes. Neste sentido, no entanto, tanto as guerras quanto as catástrofes ambientais intensificam ainda mais a crise climática. 

Talvez o jornalismo, de modo geral, não tenha condições, na correria diária, de ampliar a contextualização ao nível do detalhe, o que poderia comprometer um pouco a objetividade e a facilidade de compreensão das pautas. No entanto, a criatividade e os atuais recursos de design multimídia podem ser aliados estratégicos de apoio à intenção de contextualizar. Intenção é o ponto chave. Guerra e clima podem e devem coabitar não só manchetes, mas as melhores matérias jornalísticas. 

Cabe lembrar que, além da contextualização, o princípio da precaução é outro pressuposto teórico do Jornalismo Ambiental. Ele pode ajudar os colegas jornalistas a compreenderem, identificarem e explicarem os efeitos colaterais – neste caso, os reflexos na crise do clima – dos fatos em destaque na pauta. O compromisso com a fidelidade dos fatos e o alerta para as possíveis causas e consequências, diretas e indiretas, são elementos-chave para manter a pauta climática na transversalidade da boa cobertura jornalística. A visão sistêmica e o olhar para além das cortinas de fumaça demonstram a sagacidade do jornalista, fundamental para a cobertura de pautas complexas.

Revisão: Gabriella Barros, integrante do GPJA

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

Imagem: Freepik

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

Imagem: Pexels

Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

Plantando tecnologia, colhendo silêncio: o enquadramento do agronegócio como herói climático no Jornal Nacional

Por Gabriella de Barros*

Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.

Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.

A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.

O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.

Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.

A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.

Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.

A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática. 

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI). 

Referências

GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.

NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Farms and forests can fight climate change. Roma: FAO, 04 dez. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/newsroom/detail/Farms-and-forests-can-fight-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Special Report: Global Warming of 1.5°C. Geneva: IPCC, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/ . Acesso em: 31 out. 2025.

INSTITUTE FOR ENVIRONMENTAL RESEARCH & EDUCATION (IERE). How is agriculture affecting climate change? Vashon: IERE, jan. 2025. Disponível em: https://iere.org/how-is-agriculture-affecting-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.

A tempestade do século e o aquecimento global

Foto: NOAA

Por Patrícia Kolling*

Nesta semana, o furacão Melissa, com ventos de até 298 km/h, atingiu a Jamaica, República Dominicana, o Haiti e Cuba. No dia 28 de outubro, quando o furacão estava chegando na Jamaica e nos dias que antecederam, a imprensa brasileira deu espaços significativos ao fenômeno, trazendo informações técnicas para que o leitor compreendesse o furacão, com dados sobre a escala e velocidade dos ventos.

Na Uol, o leitor encontrava alternativas para acompanhar o fenômeno em tempo real. Muitas notícias destacavam o fato do furacão atingir a escala 5, o nível máximo de intensidade, e na Jamaica, ter sido o mais forte a atingir o solo na costa do Atlântico em 90 anos.

Os dados eram assustadores, e os textos jornalísticos faziam questão de ressaltar isso. A previsão era de que o furacão atravessasse a Jamaica de ponta a ponta e a Cruz Vermelha Internacional alertava para um “impacto massivo”. Cerca de 1,5 milhão de pessoas – metade da população da ilha – deveria ser afetada direta ou indiretamente. Tanto que, em uma das matérias, um morador da Jamaica entrevistado dizia não acreditar que iria sobreviver, portanto não sairia de sua casa. As previsões se confirmaram, e a tempestade, considerada a maior do mundo, causou muita destruição e mortes.

A Folha de São Paulo trouxe informações técnicas sobre velocidades dos ventos, áreas que seriam atingidas e as ações da Defesa Civil para tirar as pessoas da região e protegê-las. A Folha também reproduziu um texto do Washington Post, ‘Caçadores de Furacões’ sobrevoam olho do Melissa no Caribe; um relato de um meteorologista que junto com outras 18 pessoas voou sobre o olho do furacão, e narrou a perfeição meteorológica do fenômeno.

Acredito que os meios jornalísticos precisavam, sim, apresentar os dados concretos da gravidade do fenômeno, porém, senti que foram além disso, ao fazer do fato um espetáculo sem precedentes, beirando ao sensacionalismo.
Mas, foi na National Geographic Brasil, que encontramos a relação entre o aquecimento global e o aumento dos furacões de categoria 5. “O furacão Melissa se intensificou rapidamente ao se arrastar sobre águas oceânicas excepcionalmente quentes, cerca de 1,4 °C mais quentes que a média, algo até 700 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causadas pelo homem”, informa a Climate Central (entidade independente de cientistas e jornalistas que pesquisa informações sobre mudanças climáticas e seus impactos).

(…) “Quanto mais quente estiver o oceano, mais combustível haverá para os furacões se intensificarem, desde que outras condições atmosféricas (como o cisalhamento do vento) também sejam favoráveis”, informa a NOAA.

Senti falta desta conexão entre o furacão e as mudanças climáticas na maioria dos textos que li. É mais que urgente que o jornalismo traga essas relações contextuais ao falar de fenômenos climáticos. É preciso dizer que a intensificação destes acontecimentos tem relação com as mudanças climáticas, entre elas o aquecimento, e que a responsabilidade está na emissão de combustíveis fósseis e de poluentes.

Coincidentemente, nesta semana a ONU apresentou o Relatório Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas de 2025 (NDC Synthesis Report 2025), consolidando as metas climáticas apresentadas pelos países entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados não são nada animadores, pois o relatório diz que, conforme as metas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris, o corte de emissões de gases ficará em 17%, enquanto a Ciência diz que seria necessário cortar 60% das emissões de gases até 2035. Isso significa que se a metas apresentadas a ONU forem cumpridas, o mundo terá um aquecimento de 2,5º até 2100.

Além do site o((eco)), o portal InfoAmazonia também analisou o relatório , mas em outros sites de notícias não encontrei informações sobre esse relatório.

Portanto, a semana foi a oportunidade dos meios jornalísticos conectarem os dados pessimistas do relatório e os fenômenos extremos que estão acontecendo no Planeta. Conexões que não encontrei nos veículos que pesquisei.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Mudanças climáticas no topo do mundo

Foto: Wikicommons

Por Ângela Camana*

Na semana em que o mistério envolvendo o assassinato de Odete Roitman, no remake da novela Vale Tudo, fez parar o Brasil, outra cena angustiante tem emergido nos noticiários: são centenas de montanhistas que, desde o final de semana, estão à espera de resgate no Monte Everest. A ocorrência de fortes tempestades de neve deixou sitiadas cerca de 200 pessoas, que estão acampadas a quase 5 mil metros de altitude; outras 350 já foram resgatadas. Uma morte devido à exposição ao frio foi registrada. O jornalismo internacional tem repercutido sobreviventes que relatam jamais terem vivenciado um episódio climático desta magnitude, corroborados por guias da região que dizem que neste ano “o clima não está normal”. Pesquisadores argumentam que as mudanças climáticas estão tornando mais intensas as monções, o que torna imprevisíveis e irregulares fenômenos como rajadas de chuva.

Este episódio não é o primeiro do tipo registrado no pico mais alto do mundo. Em 2023, um dos anos com maior registros de acidentes fatais envolvendo montanhistas, a Reuters repercutiu a alegação de especialistas que as mudanças do clima eram responsáveis por pelo menos 17 mortes no Everest. No Brasil, canais como o podcast O Assunto e o The Conversation destacaram como as transformações ambientais e o turismo de massa têm impactado as geleiras, que sofreram redução de mais de 25% quando comparadas a 1970.

Não é novidade para aqueles que se dedicam ao tema das mudanças do clima e sua intersecção com a comunicação que o risco e a incerteza são objetos de difícil abordagem, haja vista que escapam aos critérios de noticiabilidade predominantes no jornalismo. Igualmente já se sabe e se argumenta que as mudanças climáticas nos colocam diante de um imponderável que ultrapassa editorias. O recente episódio no ponto mais alto do mundo é exemplar destas duas considerações.

Ao jornalismo em geral tem bastado republicar notícias de agências internacionais sobre os esforços de salvamento, acompanhadas de vídeos desoladores. Quando muito, os portais apresentam duas frases de especialistas não nominados sobre as alterações nos regimes de chuva. Não há esforço de contextualização, tampouco de qualificação das informações recebidas. Uma lástima, já que o drama humanitário e ambiental vivido no Everest escancara que as mudanças do clima impedem a manutenção da vida como a conhecemos. O esporte e o turismo não escapam às alterações, e as imagens das centenas de sitiados no topo do mundo não nos deixam negar. O que está sendo reportado, contudo, não faz jus ao momento vivido: ao não nos permitir ver para além dos frames do espetáculo trágico dos montanhistas, o jornalismo também nos nega o conhecimento de riscos climáticos, sociais e éticos muito mais amplos.

*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: angela.camana@hotmail.com

Projetos jornalísticos e formações climáticas para comunicadores crescem com a realização da COP no Brasil

Reunião virtual do Conselho de Segurança da ONU. Foto: Wikicommons

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em preparação para a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que será sediada em Belém, no Pará (PA), o jornalismo brasileiro apresenta iniciativas para informar o público sobre o evento sob diferentes perspectivas: econômica, política, ambiental, social, cultural, entre outras. Similar ao que ocorreu na Rio-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) e na Rio+10 (Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável), reconhece-se um esforço de organizações jornalísticas e não jornalísticas  para ampliar o debate ambiental e, em alguns casos, qualificar a cobertura sobre a COP.

Veículos com linhas editoriais diferentes, sobretudo independentes e/ou especializados, procuram informar de modo educativo sobre o que é a Conferência, sua função e o que se pode esperar da sua realização no Brasil. Projetos como podcasts exclusivos sobre o evento, bem como episódios específicos sobre o tema crescem em número nas plataformas digitais. 

O podcast “Tempo Quente”, criado em 2022 pela Rádio Novelo para falar de mudanças climáticas, por exemplo, realiza nesse ano o especial “Esquenta pra COP30”, em parceria com a Agência Pública e o Observatório do Clima. Outros podcasts e programas que evidenciam essa preocupação com o entendimento do evento e o que está por trás de sua realização (o enfrentamento das mudanças climáticas) são: “COP Meio Cheio, Meio Vazio”, do Brazil Journal; “Entrando no Clima”, do ((o))eco; “Las Niñas”, de Carol Prolo e Natalie Unterstell. Dentre os temas mais abordados, estão: o financiamento climático, a governança global, o papel dos combustíveis fósseis, a transição energética e o protagonismo de comunidades tradicionais na tomada de decisões pelo clima. 

Entre veículos públicos, como a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que será emissora anfitriã, estão sendo intensificadas a produção de conteúdos especiais em preparação para a COP-30, em novembro em Belém (PA). A mobilização da EBC inclui parcerias, como o acordo com a Funtelpa (Fundação Paraense de Radiodifusão), para ampliar o alcance da cobertura; a veiculação de interprogramas na TV Brasil sobre os biomas brasileiros; reportagens especiais nos telejornais; programas temáticos e boletins nas rádios; e iniciativas nas redes sociais e veículos governamentais.

Presente de forma recorrente na programação de programas diários como O Assunto, do G1, e Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, a COP-30 está sendo mais discutida e evidenciada pelo jornalismo tradicional do que em edições anteriores. Isso se deve ao ineditismo de sua realização na Amazônia brasileira e também ao foco internacional que as decisões pró-ambiente ganham.

Veículos independentes, como ((o))eco, Sumaúma e Agência Pública, debruçam-se sobre aspectos nem sempre presentes na cobertura oficial do evento, bastante atreladas às fontes políticas. Em matéria da última semana de Lorena de Paula, o Sumaúma tratou da desigualdade em Belém e como ela implica até na diferença de calor sofrido pelos moradores da cidade. Segundo dados da reportagem “Na Belém da COP30, até a sombra é desigual”, há uma diferença de até 8 graus Celsius entre bairros ricos e pobres na capital paraense.

Em notícia assinada por Cristiane Prizibisczki no veículo ((o))eco em julho, o leilão realizado pela Agência Nacional de Petróleo é destacado junto à fala da presidência brasileira da COP sobre transição energética. Na publicação “Em semana de leilão de petróleo, Brasil fala à comunidade internacional sobre transição energética” as informações da semana foram apresentadas com questionamentos de enfrentamento às contradições políticas e econômicas. 

Por ser uma profissão orientada para a factualidade, na qual a questão “tempo” é fator de decisão sobre as pautas, as expressões “em ano de COP”, “a x meses da COP” ou  “a poucas semanas da COP” têm sido usadas de maneira repetida e quase clichê pelos jornalistas em 2025. No entanto, esse momentus pode ser útil para popularizar a problematização de questões ambientais com mais espaço midiático do que tradicionalmente identificamos. A partir disso, iniciativas independentes dão exemplo de contextualização e questionamento jornalístico diante de notícias e reportagens rasas e declaratórias na mídia hegemônica. 

 Foco na cobertura jornalística 

A poucas semanas da COP-30 em Belém, intensificam-se as menções ao evento na mídia. Em meio à problemas logísticos, bate-bocas diplomáticos, crises políticas internas e projetos ambientais numerosos, é fácil que um comunicador perca de vista suas prioridades na hora da cobertura e se disperse quanto à pautas, fontes e abordagens. Visando a complexidade que é cobrir um evento de tal magnitude, diversas entidades, organizações e associações jornalísticas organizaram ao longo do ano iniciativas para a preparação de profissionais. 

Entre alguns projetos mapeados estão cursos online, seminários, webnários, palestras, materiais e guias para os jornalistas interessados. A grande maioria dessas iniciativas é produzida por veículos independentes, organizações não-governamentais e associações de jornalismo. 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em parceria com a Transparência Internacional e da Agence Française de Développement, disponibilizou ao final de 2024 um curso gratuito sobre democracia ambiental e climática, com o objetivo de preparar para a COP. Neste ano, a Abraji disponibilizou também o curso “COP30 em pauta”, com apoio do Itaú e do site ((o))eco.  

Outras formações com o mesmo objetivo foram “COP30: o essencial para cobrir o evento”, da InfoAmazônia, “Cobertura climática e COPs: ferramentas, fontes e narrativas para jornalistas e comunicadores”, da Knight Center, e “Mudanças Climáticas: Agricultura na era da produtividade e sustentabilidade, da Embrapa e do Sebrae.

Entre os desafios da cobertura está a desinformação, que se espalha com o objetivo de manipular grupos, sustentar teorias conspiratórias, desacreditar figuras públicas ou movimentos políticos e até gerar lucro por meio de cliques. Seus impactos podem ser graves e podem influenciar percepções sobre temas cruciais, como a crise climática. Em momentos decisivos como a conferência em Belém seus efeitos tornam-se ainda mais perigosos, exigindo que jornalistas redobrem a atenção diante das redes. Pensando nisso, a Agência France-Presse (AFP), promove atualmente um treinamento online sobre desinformação climática para jornalistas com apoio da Embaixada da França no Brasil.

Além de formações online, iniciativas presenciais especializadas também vêm ocorrendo neste ano, como as Formações para Comunicadores Populares das Baixadas de Belém, pelo Na Cuia e o Fundo Casa Socioambiental. 

Com seminários, o Instituto Clima e Sociedade; o Observatório da Imprensa, a Associação Brasileira de Imprensa e Federação das Indústrias do Estado do Pará também realizaram ações para jornalistas. 

O Pulitzer Center abriu uma chamada especial no início de 2025 para propostas de subsídios voltadas à cobertura da COP30. Jornalistas, editores e veículos de mídia independentes puderam enviar projetos que abordem temas ambientais considerados essenciais para a conferência.

A Associação de Jornalismo Digital, em parceria com a InfoAmazonia e com o Instituto Serrapilheira lançou em maio o edital “Sala Colaborativa: Construção de Coberturas Socioambientais no ano da COP no Brasil”, projeto para produção de pautas e produção jornalística sobre questões socioambientais, focados nos estados da Amazônia Legal.

Outra iniciativa é a “Central Belém: Clima com a Natureza na COP30”, criada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) em parceria com Nature4Climate, The Nature Conservancy Brasil e o PNUMA, que busca apoiar e conectar jornalistas na sua cobertura do evento. O projeto oferece suporte editorial, acesso a especialistas e fontes locais, além de oficinas, webinars e visitas de campo. A proposta é fortalecer narrativas que deem visibilidade a vozes diversas e ampliem a compreensão global sobre o papel da Amazônia nas soluções climáticas.

Ações para o público 

Além de formações para comunicadores, organizações e universidades planejaram iniciativas voltadas para todos os interessados no evento, com diferentes enfoques pelo Brasil. O Fundo Casa Socioambiental e a Rede Comuá lançaram a publicação “Rumo à COP 30”, guia voltado especialmente para comunidades locais, povos tradicionais, periferias urbanas periféricas, comunicadores, jornalistas, educadores populares e o público em geral.

O Observatório do Clima, com o projeto nacional Estação Central da COP, convidou a criação de espaços de informação e formação para grupos diversos (escolas, comunidades, coletivos, etc.) sobre a Conferência através de materiais e orientações disponibilizadas.

Além disso, ao longo de 2025 ocorrem iniciativas de universidades, como o podcast “Vozes do Clima” do PET Educom Clima da UFSM, e o “De olho na COP”, do Observatório de Jornalismo Ambiental do Grupo de Pesquisa em Jornalismo (CNPq/UFRGS), também em parceria com o PET Educom Clima. Esses dois projetos procuram, através do jornalismo e da extensão universitária, aproximar a comunidade dos debates e discussões que acontecerão na COP-30, e que perpassam a sua realização.

Dentre a parcela de iniciativas mencionada, percebe-se a valorização do jornalismo independente, de veículos e organizações comunitárias, locais e especializadas em comunicação engajada com a causa ambiental. É possível notar, também, preocupação com uma cobertura qualificada, aprofundada e consciente da COP-30. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

As exclamações e os silêncios de Lula na ONU

Por Luciano Velleda*

O esperado discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (23), teve pouco mais de 18 minutos, tempo que se mostrou suficiente para o mandatário brasileiro dar recado sobre alguns dos assuntos mais urgentes na conjuntura política mundial.

Lula defendeu a democracia e o multilateralismo, criticou o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão política e econômica, definiu como genocídio o massacre em Gaza perpetrado por Israel, abordou a guerra entre Ucrânia e Rússia, e ainda defendeu a Justiça brasileira e a legalidade do julgamento que condenou a 27 anos de prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Entre tantos temas quentes da geopolítica atual, menos de três minutos do discurso foram dedicados à crise climática. E foram, ao fim, três minutos que ocuparam as manchetes de alguns veículos de imprensa do Brasil, escolhidos para essa análise por sua posição de destaque e tradição no jornalismo brasileiro. Em comum entre eles, o destaque de que a COP 30, em Belém, será a “COP da verdade”, a COP para os líderes mundiais mostrarem seu compromisso com o planeta.

O G1, por exemplo, intitulou: “Na ONU, Lula chama conferência do clima no Brasil de ‘COP da verdade’ e reforça importância de presença de líderes mundiais”. A Folha S.Paulo disse: “União Europeia atrasa meta climática, e Lula cobra países em discurso na ONU”. O jornal Valor decidiu pela manchete: “COP30 será momento para líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula na ONU”, quase igual muito ao destaque da Band Jornalismo: “COP 30 será momento de líderes provarem compromisso com o planeta, diz Lula”.

O Correio Brasiliense optou pela manchete: “Lula cobra ação climática e defende reforma global em discurso na ONU”, enquanto a Exame escolheu uma frase emblemática do discurso do presidente brasileiro: “Lula na Assembleia da ONU: ‘Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática’”.

Ao longo dos textos, os veículos repercutiram os três minutos ambientalistas do discurso na ONU, como a ênfase de que 2024 foi o ano mais quente já registrado, a redução do desmatamento ilegal na Amazônia brasileira, o anúncio do lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que pretende remunerar os países que mantêm suas florestas em pé, assim como a forte crítica feita aos países que ainda não apresentaram suas novas metas de redução de emissões de gases causadores do aquecimento global, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs).

“Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas [as NDCs], caminharemos de olhos vendados para o abismo”, declarou Lula, uma das frases de efeito destacadas pela imprensa. Os desafios enfrentados pelas nações em desenvolvimento devido a mudança do clima enquanto os países ricos “usufruem de padrão de vida obtido às custas de 200 anos de emissões” foi outra frase do presidente que repercutiu.

Um olhar mais crítico ao discurso veio de dois veículos jornalísticos especializados em meio ambiente, ambos dando voz a análise feita pelo Observatório do Clima, entidade que reúne 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais.

O site(o) eco trouxe para sua manchete uma contradição de Lula ao dizer: “Fim dos combustíveis fósseis fica de fora do discurso de Lula na ONU”. O veículo ressaltou que,  para organizações brasileiras, “o pronunciamento foi correto, mas nada mais do que isso”.

Repercutindo a nota oficial do Observatório do Clima, (o) eco ponderou que a “fala de Lula foi apenas ‘correta’, mas previsível, já que o líder brasileiro tinha na pauta muitas outras questões, como a defesa da soberania nacional e o tarifaço americano, regulação das plataformas digitais, conflitos armados e crise no multilateralismo”.

O veículo ainda destacou o trecho final da nota do Observatório do Clima, a qual diz: “Quem estava esperando um discurso do grande líder climático do Sul Global que arrancou aplausos do mundo em 2022 na COP 27, no Egito, pode ter se frustrado: a fala de Lula não foi a de um anfitrião de uma conferência do clima decisiva para garantir um futuro seguro para a humanidade”.

O mesmo trecho também foi enfatizado pelo site climainfo, entretanto, reproduzindo o parágrafo completo da nota do Observatório do Clima, que finaliza assim: “Porém, o mundo e o Brasil de 2025 tampouco são os de novembro de 2022. A COP30 precisará triunfar num ambiente político e geopolítico muito desfavorável, e esse climão fica evidente em tudo que Lula disse e principalmente no que não disse”.

Segundo a análise proposta pelo Observatório do Clima, a COP30, em Belém, poderá ficar marcada mais pelo silêncio ensurdecedor da omissão diante da crise climática, do que pelas afirmações de quem tem a obrigação de agir. Enquanto isso, os eventos extremos da natureza ocorrem no mundo todo cada vez mais frequentes, cada vez mais intensos.

*Luciano M. Velleda é jornalista, sócio do Sul21 e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Um olho no peixe da camada de ozônio, outro no gato da crise climática

Imagem de satélite da terra à noite. Fonte: Joshua Stevens / NASA / Miguel Román / Goddard Flight Center

Por Cláudia Herte de Moraes *

A cobertura jornalística sobre a recuperação da camada de ozônio em 16 de setembro, embora positiva e informativa, ainda carece de uma contextualização que conecte o tema de forma aprofundada às mudanças globais e à noção de limites planetários. Nas notícias do Dia Internacional para Preservação da Camada de Ozônio, a informação divulgada pelo Relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) mostra que a região da estratosfera atingiu os seus melhores níveis em décadas.

 Ao observar as notícias, o ponto fraco foi a falta de explicação sobre o fato de que a camada de ozônio é apenas um dos limites que a humanidade está conseguindo reverter. Entre os nove limites planetários, seis foram ultrapassados, como a perda da biodiversidade, as mudanças climáticas, mudanças no uso do solo (especialmente por desmatamento e urbanização), fluxos bioquímicos (contaminação por fósforo e nitrogênio devido ao uso excessivo de fertilizantes), novas entidades (por exemplo, microplásticos) e uso de água doce (já em níveis críticos). A acidificação dos oceanos é um dos limites próximos da violação e somente dois são considerados seguros: além do ozônio estratosférico, está a carga de aerossóis.

Print de tela na busca das principais notícias sobre o tema (17 de set. 2025) Fonte: Autora

A contextualização importa para que o leitor entenda que o enfrentamento à crise ambiental é interconectado; são limites interdependentes. No caso do G1, a matéria indica o avanço de forma celebrativa, com uso das fontes oficiais, sem fazer essa conexão com outros limites planetários de alto risco. 

A abordagem fragmentada em notícias pode gerar uma percepção equivocada de que “o meio ambiente está sendo consertado”, diminuindo a urgência de ações em outras frentes. O jornalismo, neste caso, perde a oportunidade de exercer sua função educativa, sem trazer as conexões entre causas e consequências de forma abrangente. 

Outro ponto de atenção no trabalho jornalístico é que as fontes oficiais são essenciais, como a ONU e os dados científicos, porém é preciso lembrar das populações que podem ser atingidas ou que já sofreram com os efeitos de impactos ambientais noticiados. Por exemplo, seria o caso de trazer à memória do público o que a luta contra a destruição da camada de ozônio mobilizou milhares de cientistas, ativistas, movimentos socioambientais de décadas atrás e que, por conta dessa pressão, os acordos foram efetivados. Um texto bem posicionado neste sentido foi da Deutsche Welle, publicado no portal Terra: A história de sucesso da recuperação da camada de ozônio.

Aproximar esse tema do leitor é uma indicação importante para que as pessoas percebam a relevância dos fatos em seu cotidiano. A menção, por exemplo, sobre como a recuperação da camada de ozônio impacta as taxas de câncer de pele no Brasil foi lembrada, mas outras questões que afligem nosso país poderiam ser destacadas. Por que não usar esse exemplo de cooperação global para inspirar as soluções locais, mostrando como a agricultura pode se organizar para secas ou enchentes? 

Por fim, a cobertura peca ao olhar apenas para o passado, celebrando o sucesso do Protocolo de Montreal. Porém, ao pensarmos sob o princípio da precaução, que orienta o jornalismo a olhar para o futuro e alertar sobre novos riscos, a conquista histórica pode ser um importante alerta: quais as novas substâncias químicas não regulamentadas podem ameaçar a atmosfera? Como os substitutos dos CFCs (os HFCs) impactam o aquecimento global? Como observar as conexões entre os limites planetários que ainda necessitam de cuidado, regulamentação, regeneração? Celebrar o passado não pode ofuscar a necessidade de vigilância para o futuro.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática.
E-mail: claudia.moraes@ufsm.br