Arrabalde, o dossiê sobre a(s) Amazônia(s) apurado e escrito por Moreira Salles

Imagem: Captura de tela – Versão digital da sexta e última parte do especial escrito por João Moreira Salles publicada na edição de abril de 2021 da revista piauí
 

Por Roberto Villar Belmonte*

O especial Arrabalde foi publicado em seis edições da revista piauí como um dossiê, formato de texto jornalístico do gênero interpretativo. Os artigos – “resultado de dois anos de pesquisa e cinco meses de apuração diretamente na região Norte” – de autoria de João Moreira Salles, editor fundador da publicação, poderiam também ser classificados como grande reportagem seriada, ensaio jornalístico, reportagensaio ou reportagens atravessadas, como diria Eduardo Geraque (2006).

Juntando as seis partes publicadas nas edições mensais da versão impressa da piauí, de novembro de 2020 até abril de 2021, o especial ocupa 77 páginas: 49,5 delas com texto, 7 com ilustrações e 20,5 com anúncios da Natura, da Vale, do Itaú e da Agropalma. Moreira Salles destrincha relatos históricos, pesquisas econômicas e estudos ecológicos sobre a floresta amazônica e mobiliza uma quantidade surpreendente de fontes (mais de 70 entrevistados), com destaque para personagens do Pará.

Parte I: A floresta difícil

O principal objetivo da apuração de fôlego empreendida por Moreira Salles é mostrar que o modelo de desenvolvimento para o bioma, que ocupa metade do território nacional, precisa levar em conta uma economia florestal baseada em produtos nativos. “As forças que avançaram sobre a floresta nunca tentaram compreender a real vocação da mata, aquilo de que ela é capaz. O processo de ocupação da Amazônia pode ser entendido como um grande fracasso epistêmico.” Resgatando relatos históricos sobre a região, o autor identifica três estratégias narrativas: um adjetivismo apoteótico, um panteísmo mágico e um derrotismo fatalista. Ele busca um outro caminho para tecer seus artigos, o da bioeconomia como oportunidade de negócio sustentável.

Parte II: Sete bois em linha

A ocupação da Região Norte lembra a conquista do oeste dos Estados Unidos, com uma grande diferença, observa Moreira Salles, aqui “não desenvolvemos uma épica amazônica para compartilhar entre nós”. Faltou construir, ressalta, uma Amazônia simbólica. “Exercermos uma espécie de colonialismo indiferente, ocupamos sem querer conhecer.” O Brasil optou por destruir muito em troca de pouco e a um custo imenso, denuncia entre relatos sobre a importância da diversidade biológica para a sobrevivência dos ecossistemas. A imagem que o repórter presenciou subindo a BR 163 de sete bois em linha para resistir ao calor na sombra de um tronco solitário de árvore sintetiza o modelo predatório que já devastou pelo menos 1/5 da floresta.

Parte III – A fronteira é um país estrangeiro

A entrevista que fez com Robert Schneider, economista aposentado do Banco Mundial, é um ponto alto da série de artigos, pois Moreira Salles esmiuça com ele o relatório Governo e Economia na Fronteira Amazônica que publicou em 1995 mudando a maneira de compreender a destruição do bioma. “‘Mineração de nutrientes’ foi a expressão criada por Schneider para nomear a extração não sustentável de nutrientes do solo florestal mediante corte e queima da vegetação, com o objetivo de abrir espaço para a lavoura e a pecuária extensiva.” O engenheiro agrônomo e pesquisador Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), participou da conversa, e aparece em outras partes do dossiê.

Parte IV – A reviravolta

“A cultura do boi produz uma estética, um gosto, define hábitos, uma identidade, formas de enxergar a realidade. Em regiões como Paragominas, o agronegócio é muito mais que uma atividade econômica. É um modo de estar no mundo que une jovens e velhos, modernos e arcaicos, liberais e conservadores, além, é claro, de reacionários. É a cultura hegemônica que os vitoriosos impuseram à Amazônia. São as cabines duplas, os adereços taurinos nos para-choques das picapes com tração nas quatro rodas, os rodeios, a música sertaneja, a glorificação do cavalo e a submissão do boi, as feiras agropecuárias, a brasa e o churrasco. Em suma: o contrário da selva, a sua negação.”

Parte V – O reencontro

Entrevistando Ester Ymeriki Kaxuyana com ajuda da filha Vaneusa, de 20 anos, Moreira Salles conta a saga do povo Kaxuyana desterrado por causa de epidemias e ações missionárias. Depois apresenta os Sakaguchi, imigrantes japoneses de Tomé-Açu, município localizado no nordeste do Pará, que adotaram o sistema agroflorestal como uma forma de fazer a agricultura trabalhar com a floresta, não contra ela. “É outro modo de fazer as coisas, ou outro modo de estar no mundo. A mecanização é difícil, por exemplo. A diversidade de espécies exige não apenas uma competência, como as monoculturas, mas várias, tantas quanto forem as plantas ali presentes. É uma agricultura para artesãos, não para industriais.”

Parte VI – O que queremos?

A narrativa em prol da bioeconomia é apoteótica no final. “Levada adiante, a ideia de um Brasil que retira do seu patrimônio natural, e da Amazônia em particular, o fundamento de sua identidade e de seu destino, que transforma o arrabalde em nossa casa, por assim dizer, impõe ao país uma tarefa magnífica. No limite, a de desenvolver em terras brasileiras o Vale do Silício da biodiversidade.” Moreira Salles percebe seu tom utópico e termina assim o dossiê: “Pouco importa se o objetivo é fantasioso e difícil de alcançar. O que importa é o rumo. Para um país que sempre sonhou baixo, é uma linda ambição, apta a evitar que, no futuro, uma criança olhe para um mogno e aprenda que está diante de uma pilha de tábuas de compensado”.

Assim como o documentário No Intenso Agora, de 2018, considero o dossiê da revista piauí chamado Arrabalde (2020/2021) uma obra de referência do cineasta, editor e (agora também) repórter João Moreira Salles. Um jornalismo ambiental de profundidade sobre futuros possíveis para a nação brasileira.

Referência:

GERAQUE, Eduardo Augusto. Reportagens atravessadas: um mergulho, via Teoria Geral dos Sistemas, na cobertura da poluição atmosférica feita por jornais brasileiros e mexicanos. Tese (doutorado). 2006. 243 f. Programa de Pós-Graduação em Integração na América Latina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Amazônia à venda e outras circunstâncias de um retrocesso

Imagem: BBC Brasil. Madeireiro derruba árvore em área protegida nos arredores de Porto Velho.

Por Mathias Lengert*

O Brasil, um país com meio milênio de apropriação de terras, vê seu legado obscuro avançar com a grilagem na Amazônia. Tal como nos tempos ditatoriais, a floresta – cuja destruição conta com a simpatia do sistema político – é considerada um obstáculo para o desenvolvimento. A eleição de Carla Zambelli (PSL-SP) para a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados testemunha esse desinteresse com uma ferida aberta que tarda a ser tratada. “Foi uma circunstância”, afirmou a deputada ao minimizar a responsabilidade do Governo no aumento de focos de incêndio na Amazônia nos últimos dois anos. Em entrevista, concedida ao Estadão após a sua nomeação, Zambelli culpou as narrativas da oposição pela imagem negativa que o país possui na gestão ambiental.

Entre disputas políticas que lançam o debate público a uma espiral de desinformação e retrocesso, esperamos do jornalismo um alento. Que ele seja capaz de questionar deputados negacionistas sobre o desmatamento ilegal que insiste em ser escondido, com uma posição de escuta às vozes que a grilagem e o garimpo ameaçam calar, mobilizando, assim, leituras críticas do mundo. Observa-se, no entanto, que o Estadão assumiu uma postura de frágil contestação na entrevista, sem questionar o alinhamento dos membros da Comissão de Meio Ambiente com as agendas de Ricardo Salles e da bancada ruralista.

Em contrapartida, o fôlego da investigação jornalística do documentário da BBC Brasil sobre a negociação de pedaços da floresta amazônica no Facebook consolidou em si um espaço de denúncia. Muitas das áreas à venda pertenciam a unidades de conservação ou terras indígenas – especialmente da tribo Uru Eu Wau Wau. Os lotes oferecidos não possuíam títulos públicos. Três dias depois da publicação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou a investigação deste mercado ilegal.

A produção revela ainda que o esquema de grilagem de terras tem a anuência de políticos. Entre os citados, a investigação evidencia um nome que ressoa entre os recentes acontecimentos da Câmara. Trata-se do Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), apontado por grileiros como um aliado em Brasília. No dia 12 de março, duas semanas após a publicação do documentário, o deputado federal foi eleito vice de Zambelli na Comissão de Meio Ambiente. Alguns dos parlamentares não parecem se constranger em nomear políticos que são a antítese dos cargos que irão ocupar.

O exercício investigativo da BBC, por sua vez, é um reduto de resistência às narrativas daqueles que compartilham das posições de Zambelli e Chrisóstomo, sinalizando não apenas a ocorrência dos crimes, como também promovendo as reivindicações de povos indígenas. O jornalismo ambiental é constituído desse ato da escuta do outro, assumindo um posicionamento sensível e crítico. E, para tanto, é necessário indicar as interconexões de questões socioambientais complexas, sem se abster de referenciar projetos políticos ecocidas.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A política da mudança do clima: do internacional ao local

Imagens: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Enquanto é discutida a viabilidade de se realizar os Jogos Olímpicos de Tóquio em meio à maior crise sanitária desde o último século, outro “comitê” esportivo nos chamou a atenção recentemente aos efeitos do aquecimento global. Trata-se da candidatura simbólica para a Olimpíada de verão de 2032, no lugarejo de Salla, que conta com 3.400 moradores no Ártico finlandês. A ideia, exposta nesta matéria da Folha de São Paulo, é denunciar a emergência climática e seus efeitos em uma cidade com modo de vida ligado ao frio e à neve, daí o motivo de ser “possível” a realização do evento com modalidades tipicamente de verão.

Se o exemplo desta iniciativa cumpre um importante papel elucidativo através da alegoria, causa apreensão, em todas as sociedades, o descompasso de atividades simbólicas, acordos e promessas políticas em relação às efetivas atuações, no mundo real, para a redução das emissões. Ao mesmo tempo, uma notícia do início de fevereiro informa que o Tribunal de Paris declarou a responsabilidade do governo da França pela inércia no combate às mudanças climáticas. Conforme explica a Revista Época, a ação foi movida por ONGs que reuniram mais de dois milhões de assinaturas. E Jorge Abraão enfatizou, em sua coluna na Folha de São Paulo, a relevância e o pioneirismo do resultado ao criar jurisprudência e referência, além de encorajar ações contra governos que não cumprem os compromissos assumidos. 

Já no Brasil, sabemos que o melhor caminho para alcançarmos nosso compromisso é pela redução e eliminação do desmatamento ilegal na Amazônia. Desafio necessário e viável, torna-se, no entanto, mais difícil de ser realizado à medida que o governo federal move mundos (e poucos fundos), desde 2019, para impedir a devida repressão a este crime ambiental. Como um agravante, a política local também é, em geral, grande aliada dos inimigos da floresta. A “desamazonização da Amazônia”, coluna de Fabiano Maisonnave na Folha, aborda a hegemonia do discurso antiambientalista na região, caracterizado pelo ínfimo contrapeso de políticos amazonenses de perfil socioambiental. Cabe questionarmos aí, além da forma de atuação da mídia local, também o papel que cumpre a abordagem da grande mídia nacional sobre aquela região, por vezes tratada como exótica e distante — a Amazônia vista com o olhar do Sudeste do Brasil.

A ação da mídia é fundamental para além das denúncias de crimes ambientais, mas mobilizando uma ampla e complexa visão socioambiental da região. Deve envolver, ainda, o estímulo às políticas de criação de maior valor agregado em atividades econômicas sustentáveis, que não deixem a população economicamente à mercê de um discurso ecologicamente suicida. A composição deste dilatado cenário de combate à emergência climática é complexa, mas certamente abrange mais que a atuação de organismos globais e das esferas federais. Tendo em vista o emaranhado de interesses em conflito na região amazônica, o cerne da questão parece mesmo requerer uma atuação direta em nível local.

* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Nas eleições dos EUA, a pauta é amazônica

Por Ângela Camana

Fonte: Captura de tela do site da Veja

Na última semana o mundo acompanhou atento o desenlace das eleições norte-americanas, cuja vitória do candidato democrata à presidência, Joe Biden, foi conhecida no sábado, dia 7. Enquanto os votos eram apurados, no Brasil observamos a declaração de apoio de Bolsonaro à reeleição de Donald Trump, um gesto inédito na política externa nacional, tradicionalmente neutra quanto aos pleitos das nações estrangeiras. Todo este cenário já tenso adquire outros matizes em função do papel que a Amazônia teve na disputa, já que Biden afirmou que estará atento à preservação da floresta, o que foi amplamente repercutido pela imprensa. 

Em entrevista concedida em março, mas reverberada fortemente nesta primeira semana de novembro, Biden afirmou sua disposição para articular um grupo de países a fim de pressionar o governo Bolsonaro pela conservação da Amazônia, prevendo aportes financeiros massivos e mesmo sanções econômicas caso isso não ocorra. O presidente brasileiro respondeu, reforçando o apoio a Trump e argumentando que os dizeres do candidato democrata são uma afronta à soberania nacional. No último dia 3, o vice-presidente Hamilton Mourão, que dirige o Conselho Nacional da Amazônia, também declarou seu incômodo com a postura do norte-americano

Os maiores veículos de imprensa brasileira publicizaram todo este debate no âmbito da extensa cobertura dedicada às eleições norte-americanas. No entanto, há que se considerar que não conseguiram escapar do jornalismo declaratório, isto é, da mera reprodução de falas das personalidades em questão. Uma pena, já que a pauta ambiental envolve controvérsias e disputas que merecem ser melhor exploradas, sobretudo na semana na qual os próprios EUA abandonaram o Acordo de Paris. Tudo indica que a agenda ambiental no contexto das relações Brasil-EUA voltará a ter força nos próximos meses: passada a corrida presidencial, espera-se que os veículos brasileiros possam abordar a questão para além da editoria de política investindo em novas fontes e análises.

Por fim, neste pleito acirrado e marcado por acusações, é importante destacar também a ação inédita das três principais emissoras de televisão norte-americanas ao interromperem a transmissão ao vivo do discurso do atual presidente Donald Trump, em função de seu conteúdo falso. Qual o limite do espaço a ser dado a fontes que propagam fake news? Como o compromisso ético do jornalismo com a verdade vem sendo tensionado ano após ano por atores que difundem desinformação deliberadamente, veja-se o caso dos negacionistas das mudanças climáticas, a atitude emblemática da imprensa norte-americana vem em boa hora. Que sirva de exemplo a outros veículos mundo afora. 

* Jornalista e socióloga. Membro do GPJA e do TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). E-mail: angela.camana@hotmail.com

Não basta falar da Amazônia: sobre história e múltiplas vozes

Por Ursula Schilling* e Eutalita Bezerra**

Fonte: Luis Deltreehd/Pixabay


Hoje, 5 de setembro, é o Dia da Amazônia. A data, que não podemos, no atual contexto (e mesmo no passado), chamar de comemorativa, pode ser aproveitada pelas diferentes instâncias da sociedade, e especialmente pelo jornalismo, não só para reaquecer o debate sobre a maior floresta tropical do mundo, mas para trazer “novas” abordagens para além de dados e denuncismo. Não basta falar de quantidade de hectares destruídos, queimada, desmatamento, extermínio de fauna e conflitos por território, é preciso que diferentes vozes se somem a esse grito.

Quando falamos em novas ou outras vozes, queremos dizer dar espaço para fontes além das oficiais. Ouvir autoridades de governo, instituições representativas e acadêmicas, sim. Mas ouvir a população local, povos nativos e detentores de outros saberes que não os institucionais. E mais: na balança informativa – que vem falhando historicamente – cabe considerar que conceder espaço de fala a um governante e a um indígena, por exemplo, não garante equanimidade. Até mesmo essa proporção precisa ser repensada para atingir o equilíbrio.


Artigo recente publicado no site Le Monde – Diplomatique Brasil, intitulado “A Amazônia e o antiambientalismo de resultados”, é um bom exemplo de como romper com a monofonia e o olhar cartesiano para o assunto. O artigo não foi escrito por um jornalista, mas tem espaço em um site jornalístico, o que é bem-vindo, para começar. Trata-se do resultado de uma reflexão proposta por um acadêmico, Henri Acselrad, que traz uma mirada ainda pouco explorada pela mídia hegemônica. Logo de começo, o autor faz uma provocação importante.

“Tem-se discutido menos, porém, o papel dos povos indígenas na preservação dessa floresta, na luta secular para protegê-la com seus conhecimentos e sua cultura material e imaterial – povos cujos direitos estão sendo ameaçados, hoje, a partir de ações gestadas de dentro mesmo da máquina governamental.”

Fonte: Captura de tela do site Le Monde Diplomatique


Ele questiona e evidencia a lógica dominante, que considera a preservação do meio ambiente e a presença de povos indígenas um entrave ao desenvolvimento (leia-se geração de lucro). Além disso, traz uma leitura a partir da história, recuperando informações importantes para pensar criticamente a questão da exploração da Amazônia. O tom é franco, algo muito necessário em meio a um mar de uma retórica pro forma, e pode soar duro até.

“O que dizem os atuais governantes é que não importa o indígena, nem a árvore; menos ainda as relações entre eles. Importa só o minério, as terras e as águas como matéria e espaço para a obtenção de lucros e divisas.”


Aqui voltamos ao papel educativo/informativo do jornalismo. Para estimular uma ação com força de mudança, para provocar inquietação e incômodo em que lê/assiste, é preciso, por óbvio, contar mais do que usualmente é contado. É preciso contexto e reiteração.Há inúmeros outros aspectos necessários abordados ao longo da crítica. Destacamos a discussão sobre o antiambientalismo liberal, que tomou força no Brasil com a eleição do atual presidente. 

“O antiambientalismo liberal é aquele que alega que quanto mais liberdade houver para as corporações, mais dinheiro elas ganharão e mais recursos restarão, supostamente, para a proteção ambiental.”

A lógica que busca desconstruir as regulações sobre o meio ambiente, pautadas, em muito, num racismo ambiental, é um assunto denso, mas pertinente e que tem fugido das pautas diárias. Quando surgem, descolados do todo, em pouco mobilizam. Ao contrário, provocam a inércia de que nada se pode fazer para refrear o que está posto. O artigo publicado no Le Monde é, acreditamos, um convite importante neste Dia da Amazônia. Não para uma comemoração, como dissemos, mas para uma participação mais efetiva na disseminação de informação qualificada sobre nossa floresta. 

*Jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Jornalista, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Uma homenagem a Adrian Cowell

Assista ao especial do programa Cidades e Soluções, da Globo News, sobre o valioso trabalho do documentarista Adrian Cowell na Amazônia. Entre seus importantes trabalhos está “A década da destruição”, série sem precedentes abordando o abuso de uma nação na região amazônica. Um documento importante produzido por André Trigueiro e equipe. Assista aqui.