Do aquecimento do planeta à exploração mineral: a menos de um mês das eleições brasileiras, onde está o meio ambiente na cobertura política?

Plantação sofre com a seca. Crédito: Janilson Furtado – Unsplash

Por Débora Gallas*

O mês de setembro começou com dois alertas globais da Organização das Nações Unidas. O primeiro é a iminente superação do limite de 1,5ºC no aquecimento do planeta em relação aos níveis pré-industriais, limite este definido pelos 195 signatários do Acordo de Paris em 2015. Segundo o secretário-geral da ONU, António Guterres, a perspectiva de transposição dessa barreira exige urgente mobilização para acelerar a transição energética, reduzir emissões e ampliar a proteção aos ambientes naturais, como florestas e oceanos.

O segundo alerta, com base nos dados da Organização Meteorológica Mundial, diz respeito à probabilidade próxima de 100% de persistência do fenômeno El Niño até fevereiro de 2027. Catalisado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o El Niño já influencia a temperatura global e pode potencializar a ocorrência dos eventos climáticos extremos, como secas, inundações e ondas de calor.

O início de setembro também marca os últimos momentos da campanha para as eleições presidenciais brasileiras de 2026. E uma busca pelos termos “eleições” + “mudanças climáticas” ou “El Niño” em 7 de setembro de 2026 mostra que os temas são cobertos em paralelo em editorias diferentes. Ainda que as mudanças climáticas e uma temporada de efeitos intensos do El Niño possam expor populações que vivem em áreas de risco, comprometer a produção agrícola e aumentar a suscetibilidade dos biomas brasileiros (exigindo, portanto, planos urgentes de adaptação a essa realidade ambiental), a discussão quase não aparece na cobertura eleitoral brasileira para além de algumas declarações de candidatos.

A busca por registros que conciliassem ambos os temas retornou apenas uma notícia de Correio Braziliense, que repercutiu em 4 de setembro uma entrevista do presidente Lula à Rádio Progresso, de Juazeiro do Norte (CE). Na ocasião, o candidato à reeleição pelo PT disse que o governo vem se preparando há meses para possíveis efeitos do El Niño com medidas como o armazenamento de alimentos para o caso de problemas na produção e a compra de veículos para facilitar a distribuição dos itens à população. O texto, no entanto, limita-se a reproduzir as declarações de Lula, e não encontramos outros esforços maiores de reportagem sobre o tema na imprensa.

Antes disso, o tema havia sido mal abordado na sabatina de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional em 28 de agosto, quando o candidato do PL não corrigiu suas falas negacionistas do passado ao ser questionado por Renata Vasconcellos sobre se ainda acreditava que aquecimento global não existia. Além disso, o senador afirmou que a forma mais efetiva de mitigar os efeitos dos eventos climáticos extremos seria investir em saneamento básico – sem que a resposta fosse contestada com a exigência de medidas mais específicas aos efeitos das mudanças climáticas antes que Bolsonaro mudasse de assunto por conta própria.

Mesmo quando alguma questão ambiental pede entrada no noticiário pela via do escândalo político do momento, há pouco esforço de cobertura sobre essa intersecção. Em 3 de setembro, a jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias, revelou um diálogo entre o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, e o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusações de fraudes na gestão do Banco Master. O contato realizado em março de 2025 foi motivado pelo interesse de seu ex-assessor e advogado, Thiago Rodrigues de Faria, em destravar um ativo minerário – uma espécie de direito à exploração de um recurso mineral.

Apesar da repercussão do contato no restante da imprensa, poucos veículos contextualizaram o pedido de Nikolas. Segundo busca realizada na ferramenta Google Notícias em 7 de setembro, apenas o jornal Estado de Minas explicou que a firma advocatícia de Faria mantinha um contrato com uma empresa investigada por extração ilegal de minério de ferro, que também atuava negociando os direitos da mineradora Topázio Ambiental, incluindo uma barragem com alto risco de rompimento em Ouro Preto. As informações não são recentes — a apuração está relacionada à cobertura da Operação Rejeito, da Polícia Federal, que em 2025 revelou um esquema de fraudes ambientais em Minas Gerais. Mas ainda falta saber de que forma exatamente o Banco Master beneficiaria o negócio de Faria com tais ativos minerários e se tinham relação com algum ilícito investigado pela PF.

O tema mereceria continuidade a partir de uma abordagem preventiva, como preconiza o Jornalismo Ambiental, tendo em vista que os desastres de mineração com epicentro no rompimento de barragens em Mariana em 2015 e Brumadinho em 2019, além de devastarem comunidades locais inteiras, contaminaram toda uma bacia hidrográfica e até mesmo uma porção do litoral brasileiro. Assim como já conhecemos os riscos em deixar a população suscetível às mudanças climáticas sem medidas de precaução e adaptação, conhecemos bem as consequências de uma aposta política e financeira no extrativismo predatório, que prioriza a geração de riqueza ante a proteção dos ecossistemas e a segurança das pessoas.

Cobrar ações de Estado diante da crise climática e questionar atores envolvidos na possível interferência sobre a gestão dos nossos bens naturais são prismas de um mesmo problema. E nada disso está em pauta a menos de um mês das eleições.

Revisão: Ângela Camana

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.

Nepal, a carta da vez: como o jornalismo constrói os números de uma tragédia

Montanha Himalaia. Crédito: Pixabay

Por Gabriella de Barros*

O Nepal passa a ser a carta da vez nas tragédias climáticas que assolam o planeta. No ano passado, o vilarejo Blatten, na Suíça, passou por uma condição semelhante, em proporções menores, mas que também aterrorizou a população local. Felizmente, naquela ocasião, apenas uma morte foi registrada. No Nepal, entretanto, o número de mortos aumenta a cada nova busca realizada. A catástrofe ocorreu na montanha Langtang Lirung, o cume mais alto de uma subcordilheira dos Himalaias, localizada a cerca de cinco quilômetros da fronteira com o Tibete.

Em acontecimentos climáticos dessa magnitude, é comum que o número de mortos apareça em destaque nas notícias. Afinal, um dos fatores que orientam a cobertura jornalística é o imediatismo, que se torna fundamental diante da necessidade de acompanhar os acontecimentos à medida que novas informações são apresentadas. Nesse contexto, o jornalismo também disputa espaço com a desinformação, que podem dificultar a chegada de dados corretos à sociedade. Em notícias publicadas por O Globo e UOL, por exemplo, foi abordada a decisão da China de punir dez pessoas por divulgarem informações falsas ao aumentarem o número de mortos no Nepal, dado que não correspondia à realidade divulgada pelos órgãos oficiais.

A cobertura realizada por diferentes veículos brasileiros permite observar como a atualização do número de mortos se torna parte central da narrativa sobre a tragédia no Nepal. Na CNN Brasil, a matéria publicada em 31 de agosto traz no título a informação de que as mortes “sobem para 939”, enquanto o subtítulo destaca que o novo balanço registra 20 mortes a mais e uma redução de mais de 300 desaparecidos em relação aos números divulgados anteriormente naquele mesmo dia. No texto, o veículo informa que o número de 939 mortos foi divulgado pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres (NDRRMA), enquanto o balanço anterior registrava 903 mortos no país.

A Itatiaia, também em 31 de agosto, utiliza os 939 mortos como informação principal do título: “Nepal registra 939 mortes devido à enchente; buscas entram no 5º dia”. O subtítulo acrescenta que o número de desaparecidos chegou a 3.925. No corpo da matéria, os números são atribuídos às autoridades locais e, além dos dados referentes ao Nepal, são apresentados os números do lado do Tibete com 16 mortos e 546 desaparecidos. A matéria relaciona a atualização dos números à continuidade das buscas, destacando que os socorristas seguem trabalhando pelo quinto dia.

O Globo, por sua vez, apresenta uma escolha diferente no título ao afirmar que o “número de mortos após enchentes e deslizamentos entre Nepal e Tibete se aproxima de mil” e associa a informação a um “novo balanço”. Em vez de destacar diretamente o número de 939 mortos, como fazem a CNN Brasil e Itatiaia, o veículo utiliza uma expressão aproximativa. Essa escolha é relevante porque evidencia que a contagem das vítimas ainda está em processo de atualização.

A comparação entre as três matérias demonstra que o número de mortos não é simplesmente reproduzido pelo jornalismo, mas atualizado e enquadrado de diferentes maneiras. CNN Brasil e Itatiaia optam por apresentar o número exato de 939 mortos em seus títulos, enquanto O Globo prefere utilizar a expressão “se aproxima de mil”. Ao mesmo tempo, a CNN evidencia de forma mais explícita a variação dos dados ao comparar o novo balanço de 939 mortos com os 903 registrados anteriormente.

Essa diferença de abordagem permite observar uma característica importante da cobertura jornalística de tragédias, os números das vítimas funcionam, ao mesmo tempo, como informação factual e como recurso para dimensionar a gravidade do acontecimento. A escolha entre apresentar um número exato ou uma aproximação não é apenas uma questão de estilo. Ela também interfere na maneira como o leitor compreende a dimensão da tragédia e a situação das buscas.

Nesse contexto, a atualização constante dos números destaca um dos desafios da cobertura jornalística de acontecimentos dessa natureza. A CNN Brasil mostra que, no mesmo dia, o balanço passou de 903 para 939 mortos e de 4.247 para 3.925 desaparecidos no Nepal. A Itatiaia, por sua vez, apresenta os mesmos 939 mortos e 3.925 desaparecidos, vinculando esses números à continuidade das operações de busca.

Assim, acompanhar uma tragédia em tempo real exige que o jornalismo concilie o imediatismo com a necessidade de confirmar e contextualizar os dados. O número de mortos pode mudar conforme novas informações são contabilizadas, e cada atualização precisa deixar claro ao leitor que se trata de um balanço referente a determinado momento. Nesse sentido, informar rapidamente não significa apenas divulgar o número mais recente, mas também indicar sua origem e situá-lo dentro do processo de busca e contabilização das vítimas.

A questão se torna ainda mais relevante quando se considera que o número de mortos possui forte impacto na construção da narrativa sobre uma tragédia. A transformação de 903 em 939 mortos, por exemplo, não representa apenas uma atualização estatística, ela altera a dimensão percebida do acontecimento. Por isso, a apuração e a atribuição dos dados são fundamentais para que a urgência da cobertura não produza uma falsa sensação de precisão em uma situação que ainda está em desenvolvimento.

É justamente nesse ponto que a cobertura de tragédias climáticas coloca um desafio particular ao jornalismo: como conciliar o imediatismo, necessário para acompanhar uma emergência em andamento, com a responsabilidade de não transformar estimativas, informações preliminares ou dados ainda não confirmados em números definitivos. Mais do que informar rapidamente, é necessário garantir que os números apresentados sejam confirmados e contextualizados, evitando que a urgência da cobertura contribua para a própria circulação da desinformação.

Revisão: Profa.Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi, líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

O clima não espera o próximo mandato: o jornalismo no RS precisa ir além do papel aceita-tudo

Palácio Farroupilha. Crédito: Raquel Teixeira Pereira

Por Cláudia Herte de Moraes* e Franchesco de Oliveira Y Castro**

As eleições gerais de 2026 acontecem em um contexto marcado por desafios que ultrapassam a disputa entre candidaturas e projetos de governo. No Rio Grande do Sul, estado que nos últimos anos vivenciou de forma intensa os impactos de eventos climáticos extremos, a discussão sobre o clima ocupa um espaço cada vez mais relevante no debate público. As inundações de 2024, os episódios recorrentes de estiagem e as chuvas intensas nos últimos anos evidenciam que a questão climática já faz parte da realidade da população gaúcha.

Desta forma, as eleições colocam em disputa questões relacionadas à prevenção de desastres, reconstrução, adaptação das cidades, recursos hídricos, habitação e proteção ambiental, que passam a fazer parte de um debate que interessa à população. A própria atuação contínua da Defesa Civil estadual diante de riscos de inundação, chuvas e outros eventos extremos evidencia a permanência desse cenário de vulnerabilidade.

Recentemente, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) publicou um Manifesto Ecopolítico sobre as questões ambientais e democráticas que estão em jogo nas eleições gerais deste ano. No documento, observamos amplas indicações para tratar o tema da emergência climática com variadas formas de proteção ambiental e uso cuidadoso de nosso ambiente. Entre outras, constam ações para preservar os biomas, como o resgate dos fatores protetivos do Código Ambiental e Florestal; fortalecer a autonomia e a estrutura dos setores de fiscalização e licenciamento ambiental; ampliar a proteção às águas e a qualificação dos conselhos de bacia; promover a alimentação agroecológica e priorizar atividades agrícolas que conservem a biodiversidade.

Esse contexto pede uma reflexão sobre como o jornalismo traz ao campo político e eleitoral as propostas relacionadas às questões ambientais e climáticas. Para identificar como o tema ambiental aparece neste início de campanha eleitoral, realizamos uma busca no Google pelos termos “eleições 2026, Rio Grande do Sul e questões ambientais”. O levantamento encontrou apenas dois textos que introduzem o debate ambiental.

A coluna de Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), publicada em (o)eco, coloca as eleições de 2026 no contexto da emergência climática e defende que a questão ambiental deve ocupar uma posição central na avaliação das candidaturas ao legislativo. O texto parte da ocorrência de ondas de calor, secas, incêndios, enchentes e deslizamentos para argumentar que governar, diante do cenário atual, exige capacidade de antecipar e administrar os riscos.

Bocuhy argumenta sobre aquilo que considera necessário para o exercício do poder público, abordando temas como segurança hídrica, infraestrutura, saúde pública, ocupação territorial, energia e segurança alimentar. A coluna também critica tanto o negacionismo climático quanto o reconhecimento superficial da crise, associado pelo autor ao Greenwashing, quando uma organização tenta parecer mais sustentável do que realmente é. A relação entre o tempo limitado dos mandatos e as consequências ambientais de longo prazo também é destacada, mostrando que decisões tomadas durante um período de mandato podem produzir efeitos por décadas e atravessar gerações.

A ciência aparece como um dos principais elementos de sustentação da argumentação, enquanto o texto também valoriza a articulação entre conhecimento científico, saberes territoriais e participação social, defendendo que diferentes formas de conhecimento devem ser consideradas na construção de políticas climáticas.

O segundo material foi apresentado pelo G1 RS. Nesta matéria, o site contextualizou o tema “proteção contra as cheias”, apontado como a grande expectativa e preocupação da população gaúcha, tendo em vista os recentes episódios de extremos climáticos vivenciados no território. No entanto, não houve intervenção jornalística relevante, pois a abordagem foi apenas apresentar o que cada partido registrou no plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral.

Desta forma, nesses primeiros dias da campanha eleitoral, o jornalismo pautou a importância do tema, porém ainda não deu espaço a reportagens ou aproximações críticas quanto aos planos apresentados. Falta confrontar as promessas impressas com a prática de cada partido e dos grupos políticos ao longo dos últimos anos, especialmente como votam e fazem a gestão ambiental quando estão no poder, numa fase anterior e distante da decisão das urnas. Se o jargão popular diz que “o papel aceita tudo”, cresce a responsabilidade do jornalismo de analisar cada proposta trazida ao debate, criticando as propostas vazias ou apenas retóricas. A crise climática não dá trégua e não cabe mais no tempo de mandatos; é uma questão grave e preocupante que exige ações urgentes e responsabilidades de longo prazo.

Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br.

Antes tarde do que mais tarde: relação entre ação humana, perda de vegetação nativa, agronegócio e El Niño é destaque na imprensa

Região amazônica. Crédito: Débora Gallas Steigleder.

Por Luciano Velleda*

Sendo o agronegócio responsável por 22,8% do PIB do Brasil no primeiro trimestre de 2026, segundo cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, não é comum ver na imprensa hegemônica a relação da perda de vegetação nativa com a crise climática, menos ainda a influência da expansão do agronegócio para o problema. Todavia, no último dia 12 de agosto, o padrão mudou. A divulgação da Coleção 11 do MapBiomas teve boa repercussão na imprensa, indo além dos veículos que já costumam apontar a relação entre a perda de vegetação nativa e as mudanças climáticas. O mais recente estudo do MapBiomas indica que a vegetação nativa do território brasileiro caiu de 79% para 65% desde 1985. Nesse período, a área ocupada pela agropecuária cresceu de 18% para 32% do território nacional.

Em algumas matérias pesquisadas, o título já resume a essência do relatório do MapBiomas, como foi o caso do jornal O Globo, que estampou: “Perda de vegetação nativa para a pecuária deixa o Brasil mais exposto aos eventos extremos do El Niño, aponta MapBiomas”. A linha de apoio ao título reafirmou o sentido da mensagem: “Dados revelam que país está mais vulnerável aos efeitos de secas e enchentes”.

Ao relacionar os dados de ocupação e uso da terra com os dados do MapBiomas Atmosfera, o relatório mostra que o impacto de três fortes El Niño nos anos de 1997/98, 2015/16 e 2023/24 foram maiores em áreas com predomínio da agropecuária do que em áreas onde prevalecem florestas, especialmente na Amazônia. Enquanto nos biomas Amazônia, Pantanal, Cerrado e norte da Mata Atlântica, a consequência do El Niño é a seca, no Pampa é a chuva. O estudo ressalta que os maiores volumes de chuvas no Pampa ocorreram onde a vegetação nativa deu lugar a agropecuária. No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, no entanto, a seca foi mais intensa em áreas de vegetação nativa.

No jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, a manchete foi direto ao ponto: “Brasil perde cobertura de vegetação nativa e enfrenta risco de impacto maior do El Niño”. O jornal O Povo, de Fortaleza, deu o recado igualmente direto: “Mapbiomas: menor vegetação nativa expõe mais o país ao El Niño”. A manchete do Canal Rural também relaciona a perda da vegetação nativa com o maior impacto do El Nino ao dizer: “MapBiomas aponta menor resiliência ao El Niño em áreas com perda de vegetação nativa”. O texto do Canal Rural ressalta os destaques dados pelo estudo, em que a Amazônia teve o menor volume de chuvas entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados, com a maior redução no último El Niño (2023/2024) nas áreas de agropecuária no bioma. 

No Portal UOL, o título foi: “Brasil perde cobertura de vegetação nativa e enfrenta risco de impacto maior do El Niño”. Ainda que a relação da agropecuária não esteja colocada na manchete do UOL, ela aparece logo nos primeiros parágrafos. “Uma análise do MapBiomas mostra que as regiões dominadas pela agricultura foram mais vulneráveis aos eventos extremos meteorológicos durante três episódios passados de El Niño de grande intensidade”, diz o trecho. O portal R7, da Record, foi pelo mesmo caminho e estampou: “MapBiomas: quanto menor a vegetação nativa presente, mais exposto país estará ao El Niño”. O sites G1 e CNN Brasil também deram visibilidade ao estudo do MapBiomas, ainda que sem tanta ênfase na relação da perda de vegetação nativa e o El Niño.

A análise da repercussão do estudo mostra um momento pouco usual na cobertura da imprensa tradicional sobre a crise climática, considerando que normalmente a relação entre causa (a ação humana) e efeito não costuma ser feita. Talvez a expectativa com a projeção de um histórico El Niño tenha contribuído para a salutar mudança de perspectiva. Resta saber se será um caso isolado ou o início de uma nova tendência na cobertura da crise climática.

* É jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O maior lixão têxtil do mundo tem endereço

Pilhas de roupas. Crédito: Pexels.

Por Carine Massierer*

Você sabe qual o endereço do maior lixão do mundo? O maior lixão de roupas do mundo fica no Deserto do Atacama, nos arredores de Alto Hospício e próximo a Iquique, no Norte do Chile. A montanha de roupas descartadas que a Europa envia para o Chile já ultrapassa 60 mil toneladas e é visível do espaço. Esta manchete voltou a circular pela imprensa brasileira e internacional há poucos dias, nos veículos Correio Brasiliense, Gazeta de São Paulo, O Globo e o jornal online AS, por exemplo.O tema também ganhou as redes sociais da imprensa e de ativistas como neste link: https://www.instagram.com/p/DbQIC2TmHXv/.

O tema não é novo e o problema só cresce, já que este é o maior aterro sanitário do mundo, agora visto do espaço, e já se tornou um símbolo do impacto ambiental da indústria da moda rápida, mais conhecida como fast fashion. Em 2019, a jornalista Eutalita Bezerra, doutora em Comunicação, já trazia o tema da insustentabilidade da moda para debate aqui no Observatório de Jornalismo Ambiental e sinalizava que tal indústria tinha previsão de produzir, até 2030, 102 milhões de toneladas de roupas e calçados e que faltava um esforço conjunto do setor para diminuir a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

O consumo acelerado e a dificuldade de reciclagem dos tecidos sintéticos são os principais motivos para que o lixão só se amplie. A montanha de resíduos ocupa uma área de dezenas de hectares perto de bairros pobres da cidade de Alto Hospicio. O problema vai além do impacto visual. Grande parte das roupas é feita com fibras sintéticas derivadas do petróleo e, quando queimadas ou degradadas, liberam compostos poluentes e microplásticos.

Os textos analisados – nesta volta do tema neste Observatório – trazem informações de como o deserto se tornou um depósito de roupas, o impacto ambiental dos tecidos, de onde vêm os produtos têxteis, quem vive perto dos lixões, os problemas ambientais causados pelo lixão e o que pode ser feito. O que chama a atenção neste conjunto é a inexistência da responsabilização e do porquê o lixão aumenta a cada ano que passa. Em 2 de julho de 2018, o jornal chileno La Tercera publicou a reportagem “La contaminación no tradicional del desierto: ropa”, de Alejandra Lobo. O texto já tratava do descarte de roupas no deserto como um problema de contaminação, mas, até agora, de fato, nada parece deter o aumento de descarte no local.

A fotografia aérea do lixão, utilizada na ilustração da matéria, pela Gazeta de São Paulo e pelo O Globo (no Instagram e no site), é a mesma, o que chama a atenção. A imagem é de Martín Bernetti, fotógrafo feita para Agence France-Presse (AFP) e circulou pelo mundo desde 2021 quando foi feita.

Essa fotografia traz o enquadramento aéreo e transforma as roupas em uma espécie de “mancha” ou “paisagem” no deserto. O observador não vê propriamente indivíduos, mas a dimensão territorial do problema.

A partir destas matérias é possível perceber que são muitos os sentidos que a foto área ativa nas pessoas que acessam as matérias promovendo uma reflexão importante sobre consumo, descarte, fast fashion, risco ambiental e escala global. A imagem visível e ampla mostra que o problema aumenta e é global e que o descarte adequado passa também por uma reflexão sobre consumo, desigualdade socioambiental e risco ambiental. A circulação propiciada na sociedade contemporânea pela midiatização faz com que tenhamos acesso a este tipo de informação, e a imagem que acompanha a matéria nos chama a atenção o suficiente para entendermos que um problema do Chile é a consequência das atitudes consumistas desenfreadas de parte da humanidade.

Revisora: Cláudia Moraes, integrante do GPJA.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Imprensa e crise climática: negacionismo velado, falta de entendimento ou censura editorial?

Imagem de Manaus. Crédito: Heverton Lacerda.

Por Heverton Lacerda*

Não é de hoje que a pauta ecológica tem sido tratada com desprezo ou até mesmo com certa infantilidade pelo jornalismo comercial hegemônico no Brasil. O cerne da questão, aquele detalhe vital que indica que o modelo atual de desenvolvimento promovido pela humanidade está destruindo o planeta, não é pautado com o destaque que a emergência dos tempos exige.  

As abordagens jornalísticas das mídias hegemônicas não alcançam a profundidade necessária ao noticiar os fenômenos climáticos que, conforme anunciado há décadas, estão ficando cada vez mais frequentes e intensos. Como bem destacou o jornalista e pesquisador Luciano Velleda em artigo publicado neste Observatório no dia 10 de julho, mesmo quando as notícias relacionam os fatos com as mudanças do clima, “as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala”. Percebe-se um pequeno avanço, embora tardio, no reconhecimento das mudanças climáticas, mas grita a falta de conexão entre o problema e suas causas.

Esse encobrimento de informações essenciais nas coberturas sobre fatos relacionados às mudanças climáticas é sintomático de um modelo de desenvolvimento do qual o jornalismo comercial faz parte e é totalmente dependente. Os grandes conglomerados de comunicação do Brasil são dirigidos por famílias influentes que estão no topo da pirâmide econômica. E é exatamente nesse topo que se encontram os que mais emitem gases de efeito estufa e contribuem para ampliar o problema ecológico. Conforme dados apresentados pela Oxfam Brasil, que produz análises sobre a conjuntura e a injustiça climática, o estilo de vida do 1% mais rico do mundo é responsável pela maior parte das emissões de poluentes climáticos. O consumo de luxo – super iates e outras extravagâncias – pendem a balança das emissões para níveis insustentáveis. As vendas de jatos particulares altamente poluentes, por exemplo, dobraram nas últimas duas décadas. Enquanto isso, a fome persiste no mundo e, em 2024, atingiu mais de 600 milhões de pessoas, conforme o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo da Organização das Nações Unidas. Na base da pirâmide econômica, aquela que suporta o peso da sociedade e não tem acesso aos privilégios do topo, persistem problemas como o atraso no crescimento em crianças menores de cinco anos, o sobrepeso infantil, a anemia entre mulheres, a baixa diversidade alimentar e o sobrepeso entre adultos.

Esse breve recorte acima aponta para a necessidade do aumento de consumo entre as pessoas que estão na base da pirâmide para satisfazerem suas necessidades básicas. No entanto, o modelo social em curso privilegia a concentração de recursos nas mãos dos que estão no topo.

Voltamos aqui ao jornalismo dos conglomerados do topo. Até que ponto os donos dos grupos de comunicação que dependem de patrocínios de empresas da elite econômica estão dispostos a noticiar realidades que questionam o modelo que lhe sustenta e, ao mesmo tempo, é a origem do problema? 

Para dar um exemplo de pauta que conta com abordagem superficial e desinformativa por parte da imprensa hegemônica, trago aqui outro artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental: Enquadramento hegemônico do projeto Natureza da CMPC escanteia questões indígenas e ecológicas, de autoria da professora e pesquisadora Cláudia Herte de Moraes e do estudante de Jornalismo Franchesco de Oliveira Y Castro. Os autores apontam que poucas reportagens do jornalismo hegemônico destacaram aspectos relacionados à injustiça ambiental, focando mais em pontos econômicos anunciados pelos proprietários da empresa chilena CMPC. No entanto, percebe-se que a falha na cobertura sobre a questão vai muito além, pois a imprensa, no geral, restringe-se basicamente a reproduzir a cifra de R$ 27 bilhões anunciada pela empresa como investimento privado. O jornalismo empresarial, que já tem relações de patrocínio com a CMPC, sequer questiona os retornos de ICMS que a empresa deixa de entregar ao Estado em função da imunidade tributária atribuída às exportações de celulose.  Tampouco, problematiza os incentivos e créditos fiscais dos quais a empresa se beneficia. Ou seja, a abordagem econômica também é seletiva e incompleta neste caso. 

Notícias produzidas no contexto da crise climática não podem se dar ao luxo de negar o problema global e suas origens. A falta de entendimento e compreensão sobre o assunto pode ser facilmente superada com algumas leituras qualificadas sobre o tema, entre elas, este observatório acadêmico de Jornalismo Ambiental, que se dedica a analisar criticamente a cobertura da imprensa sobre questões ambientais. Já a questão da censura editorial precisa ser encarada com perspicácia e criatividade, pois, na maioria dos casos, jornalistas e proprietários de conglomerados de comunicação não residem na mesma camada da pirâmide.

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Prevenção avança na cobertura das chuvas no RS, mas faltam questionamentos essenciais

rua alagada, com acúmulo de entulhos em frente às casas

Imagem: Rua alagada em Porto Alegre. Crédito da foto: Isabelle Rieger

Por Eutalita Bezerra*

Com todo o Rio Grande do Sul sob alertas hidrológicos e meteorológicos na última semana, conforme os boletins emitidos pelo Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado, a cobertura jornalística passou a dedicar espaço ao tema. Para compreender como esses alertas foram tratados pela imprensa, analisamos a edição impressa do jornal Zero Hora durante o período de vigência do mais recente aviso da Defesa Civil (26 a 29 de julho). O objetivo foi identificar de que forma os alertas oficiais apareceram nas reportagens e verificar se a cobertura se limitou aos impactos imediatos das chuvas ou se também abriu espaço para discutir prevenção, adaptação e soluções.

A primeira edição analisada foi a do fim de semana de 25 e 26 de julho. O clima ocupou a capa do jornal, com uma imagem aérea do Guaíba e da Avenida Castelo Branco sob o título “Defesa Civil prevê ajustes no sistema de alertas do Estado”. Embora a chamada ainda tratasse das chuvas da semana anterior – o que se justifica pelo fechamento da edição antes do início do novo alerta, vigente a partir do dia 26 -, a publicação merece destaque por dedicar duas páginas ao tema. Aproximadamente uma página e meia foi destinada às soluções. Sob a cartola “Prevenção”, o jornal discutiu falhas no sistema de monitoramento e possíveis melhorias na previsão das cheias, destacando situações em que os alertas oficiais não indicavam risco, mas municípios já registravam avanço das águas.

Na edição de 27 de julho, a chamada de capa voltou a tratar do tema: “Defesa Civil amplia alerta diante de previsão de chuva intensa no Estado”. Apesar disso, as imagens de maior destaque na primeira página eram relacionadas ao futebol e às eleições, reduzindo visualmente a relevância da emergência climática. No interior do jornal, entretanto, o assunto recebeu duas páginas completas. A primeira concentrou-se nos alertas meteorológicos e nos municípios em situação de risco. A segunda foi inteiramente dedicada à prevenção climática. Além de apresentar as estações de bombeamento, consideradas aptas para enfrentar uma eventual cheia segundo informações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), a reportagem acompanhou o andamento das obras de prevenção em Porto Alegre e informou sobre a compra de duas novas bombas pela prefeitura. Embora tenha avançado ao abordar medidas preventivas, a cobertura deixou de problematizar questões importantes, como o motivo de parte das obras ainda não ter sido iniciada ou os fatores que levaram aos atrasos.

No dia 28 de julho, as chuvas passaram a ocupar a principal manchete do jornal: “Chuva deixa sete rios sob alerta no Estado”. A capa trazia referências a transtornos, como voos atrasados, quedas de árvores e alagamentos, mas a fotografia escolhida mostrava uma pessoa com o guarda-chuva quebrado pelo vento. Já a reportagem principal, publicada em página inteira sob o título “RS tem alerta de grande perigo para chuva intensa”, utilizou uma imagem de um veículo em uma rua alagada. No texto, apareceram como fontes o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Climatempo, com entrevista de um meteorologista, e a Defesa Civil estadual, responsável pelos alertas.

Na mesma página, outras duas reportagens complementavam a cobertura. A primeira tratava da coletiva de imprensa concedida pelo governador Eduardo Leite, com participação do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. O foco estava nas ações preventivas adotadas pelo poder público, especialmente as já executadas pela prefeitura da capital. A segunda abordava a ampliação da estrutura da Defesa Civil estadual para enfrentar eventos extremos. Nela, o coordenador estadual do órgão destacava o processo de reestruturação iniciado após as enchentes de 2024.

Na edição de 29 de julho, a chuva voltou a ocupar a manchete principal: “Temporal amplia riscos de inundação e provoca estragos em diferentes regiões”. A fotografia de capa mostrava um destelhamento em Osório, enquanto a evolução das cheias dos rios monitorados pela Defesa Civil também ganhava destaque. No interior do jornal, duas páginas foram dedicadas aos efeitos do temporal. Além de uma nova imagem dos danos em Osório, havia destaque para o desabamento do teto de uma concessionária e os prejuízos materiais decorrentes.

Sob o título “Tempestade: alerta vermelho para grande parte do Estado”, a cobertura foi assinada por nove profissionais, evidenciando um esforço conjunto para acompanhar os desdobramentos da emergência. As fontes permaneceram praticamente as mesmas dos dias anteriores – Climatempo, Inmet e Defesa Civil. A edição também trouxe uma retranca voltada às soluções, intitulada “Prefeitura espera acabar com alagamentos na Capital até 2031”. O texto baseou-se em entrevista do diretor-presidente do Dmae à Rádio Gaúcha, destacando que as casas de bombas teriam funcionado adequadamente durante o temporal e informando a previsão de uma licitação de R$ 2 bilhões para obras de prevenção de alagamentos. No entanto, assim como nas edições anteriores, a reportagem não questiona por que esses projetos ainda não haviam sido iniciados nem discute as razões dos atrasos.

A análise das cinco edições revela uma mudança importante na abordagem do jornal em relação aos eventos climáticos extremos. Em levantamentos anteriores realizados pelo Observatório do Jornalismo Ambiental, predominavam reportagens centradas nos prejuízos, nas perdas e na resposta emergencial às enchentes. Nesta cobertura, entendemos que começam a ganhar espaço pautas relacionadas à prevenção, à adaptação e às soluções estruturais.

Esse avanço merece ser registrado. A prevenção climática passa a ocupar páginas específicas, obras de infraestrutura entram na agenda da cobertura e o funcionamento dos sistemas de proteção é apresentado ao leitor. Ainda assim, permanece uma lacuna importante. A maior parte das reportagens informa quais medidas estão previstas, mas não questiona por que elas ainda não foram implementadas, quais entraves impediram sua execução ou de que forma serão efetivamente concluídas. Em outras palavras, a prevenção começa a aparecer no noticiário, mas ainda precisa ser tratada de forma mais crítica e aprofundada, indo além da divulgação de promessas e permitindo ao jornalismo cumprir seu papel de fiscalização das políticas públicas diante da crise climática.

Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA


*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

O “Fantasma do Pampa” contra as síndromes do Jornalismo Ambiental

Imagem: filhote de gato-palheiro-pampeano, felino característico da metade sul do RS. Crédito da foto: Felipe Peters/Felinos do Pampa

Por Sérgio Pereira*


A abordagem editorial da chamada grande imprensa em relação ao Pampa gaúcho já foi tema de diversas postagens aqui no Observatório. Os artigos, em sua maioria, alertam que o ecossistema sulino e sua destruição têm sido praticamente desconsiderados pelos veículos tradicionais, apesar das advertências dos cientistas, dos protestos dos ambientalistas e dos relatórios do consórcio MapBiomas, que com frequência torna público dados sobre as situações dos seis biomas brasileiros.

Essa tendência, no entanto, teve sua rotina quebrada há poucas semanas. A notícia em questão envolvia o ingresso de um felino na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, um documento científico elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente. O gato-palheiro-pampeano (Leopardus munoai) passa agora a ser classificado como “criticamente em perigo”.


Chamado de “Fantasma do Pampa”, ele habita a metade sul do Rio Grande do Sul e em parte da Argentina e Uruguai. Estima-se que hoje só existam 250 desses felinos, que são independentes, esquivos e não gostam de andar em grupo. Suas aparições são cada vez mais raras, o que justifica o apelido.


Quando o tema é meio ambiente, a realidade do jornalismo tradicional brasileiro nos remete, na maioria das vezes, ao que o professor Wilson da Costa Bueno chama de “Síndrome da baleia encalhada”: uma cobertura jornalística “estática, paralisante, do meio ambiente, como se fosse possível (e desejável) ver a questão ambiental isolada de sua dinâmica, de suas causas e, portanto, distante dos grandes interesses que a promovem e a sustentam” (2007, p. 38). É “a espetacularização da tragédia ambiental” sem a necessária contextualização.


Ou ainda sofre da “Síndrome do muro alto”, outro termo empregado por Bueno, que identifica a “tentativa de despolitização do debate ambiental pela desvinculação entre a vertente técnica (comprometida com a perspectiva empresarial) e as demais vertentes (econômica, política e sociocultural)” (2007, p. 37).


Pois o impresso Zero Hora e o portal GZH, ambos do grupo RBS, concederam, dentro de sua realidade, espaços generosos para informar sobre o risco de extinção do gato-palheiro-pampeano. Em sua edição de 2 de julho, ZH reservou uma página para a matéria “Fantasma do Pampa entra em lista nacional de espécies ameaçadas”. Já o site de notícias atualizou postagem no dia 4 de julho com o título “Menos de 250 vivos: conheça o fantasma do pampa e saiba por que o felino corre risco de extinção”. Os textos são praticamente os mesmos, apenas com algumas alterações editoriais por conta das especificidades das diferentes plataformas.

A reportagem tem méritos. Além de alertar para os riscos enfrentados pelo felino, aborda questões que o jornalismo hegemônico costuma deixar de lado quando se trata do Pampa. Uma delas é mencionar a redução de sua vegetação nativa, resultado da ação humana. A publicação esclarece que “a espécie necessita de campos nativos preservados, que não estejam submetidos à intervenção de monoculturas e silviculturas”, citando os avanços das lavouras de arroz e soja sobre o bioma. Realidade que a Secretaria Estadual do Meio Ambiente tenta amenizar em suas declarações para o jornal.


A matéria de ZH ainda lista ações prioritárias indicadas por pesquisadores para salvar o Pampa, sua fauna e sua flora. Como acréscimo ao texto, o tema sobre os prejuízos que o agronegócio tem causado ao bioma sulino poderia ser ampliado para contextualizar a grande perda de área natural nas últimas décadas.


Outros jornais tradicionais do Estado, no entanto, confirmando a regra, ignoraram a notícia. Mas o gato-palheiro-pampeano também ganhou destaque em portais de notícias de fora do RS, como g1, Terra e UOL.


A propósito, importante valorizar o trabalho da equipe do Felinos do Pampa, utilizado como fonte da notícia por vários veículos de comunicação. Criado em 2021, o projeto de pesquisa e conservação objetiva “transmitir conhecimento para construir valores sociais e promover atitudes voltadas à conservação dos felinos silvestres e de seus habitats naturais”.


Nos últimos anos, o Felinos do Pampa, iniciativa vinculada à UFRGS, à UFPel ao Instituto Pró-Carnívoros, alcançou visibilidade junto à mídia e conta hoje com mais de 54 mil seguidores em seu perfil no Instagram. Os pesquisadores do projeto têm conquistado espaços na imprensa tradicional graças às suas pesquisas e à divulgação de vídeos e fotos raras das espécies nativas do RS. Afinal, em tempos de jornalismo metrificado, quem resiste aos potenciais cliques que a imagem de um gatinho oferece?

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA


*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referência:
BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, 2007. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/made/article/view/11897/8391. Acesso em: 21 jul. 2026.

O jornalismo e os impactos da nova fronteira do petróleo para além da crise climática

Imagem: Município de Oiapoque. Fonte: OpenStreetMap – Licença de Base de Dados Aberta de Open Data Commons

Por Débora Gallas*

A licença obtida pela Petrobras para prospecção de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, situada na Margem Equatorial, tem sido bem documentada pela imprensa. Especialmente por ocasião da COP30 na Amazônia, em novembro de 2025, a autorização do Ibama para o início das atividades expôs as contradições do governo Lula, que ora propõe um mapa do caminho para a redução do consumo e das emissões de combustíveis fósseis, ora defende a exploração desses recursos, diretamente relacionados à crise climática global.

No entanto, as consequências da atividade petrolífera na região vão além da produção de combustíveis fósseis e da emissão dos gases de efeito estufa derivados de sua queima. Passam pela contaminação ambiental provocada por possíveis vazamentos na operação em alto mar, que poderiam atingir a costa brasileira, conforme noticiou recentemente a DW, e pelas transformações sociais em terra firme, que são tema de duas reportagens publicadas nas últimas semanas e que motivam as reflexões deste texto.

No dia 12 de julho, a Folha de S. Paulo publicou reportagem de Vinicius Sassine, com fotografias de Lalo de Almeida, sobre como o fluxo migratório movido pela esperança de ganhos com o petróleo e o encarecimento dos aluguéis resultam em ocupações irregulares no município do Oiapoque, no Amapá, o mais próximo do bloco de exploração. O registro do surgimento de sete novos bairros – todos estabelecidos em área de floresta devastada, com moradias precárias, sem saneamento básico e sequer regulação fundiária – aparece também na reportagem de Camila Lichotti para a edição de julho da revista piauí.

Quem lê ambas as reportagens entende a lógica de exploração da natureza como combustível para problemas sociais crescentes na região. Além disso, ambos os textos também lembram que a região tem um ecossistema sensível, como a maior costa de manguezais do mundo e os recifes de coral na foz do Amazonas.

A reportagem da Folha, mais compatível com o formato do jornalismo diário, foca na especulação imobiliária e na expansão desenfreada da urbanização em Oiapoque tendo o factual como ponto de partida – no caso, a prisão de envolvido na venda de lotes irregulares. Além dos posicionamentos oficiais – do Ibama, da Petrobras e da Prefeitura –, a reportagem conversa com pessoas que foram viver nos novos bairros movidas pela promessa de crescimento econômico do município.

Já a reportagem da piauí, mais alinhada ao jornalismo narrativo proposto pela revista, traz o histórico da expectativa relacionada à exploração de petróleo e dos royalties que podem gerar ao município. O texto conta as mudanças em Oiapoque centrada em uma personagem – uma empresária que vê a chegada da Petrobras como sinônimo de desenvolvimento e prosperidade. O contraponto ao otimismo aparece em visita da reportagem à aldeia Karipuna, nas imediações de Oiapoque, onde vivem 409 famílias. Após terem suas roças de mandioca afetadas pelas vassoura-de-bruxa, a comunidade também não consegue mais caçar porque o aumento do fluxo de aeronaves na região provoca barulhos que afugentam os animais. Além de terem a subsistência diretamente afetada pelo desembarque da Petrobras na região, os indígenas enfrentam ameaças quando levantam ressalvas às operações.

Há obstáculos evidentes para uma cobertura contínua e aprofundada sobre o tema, sendo o principal deles o isolamento geográfico e a tímida presença de jornalismo profissional – segundo o Atlas da Notícia, o município de Oiapoque conta com duas rádios e uma emissora de televisão, mas nenhum veículo impresso ou digital, por exemplo.

Porém, é importante que veículos jornalísticos, principalmente os de abrangência nacional, sigam a trilha do trabalho feito pela Folha e piauí. Acompanhar os desdobramentos de uma licença concedida sem que nenhum dos órgãos envolvidos dimensionasse os impactos do empreendimento para a organização territorial na costa amapaense – sobretudo para os povos e comunidades tradicionais, que já percebem sua relação com a natureza estremecida –, é uma das orientações do Jornalismo Ambiental. Nesse sentido, além de seguirem olhando para o elo mais fraco da especulação imobiliária e financeira que jorra em Oiapoque antes mesmo do petróleo, futuras reportagens poderiam consultar fontes da ciência que documentam as mudanças na região.

Revisão: Eloisa Loose, integrante do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, é líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq ao lado de Ilza Girardi.

Super El Niño: imprensa do RS destaca os efeitos, mas não conecta o fenômeno às ações humanas

Crédito: NOAA

Por Luciano Velleda*

“Fortes chuvas que atingiram RS já são os primeiros efeitos do El Niño, afirmam meteorologistas” O título da matéria do G1, no último dia 29 de junho, é um exemplo recente de como o tema do fenômeno El Niño tem mobilizado a imprensa do Rio Grande do Sul. Desde que os cientistas e as previsões meteorológicas começaram a indicar a possibilidade de um forte El Niño em 2026/2027, a questão tem sido abordado frequentemente na mídia gaúcha.

No começo de junho, a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do El Niño. Segundo a agência, há 63% de probabilidade do fenômeno se tornar muito forte, talvez um dos maiores desde 1950. No Brasil, os efeitos do El Niño são secas nas regiões Norte e Nordeste e muita chuva na Região Sul. O mesmo G1 publicou outra matéria também em junho, sob o título “El Niño já está atuando, confirma agência dos EUA: saiba quais as consequências possíveis para o RS”.

No jornal Zero Hora, o tema El Niño foi abordado ainda em janeiro, com a matéria “Fim do La Niña? Começo do El Niño? As possíveis mudanças climáticas no RS em 2026”, já antecipando a preocupação com o fenômeno num estado marcado pela tragédia da inundação de maio de 2024. O tema voltou a ser abordado outras vezes por Zero Hora, como em abril, com a matéria “El Niño pode chegar mais cedo ao Rio Grande do Sul? Veja por que o fenômeno está se antecipando”, e em maio, com o título “El Niño antes do esperado? Alerta preocupa Rio Grande do Sul”.

O jornal Correio do Povo, o segundo maior do RS, também tem abordado o assunto. Em abril, publicou um longo artigo, “Fenômeno El Niño volta a ameaçar o Rio Grande do Sul” e, em junho, outras duas matérias: “El Niño começa a influenciar o clima e pode aumentar as chuvas no RS nas próximas semanas” e “Para agilizar resposta a emergências climáticas, ministro da Saúde inaugura base regional da Força Nacional do SUS no RS”.

Em comum, todas as reportagens explicam o que é o fenômeno El Niño e destacam suas consequências, principalmente para o Rio Grande do Sul, citando que a intensidade do fenômeno está relacionada com as mudanças climáticas. Todavia, as reportagens não explicam que as mudanças climáticas são causadas pela ação da própria humanidade com a emissão dos gases do efeito estufa em altíssima escala.   

Em junho, reportagem da TV Bandeirantes mostrou que o El Niño tem sido um dos temas mais pesquisados pelos internautas gaúchos. O tema ocupou também a TV Pampa, em maio, com a matéria “Novo fenômeno El Nino deve ter impacto climático no RS a partir do segundo semestre”.

Veículos de imprensa locais também tem dado destaque para a previsão de um forte El Niño em 2026. É o caso, por exemplo, do tradicional grupo ABC+, que abrange diversos municípios da região do Vale dos Sinos e que, ainda em fevereiro, publicou a reportagem “El Niño: Transição para o fenômeno que traz chuva excessiva ao RS já começou; entenda os impactos”. O mesmo foi feito pelo jornal Gazeta, de Santa Cruz do Sul, em junho, sob o título: “El Niño é confirmado e preocupa especialistas no Rio Grande do Sul”, e pela TV Cachoeira, com a reportagem “El Niño avança e liga alerta no Rio Grande do Sul”. Novamente, as reportagens deixam de lado a relação da influência humana com as mudanças climáticas e com o próprio El Niño.

Dois dos principais veículos da chamada mídia independente também tem dado destaque para a previsão do fenômeno. Na última semana de junho, o Sul21 publicou duas notas, ambas originalmente feitas pela Agência Brasil:Com foco no El Niño, IBGE apresenta ferramenta para prevenir desastres” e “Ministério da Saúde lança plano para enfrentar El Niño e mudanças climáticas”. O tema foi igualmente abordado em junho pelo Brasil de Fato, com o título “El Niño confirmado: o que o Rio Grande do Sul pode esperar com a volta do fenômeno?”. De todas, a reportagem do Brasil de Fato é a exceção, por ser a mais aprofundada e a que apresenta o melhor contexto do fenômeno, um dos pressupostos do jornalismo ambiental.

Por fim, no plano político, o governo estadual publicou, em maio, a nota técnica “El Niño 2026-27: Evolução e possíveis impactos no Estado do Rio Grande do Sul” e, mais recentemente, o governador Eduardo Leite publicou um vídeo em rede social afirmando que o estado está “mais preparado para os eventos climáticos”. Assim como nas matérias da imprensa, a relação do El Niño com as mudanças climáticas – que, por sua vez, são impulsionadas pela ação humana, não está presente no documento oficial ou na fala do governador. Desse modo, tanto o governante quanto a imprensa passam a impressão do El Niño ser apenas um fenômeno da natureza sobre o qual a humanidade não tem conexão e, portanto, nada pode fazer, nem hoje e nem no futuro.

Revisão: Cláudia Herte de Moraes, integrante do GPJA.

*Luciano Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).