Patrimônio material e imaterial em Ouro Preto na cobertura jornalística

Imagem: Deslizamento do Morro da Forca que destruiu um casario histórico em Ouro Preto. 
Fonte: Redes Sociais, autor(a) desconhecido(a).

Por Matheus Cervo*

Os extremos climáticos na América do Sul se tornam cada vez mais parte do nosso cotidiano. Logo após a passagem de 2021 para 2022, tivemos a presença de uma grande onda de calor no sul do continente e fortes chuvas registradas em Minas Gerais e na Bahia – fenômenos que não podem ser desconectados do colapso climático que segue em curso.

Não é surpresa que esses extremos estejam atingindo parte do nosso patrimônio histórico e social, visto que isso tem acontecido de forma cada vez mais agressiva. Como mais um evento desse tipo, o aumento das chuvas em Minas Gerais causou a destruição de um casario histórico no Morro da Forca em Ouro Preto devido a um deslizamento de terra no dia 13 de janeiro. Com isso, uma parte do jornalismo brasileiro se debruçou sobre o ocorrido para discutir a situação da memória brasileira frente a esses fenômenos climáticos.

O G1 fez uma matéria chamada “Patrimônio Mundial da Humanidade, Ouro Preto convive com áreas de risco e danos ao casario histórico”. Ela se destaca por ter buscado especialistas de diferentes áreas para entender não só a destruição em si, mas o que pode ser feito para que se tenha um resguardo das edificações históricas do nosso país. Entre eles, foram mencionadas falas de uma professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) do departamento da Arquitetura e do Urbanismo, explicações de um geólogo e estudos sobre áreas de risco do Serviço Geológico do Brasil/CPRM. Além disso, tentaram entrar em contato com a administração municipal de Ouro Preto e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), assim como trouxeram alguns dados antigos para mostrar que os deslizamentos de terra e as perdas ao patrimônio não são novidades nessa cidade.

O evento causou tanta comoção aos profissionais que se preocupam com a questão da memória que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) se pronunciou com uma nota no dia 14 afirmando que foi uma grande perda para toda a humanidade – o que foi resumido e noticiado pelo jornal O Estado de São Paulo. Essa grande mobilização da organização internacional se deve ao fato de Ouro Preto ser a primeira cidade brasileira inscrita na década de 1980 na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, sendo uma cidade que é monitorada pelo Centro do Patrimônio Mundial. Não é trivial salientar que a diretora ressaltou que medidas protetivas são ainda mais importantes em meio ao avanço das mudanças climáticas, o que foi noticiado pelo Estadão.

Percebe-se que, até aqui, cumpre-se com a necessidade de buscar pela complexidade dentro do jornalismo, especialmente nessa imbricação de áreas que estudam as questões ambientais relacionadas com a preservação do patrimônio nacional. Contudo, ainda dentro da discussão sobre memória e sociedade, é possível dizer que a cobertura desses fatos carece de uma discussão mais aprofundada acerca do patrimônio imaterial que se refere às sociabilidades e modos de vida existentes nesses locais. Depois desse evento que foi seguido de alguns outros deslizamentos noticiados, surgiram diversas matérias afirmando que Ouro Preto tem mais de 300 áreas de risco, sendo que 882 residências estão nessas regiões. Saíram notícias mostrando que 80 famílias foram removidas do bairro Taquaral e diversos serviços foram evacuados como forma de precaução.

Por isso, como o jornalismo ambiental poderia noticiar esses desastres ao patrimônio brasileiro sem prezar somente pelo material? Não seriam as formas de sociabilidade e as construções históricas de modos de vida específicos desses locais patrimônios imateriais tão importantes quanto as edificações? Não seriam elas também formas tão importantes de resguardo quanto a materialidade da nossa memória brasileira? São essas questões que ficam pungentes para aprofundamento dessa discussão sobre o que realmente é o patrimônio mundial da humanidade e como o jornalismo (assim como organizações como a Unesco) poderiam ter uma noção mais abrangente de como a memória se mantém viva na sociedade através das suas dimensões imateriais.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade.

Desafios da cobertura jornalística sobre os impactos do Plano Diretor

Imagem: Captura de tela da entrevista do Sul21

Por Míriam Santini de Abreu*


Os jornalistas que cobrem “Geral” ou “Cidade” sabem o tamanho do desafio de tornar atrativas as notícias e reportagens sobre mudanças no Plano Diretor, que, segundo o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2011), é o instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana do município. As mudanças mexem de forma direta no cotidiano dos moradores, mas explicar isso significa compreender a disputa pelo solo urbano e dar a entender termos como “gabarito”, “capacidade de suporte”, “potencial construtivo” e “coeficiente de aproveitamento”, assim como dezenas de siglas que nomeiam as áreas da cidade. Duas capitais do Sul, Florianópolis e Porto Alegre, estão discutindo alterações nos planos diretores, e os jornalistas se deparam com esse desafio.


Em Florianópolis, a cobertura jornalística sobre o tema expressa a realidade local de mídia, onde o grupo NSC, ex-RBS, tem magra cobertura local, e o grupo ND, ex-RIC, ligado ao grupo Record, alinha-se ao discurso da prefeitura e do empresariado. A prefeitura realizou Audiência Pública em 17 de dezembro e irá promover outras 14 em janeiro para apresentar as mudanças no Plano Diretor, desconsiderando críticas dos movimentos sociais organizados. Essas críticas se relacionam à forma, ao conteúdo e à organização do processo, em plena temporada de verão e com casos crescentes de contaminação por covid-19. As críticas não aparecem nas poucas notícias e raríssimas reportagens publicadas nos veículos dos dois grupos e, nas colunas e editoriais, são atribuídas a “grupos ideológicos de esquerda”, historicamente chamados de “os contra”, como na coluna de Moacir Pereira, comentarista político de longa data demitido do grupo NSC e contratado pelo grupo ND.


Desde o início de dezembro passado, quando a prefeitura apresentou a proposta de mudança do Plano Diretor, até agora, às vésperas das audiências para ouvir a população sobre os rumos da chamada “Ilha da Magia”, esses veículos não se prestaram a apresentar a proposta de forma detalhada e ouvir quem é crítico aos planos da atual administração. A cobertura se limita aos releases enviados pela prefeitura e às entrevistas de secretários e empresários descontentes com a mobilização do movimento popular, que tem obtido até agora vitórias na justiça para suspender as Audiências Públicas agendadas para janeiro. Nesse ínterim, em meio ao calor do verão e ao temor pelo recrudescimento da pandemia, a população da capital catarinense, a depender da cobertura jornalística local, pouco ou nada saberá do que planejam os gestores para mudar o uso do solo da cidade.


Já um bom exemplo de como um veículo pode oferecer informação de qualidade apareceu dia 7 de janeiro no site de notícias Sul21, que publicou entrevista pingue-pongue com o prefeito de Porto Alegre intitulada “Sebastião Melo: ‘O Plano Diretor que vamos mandar para a Câmara será bastante liberal’”. As perguntas permitem ao prefeito expressar o projeto para a cidade, mas não deixam de explorar contradições, aprofundar afirmações vagas e apresentar exemplos concretos em que o discurso oficial contradiz a prática da prefeitura. Também é visível o conhecimento dos jornalistas sobre a história da cidade e as ações de administrações anteriores, quando perguntam, por exemplo, se os projetos em curso estão mantendo o legado de preocupação ambiental de Porto Alegre. É importante assinalar que o Sul21 publicou em julho do ano passado um especial, intitulado “Que Porto é esse: quem ganha com as transformações na capital”, com sete reportagens repletas de entrevistas, dados e fotografias que oferecem ao leitor um prato colorido e apetitoso para compreender a disputa pelo espaço urbano na capital gaúcha. Os veículos de Florianópolis estão devendo um prato desses na cobertura dos impactos da mudança do Plano Diretor local.


*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo.

As mudanças climáticas em pautas sobre as enchentes na Bahia

Crédito: Isac Nóberga / PR. Fonte: Agência Brasil.

Por Débora Gallas Steigleder*

Estudos de integrantes do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental sobre a cobertura ambiental no Jornal Nacional no ano de 2019 identificaram a ampliação e transversalização das pautas sobre meio ambiente no telejornal em relação a anos anteriores. A maior recorrência de temas ambientais nas edições do principal produto jornalístico da TV Globo pode ser explicada por dois fatores frequentemente sobrepostos: o desmonte das políticas públicas de proteção ambiental a partir da posse de Jair Bolsonaro como presidente e o aumento de ocorrências de tragédias de grande envergadura. A busca por explicações e soluções para os impactos dos fenômenos percebidos, no entanto, ainda fica em segundo plano. Após mais de dois anos, é possível perceber que este padrão se mantém na cobertura sobre as fortes chuvas que vitimam e vulnerabilizam cerca de 700 mil pessoas no sul da Bahia ao longo deste mês de dezembro.

Quando o acontecimento irrompe, os esforços de cobertura são direcionados para captar o drama humano. A contextualização da tragédia a partir dos locais mais afetados envolve o telespectador: nas edições dos dias 28 e 29 de dezembro, a situação na Bahia ganhou destaque na programação, com mais de sete minutos em tela. A abordagem de JN chamou à reflexão ao destacar que Jair Bolsonaro decidiu não interromper suas férias no litoral de Santa Catarina para se envolver nas ações do governo federal a fim de amparar da população afetada. Também chamou o público à ação quando coloca em pauta as redes de solidariedade que se formam em todo o Brasil para auxílio no resgate e na sobrevivência daqueles impactados durante o dezembro mais chuvoso dos últimos 32 anos na região.

Porém, uma cobertura realizada a partir de olhar complexo, de acordo com os pressupostos do jornalismo ambiental, deve se debruçar igualmente sobre as causas dessas tragédias, ainda que as consequências sejam visualmente mais impactantes e, portanto, tenham maior valor-notícia. Embora no discurso das fontes oficiais a expressão “desastre natural” seja recorrente, o jornalismo precisa incorporar a contextualização sobre o aumento dos eventos extremos como consequência das mudanças climáticas.

Este entendimento existe, mas ainda é periférico na mídia brasileira. Ao longo da semana, portais de notícias replicaram reportagens com explicações científicas que conectam as enchentes na Bahia à emergência climática, produzidas por veículos de abrangência internacional como RFI e BBC News Brasil. Em 28 de dezembro, Jornal Nacional chegou a exibir reportagem aprofundada sobre o agravamento dos desastres causados pelas chuvas diante da falta de planejamento das cidades brasileiras.

Trata-se de uma conexão necessária para que o público consiga compreender a relação de causa e consequência que envolve tais fenômenos; porém, poderia ser ainda mais detalhada com a incorporação da crise climática como plano de fundo, já que reconhecer sua inevitabilidade e a frequência cada vez maior dos eventos extremos implica em envolver a opinião pública nos debates sobre medidas de enfrentamento às mudanças do clima. De quebra, também fortalece o debate sobre a responsabilidade dos governantes que permanecem inertes diante do caos.

Referências
GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas. Ampliação e transversalização da pauta ambiental no Jornal Nacional. Comunicación y cambio climático: contribuciones actuales. Sevilha: Ediciones Egregius, 2020. p. 15-33. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Eloisa-Beling-Loose/publication/348815171_AMPLIACAO_E_TRANSVERSALIZACAO_DA_PAUTA_AMBIENTAL_NO_JORNAL_NACIONAL/links/601196e8a6fdcc071b9936a1/AMPLIACAO-E-TRANSVERSALIZACAO-DA-PAUTA-AMBIENTAL-NO-JORNAL-NACIONAL.pdf.

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; LOOSE, Eloisa Beling. Novos rumos da cobertura ambiental brasileira: um estudo a partir do Jornal Nacional. TraHs: Revista Trayectorias Humanas Trascontinentales, Limoges, n.7, p. 47-62, 2019. Disponível em: https://www.unilim.fr/trahs/2054#tocto1n3.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação. Integrante do GPJA.

Um dia da caça ou todos do caçador?


Por Ursula Schilling*

Não há como negar. A pauta ambiental tem tido, talvez como nunca antes, espaço em diferentes veículos, ainda que isso signifique poucas boas e robustas coberturas e muitas rasas, pouco comprometidas e até muito ruins. Não há como negar, também, que, apesar do crescente espaço dado ao tema “meio ambiente” na mídia, a destruição e o desmonte (basta dedicar algum tempo de leitura às análises deste Observatório) avançam em velocidade assustadora. Ser ambientalista e fazer jornalismo ambiental tem sido como enxugar gelo no sol quente do verão.

A tarefa de combater e informar sobre os retrocessos ambientais tem sido ainda mais extenuante e desafiadora no Brasil de 2021. Há duas semanas, por exemplo, ganhou repercussão o Projeto de Lei (5544/2020 ) que regulamenta a prática da caça esportiva de animais no Brasil, envolvendo atos de perseguição, captura e abate. Após a polêmica em torno do assunto, o Pl foi retirado da pauta do dia (14 de dezembro) da Câmara dos Deputados. A caça é proibida no Brasil.

Coincidência ou não, um dia antes, o jornalista André Trigueiro, uma referência para muitos ecojornalistas, abordou o assunto em seu comentário durante o programa Estúdio I da GloboNews.

Trigueiro não apenas criticou o Projeto de Lei, mas fez uma análise sistêmica da questão, aplicando o jornalismo ambiental de fato. “Como alguém se diverte, em pleno 2021, matando bicho?”, pergunta enfaticamente ao questionar como tal tópico pode estar em discussão, ainda por cima, na Comissão de Meio Ambiente. Falou sobre o lobby das armas envolvido na ideia, sobre uma possível liberação da caça num já dramático cenário de extinção de muitas espécies, e sobre o absurdo (entre outros tantos) da alegação, que consta no texto do Pl, de que isso estimularia a interação do homem com a natureza.

Imagem: Captura de tela da GloboNews

Em cinco minutos de fala, Trigueiro demonstra que é possível fazer jornalismo sério, combativo e respeitoso. Analisar os fatos não é fazer juízo de valor e dizer “isso é bom, isso é mau”. É contextualizar, é trazer argumentos bem embasados que nos ajudem a entender as implicações envolvidas em cada situação. Um jornalismo que produz informação e esclarecimento acerca do mundo, seja sob que aspecto for, pode, por fim, gerar conhecimento transformador da realidade.

Só assim, talvez um dia, possamos nos dar conta de que somos quase todos caça. Que os dias têm sido quase todos dos caçadores, mas que somos em maior número. Que nosso poder de mobilização existe. Mas precisa acontecer. A mudança começa no âmbito individual, mas ela só ganha força no coletivo. Aqui, um jornalismo responsável e ativo faz muita diferença.

El País deixa o Brasil e jornalismo ambiental perde importante veículo

Fonte: Captura de imagem do site El Pais Brasil

Por Nicoli Saft*

No dia 14 de dezembro, o El País publicou uma nota anunciando o fim de sua edição em língua portuguesa. Iniciada com o calor dos protestos de 2013, a edição brasileira cobriu os importantes acontecimentos que aconteceram no país desde então com um olhar crítico. 

Em outubro do ano passado o jornal adotou o modelo de paywall e passou a cobrar assinaturas de três dólares mensais. A nota argumenta que, embora contando com um número considerável de assinantes digitais, o jornal não adquiriu sustentabilidade financeira.  A partir de agora, textos sobre o Brasil poderão ser encontrados em espanhol no El País America.

A finalização das atividades pegou de surpresa não somente os leitores: segundo a diretora do El País Brasil, Carla Jimenez, a redação ficou sabendo do fim da edição quase ao mesmo tempo que o restante do país.

Aqui no Observatório citamos reportagens do El País Brasil ao menos 18 vezes desde nossa criação em 2019. Foi um jornal que mostrou outros olhares sobre os agrotóxicos, contando a pulverização de veneno por cima de áreas indígenas; falou sobre os impactos econômicos das queimadas da Amazônia e mostrou formas criativas de aproximar o leitor desse crime, mostrando o tamanho da destruição se acontecesse em sua cidade. Mais recentemente, conectou o aumento da conta de luz ao desmatamento e à emergência climática , e essas foram apenas algumas das reportagens do El País Brasil que nos impactaram.

Claro, nem todas as menções foram positivas. Ao falar sobre o acordo comercial entre a União Europeia e a Mercosul, a edição brasileira do jornal espanhol não voltou seu olhar para o Brasil . A situação nos faz lembrar que embora exalem brasileiridade em diversos momentos, o jornal ainda é espanhol.

Possivelmente um dos fatos mais marcante para nós a respeito do El País Brasil, é que o jornal era casa de Eliane Brum por todos esses anos, abrigando suas profundas análises de um olhar vindo do “centro do mundo”. A colunista foi surpreendida com a notícia do fim da edição brasileira ao chegar de uma viagem a Terra do Meio. Em seu twitter anunciou que sem dúvida continuará escrevendo, mas ainda irá comunicar como será isso.

O fim do EL País Brasil nos deixa mais uma vez pensando sobre os modos de negócio jornalístico e como fazer um veículo que se autossustente nos dias atuais, mas não vou me demorar sobre isso dessa vez. A mensagem de Eliane Brum nos deixa esperança de ver algo novo nascer. A edição brasileira do jornal era liderada por mulheres que fizeram um incrível trabalho por esses oito anos. O fim é triste, mas espero que os jornalistas que faziam tudo acontecer continuem a fazer um jornalismo engajado e a enriquecer o jornalismo brasileiro de alguma forma.

Como vai a cobertura sobre a biodiversidade?

Por Eliege Fante*

Tramita, desde o primeiro semestre de 2021, no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre (Comam), um processo sobre a pertinência de o município estabelecer um instrumento legal que promova a gestão, efetivamente, responsável da biodiversidade. Estamos falando da proposta de Minuta de Resolução que reconhece a “Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção e Raras da Flora do Município de Porto Alegre com ocorrências reconhecidas cientificamente”. A pesquisa, o documento e a proposta decorrem de um trabalho voluntário, realizado desde 2015, por especialistas renomados de entidades ambientalistas, de órgãos ambientais do Rio Grande do Sul e de universidades. A Câmara Técnica de Áreas Naturais e Paisagem Urbana (CT ANPUR) do Comam aprovou a proposta que foi apresentada em detalhe na reunião do Conselho em 30 de setembro de 2021. Já a Câmara Técnica de Legislação e Educação Ambiental (CT LEAMB) ainda não tem posição definida sobre o instrumento legal mais adequado. A dúvida, por parte de alguns integrantes nessa CT, paira sobre como atender esta necessidade sem descuidar os demais interesses socioeconômicos, baseados nos conceitos de desenvolvimento sustentável, economia verde e retomada da economia. Há quem considere o suficiente a Smam seguir utilizando a Lista constante no decreto 52.109/2014 que “Declara as espécies da flora nativa ameaçadas de extinção no Estado do Rio Grande do Sul”, a qual não tem previsão de ser atualizada porque este trabalho era feito pela Fundação Zoobotânica (FZB), extinta em 2018 pelo governo José Ivo Sartori (MDB) através do decreto 54.268. Portanto, a FZB assim como as outras fundações extintas não eram “armários desnecessários da administração” (CP, 7 ago. 2015) como Sartori declarou.  

De fato, o reconhecimento dessa biodiversidade, rara e ameaçada, autóctone em Porto Alegre, implica considerar a existência dessas espécies da flora no caminho de megaprojetos que tentam obter licenças ambientais. Um dos casos é o da proposta de alteração no regime urbanístico da Fazenda do Arado Velho com o projeto de lei complementar (PLC) na Câmara de Vereadores, cuja tramitação foi suspensa pela Justiça, na semana passada (03/12), até que se elaborem “todos os estudos, diagnósticos técnicos e debates”. A Fazenda fica na zona sul, onde estão os remanescentes dos dois biomas constituintes deste território: Mata Atlântica e Pampa. Vestígios ainda podem ser encontrados nas demais zonas na forma de áreas verdes cuja redução gradativa, causa efeitos perniciosos sobre a qualidade do ar, da água, dos solos e, por conseguinte, da saúde dos habitantes embora essas relações não sejam abordadas pela imprensa. 

A imprensa não costuma aprofundar os temas através do acompanhamento dos trâmites nos conselhos e outros fóruns públicos, tampouco através do incentivo à formação complementar em áreas das ciências naturais. Ao menos, não na mesma medida que incentiva a formação para a cobertura econômica e de futebol. Uma consequência é a dificuldade generalizada no reconhecimento do papel da biodiversidade preservada para o equilíbrio climático, por exemplo. Tanto que a imprensa não questionou quando Porto Alegre, através da Smam, assumiu o compromisso de reduzir as emissões dos gases de efeito estufa durante a COP 26, na Escócia, sem citar medidas que contemplassem a biodiversidade. 

A cobertura temática com enfoque apenas econômico é opção simplificadora e exacerba os riscos em tempos de emergência climática. Pois, ainda que tenha sido divulgada a precariedade do estudo e relatório de impacto ambiental do empreendedor que ambiciona construir condomínios na Fazenda do Arado, uma comparação entre as espécies da flora descritas nesse documento com as espécies da Lista que está no Comam, mostra que ao menos quatro espécies estão ameaçadas também em Porto Alegre: Regnellidium diphyllum (samambaia de duas folhas, que ocorre em áreas úmidas); Cattleya tigrina (orquídea-de-natal); Solanum arenarium (arbusto parente da jurubeba que ocorre em restingas); Urera nitida (urtigão-da-praia). Ou seja, estão em risco de extinção no Estado e na capital. Devemos lembrar que o Artigo 245 da Lei Orgânica de Porto Alegre considera Área de Preservação Permanente (APP) ambientes que abrigam espécies ameaçadas e raras de flora e de fauna, cabendo ao órgão ambiental do município, definir medidas para a sua proteção. Neste sentido, foi encaminhada uma proposta de Resolução que reconhece as listas da flora ameaçada e rara no município, pela Câmara Técnica de Áreas Naturais e Paisagem Urbana (CT ANPUR) e que está sob análise na CT LEAMB do Comam. 

Observamos que a imprensa prefere ouvir as fontes oficiais esquecendo-se que as fontes técnicas, ou seja, os servidores dos órgãos dos governos e dos poderes instituídos são igualmente fontes oficiais e, com a vantagem, entre outras, da visão de longo prazo e histórica dos temas em disputa na sociedade. Ou saberia, por exemplo, que há apoio de técnicos da Smam às Listas e, à respectiva Minuta de Resolução citada anteriormente. Não só isso: há uma recomendação para que este trabalho seja publicado e acessado por toda a população. Assim como, recentemente, acessamos o Guia de Plantas Campestres dos Aparados da Serra, lançado na Feira do Livro deste ano e apresentado em São Francisco de Paula e Cambará do Sul como um reconhecido instrumento para a gestão municipal. 

Evitar que a temperatura global ultrapasse 1,5º C requer mudanças de paradigmas igualmente da imprensa. Coberturas efetivamente responsáveis contemplam também a biodiversidade, quanto ao estado de conservação bem como das políticas protetivas, e às pautas nos espaços além dos oficiais. Sem esquecer do exercício que pode representar para a cobertura da COP 15 em 2022, a Conferência das Partes sobre a Biodiversidade, que vai definir a “nova Estratégia Global de Biodiversidade Pós-2020” no contexto da extrema perda de espécies da flora e da fauna em todo o mundo. 

* Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental CNPq-UFRGS e representa a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) na CT LEAMB do COMAM. 

Defronte mitos e farsas do negacionismo climático, o jornalismo

Imagem: Captura de tela de notícia da BBC Brasil.

Por Mathias Lengert*

Apesar do aquecimento global ser um consenso científico, campanhas de desinformação disseminam desconfiança e conteúdos imprecisos com êxito. É o que aponta uma sondagem realizada durante a COP26 pelo Institute for Strategic Dialogue (ISD). O monitoramento do think thank britânico verificou que páginas negacionistas do clima no Facebook obtiveram engajamento 12 vezes superior ao de fontes especializadas, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Além disso, perfis negacionistas foram significativamente mais atuantes na rede social durante o evento. Anteriormente, este observatório já discutiu a responsabilidade editorial de veículos de comunicação ao acolherem, sem constrangimento, colunistas que minimizavam as conclusões do relatório do IPCC. Agora, nos questionamos como o jornalismo pode lidar com episódios de desinformação climática.

Trata-se de um fenômeno mobilizado por diversos atores sociais que operam ativamente, entre outras formas, em duas frentes: nas mídias sociais digitais, realizando disparos de notícias falsas, e a partir do lobby de instituições, financiadoras de um número ínfimo de pesquisadores que defendem a hipótese que nega o impacto antrópico no clima.

A checagem de fatos, em contrapartida à primeira frente, é um procedimento que ratifica a veracidade das informações e adverte suas eventuais inconsistências. Na ocasião da conferência do clima, o Estadão alertou para postagens em redes sociais que disseminavam dúvidas sobre a intervenção humana no aquecimento do planeta e ataques à ativistas ambientais. Ainda que seja uma prática imprescindível, a checagem de fatos é uma medida pontual que deve ser correlata a uma cobertura jornalística contínua e engajada, capaz de promover conexões entre o aquecimento global e o contexto local do público.

Em paralelo às notícias falsas, o lobby de determinados segmentos da sociedade busca descredibilizar as evidências científicas sobre o fenômeno. É o caso de alguns setores do agronegócio e da ala militar reacionária. Esse é um dos destaques da investigação jornalística da BBC Brasil, que noticiou que esses grupos financiaram palestras de dois conhecidos pesquisadores negacionistas, Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion, que afirmam, entre outras frases sem embasamento científico, que “o aquecimento global é uma farsa, é um mito” e que a redução de emissões é “inútil”. Esses mesmos adjetivos, coincidentemente, foram amplamente usados por perfis negacionistas do Facebook para descredibilizar a COP26, conforme a sondagem do ISD. O movimento, portanto, repete tais chavões como estratégia de minar os esforços de combate ao aquecimento global e semear dúvidas na sociedade.

O jornalismo, como bem exemplifica a reportagem da BBC, deve desvelar o negacionismo, apurar as fontes de custeio e estimular um debate amplo e crítico quanto aos interesses econômicos destes segmentos ao minimizarem ações de enfrentamento ao fenômeno. Embora a desinformação climática exija uma responsabilidade que excede o jornalismo, cabe registrar que este tema perpassa um esforço cotidiano dos profissionais do campo. Aprimorar o caráter educativo jornalismo, em especial, é fundamental para qualificar a pauta e conscientizar o público contra o negacionismo climático.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O desmatamento em números, sem causas e consequências

Imagem: Captura de tela de notícia do dia 18.11.21 publicada na Folha de S. Paulo

Por Patrícia Kolling*

Na última semana a pauta foi, novamente, o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia, que cresceu 22% em um ano, com a devastação de 13.235 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e mostram o maior desmatamento dos últimos 15 anos. O novo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) confirmou o aumento no desmatamento, com dados de janeiro a outubro de 2021, chegando a uma área de 9.742 km2, o equivalente a mais de 6 vezes o tamanho da cidade de São Paulo.

Sobre o tema, repercutiram na imprensa também as declarações de autoridades brasileiras contradizendo ou justificando os dados divulgados. O presidente Jair Bolsonaro afirmou na segunda-feira, dia 15, durante evento com investidores em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, que “os ataques que o Brasil sofre em relação à Amazônia não são justos”, que a floresta “tem mais de 90% de área preservada” e que está “exatamente igual a como era em 1500”. Na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), o presidente havia ressaltado que tem protegido a Amazônia e o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, anunciou que o Brasil deverá zerar o desmatamento ilegal em 2028.


O ministro do Meio Ambiente também sustentou na semana passada que os números do INPE “não refletem a ação do Governo nos últimos meses” com o destacamento dos integrantes da Guarda Nacional. Para completar o vice-presidente, Hamilton Mourão, disse que o crescimento do desmatamento na Amazônia está associado ao avanço da população na região.


Ainda ganhou destaque na imprensa o fato de que o documento do INPE com os dados oficiais ter a data de 27 de outubro, mas ser divulgado apenas em 18 de novembro, depois de ser encerrada a COP 26, em Glasgow.

Números, declarações oficiais, questões políticas vieram à tona com o relatório do INPE. Mas, e o desmatamento: quais as causas, quem são os responsáveis, quais os prejuízos sociais, ambientais e econômicos, qual a importância da floresta em pé para a manutenção do clima brasileiro e mundial, quais as relações do desmatamento com a agropecuária, quais os riscos que o Brasil corre ao desmatar a Amazônia? Infelizmente, nenhuma das matérias jornalísticas, acessadas, respondiam essas questões.

A causa ambiental é urgente, e independente da política editorial de cada veículo e da busca pela imparcialidade, já não é mais possível deparar-se com textos que trazem números e declarações contraditórias e, muitas vezes, falsas, como já abordadas neste observatório, e que confundem o leitor que busca informação. Já que a imprensa brasileira se alimenta do factual, precisa aproveitar esses momentos, no caso, a divulgação dos dados do INPE, para tratar em profundidade e com informações contextualizadas as questões ambientais. A informação é a chave para a educação e as ações na preservação do meio ambiente e a imprensa um dos principais canais de difusão.


Deveria estar no manual de redação de todas as organizações jornalísticas, a obrigatoriedade de que todas as notícias ambientais, que são factuais e sintéticas, viessem acompanhadas por reportagens que tratassem a temática em profundidade, abordando causas e consequências.

*Patrícia Kolling é jornalista, professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Universitário do Araguaia e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

COP26: resultados insuficientes e “journalismwhashing”

Imagem: Captura de tela. Eric Terena diz que jornalismo precisa de outras referências e fontes

Por Cláudia Herte de Moraes e Eliege Fante*

As COPs costumam ser frustrantes, pelo menos em termos de efetividade em relação aos compromissos assumidos como soluções pelos acordos entre governos e corporações. Entre 31 de outubro e 12 de novembro, estivemos atentas a Glasgow (Escócia), acompanhando as notícias sobre a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26). Vários analistas indicam que as negociações globais em torno do clima estão entregando resultados pífios, não obstante venham sendo construídos ao longo de décadas. Especialmente levando em conta a urgência para implantar as ações que nos desviem do caos climático que se avizinha, devido à ultrapassagem da marca de aumento da temperatura global em 1,5oC. Do contrário, não teríamos o alerta definitivo quanto à necessidade de conter o aquecimento global, por parte do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), divulgado em agosto de 2021, às vésperas desta conferência. O órgão traz a análise de cientistas do mundo todo e informa sobre o caos que já se instalou em todos os sistemas que sustentam a vida na Terra.

A hora é de agir, segundo cientistas que dizem já terem feito o seu trabalho, e agora cabe à comunicação fazer o seu. Enquanto os jovens vão às ruas pelo clima e pelo próprio futuro, os governos continuam negociando metas com os mercados como uma razão meramente contábil – através da precificação da natureza, como se fosse possível trazer de volta o equilíbrio vital desperdiçado dos ecossistemas com simples trocas financeiras. Nessa teia complexa, olhamos para o jornalismo e pensamos em como qualificar o debate público sobre estes temas. 

O Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) faz análises amplas, sistemáticas, específicas ou focadas em temas sobre a cobertura de meio ambiente por diferentes veículos de comunicação. Na pauta climática, publicações recentes no Observatório de Jornalismo Ambiental apontam a necessidade de que o debate seja mais constante e aprofundado que apenas pontual, principalmente quando temos as conferências do clima.

Quando houve a divulgação do relatório do IPCC em agosto de 2021, observamos que “neste tema específico […] a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância”. No entanto, poucos deram enfoque ao tema da justiça climática, que emerge como fundamental para a definição nítida de acordos entre governos e grandes empresas para um caminho de real transformação social.

A crítica se dá também ao conteúdo da cobertura que, mesmo usando a COP26 como mote, em geral, carece de “[…] abordagens sobre os problemas e soluções estruturais diante da emergência climática”. Por outro lado, “algumas lacunas são supridas através da comunicação produzida pelos próprios grupos vítimas da injustiça climática, através das redes sociais.”

A equipe produz debates e conhecimentos disponíveis em artigos científicos, teses, dissertações e e-books, considerando maneiras em que o jornalismo possa ser um aliado à transição justa em nossa sociedade. Vale consultar a bibliografia no site do grupo, com destaque à publicação recente do “Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas”.

Na observação mais detida da cobertura jornalística, de forma geral, podemos tecer três críticas quanto à forma e conteúdo. Em primeiro lugar, é preciso pensar que o Jornalismo, ao privilegiar apenas a temporalidade presente (e não futura, impedindo se pensar em futuros coletivamente), associando-se à repercussão de fatos, pouco se atém a problemáticas de continuidade, o que certamente é o caso da superexploração dos bens naturais – e da emergência climática como um todo.

Em segundo, na escolha das fontes, quando predominam as oficiais e, entre elas, os cargos do topo, e somente dos grupos sociais político, econômico e científico. No caso dos governos, isso é significativamente preocupante, porque com frequência os cargos técnicos que detém maior constância no setor público, possuem informações mais verdadeiras. Por exemplo, o pré-candidato à presidência, Eduardo Leite (PSDB), teve o seu discurso para a COP26 festejado pela imprensa em geral e, somente um blog divulgou o desmentido graças aos servidores do estado do Rio Grande do Sul, desmascarando a conversa fiada do governador gaúcho.

Em terceiro, a angulação das reportagens que se propõem a trazer os questionamentos desde outros saberes, o faz de forma minorizada e parcial. Justamente o oposto do discurso da imparcialidade, como apontou o jornalista Eric Terena em live recente: “Não se fala sobre população indígena, sobre os problemas, sobre o cotidiano, na imprensa tradicional, só lembram da cultura, do comportamento. Vejo que a imprensa quer ser imparcial sendo parcial. Tenho que falar hoje sobre as leis que afetam diretamente os nossos territórios e quem vai falar é quem assume a pauta e o compromisso, ou seja, são os povos indígenas, são os povos quilombolas.”

Finalmente, não é que a imprensa em geral não se dê conta, como José Henrique Mariante mostrou a opção da Folha de São Paulo, ao privilegiar um espaço cinco vezes maior à ESG do que à cobertura da COP26. E, em resposta à pergunta título do colunista, “Se a ameaça ao planeta é real, por que os jornais não compram a briga?”, parodiamos a definição dele quanto à maquiagem verde sobre os anúncios do governo brasileiro, porque entendemos que jornais da imprensa corporativa fazem um “journalismwhashing”, tipo uma maquiagem de jornalismo. Enquanto exercem a sua parcialidade em favor das corporações e grandes empresas alinhadas aos setores que mais emitem gases de efeito estufa, como o agronegócio associado ao desmatamento, apresentam-se como jornalismo, porém sem praticar uma escuta ativa, aberta à pluralidade de fontes outras. Neste sentido, trazem apenas uma falsa aparência de jornalismo porque não contemplam os interesses de todos os povos, especialmente quanto à emergência climática.

*Integrantes do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental – UFRGS/CNPq.

Cobertura da COP26 revela novas pautas e vozes

Imagem: Captura de tela de publicação da Deutsche Welle.

Por Ângela Camana*            

O encerramento oficial da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP26), adiada pela crise sanitária em 2020, foi na última sexta-feira, dia 12 de novembro. Realizada em Glasgow, na Escócia, as expectativas globais eram altas: a COP26 prometia delimitar como poderão ser cumpridas as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris. Quanto aos pactos estabelecidos, ainda é cedo para afirmar se poderão exceder o “blá-blá-blá” das principais lideranças mundiais, como provocou a ativista sueca Greta Thumberg. Encerrada a quinzena do evento, ainda que o texto final do evento não tenha sido – até o momento da redação deste comentário – publicado, já é possível ponderar sobre o tom adotado na cobertura da imprensa sobre a conferência e sobre as mudanças climáticas.           

Lembro que entre 2009 e 2012 este grupo de pesquisa desenvolveu uma ampla pesquisa sobre a cobertura das COP15 e16, avaliando publicações na imprensa de referência brasileira e portuguesa. Naquela ocasião, identificamos que o jornalismo não era capaz de exceder o discurso ecotecnocrático, privilegiando fontes oriundas dos campos políticos e econômico. Conclusões semelhantes foram delimitadas por pesquisas de mestrado e doutorado defendidas por membros de nossa equipe. Nossas investigações avaliam que as coberturas das cúpulas sobre mudanças climáticas sempre foram marcadas por um otimismo tecnológico, com reportagens que exaltam iniciativas da indústria e do mercado – como os créditos de carbono, por exemplo – como soluções para as transformações globais. Nesse sentido, esta pauta amplamente financeirizada ocupava-se de escutar chefes de Estado, grandes empresários e, quando muito, cientistas.

Passados dez anos, uma análise preliminar indica que ainda prevalecem abordagens da ordem da política institucional, mas é inegável que outros tópicos e outras fontes vêm transformando a pauta neste período. Vozes dissonantes, como as de ativistas climáticas e de povos originários, não são mais restritas a curtas notas (em muito exotizantes), mas ocupam capas de grandes portais. “Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar nos centros das decisões que acontecem aqui”, disse Txai Suruí, brasileira que discursou na abertura oficial da COP26. A imprensa nacional não apenas repercutiu a fala, mas utilizou o gancho para abordar temas como justiça climática e racismo ambiental.

Imagem: Captura de tela do podcast da Folha de S. Paulo.

Há uma década, este tipo de debate só seria acessado por meio de canais alternativos e de comunicadores independentes – que, aliás, seguem fazendo um trabalho de qualidade, como é o caso de Sabrina Fernandes e da Mídia Ninja. A cobertura da imprensa de referência sobre a COP6 parece estar experimentando um momento de virada: o tom predominante já não é de fascínio tecnológico, nem guiado unicamente por soluções financeiras. Do contrário: esta é justamente acrítica que fez o podcast Café da Manhã, produzido pela Folha de S. Paulo, no dia 12 de novembro, fez às discussões travadas na cúpula. O título do episódio é sugestivo: “COP26: a força da grana nas questões do clima”. Isto me parecia impossível há uma década.  Talvez eu esteja sendo demasiada otimista, é verdade. Mas quero acreditar que a inclusão de novas pautas, fontes e temáticas não são apenas reflexo de mudanças editoriais pontuais, mas um sinal de que jornalistas e veículos, alertas à urgência climática, estão assumindo seu papel diante do interesse público. Convido os leitores e as leitoras a fazerem o mesmo. 

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.