Dia Mundial do Meio Ambiente: por pautas menos catastrofistas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site da Revista Galileu
*Eloisa Beling Loose

Dentre as muitas efemérides que servem de gancho para a produção jornalística, no dia 5 de junho temos uma dedicada ao meio ambiente. O Dia Mundial do Meio Ambiente foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, e busca chamar a atenção para a importância da sustentabilidade da vida de todas as espécies – inclusive a nossa – no planeta.

O assunto está mais presente na pauta em razão do volume de problemas ambientais que nos cercam (poluição de ar e água, desmatamento, contaminação por agrotóxicos, rompimento de barragens de rejeitos de mineração, flexibilização das políticas ambientais, extinção de espécies, etc.) e seu tratamento jornalístico costuma ser desolador. O destaque em aspectos negativos tende a gerar uma percepção de que não há mais saídas.

Na última semana, a data foi lembrada por muitos veículos jornalísticos e a “fórmula do choque”, tentando despertar as pessoas sobre o cenário pessimista no qual nos encontramos, foi repetida inúmeras vezes. A matéria publicada no site da Revista Galileu, Mudanças climáticas podem acabar com a civilização até 2050, diz estudo, por exemplo, celebra o dia 5 de junho lembrando que estamos a caminho da extinção da espécie humana. A partir de um relatório do Centro Nacional de Descoberta do Clima da Austrália, o texto indica que as mudanças climáticas podem colapsar a nossa civilização até 2050, tornando o mundo um caos, em razão das condições cada vez mais adversas decorrentes das consequências climáticas.

A notícia da Galileu aponta também o que deveria ser feito. Segundo o documento que é sua única fonte: é necessário alterar a matriz produtiva mundial para que ela seja de zero carbono e pensar mais no planejamento para lidar com cenários extremos. É claro que isso envolve um alto investimento de recursos e um empenho coletivo dos países em priorizar a vida (e não só daqueles que podem pagar por isso). Esse esforço, até hoje, apesar das muitas evidências, não tem sido realmente efetivo, porém a matéria da Galileu não oferece ao leitor uma discussão das tentativas e explicações do porquê isso ainda acontece.

O Acordo de Paris, compromisso negociado por 195 países, em 2015, e que entrará em vigor somente no próximo ano, pretende manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais. Os esforços, porém, são para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. A grande questão é que, como explicita o texto, os piores cenários tendem a ser subestimados. E qual a razão de se achar que não há urgência em uma mudança radical nos nossos modos de vida?

Ainda que os relatos jornalísticos sejam sempre recortes da realidade, percebe-se uma recorrência de notícias com fonte única e quase nenhuma contextualização. Além disso, a ênfase nos aspectos mais catastrofistas inibe o foco para a ação, para aquilo que devemos fazer hoje. Soluções de escala global são bem-vindas, mas o enfrentamento deve ocorrer em todas as esferas. Considerando todos os efeitos que já sentimos na pele e as previsões dos cientistas, adotar comportamentos e práticas diárias associadas às baixas emissões de gases de efeito estufa é um imperativo.

Quando a imprensa trata do futuro como algo que, em breve, deixará de existir, está sendo contraproducente, pois repercute a ideia de que não há muita coisa a ser feita. Ao entender o jornalismo como uma prática profissional comprometida com o interesse público, seu papel é justamente dar visibilidade às ações e projetos que estão trabalhando em prol de caminhos que garantam o cuidado com o meio ambiente, indispensável para nossa sobrevivência. Que o Dia Mundial do Meio Ambiente possa ser comemorado com enfrentamento e que, em breve, não seja preciso ter uma data para nos lembrar o óbvio: não podemos destruir o ambiente do qual dependemos para viver.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
Anúncios

O jornalismo e as questões culturais indígenas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

Nesta observação olharei para dois textos que se relacionam. Um deles publicado no G1, na semana passada, Índios usam tablets, celulares e drones para monitorar castanhais e mapear áreas de coleta em MT e o outro publicado no El País, Por que os indígenas são a chave para proteger a biodiversidade planetária . Este último tem como base um relatório da ONU que destaca que nas terras habitadas pelos povos originários o desaparecimento de espécies é mais lento que no resto do mundo.

Ambos trazem à tona a reflexão sobre a relação dos indígenas com o meio ambiente e as áreas onde vivem. Pelos indígenas, a terra, a floresta, os animais, e outros recursos naturais não são explorados intensiva e ininterruptamente até a sua exaustão. Como diz a especialista do Instituto Socioambiental, Nurit Bensusan, no El País, por conhecerem intimamente a floresta, com rapidez eles identificam impactos que podem estar atingindo-a e mudam de atitudes, por exemplo, deixam de caçar em determinada área se ela está de alguma forma sendo afetada. O objetivo maior, então, não é a exploração econômica até a exaustão da área, mas, a manutenção harmoniosa da relação com a fauna, flora, rios e terras para as atuais e futuras gerações. A matéria do G1 demonstra esse aspecto, falando da coleta das castanhas, que garante subsistência sem a necessidade de derrubar a floresta.

Porém, dificilmente o jornalismo consegue olhar para essas questões sob a perspectiva da cultura indígena, em que os aspectos econômicos não aparecem em primeiro lugar. Já no subtítulo do texto, o jornalista do G1 ressalta que os castanhais são fonte de renda para os indígenas. Durante o texto o jornalista também evidencia outros aspectos relacionados a comercialização do produto, como a obtenção do Selo Nacional de Agricultura Familiar Indígena, garantindo credibilidade ao produto e rentabilidade, o preço da comercialização da castanha e a quantidade coletada.

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site El País

Outro aspecto que nos chama atenção nos dois textos, e que é frequente nos materiais jornalísticos, é a não valorização das fontes indígenas. No texto do G1, quem fala são os técnicos do projeto do Projeto Pacto nas Águas. No texto do El País são os especialistas do ISA, Funai e Greenpeace. O dirigente indígena Dinamam Tuxá somente é chamado a falar sobre questões políticas.

A matéria do G1 ressalta, porém, a integração do uso de novas tecnologias aos conhecimentos tradicionais, desmistificando a ideia de que ao terem acesso a celulares, computadores e drones eles deixariam de ser indígenas. É necessário ter presente que, como a nossa, as culturas indígenas não são estáticas. Elas mudam ao longo do tempo e incorporam muitas das inovações utilizadas por grupos sociais diferenciados. Além disso, mesmo se relacionando com os não-índios, os povos indígenas mantêm suas identidades e se afirmam como grupos étnicos diferenciados, portadores de tradições próprias. A identidade étnica, ou seja, a consciência de pertencimento a um determinado povo, não se apaga com uso da tecnologia, mas pelo contrário se fortalece no jogo complexo entre o “tradicional” e o “novo”, o “próprio” e o “estrangeiro”.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

O problema do distanciamento do leitor ao tratar sobre mudanças climáticas

campo gelo patagonia

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Em uma curta matéria, a jornalista Natalia A. Ramos Miranda escreve para a Agência Reuters sobre o rompimento de um campo de gelo de 12 mil quilômetros quadrados na Patagônia chilena. O G1 publicou a notícia no dia 24 de maio.

Trazendo uma entrevista com o diretor da Divisão de Neve e Geleiras na DGA (autoridade de Águas do Chile), Gino Casassa, a notícia é dada por um viés científico, mas não aprofundado. A causa do aumento de temperaturas na Cordilheira dos Andes não é mencionada e os impactos do rompimento desses blocos de gelo muito menos. Temos então dois problemas, um jornalismo que não se preocupa em aproximar o leitor do tema e que não fala diretamente da responsabilidade humana nas mudanças climáticas.

A influência humana no clima é clara, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês). A matéria poderia citar dados que apontassem nessa direção, por exemplo de que entre os cientistas do IPCC existe a confiança de 95% de que as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) resultantes das atividades humanas foram responsáveis por mais de metade da elevação média da temperatura registrada entre 1951 e 2010. Esses dados foram apresentados no quinto relatório do Painel, de 2014, que foi formulado diretamente por 259 autores de 39 países que avaliaram mais de 9200 estudos sobre o tema.

Mudanças climáticas sempre existiram. O planeta se aquece e resfria. Se não deixarmos claro que a ação humana influencia nas mudanças climáticas e os problemas que isso causa no planeta, uma visão negacionista do aquecimento global pode ser facilmente alcançada pelo leitor. Na matéria no G1 há alguns comentários nesse sentido. Para combater essa visão é necessário contextualizar as informações. As pesquisadoras Julia B. Corbett e Jessica L. Durfee publicaram em 2004 um estudo sobre a representação da mídia do aquecimento global. Segundo elas, quanto maior for a contextualização das afirmações sobre ciência climática, menor vai ser a incerteza sobre o assunto e sua importância. Quanto menor a incerteza, maior a capacidade de se fazer algo sobre.

E agora entramos no outro problema. Tratamos as mudanças climáticas como algo distante, sem impacto direto nas nossas vidas. Entretanto, o relatório do IPCC mencionado anteriormente prevê uma frequência maior de eventos extremos climáticos (tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis) com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais. Também aponta que o aumento da temperatura média do planeta tem elevado o nível do mar devido ao derretimento de calotas polares e desses campos de gelo e que isso pode causar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas.

Ao tratar somente do fato do campo de gelo ter se rompido, a matéria se distancia da realidade do leitor. Este não é motivado a pensar a fundo sobre as mudanças climáticas e a agir a respeito. A falta de contexto, a falta de ligação com o leitor os deixa só com uma pergunta na mente: mas e daí?

Um jornalismo consciente e ambiental motiva a reflexão do leitor sobre o tema tratado. Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Eloisa Beling Loose tratou sobre como o jornalismo local noticia as mudanças climáticas. Segundo ela, “a conexão do local com o global é fundamental para se pensar em outras atitudes e o jornalismo, como campo de excelência de medição e legitimação de discursos, precisa estar atento às formas com que dissemina a questão”. Para gerar a reflexão pretendida pelo jornalista, a notícia precisa estar contextualizada, é necessário mergulhar na realidade do leitor e mostrar porque o aquecimento global é importante.

Referências:

CORBETT, C. Julia; DURFEE, Jessica L. Testing public (un)certainty of science media representantions of global warming, Science Communication, v.26, n.2, 2004. p.129-151.

LOOSE, Eloisa B. Riscos climáticos no circuito da notícia local: percepção, comunicação e governança. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento). Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná, 2016.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Desafios à moda sustentável

Reportagem Época

Imagem: Captura de tela – Reportagem publicada no site da Época Negócios
Por Eutalita Bezerra*

Há alguns dias vivemos a semana Fashion Revolution. Porto Alegre, por exemplo, sediou diversas atividades alusivas ao evento cuja pauta propunha um olhar reflexivo sobre a cadeia da moda, uma das mais poluentes do mundo e que cresce exponencialmente. Época Negócios afirma em reportagem publicada no último dia 13 de maio que, hoje, a indústria da moda deixa a desejar em investimentos quando o assunto é sustentabilidade. Isto vai na contramão do que se apregoava nas discussões recentes – inclusive ao que ela mesma noticiava dois meses antes, conforme retomaremos.

Apontando como justificativa a falta de esforço conjunto dos players do mercado, Época apresenta um novo relatório publicado por consultorias internacionais que verificaram metas de sustentabilidade das labels de moda e sua efetiva aplicação, atestando que a indústria havia subido dois pontos a menos que o ano anterior neste quesito.

Época descreve o cenário catástrófico que pode se confirmar em pouco mais de 20 anos caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas por essas empresas, visto que a indústria da moda gera mais destes poluentes que todos os voos internacionais e cargas marítimas juntos. Para a mitigação, sugere, por parte das empresas, a implementação de soluções de maneira ampla e rápida. Do poder público, a criação de regras mais rígidas. Às mídias, que se mantenham atentas aos problemas do setor. Aos investidores, que apoiem marcas dedicadas à causa. E recorre, ainda, ao consumidor, propondo que este pressione as marcas que consomem, considerando que as empresas se preocupam com a sustentabilidade à medida que são demandadas pelos clientes.

A esta gama de soluções apresentadas e ao caminho possível trazido por Época, entendemos tratar-se de um olhar amplo e apurado, como propõem os preceitos do jornalismo ambiental. Além de trazer diversos vieses sobre a questão, que esclarecem desde as causas até as suas consequências, a reportagem é rica em números e em exemplos que aproximam a leitura do consumidor, afinal, a vestimenta é um dos poucos itens de consumo que é comum a tantas sociedades.

Para um enriquecimento da abordagem, e então retomamos o que foi pontuado no início, sobre a longa reportagem feita dois meses antes na mesma revista, se poderia ter ouvido outras fontes que não apenas um dos coautores do relatório. O que dizem outros interessados no assunto? As empresas concordam que têm investido menos?  O que as fez tomar passos para trás nesse caminho considerando que, conforme outros relatórios trazidos também por Época, cada vez mais o consumidor exige uma postura economicamente sustentável dessas empresas? Sobraram questões e faltaram respostas.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Por que o jornalismo deve se posicionar diante da ameaça à vegetação nativa no Brasil

print valor

Imagem: Captura de tela – Reportagem de Daniela Chiaretti publicada no site do jornal Valor Econômico

 

Por Débora Gallas Steigleder*

A Lei de Proteção da Vegetação Nativa, popularmente denominada Código Florestal, sancionada em 2012 pela presidenta Dilma Rousseff após mais de uma década de debates no Congresso Nacional, voltou à pauta no último mês. Isto porque os senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e colega Marcio Bittar (MDB/AC) apresentaram o Projeto de Lei 2362/2019, que propõe o fim da reserva legal nos imóveis rurais de todo o País.

Publicada em 29 de abril no site do jornal Valor Econômico, a reportagem da jornalista Daniela Chiaretti busca traduzir o impacto da aprovação da proposta. O título dá destaque aos números, como é de se esperar de um veículo que costuma repercutir e informar o mercado financeiro, mas permite ao leitor visualizar a dimensão das áreas afetadas ao equivalê-las à área de “três Bahias”.

Ao longo do texto, a repórter aborda os principais pontos do PL, marcado por afirmações desprovidas de embasamento, tais como a de que o Brasil é “um dos [países] que mais preserva sua vegetação no mundo”. Tais afirmações são contrapostas às análises de uma fonte especializada, um pesquisador, cuja relevância diante do tema é justificada pela jornalista logo após o lead.

Esta postura proativa, de prezar a apuração jornalística frente à mera reprodução de versões das fontes oficiais, é um aspecto pouco verificado nas diversas pesquisas do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) sobre coberturas da mídia hegemônica** e, portanto, deve ser incentivado. Isto porque um dos princípios-chave do jornalismo ambiental é sua preocupação com o ambiente enquanto bem comum.

Na continuidade da cobertura, valeria trazer mais vozes ao texto para reforçar a complexidade do tema. A fonte especialista tem autoridade a partir do seu saber científico, mas diversos outros atores sociais também podem argumentar contra a proposta a partir de seus saberes. Porém, de forma geral, a cobertura está alinhada com o jornalismo ambiental ao já partir do pressuposto de que o PL é prejudicial à biodiversidade e à qualidade de vida das comunidades humanas. E esta postura deve ser assumida por todos os jornalismos, tanto os hegemônicos quanto os especializados em economia e finanças.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
** Uma das mais recentes publicações do Grupo atenta para a importância de envolver outros atores para além do Estado na discussão sobre possíveis soluções para situações de injustiça ambiental. Ver em: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; SILVA, Jamille Almeida da; LOOSE, Eloisa Beling. Injusticia ambiental en el periodismo: análisis de reportajes sobre contaminación por pesticidas. La trama de la comunicación, Rosario (Argentina), v.23, n.1, p.15-29, jan./jul. 2019.

 

 

 

 

 

O Jornalismo entre políticas

05.05

Imagem: Reprodução de notícia publicada no dia 18.04.19 no jornal Correio do Povo (p.6)
Por Eliege Fante*

Toda vez que leio a respeito da “ineficiência das políticas públicas” referente à redução das emissões de gases de efeito estufa causadores da mudança climática, fico pensando se seriam as políticas ambientais ou as econômicas…

O motivo da crítica às políticas públicas é o dado apresentado na notícia Aquecimento Global: Concentração de CO2 bate novo recorde histórico, publicada no site Apolo11, onde diz que “2018 registrou o quarto maior crescimento de emissão de CO2 na atmosfera nos últimos 60 anos”. Este resultado revela a distância que tomamos da ideia de voltar ao patamar de 350 ppm (partes por milhão)  – acesse a campanha 350 – de dióxido de carbono na atmosfera, já que atualmente alcançamos a presença de 410 ppm.

Uma rápida pesquisa no acervo do jornal Correio do Povo (RS) no mês de abril de 2019, através do seu buscador online, com a palavra-chave “Petrobras”, indicou a abordagem de alguns assuntos ligados ao petróleo. Sem surpresas, nenhuma menção ao iminente fim desse recurso natural.

As datas das edições encontradas foram: 12, 13, 15, 16, 18, 20 e 27 de abril. Tratar do aumento ou não do preço do diesel e da gasolina não é o suficiente, mesmo que essa seja a única abordagem do governo. Aliás, um dos papeis do Jornalismo é difundir justamente o que não é dito pelos governantes a respeito das questões de interesse público.

Pelo contrário, uma notícia local de 16 de abril, p. 5, citava a iniciativa “Gás para crescer”. Notícia anterior sobre o mesmo evento, em 12 de abril, p. 10, adiantava que a discussão seria sobre a “modernização do setor de gás natural e […] criação de um mercado nacional com oferta abundante e preços competitivos.” As palavras que destaquei seriam a justificativa para o aprofundamento da exploração do gás, também energia fóssil.

Certamente governo e empresários estão a par da mudança do clima por causa do aumento da temperatura da atmosfera, que não pode superar 2º C, mas temos atualmente 50% de chance de isso não ocorrer, visto o aumento de um grau confirmado em 2018. Então, a pergunta seria: como pretendem ou imaginam dar continuidade aos seus ramos de negócio se a sua matéria-prima original está com os anos para a exploração (ou produção) contados? (Leia Antecipar o fim do petróleo, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil).

A resposta à pergunta feita provavelmente apontaria como solução o uso de tecnologias mais modernas como o fracking (Leia mais informações sobre o assunto aqui) ou aquelas empregadas para a extração do Pré-Sal.

A notícia de 18 de abril, p. 6, reproduzida no começo da análise, abordou a ajuda aos estados com o repasse de recursos provenientes dessa exploração nos próximos anos. Se o governo brasileiro quisesse mesmo ajudar os estados, além de manter intocado o Pré-Sal, não teria determinado um teto de gastos (por 20 anos!) nas áreas da educação, saúde e segurança. As mais lembradas durante as campanhas eleitorais.

Sobre o teto, vale recordar a manifestação da Organização das Nações Unidas feita em 2016 (Brasil: teto de 20 anos para o gasto público violará direitos humanos, alerta relator da ONU): “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social.”

O governo não parece mesmo interessado em ajudar, já que as políticas públicas atuais convergem com este cenário de retrocesso social arquitetado há mais de dois anos. Afinal, o mês de abril não terminou sem o anúncio do “corte de 30% em verbas para todas as universidades federais” (veja notícia do Correio do Povo publicada no dia 30.04.19). Mais uma questão apenas repassada pela imprensa e carente de justificativas por parte do governo.

Os preceitos do Jornalismo determinam o interesse em ajudar a sociedade, trabalhando em busca de respostas às questões de interesse público. O que o público espera da nossa profissão é mais profundidade ao reportar os temas e menos repasse de informações oficiais. Podemos transcender às políticas que fixam os temas em editorias assim como em Ministérios e Secretarias dos governos.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

 

 

 

O que o Jornalismo tem a ver com a nossa água de todos os dias?

Captura de tela

Imagem: Captura de tela da reportagem publicada na Folha do Mate

 

Por Carine Massierer*

O ser humano pode ficar semanas sem comida, mas se passar de três dias sem água, pode morrer. Assim, água é um recurso essencial e nós corremos o risco, em função da poluição, de termos um dos bens mais preciosos à nossa vida, indisponível.

Daí o imperativo do Jornalismo informar à população o que está acontecendo com a água que ingerimos todos os dias. Você que lê este texto, sabe o que tem na água que bebe? Eu já imaginava que a água consumida por nós corria o risco de estar impotável, por isto, ao ver a manchete “Testes detectam 21 agrotóxicos na água que abastece Venâncio Aires”, publicada em 20/04 às 6h30min, eu fiquei apreensiva e fui ler o conteúdo.

A matéria é daquelas que nos instigam a leitura porque apresenta dados municipais e brasileiros, tabela com a descrição dos agrotóxicos encontrados no município, pesquisas a respeito, explicações de fontes diferenciadas, os perigos à saúde, os efeitos dos agrotóxicos na natureza, como foi feita a coleta da água, a fala dos envolvidos e opiniões da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e da Vigilância Sanitária. Esta matéria mesmo sendo publicada na editoria de Local, caberia na editoria de Meio Ambiente, Saúde ou qualquer outra porque aborda de forma qualificada este tema e sua transversalidade. Justamente isto é o que se propõe o Jornalismo Ambiental.

Isto demonstrou não só que o conteúdo vem sendo qualificado cada vez mais e aprofundado em jornais locais, mas mostra ainda o engajamento do veículo e sua preocupação social em deixar a par a população de que há um perigo no consumo da água em Venâncio Aires (RS).

Em virtude da importância social do tema, fui averiguar quando a matéria geradora da pauta tinha sido publicada pela Agência Pública. No dia 12/04 a matéria foi publicada no site Por Trás do Alimento, com o título “Conheça os 27 agrotóxicos encontrados na água que abastece as cidades do Brasil”, e repostada dia 15/04 no mesmo site e no da Agência Pública, com a chamada “Coquetel com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios”. A partir daí veículos de pequenas e grandes cidades do país passaram a pautar o assunto, mas e a grande imprensa da capital? Até o dia 24/04 não foram localizadas postagens na internet dos jornais Correio do Povo e Zero Hora a respeito, veículos de referência no Rio Grande do Sul.

Sendo assim, o que se pode pensar é que a ampliação dos temas de forma mais qualificada é possível ser feita em jornais não hegemônicos como, muitas vezes, são os jornais locais. O que aponta para uma nova perspectiva na modernidade, de que os espaços para matérias especializadas e aprofundadas estão se tornando cada vez menores em grandes veículos.

Enfim, independente do tamanho do veículo, é importante observar que a Agência Pública está conseguindo ser uma interpretadora e informadora de dados públicos disponíveis, levando informações de extrema importância aos meios de comunicação e a população de todo o país. Isto, sobretudo, é uma conquista para a comunicação pública e para o Jornalismo Ambiental que, segundo Girardi (2001, p. 60), “informa, forma e faz um papel educativo, cumprindo com a missão de contribuir com a construção da cidadania, desde a perspectiva local à perspectiva planetária”.

Referência:

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O jornalismo ambiental nos cursos de jornalismo. In: JACKS, Nilda et alTendências na comunicação. Porto Alegre: L&PM, 2001.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).