As queimadas na agricultura familiar no estado do Amazonas

Imagem: Print de manchete do G1 em 25/09/2022.

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

A narrativa das queimadas na Amazônia brasileira por parte da mídia hegemônica tem despertado as atenções de uma forma quase sempre alarmista. Mesmo considerando apenas a área de território do estado do Amazonas, estamos falando de uma extensão de terras fabulosas, que até mesmo pela sua localização central no continente sul-americano torna difícil o acesso e a exploração dos recursos naturais existentes nas terras, águas e florestas.

A matéria de Matheus Castro trata sobre as queimadas acontecidas no estado do Amazonas em setembro de 2022 apresenta o fenômeno de forma alarmista, sem levar em consideração que a população local necessita preparar áreas para a agricultura visando a produção de alimentos. Segundo Matheus Castro, somente em quatro dias – de 21 a 24 de setembro – foram registrados 1.043 focos de queimadas, totalizando 7.286 focos de calor somente no mês de setembro. O consolidado para o ano de 2022 seria de 17.798 incêndios, o pior cenário desde 1998, quando o INPE começou a fazer o monitoramento das queimadas. Esse seria o pior mês de setembro desde 1998. Matheus Castro apenas cita que os focos de queimadas se concentram nos municípios periféricos do do Amazonas: Lábrea e Boca do Acre, ambos no sul do Estado do Amazonas.

Ainda que o autor da matéria cite como fonte o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a generalização das queimadas pelo estado do Amazonas oculta a finalidade do uso do fogo. Do total de 17.198 focos de incêndio, o autor não apresenta o total da área queimada, muito menos o porquê do uso do fogo.

Não estou aqui negando a destruição que se vem fazendo há décadas, principalmente no chamado círculo de fogo, no sul do estado do Pará, chegando já a atingir terras do sul do Amazonas. Contudo, a generalização, como consta ma matéria do G1/AM citada, é levar a opinião pública ao erro.

Caso o autor, Matheus Castro, consultasse dados existentes no site do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), poderia concluir que praticamente toda a agricultura praticada no estado do Amazonas é desenvolvida por agricultores familiares, que para a limpeza do terreno e o preparo do solo para o plantio, necessariamente lançam mão do fogo como mecanismo de preparo da área tanto no ecossistema de terra firme quanto no de várzea.

Segundo o Instituto, nesse ano o total de hectares trabalhados com agricultura no estado do Amazonas foi de 38.571 hectares, cultivados com as culturas de milho, feijão, arroz, mandioca, malva, guaraná, banana, açaí, abacaxi, cupuaçu e laranja, distribuídos por 33.778 produtores. Na terra firme o porte das árvores e a dureza das madeiras dificultam a retirada das galhadas e o arranquio dos tocos de porte avantajado; já no ecossistema de várzea, mesmo sendo a vegetação de menor porte ou rasteira, quase sempre gramíneas, ainda assim faz-se necessário o uso do fogo.

Levando em consideração o tamanho das áreas cultivadas por cada família, geralmente variando de meio a dois hectares percebe-se logo que o impacto ambiental, levando-se em conta o tamanho da região amazônica, é possível de ser absorvido pela floresta. Normalmente na terra firme é cultivada a mandioca para a produção de farinha, uma das bases da alimentação das famílias que residem na zona rural, a proteína é obtida dos peixes e já bem pouco da carne de caça.

No ecossistema de várzea são cultivadas as culturas de ciclo curto, como melancia, milho, jerimum, feijão caupi, hortaliças de várias espécies – o agricultor aproveita a riqueza natural dos solos de várzea. Na área de influência da região metropolitana da cidade de Manaus já se pratica uma agricultura de porte comercial, com o plantio de fruteiras como a laranja, o abacaxi, coco e maracujá.

No estado do Amazonas mesmo a pecuária também é praticada em propriedades de pouca extensão territorial, diferentemente do Pará, que possui criatórios que ocupam milhares de hectares cultivados com capim. Conclui-se que a matéria foge dos princípios do jornalismo ambiental, já que este, segundo Wilson da Costa Bueno (2007), “deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios”.

Referências:

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO E FLORESTAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS. Disponível em: http://www.idam.am.gov.br/ater/producao-vegetal/. Acesso em: 27/09/2022.

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, jornalismo e meio ambiente: teoria e pesquisa.São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com

Tudo precisa ir a algum lugar (ou: meu copinho vai para o oceano)

Por Reges Schwaab*

Toneladas de plástico. O Brasil é o maior poluidor plástico da América Latina, conta uma das reportagens sobre problemáticas socioambientais que merecem destaque nestas últimas semanas. Em texto para O Eco, a atenta Paulina Chamorro, realizadora do @vozesdoplaneta.podcast, costura dados estarrecedores sobre a poluição plástica e algumas considerações importantes que ela ouviu desde a mais recente Conferência dos Oceanos. Em seu perfil no Instagram, a jornalista compartilha uma frase marcante no evento realizado em Lisboa, em julho passado. A poluição plástica no mar é como um derramamento de óleo lento e constante. E muito intenso. Na reportagem, a participação exponencial e ativa do nosso país como um dos propulsores do problema é destaque.

Daqui, mandamos 325 mil toneladas de plástico direto para os mares todos os anos. Aquele nosso “inocente” copinho descartável de café deve estar lá, portanto. Ou um dos muitos garfinhos para os bolos de aniversário vida afora. Ou uma das tantas coisas de plástico que já tivemos em casa. Ou, pelo menos, os fragmentos do “inocente” copinho descartável de café, do garfinho, da sacolinha. Com certeza estão lá. Todos participamos disso. Nosso cotidiano descartável está impregnado de plástico de uso único. Não há política pública contundente que possa frear essa linha de frente da destruição do planeta.

Um modo acelerado de levar a vida está ramificado por todos os lados, mas desconectado de tudo. Se lembrássemos, conscientes, do percurso do copinho plástico, se fôssemos atentos às conexões, o descartável não teria tanto espaço. Ainda não é assim, no entanto. “Tudo se conecta com tudo o mais”, diz uma das quatro leis informais da ecologia de Commoner. Só que não prestamos atenção. Em casa, no trabalho, em nossa cidade, em nosso país, em Brasília.

A imensidão de plástico que embrulha nossa vida e a de outros seres (que não optaram pelo plástico) está, em geral, na trilha da fabricação de embalagens e outros itens descartáveis. A reportagem contabiliza 2,95 milhões de toneladas produzidas por ano. Exemplificando: é o equivalente à produção de 500 bilhões de unidades de itens de uso único no Brasil. Como o “copinho” e o “garfinho”. E “tudo precisa ir a algum lugar”, continua Commoner na segunda lei informal da ecologia.

A terceira lei é: “a natureza sempre tem razão”. Isso faz pensar em muita coisa, inclusive no fato de que uma fruta, que tem casca, não precisaria estar embalada em isopor e coberta de filme plástico, para ficar em um exemplo corriqueiro.  Commoner termina: “nada vem do nada”, a quarta lei informal da ecologia. É o que assinalamos antes, as coisas estão absolutamente interligadas. Não é um papo de jovem místico, é lógica e observação.

Nós já sabemos disso, em termos gerais. Esse conceito faz sentido para nós. Mas nossa compreensão é apenas intelectual, não é da ordem de uma ética internalizada, refletida. Já lemos que não existe nada isolado no nosso sistema terrestre. Mesmo assim, seguimos descartando a vida, permeando tudo que é possível com plástico, enviado rapidamente a cantos do planeta. Nosso plástico já forma continentes no mar, está depositado na Antártida. Depois volta até nós, pois ingerimos microplástico todos os dias.

Outro alerta muito pertinente da matéria é o de que “reciclável” não quer dizer que seja, efetivamente, reciclado. Na sociedade descartável e desatenta, o selo de reciclável serve muito bem à nossa tentativa de sermos “legais” e termos a consciência tranquila. De fato, todavia, fazemos pouco ou quase nada. Valorizamos mais as opções passíveis de foto nas redes sociais. Na sociedade de selos e símbolos pouco perenes, seguimos achando que o destino final do saco de recicláveis – lixo seco que separamos (ainda bem!) – é algum lugar perto da nossa casa, no máximo. Algo bacana parece que vai acontecer, porém não temos real dimensão ou a informação completa sobre todo processo com os resíduos que geramos.

Quando andamos pelas cidades antes da coleta de resíduos, o cenário é arrasador. Se pegarmos uma ponta disso, se puxarmos os fios, se multiplicarmos o que vemos em escala ampla, podemos ter alguma noção do tipo de realidade que nossa sociedade está construindo. E não é a realidade de um futuro distante. Por isso, trata-se de uma pauta que precisa estar sempre no horizonte de forma insistente. O jornalismo precisa ajudar a puxar cada um desses fios.

A reportagem de Paulina Chamorro é reflexo de uma apuração importante, capaz de fazer alguma ranhura na casca grossa dos nossos hábitos desatentos. Junto, levanta também o olhar sobre as questões macro, que dependeriam de ação política e governamental, tão distante quanto a possibilidade de uma sociedade sustentável (o que não nos impede de seguir construindo um caminho). A nossa vida está aqui, está na Amazônia, está no córrego que passa no fundo da nossa cidade, está no meio do oceano. Nossa vida está conectada a tudo, em toda parte. As conexões são incalculáveis. Em geral, é uma pena, permanecemos embalados pela incompreensão de qual é o nosso lugar nisso tudo.

Já abordamos a problemática em outros textos aqui no Observatório. Você pode vê-los aqui.

* Jornalista, doutor em Comunicação e Informação, professor na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Sumaúma: um portal de jornalismo no centro da floresta

Imagem: Reprodução do portal Sumaúma

Por Patrícia Kolling*

Na última semana, o Brasil e o mundo ganharam um novo portal de jornalismo, o Sumaúma, intitulado “Jornalismo do Centro do Mundo”. O portal/newsletter pretende trazer notícias e grandes reportagens produzidas diretamente da Amazônia, a partir do olhar dos povos da floresta. O manifesto de lançamento do projeto destaca que este se “propõe a debater e jogar luz aos temas urgentes que colocam a Amazônia no epicentro da questão ambiental do planeta”. Os criadores do projeto acreditam que, em um mundo em colapso climático, os centros mais essenciais “não são Washington ou Pequim, não são os bunkers do sistema financeiro, mas os enclaves de vida do qual depende a nossa sobrevivência, como os oceanos, as florestas tropicais, os vários biomas”.

A jornalista e escritora Eliane Brum e o jornalista britânico Jonathan Watts, editor de meio ambiente do The Guardian, são os idealizadores do projeto, que conta com a participação das jornalistas Carla Jimenez, Verônica Goyzueta e Talita Bedinelli, e a parceria da rede de comunicadores indígenas Rede Wayuri. O projeto tem sede em Altamira, no Pará, e terá como base um conselho com pessoas representativas da floresta.

Sumaúma é uma das maiores árvores da Amazônia. Ela é majestosa e traz na memória dos povos indígenas e da floresta inúmeras histórias. Por isso, foi escolhida para dar nome ao portal, que segundo o manifesto quer contar histórias dos povos que vivem na Amazônia, a partir da sua perspectiva, e permitir que essas vozes se propaguem.

Sumaúma é um portal de notícias e um newsletter em português, inglês e espanhol, além da Rádio Sumaúma, que produzirá um podcast quinzenal contando os bastidores e análises das reportagens publicadas. O podcast é comandando por Elizângela Baré, mulher indígena de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

Na sua primeira edição, o portal já mostrou a que se propõe, ouvindo as mulheres do povo Yanomami. Mulheres que não falam português e que vivem num território cada vez mais controlado pelo garimpo ilegal, sendo vítimas de violências que dificilmente são expostas. “Escolhemos escutar as mulheres Yanomami porque entendemos que Sumaúma nasce em um tempo de guerra, a guerra contra a natureza e seus povos que está levando o planeta à catástrofe climática e à sexta extinção em massa de espécies”. Nas guerras, são as mulheres, adultas e crianças, as mais silenciadas e as que mais sofrem, destaca Eliane Brum, no texto de abertura do portal.

Para garantir fidelidade à fala das indígenas, buscando “alcançar a palavra exata e a interpretação precisa”, a reportagem foi produzida com a ajuda de duas tradutoras, uma indígena Yanomami e uma antropóloga com 15 anos de experiência com povos originários. Ou seja, o portal pretende realmente trazer com profundidade as situações vivenciadas pelos povos da floresta, penetrando nas suas “entranhas”. Além da informação e da fala das fontes, os textos descrevem situações e locais vividos, o que permite ao leitor entrar no espaço da reportagem e, vivenciar os dramas vividos.

É um jornalismo que exige muita coragem, pois como diz a reportagem: “Sabíamos que seria muito difícil alcançar as regiões dominadas pelo garimpo, porque os criminosos controlam não só o chão, mas também o ar”. Para fazer a reportagem, com apoio de organizações parceiras, as mulheres foram retiradas dos seus territórios e levadas para lugares em que pudessem falar e se expressar em segurança. “Botamos em curso uma complexa operação de jornalismo em território de guerra, uma guerra cujas forças são tão desproporcionais que a palavra mais exata seria massacre.”

Segundo o que afirma em sua apresentação, o objetivo do portal é ser muita mais que uma plataforma de jornalismo ambiental ou de meio ambiente, embora sua proposta se encaixe perfeitamente nos pressupostos defendidos pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e na tentativa de ambientalizar o fazer jornalístico. Sinaliza-se aqui a necessidade de pontuar o que, de fato, é compreendido por esse jornalismo ambiental, que não representa a produção de Sumaúma. “Nossa compreensão dos mundos não é compartimentada: entendemos que a crise climática atravessa todos os temas e é assim que deve ser tratada pelo jornalismo.” Destaca o texto: “Só podemos cobrir a brutalidade de uma minoria humana capaz de provocar uma extinção em massa de espécies e colocar suas próprias crianças em risco de um futuro hostil se compreendermos que a guerra contra a natureza é configurada pelas relações de poder determinadas por raça, gênero, classe e também espécie”. Acreditamos, que se os povos indígenas fizerem efetivamente parte deste projeto, a complexidade da questão ambiental será expressada nos textos de forma natural.

Ao propor-se a atuar como laboratório para a formação de jornalistas que moram na Amazônia, o projeto pretende ser um espaço em que alma da floresta seja transmitida em texto e áudios, tornando-se um canal influente para trabalhar em benefício do futuro do planeta. Como destacam os fundadores, “por enquanto é um projeto semente”, e por ser um projeto de jornalismo independente, depende da colaboração dos leitores e ouvintes para sua sobrevivência financeira (para apoiar: https://apoia.se/sumaumajornalismo).

É na esperança de que a união de jornalistas renomados, experientes e influentes, juntamente com a sabedoria dos povos da floresta possa dar certo, que encerramos este texto. Acreditamos que esse tipo de prática, que conecta, que sente, que expressa, seja o futuro do jornalismo, com o potencial de provocar mudanças nas mentes e nos corações da sociedade. Desejamos coragem e determinação aos criadores, e que consigam colocar em prática tudo que vislumbram, desejando vida longa ao projeto e a este jornalismo de verdade.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal do Mato Grosso – Campus Araguaia.

A falsa neutralidade na cobertura da questão ambiental nas eleições

Imagem: Reprodução de Rede Brasil Atual.

Por Matheus Cervo*

Com o início das campanhas eleitorais no Brasil  em 16 de agosto, o jornalismo começou a cobrir mais ativamente as mensagens que vêm sendo transmitidas pelas campanhas dos presidenciáveis. Não é inesperado que muitos veículos de comunicação se voltem para as possíveis propostas de governo direcionadas à questão ambiental, após quatro anos de notícias sobre os enormes impactos ambientais negativos devidos à atuação do atual governo federal. Como memória disso e de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lembramos que houve um aumento de 56,6% da média de desmatamento anual da Amazônia de 2019 à 2022 em comparação com o período anterior (2016 à 2018).

Contudo, mesmo com a realidade dos últimos quatro anos e com a quantidade enorme de dados científicos sobre a questão, a cobertura sobre as propostas dos presidenciáveis tem se dado através de um debate raso e meramente declaratório em muitos veículos. Como exemplo disso, podemos ver a matéria do Uol acerca da declaração de Bolsonaro sobre as áreas indígenas protegidas fazerem o mapa do Brasil parecer com um “corpo com catapora” – um país pintado com áreas protegidas que “afetariam o agronegócio e o homem do campo”. Essa matéria, publicada no dia 26 de agosto, não faz nada além de declarar o que foi dito pelo candidato à reeleição, apenas aumentando ainda mais o alcance da falácia sobre um assunto complexo, que poderia ter sido debatido com pesquisas sérias na área e importantes vozes que atualmente abordam esse tema. O mesmo é feito pelo Portal Terra que, apesar de fazer um compilado de falas dos principais quatro presidenciáveis sobre a questão do marco temporal às terras indígenas, não se posiciona sobre o tema com dados e pesquisas, tratando o debate como meras opiniões equivalentes a serem consideradas.

Essa falta de profundidade afeta várias questões ambientais dentro do jornalismo que pauta as eleições, como as matérias que cobrem as propostas em relação ao agronegócio e as possibilidade de reforma agrária no Brasil. O jornal Correio do Estado publicou uma matéria no dia nove de setembro sobre as declarações de Ciro Gomes, candidato do PDT, sobre a temática. O tom novamente foi meramente declaratório, expandindo as falas do presidenciável sobre a força do agronegócio como o setor econômico “que leva o Brasil nas costas”. Além disso, a matéria apenas reescreve as falas do candidato sobre o “problema econômico do agronegócio” relacionado com o consumo de fertilizantes externos da Rússia e da Ucrânia, o que o faz pensar em medidas para criar autonomia brasileira na produção de fertilizantes. Essa tonalidade neutra do Correio do Estado faz com que não haja nenhuma discussão real e científica sobre as propostas – como faz o projeto O Joio e O Trigo que mostra que a investigação sobre os impactos do uso de agrotóxicos ocasiona perseguições e mortes no nosso país.

Por isso, qual deve ser o papel da cobertura das propostas dos presidenciáveis ao meio ambiente dentro do jornalismo ambiental? Sem dúvida, não deve ser um jornalismo que se pretende neutro e, para isso, opera simplesmente através da declaração do que está sendo dito por diferentes candidatos. Ao contrário, deve tomar posição através da memória do que temos vivido nos últimos quatro anos e deve retomar a fala de inúmeros pesquisadores na área para que tenhamos um entendimento melhor de quais são as propostas mais adequadas que juntam pensamento político e pensamento acadêmico/científico.

* Cientista Social/Antropólogo. Mestre em Comunicação. Atual doutorando em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS.

Preocupação ambiental das populações: pesquisa compara países e temas

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

Como medir a preocupação da população com questões ambientais — mais especificamente, as mudanças climáticas? Não é uma questão trivial, mas uma pesquisa da Ipsos Global Advisor realizada em 27 países, em junho de 2022, buscou responder. São duas as informações principais e que mais chamam a atenção: o Brasil está em penúltimo lugar entre os países cuja população trata o tema como prioridade, apenas à frente da Argentina; por outro lado, 77% dos brasileiros externalizaram preocupação com os impactos da emergência climática no país.          

Num olhar raso, o resultado pareceria contraditório. Não é. Acontece que a pesquisa mede — e a matéria publicada n’O Globo corretamente contextualiza isto —, num primeiro momento, a proporção de pessoas que trata as mudanças climáticas como assunto prioritário. Não surpreendentemente, os países que figuram no ranking dos mais desenvolvidos do mundo ficaram nas primeiras posições, com exceção da Índia, variando entre 20% e 31% dos entrevistados; o Brasil soma 4%, enquanto a média global foi de 16%. Embora numa análise mais especulativa do que assertiva, o que podemos interpretar do outro questionamento da pesquisa (em que três quartos dos brasileiros estão preocupados) é que a liderança de países do Norte Global não se trata apenas de uma questão “educacional”. A prioridade de preocupação com as mudanças climáticas é, por certo, relacional: países devassados pela alta da inflação, fome, crise econômica, violência etc. colocam a crise climática num segundo escalão — o que não significa, necessariamente, que a desprezem.

De qualquer forma, ainda que a ampla maioria dos brasileiros pareça preocupada com o tema, é preciso cada vez mais apresentar para a população a relação intrínseca entre as questões ambientais e os outros fatores, sociais, urbanos e econômicos, que afligem a população. A atuação contra as mudanças climáticas é, necessariamente, socioeconômica, e com impactos proporcionalmente maiores para os países e populações mais pobres. É aí que entra o papel da imprensa, como reiteradamente pontuamos neste Observatório, de não estar limitado à exposição factual dos acontecimentos e desastres ambientais, ou das longínquas reuniões políticas sobre o clima: é necessário que a conexão entre meio ambiente e a vida real das pessoas perpasse, inexoravelmente, a produção do jornalismo ambiental.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O jornalismo com causa de Marcos Sá Corrêa

Imagem: Captura de tela – Para comemorar aniversário de 18 anos, o site de jornalismo ambiental O Eco lançou o livro Olhar Perto, Enxergar Longe: Crônicas ambientais atemporais, uma coletânea de textos do jornalista e fotógrafo Marcos Sá Corrêa
https://oeco.org.br/noticias/oeco-lanca-livro-especial-com-colunas-do-jornalista-marcos-sa-correa/

Por Roberto Villar Belmonte*

Michael Frome, um dos pioneiros do jornalismo ambiental nos Estados Unidos, participou de um evento em Curitiba, em 2004, e fez questão de circular pela capital paranaense com um botão da campanha de John Kerry no peito. O jornalista queria mostrar aos brasileiros que George Bush, que acabou reeleito naquele ano, não tinha o apoio de todo povo norte-americano. Perguntado se exibir uma preferência tão ostensiva não atentaria contra a isenção jornalística, o experiente repórter respondeu:

– Não caio nessa conversa. Pensando bem, nunca fui imparcial. Para mim, o jornalista não pode ser imparcial porque tem que ser um advogado das boas causas. Precisa defender a liberdade de expressão, o direito à verdade, atacar a corrupção, tirar a roupa do rei diante da opinião pública. Como fazer isso sendo imparcial?

Esta história foi contada por Marcos Sá Corrêa em um de seus textos publicados no primeiro ano de O Eco, site especializado em jornalismo ambiental criado por ele em 2004 em parceria com Kiko Brito e Sérgio Abranches. Filho do jornalista político Villas Boas Corrêa, Marcos trabalhou na revista Veja, no Jornal do Brasil, no jornal O Dia e na revista Época. No início do século XXI, migrou para o jornalismo online e independente,  lançando o site No. (lê-se No Ponto), que se tornou o embrião do No mínimo e ajudou João Moreira Salles a criar a revista Piauí.

Em seis anos de atuação no site O Eco, ele produziu cerca de 300 textos. Parou de publicar após um acidente doméstico ocorrido em fevereiro de 2011. Para comemorar o aniversário de 18 anos, o site O Eco lançou no mês passado o livro Olhar Perto, Enxergar Longe: Crônicas ambientais atemporais, com 98 colunas de Marcos Sá Corrêa. O livro é organizado em 10 capítulos: Naturalistas e outras feras; Mirantes para o futuro; A arte de andar no mato; Desenhando arcas; Ecos de uma cidade; Notícias do fim do mundo; Jornalismo com causa; Quem barra Barra Grande?; Foco na última chance; Moradas do Iguaçu. Várias crônicas receberam ao final um rodapé chamado Em Tempo com atualizações apuradas especialmente para o livro.

No texto de abertura do capítulo Jornalismo com causa, Sá Corrêa defende que a primeira reportagem ambiental publicada no Brasil foi Os Sertões, de Euclydes da Cunha. Ainda nesta seção do livro, logo após o relato do seu encontro com Michael Frome que aconteceu em Curitiba em 2004, está a crônica “Agora em português, a voz do velho radical” apresentando o livro Green Ink: uma introdução ao jornalismo ambiental lançado nos Estados Unidos em 1996 e publicado em português em 2008.

– A receita de Frome cabe em poucas palavras. “Alfabetize-se, e corra riscos”, ele disse anos atrás a um estudante que lhe pedira conselhos. Pôs tudo nessa frase. Sem alfabetizar-se, o aprendiz de jornalista não terá palavras para publicar o que as pessoas, em geral, preferem não ouvir. E sem correr riscos, não deixará o aconchego das fontes oficiais e das versões confortáveis, para recolher as histórias que, por incômodas, não têm porta-voz.

Não por acaso, logo depois do capítulo Jornalismo com Causa há uma compilação de colunas de Sá Corrêa sobre o escândalo de Barra Grande, relatando a luta da ambientalista Miriam Prochnow, da ONG Apremavi, contra a construção de uma hidrelétrica que devastaria florestas primárias em Santa Catarina. O Em Tempo do capítulo atualiza o caso, que entrou para a história do ambientalismo brasileiro e chegou a mudar a legislação de crimes ambientais:

– A hidrelétrica de Barra Grande alagou 4 mil hectares de floresta com Araucárias, e a espécie de bromélia Dyckia distachia foi extinta da natureza. As compensações ambientais não saíram do papel: apesar de um estudo multidisciplinar recomendar a criação do Refúgio de Vida Silvestre do Rio Pelotas, a proposta segue engavetada, assim como os R$ 22 milhões que deveriam ter sido investidos em ações de conservação. A luta contra a barragem, porém, mudou a lei de crimes ambientais, que passou a incluir o “artigo Barra Grande”, responsabilizando criminalmente técnicos que assinarem laudos falsos: pelo artigo 69-A da lei 9.605/1998, quem “elaborar ou apresentar, no licenciamento, concessão florestal ou qualquer outro procedimento administrativo, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão” está sujeito a pena de 3 a 6 anos de reclusão, além de multa. A repercussão do caso também foi decisiva para que, até agora, permaneça arquivado o projeto da hidrelétrica Pai Querê, que inundaria mais de 100 km ao longo das margens do rio Pelotas. Miriam Prochnow e a Apremavi continuam denunciando agressões ao meio ambiente e promovendo ações de educação ambiental, conservação da biodiversidade e restauração florestal. Em 2023, a Apremavi completa 35 anos.

Dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los, é um dos valores éticos do site O Eco, criado por Marcos Sá Corrêa. Quando a identidade do novo veículo especializado estava sendo definida aconteceu um diálogo entre seus fundadores (https://oeco.org.br/noticias/15310-oeco_9963/) que é uma verdadeira aula de jornalismo ambiental. Lá pelas tantas, Marcos Sá Corrêa explica sua concepção de jornalismo com causa:

– (…) a tal declaração de que cobriremos qualquer assunto, mas sem perder de vista que estamos aqui tratando de conservação da natureza, foi posta ali para nos servir de lembrança que, se bobearmos, cairemos num dos excessos que a meu ver espremem o noticiário ambiental na imprensa. De um lado, ele é apertado pela suposição de que tudo vem antes dele – política, economia, esporte, cinema. Se não há um desastre qualquer, tipo vazamento de óleo na Baía de Guanabara, meio ambiente é um assunto que mais ou menos se esconde lá no fundo dos jornais, na companhia de achados arqueológicos e outros bichos. Ou melhor, outra falta de bichos. Do outro lado, quem já se converteu ao ambientalismo acha que todas as linhas, toda beirada de espaço que puder pegar nos meios de comunicação é para fazer denúncia e catequese. Resultado: uma pauta “ambiental”, que trata a conservação da natureza como uma cruzada evangélica. Temos que nos lembrar o tempo todo que o site aposta todas as fichas na suposição – será fantasia? – de que o ambientalismo já está ficando grande demais para continuar restrito aos ambientalistas. Nós queremos ir atrás de um grande assunto que todo mundo está perdendo. Bem, pelo menos era isso que eu quis dizer.

O livro Olhar Perto, Enxergar Longe, recém lançado, mostra como Marcos Sá Côrrea transformou a conservação da natureza em um grande assunto jornalístico. A obra é mais uma importante contribuição do site O Eco para a qualificação do jornalismo ambiental brasileiro.

Referências

CORRÊA, Marcos Sá. Olhar perto enxergar longe: crônicas ambientais atemporais.

Rio de Janeiro: Associação O Eco, 2022. Disponível em: <https://oeco.org.br/biblioteca/olhar-perto-enxergar-longe-cronicas-ambientais-atemporais/>.

FROME, Michael. Green Ink: uma introdução ao Jornalismo Ambiental. Curitiba: Editora UFPR, 2008.

*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo ambiental possível em rádio comunitária indígena na Amazônia

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

O jornalismo ambiental compartilha procedimentos e técnicas também recorrentes no jornalismo tradicional. Porém, busca sua independência em relação ao formato hegemônico e aos ditames que o mercado impõe ao jornalismo tradicional com foco na economia e na promoção do consumo. O jornalismo ambiental não é uma exclusividade das editorias especializadas dos meios de comunicação, das revistas especializadas mas, pode ser fruto da ação de comunicação de povos isolados, como os indígenas da floresta amazônica. Ao se deixar envolver pelo saber ambiental, que deve constituir sua fonte primária, o jornalismo ambiental pode ser praticado pelos pajés, pelo agricultor familiar, pelo cidadão que se sente responsável pela vida de sua comunidade.

O jornalismo ambiental se tornou fundamental para uma sociedade que sabidamente já excedeu sua capacidade de consumo em relação aos recursos do planeta. Sua presença se tornou necessária, contudo sua ausência pode significar uma omissão imperdoável para a vida do planeta. Não importa o meio utilizado para sua realização: é necessário que o cidadão, seja ele leitor, internauta, telespectador, radiouvinte, possa ter acesso a mensagem comprometida e militante, conforme Wilson da Costa Bueno, citado por Roberto Villar Belmonte.

O jornalismo ambiental se alimenta da vida que pulsa no seio do planeta. No meio da selva amazônica, na aldeia dopovo Sateré Mawé, na região do rio Andirá, município de Barreirinha-AM, uma experiência de rádio comunitária indígena está acontecendo a partir de uma iniciativa dos missionários do PIME (Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras) que sob a coordenação do missionário Henrique Uggé desde a década de 1970 atua junto aqueles povos. A rádio comunitária ‘Sateré Ty FM 87.9’ foi instalada nas dependências da Escola Indígena São Pedro (EISP), no rio Andirá.

O jornalismo ambiental ganha com o funcionamento da rádio um aliado dentro de uma realidade alvo das maiores redes de comunicação do planeta, a floresta amazônica.Por estar diretamente integrada a vida de um povo indígena que tem dificuldades de comunicação até mesmo entre suas comunidades espalhadas em meio a floresta e nas beiras dos rios, a rádio comunitária indígena, como falou seu diretor, José de Oliveira, será fundamental para divulgar os fatos e feitos relacionados com o cotidiano dos Sateré Mawé, a cultura desse povo será transmitida diretamente em sua língua nativa e no português para o planeta. 

O rádio, que em sua maturidade se tornou um senhor vigoroso e elegante, apesar do avanço da tecnologia dos meios de comunicação, continua a exercer o seu papel de companheiro fiel (FERRARETO, 2007) das populações residentes em lugares em que os modernos meios de comunicação se tornam inoperantes. Alguns programas serão totalmente em língua materna, para isso, padre Uggé prepara locutores e apresentadores da própria área indígena. Segundo o missionário, a intenção é “fazer um trabalho de informação e de formação” e “dar oportunidades no campo da educação, da saúde, do social, etc. enfim, serão eles mesmos que farão este serviço”, disse.  

A Área Indígena Sateré Mawé (AISM) compreende um perímetro de aproximadamente 450 km, composta de mais de 60 aldeias e comunidades. Da primeira até a última são quase 5h de viagem pelas curvas do Rio Andirá em período de cheia. Elas estão distantes umas das outras e “às vezes tem que ir de voadeira ou de rabeta – pequena canoa de madeira empurrada por motor na popa – paracomunicar, para avisar, para se encontrar. Com um meio desse que fala o idioma local é mais fácil esta interligação”, salientou padre Henrique.

O povo Sateré Mawé por estar localizado relativamente próximo da cidade de Parintins-AM, onde anualmente acontece um festival folclórico com a temática voltada na atualidade para os povos indígenas e a sustentabilidade do planeta, tem sido alvo constante da mídia para a divulgação de suas danças e rituais. Até mesmo pelo desconhecimento da língua daquele povo tudo que é apresentado mundo afora apenas tem a aparência do exótico, do fantástico e nada mais. Após a coleta de imagens e áudios nada mais resta do contato, os curumins e cunhantãs continuam suas vidas em meio a floresta e tomando banho nas negras águas do rio. Como a cultura indígena é transmitida apenas verbalmente e inscrita em utensílios de madeira ou barro, adornos produzidos com sementes, penas e outros materiais perecíveis, o “des-envolvimento sustentável” pode com o tempo envolver toda sabedoria ancestral nascida da floresta.

A presença de um veículo de comunicação comunitária no formato de rádio, com conteúdo de programação produzido pela própria comunidade, pode dar voz à um povo que se tornou conhecido mundo afora apenas pela narrativa midiática. O formato técnico e a linguagempodem estar muito distante do aspecto encantatório apresentado pelos mass media, contudo apresenta o que pode ser essencial para o jornalismo ambiental: a realidade histórica dos fatos e, principalmente apresentar o princípio da precaução, muito caro na prevenção de problemas ambientais futuros.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM; e-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com

Fontes: 

BELMONTE, Roberto Vilar. Uma breve história do jornalismo ambiental brasileiro. Revista Brasileira da História da Mídia, vol. 6, n0 2, jul./dez.2017.

FERRARETO, Luiz Artur. Estruturação da mercadoria das emissoras comerciais sob a convergência: apontamentos para uma economia política da indústria radiofônica. Revista FAMECOS mídia, cultura e tecnologia. Porto alegre, vol. 21, n. 3, p. 943 – 965, setembro-dezembro 2014.

Rádio Alvorada de Parintins-AM, 26/08/2021 – A rádio comunitária ‘Sateré Ty FM 87.9” foi instalada nas dependências da Escola Indígena São Pedro (EISP), no Rio Andirá. https://alvoradaparintins.com.br. Acesso às 15:50.

As armadilhas do “desenvolvimento sustentável”

Imagem: reprodução da plataforma ECOA do portal Uol

Por Sérgio Pereira*

Permitam-me fugir um pouco à clipagem analítica semanal para tentar responder a uma questão já não tão recente e que, eventualmente, ainda surge, muitas vezes em tom inquisitório, aos jornalistas ambientais: por que devemos evitar o termo “desenvolvimento sustentável” (DS)? Pergunta que, muitas vezes, vem acompanhada da justificativa, quase um bordão, “mas todo mundo usa”.

Verdade. A expressão foi amplamente adotada pelos jornalistas brasileiros. A plataforma ECOA, do portal Uol, por exemplo, empregou a expressão no texto intitulado “R$ 5,4 bi sem desmatar: Brasil pode fazer economia crescer de forma verde?”, postado no último dia 6 de agosto. Outro exemplo recente: Folha de S.Paulo, no dia 12 passado, postou em seu site a matéria “Agência de desenvolvimento sustentável da ONU recebe recursos de petroleiras na Amazônia”. Uma rápida pesquisa no Google encontra 20.900 notícias com DS na língua portuguesa nos últimos 30 dias.

“Desenvolvimento sustentável” já era utilizado desde a década de 1970, mas em 1988 recebeu a chancela das Nações Unidas quando foi conceituado no Relatório Brundtland, elaborado a partir da World Commission on Environment and Development (WCED). No documento, o termo é definido como “aquele que atende às necessidades das gerações presentes sem comprometer as necessidades das gerações futuras”. A crítica que se faz ao relatório é o fato de não ter se preocupado em detalhar as ações necessárias para se atingir esse objetivo. A partir de Brundtland, porém, a expressão se espraiou pelos confins midiáticos.

No jornalismo, há uma recomendação centenária para se evitar o lugar-comum, o chavão, o clichê. Da teoria à prática, porém, há muito mais ciladas do que se possa prever. Prova disso é que, hoje, é raro encontrar um texto sobre meio ambiente na imprensa sem estar associado a “desenvolvimento sustentável”. O conceito, com certa aparência de politicamente correto, na verdade é uma “armadilha” na visão de Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

Autor de “Sustentabilidade: o que é – o que não é”, Boff faz uma crítica ao uso de DS, que define como “antropocêntrico, contraditório e equivocado” em artigo no seu blog. Antropocêntrico por se focar apenas na humanidade, ignorando flora, fauna e demais organismos vivos, todos dependentes da biosfera. Contraditório porque os termos se opõem. Desenvolvimento implica a exploração da natureza e “privilegia a acumulação privada”. Sustentabilidade, por sua vez, está ligada à ecologia e às ciências da vida. E equivocado porque aponta a pobreza como causador da depredação ambiental. Para Boff, “as causas reais da pobreza e da degradação da natureza, vê-se que resultam, não exclusiva, mas principalmente, do tipo de desenvolvimento praticado. É ele que produz degradação, pois delapida a natureza, paga baixos salários e gera assim pobreza”.

Carlos Walter Porto Gonçalves critica a ideia de desenvolvimento, que na “sociedade moderno-colonial, pressupõe a dominação da natureza”. Aprofundando a reflexão ele nos diz que “desenvolver é tirar o envolvimento (a autonomia) que cada cultura e cada povo mantém com seu espaço, com seu território; é submeter o modo como cada povo mantém suas próprias relações de homens (e mulheres) entre si e destes com a natureza; é não só separar os homens (e mulheres) da natureza como, também, separá-los entre si, individualizando-os”. Essa separação abre o caminho para a dominação e para êxito da sociedade capitalista, o que nos leva a concluir que desenvolvimento não é sustentável.

Já para Ricardo Garcia, o problema é justamente a complexidade do termo, nem sempre devidamente delineado nos textos. O autor usa “faca de dois gumes” para se referir a DS. “É um conceito genérico, que se presta a muitas teorias e que, tratado de forma abstrata numa reportagem, pode levar o leitor imediatamente ao sono profundo. Fica bem em editorias e artigos de opinião sobre o ambiente. Soa grave e importante dizer, por exemplo, que um governo não faz nada pelo desenvolvimento sustentável: ninguém entende exatamente o que isto quer dizer, mas aquele Governo certamente não vai bem”, brinca Garcia.

O professor Wilson da Costa Bueno também alerta para os riscos do que ele chama de “conceito cosmético”. Para Bueno, o conceito de DS já está “contaminado (…) com a perspectiva econômico-financeira e é visto especialmente como um problema de gestão empresarial”. O professor argumenta que “o desenvolvimento sustentável para o jornalismo ambiental tem a ver com a qualidade de vida dos cidadãos e extrapola a vertente meramente econômica. Tem a ver inclusive com o monopólio dos meios de comunicação, que impede o livre debate das ideias e se sustenta pelo incentivo ao consumo exacerbado, quase sempre danoso ao meio ambiente”.

O tema, com certeza, não se esgota nessas breves considerações. Há vários autores, outros pontos de vista, que mereceriam ser analisados. O objetivo aqui era apenas levantar pontos que tragam alguma contribuição na reflexão sobre esse conceito que se tornou viral, buscando assim lançar algumas ponderações sobre o subjetivismo da prática jornalística.

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

  • Referências

BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

GARCIA, Ricardo. Sobre a terra: um guia para quem lê e escreve sobre ambiente. Lisboa: Público, 2006.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Enquanto o mundo pega fogo, o jornalismo apaga incêndios localizados

Por Carine Massierer*

Há uma dissonância entre os desastres ambientais decorrentes das mudanças climáticas e a forma como o jornalismo vêm noticiando estes acontecimentos. Enquanto o mundo pega fogo, literalmente, os principais veículos de comunicação do Brasil e do Mundo publicam matérias rasas que dão conta de apenas relatar os eventos climáticos e o número de pessoas foram afetadas. Mesmo que um jornalismo sistêmico e baseado na pluralidade de vozes ainda esteja distante, é necessário, no mínimo, o compromisso de garantir a informação e ser instrumento de transformação social.

Tivemos um JULHO DE EXTREMOS no hemisfério norte com ondas após ondas de calor com recordes, incêndios florestais e inundações ao mesmo tempo e isto está retratado nas matérias que são indexadas. As principais notícias da semana evidenciam o aquecimento global e seus impactos na vida de milhões de pessoas no mundo, e é inegável a ampliação de matérias sobre o tema nos últimos tempos.

Das matérias que mais se destacam está a que trata de Mudanças climáticas e da possibilidade de extinção humana, produzida e publicada pela BBC Brasileira. Ela foi replicada em vários outros espaços de comunicação como os sites G1, Uol, Yahoo, dentre outros tantos que copiaram o conteúdo.

Imagem: Captura de tela do site BBC em 06 de agosto de 2022.

A matéria traz os possíveis resultados catastróficos das mudanças climáticas, mas o novo estudo, que já é citado no primeiro parágrafo, não tem nem o nome colocado na publicação e não é esclarecido onde ele foi publicado, com qual o objetivo e os autores. Somente na última linha consta “O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences”. Ou seja, vemos a reprodução de um conteúdo que tem muitas falhas e que as demais empresas de comunicação se limitam a copiar. Já no site Olhar Digital (Informação é a melhor arma contra a crise climática, diz relatório (olhardigital.com.br), o relatório é mencionado logo ao início, reforçando a necessidade de consideração dos piores cenários e elaboração de um esquema tático efetivo sobre o que fazer se — ou quando — o nosso modo de vida atual desmoronar. 

 

Tendo em conta a importância da comunicação e do jornalismo para a tomada de decisões assertivas, mudanças de atitudes e apoio à ação climática, é preciso que sejam aprofundados os usos e explicitação quanto à mitigação e à adaptação climáticas nas matérias jornalísticas para que reverberem na tomada de atitude dos seres humanos. Há ainda um descompasso entre a realidade de um mundo que está pegando fogo e as preocupações em pauta nas empresas de comunicação que ainda estão tratando os incêndios de forma localizada e não ampliando e qualificando com mais informações os conteúdos publicados.  Isto tudo decorre do foco do campo comunicacional,ainda centrado nos efeitos da crise climática mais do que em possíveis soluções para seu enfrentamento.

 

 

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Experiência do vivido deve irromper na cobertura jornalística sobre o Plano Diretor

Imagem: foto de página do jornal ND

Por Míriam Santini de Abreu*

O assunto que desde o início de 2022 vem mobilizando Florianópolis é a revisão do Plano Diretor. No primeiro semestre, a cobertura jornalística não acompanhava a complexidade dos debates que dominavam as redes sociais e os aplicativos de mensagens dos grupos organizados em torno das diferentes concepções para o crescimento da capital catarinense. Isso mudou no final de junho, quando a Prefeitura iniciou a série de 13 Audiências Públicas exigidas em Termo de Ajustamento de Conduta junto ao Ministério Público de Santa Catarina. Entre junho e julho, o mais expressivo produto jornalístico a abordar o tema foi o “Relatório ND: Plano Diretor”, conjunto de cinco cadernos cujos conteúdos circularam no jornal impresso ND, no portal ND+ e no Balanço Geral da NDTV, todos do Grupo ND, afiliado local do Grupo Record, que domina o setor no estado com o Grupo NSCComunicação, ex-RBS, retransmissor da Globo.

A análise a seguir se restringe ao conteúdo dos cinco relatórios que circularam no jornal impresso ND, em https://bit.ly/3PNmRfS. Cabe destacar que os movimentos populares de Florianópolis manifestam publicamente críticas à cobertura jornalística do Grupo ND, alinhado explicitamente aos interesses do governo de Jair Bolsonaro e reduto de colunistas tidos como porta-vozes dos interesses dos grupos dominantes locais. Por isso, foi recebida com desconfiança a iniciativa de produção de reportagens sobre o Plano Diretor. 

Somados, os cinco cadernos (um para cada região da capital), encartados nas edições de 28 e 30 de junho e 9, 16, e 21 de julho, têm 88 páginas, número expressivo considerando o encolhimento sistemático dos jornais impressos. Segundo o grupo, 15 jornalistas se envolveram no projeto, com investimento de R$ 320 mil feitos pelo Núcleo de Dados e Investigação. No portal ND+, as reportagens contam com formato imersivo e animações e, no Balanço Geral da NDTV, foi usada a tecnologia de Realidade Aumentada para explicar aspectos da proposta. A contagem de fontes, nos cinco cadernos, chegou a 57 (algumas delas aparecem em diferentes cadernos), e os jornalistas recorreram a pelo menos 10 documentos. Além das fontes citadas nas reportagens, há duas enquetes com representantes de 15 entidades. 

A infografia é um dos destaques dos relatórios, assim como as ilustrações, fotografias e os glossários de temas e siglas que aparecem na lei do Plano Diretor. Detalha-se como funciona o Conselho da Cidade, porém sem entrar na polêmica local sobre a forma de escolha de seus membros, e são expostas, em três relatórios, as opiniões dos e das vereadoras sobre a proposta do Executivo, registrando o nome dos seis que não deram respostas aos questionamentos. As páginas centrais trazem um breve perfil dos bairros de cada uma das cinco regiões, assim como as principais reivindicações da população, com o título geral “O que está em debate?”. Outro destaque é a reportagem do jornalista Paulo Clóvis Schmitz que conta a história dos planos diretores de Florianópolis a partir de análise do historiador Reinaldo Lohn. Entre as fontes, dá-se espaço para pesquisadores e lideranças comunitáriascríticas à proposta da Prefeitura.

A ausência mais surpreendente é justamente a do prefeito, Topázio Silveira Neto, agora no lugar de Gean Loureiro, que renunciou ao cargo para concorrer na eleição de outubro. A voz da Prefeitura em praticamente todos os cinco cadernos é a do secretário municipal de Mobilidade e Planejamento Urbano, Michel Mittmann. Um box no segundo relatório explica que a reportagem buscou fontes na Prefeitura e os contatos foram direcionados e centralizados no secretário, que tem sido criticado nas Audiências Públicas pelo discurso genérico, a falta de estudos fundamentais na proposta e as comparações que faz entre Florianópolis e cidades como Barcelona, na Espanha, para justificar medidas mal explicadas. 

Apesar de ouvir representantes de diversas entidades e associações de moradores e apresentar posições em confronto, o conjunto de relatórios deixa a desejar no que tenho definido como a necessária irrupção, na cobertura jornalística, da experiência vivida no espaço geográfico. O segundo caderno, sobre a região Norte de Florianópolis, onde estão balneários disputados como Ingleses e Canasvieiras, traz uma discussão importante sobre a falta de política de habitação social na capital, com avaliação de pesquisadores na área. Mas seria fundamental que os jornalistas trouxessem à reportagem a vivência das populações nas ocupações urbanas, que ocorrem, entre outros motivos, pelo crescente aumento do valor do aluguel em Florianópolis. Na discussão sobre a mobilidade urbana, que aparece no quarto caderno, um diferencial seria a equipe de reportagem usar o criticado transporte coletivo local para fazer o percurso de cerca de 50 quilômetros entre o município vizinho de Palhoça até o Norte da Ilha, realidade de muitos trabalhadores que custa horas valiosas do cotidiano.

O diferencial de cobertura caberia também à imprensa independente/alternativa local, que padece da falta de profissionais e de recursos e não tem acompanhado os debates. De todo o modo, cabe registrar, em um grupo hegemônico tão criticado quanto o ND e faltando uma semana para a Audiência Pública Final, dia 8 de agosto, uma fumaça do bom jornalismo. 

 

* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo