Assédio Institucional e Reforma Administrativa na pauta do jornalismo ambiental

Imagem: captura da tela do artigo no jornal Brasil de Fato

Por Míriam Santini de Abreu*

Artigo publicado no Brasil de Fato de autoria da juíza federal Cláudia Maria Dadico, integrante da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) e da Associação Juízes para a Democracia (AJD), traz um tema relevante para a pauta do jornalismo ambiental: o Assédio Institucional. No artigo, em https://bit.ly/39ON9yR, a juíza aborda o assassinato do jornalista Dom Phillips e do servidor licenciado da Funai Bruno Pereira detalhando o processo que levou o servidor a realizar o trabalho na Vale do Javari sem uma estrutura de segurança e proteção institucionais pelo Estado.

O artigo cita a publicação “Assédio Institucional no Brasil: avanço do autoritarismo e desconstrução do Estado”, da Associação dos Funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Afipea) e da Universidade Estadual da Paraíba, em https://bit.ly/3NnJDcb, com 806 páginas, que aborda como se dá o processo de desconstrução do Estado nacional, suas organizações, institucionalidades, políticas e servidores públicos. Um dos artigos, assinado por Marcelo Mourão Motta Grossi e Rodrigo Augusto Lima de Medeiros, trata do Assédio Institucional e cerceamento no Ministério do Meio Ambiente no período entre 2019 e 2022. O problema que eles trazem é o seguinte: quais são os limites de atuação dos agentes públicos legitimados nas eleições de 2018 quanto às possibilidades de imposição de uma agenda política antiambiental dentro do órgão ambiental? Os autores mencionam que foram relatados 64 casos de assédio moral nos órgãos ambientais federais a partir de janeiro de 2019.

O tema tem relação direta com a chamada Reforma Administrativa prevista na Proposta de Emenda Constitucional 32, de 2020, cuja tramitação foi barrada pela mobilização do movimento sindical, mas pode a qualquer tempo ser apreciada na Câmara dos Deputados. Entre outras medidas, a proposta, se aprovada, irá ampliar as privatizações e terceirizações no serviço público, acabando com a estabilidade hoje garantida aos concursados.

A Folha de S. Paulo, em 8 de junho, publicou notícia intitulada “Número de servidores ambientais temporários explode sob Bolsonaro”, em https://bit.ly/3NBASM1, que aborda a precarização com dados: houve um salto de 564% no total de temporários nas autarquias ambientais (Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e Jardim  Botânico do Rio de Janeiro). O jornal informa que tentou contato com o Ministério do Meio Ambiente sobre o assunto, mas não obteve resposta, o que tem sido a prática comum na gestão de Jair Bolsonaro.

O desvendamento da relação entre Assédio Institucional e Reforma Administrativa nos órgãos ambientais das instâncias estaduais e municipais é uma pauta relevante para veículos e jornalistas dedicados à cobertura sobre meio ambiente. Para viabilizá-la, pode haver uma articulação combinada de veículos de diferentes estados. Parafraseando a juíza federal Cláudia Maria Dadico no final de seu artigo, é uma tarefa onerosa, mas não impossível.

*Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Maior homenagem que a imprensa pode prestar a Bruno Pereira e Dom Phillips é defender suas causas

Imagem: Reprodução do site do jornal britânico The Guardian

Por Sérgio Pereira*

A semana foi marcada pela confirmação dos assassinatos de Bruno Pereira e de Dom Phillips. A notícia virou manchete dos principais jornais do País e teve imediata repercussão internacional, principalmente pela morte do jornalista britânico, que escrevia para o The Guardian e já tinha colaborado com Washington Post, The New York Times e Financial Times. Ambos eram conhecidos pela dedicação na preservação da floresta amazônica e na defesa das causas indígenas. E por isso foram mortos.

Os órgãos de segurança conseguiram elucidar o desaparecimento das vítimas, até o momento já prenderam três acusados (dois admitiram o crime e um deles ajudou a encontrar os corpos) e apontam que mais prisões poderão ocorrer. Espera-se que muitas dúvidas sobre o duplo homicídio ainda sejam respondidas na investigação, inclusive o motivo, ponto ainda não esclarecido oficialmente, mas que está relacionado ao envolvimento dos dois na defesa das áreas indígenas do Vale do Javari.

O foco de nossa reflexão aqui, no entanto, não se fixa no trabalho policial, mas sim sobre a cobertura dedicada ao caso pela imprensa nacional. Caberá aos jornalistas, por exemplo, tentar elucidar um ponto importante que ainda está nebuloso e que não será respondido nas páginas do inquérito criminal: a razão da dispensa de Bruno Pereira da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio (Funai).

O servidor concursado da Funai foi tirado da função que ocupava no Vale do Javari em outubro de 2019 e depois removido para Brasília após comandar operações bem-sucedidas contra a pesca e o garimpo ilegais. Calcula-se que essas ações resultaram na destruição de mais de 50 balsas usadas por garimpeiros em terras indígenas. Como disse o repórter André Trigueiro em matéria do Jornal Nacional do dia 16 de junho, “o sucesso no combate aos criminosos, em vez de render uma promoção, lhe custou o cargo”.

Funcionários da Funai afirmaram à revista Carta Capital, em 9 de junho, que o desaparecimento do indigenista (quando ainda havia esperança de encontrar os dois com vida) poderia ter sido evitado se ele estivesse trabalhando com o apoio do aparato estatal. Os dois estavam sem seguranças quando foram mortos.

Sérgio Moro, ministro da Justiça na época, lavou as mãos e já disse não ter nada a ver com a exoneração. O ex-ministro da Justiça substituto Luiz Pontel de Souza precisa ser ouvido pela imprensa. É dele a assinatura na portaria que retirou o indigenista da função de coordenador-geral do setor de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai. Ele precisa dizer de quem foi a ordem para o afastamento de Pereira do cargo que ocupava na Funai do Vale do Javari.

O jornalista Carlos Madero, do portal UOL, revelou em postagem do dia 15 de junho que o indigenista foi exonerado 15 dias após uma megaoperação contra o garimpo ilegal no sudoeste do Amazonas. Conforme Madero, três dias após a operação, representantes dos garimpeiros foram recebidos em Brasília por integrantes do governo Bolsonaro, inclusive pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. O conteúdo da reunião não foi divulgado.

O Jornalismo Ambiental nos ensina que é preciso dar “ênfase na contextualização na tentativa de expor as relações entre causas e consequências, assim como das articulações dos diferentes campos sociais”, além de assumir o “comprometimento com a qualificação da informação, ou seja, preocupação em construir notícias que desvelem as conexões entre economia, política, cultura, ambiente, etc., que nem sempre são visíveis, e indiquem soluções, saídas” (GIRARDI; LOOSE; SILVA, 2018). Neste caso específico, não se trata apenas das mortes de Pereira e Phillips, mas toda uma política de desmonte dos órgãos de fiscalização na Amazônia e, por consequência, de endosso à destruição da floresta e à perseguição aos povos indígenas. Isso não pode ser esquecido em nenhum momento durante essa cobertura.

Outros dois pontos também merecem reflexão por parte dos principais veículos brasileiros. A primeira, é sobre como está sendo definida a pauta ambiental nas regiões mais distantes do País. A grande imprensa precisa ampliar suas frentes de reportagem, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste[1] [2] . É preciso sair da mera repetição sobre o aumento de hectares devastados e voltar a atenção sobre essas zonas de conflito, sobre quem patrocina e apoia essas invasões em áreas protegidas e como o Estado tem atuado para resolver o problema. A mídia hegemônica precisa fazer da luta de Pereira e Phillips a sua luta. Essa será a melhor homenagem que os jornalistas podem prestar não somente aos dois, mas a todas as vítimas dessa guerra deflagrada quase sempre longe dos olhos dos veículos de comunicação.

Conforme dados da Comissão Pastoral da Terra, somente nestes primeiros meses do ano já ocorreram 19 assassinatos no campo (Pereira e Phillips ainda não estão nesta estatística). Muitas dessas vítimas ficaram anônimas e suas trajetórias de luta não chegaram a ser contadas pela grande mídia[3] . Precisamos destacar aqui o trabalho da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que não apenas colaborou nas buscas como também deu apoio aos jornalistas que foram para a Amazônia cobrir o desaparecimento. Como também canais que deram visibilidade ao desaparecimento, como o Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato e a associação de servidores da Funai Indigenistas Associados.

Vale também lembrar a iniciativa do Rainforest Jornalism Fund, que possibilitou a ida de repórteres da Agência Pública até a região. Como também a cobertura de veículos como Amazônia Real e Mídia Índia, que contribuíram para esclarecer vários pontos, inclusive o episódio constrangedor protagonizado pela embaixada brasileira.

Por fim, um elogio para as capas de dois impressos brasileiros, Correio Braziliense e O Estado de Minas, por suas edições do dia 16 de junho. Os jornais fugiram do corriqueiro e buscaram atrair a atenção dos seus leitores para a importância da notícia nas suas primeiras páginas. Uma das finalidades do jornalismo é justamente essa, como nos lembra Reginato (2019): “Ajudar o leitor a entender seu tempo, orientando-o sobre como viver no mundo contemporâneo e como dar sentido ao tempo presente”. Tarefa que, por sinal, não será fácil no futuro: explicar para as próximas gerações esse período específico do Brasil.

Imagem: Reprodução parcial das capas de O Estado de Minas e Correio Braziliense

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

  • Referência

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho et al. Jornalismo ambiental: teoria e prática (livro eletrônico) – Dados eletrônicos. Porto Alegre: Metamorfose, 2018.

REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. Florianópolis: Insular, 2019.

Podcast da Rádio Novelo segue o rastro do dinheiro sujo dos poluidores

Imagem: Captura de tela – Repórter Giovana Girardi visitou o local do maior acidente em mina de carvão ocorrido no Brasil em 1984. Imagens gravadas no local estão disponíveis no site do podcast Tempo Quente: https://www.radionovelo.com.br/tempoquente/.

Roberto Villar Belmonte*

Quem ganha com a mudança do clima no Brasil? Esta é a pergunta que a repórter de ciência e meio ambiente Giovana Girardi começou a responder semana passada com Tempo Quente, novo podcast da Rádio Novelo composto por oito episódios que serão publicados semanalmente até 26 de julho. No primeiro, ela explica em quase uma hora de programa como o carvão mineral ainda queima por aqui.

Girardi, ex-Estadão, segue o rastro do dinheiro sujo, regra de ouro do jornalismo investigativo. O raciocínio é simples. As políticas que visam a transição do modelo de desenvolvimento predador para outro que leve em consideração as riquezas ambientais do Brasil não avançam porque a economia fóssil e do desmatamento dá dinheiro. Trocando em miúdos: tem gente que lucra com a mudança do clima.

Apesar de ser uma obviedade, o jornalismo patrocinado por grandes corporações empresariais nunca enfrenta o tema de frente. Essa parece ser a grande contribuição de Tempo Quente, um podcast jornalístico – realizado com recursos do Instituto Clima e Sociedade e Samambaia Filantropias – que deixa à mostra a raiz do problema exposta pela técnica do “siga o dinheiro”.

Alerta vermelho

Intrigada com o Programa para Uso Sustentável do Carvão Mineral lançado pelo Ministério de Minas e Energia em agosto do ano passado, Giovana Girardi destrincha no primeiro episódio de Tempo Quente o poderoso lobby do carvão instalado em Santa Catarina e com trânsito fácil em Brasília. A repórter entrevista fontes do setor, contextualizando e interpretando as informações para os ouvintes.

Nesta interpretação, Giovana Girardi se posiciona e assume seu lado. Segundo ela, imparcialidade jornalística não pode ser confundida com dar pesos iguais a coisas que não são iguais. “Se eu tenho uma pessoa dizendo que está chovendo e outra que diz que não está chovendo, o papel do jornalista não é dizer que essa história tem dois lados. O papel dele é abrir a janela e ver se está chovendo ou não.”

E foi o que ela fez, abriu a janela para mostrar aos ouvintes a indústria do carvão. Para isso foi até Santa Catarina conferir de perto uma mina considerada modelo em Treviso, no entorno de Criciúma; o Complexo Termoelétrico Jorge Lacerda em Capivari de Baixo; e as ruínas da mina Santana no município de Urussanga que explodiu em 1984 deixando 31 mineiros mortos e um rio amarelo de tanta contaminação.

Novo paradigma

A Rádio Novelo faz parte de um ecossistema midiático emergente que revigora a prática do jornalismo narrativo em áudio no país. Não seria exagero dizer que esta produtora criada em 2019 no Rio de Janeiro está ajudando a consolidar um novo paradigma com suas produções próprias e em parceria. Considero Praia dos Ossos a principal referência. Tempo Quente de Giovana Girardi inspira-se na mesma estética. 

Estes podcasts narrativos têm roteiros em primeira pessoa, narrador posicionado e presente no local dos acontecimentos gravando inclusive os bastidores da produção, o que ajuda o ouvinte a imaginar a cena descrita.  Outra característica importante é a qualidade da edição de áudio. Chama a atenção no expediente destas produções a enorme equipe envolvida nos projetos, de técnicos a consultores.

Tempo Quente teve a consultoria de Cristina Amorim e Claudio Angelo, dois experientes jornalistas ambientais brasileiros, assim como a própria Giovana Girardi responsável pela reportagem e apresentação do novo podcast da Rádio Novelo. Ela também assina o roteiro em parceria com Paula Scarpin e apoio de Bárbara Rubira, Flora Thomson-DeVeaux e Arnaldo Branco.

Amazônia invisível

Uma nova produção ambiental de jornalismo em áudio da Eder Content foi anunciada na semana passada. “Depois de 18 meses de trabalho, 86 entrevistas e 4 mil quilômetros rodados no sudoeste do Pará, a série de podcasts ‘Amazônia Invisível – Uma história real’ começa a ser transmitida no próximo dia 23 de junho pela plataforma da Storytel”, informou o jornalista Flávio Ilha, um dos integrantes da equipe. A conferir.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Prevenção de desastres: o que o jornalismo tem a ver com isso?

Print de mapa apresentado no telejornal local da TV Globo Nordeste em 25 de maio de 2022

Por Eloisa Beling Loose*

Desde a última semana estamos acompanhando a cobertura diária de meios de comunicação sobre as inundações e deslizamentos de terra que atingiram o Nordeste brasileiro, sobretudo a região metropolitana do Recife. A Folha de Pernambuco fez uma retrospectiva dos eventos trágicos e informou que esta foi a maior tragédia do século no estado. Mais de 120 vidas foram perdidas, a maioria delas vivia em áreas de risco e em situação de vulnerabilidade. Os impactos econômicos ainda estão sendo contabilizados, mas um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revela que, nos últimos seis meses, as cidades nordestinas afetadas por inundações e deslizamentos somaram mais de R$ 3,1 bilhões de prejuízos – e essa última semana de chuvas ainda não está na conta.

Já questionamos aqui neste Observatório o quanto é preciso que o jornalismo ultrapasse a cobertura factual e avance para o debate do contexto – e não apenas a partir das tragédias. Prevenção, de fato, deveria ser pauta antes dos avisos de um possível evento meteorológico ou hidrológico. Quando os fenômenos são iminentes, o tempo de ação é escasso e as mudanças estruturais já não são possíveis. Trabalha-se com o que é possível: a redução de danos.

O que verificamos, ano após ano, é que a prevenção é lembrada quase sempre no anúncio do desastre. Nesse ínterim, os alertas de chuvas fortes e de seus riscos costumam ser noticiados, sobretudos nos veículos locais. Há um chamamento para que a população saia das áreas mais afetadas para preservar a vida. Mas, isso é preparação antecipada ou somente uma estratégia paliativa para evitar os piores cenários?

É um equívoco entender que a prevenção de desastres se resume à emissão de alertas um pouco antes dos acontecimentos. O G1 destacou a fala de um especialista, que foi enfático: “Não adianta receber o alerta e não saber o que fazer”. Então, surge a reflexão: quem se comunica com essa população periodicamente? E de que forma? Quando ela é realmente ouvida? Qual é o espaço que o jornalismo dá para questionar planejamento urbano? E as políticas públicas de moradia? Quais são as condições reais para a defesa civil trabalhar no âmbito da prevenção?

Outro ponto a ser destacado nessa cobertura é a existência da associação do desastre com as mudanças climáticas. Repete-se que com o aumento médio das temperaturas eventos climáticos extremos como esse podem ser mais frequentes e mais intensos – o que reforçaria, em teoria, a aceleração de implementação de medidas de adaptação. Recife é a capital mais vulnerável às mudanças climáticas no Brasil e a 16ª cidade do mundo, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, o que foi noticiado no UOL, n’O Globo e em outros veículos. Mesmo assim, o enfrentamento aos riscos climáticos segue muito aquém do esperado.

Em matéria publicada no Observatório do Clima, assinala-se a vanguarda de Recife, já que, em 2019, ela se tornou a primeira capital brasileira a reconhecer o estado de emergência climática global e realizar um amplo diagnóstico dos riscos visando formas de adaptação. Então, os gestores públicos possuíam conhecimento sobre o que deveria ser feito, mas interesses de curto prazo, como as reeleições, acabam por ser priorizados em detrimento de projetos mais complexos, como a retirada de pessoas de áreas irregulares e sem a infraestrutura adequada.

A questão do financiamento também precisa ser visibilizada. Os recursos para prevenção de desastres são insuficientes – a Rede Brasil Atual relembrou que o Congresso em Foco divulgou redução de 45% dos recursos federais para combate a desastres. Ademais, a estruturação das defesas civis municipais, aquelas que atuam localmente na gestão de riscos e desastres, é bastante precária, conforme mostra levantamento nacional da própria Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil: a maioria delas não possui equipamentos básicos. Logo, não basta lamentar e chamar de fatalidade, aquilo que foi negligenciado no momento do planejamento anual.

Cabe ao jornalismo fiscalizar o poder público e permitir que a audiência conheça de que maneira nossos representantes estão compreendendo (ou não) a emergência climática e atuando para mitigar suas consequências. A prevenção deve ser uma pauta periódica, de modo que a colaborar com um novo entendimento de como devemos agir em tempos de intensificação de riscos e desastres.

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Ainda sobre esse o papel do jornalismo em casos de desastres, destacamos o papel pedagógico da imprensa quando há questionamento do público sobre medidas de precaução. Na segunda quinzena de maio, a mídia noticiou a chegada da Tempestade Yakecan no Rio Grande do Sul, alertando seus riscos e informando sobre medidas preventivas, como a antecipação do fim de expediente ou cancelamento de atividades. Felizmente, as piores previsões não se concretizaram, o que gerou uma (falsa) impressão da população que houve um alarde desnecessário. A jornalista Juliana Bublitz, de GZH, no dia seguinte, lembrou aos leitores que precisamos reconhecer a atuação dos gestores diante dessas previsões e aprender mais sobre a prevenção.

*Jornalista, doutora em Comunicação e em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A Cúpula da Terra e o Jornalismo: trinta anos depois

Fonte: Reprodução/Youtube Ecoagência


Cláudia Herte de Moraes *


Este ano de 2022 é histórico, pois se celebra os trinta anos da realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO- 92, ocorrida no Rio de Janeiro, com a presença de chefes de estado de 178 países, promovida pela Organização das Nações Unidas no centro de convenções Riocentro. Os eventos internacionais sobre meio ambiente são um importante foco para a realização de pautas em jornais do mundo inteiro. Há 50 anos, em Estocolmo, o Secretário-Geral do evento Maurice Strong utilizou a expressão ecodesenvolvimento pela primeira vez, na realização da primeira Cúpula sobre Meio Ambiente. Naquela data, foi instituído o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). No entanto, havia menor adesão mundial à temática e os próprios meios de comunicação não estavam tão desenvolvidos quanto ao acesso e à visibilidade. Por isso, somente em 1992 o tema teve maior projeção em nível global. Naquela última década do Século XX, a degradação ambiental já assustava, criando-se, desta forma, uma onda de debates em torno do termo “desenvolvimento sustentavel”, que surgiu poucos anos antes, pelo Relatório Brundtland.

Quando tratamos de meio ambiente na comunicação, o grande fluxo de jornalistas que acompanharam a Rio 92 é considerado um marco histórico para o acompanhamento das políticas ambientais pela imprensa. Assim como a preparação para o evento mobilizou movimentos sociais que ocuparam o Aterro do Flamengo no Fórum Global, também jornalistas que acompanhavam a temática se juntaram para a organização de Núcleos de Ecojornalistas pelo país. Neste contexto surge o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS) – um dos mais atuantes e ainda em atividade.

Para colaborar com as reflexões sobre avanços e recuos na perspectiva do jornalismo ambiental, e especialmente em relação à imprensa brasileira, o NEJ-RS promove uma Terça Ecológica especial. Na Semana do Meio Ambiente, com o tema “Os 30 anos da ECO 92”, o debate será no dia 31 de maio de 2022, às 19h. O evento terá convidados especiais, Francisco Milanez (biólogo, arquiteto e urbanista e diretor da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan) e Sebastião Pinheiro (engenheiro agrônomo e florestal), mediados pelas jornalistas Vera Damian e Débora Gallas. Acesse aqui a transmissão ao vivo.

Também na mesma linha, o NEJ-RS lança uma série de entrevistas com jornalistas brasileiros que fizeram a cobertura da ECO 92: Carlos Tautz, Regina Scharf e Roberto Villar Belmonte. Os vídeos estarão disponíveis no canal da EcoAgência no Youtube. A coordenação é de Vera Damian.

Nessas entrevistas, há visões amplas e contextualizadas sobre as dificuldades e conquistas do período. Carlos Tautz faz uma análise política dos aspectos do jornalismo e do período histórico tanto de 1992 quanto do Brasil dos dias atuais, discorrendo de forma crítica sobre o que ele chama de “giro geopolítico” que se avizinha. Neste cenário, ele acredita que o Brasil terá novamente papel relevante e necessidade de posicionamento, por consequência, afetando as pautas sobre meio ambiente. Regina Scharf conta a história da cobertura de 1992, de sua experiência profissional de jornalista e do impacto deste evento histórico, explicando ainda sobre seu Projeto Nova Mata, que busca mapear iniciativas de restauração ecológica e recursos como fornecedores de sementes e mudas de espécies nativas onde reside, nos Estados Unidos. Já Roberto Villar Belmonte lembra que sua estreia em grandes coberturas se deu naquele evento, pois era um foca (recém formado). A experiência marcou fortemente sua trajetória como repórter, jornalista e pesquisador. Falando da ECO 92 como acontecimento de máxima importância, em que foram discutidas as bases da mudança do mundo, tratando das temáticas que seriam negociadas mundialmente dali em diante, como sustentabilidade, biodiversidade, economia e mudanças climáticas.

Em trinta anos, mudou o Brasil e mudou o mundo. O Sexto Relatório do IPCC (2021-2022), por exemplo, fez um alerta vermelho sobre o caos climático que estamos já vivenciando e que se agrava, tanto mais se demora em modificar o modelo de sociedade baseado no consumo de bens, insustentável, além de um desenvolvimento que é, em verdade, promotor de desigualdades. Fizemos uma abordagem sobre o tema da justiça climática, debate ainda incipiente na cobertura (https://jornalismoemeioambiente.com/2021/08/16/as-mudancas-irreversiveis-no- clima-precisam-incluir-o-debate-sobre-a-justica-climatica/), bem como sobre como precisamos incluir reportagens sobre a opção inadiável de consumo consciente (https://jornalismoemeioambiente.com/2020/04/27/habitos-de-consumo-em-tempos- de-pandemia/).

Na comunicação e no jornalismo, houve aceleração que modifica inclusive a relação das pessoas quanto às informações recebidas. Entre os desafios, a checagem diária de informações falsas, inclusive oriundas de governos que promovem o desmonte de políticas ambientais. Algo ainda não resolvido, na imprensa tradicional, seria o fato de que “não conseguiu achar uma fórmula de fazer jornalismo ambiental livre de seus anunciantes”, como afirma Belmonte, na série do NEJ-RS. Sobre isso, também vale reler o texto sobre conteúdos patrocinados.

Coberturas que buscam trazer complexidade e pluralidade são necessárias e advogadas por aqui, em especial nas temáticas do clima , dos agrotóxicos, dos eventos extremos, do desmonte de políticas ambientais, na destruição dos territórios indígenas, entre outras.

Em três décadas certamente há avanços e inúmeros projetos sobre meio ambiente povoaram revistas, jornais, sites e organizações neste período. Um destaque atual é o jornalismo do InfoAmazônia . Outra vertente, une Literatura e jornalismo, em livros reportagem, também já citados neste Observatório . Bons exemplos de pautas aprofundadas demonstram possibilidades de um padrão jornalístico de ótima qualidade quanto à informação ambiental .

Neste contexto, a esperança decorre de que há mais e melhores ferramentas para o jornalismo exercer seu papel social, entre estas a própria formação especializada que traz melhor entendimento das pautas e indica aprofundamentos. Desta forma, o jornalismo tem condições de construir conhecimento relevante sobre a informação ambiental para a cidadania. Que fiquemos atentos, firmes e fortes, em apoio às pautas ambientais, pois não teremos mais trinta anos para pretender fazer as mudanças necessárias frente ao colapso climático.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Como o Jornalismo pode aperceber os públicos diante do desafio humanitário das mudanças climáticas

O Porto de Rio Grande é o alvo para a implantação das usinas de produção de H2V, segundo o governo gaúcho. Imagem: Reprodução de Portos RS

Eliege Fante*

A ordem do dia na agenda governamental e empresarial, seguida pela imprensa, é a descarbonização da economia. Acompanhar as ações e acordos entre esses dois setores, ouvindo as fontes que ocupam os cargos mais altos – na ilusão de garantir a precisão das informações – é a regra nas redações dos meios de comunicação que concentram audiências. Contudo, observa-se que essas informações veiculadas não têm apercebido os públicos diante do desafio humanitário de impedir o aumento de 1,5 ºC na temperatura média da atmosfera. A seguir, algumas reflexões após análise dessa cobertura pelos jornais de referência no Rio Grande do Sul (RS).

Não é novidade a crença no uso das tecnologias, em especial aquelas em desenvolvimento por pesquisas científicas, como uma das principais formas de responder às questões que a natureza “coloca”, dentro da visão de um ser humano apartado e senhor dela. Contudo, tem-se um problema quando o foco na descarbonização das atividades produtivas, responsáveis pelo excesso monumental de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, oblitera a relevância da mitigação e adaptação, para além das novas tecnologias, ou seja, desde a preservação e conservação da biodiversidade,incluindo-se os povos originários, as comunidades tradicionais e as populações locais, com os respectivos modos de viver, por sua vez, menos dependentes das pegadas coloniais ecológica e hídrica.

Por isso, entende-se que, este foco na descarbonização da economia é o que impede os jornais Correio do Povo e Zero Hora, de reportar a ameaça que representam os projetos de implantação de eólicas offshore na Lagoa dos Patos, devido aos impactos sobre a biodiversidade e as comunidades pesqueiras artesanais. Trata-se do último território onde ainda há pesca artesanal no estado, com importante percentual produtivo e 13.517 pescadores cadastrados. Essas informações constam em parecer técnico e podem ser obtidas com outras fontes oficiais, autoridades nas áreas científicas da Ecologia, Biologia e Humanas.

De fato, fontes econômicas e governamentais têm divulgado ações do Governo do RS sob o referido foco: assinatura de memorando para produção de hidrogênio verde (CP, 24/03/2022); diálogo sobre H2V com International Finance Corporation em Washington (CP, 09/03/2022); assinatura dememorando para produzir H2V (CP, 14/12/2021). Essas notícias retratam o avanço das negociações entre o governo Eduardo Leite (PSDB) e grandes empresas transnacionais visando descarbonizar a economia gaúcha e a dos países para os quais a produção desta tecnologia, ao ser exportada, poderá vir a contribuir (já que os estudos sobre o armazenamento deste vetor, pois hidrogênio não é combustível, ainda não são conclusivos). O hidrogênio “verde” ou H2V é assim chamado por ser produzido a partir de fontes energéticas renováveis, em especial, a geração eólica.

Na mesma linha, apenas com um maior número de notícias selecionadas** pelo buscador, o jornal Zero Hora exaltou os investimentos citados pelas fontes: “Produção de energia eólica offshore tem potencial de US$ 200 bi, diz ministro” (ZH, 18/05/2022); “Meio Ambiente vai à Dinamarca para ‘vender’ agenda verde do Brasil” (ZH, 03/04/2022); “Brasil terá papel fundamental na transição energética, diz vice-presidente do BEI” (ZH, 16/03/2022); “De energia a fertilizantes, porto de Rio Grande prospecta R$ 9 bilhões em investimentos” (ZH, 22/02/2022); “Projeto de hidrogênio verde do RS entra no radar de investidores europeus” (ZH, 01/02/2022). Ambos os jornais não se permitiram considerar os impactos das usinas eólicas onde já funcionam no RS, tampouco verificar se a Lagoa dos Patos é um curso de água que pode ser caracterizado como offshore, que significa em águas profundas. Levando em conta que a profundidade da Lagoa dos Patos média é de três metros e máxima de sete metros, será que a tecnologia das eólicas offshore, proveniente dos países do Norte global, pode ser transferida para o Rio Grande do Sul, na proposta do governo, tendo em vista que as eólicas offshore em águas rasas alcançam 30 metros de profundidade? As notícias citadas, baseadas em jornalismo declaratório, não difundem o que há de concreto: (1) que a tecnologia do H2V segue em estudo, (2) que há populações sob o risco de serem afetadas pelas eventuais eólicas “offshore” ou outro nome ajustado à profundidade da Lagoa dos Patos,(3) que a imprensa de referência, ao seguir a estatal gaúcha, divulgou a assinatura de apenas dois memorandos com empresas, sendo que eram 15 assinados de H2V, até 09 de fevereiro de 2022.

Quando os públicos da imprensa hegemônica virão a saber um pouco mais do que está em jogo no contexto das medidas de descarbonização da economia? Aspira-se que a resposta não seja “em breve”, assim como aquela do governo federal, (reconhecidamente pouco democrático) sobre a chamada para realizar pesquisas em combustíveis e H2V, em recente notícia veiculada (ZH, 20/05/2022).

* Eliege Fante é jornalista, pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação e associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS).

**Totais sobre as buscas nos sites dos jornais com a palavra-chave hidrogênio verde: CP, 13 notícias, sendo duas de 2022; ZH, 24 sendo 14 de 2022.

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Frio recorde é oportunidade para a mídia aprofundar as abordagens sobre as mudanças no clima

Manchetes ressaltam previsão de frio intenso, neve e chuva congelante.

Patrícia Kolling*

Nos sites e jornais, já no final da semana passada, se multiplicavam as notícias sobre a previsão de frio histórico para os próximos dias. As previsões já estão se concretizando e o frio chegando, e esta é uma excelente oportunidade para os meios jornalísticos trazerem à tona a pauta das mudanças climáticas. Os eventos extremos, apontados pelo IPCC como uma das características das mudanças no clima, estão se tornando rotina no Brasil e já atingem milhares de pessoas. Em janeiro e fevereiro foram as chuvas intensas nas regiões Sudeste e parte do Nordeste e a seca na região Sul, no ano passado os períodos de estiagem foram prolongados em regiões como Centro-Oeste e Amazonia e o frio foi intenso no Sul e Sudeste. Voltando ao frio desta semana, por enquanto, os enfoques das notícias têm permanecido no factual com informações sobre a temperatura e explicações sobre alguns fenômenos que devem acontecer.

Como o jornalismo necessita do factual e de fatos concretos para tratar de temas complexos como as mudanças no clima, esperamos que nesta oportunidade, a mídia consiga ir além das notícias acima, das fotos bonitas de geada e neve e do inusitado frio no Centro-Oeste e Norte. É necessário explicar a relação do fenômeno com o aumento da temperatura global, e a partir de um olhar holístico, trazer ao debate os impactos desses fenômenos na saúde das pessoas, na produção e no preço dos alimentos, no meio ambiente como um todo, alterando padrões de comportamento da fauna e flora, além dos impactos sociais de pessoas que não têm como se proteger do frio. O tema já foi abordado pelo Michel Misse Filho, algumas semanas atrás, neste observatório quando ele destacou que além dos dados de relatórios e projeções é necessário que os meios de comunicação tragam ao debate “o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas”.

Entre os “emaranhados” deste tema, estão as estreitas relações entre as mudanças no clima e o agronegócio. Ao mesmo tempo, que o agronegócio tem sido o responsável pelos principais índices de desmatamento e pela emissão de gases do efeito estufa, também tem sentido no bolso os prejuízos dos eventos extremos (secas prolongadas, frios e geadas fora de época, imprevisibilidade de temporais e ciclones) que afetam diretamente as lavouras e a criação de animais. Mexer nesses temas exige pesquisa, disposição e dedicação de repórteres e editores, mas sem dúvida, poderia render reportagens com consistência para que leitores e telespectadores pudessem entender o fenômeno a curto e longo prazo.

 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia

 

A normalização da impunidade na cobertura do desmatamento ilegal

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Janaína C. Capeletti

Uma nova ferramenta online, o Monitor da Fiscalização do Desmatamento, obteve ampla divulgação da imprensa, no início de maio. O levantamento permitiu constatar que cerca de 98% dos alertas de desmatamento registrados no Brasil desde janeiro de 2019 não foram alvos de fiscalização por órgãos do governo federal.

Esta notícia foi veiculada em grandes portais nacionais, como Uol, Estadão, Folha de S. Paulo, Yahoo e o Eco. As evidências apontadas pelo Monitor também tiveram repercussão internacional, especialmente por meio de uma replicação da matéria da AFP (Agence France-Presse) nos sites Le Figaro, Agência Nacional de Noticias de Bangladesh, RFI, MSN e Daily Sun.

O Monitor é desenvolvido pelo MapBiomas, uma iniciativa em rede formada por especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação. De acordo com dados da plataforma, as ações de fiscalização do governo aconteceram em apenas 13,1% da área total desmatada no período, o equivalente a 536 mil km². Para se ter uma ideia, os alertas não fiscalizados apontados pelo estudo representam 3 milhões de km². Para chegar ao índice da impunidade, o MapBiomas cruzou informações disponibilizadas por órgãos federais e estaduais sobre as autorizações de supressão da vegetação e ações empreendidas para combater o desmatamento ilegal. Ou seja, mobilizou dados públicos e de conhecimento do governo federal. Importante ressaltar que, para este primeiro levantamento, o Monitor encontrou informaçõesatualizadas e em formato adequado apenas para cinco estados (GO, MT, MG, PA e SP) além das disponibilizadas pelo governo federal.

Na matéria da AFP, o texto curto traz menos dados quantitativos sobre o levantamento, mas apresenta a relação do governo Bolsonaro com o desmatamento ilegal, bem como a sua ligação com o agronegócio.

A cobertura nacional, via de regra, seguiu um padrão uniforme: relatou os dados, apresentou a plataforma e seu funcionamento e ouviu os principais responsáveis pelo levantamento e pelo MapBiomas. O Estadão e a Folha de S. Paulo conversaram com representantes dos estados. Houve a tentativa por parte dos veículos de contato com o Ministério do Meio Ambiente, sem sucesso, como tem sido praxe na atual gestão federal. 

Pode-se dizer que a lição de casa foi cumprida -no sentido de mostrar o problema, ouvir as fontes oficiais e especialistas, informar com clareza. Contudo, mais uma vez vemos a cobertura dos veículos de forma burocrática em relação a uma informação relevante do ponto de vista da política ambiental assumida no Brasil. Nem o jornal O Eco, tradicionalmente dedicado às temáticas ambientais, conseguiu dar o tratamento que a pauta merece em razão de sua importância. 

As fontes ouvidas reforçam a crítica que o jornalismo ambiental faz às práticas do jornalismo “tradicional”, que privilegia especialistas e representantes governamentais em detrimento de outras vozes envolvidas no problema. Para que haja uma pressão da sociedade civil e não uma normalização da impunidade, promovida por números frios e sem contextualização, é preciso ouvir quem já sofre pela falta de fiscalização do desmatamento. 

Além disso, as matérias também poderiam apresentar um caminho sobre o que fazer com essas informações. Quais instâncias representativas podem ser acionadas diante da inação do governo? Quanto em arrecadação de multas e o que isso gera para o povo está sendo deixado de lado, por exemplo?

Ampliar o olhar, a partir de uma perspectiva sistêmica que apresenta o humano por trás dos dados, é desafiador: as redações cada vez mais enxutas e o tempo escasso para a produção jornalística são fatores relevantes. Entretanto, cabe ao jornalismo complexificar as pautas e desvelar relações, produzindo narrativas que permitam o engajamento da sociedade.

 

*Jornalista, mestranda em Comunicação na UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: janacapeletti@gmail.com

Terra Indígena Parakanã é invadida por caçadores e os indígenas da etnia awaeté recebem ameaças

Imagem: 60% da TI se situa no município de Novo Repartimento. Fonte: Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em 02/05/2022.

Por Ilza Maria Tourinho Girardi*

A cobertura da imprensa local e nacional mobilizada em torno do desaparecimento de três homens não indígenas em Novo Repartimento, município do Pará, desde 24 de abril, motiva a análise crítica que se apresenta a seguir. Em primeiro, destaca-se a importância da contextualização sobre o lugar, um território indígena ancestral parakanã, que segundo Wikipédia, teve uma vila implantada pela empresa que construiu a Rodovia Transamazônica e, após, uma nova mudança no território com a inundação pelas águas da barragem da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Por isso, de um lado, o povo parakanã foi removido de suas áreas originais e circunscrito na Terra Indígena Parakanã, homologada em 1991, com 352 mil hectares e, de outro lado, o povo não indígena ficou alocado no município criado também em 1991, Novo Repartimento. Por fim, merece ser destacado ainda, que em 16 de abril, o Ministério Público Federal, o MPF, ouviu de lideranças parakanã o pedido de concretizar a desintrusão (retirada de não indígenas de uma terra indígena) de madeireiros e garimpeiros das suas áreas, conforme a lei vigente.

A circulação de não indígenas é frequente no território do povo parakanã apesar da sinalização, da lei vigente e dos apelos dos próprios indígenas com o apoio de entidades indigenistas. E, no domingo 24 de abril, ganhou repercussão o desaparecimento de três caçadores que entraram sem ser convidados na Terra Parakanã, no Pará. Importa saber que não foram convidados porque os habitantes não tinham ciência da presença desses homens nas suas áreas, o que só aconteceu após os indígenas receberem diversas ameaças e acusações de envolvimento com o desaparecimento e/ou a morte deles. 

Em geral, as notícias informaram que, familiares de Cosmo Ribeiro de Sousa, William Santos Câmara e José Luiz da Silva Teixeira fecharam um trecho da BR-230 Transamazônica por três dias exigindo que as autoridades entrassem na terra indígena para realizar as buscas. Após a autorização da Justiça, a rodovia foi liberada na noite de quinta-feira (28). O Ministério Público Federal pediu a instauração de inquérito pela Polícia Federal. Desde quinta-feira (28), após autorização da Justiça, mais de 150 agentes das polícias Federal e Militar, Polícia Rodoviária Federal, Força Nacional e Corpo de Bombeiros saíram em busca dos três homens. A notícia foi repercutida em vários órgãos da imprensa. Para esta análise, foram selecionadas algumas que apresentam pistas sobre como produção das matérias foi conduzida.

Com a chamada “Três caçadores estão desaparecidos na Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento no sudoeste do Pará” o Jornal Liberal 2ª edição, de 26 de abril, relata a ocorrência e informa que o Ministério Público Federal acompanha as buscas e está em contato com a FUNAI, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Federal para evitar qualquer tipo de conflito entre os indígenas e os não indígenas. Informa ainda, mostrando as imagens, que os familiares fecharam um trecho da Transamazônica e o clima ficou um pouco tenso. A repórter relata que, conforme o Ministério Público Federal, moradores armados teriam ido até o local onde os caçadores sumiram e acusaram indígenas pelo desaparecimento dos três homens. Esclarece que segundo o Ministério Público Federal os indígenas apoiam as investigações.

No Jornal Hoje, da emissora Globo, de 30 de abril, o apresentador relata que a Polícia Federal encontrou três corpos na terra indígena Parakanã, no Pará, e que segundo as autoridades ainda não foi possível identificar os mortos.

A notícia do G1 “Autoridades federais fazem buscas a caçadores desaparecidos na Terra Indígena Parakanã, no PA”, acrescenta que a “área da reserva Parakanã tem tamanho equivalente a 350 mil campos de futebol e abriga cerca de 23 aldeias, com uma população de 1,5 mil indígenas”.

Veiculada no Portal Terra, em 28 de abril, a notícia “Caçadores desaparecem em terra indígena; clima é de tensão no sudoeste do Pará”, informa que três homens invadiram a terra indígena para caçar em Novo Repartimento. De acordo com a matéria “Moradores da região acusam indígenas pelo sumiço dos caçadores e falam em retaliação. Um grupo teria invadido uma escola indígena e agredido estudantesda aldeia”. Os indígenas, da etnia awaeté, passaram a receber ameaças diretamente e por meio de redes sociais. Esta notícia cita como fonte o Ministério Público Federal (MPF) do Pará, segundo o qual moradores da região entraram armados na reserva para ameaçar os indígenas. A indígena TaranaParakanã, estudante de Letras, contou que não indígenas invadiram a escola, no Posto Taxakoakwera, agrediram estudantes e, alguns portavam armas.

Conforme a mesma matéria, outra fonte citada através de nota, professores do Instituto Federal Rural do Pará, ao qual a escola é vinculada, cobraram uma ação enérgica das autoridades nas buscas pelos caçadores desaparecidos e denunciaram que os indígenas estão sendo alvo de preconceitos, já que não há nenhum indício de que tenham responsabilidade pelo desaparecimento deles. “O branco está invadindo as nossas terras e ameaçando o meu povo de morte”, disse, em vídeo, o cacique da aldeia Parano’wa, Xeteria Parakanã.

Ainda de acordo com a matéria, o MPF informou que está em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Polícia Federal e a Polícia Militar do Estado para as buscas aos desaparecidos e a proteção da comunidade indígena. A PF e a PM confirmaram o envio de efetivo para prestar apoio e minimizar a possibilidade de ocorrência de um conflito. A Funai informou que um grupo de mediação de conflitos acompanha a situação que, no momento, é tranquila. A entrada de pessoas estranhas ao grupo é proibida em terras indígenas, segundo lei federal de 1973. A TI Parakanã, com 352 mil hectares, possui 24 aldeias, onde vivem 1,4 mil indígenas, e está a cerca de 30 km da área urbana de Novo Repartimento. Devido ao contato recente com o homem branco, há menos de quatro décadas, os awaetés não dominam bem a língua portuguesa.

Contextualização importante, faz esta matéria ao recordar que em 25 de dezembro de 2013, cerca de 3 mil moradores de Humaitá, no sul do Amazonas, atearam fogo em prédios da Funai e postos de saúde indígena em protesto contra o desaparecimento de três homens na Transamazônica, quando cruzaram de carro a Terra Indígena Tenharim.  Os revoltosos responsabilizavam os índios pelos desaparecimentos, que seriam por vingança. Três dias antes, um cacique Tenharim tinha sido encontrado morto na Transamazônica. Carros, ambulâncias e até um barco que atendia as populações indígenas também foram incendiados. Ameaçados de linchamento, os indígenas que moravam na cidade se refugiaram no Batalhão do Exército. Os corpos dos desaparecidos foram achados no dia 3 de fevereiro, em uma vala, no interior da reserva. Cinco tenharins foram presos, acusados pelas mortes. Em novembro de 2015, eles foram colocados em liberdade condicional e ainda esperam julgamento.

A notícia publicada em 30 de abril no Correio de Carajás, além de outras informações acrescenta que o juiz federal Heitor Moura Gomes, da Subseção Judiciária de Tucuruí, assinou ordem de busca e apreensão na área da Reserva Indígena Parakanã, em Novo Repartimento, para localizar os três homens. Além de determinar a desobstrução do trecho interditado da BR-230 (Transamazônica), que foi ocupada um dia depois do desaparecimento, se estendia a toda a área de 325 mil ha da Reserva Parakanã, composta pelas aldeias Paranatinga, O’Ayga, Paranowaona, Itaoenawa, Itaygara, Paranoawe, Paranoita, Paranoa, Maroxewara, Inaxyganga, Itapeyga, Paranoema, Itaygo’a,Inatarona, Xaraira, Xataopawa, Parano’ona e Arawayaga.

No dia 27 de abril o portal Amazônia Real publica a matéria “Sumiço de caçadores faz população se revoltar contra os Parakanã”, com informações detalhadas. Relata a agressão sofrida pelos alunos dos Cursos de Agroecologia e Magistério Indígena do Campus Rural de Marabá do IFPA, por volta de 13h15min, deflagrada por familiares dos desaparecidos. O ocorrido resultou numa nota conjunta assinada por professores e pela coordenação do Curso de Magistério Indígena (IFPA/CRMB). Conforme a nota os indígenas receberam os familiares dos homens desaparecidos, que ao solicitarem ajuda nas buscas por seus filhos, foram atendidos pelos indígenas. A reunião estava se encaminhando bem até que um sargento da Polícia Militar de Novo Repartimento disse ter recebido informações de um desaparecimento seguido de cárcere privado. Mas, um professor, segundo a nota, se manifestou sobre a informação que tinham de dentro do território: “O senhor ou seu informante não estariam equivocados? Aqui até o momento não houve ‘cárcere privado’.”

No mesmo dia (27/04), a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a APIB, publicou a matéria “Povo Awaeté da T.I. Parakanã sofre ameaças após sumiço de caçadores em suas terras”. O texto faz um relato detalhado da reunião das duas mães e um pai dos caçadores desaparecidos com as lideranças indígenas, a mesma referida na notícia que destacamos acima. Porém, mostra a escuta entre as partes, como através do pedido de desculpas do sargento da Polícia Militar ao ter a situação esclarecida diante das informações que trouxe sobre “cárcere privado”. A nota da APIB segue problematizando a cobertura da imprensa:

“Por que tanta desinformação? O que justificaria a construção tão rápida de argumentos incondizentes com o ocorrido? Por que tamanho ódio aos indígenas? Por que uma mídia local reproduziria a narrativa do ‘cárcere privado’ no dia seguinte? Qual o interesse dos agentes políticos e econômicos da região nesta nova fricção com os indígenas Awaeté?”

A nota esclarece que os Awaeté-Parakana têm contato recente, em torno de 40 anos, com os não indígenas. Poucos falam português e outros estão estudando a língua; tomamos como óbvia esta necessidade, e acrescentamos a igual reflexão sobre se os não indígenas da região estão fazendo o mesmo esforço de aprender uma língua diferente.

“Vivem ainda sob as sequelas do deslocamento compulsório da Eletronorte para a Construção da Hidroelétrica de Tucuruí e de uma Tutela traumática do Programa Parakanã,” consta no Relato. Hoje algumas aldeias estão sitiadas por não indígenas hostis aos Awaeté.

“Áudios com ameaça à vida dos indígenas começam a circular. Um clima de insegurança e ameaças vêm aumentando e preocupando os Awaeté e seus parceiros institucionais, como os/as professores/as dos cursos de Magistério Indígena e Agroecologia. Esse episódio expõe a cobiça pelo fragmento de território Awaeté que compõe a T.I Parakanã, as ressalvas em relação aos Awaetépelos colonos da frente de expansão, a visão dos regionais sobre os Awaeté como atrasadores do desenvolvimento local ou como um grupo privilegiado com um programa da Eletronorte. Enfim, a carga de preconceitos e etnocentrismo vêm alcançando os desdobramentos nos corpos indígenas. Basta! Cobramos de todas as autoridades responsáveis a máxima proteção para os Awaeténeste momento.”

Como se observa as notícias mais completas foram as publicadas no Portal Terra, Amazônia Real e no site da APIB. Sendo que um dos principais aspectos, é a escuta de fontes indígenas, as quais ainda buscavam tomar pé dos acontecimentos em seu próprio território. As demais apresentam um viés quase acusatório aos indígenas e sequer apresentam um histórico dos conflitos na região provocados pelas invasões dos não indígenas às terras indígenas. É importante lembrar que as matérias não mencionaram que é crime caçar no Brasil, conforme a Lei 5197/67, de 3 de janeiro de 1967 e se fixaram na suspeita de que os indígenas seriam os autores dos crimes.

Caso o Jornal Liberal 2ª Edição tivesse consultado a matéria publicada na mesma emissora em 3 de agosto de 2018, com a duração de três minutos, teria tido mais argumentos para mostrar a situação da Terra Indígena que há anos sofre com invasões. Na época lideranças indígenas bloquearam um trecho da Transamazônica, notrecho Altamira – Belo Monte exigindo a retirada de madeireiros, fazendeiros e garimpeiros que invadiram a área, que é uma das mais desmatadas. A situação se agravou nos últimos anos com a grilagem. A reportagem, bem completa e informativa, se utiliza de dados do Instituto Socioambiental. A própria repórter diz que o processo de retirada de invasores não foi concluído. Isso demonstra o descaso do Governo Federal com a situação dos povos indígenas que são constantemente ameaçados no Brasil.

O jornalismo tem o compromisso com a verdade e com a cidadania, logo não deve contentar-se com informações superficiais, incompletas ainda mais quando se trata de tema tão grave que é a situação dos povos indígenas no Brasil que sofrem ataques constantes. Maior a responsabilidade num país onde o próprio Presidente da República não tem nenhum pudor ao expressar desconhecimento em relação aos povos indígenas, chegando ao ponto de conceder-se uma medalha de mérito indígena. Contextualizar e ouvir as fontes é um dever do jornalismo. Caso contrário, corre-se o risco de reforçar discursos racistas e excludentes que atendem interesses econômicos escusos. 

O jornalismo ambiental nos ensina que é necessário ampliar o olhar e incorporar a ética do cuidado no seu fazer buscando contribuir com a mudança do pensamento no sentido de alcançar o apaziguamento na nossa relação com a natureza e os demais seres.

Fritjof Capra, em 1982, no livro O ponto de mutação faz um alerta que nos ajuda a entender melhor esse novo olhar: “os jornalistas deverão mudar, e seu modo de pensar, fragmentário, deverá tornar-se holístico, desenvolvendo uma ética profissional baseada na consciência social e ecológica.” (CAPRA,1982, p.400)

 

Referência:

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo:1982, p.400

 

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada da UFRGS, professora convidada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, FABICO/UFRGS. Doutora em Ciência da Comunicação, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

A reportagem a pé sobre meio ambiente

Imagem: capa do livro no site da Blooks Livraria

Por Míriam Santini de Abreu*

O livro “Andar a Pé – Uma Obrigação Profissional” (Ibis Libris, 2021), coletânea de reportagens do jornalista Rogério Daflon, é alimento saboroso para quem trabalha com a pauta ambiental e concretiza, na prática profissional, a máxima de que lugar de jornalista é na rua. A obra, lançada em dezembro passado, reúne 45 textos de Daflon publicados em diferentes veículos, agrupando-os em cinco eixos temáticos: Moradia, Meio Ambiente, Uso e ocupação do solo e do espaço público, Obras e equipamentos públicos e Patrimônio arquitetônico e cultural. A iniciativa se viabilizou graças a uma vaquinha virtual realizada após a morte do jornalista, nove dias depois de ser atropelado por um motociclista no Rio de Janeiro em 2019.

Dos sete textos do eixo temático Meio Ambiente, três compõem a série “Desleixo Insustentável” (jornal O Globo, março de 2012) e uma a série “Os Rios do Rio” (jornal O Globo, 2012). A última, de junho de 2019, é a entrevista derradeira de Daflon, para O Eco, abordando os impactos que o projeto – posteriormente retirado – de um autódromo provocaria na Floresta do Camboatá, remanescente de Mata Atlântica na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro.

Os textos trazem a marca do repórter que baixou ao chão, como nas entrevistas com moradores das margens de rios apodrecidos por esgoto para a série “Os Rios do Rio”. O “método Daflon”, conforme definem os colegas de trabalho em testemunhos publicados no livro, evoca os escritos de Anton Tchékhov reunidos em “Um bom par de sapatos e um caderno de anotações: como fazer uma reportagem” (Martins Fontes, 2007), com impressões e conselhos do contista russo que, em 1890, aos 30 anos, percorreu 12 mil quilômetros para conhecer a vida de deportados na Ilha de Sacarina. Uma extravagância, disse-lhe seu editor. Ele foi assim mesmo.

Destacam-se, no eixo Uso e ocupação do solo e do espaço público, três reportagens. Em “Roubaram a praia do Vidigal” (Agência Pública, 2017), Daflon mostra como o Sheraton Grand Rio Hotel & Resort, no Leblon, se apossou do acesso à praia, restando aos moradores subir e descer uma escadaria de 141 degraus. Na reportagem “Os prédios que violaram o ‘skyline’ do Rio” (Agência Pública, 2017), o jornalista relata o processo de ocupação céu acima da capital fluminense. “Rogério trouxe a brilhante ideia de consideramos o skyline como um espaço público, tão passível de ser gozado pelos cidadãos como uma praça ou a própria praia (…)”, escreve a jornalista Natalia Viana, da Agência Pública, na abertura do conjunto de textos.

Para as matérias, Daflon trazia a vida cotidiana, a singularidade do espaço geográfico e também o conhecimento acumulado na academia ao entrevistar professores e pesquisadores. Ele mesmo era um, tendo concluído mestrado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da UFRJ com dissertação intitulada “Ribeirinhos urbanos: uma vida à margem do direito à moradia”. Em matéria para a Casa Fluminense (2014) sobre o conjunto habitacional popular Cruzada São Sebastião, no Leblon, menciona que passou os olhos por cerca de 100 reportagens sobre o lugar antes de passar alguns dias lá para produzir seu próprio texto.

Por fim, cita-se a reportagem “Condomínio Laranjeiras: segregação, ameaça e processos em Paraty” (Agência Pública, 2017), que expõe a forma pela qual um empreendimento privado para milionários se apossou, nos anos 1970, de parte do que viria a ser o Parque Nacional da Serra da Bocaina. A reportagem traz à memória outra, “Histórias de uma aldeia visitada pelo medo”, feita pelo jornalista Marcos Faerman sobre o mesmo fato e publicada originalmente no Jornal da Tarde em abril de 1974, sendo depois selecionada para a coletânea “Com as mãos sujas de sangue”, podendo ser lida em https://bit.ly/3jY1vxZ (a partir da página 115 do livro). Com intervalo de quatro décadas, Faerman e Daflon revelam o início e a consolidação do assalto imobiliário do litoral brasileiro tendo como epicentro as cobiçadas praias fluminenses. E em ambos aparecem também os que continuamente lutam para não serem acossados do espaço pelos que perseguem apenas o lucro.

Por isso, o olhar do jornalista que anda nas ruas e se apropria da plenitude do espaço geográfico e das vozes que vêm de suas profundezas, dando-lhes audibilidade e visibilidade, é efetivamente inovador da linguagem, portanto revolucionário.

* Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo