Não basta falar da Amazônia: sobre história e múltiplas vozes

Por Ursula Schilling* e Eutalita Bezerra**

Fonte: Luis Deltreehd/Pixabay


Hoje, 5 de setembro, é o Dia da Amazônia. A data, que não podemos, no atual contexto (e mesmo no passado), chamar de comemorativa, pode ser aproveitada pelas diferentes instâncias da sociedade, e especialmente pelo jornalismo, não só para reaquecer o debate sobre a maior floresta tropical do mundo, mas para trazer “novas” abordagens para além de dados e denuncismo. Não basta falar de quantidade de hectares destruídos, queimada, desmatamento, extermínio de fauna e conflitos por território, é preciso que diferentes vozes se somem a esse grito.

Quando falamos em novas ou outras vozes, queremos dizer dar espaço para fontes além das oficiais. Ouvir autoridades de governo, instituições representativas e acadêmicas, sim. Mas ouvir a população local, povos nativos e detentores de outros saberes que não os institucionais. E mais: na balança informativa – que vem falhando historicamente – cabe considerar que conceder espaço de fala a um governante e a um indígena, por exemplo, não garante equanimidade. Até mesmo essa proporção precisa ser repensada para atingir o equilíbrio.


Artigo recente publicado no site Le Monde – Diplomatique Brasil, intitulado “A Amazônia e o antiambientalismo de resultados”, é um bom exemplo de como romper com a monofonia e o olhar cartesiano para o assunto. O artigo não foi escrito por um jornalista, mas tem espaço em um site jornalístico, o que é bem-vindo, para começar. Trata-se do resultado de uma reflexão proposta por um acadêmico, Henri Acselrad, que traz uma mirada ainda pouco explorada pela mídia hegemônica. Logo de começo, o autor faz uma provocação importante.

“Tem-se discutido menos, porém, o papel dos povos indígenas na preservação dessa floresta, na luta secular para protegê-la com seus conhecimentos e sua cultura material e imaterial – povos cujos direitos estão sendo ameaçados, hoje, a partir de ações gestadas de dentro mesmo da máquina governamental.”

Fonte: Captura de tela do site Le Monde Diplomatique


Ele questiona e evidencia a lógica dominante, que considera a preservação do meio ambiente e a presença de povos indígenas um entrave ao desenvolvimento (leia-se geração de lucro). Além disso, traz uma leitura a partir da história, recuperando informações importantes para pensar criticamente a questão da exploração da Amazônia. O tom é franco, algo muito necessário em meio a um mar de uma retórica pro forma, e pode soar duro até.

“O que dizem os atuais governantes é que não importa o indígena, nem a árvore; menos ainda as relações entre eles. Importa só o minério, as terras e as águas como matéria e espaço para a obtenção de lucros e divisas.”


Aqui voltamos ao papel educativo/informativo do jornalismo. Para estimular uma ação com força de mudança, para provocar inquietação e incômodo em que lê/assiste, é preciso, por óbvio, contar mais do que usualmente é contado. É preciso contexto e reiteração.Há inúmeros outros aspectos necessários abordados ao longo da crítica. Destacamos a discussão sobre o antiambientalismo liberal, que tomou força no Brasil com a eleição do atual presidente. 

“O antiambientalismo liberal é aquele que alega que quanto mais liberdade houver para as corporações, mais dinheiro elas ganharão e mais recursos restarão, supostamente, para a proteção ambiental.”

A lógica que busca desconstruir as regulações sobre o meio ambiente, pautadas, em muito, num racismo ambiental, é um assunto denso, mas pertinente e que tem fugido das pautas diárias. Quando surgem, descolados do todo, em pouco mobilizam. Ao contrário, provocam a inércia de que nada se pode fazer para refrear o que está posto. O artigo publicado no Le Monde é, acreditamos, um convite importante neste Dia da Amazônia. Não para uma comemoração, como dissemos, mas para uma participação mais efetiva na disseminação de informação qualificada sobre nossa floresta. 

*Jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Jornalista, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Uma homenagem a Adrian Cowell

Assista ao especial do programa Cidades e Soluções, da Globo News, sobre o valioso trabalho do documentarista Adrian Cowell na Amazônia. Entre seus importantes trabalhos está “A década da destruição”, série sem precedentes abordando o abuso de uma nação na região amazônica. Um documento importante produzido por André Trigueiro e equipe. Assista aqui.