O que (não) dizem as fontes oficiais sobre o desmatamento da Amazônia

Imagem: captura de tela do Jornal Nacional – Edição de 30 de novembro de 2022 disponível na plataforma Globoplay

Por Débora Gallas Steigleder*

Na última quarta-feira, dia 30 de novembro, foram divulgados os números do programa Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), referentes ao desmatamento da Amazônia entre agosto de 2021 e julho de 2022. O monitoramento é anual e realizado através de satélites. Apesar da diminuição em relação ao ano anterior, a supressão da vegetação nativa no maior bioma do país segue acima de 10 mil km², conforme destacou reportagem da Folha de S. Paulo, e o índice deste ano é o segundo pior em 14 anos, como lembrou William Bonner no Jornal Nacional. A matéria de Vladimir Netto explicouque os 11.568 km² devastados equivalem a duas vezes o território do Distrito Federal.

Além do desafio de contextualizar números para evidenciar ao público a grande dimensão dos impactos registrados, o jornalismo precisa explicar por que os índices de eliminação da floresta se mantêm altos, sobretudo no estado do Amazonas – onde o desmatamento cresceu desde 2021. Isto não foi difícil para Jornal Nacional, Folha de S. Paulo e outros veículos nacionais que repercutiram o tema, como g1. Afinal, desde o início da gestão de Jair Bolsonaro, o crescimento desses números foi uma constante.

As principais fontes consultadas para repercutir o tema são os próprios cientistas do INPE, responsável pelo levantamento, e especialistas da academia e do terceiro setor que têm alertado para a política de destruição da natureza levada a cabo pelo governo federal, como Observatório do Clima e MapBiomas. Já é evidente para o público que o sucateamento de estruturas como a de fiscalização de infrações contribui diretamente para esses números. As derrubadas de floresta com fins especulativos na área conhecida como AMACRO – que engloba os estados do Amazonas, Acre e Rondônia e contém a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho – são consequência direta dessa política.

Chama atenção, portanto, a ausência de vozes do governo nessas reportagens para comentar os índices e trazer alguma explicação. O Ministério do Meio Ambiente nada quis declarar à reportagem da Folha de S. Paulo. Um breve contraponto do Ministério da Justiça foi lido por Bonner ao fim da reportagem de Jornal Nacional, no formato de nota pelada. Já o g1 não detalha se procurou o governo para comentar o assunto.

Nós, pesquisadores em Jornalismo Ambiental, sempre frisamos a importância da diversidade de vozes nas coberturas ambientais para ir além do factual e do discurso padrão das fontes oficiais. Porém, o que fazer quando a fonte oficial precisa dar explicações à sociedade e se exime de suas reponsabilidades? Vemos que, principalmente após a fala do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva na COP27, a pauta climática já é direcionada à equipe de transição. Mas Jair Bolsonaro ainda é presidente e Joaquim Leite, seu Ministro do Meio Ambiente. Cabe ao jornalismo não desistir de cobrar as justificativas que eles nos devem.

*Jornalista, doutora em Comunicação, pesquisadora do GPJA

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Por um futuro melhor, crianças estão engajadas contra a emergência climática

Imagem: reprodução do site Lunetas

Por Carine Massierer*

Ao longo da semana, o foco do noticiário ambiental brasileiro se concentrou, primeiramente, na insuficiência de informações repassadas pelo atual governo para o grupo de transição de Meio Ambiente; em seguida, na aprovação, por parte da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, do projeto que permite exploração de campos nativos em biomas brasileiros. No entanto, um tema que tem sido deixado de lado terá nossa atenção nesta análise: são as criadas por crianças e jovens pelo Brasil a fora em defesa do meio ambiente.

Recentemente o site lunetas (lunetas.com.br) — um portal de jornalismo para famílias interessadas na temática da infância, mantido pelo Instituto Alana — publicou uma matéria que traz 13 projetos feitos por alunos para preservar a natureza e garantir um futuro mais sustentável. Os projetos foram desenvolvidos por crianças de escolas públicas brasileiras e selecionados na premiação do Desafio Criativo da Escola.

“Treze projetos sobre meio ambiente criados por crianças e jovens” (https://lunetas.com.br/projetos-meio-ambiente-criancas-jovens/), integra o especial “Emergência climática e as infâncias: por um futuro no presente”, proposta lançada pelo Lunetas em setembro de 2021 e que se estendeu ao longo de 2022. Durante todo o ano foram publicadas reportagens com conteúdos aprofundados por jornalistas e especialistas, que mostram os diferentes impactos da emergência climática às crianças brasileiras, além de reflexões, inspirações, caminhos e soluções para combater a crise.

Esta iniciativa maravilhosa, que mostra ações de formiguinhas com as novas gerações para enfrentamento da crise climática e de mobilização pela não destruição do planeta, nos mostra o quanto é importante a ação humana e o acesso a informações seguras e confiáveis, o que nem sempre tem ocorrido nos espaços de imprensa tradicionais.

Por isso, cada vez mais espaços de informação e de jornalismo de qualidade estão surgindo, mostrando que o acesso à informação é possível e que existem sim jornalistas preocupados com a ação humana, com a comunicação cidadã e que contribuem para um futuro melhor. Mudanças de atitudes e apoio à ação climática passam pela apresentação de iniciativas que contribuem para a mitigação e à adaptação climática.

Nosso desejo é que o tema ambiental esteja no dia a dia de nossos pensamentos e ações, no jornalismo feito por iniciativas privadas nas redes sociais e na internet, mas, sobretudo, na grande imprensa.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências:

https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2022/11/5054255-com-dados-incompletos-gt-do-meio-ambiente-faz-novo-pedido-de-informacoes.html

https://g1.globo.com/politica/noticia/2022/11/23/comissao-de-meio-ambiente-da-camara-aprova-projeto-que-permite-exploracao-de-campos-nativos-em-biomas-brasileiros.ghtml

https://lunetas.com.br/projetos-meio-ambiente-criancas-jovens/

Jornalismo sobre mineração no RS: onde estão os povos tradicionais?

Por Eutalita Bezerra*

Imagem: Site do Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa

Em 2019, neste observatório, Carine Massierer abordou a nova fronteira da mineração no Rio Grande do Sul. De lá até aqui, muitos passos foram dados em relação aos projetos citados em sua análise. O Mina Guaíba, de extração de carvão, foi arquivado em março deste ano. Também arquivou-se o Projeto Caçapava do Sul, que propunha a implantação de uma mina de Chumbo, Zinco e Cobre às margens do rio Camaquã. O projeto Retiro, de extração de Titânio, ainda está em discussão. Atualmente, mais de 150 plantas de mineração manifestam interesse de se instalar no estado. Dentre estes, o Projeto Fosfato Três Estradas, em Lavras do Sul, que teve suas Licenças de Instalação (LI) liberadas pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) e Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), no início deste mês.

O projeto que prevê a extração, beneficiamento e comercialização de minério de fosfato destinado à elaboração de fertilizantes para a agricultura, em Lavras do Sul, já havia sido trancado anteriormente por constarem vícios no processo de licenciamento, causando prejuízos ao meio ambiente e às comunidades e povos tradicionais do Pampa. Para esta análise, tomamos notícias publicadas sobre o assunto no momento da liberação da LI, a fim de entender como o contraponto à posição da empresa interessada, a Águia Fertilizantes, foi apresentado.

Em 1º de novembro, o Diário de Santa Maria divulgou online e, também, em sua edição impressa, que “Lavras do Sul terá a primeira mina de fosfato da região sul do Brasil”. O texto foi uma reformulação de release enviado pela prefeitura de Lavras do Sul, também publicado pelo jornal Minuano, de Bagé, maior cidade da Campanha Gaúcha, região na qual Lavras está inscrita. Neste, com o título “Águia Fertilizantes obtém licença de instalação de mina de fosfato em Lavras do Sul”, o texto descreve os participantes do evento, do que consta o empreendimento e quanto material será extraído, além da geração de empregos e vida útil da mina. Destaque para a perspectiva de dobrar a produção inicial entre oito a dez meses. Nada sobre os perigos dessa extração para o meio ambiente foi citado. A liberação foi destaque na capa do referido jornal.

Até o momento, no mês de novembro, apenas duas publicações foram feitas no Jornal Minuano sobre o assunto. Além da matéria já citada, mais uma inserção sobre o Projeto Fosfato Três Estradas foi feita pelo Minuano na edição de 5,6 e 7 de novembro, sob o chapéu “Política”, também em sua capa. No texto intitulado “BRDE firma termo para financiar mina de fosfato”, são destacados os R$15 milhões de aporte para as obras. Novamente, trata-se de texto exclusivo sob a perspectiva da empresa, sendo o CEO da Águia Fertilizantes a única fonte a se pronunciar.

Ainda em 1º de novembro, o Correio do Povo publicou “Licença para minerar fosfato em Lavras”, texto que mescla as mesmas informações do release da prefeitura de Lavras com fala do secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, Domingos Velho Lopes, para quem “[…]esse empreendimento não se afasta um centímetro do ambientalmente correto”. O texto aponta, ainda, que o estudo recebeu atenção de um grupo técnico multidisciplinar da Fepam e do Departamento de Recursos Hídricos da Sema. Nenhuma menção é feita aos povos tradicionais do Pampa ou mesmo aos perigos da exploração de fosfato.

A Zero Hora publicou sobre o assunto em 8 de novembro apostando na proposta de que a exploração de fosfato no estado ajude a reduzir a dependência nacional de importação de fertilizantes, com a expectativa de que o projeto de Lavras impulsione a produção noutras regiões. Do mesmo modo, o jornal não ofereceu uma linha para tratar das ameaças da exploração para o meio ambiente e para os povos tradicionais.

Com tantas plantas de mineração buscando instalação no estado e a falta de interesse do jornalismo em abordar quaisquer outras perspectivas da questão que ultrapassem a economia, o Bioma Pampa, bem como os povos tradicionais, seguem em perigo. Do lado de cá, propomos criar espaços em que se possa ouvir e multiplicar as perspectivas dissidentes, de modo que a pressão popular traga efeitos, como os vistos na Mina Guaíba e no Projeto Caçapava do Sul. A Licença de Operação para o Projeto Fosfato Três Estradas ainda não foi concedida. Pode haver tempo.

Referência:

Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa: https://comitepampa.com.br/

* Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do grupo de pesquisa Jornalismo Ambiental. Email: eutalita@gmail.com

A floresta amazônica e a segurança alimentar

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

Este texto tem como base de reflexão material escrito por Nathália Gameiro, em 10 de outubro de 2022, em alusão ao Dia Mundial da Alimentação: não deixar ninguém para trás, do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin) da Fiocruz Brasília. Na data em que se comemorou o Dia Mundial da Alimentação no dia 16 de outubro, a reflexão deveria também ser sobre como a Amazônia, uma região rica em variedade e diversidade de espécies vegetais e animais pode contribuir para a erradicação da fome do planeta. A data está ancorada em quatro pilares: melhor nutrição, melhor produção, melhor ambiente e melhor qualidade de vida e foi escolhida para lembrar a criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 1945. A partir dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o Dia Mundial da Alimentação de 2022 traz o desafio da redução das desigualdades, incluindo a segurança alimentar e nutricional do mundo. O consumo de produtos oriundos da floresta amazônica ainda se apresenta de uma forma bastante restrita aos moradores tradicionais da região e, na atualidade não chega nem mesmo a representar um fator positivo para a sustentabilidade da segurança alimentar para os nativos. E esses produtos estão distribuídos de forma bastante variada nos reinos animal e vegetal em toda a vasta extensão territorial que engloba o bioma amazônico. A exuberância da floresta com seus rios caudalosos, sempre apresentou para as populações exóticas uma impressão de fartura inesgotável, ledo engano. Na floresta tanto animais como vegetais possuem seus ciclos naturais de produção e reprodução, assim como locais apropriados para sua existência. O aumento da exploração e exportação dos recursos naturais utilizados como alimento fora da região colocou em risco a própria segurança alimentar da população regional, pois toneladas de pescado são exportados a cada ano para as demais regiões do Brasil, sendo que essa captura além do fato da retirada do produto ainda possui como efeito paralelo o desperdício de pescado não comercializável que é descartado, não permitindo a recuperação natural dos cardumes; as carnes de caça de animais silvestres já há algum tempo entraram no rol dos produtos proibidos pois a captura foi tão intensa e descontrolada que praticamente dizimou as populações de espécies comestíveis. A floresta amazônica não tem a capacidade de alimentar de maneira satisfatória a população humana que hoje se abriga em seu território. Contudo, essa floresta tem a capacidade de contribuir com uma variedade de produtos de origem vegetal e animal que dela tem origem. Finalizo minha breve reflexão aproveitando artigo sobre a utilização da semente do cupuaçu como um produto alternativo a amêndoa do cacau, encontrado no site do G1. Isso representa uma iniciativa inovadora tanto no campo alimentar como na produção de renda para a população regional, pois o cupuaçu até recentemente tinha como aproveitamento apenas sua polpa de sabor inconfundível para a produção de sucos e sorvetes. Suas amêndoas que correspondem a metade do seu peso eram descartadas no processo de produção da polpa. Da região amazônica apenas a polpa do açaí ganhou destaque de consumo fora da região em razão de sua popularização junto ao público praticante das academias de fitness, outras frutas regionais que oferecem sucos deliciosos como a bacaba, patauá, buruti, taperebá, têm seu consumo restrito a região e a população de mais idade. O jornalismo ambiental portanto, vai muito além das matérias oportunistas, educação e sensibilização devem ser sempre o foco de sua orientação.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com

Referências

Nathália Gameiro, em 10 de outubro de 2022, em alusão ao Dia Mundial da Alimentação: não deixar ninguém para trás, do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin) da Fiocruz Brasília Cupulate: o desafio do ‘primo’ do chocolate que pode ajudar Amazônia, segundo pesquisadores. Por BBC em 09/10/2022 15h52 texto originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62665457

Meio ambiente e o interesse do eleitor

Imagem: o candidato Lula em campanha com indígenas em Belém (PA) – Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Por Sérgio Pereira*

É impossível determinar o quanto o tema “meio ambiente” influenciou na escolha por Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito por mais de 60 milhões de brasileiros. Afinal, o voto é secreto. Há algumas elementos, no entanto, que podem ajudar a mensurar quais foram os principais interesses do eleitor neste pleito de 2022.

Uma dessas ferramentas é uma pesquisa divulgada pelo Datafolha no início de setembro sobre as questões mais importantes para o eleitorado na hora de se definir entre os postulantes à Presidência. O formulário do levantamento, no entanto, relaciona apenas seis assuntos e não questiona os entrevistados sobre meio ambiente, conforme dados disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral.

Aqui, permita-me um parêntese: o instituto de pesquisa poderia ter definido apenas temas genéricos no questionário aplicado, como educação, saúde, transporte, segurança ou meio ambiente. Ao contrário, colocou no levantamento três pautas gerais e outras três que faziam parte da campanha do candidato da extrema direita: defesa dos valores da família; combate à corrupção; e combate à violência. Já plataformas defendidas pelos candidatos da esquerda, como combate à fome, inclusão social ou defesa da Amazônia, por exemplo, foram ignoradas.

Nesta pesquisa, os entrevistados elencaram como suas principais preocupações eleitorais a saúde, com 34%; educação, com 24%; e emprego e renda, com 17%. O combate à corrupção aparece em quarto lugar, com apenas 10% de interesse; seguido da defesa dos valores da família, com 7%; e combate à violência, com 6%.

Outra pesquisa foi elaborada no início de setembro, quando o PoderData entrevistou 3.000 pessoas sobre a importância da Amazônia para o desenvolvimento da economia brasileira, sendo que 74% responderam afirmativamente. O levantamento encomendado pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), no entanto, fixou-se apenas no Bioma Amazônico, com um viés econômico e sem perguntar até que ponto esse item influenciaria na hora do voto, não sendo possível, portanto, utilizá-lo como indicador nesta breve pesquisa.

Um novo instrumento que nos auxilia a medir o interesse sobre determinados temas, mesmo que seja de uso restrito, é o Google Trends (GT). Para quem não se aventurou ainda a usar, o GT é “uma ferramenta de avaliação de dados que permite que os usuários personalizem as pesquisas por termos e frases relevantes e monitorem as tendências de SEO (Search Engine Optimization ou otimização de mecanismos de busca) em qualquer período definido”, conforme definição da própria plataforma.

Em outubro, o GT disponibilizou um levantamento sobre os principais assuntos pesquisados envolvendo os dois candidatos do segundo turno. Importante destacar que a aba ainda está ativa e continua sendo atualizada.

Os internautas, quando pesquisaram sobre Lula nos últimos 90 dias, procuraram respostas para questões como o boné usado pelo candidato em determinado dia da campanha com as letras “CPX” (que significam “complexo do Alemão”, mas que foi usado como fake News por parte do adversário como sendo de uma facção criminosa) ou sobre a participação do ex-presidente em entrevistas, como no Programa do Ratinho ou no podcast Flow.

Já sobre Jair Bolsonaro, no mesmo período, as 25 principais consultas envolveram pontos com “pintou um clima” ou “pedófilo” (sobre um comentário feito sobre um momento de campanha em que encontrou meninas venezuelanas entre 14 e 15 anos), “canibal” (outra declaração mais antiga sobre episódio em que se mostrou interessado em comer um indígena), além de participações suas em programas de entrevistas.

Nos dois casos, nada envolvendo assuntos da esfera ambiental, o que já é revelador sobre o desinteresse do eleitor pelo assunto.

Um dos objetivos da imprensa é despertar a sociedade sobre assuntos que são relevantes. Em rápida análise sobre o principal jornal do RS, é possível constatar que Zero Hora divulgou pelo menos sete matérias envolvendo “eleições e meio ambiente” em outubro, durante a campanha do segundo turno. Entre elas, um texto tratando do desmatamento na Amazônia no governo atual e em outra comparando propostas dos dois candidatos sobre diversos temas e entre eles foi incluído o meio ambiente. Ou seja, não houve omissão por parte de ZH, mas o jornal poderia ter explorado mais o assunto por sua importância não apenas para os brasileiros, mas para todo o mundo.

Pode-se afirmar que a vitória de Lula passa por uma série de fatores. Pautas como combate à fome, mais empregos e defesa da democracia foram fundamentais neste processo eleitoral. Mas a estratégia equivocada de Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19, sua total inabilidade para tratar os principais problemas nacionais e seu estilo insultuoso também pesaram na decisão do eleitor. Não há indícios, porém, para afirmar que os temas ambientais foram decisivos para a grande maioria do eleitorado brasileiro, infelizmente. Mesmo assim, os 60 milhões de brasileiros que miraram em outros interesses acabaram por dar um basta à política devastadora de Bolsonaro. Mais quatro anos poderiam ser irreversíveis e, por isso, o mundo agradece.

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

O Brasil no cenário mundial da crise climática: para onde iremos?

Barco navega em rio na Amazônia, que reflete céu azul e árvores
Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

A eleição de 2022, definidora do futuro da democracia brasileira, colocou em cena também, entre tantos outros temas, a pauta socioambiental e a beira de um possível abismo. Se o futuro brasileiro aos votos pertence e o novo governo tem as credenciais para o tema, um recorte temporal apenas sobre as matérias da última semana indica o presente devastador em que estamos inseridos.

Na quinta-feira, 27/10, foi publicado o relatório anual de lacunas de emissões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), e o diagnóstico é de um ínfimo avanço no sentido de redução das emissões até 2030, desde a COP26, de Glasgow em 2021. O relatório aponta que as novas metas climáticas submetidas pelos países permanecem insuficientes para preencher a lacuna de emissões, caso desejemos limitar o aquecimento do planeta aos 2ºC acordados em Paris, em 2015.

Se números, acordos e metas de emissão por vezes soam abstratos, as consequências são das mais concretas. Na quarta-feira, 26/10, um relatório da premiada revista The Lancet apontou um aumento de 68% na mortalidade relacionada ao calor, para pessoas acima de 65 anos. Além disso, o documento expõe o aumento de 29% em áreas do planeta afetadas por secas extremas, entre outras consequências da emergência climática que podem ser verificadas nesta matéria publicada pela Folha de São Paulo. Ainda sobre os efeitos do calor, no mesmo dia a UNICEF publicou o prognóstico de que, até 2050, todas as crianças devem estar expostas à alta frequência de ondas de calor. Outros detalhes sobre este relatório foram publicados também pela Folha, evidenciando um papel importante do jornal na informação da pauta climática.

O mundo assiste, preocupado, aos efeitos da crise climática e a inépcia de governantes, ao mesmo tempo em que observa, de longe e aflito, os desdobramentos das eleições brasileiras. A pauta do desmatamento é central, e ninguém menos que o New York Times publicou que a eleição brasileira irá determinar o futuro do planeta. Por fim, e fechando este sobrevoo pelas matérias da semana que passou, o STF formou maioria para determinar a reativação do Fundo Amazônia pelo governo federal em até 60 dias. A notícia é boa, mas mais importante são as escolhas que o governo eleito fará para gerir este e tantos outros recursos.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Planeta em Transe: Cristiane Fontes amplia enfoque da cobertura climática

Captura de tela – Vídeo do sexto episódio da série especial de entrevistas do projeto Planeta em Transe do jornal Folha de S. Paulo

Por Roberto Villar Belmonte*

Com duração de um ano, Planeta em Transe “é uma série de reportagens e entrevistas com novos atores e especialistas sobre mudanças climáticas no Brasil e no mundo”. Ainda segundo descrição publicada pelo jornal, este projeto de cobertura especial da Folha de S. Paulo acompanha também as respostas à crise do clima nas eleições de 2022 – com destaque para a região amazônica – e na COP27, a 27ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que acontece no Egito entre 6 e 18 de novembro.

A jornalista ambiental Cristiane Fontes trabalha tecendo parcerias internacionais que ajudam a compreender e diversificar as vozes da luta ambiental. Logo após publicar, em meados de abril, as conclusões da pesquisa que coordenou intitulada “Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)”, ela lançou no final de maio o projeto editorial Planeta em Transe em parceria com o jornal Folha de S. Paulo e apoio da Open Society Foundations.

A proposta anunciada é a realização de 24 entrevistas, publicadas quinzenalmente em texto e vídeo, com especialistas e ativistas que atuam no tema da crise climática, 12 brasileiros e 12 de fora do país. No entendimento do coordenador de justiça climática para a América Latina na Open Society Foundations, Iago Hairon, não é possível falar de direitos humanos sem falar da crise climática. Por isso, segundo ele, é preciso entender as narrativas das pessoas que estão na linha de frente.

Até o momento, apenas seis episódios foram produzidos em texto e vídeo, com três fontes brasileiras e três de fora do país: Uganda, Inglaterra e Estados Unidos. As entrevistas no formato pingue-pongue (pergunta e resposta) são realizadas pela própria Cristiane Fontes e pelo repórter e colunista Marcelo Leite, jornalista especializado em ciência e ambiente do Folha de S. Paulo. Os vídeos também são assinados pela editora de Ambiente do jornal, Giuliana de Toledo.  

Episódio 1

Vanessa Nakate, ativista climática de Uganda

Episódio 2

Eduardo Assad, pesquisador de mudança do clima na agricultura

Episódio 3

Joana Setzer, professora brasileira na London School of Economics

Episódio 4

Farhana Yamin, advogada e ativista britânica

Episódio 5

Ângela Mendes, ativista e filha de Chico Mendes

Episódio 6

Gillian Caldwell, diretora da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional

Esta parceria entre Cristiane Fontes e Marcelo Leite começou a ser alinhavada no ano passado. No início de dezembro de 2021, os dois já publicaram entrevista pingue-pongue – usando a cartola Mudança Climática – com a matemática e filósofa Tatiana Roque, autora do livro “O Dia em que Voltamos de Marte: Uma História da Ciência e do Poder com Pistas para um Novo Presente”, obra que detalha os avanços tecnológicos e disputas em torno dos paradigmas científicos nos últimos quatro séculos.

Mas foi somente no final de maio de 2022 que o jornal Folha de S. Paulo anunciou a estreia do novo projeto editorial. Desde então, além dos seis episódios já mencionados, notícias, reportagens e entrevistas com a cartola Planeta em Crise estão sendo publicadas sobre política e mudança do clima. Um exemplo foi a conversa da colunista Ana Carolina Amaral com Joenia Wapichana, única deputada indígena do Brasil na atual legislatura, que saiu na edição de 23 de julho.

Outro exemplo é a reportagem publicada por Giovana Girardi na edição de 17 de outubro sobre as emissões de metano do Brasil. Girardi, ex-repórter de ambiente do Estado de S. Paulo lançou em junho a série de podcast Tempo Quente, da Rádio Novelo, projeto já tratado neste Observatório.

Do ponto de vista dos estudos do jornalismo ambiental, duas questões chamam a atenção neste projeto editorial criado por Cristiane Fontes em parceria com Marcelo Leite. Primeiro a proposta de trazer para a agenda pública vozes de pessoas que atuam na linha de frente da crise climática, não apenas cientistas ou empresários, mas também ativistas. Espera-se que militantes da guerra ambiental apareçam com mais frequência nas páginas do jornal Folha de S. Paulo.

Outro ponto relevante é a participação de diversos repórteres do jornal na produção de notícias e reportagens sobre a crise climática no Brasil, o que mostra a relevância cada vez maior do jornalismo ambiental. Este, aliás, é o grande desafio dos cursos de jornalismo no país: formar profissionais capazes de tratar com proficiência as causas, as consequências e as política públicas necessárias para dar conta da crise climática. Com ou sem milicianos no poder.

Referências

27ª Conferência das Partes (COP 27) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima

https://unfccc.int/cop27

https://cop27.eg

Narrativas Ancestrais – Presente do Futuro: Percepções sobre os Povos Indígenas no Brasil na última década (2011-2021)

http://www.amoreira.info/narrativasancestrais/

*Roberto Villar Belmonte é professor de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis e membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

‘Nem um cm demarcado’: série da Folha escancara a rotina de violência diante das omissões do Governo Bolsonaro

Capa da Folha no dia 10 de outubro (reprodução)

Por Ângela Camana*

Tomado pelo clima eleitoral, o noticiário brasileiro tem se desdobrado para analisar as tendências para o próximo dia 30, desmentir informações falsas e repercutir as agendas dos candidatos. Diante de tarefas árduas e sem grandes propostas que a mencionem, a pauta ambiental parece perder fôlego no jornalismo nacional – uma exceção louvável é a série “Nem um cm demarcado”, cujas reportagens vêm sendo publicadas pela Folha de S. Paulo. Neste esforço de investigação, Vinicius Sassimi e o fotógrafo Lalo de Almeida percorreram 6.000 quilômetros pela Amazônia a fim de averiguar os efeitos da política de “demarcação zero” do Governo Bolsonaro.

O nome da série, aliás, é uma referência à fala de Jair Bolsonaro em 2018, quando o então candidato à presidência afirmou que, em sua gestão, não demarcaria “nem um centímetro sequer” de Terras Indígenas. A promessa não só foi cumprida como o desmonte da FUNAI e da política ambiental atuam para a intensificação da violência na região amazônica. Nos últimos anos, tornou-se notícia comum a invasão de territórios tradicionais por garimpeiros, madeireiros, piratas e outras práticas ilegais. As reportagens da série, como a que figurou na capa da Folha neste dia 10, indicam que a omissão do Estado modificou a forma como povos indígenas vivem e, em uma tentativa de defenderem as suas próprias vidas e a floresta, se organizam. Estratégias como a autodemarcação e criação de guardas florestais indígenas surgem no vácuo do Estado a fim de conter a escalada da violência, ainda que se mostrem insuficientes diante do cenário que se impõe.

Não parece, então, ser por acaso a coincidência entre o chamado arco do desmatamento e a prevalência de votos para Jair Bolsonaro no primeiro turno. As reportagens da série da Folha nos convidam a identificar os efeitos políticos de escolhas institucionais realizadas nos últimos quatro anos. É justamente por isto que preocupa a ausência da pauta ambiental no cenário eleitoral, seja nas agendas dos candidatos ou na cobertura cotidiana, que não os demanda suficientemente a se posicionarem. A despeito das dificuldades que o debate público tem enfrentado, talvez caiba ao jornalismo brasileiro, por meio de trabalhos de qualidade como os da série em questão, contribuir para sua qualificação.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.


Depois das eleições, a COP-27

Imagem: Reprodução de notícia do Mongabay

Por Eloisa Beling Loose*

A principal pauta brasileira segue sendo a eleição presidencial, que será definida no segundo turno, no próximo dia 30. Contudo, a crise ambiental não dá trégua e em breve teremos mais uma oportunidade de avançar no enfrentamento climático: de 7 a 18 de novembro ocorre a 27ª Conferência das Partes (COP-27) em Sharm el-Sheikh, no Egito. A um mês do encontro, o País ainda apresenta incertezas sobre os rumos da política ambiental, que demonstra ter perspectivas opostas a depender do candidato que vencerá nas urnas.

A questão ambiental é um assunto que divide os candidatos: enquanto um entende que a destruição da natureza é um mal necessário para o progresso (algo que já foi comprovado por estudos que não corresponde à realidade: áreas desmatadas não significam melhora nos indicadores econômicos, como divulgou recentemente o Mongabay) o outro pretende restabelecer uma liderança no debate internacional e combater o desmatamento ilegal. Como assinala o Amazônia Real, a Amazônia é alvo de dois projetos de futuro bastante diferentes para o Brasil – o que afeta diretamente a maneira como lidaremos com a emergência climática em curso.

Enquanto a decisão não chega, o que vários analistas e jornalistas já destacaram é que o caminho será árduo de qualquer forma. Com a eleição de parlamentares mais conservadores e alinhados com o crescimento econômico de curto prazo (às custas de muita devastação e injustiças ambientais), pode-se esperar mais flexibilização da legislação ambiental e outros projetos antiambientais. A revista piauí trouxe uma reportagem sobre as possibilidades que se desenham com um novo perfil de Senado, afirmando que foi eleito “Um congresso mais hostil ao meio ambiente”.

Além do descaso com a proteção ambiental, verifica-se que não há gestão para minimizar riscos e danos, mesmo diante das evidências científicas que a intensificação das mudanças climáticas causará eventos extremos cada vez mais frequentes, na qual as populações mais vulnerabilizadas são as que mais sofrem. O Globo divulgou que 99% do orçamento destinado a prevenção de desastres foi cortado para 2023.

Os efeitos climáticos não aguardam enquanto decidimos quem vai governar nosso País. O secretário-geral da ONU, António Guterres, já declarou que a Guerra da Ucrânia impactou a discussão de ações mais ambiciosas, inclusive notando retrocessos no setor privado, porém a crise do clima não cessa. Alguém ainda duvida que o cenário é sério?

O jornalismo, em diferentes formatos e linhas editoriais, tem buscado evidenciar o desafio ambiental que se apresenta, baseado em dados e fatos, respaldados pela ciência. Esse é o grande assunto não apenas da COP-27, mas de todo nosso tempo. É a pauta que nos acompanhará por muitos e muitos anos. Cabe a todos nós colaborar para que seu enfoque deixe de ser catastrofista e passe a relatar a transição para uma humanidade mais consciente de suas decisões.

*Jornalista, professora e pesquisadora. Doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento, e em Comunicação. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

As queimadas na agricultura familiar no estado do Amazonas

Imagem: Print de manchete do G1 em 25/09/2022.

Por Alberto Luiz Silva Ferreira*

A narrativa das queimadas na Amazônia brasileira por parte da mídia hegemônica tem despertado as atenções de uma forma quase sempre alarmista. Mesmo considerando apenas a área de território do estado do Amazonas, estamos falando de uma extensão de terras fabulosas, que até mesmo pela sua localização central no continente sul-americano torna difícil o acesso e a exploração dos recursos naturais existentes nas terras, águas e florestas.

A matéria de Matheus Castro trata sobre as queimadas acontecidas no estado do Amazonas em setembro de 2022 apresenta o fenômeno de forma alarmista, sem levar em consideração que a população local necessita preparar áreas para a agricultura visando a produção de alimentos. Segundo Matheus Castro, somente em quatro dias – de 21 a 24 de setembro – foram registrados 1.043 focos de queimadas, totalizando 7.286 focos de calor somente no mês de setembro. O consolidado para o ano de 2022 seria de 17.798 incêndios, o pior cenário desde 1998, quando o INPE começou a fazer o monitoramento das queimadas. Esse seria o pior mês de setembro desde 1998. Matheus Castro apenas cita que os focos de queimadas se concentram nos municípios periféricos do do Amazonas: Lábrea e Boca do Acre, ambos no sul do Estado do Amazonas.

Ainda que o autor da matéria cite como fonte o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a generalização das queimadas pelo estado do Amazonas oculta a finalidade do uso do fogo. Do total de 17.198 focos de incêndio, o autor não apresenta o total da área queimada, muito menos o porquê do uso do fogo.

Não estou aqui negando a destruição que se vem fazendo há décadas, principalmente no chamado círculo de fogo, no sul do estado do Pará, chegando já a atingir terras do sul do Amazonas. Contudo, a generalização, como consta ma matéria do G1/AM citada, é levar a opinião pública ao erro.

Caso o autor, Matheus Castro, consultasse dados existentes no site do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM), poderia concluir que praticamente toda a agricultura praticada no estado do Amazonas é desenvolvida por agricultores familiares, que para a limpeza do terreno e o preparo do solo para o plantio, necessariamente lançam mão do fogo como mecanismo de preparo da área tanto no ecossistema de terra firme quanto no de várzea.

Segundo o Instituto, nesse ano o total de hectares trabalhados com agricultura no estado do Amazonas foi de 38.571 hectares, cultivados com as culturas de milho, feijão, arroz, mandioca, malva, guaraná, banana, açaí, abacaxi, cupuaçu e laranja, distribuídos por 33.778 produtores. Na terra firme o porte das árvores e a dureza das madeiras dificultam a retirada das galhadas e o arranquio dos tocos de porte avantajado; já no ecossistema de várzea, mesmo sendo a vegetação de menor porte ou rasteira, quase sempre gramíneas, ainda assim faz-se necessário o uso do fogo.

Levando em consideração o tamanho das áreas cultivadas por cada família, geralmente variando de meio a dois hectares percebe-se logo que o impacto ambiental, levando-se em conta o tamanho da região amazônica, é possível de ser absorvido pela floresta. Normalmente na terra firme é cultivada a mandioca para a produção de farinha, uma das bases da alimentação das famílias que residem na zona rural, a proteína é obtida dos peixes e já bem pouco da carne de caça.

No ecossistema de várzea são cultivadas as culturas de ciclo curto, como melancia, milho, jerimum, feijão caupi, hortaliças de várias espécies – o agricultor aproveita a riqueza natural dos solos de várzea. Na área de influência da região metropolitana da cidade de Manaus já se pratica uma agricultura de porte comercial, com o plantio de fruteiras como a laranja, o abacaxi, coco e maracujá.

No estado do Amazonas mesmo a pecuária também é praticada em propriedades de pouca extensão territorial, diferentemente do Pará, que possui criatórios que ocupam milhares de hectares cultivados com capim. Conclui-se que a matéria foge dos princípios do jornalismo ambiental, já que este, segundo Wilson da Costa Bueno (2007), “deve ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios”.

Referências:

INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO E FLORESTAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS. Disponível em: http://www.idam.am.gov.br/ater/producao-vegetal/. Acesso em: 27/09/2022.

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, jornalismo e meio ambiente: teoria e pesquisa.São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

*Doutorando pelo PPGCOM, DINTER UFRGS/UFAM. E-mail: ferreiraalberto2009@gmail.com