Cobertura ambiental recua no mundo indiferente ao agravamento da crise climática

Crédito: Freepik

Por Sérgio Pereira*

Enquanto a crise climática atinge níveis cada vez mais assustadores, a preocupação da imprensa com o assunto diminuiu, contrariando a lógica. A confirmação desse fenômeno pode ser encontrada no levantamento divulgado pelo Observatório de Mídia e Mudanças Climáticas (MeCCO), ligado à Universidade do Colorado (EUA).

Os dados fazem parte de relatório divulgado no primeiro trimestre deste ano, mas que passou praticamente em branco no jornalismo brasileiro. O monitoramento revelou que a cobertura climática da mídia em todo o mundo caiu 38% em 2025 em relação a 2021. Na comparação com 2024, a queda foi de 14%. Dos últimos 22 anos monitorados, 2025 ocupa apenas a décima posição nos anos com maior incidência de notícias sobre a crise climática, enquanto 2024 foi o sétimo.

O MeCCO monitora 131 veículos de comunicação, entre jornais, rádios e emissoras de TV de 59 países. Na América Latina, 15 mídias foram incluídas no estudo, entre elas os jornais O Globo e Folha de S.Paulo. Conforme o estudo, a redução foi mais acentuada na África, no Oriente Médio, na América do Norte e na Europa; menor na Ásia, na América Latina e na Oceania.

O relatório aponta que essa queda mundial registrada em 2025 “parece contrastar com o aquecimento global em curso, em que as temperaturas médias nos últimos anos foram as mais altas em quase 150 anos de história registrada. Enquanto isso, 2025 foi o ano com as maiores concentrações de dióxido de carbono na atmosfera nos últimos 14 milhões de anos”.

Entre os motivos para o enfraquecimento da cobertura climática estão elementos já conhecidos, como pressão do poder econômico, concentração da pauta em outros temas (como a guerra EUA/Israel contra Irã ou o conteúdo dos milhões de páginas do arquivo Epstein, por exemplo), o discurso anticiência de Donald Trump aplaudido por veículos identificados com a extrema direita e a política de demissões das grandes empresas de comunicação.

Neste último tópico, Suzannah Evans Comfort e Jill Hopke, em artigo no Nieman Reports (publicado em português pelo site Poder 360), lembram casos de repercussão no ano passado nos Estados Unidos. Como o da Paramount, que dispensou 100 funcionários da CBS News e desmontou a equipe de cobertura climática, e o da rede de notícias NPR, que demitiu 28 jornalistas, incluindo dois da equipe de clima. Neste ano, o diário Washington Post já demitiu mais de 300 profissionais de redação, um terço do total.

No Brasil, a situação não é diferente. Conforme a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), com base em dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o número de trabalhadores formais em funções jornalísticas nos jornais e revistas caiu de 9.870, em 2015, para 4.709 em 2025, uma redução de 52,3% em dez anos.

O levantamento do Dieese revela ainda que, no mesmo ritmo em que as redações vão murchando, as Assessorias de Imprensa (AI) ocupam parcela cada vez maior do mercado. Em 2025, os jornalistas que atuavam em AI representaram a maior fatia dos vínculos empregatícios, com 25,2% do total. A título de comparação, em 2021 a participação dos assessores era de 20%. E parte dessas AI trabalha justamente para empresas interessadas em negar as mudanças climáticas e em explorar áreas hoje preservadas.

O jornalismo sempre lutou contra as dificuldades. Faz parte do seu papel confrontar o poder, estar sempre vigilante, superar as ameaças, ficar ao lado de quem não tem voz, ser guardião da verdade, defender a vida e a ciência. Mas não há adversário mais difícil de driblar do que a precarização. Diante de redações progressivamente menores, o dilema é definir as prioridades das prioridades. É quando precisamos decidir entre o que será noticiado e o que será silenciado, barrado nos filtros da edição. E a crise climática, o que é de se lamentar, não aparece ter relevância nessa lista.

Revisão: Luciano Velleda, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Estamos, finalmente, cobrando a conta?

Crédito: Kelly Sikkema/Unsplash

Por Caroline Silveira*

Apesar dos esforços por uma matriz energética menos poluidora, a dependência mundial de combustíveis fósseis ainda é alta. Estima-se que a indústria de petróleo e gás seja responsável por cerca de 45% das emissões de gases de efeito estufa geradas por atividades humanas, contribuindo fortemente para o aquecimento global e a mudança climática. Ao que parece, essa conta finalmente está começando a ser cobrada.

Algumas iniciativas já avançam na regulamentação das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, como a Lei nº 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE), e a Resolução nº 592/2026 da FEPAM/RS, que estabelece obrigações relacionadas à apresentação de inventários de emissões por diferentes setores industriais e produtivos do estado. Essas medidas representam avanços na mensuração e na gestão das emissões, mas também evidenciam o desafio de transformar o reconhecimento da responsabilidade climática em ações concretas de redução de impactos.

Além disso, no início de outubro, os dedos começaram a apontar diretamente para algumas empresas. O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação contra a Shell Brasil, alegando que a empresa deve responder por sua contribuição histórica e continuada para as emissões de gases de efeito estufa e para a intensificação dos eventos extremos, como a inundação que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. A ação, elaborada com a participação do Instituto Preservar, não atribui responsabilidade exclusiva à Shell, mas solicita mais de R$541 milhões em reparação por “danos morais coletivos ambientais e climáticos e danos materiais”. Ainda que a responsabilidade da empresa dependa de uma decisão judicial, a iniciativa traz à luz uma discussão importante sobre quem deve arcar com os custos de uma crise climática cujas consequências afetam imensamente a natureza.

Em reportagem do G1, intitulada “MPF cobra na Justiça R$541 milhões em reparação da Shell por enchente no RS”, percebe-se um esforço para conectar as atividades humanas à mudança climática e seus impactos. O texto explica, por exemplo, que os autores da ação recorrem a três abordagens científicas: a atribuição do aquecimento global às emissões humanas, a estimativa da contribuição histórica de grandes produtores de combustíveis fósseis e a análise da influência do aquecimento sobre eventos extremos específicos. Entretanto, essa explicação é sucinta e não identifica os estudos científicos utilizados para fundamentar o processo, nem apresenta dados que permitam ao leitor compreender a dimensão da situação.

Essa limitação salienta um grande problema que vemos no jornalismo hegemônico quanto à contextualização e à assimilação do saber ambiental: mencionar a existência de uma relação entre as emissões de gases de efeito estufa e a intensificação dos eventos extremos não é suficiente, pois é importante explicar como essa relação acontece. Ao não aprofundar a questão, a reportagem informa sobre a fundamentação da ação judicial, mas oferece poucos elementos para que o público compreenda a complexidade da alegação.

Falas dos representantes do MPF e do Instituto Preservar elucidam os objetivos da ação e a importância de buscar a responsabilização por danos climáticos. Entretanto, a matéria não apresenta pesquisadores independentes que possam explicar os estudos de responsabilidade climática, nem inclui relatos das pessoas atingidas pelas enchentes. Essa ausência limita a pluralidade de vozes e a possibilidade de compreender o desastre a partir de diferentes perspectivas. A população gaúcha acaba aparecendo como destinatária potencial das medidas de reparação, e não como protagonista na discussão sobre os danos que sofreu.

Além disso, embora o texto apresente a questão financeira da ação judicial, não oferece dados sobre a extensão dos prejuízos provocados pelas enchentes ou sobre as vulnerabilidades socioambientais que contribuíram para a dimensão da tragédia. A contextualização poderia ser ampliada com informações sobre os impactos humanos, econômicos e territoriais do desastre, bem como sobre as condições que tornam algumas populações mais expostas aos eventos extremos que outras.

A Shell Brasil foi consultada e afirmou que não havia recebido notificação oficial sobre o processo até a publicação da matéria. A manifestação da empresa é importante para a apuração jornalística, mas sua declaração não responde diretamente aos argumentos apresentados pelos autores da ação.

A inundação foi tratada, no texto, principalmente a partir da relação entre as chuvas extremas e as emissões de gases de efeito estufa. Embora a reportagem mencione a intensificação dos eventos extremos, não aprofunda a discussão sobre as vulnerabilidades territoriais, a prevenção de desastres e a adaptação climática. Esse aspecto é relevante porque o Jornalismo Ambiental não se limita a explicar os danos depois que eles acontecem, mas também busca evidenciar os riscos e as possibilidades de prevenção. Ao informar que os recursos eventualmente obtidos com a ação poderão ser destinados à reconstrução, à adaptação climática e à prevenção de desastres, a matéria apresenta uma abertura para essa discussão, mas não desenvolve o assunto.

Em conclusão, a matéria do G1 contribui para ampliar o debate sobre a responsabilização de grandes produtores de combustíveis fósseis e sobre a distribuição dos custos da crise climática. Entretanto, poderia explorar melhor as conexões entre as evidências científicas, as desigualdades socioambientais e a urgência na prevenção de novos desastres. Afinal, cobrar a conta exige não apenas informar sobre quem poderá ser responsabilizado, mas também ajudar a sociedade a compreender como esses danos são produzidos, quem é mais afetado por eles e o que pode ser feito para evitar que se repitam.

Revisão: Gabriella de Barros

*Jornalista, mestranda do PPGCOM/UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental.

Amazônia Legal sob o bolsonarismo: importância e desafios de uma cobertura alinhada aos pressupostos do Jornalismo Ambiental

Terras Indígenas do povo Mura (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Por Bárbara Gonçalves de Lima*

Findado o primeiro turno das eleições no Brasil, pelo menos sete dos nove estados da Amazônia Legal, recorte territorial estabelecido pelo governo brasileiro para orientar políticas públicas, planejamento socioeconômico e incentivos fiscais voltados ao desenvolvimento da região amazônica, serão governados pelo bolsonarismo. Diante desse cenário, este Observatório buscou analisar como a cobertura jornalística relaciona a proteção da floresta ao avanço da extrema direita na região.

Embora a conexão entre os temas ainda tenha recebido pouca atenção da mídia hegemônica e a forma contextualizada seja um desafio – considerando que a situação dos jornalistas da mídia independente é marcada por ameaças, como já foi pontuado por este Observatório com o cancelamento da cobertura das eleições portal Tapajós de Fato, é preciso citar uma cobertura em específico como positiva ao apontar caminhos para uma abordagem mais alinhada aos Pressupostos do Jornalismo Ambiental (JA): a do portal Sumaúma.

Na publicação “Bolsonarismo comandará pelo menos sete dos nove estados da Amazônia”, da jornalista Claudia Antunes, dados e contextualização dos fatos ajudam o leitor a perceber a ligação entre as propostas da extrema-direita para a flexibilização ambiental e o aumento do desmatamento e destruição na Amazônia Legal.

Isso é importante porque apenas mencionar os nomes dos eleitos e seus partidos – ainda mais em tempos de desinformação – não é suficiente para dimensionar o que os resultados eleitorais representam para o meio ambiente nem quais são os projetos do bolsonarismo para a região. Ao relembrar, logo na abertura do texto, que o governo de Jair Bolsonaro foi marcado por um aumento de 59% no desmatamento do bioma, a publicação, portanto, cumpre com o pressuposto do JA de ênfase na contextualização e contribui para uma compreensão crítica do cenário, associando a extrema direita aos impactos da derrubada de milhares de árvores na floresta.

A reportagem também recorre a fontes acadêmicas e de pesquisa para explicar os fatores que impulsionam o avanço da extrema direita na região, como o antipetismo, o voto de eleitores evangélicos e a influência político-eleitoral de dirigentes do agronegócio. Com isso, contribui para a assimilação do saber ambiental, uma vez que não separa as decisões políticas, como a eleição de representantes, das consequências para a maior floresta do mundo, evidenciando que a questão ambiental é complexa.

Além disso, resgata a trajetória dos eleitos e sua atuação contrária à proteção ambiental. No Pará, conforme a publicação, Daniel Santos foi eleito após uma campanha contra a fiscalização ambiental. Outro aspecto relevante é a abordagem da decisão do presidente Lula de pressionar o Ibama a autorizar a perfuração na Bacia da Foz do Amazonas para a exploração de petróleo, iniciativa que não surtiu o efeito esperado de aumentar o apoio ao presidente. A investigação sobre as posições ambientais e as decisões dos políticos contribui para a qualificação da informação.
O texto também aborda projetos de autoria de Flávio Bolsonaro que buscam acabar com a reserva legal, além de mencionar sua assinatura em duas propostas de emendas anti-indígenas e contrárias ao clima. Também trata da omissão à conservação da floresta em seu plano de governo. Ao evidenciar a dimensão das ameaças representadas pelo avanço do bolsonarismo na Amazônia Legal, a cobertura também atende ao princípio da precaução, fundamental para o jornalismo ambiental.

Ainda que materiais deste tipo sejam escassos na mídia e os desafios sejam imensos, este tipo de publicação cumpre um papel crucial: contribuir com a mudança de pensamento da população. Nos próximos quatro anos, o jornalismo terá de se atentar ainda mais às relações entre política e a temática ambiental. Nesse sentido, os temas não poderão ser tratados de forma isolada nem desconectados das decisões e dos projetos da extrema direita. Os pressupostos do Jornalismo Ambiental serão ainda mais relevantes para uma cobertura capaz de informar a população sobre os possíveis efeitos desse avanço político.

Revisão:  Cláudia Moraes, integrante do GPJA.

*Jornalista, mestranda no PPGCOM/UFRGS e Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

A escolha do povo nas urnas reflete a preocupação com os eventos extremos?

Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil – Fotos Pública

Por Franchesco de Oliveira Y Castro* e Cláudia Herte de Moraes**

As eleições de 2026 colocam novamente o Rio Grande do Sul diante de uma disputa que ultrapassa a escolha de representantes políticos. Em um estado marcado por eventos climáticos extremos, enchentes, estiagens, deslizamentos e impactos sobre cidades, comunidades e atividades econômicas, cabe perguntar: que rumos a sociedade espera para o enfrentamento da crise climática?

Mais do que uma pauta restrita às políticas ambientais, as mudanças no clima atravessam áreas como planejamento urbano, habitação, agricultura, infraestrutura, saúde, mobilidade, energia e gestão de riscos. A experiência do desastre de 2024, que atingiu grande parte do território gaúcho, tornou ainda mais evidente a necessidade de discutir prevenção, adaptação e preparação para eventos extremos como questões permanentes da administração pública.

Nesse contexto, analisar uma eleição pelo olhar do jornalismo ambiental significa observar não apenas quem recebeu mais votos, mas também quais temas ganharam espaço no debate público, quais problemas ambientais foram incorporados às campanhas e de que maneira os candidatos apresentaram suas propostas para um estado que já vivencia os efeitos drásticos das mudanças climáticas. A questão passa, portanto, pela capacidade da política e do jornalismo de tratar a emergência climática para além da lógica da tragédia anunciada, incorporando a prevenção, o planejamento e a justiça ambiental à discussão sobre o futuro do Rio Grande do Sul.

No Rio Grande do Sul, a eleição de Luciano Zucco (PL) para o governo estadual também coloca a agenda ambiental diante de novos questionamentos. Uma matéria publicada pela Exame em 24 de setembro de 2026 analisou as propostas dos candidatos ao governo do Rio Grande do Sul para a prevenção e o enfrentamento dos eventos climáticos extremos. Em seu plano de governo, o candidato propõe substituir uma “cultura de resposta emergencial” por uma política permanente de prevenção e gestão de riscos, com fortalecimento da Defesa Civil, ampliação das redes de monitoramento, atualização dos mapas de risco, sistemas de alerta e uma carteira de obras voltadas à proteção contra cheias, drenagem e contenção. As propostas dialogam com a realidade de um estado que ainda convive com os impactos das enchentes de 2024 e que voltou a registrar situações de alerta em 2026. Mas, diante da emergência climática, cabe refletir: se a prevenção será pensada apenas a partir do monitoramento, da resposta rápida e da infraestrutura ou também contemplará as causas e as condições socioambientais que tornam determinados territórios mais vulneráveis aos eventos extremos.

A análise publicada pelo ClimaInfo, “Novo Congresso impõe derrota à agenda ambiental enquanto Lula enfrenta difícil segundo turno”, ajuda a ampliar a discussão sobre os efeitos das eleições para a pauta socioambiental. Embora o texto tenha como foco a nova composição do Congresso Nacional, sua análise evidencia que os rumos das políticas ambientais não dependem apenas do Poder Executivo, mas também das forças políticas que ocuparão o Legislativo e das disputas em torno de temas como licenciamento, mudanças climáticas e direitos territoriais. No caso gaúcho, acompanhar como as propostas apresentadas pelo novo governo serão transformadas em políticas públicas será fundamental para compreender quais caminhos serão adotados diante de uma realidade em que os efeitos da crise climática já não podem ser tratados como uma possibilidade futura.

Diante desse cenário, pensar o futuro do Rio Grande do Sul exige acompanhar a política para além do período eleitoral. As propostas apresentadas durante a campanha precisam ser confrontadas com as ações concretas do novo governo, especialmente em um estado no qual a prevenção de desastres, a adaptação às mudanças climáticas e a redução das vulnerabilidades já não podem ser adiadas. Mais do que responder aos eventos extremos depois que eles acontecem, o desafio está em construir políticas permanentes capazes de reduzir riscos e enfrentar as desigualdades que fazem com que os impactos da crise climática sejam sentidos de maneira diferente entre os territórios e as populações.

Para o jornalismo ambiental, esse acompanhamento também representa um compromisso que ultrapassa a cobertura das eleições e das pautas ambientais. Cabe questionar quais interesses orientam as decisões, quem participa da construção das políticas públicas, quais territórios são priorizados e se as medidas anunciadas conseguem enfrentar as causas e as consequências da emergência climática. Em um cenário de extremos cada vez mais presentes, informar sobre o clima não significa apenas noticiar a próxima enchente, estiagem ou onda de calor, mas acompanhar as escolhas políticas que podem determinar a capacidade do estado de prevenir, adaptar-se e proteger sua população.

Assim, a pergunta que permanece depois das urnas não é apenas qual projeto político venceu, mas que projeto de futuro será construído a partir dessa escolha. Para o Rio Grande do Sul, onde os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte do presente, acompanhar essa construção é também uma tarefa do jornalismo.

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.

Tentativa de contrabando de árvores nativas em Moçambique expõe o crime contra a biodiversidade e as ameaças contra os jornalistas

Crédito: PxHere

Por Guilherme Mussane* e Ilza M.Tourinho Girardi**

A tentativa de exportar com aspectos de legalidade ou contrabandear madeira nativa é uma prática que exige constante atenção dos órgãos de estado que atuam para evitar tais espécies de crimes tanto no Brasil como em Moçambique.

No dia 28 de setembro o Jornal Notícia de Moçambique publicou a matéria “Apreendidas mais de nove mil pranchas de madeira ilegal em Mocímboa da Praia”, em Cabo Delgado, numa operação de combate ao comércio ilegal de recursos florestais.

A operação realizada no domingo, 27 de setembro, envolveu a Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental (AQUAA) e a Policia de Proteção de Recursos Naturais e Meio Ambiente (PPRNMA). A madeira foi localizada em sete quintas residenciais no Bairro de Zalala, na Vila da Mocímboa da Praia, norte de Moçambique.

A matéria afirma que,segundo as autoridades, tratam-se de espécies nativas classificadas como preciosas, e há suspeitas de que a madeira armazenada na zona costeira seria posteriormente transportada por via marítima através de barcaças, com destino a Tanzânia.

Conforme ainda informa o texto, o material permanece sob custódia do Governo do Distrito de Mocímboa da Praia com o objetivo de identificar os responsáveis, enquanto decorrem os procedimentos para a apresentação formal do caso ao Ministério Público.

Apesar da gravidade do assunto, o texto fica devendo informações ao leitor sobre qual é a espécie visada, a sua importância para a biodiversidade moçambicana, que outras espécies estão ameaçadas, além de outras ações dos órgãos competentes que devem participar do esforço para acabar com esse tipo de comércio ilegal.

Conforme a notícia as investigações continuam para apurar os nomes das pessoas envolvidas com o crime. No entanto, é possível que texto não tenha se aprofundado no tema e nem apresente o nome do repórter para proteger o autor da matéria, já que a situação de jornalistas ameaçados e mortos não é um privilégio do Brasil.

Assolada pelo terrorismo, a Província de Cabo Delgado tem sido pródiga em graves problemas com os profissionais da comunicação social. O jornalista Ibraimo Abú Mbaruco, locutor da Rádio Comunitária de Palma, desapareceu a 7 de abril de 2020 em Palma e o seu caso foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República, em agosto de 2024, por falta de provas.

Mbaruco regressava a casa depois da jornada de trabalho, quando enviou uma mensagem a um colega a informar que estava “cercado por militares”.

O desaparecimento ocorreu numa zona afetada por ataques de grupos armados. Organizações como o MISA-Moçambique indicaram que fontes locais apontavam para uma detenção pelas forças de defesa e segurança, embora o paradeiro nunca tenha sido oficialmente apurado. Entidades como a Anistia Internacional, a Human Rights Wach (HRW) e o MISA exigiram investigações profundas ao longo dos anos.

Organizações de direitos humanos continuam a relembrar o caso e a exigir respostas, associando-o a outras ocorrências recentes de desaparecimentos de figuras ligadas à comunicação social no País.

Conforme manifesto do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (https://jornalismoemeioambiente.com/2026/09/25/defender-o-jornalismo-independente-para-defender-a-democracia/) em solidariedade ao portal independente Tapajós de Fato (https://www.tapajosdefato.com.br/) jornalistas que se dedicam à cobertura ambiental correm risco de morte em certas regiões onde o crime contra o meio ambiente, povos indígenas, comunidades tradicionais e quilombolas ainda é uma realidade. No Brasil, tal situação de jornalistas já foi denunciada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e outras entidades e veículos de jornalismo. Mesmo com os avanços das medidas protetivas a jornalistas o perigo ainda é grande.

Conforme o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa (RSF), Moçambique aparece como um país em que ocorreu um declínio alarmante da liberdade de imprensa o que representa um risco, assim como na região norte do Brasil, para os jornalistas que cobrem o meio ambiente.

* Antropólogo, Doutorando em Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, membro do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

** Jornalista, Professora Titular aposentada atuando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS, líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

Defender o jornalismo independente para defender a democracia

Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental  se solidariza com o portal Tapajós de Fato pela liberdade de imprensa e contra a censura das denúncias ambientais no Brasil

Crédito: Ruddy Corporan/Unplash

Por Nico Kûara Costamilan e Eloisa Beling Loose

A decisão do portal independente Tapajós de Fato, sediado em Santarém (PA), de cancelar a cobertura das eleições de 2026 expõe um cenário alarmante da violência e insegurança enfrentada por jornalistas na Amazônia. Após frequentes intimidações, vandalismo, ameaças de morte e casos de agressão, o veículo relatou se ver forçado a deixar de cobrir e pautar diretamente a eleição de 2026. Diante do risco de vida de seus repórteres, a redação adaptou sua atuação com o lançamento da campanha #SeLiga, Eleitores. A campanha lançada na última quarta (23), irá pautar demandas socioambientais a partir de comunidades locais, sem a exposição de seus profissionais.

A escalada de hostilidades contra o Tapajós de Fato é registrada desde pouco depois da sua criação em 2020. Com foco na cobertura da defesa dos territórios e dos direitos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, o veículo dá visibilidade aos conflitos da região amazônica – o que vem resultando em formas de violência não sentidos apenas por jornalistas,  mas também por ambientalistas, organizações da sociedade civil e povos indígenas que denunciam crimes ambientais. O assassinato do líder sindical e ambientalista Chico Mendes, em 1988, decorrente da luta pela floresta e dos direitos dos seringueiros, nos lembra que tal prática é antiga e segue presente no Brasil.

O relatório Press and Planet in Danger [Imprensa e Planeta em Perigo], publicado pela UNESCO em 2024 mostra que 70% dos jornalistas que cobrem meio ambiente já foram alvo de ataques – assassinato, violência física, detenção e prisão, assédio online ou ataques judiciais. Somado ao fato que os acontecimentos ambientais são atravessados por grandes interesses políticos e econômicos, locais distantes dos grandes centros costumam exigir uma camada extra de cuidado por parte dos jornalistas.

Em período eleitoral, as disputas por poder se intensificam. Porém, quando tais práticas conseguem diminuir a cobertura jornalística durante o período eleitoral, quem perde é o eleitorado, que perde o acesso a informações plurais e fiscalizadoras que contribuem para um voto consciente. O recuo de uma redação inteira por medo de retaliações reflete o avanço da impunidade e a atuação desimpedida de grupos que buscam controlar o debate público pelo terror, sufocando vozes que denunciam abusos e violações de direitos na região.

O caso foi recentemente denunciado por reportagem da InfoAmazônia em parceria com o Repórter Brasil e a Agência Pública, e reforça a urgência de mecanismos eficazes de proteção e amparo jurídico aos comunicadores independentes, especialmente aqueles dedicados à pauta ambiental. A atuação de organizações como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI),  é indispensável na denúncia do assédio à imprensa livre, e na cobrança da atuação do Estado na proteção da categoria.

Em nota, a FENAJ afirma: “Nenhuma eleição pode ser plenamente informada quando jornalistas precisam escolher entre trabalhar e proteger a própria integridade”.  Proteger o direito à informação é tarefa do país pelo bem da transparência e da democracia, especialmente em época eleitoral. Também, é urgente a valorização dos jornalistas como categoria que se expõe a riscos pela informação pública e continua agindo mesmo com baixos salários e proteção precária. 

Na publicação Dia da Amazônia: O papel crucial do jornalismo na proteção da região, o Repórteres Sem Fronteiras (RSF) relembra o caso do assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira em Atalaia do Norte, e detalha as pressões específicas sobre os jornalistas amazônidas. Segundo o RSF, que anualmente produz o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, apesar de avanços, persistem fortes desafios na implementação das medidas de proteção a jornalistas e comunicadores na região. 

A Agência Pública, em reportagem sobre ataques a jornalistas em 2024 e 2025,  separou  ferramentas compartilhadas pelas organizações ABRAJI, RSF e Artigo 19 para proteção física, digital e jurídica de jornalistas: 

A Abraji também conta com um Programa de Proteção Legal para Jornalistas, e a Rede de Proteção para Jornalistas e Comunicadores tem portal para denúncias de ameaças ou ataques à liberdade de expressão sofridos pela categoria. Nesta quinta-feira (24/09) lançou a cartilha de proteção legal para jornalistas e comunicadores ambientais, com recomendações  sobre como preparar publicações, minimizando o risco de processos judiciais – uma estratégia usada para paralisar o trabalho jornalístico.

O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) manifesta solidariedade aos profissionais do Tapajós de Fato. Quando o Jornalismo Ambiental é desacreditado na sua necessidade política e profissional, situações como essa nos lembram que as ameaças e censuras acontecem com questões que incomodam: denúncias que desafiam criminosos e autoridades são as mais necessárias no jornalismo com real impacto social.

Pauta ambiental nas eleições também envolve atenção à trajetória dos territórios

Crédito: Erick Corrêa Semor – Pixabay

Por Ângela Camana*

Na última semana este Observatório discutiu como pautas ambientais têm sido ignoradas ao longo da cobertura das eleições no Brasil, ainda que o país aguarde por efeitos intensos do El Niño neste ano. Bem que no jornalismo vinculado aos grandes conglomerados esta ausência siga em voga, há poucos dias o portal InfoAmazônia contrariou esta tendência ao iniciar a série especial Eleições em Mapas, a qual relaciona a pauta ambiental e as escolhas políticas do eleitorado amazônico. Ao cruzar dados da expansão de atividades de exploração predatória da terra (como o agronegócio e a mineração) com o avanço eleitoral do conservadorismo na região, a série nos ajuda a compreender o lugar ocupado pela agenda ambiental na política hoje. E mais: escancara como as informações estão disponíveis, cabendo ao jornalismo a vontade e a disponibilidade de explorá-las com cuidado e rigor.

Publicado em 9 de setembro, o primeiro texto da série – Dinheiro do agronegócio cresce, e voto em partidos pró-clima encolhe na Amazônia – relaciona o crescimento das cadeias de commodities agropecuárias na Amazônia Legal com o declínio do voto em partidos pró-clima. Para elaborar esta definição, jornalistas mapearam os posicionamentos dos parlamentares e dos partidos quanto a agendas e propostas que se relacionam com a questão climática. Em tempo: explicar a construção dos índices e as fontes dos dados, disponibilizando-os, é mais um acerto do InfoAmazônia, revelando transparência e contribuição ativa ao controle público.

A iniciativa avança na já conhecida, mas não por isso menos necessária, reflexão sobre o desencontro entre agendas conservadoras e pautas ambientalistas. Neste sentido, a preservação e o fomento da sociobiodiversidade são temas associados a grupos que são entendidos como ameaças ao projeto político que interessa às antigas e novas direitas, como são os povos originários, entidades ambientalistas e o público acadêmico. Na Amazônia brasileira, onde as agendas de manutenção da vida dos e nos territórios e a expansão vertiginosa do agronegócio se chocam, isso tem efeitos perceptíveis nas trajetórias eleitorais recentes, como indica a série do InfoAmazônia.

Em uma época na qual as limitações colocadas pela ausência de recursos nas redações parecem ser a justificativa padrão para a ausência de análises de fôlego, a série do InfoAmazônia nos mostra como é possível fazer um jornalismo de profundidade sem necessariamente empreender longas viagens de reportagem. Os dados públicos, quando bem trabalhados, também contam histórias – e o bom jornalismo deve saber escutar.

Revisão: Sérgio Pereira, integrante do GPJA.

*Jornalista e socióloga. Professora na Faculdade de Ciências Sociais da UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: angelacamana@ufpa.br

Do aquecimento do planeta à exploração mineral: a menos de um mês das eleições brasileiras, onde está o meio ambiente na cobertura política?

Plantação sofre com a seca. Crédito: Janilson Furtado – Unsplash

Por Débora Gallas*

O mês de setembro começou com dois alertas globais da Organização das Nações Unidas. O primeiro é a iminente superação do limite de 1,5ºC no aquecimento do planeta em relação aos níveis pré-industriais, limite este definido pelos 195 signatários do Acordo de Paris em 2015. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, a perspectiva de transposição dessa barreira exige urgente mobilização para acelerar a transição energética, reduzir emissões e ampliar a proteção aos ambientes naturais, como florestas e oceanos.

O segundo alerta, com base nos dados da Organização Meteorológica Mundial, diz respeito à probabilidade próxima de 100% de persistência do fenômeno El Niño até fevereiro de 2027. Catalisado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o El Niño já influencia a temperatura global e pode potencializar a ocorrência dos eventos climáticos extremos, como secas, inundações e ondas de calor.

O início de setembro também marca os últimos momentos da campanha para as eleições presidenciais brasileiras de 2026. E uma busca pelos termos “eleições” + “mudanças climáticas” ou “El Niño” em 7 de setembro de 2026 mostra que os temas são cobertos em paralelo em editorias diferentes. Ainda que as mudanças climáticas e uma temporada de efeitos intensos do El Niño possam expor populações que vivem em áreas de risco, comprometer a produção agrícola e aumentar a suscetibilidade dos biomas brasileiros (exigindo, portanto, planos urgentes de adaptação a essa realidade ambiental), a discussão quase não aparece na cobertura eleitoral brasileira para além de algumas declarações de candidatos.

A busca por registros que conciliassem ambos os temas retornou apenas uma notícia de Correio Braziliense, que repercutiu em 4 de setembro uma entrevista do presidente Lula à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte (CE). Na ocasião, o candidato à reeleição pelo PT disse que o governo vem se preparando há meses para possíveis efeitos do El Niño com medidas como o armazenamento de alimentos para o caso de problemas na produção e a compra de veículos para facilitar a distribuição dos itens à população. O texto, no entanto, limita-se a reproduzir as declarações de Lula, e não encontramos outros esforços maiores de reportagem sobre o tema na imprensa.

Antes disso, o tema havia sido mal abordado na sabatina de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional em 28 de agosto, quando o candidato do PL não corrigiu suas falas negacionistas do passado ao ser questionado por Renata Vasconcellos sobre se ainda acreditava que aquecimento global não existia. Além disso, o senador afirmou que a forma mais efetiva de mitigar os efeitos dos eventos climáticos extremos seria investir em saneamento básico – sem que a resposta fosse contestada com a exigência de medidas mais específicas aos efeitos das mudanças climáticas antes que Bolsonaro mudasse de assunto por conta própria.

Mesmo quando alguma questão ambiental pede entrada no noticiário pela via do escândalo político do momento, há pouco esforço de cobertura sobre essa intersecção. Em 3 de setembro, a jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, revelou um diálogo entre o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusações de fraudes na gestão do Banco Master. O contato realizado em março de 2025 foi motivado pelo interesse de seu ex-assessor e advogado, Thiago Rodrigues de Faria, em destravar um ativo minerário – uma espécie de direito à exploração de um recurso mineral.

Apesar da repercussão do contato no restante da imprensa, poucos veículos contextualizaram o pedido de Nikolas. Segundo busca realizada na ferramenta Google Notícias em 7 de setembro, apenas o jornal Estado de Minas explicou que a firma advocatícia de Faria mantinha um contrato com uma empresa investigada por extração ilegal de minério de ferro, que também atuava negociando os direitos da mineradora Topázio Ambiental, incluindo uma barragem com alto risco de rompimento em Ouro Preto. As informações não são recentes — a apuração está relacionada à cobertura da Operação Rejeito, da Polícia Federal, que em 2025 revelou um esquema de fraudes ambientais em Minas Gerais. Mas ainda falta saber de que forma exatamente o Banco Master beneficiaria o negócio de Faria com tais ativos minerários e se tinham relação com algum ilícito investigado pela PF.

O tema mereceria continuidade a partir de uma abordagem preventiva, como preconiza o Jornalismo Ambiental, tendo em vista que os desastres de mineração com epicentro no rompimento de barragens em Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019, além de devastarem comunidades locais inteiras, contaminaram toda uma bacia hidrográfica e até mesmo uma porção do litoral brasileiro. Assim como já conhecemos os riscos em deixar a população suscetível às mudanças climáticas sem medidas de precaução e adaptação, conhecemos bem as consequências de uma aposta política e financeira no extrativismo predatório, que prioriza a geração de riqueza ante a proteção dos ecossistemas e a segurança das pessoas.

Cobrar ações de Estado diante da crise climática e questionar atores envolvidos na possível interferência sobre a gestão dos nossos bens naturais são prismas de um mesmo problema. E nada disso está em pauta a menos de um mês das eleições.

Revisão: Ângela Camana

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.

Nepal, a carta da vez: como o jornalismo constrói os números de uma tragédia

Montanha Himalaia. Crédito: Pixabay

Por Gabriella de Barros*

O Nepal passa a ser a carta da vez nas tragédias climáticas que assolam o planeta. No ano passado, o vilarejo Blatten, na Suíça, passou por uma condição semelhante, em proporções menores, mas que também aterrorizou a população local. Felizmente, naquela ocasião, apenas uma morte foi registrada. No Nepal, entretanto, o número de mortos aumenta a cada nova busca realizada. A catástrofe ocorreu na montanha Langtang Lirung, o cume mais alto de uma subcordilheira dos Himalaias, localizada a cerca de cinco quilômetros da fronteira com o Tibete.

Em acontecimentos climáticos dessa magnitude, é comum que o número de mortos apareça em destaque nas notícias. Afinal, um dos fatores que orientam a cobertura jornalística é o imediatismo, que se torna fundamental diante da necessidade de acompanhar os acontecimentos à medida que novas informações são apresentadas. Nesse contexto, o jornalismo também disputa espaço com a desinformação, que podem dificultar a chegada de dados corretos à sociedade. Em notícias publicadas por O Globo e UOL, por exemplo, foi abordada a decisão da China de punir dez pessoas por divulgarem informações falsas ao aumentarem o número de mortos no Nepal, dado que não correspondia à realidade divulgada pelos órgãos oficiais.

A cobertura realizada por diferentes veículos brasileiros permite observar como a atualização do número de mortos se torna parte central da narrativa sobre a tragédia no Nepal. Na CNN Brasil, a matéria publicada em 31 de agosto traz no título a informação de que as mortes “sobem para 939”, enquanto o subtítulo destaca que o novo balanço registra 20 mortes a mais e uma redução de mais de 300 desaparecidos em relação aos números divulgados anteriormente naquele mesmo dia. No texto, o veículo informa que o número de 939 mortos foi divulgado pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres (NDRRMA), enquanto o balanço anterior registrava 903 mortos no país.

A Itatiaia, também em 31 de agosto, utiliza os 939 mortos como informação principal do título: “Nepal registra 939 mortes devido à enchente; buscas entram no 5º dia”. O subtítulo acrescenta que o número de desaparecidos chegou a 3.925. No corpo da matéria, os números são atribuídos às autoridades locais e, além dos dados referentes ao Nepal, são apresentados os números do lado do Tibete com 16 mortos e 546 desaparecidos. A matéria relaciona a atualização dos números à continuidade das buscas, destacando que os socorristas seguem trabalhando pelo quinto dia.

O Globo, por sua vez, apresenta uma escolha diferente no título ao afirmar que o “número de mortos após enchentes e deslizamentos entre Nepal e Tibete se aproxima de mil” e associa a informação a um “novo balanço”. Em vez de destacar diretamente o número de 939 mortos, como fazem a CNN Brasil e Itatiaia, o veículo utiliza uma expressão aproximativa. Essa escolha é relevante porque evidencia que a contagem das vítimas ainda está em processo de atualização.

A comparação entre as três matérias demonstra que o número de mortos não é simplesmente reproduzido pelo jornalismo, mas atualizado e enquadrado de diferentes maneiras. CNN Brasil e Itatiaia optam por apresentar o número exato de 939 mortos em seus títulos, enquanto O Globo prefere utilizar a expressão “se aproxima de mil”. Ao mesmo tempo, a CNN evidencia de forma mais explícita a variação dos dados ao comparar o novo balanço de 939 mortos com os 903 registrados anteriormente.

Essa diferença de abordagem permite observar uma característica importante da cobertura jornalística de tragédias, os números das vítimas funcionam, ao mesmo tempo, como informação factual e como recurso para dimensionar a gravidade do acontecimento. A escolha entre apresentar um número exato ou uma aproximação não é apenas uma questão de estilo. Ela também interfere na maneira como o leitor compreende a dimensão da tragédia e a situação das buscas.

Nesse contexto, a atualização constante dos números destaca um dos desafios da cobertura jornalística de acontecimentos dessa natureza. A CNN Brasil mostra que, no mesmo dia, o balanço passou de 903 para 939 mortos e de 4.247 para 3.925 desaparecidos no Nepal. A Itatiaia, por sua vez, apresenta os mesmos 939 mortos e 3.925 desaparecidos, vinculando esses números à continuidade das operações de busca.

Assim, acompanhar uma tragédia em tempo real exige que o jornalismo concilie o imediatismo com a necessidade de confirmar e contextualizar os dados. O número de mortos pode mudar conforme novas informações são contabilizadas, e cada atualização precisa deixar claro ao leitor que se trata de um balanço referente a determinado momento. Nesse sentido, informar rapidamente não significa apenas divulgar o número mais recente, mas também indicar sua origem e situá-lo dentro do processo de busca e contabilização das vítimas.

A questão se torna ainda mais relevante quando se considera que o número de mortos possui forte impacto na construção da narrativa sobre uma tragédia. A transformação de 903 em 939 mortos, por exemplo, não representa apenas uma atualização estatística, ela altera a dimensão percebida do acontecimento. Por isso, a apuração e a atribuição dos dados são fundamentais para que a urgência da cobertura não produza uma falsa sensação de precisão em uma situação que ainda está em desenvolvimento.

É justamente nesse ponto que a cobertura de tragédias climáticas coloca um desafio particular ao jornalismo: como conciliar o imediatismo, necessário para acompanhar uma emergência em andamento, com a responsabilidade de não transformar estimativas, informações preliminares ou dados ainda não confirmados em números definitivos. Mais do que informar rapidamente, é necessário garantir que os números apresentados sejam confirmados e contextualizados, evitando que a urgência da cobertura contribua para a própria circulação da desinformação.

Revisão: Profa.Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi, líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

O clima não espera o próximo mandato: o jornalismo no RS precisa ir além do papel aceita-tudo

Palácio Farroupilha. Crédito: Raquel Teixeira Pereira

Por Cláudia Herte de Moraes* e Franchesco de Oliveira Y Castro**

As eleições gerais de 2026 acontecem em um contexto marcado por desafios que ultrapassam a disputa entre candidaturas e projetos de governo. No Rio Grande do Sul, estado que nos últimos anos vivenciou de forma intensa os impactos de eventos climáticos extremos, a discussão sobre o clima ocupa um espaço cada vez mais relevante no debate público. As inundações de 2024, os episódios recorrentes de estiagem e as chuvas intensas nos últimos anos evidenciam que a questão climática já faz parte da realidade da população gaúcha.

Desta forma, as eleições colocam em disputa questões relacionadas à prevenção de desastres, reconstrução, adaptação das cidades, recursos hídricos, habitação e proteção ambiental, que passam a fazer parte de um debate que interessa à população. A própria atuação contínua da Defesa Civil estadual diante de riscos de inundação, chuvas e outros eventos extremos evidencia a permanência desse cenário de vulnerabilidade.

Recentemente, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) publicou um Manifesto Ecopolítico sobre as questões ambientais e democráticas que estão em jogo nas eleições gerais deste ano. No documento, observamos amplas indicações para tratar o tema da emergência climática com variadas formas de proteção ambiental e uso cuidadoso de nosso ambiente. Entre outras, constam ações para preservar os biomas, como o resgate dos fatores protetivos do Código Ambiental e Florestal; fortalecer a autonomia e a estrutura dos setores de fiscalização e licenciamento ambiental; ampliar a proteção às águas e a qualificação dos conselhos de bacia; promover a alimentação agroecológica e priorizar atividades agrícolas que conservem a biodiversidade.

Esse contexto pede uma reflexão sobre como o jornalismo traz ao campo político e eleitoral as propostas relacionadas às questões ambientais e climáticas. Para identificar como o tema ambiental aparece neste início de campanha eleitoral, realizamos uma busca no Google pelos termos “eleições 2026, Rio Grande do Sul e questões ambientais”. O levantamento encontrou apenas dois textos que introduzem o debate ambiental.

A coluna de Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), publicada em (o)eco, coloca as eleições de 2026 no contexto da emergência climática e defende que a questão ambiental deve ocupar uma posição central na avaliação das candidaturas ao legislativo. O texto parte da ocorrência de ondas de calor, secas, incêndios, enchentes e deslizamentos para argumentar que governar, diante do cenário atual, exige capacidade de antecipar e administrar os riscos.

Bocuhy argumenta sobre aquilo que considera necessário para o exercício do poder público, abordando temas como segurança hídrica, infraestrutura, saúde pública, ocupação territorial, energia e segurança alimentar. A coluna também critica tanto o negacionismo climático quanto o reconhecimento superficial da crise, associado pelo autor ao Greenwashing, quando uma organização tenta parecer mais sustentável do que realmente é. A relação entre o tempo limitado dos mandatos e as consequências ambientais de longo prazo também é destacada, mostrando que decisões tomadas durante um período de mandato podem produzir efeitos por décadas e atravessar gerações.

A ciência aparece como um dos principais elementos de sustentação da argumentação, enquanto o texto também valoriza a articulação entre conhecimento científico, saberes territoriais e participação social, defendendo que diferentes formas de conhecimento devem ser consideradas na construção de políticas climáticas.

O segundo material foi apresentado pelo G1 RS. Nesta matéria, o site contextualizou o tema “proteção contra as cheias”, apontado como a grande expectativa e preocupação da população gaúcha, tendo em vista os recentes episódios de extremos climáticos vivenciados no território. No entanto, não houve intervenção jornalística relevante, pois a abordagem foi apenas apresentar o que cada partido registrou no plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral.

Desta forma, nesses primeiros dias da campanha eleitoral, o jornalismo pautou a importância do tema, porém ainda não deu espaço a reportagens ou aproximações críticas quanto aos planos apresentados. Falta confrontar as promessas impressas com a prática de cada partido e dos grupos políticos ao longo dos últimos anos, especialmente como votam e fazem a gestão ambiental quando estão no poder, numa fase anterior e distante da decisão das urnas. Se o jargão popular diz que “o papel aceita tudo”, cresce a responsabilidade do jornalismo de analisar cada proposta trazida ao debate, criticando as propostas vazias ou apenas retóricas. A crise climática não dá trégua e não cabe mais no tempo de mandatos; é uma questão grave e preocupante que exige ações urgentes e responsabilidades de longo prazo.

Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.