Do que não podemos esquecer: o agravamento do descaso ambiental

Imagem: Captura da tela de notícia da Folha de S. Paulo

Por Eloisa Beling Loose*

Com a expansão do contágio da Covid-19, o aumento do número de mortes e os inúmeros efeitos sociais e econômicos derivados da maior crise sanitária da contemporaneidade, é esperado que a atenção da imprensa se volte, de maneira massiva, para o entendimento desse assunto. Contudo, recordemos que outras pautas continuam sendo relevantes e até urgentes, e não devem ser deixadas de lado. 

A necessária quarentena não pode ser cumprida por muitos e ainda há aqueles que percebem esse silenciamento do poder público sobre outros assuntos como oportunidade para lograr benefícios indevidos. E a emergência ambiental continua em curso. Mesmo que de forma não sistemática, é o que alguns veículos têm apontado nos últimos dias em relação à situação de intensificação de crimes ambientais nesse momento de suposto isolamento social e de sobreposição de crises.

O crescimento das queimadas nesse período já foi registrado em biomas brasileiros. De acordo com notícia da Folha de S. Paulo, a área queimada no Pantanal é a maior já registrada pelo Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um início de ano – período que não corresponde à estação do fogo. Além de afetar a conservação da biodiversidade, a fumaça causa uma série de problemas respiratórios – o que amplia a procura por hospitais e a demanda por respiradores em pleno enfrentamento contra a Covid-19. 

Na Amazônia, as queimadas relacionam-se ainda com o desmatamento, grilagem e mineração de terras indígenas. O fotógrafo Sebastião Salgado lançou um manifesto de proteção aos povos indígenas divulgado por vários meios de comunicação, que chamou a atenção para o agravamento dos riscos relacionados à Covid-19 em terras que estão sendo invadidas e incendidas. Em matéria do El País, há um breve panorama sobre a ameaça da pandemia nas populações indígenas na região da fronteira tripartite, historicamente dizimadas por epidemias levadas pelos brancos, mas que sofrem ainda mais com o afrouxamento da vigilância e a falta de políticas públicas que pensem no seus modos de vida.

Em notícia produzida pelo Repórter Brasil e publicada no UOL, faz-se o alerta em relação à situação da população da região amazônica, na qual os efeitos das queimadas avulta a gravidade das internações de crianças nesse período de seca da floresta, que vai de maio a outubro. Segundo a Fiocruz, nesta época, o número de internações de crianças com doenças respiratórias dobra nas áreas mais afetadas pelo fogo; acrescenta-se isso à procura por leitos em razão do coronavírus e podemos ter uma combinação catastrófica. Ao final, informa-se que o governo federal decretou uma Garantia da Lei e da Ordem, de modo a mobilizar os militares para o combate ao desmatamento e focos de incêndio, a partir desta segunda-feira (11 de maio). Porém, o fechamento do texto retoma a ideia de que os grileiros, madeireiros e garimpeiros não fazem home office, sublinhando o quão negligente tem sido o governo em relação ao cuidado socioambiental.

As ações governamentais de resposta são lentas e tendem a minimizar o problema, como já ocorreu no ano passado. Também há pressão política, sobretudo da bancada ruralista, em aprovar a Medida Provisória 910/2019, que beneficia com anistia desmatadores e grileiros de terras públicas – o que seria um claro incentivo às queimadas, somado à redução de equipes de fiscalização na rua. É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas.  

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A dimensão socioambiental do coronavírus através de relações ecossistêmicas e interespécies

Pangolim em Kuala Lumpur, Malaysia, in 2002. Fonte: Jimin Lai/Agence France-Presse — Getty Images / NY Times
Por Matheus Cervo*

É impossível não falarmos do novo coronavírus (COVID-19) em uma publicação de abril de 2020, já que parte da emergência da pandemia se dá devido uma teia de relações interespécies. Através de uma matéria veiculada pelo canal do YouTube do Vox chamada How wild life trade is linked to coronavirus (Como o comércio da vida selvagem está ligado ao coronavírus) em 06 de março de 2020, percebe-se que a emergência do novo coronavírus possui uma longa trajetória de relação entre humanos e não humanos na China. Há evidências de que o COVID-19 surgiu de complexas relações interespecíficas entre morcegos, pangolins e humanos. 

Peter Li, professor associado da universidade de Houston-Downtown,  afirmou que o surgimento contínuo de viroses não é uma surpresa para nenhum especialista em trocas comerciais que envolvem animais na China, já que os animais ficam enjaulados em cubículos de metal e empilhados uns em cima dos outros para abate no mesmo local de comércio. Claro que essa modalidade de venda de animais não é uma especialidade chinesa, mas alguns mercados, como o “wet-market” de Wuhan, oferecem uma variedade extasiante de animais silvestres para consumo culinário humano, gerando uma peculiaridade em torno da emergência do COVID-19.

O início dessa especificidade comercial ocorreu com uma decisão do governo comunista chinês na data de 1970 que, controlando toda produção de comida, falhou em fornecer alimentação para a população. Na beira do colapso, o governo chinês, em 1978, permitiu que a produção fosse realizada no âmbito privado e, para sustentação dessa agricultura familiar emergente, muitos animais silvestres começaram a ser criados. A mudança na lei de proteção da “vida silvestre” em 1988 designou os animais silvestres como “recursos pertencentes ao Estado” e ofereceu proteção às pessoas que estavam engajadas nesse tipo de produção.

Em 2003, a SARS surgiu em um dos “wet-markets” em Foshan na província de Guandong através da comercialização do gato civeta. Uma notícia da Associated Press foi veiculada neste mesmo ano demonstrando que o governo chinês voltou com a permissão de exploração de múltiplas espécies da vida silvestre para comercialização após o surto. De acordo com a matéria do Vox, essa prática se transmutou durante as últimas quatro décadas: esse mercado cresceu para uma indústria de 148 bilhões de yuans (106 bilhões de reais). Nessa mesma matéria, Peter Li afirma que não é a população mais pobre da China que consome em grande escala esse tipo de carne atualmente, mas, sim, uma minoria de classes mais altas que acreditam nas propriedades milagrosas de produtos exóticos como estes. 

Em 2020, novamente a Associated Press lança uma matéria semelhante à 2003: China temporarily bans wildlife trade in wake of outbreak (China temporariamente bane as trocas de animais silvestres após surto). A história se repete. Acredito que devemos nos perguntar: será que nossas narrativas estão se repetindo na pandemia do novo coronavírus e será que vamos falhar de novo em compreender que a questão sanitária é uma questão socioambiental?

*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605. Email: cervomatheus@gmail.com

A articulação entre meio ambiente e saúde para um mundo pandêmico

Fonte: Wikimedia Commons
Por Michel Misse Filho*

Uma breve visita aos principais jornais e sites do Brasil e do mundo mostra, indubitavelmente, que quase não há outro assunto possível senão a pandemia instalada em função do novo coronavírus. A pauta ambiental chegou a conseguir algum espaço na grande mídia, sobretudo com as supostas “boas notícias” das claras águas dos canais de Veneza e a diminuição da poluição do ar – temas já tratados neste Observatório.

Tendo em vista sua capacidade de letalidade em curto prazo, o alastramento da pandemia assusta o mundo, em poucos meses, talvez de forma mais intensa do que a própria crise climática. Não nos confundamos, contudo: é fato de que se trata de assuntos complementares, não excludentes. A conexão é feita, por exemplo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao identificar o coronavírus como zoonótico (transmitido de animais para pessoas) e, portanto, “reflexo da degradação ambiental”. Aproveitemos a oportunidade para realçar o caráter interdisciplinar que compreende a questão ecológica, umbilicalmente ligada às áreas de saúde e ciência. No jornalismo não é diferente, tendo em vista a raiz comum do jornalismo científico, a que as áreas de saúde e meio ambiente se nutriram enquanto especialização temática.

Importa saber que, concomitantemente, problemas ambientais são também problemas de saúde pública. Lembremos, por exemplo, uma matéria de janeiro do G1, na editoria de “Ciência e Saúde”, sobre o descobrimento de 28 vírus desconhecidos nas geleiras do Tibete. A notícia – que sequer menciona o covid-19- alerta para a possibilidade de que, com a crise climática e o derretimento dos gelos glaciais, uma série de vírus sejam liberados e contaminem seres humanos. O perigo do derretimento do permafrost não é um assunto totalmente novo, mas que talvez ganhe outra dimensão no cenário pós-pandemia. A relação entre preservação ambiental e a disseminação de doenças também foi abordada por esta reportagem do canal “Repórter ECO”, de 25 de março, cujo foco é na disseminação de vírus a partir da destruição de habitats específicos aos quais ficavam restritos. 

O contrário é igualmente verdadeiro: problemas de saúde também dizem respeito ao meio ambiente. Vemos como exemplo, nesta notícia do site O Eco, publicada dia 25 de março, a preocupação de cientistas para a proteção dos grandes símios (chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos), ameaçados de extinção, e possivelmente suscetíveis a patógenos que afetam seres humanos. A carta foi publicada por 26 cientistas na revista Nature e, apesar de sugerirem o fechamento de parques nacionais e reservas, a questão se torna ainda mais complexa pela possibilidade de, sem presença humana, aumentar o risco de caça a esses animais.   

    Parece-nos ainda cedo para especular sobre como os assuntos ambientais serão tratados após a atual crise. Cenários de generalizada conscientização global a favor das pautas ambientais podem soar otimistas e utópicos em excesso, apesar de serem o horizonte a ser buscado. Independente de projeções, fica o alerta para o tratamento da questão ambiental em sua dimensão mais ampla, lado a lado com a saúde, sempre guiados pelo conhecimento científico. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

A COVID-19 não irá salvar o meio ambiente

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil
Por Nicoli Saft*

Em meio à pandemia da COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, alguns veículos jornalísticos estão tentando encontrar um lado bom da crise no meio ambiente. São notícias que falam sobre os canais aparentemente limpos de Veneza e um suposto ar puro em países confinados.
Entretanto, nas mesmas matérias, podemos perceber que a situação não é tão boa quanto os títulos fazem parecer.

Os canais de Veneza aparentam estar limpos devido à diminuição do tráfego de barcos – com o movimento na água reduzido, os sedimentos ficam acumulados no fundo. A própria Prefeitura de Veneza afirmou que a poluição da água não diminuiu. Já o “ar puro” nos locais onde há confinamento em razão do coronavírus é causado pela diminuição de dióxido de nitrogênio (NO2) na atmosfera. A queda na concentração é, sim, devido à paralisação de indústrias e à diminuição de carros, entretanto o ar não está puro, já que foram detectados episódios de poluição por partículas finas (PM2,5 e PM10) na China e na França, países que estão em regime de quarentena.


A primeira matéria citada, do G1, trata de maneira que considero adequada acerca dos canais italianos. O título é apenas uma constatação, e já no subtítulo informam que a poluição se mantém. Uma curta notícia da Veja SP sequer menciona a presença de poluentes, apenas questiona a “sustentabilidade ecológica dessa atividade (turismo) na região”, sem esquecer de mencionar a perda econômica que a pandemia trouxe.

Notícias falsas ganharam as redes sociais afirmando que golfinhos voltaram a frequentar os canais de Veneza, assim como cisnes e peixes. Como mostra essa reportagem da National Geographic ( em inglês), as imagens dos golfinhos foram na verdade registradas em Sardinia, uma ilha italiana no Mar Mediterrâneo; e os cisnes e peixes não são incomuns em algumas regiões de Veneza, ao contrário do que esta matéria da revista Fórum faz parecer. O mesmo texto menciona a declaração da prefeitura e linka um tweet denunciando as fake news sobre o assunto, mas também dá espaço a outro tweet reafirmando a água limpa de Veneza e o ar puro de Hong Kong.


A matéria sobre a qualidade do ar, aliás, é da Agence France-Press, uma das mais requisitadas agências de notícias do mundo e foi republicada por diversos veículos. Entretanto, ela mesma se desdiz. A maioria dos efeitos mais graves da poluição do ar são causados por exposições à longo prazo, e não temos como saber qual o impacto da pandemia na poluição nesse período. Existem aqueles que são otimistas e acreditam que a crise irá modificar os hábitos de consumo das pessoas mesmo após a pior fase ter passado, como mostra essa matéria da BBC , entretanto são apenas suposições .


Nesses tempos obscuros, ficamos desesperados por uma notícia boa. Desesperados, ficamos suscetíveis a notícias falsas. Jornalistas também querem dar notícias boas, mas precisam ter cuidado para não propagar informações errôneas e alimentar falsas esperanças. O meio ambiente não será salvo se apenas ficarmos em casa. Não vamos conseguir voltar atrás de todo o mal que causamos ao planeta em alguns meses de reclusão, infelizmente. O jornalismo não deve alimentar a ideia de que a COVID-19 será boa para o meio ambiente.

Nesta hora temos que nos lembrar de quem serão os mais afetados, se serão aqueles que mais poluem ou se serão aqueles que são impossibilitados de manter o distanciamento social. Aqueles que não terão condições de pagar um tratamento particular se infectados e aqueles que já são negligenciados pelos nossos sistemas. O jornalismo precisa de responsabilidade.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O que mais podemos dizer quando cobrimos chuvas intensas?

Foto chuvas intensas

Imagem: captura de tela de imagem publicada no corpo da reportagem “Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?”, publicada dia 3 de março no jornal O Estado de S. Paulo
* Por Eloisa Beling Loose

Nas últimas semanas as notícias e reportagens sobre os estragos desencadeados pelas chuvas fortes e constantes no Sudeste têm se repetido nos meios de comunicação. Fala-se muito das consequências (alagamentos, enchentes, deslizamentos, perdas materiais e mortes), mas as causas ainda são pouco evidenciadas ou apresentadas de forma parcial. Embora os governantes sejam ouvidos, essa não é a única versão que deveria ter espaço. Esse é um problema ambiental, social, cultural, político e econômico. Negar qualquer uma de suas facetas é sempre ter uma visão fragmentada e, portanto, incompleta dos fatos.

No último dia 2, após as fortes chuvas que atingiram, mais uma vez, o Rio de Janeiro, o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, afirmou que a culpa pela tragédia era das pessoas. O G1 e outros veículos repercutiram que a autoridade foi atingida por barro durante suas declarações na visita ao local afetado, já que reduziu o problema ao lixo não descartado corretamente. O prefeito culpabilizou a sociedade: “se vocês querem ajudar a nossa cidade, é conscientizar a população de que não pode jogar lixo nas encostas, não pode jogar lixo nos bueiros, não pode deixar lixo na rua. Esse é o grande problema do Rio de Janeiro”. Sim, conscientizar a população sobre a limpeza da cidade é importante, mas não é a única resposta e nem resolve por si só a questão. O que dizer sobre a responsabilidade pelo planejamento e gestão da cidade? O que as autoridades públicas têm feito para mitigar os danos das chuvas intensas? Quais as políticas públicas relacionadas à habitação? E quais são os projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, provocadoras de fenômenos extremos cada vez mais frequentes? O que está sendo feito para evitar as perdas, que costumam se repetir todo ano?

Há muitas perguntas que precisam ser reiteradas para lembrar a todos que os efeitos das chuvas são tragédias anunciadas, respaldadas por previsões científicas sólidas. Logo, não são as vítimas as culpadas. Não é possível que jornalistas reproduzam esse discurso sem questionamentos. Quem mais sofre com a falta de ação do Estado, sempre é a população mais carente, aquela com menos recursos para se prevenir e se recuperar. Ninguém escolhe residir em área de risco por ter opções.

No trabalho diário é comum que o jornalismo se detenha aos impactos, àquilo que é visível agora e afeta diretamente a vida das pessoas, como no caso da notícia Mortes por chuvas no verão no Sudeste este ano já superam as de 2019, publicada dia 3 de março pelo UOL, e Buscas por vítimas de deslizamentos são encerradas em Santos e São Vicente; operação segue em Guarujá, publicada dia 7 pelo G1. Contudo, sabe-se que, a partir de uma cobertura mais extensa sobre o assunto, é possível observar mais do que o registro e o drama dos afetados, incluindo até mesmo a perspectiva da precaução. A dificuldade se dá em manter o tema na agenda pública, pois há um momento no qual o pico de atenção midiático desaparece; assim, quando o ciclo das chuvas reinicia, o desastre tende a ser apresentado como novo e se resumir em números e declarações que não explicam o porquê estamos assistindo, mais uma vez, a mesma história.

Na contramão da ênfase sobre as consequências, cito aqui um exemplo do que poderíamos ver mais na imprensa – em quantidade e aprofundamento: a reportagem publicada no dia 3 pelo jornal O Estado de S.Paulo, de Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, no qual indaga-se: Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste? Nela são apontados diferentes elementos que agravam o que não temos condições de impedir: a força das chuvas. Nesse texto vários pontos de vista são visibilizados, relacionando os efeitos negativos das chuvas com as alterações do clima, a retirada da natureza dos centros urbanos, a ocupação desordenada, e a falta de políticas públicas que pensem no planejamento e na redução de riscos ambientais.

Mais do que naturalizar que as chuvas castigam as populações mais vulneráveis e que a responsabilidade é das próprias pessoas (que, por meio dessa lógica, elegeriam se colocar em perigo ao residir em áreas de risco), cabe ao jornalismo contextualizar as prioridades políticas dos governantes e esclarecer as razões para, ano após ano, continuarmos tratando a tragédia como algo novo, um acontecimento que irrompe da normalidade esperada. Como sublinha a reportagem de O Estado de S.Paulo, esse contexto é o “novo normal”. Como o jornalismo pode se adequar a isso? Como podemos fazer diferente diante de um cenário em que o futuro (e não apenas o presente) precisa ser considerado? Como dizer mais (no sentido de melhorar a compreensão) e pautar ações preventivas? Essas são algumas indagações que não poderiam ser lembradas pelos jornalistas apenas com a concretude dos prejuízos.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

A água no Rio de Janeiro e a necessidade de expandir os impactos da pauta ambiental

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Por Michel Misse Filho*

Passado mais de um mês de evidência de um novo problema no abastecimento de água no Rio de Janeiro, o assunto dominou os noticiários locais e pautou o dia a dia de quase dez milhões de fluminenses clientes da Cedae. A empresa de economia mista responsável pelo serviço está, ao mesmo tempo, no início da fila para privatização desde 2017, acordada como contraponto com o Governo Federal para o Regime de Recuperação Fiscal do Rio. A atual crise hídrica –que é inerentemente ambiental- se desenrola pela política estadual: o governador Wilson Witzel (PSC), influenciado pelo correligionário Pastor Everaldo, indicou Helio Cabral – ex-conselheiro da Samarco e réu pelo crime ambiental de Mariana- para a presidência da empresa. Com a nova gestão, foram demitidos quase 40 engenheiros especializados no controle da qualidade de água, e a substância geosmina virou a “nova” vilã da rotina dos cariocas. Para piorar, a estação de tratamento ainda chegou a ser fechada após a localização de detergente na água. 

    Para além das diárias notícias que atualizavam o caso e mostravam o fim dos estoques de água mineral nos supermercados, algumas matérias chamam a atenção ao elucidarem melhor a questão. É o caso desta boa matéria de André Trigueiro para o RJTV e portal G1, que explica o passo a passo do sistema de tratamento; os erros operacionais; a falta de investimento da empresa mesmo com o lucro em torno de R$ 800 milhões em 2019; a não realização de projetos relativamente baratos que evitariam o problema; e a destinação, por parte do governo estadual, de apenas 15% da portentosa verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) para fins ambientais.

Ainda mais importante, outras reportagens denunciam o ponto central do problema: a alastrada falta de saneamento básico. A verdadeira causa da “crise”, mais do que o erro operacional da empresa que não eliminou a controversa geosmina, era o despejo de esgoto in natura em pontos próximos à captação, provindo de rios que afluíam no Guandu, levando os dejetos de cidades como Seropédica, Nova Iguaçu e Queimados. 

Longe de ser uma novidade, o problema do saneamento na Baixada Fluminense foi alçado midiaticamente pela “crise” e ganhou melhores contornos em abordagens como esta matéria de Juliana Gonçalves, do site The Intercept Brasil, que trata o problema da água sob a lógica da necropolítica e do racismo ambiental, afinal, não são os bairros da Zona Sul carioca que figuram nas piores posições dos índices de tratamento de esgoto do país. Diz a matéria: “O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras.”. A deficiência do abastecimento de água no Rio (e o peso financeiro de quem não tem o privilégio de comprar água mineral todo dia) mostra, mais uma vez, que é preciso expandir as consequências e impactos da pauta ambiental, abarcando as diversas dimensões sociais que ela carrega consigo. 

*Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).