Erro jornalístico ou negacionismo da ciência? O caso da Lei 12.651/2012 e suas consequências

Pesquisa da Rede Campos Sulinos em andamento nos campos da Estação Experimental Agronômica da UFRGS. Foto: Clara Naressi

Por Eliege Fante*

Um dos projetos de leis antiambientais mais citados pela imprensa nessa semana é o PL 364/2019, que foi aprovado pelos deputados nessa terça-feira (19/05) para ir à análise e votação no Senado. Caso passe nessa casa legislativa, a recomendação de cientistas é pelo veto do Governo Federal. Essa postura não é novidade: há seis anos esse PL tem o rechaço de integrantes e de órgãos governamentais técnicos, de pesquisadores de universidades, de entidades, associações e instituições, enfim, de todos que são reconhecidos pelo trabalho na proteção da biodiversidade brasileira.

Não obstante, a imprensa em geral repete, desde o início do trâmite, o discurso de autores e de apoiadores do referido PL, o qual pretende viabilizar a desproteção da biodiversidade campestre a uma escala estimada em 48 milhões de hectares no país, distribuídos entre todos os biomas, inclusive os predominantemente florestais como a Amazônia. O problema de a imprensa fazer essa repetição reside em veicular dois erros jornalísticos e que dificultam a compreensão do público sobre o que está em jogo na disputa entre quem é contrário e quem é favorável ao PL 364/2019. 

O primeiro erro da imprensa é manter, desde 2012, o nome “Código Florestal” e “novo Código Florestal” para a nova lei, a Lei 12.651 de Proteção da Vegetação Nativa. A mudança do nome não foi em vão: revogou a Lei  4771/1965 que instituía o novo Código Florestal e demarcou a ampliação da proteção para todos os biomas e ecossistemas brasileiros. Portanto, ignorar isso é omitir que áreas não florestais têm o mesmo status legal de proteção e é negar-se a compreender e a aprender o papel ecológico dos demais biomas. Neste sentido, chama a atenção a abertura destoante do texto atual feito pela Revista Fórum que discorre sobre os campos, mas intitula as matas.

Em raras exceções, a imprensa chegou a veicular o equívoco prescrito no PL 364 de considerar como área rural consolidada aquelas áreas dos imóveis rurais com campo nativo que tiveram o uso antrópico por meio da atividade agrossilvipastoril preexistente a 22 de julho de 2008, ainda que como coluna, como aqui: “imprudente presunção de que os ecossistemas campestres nativos tradicionalmente utilizados pela atividade pecuária seriam, invariavelmente, áreas rurais consolidadas”.

Entre outros cientistas ouvidos sobre o PL 364/2019, o professor do Instituto de Biociências da UFRGS e coordenador do grupo de pesquisas Rede Campos Sulinos Valério Pillar explica que o uso pastoril conserva a biodiversidade campestre conforme demostram os resultados dos estudos. Assinala, também, que sendo a vegetação nativa campestre anterior à florestal, a presença de campo nativo não indica o desmatamento da área. Finalmente, para dirimir as dúvidas, recomenda a todos expressarem “supressão de vegetação nativa” quando ocorrer a conversão (o mesmo que destruição, devastação) da vegetação nativa para outros usos, tais como implantar lavouras, construir moradias, urbanizar, etc. Dessa forma, esse é o segundo erro jornalístico verificado nesses anos todos, já que desmatamento aplica-se apenas onde houve floresta, como informa a notícia do IHU Humanitas.


“A confusão terminológica também tem culpa do Ministério do Meio Ambiente, que coloca destruição de vegetação nativa como desmatamento”, afirma Valério Pillar. Segundo o professor, o termo “desmatamento” implica o desaparecimento de florestas, também chamada de vegetação lenhosa. “O problema do Pampa não é desmatamento, é a destruição da vegetação campestre nativa. Infelizmente, a divulgação é feita como se estivesse em queda”, diz Pillar.

A simplificação errônea veiculada pela imprensa, por meio do uso de desmatamento em vez de supressão da vegetação nativa, viola o compromisso ético de profissionais jornalistas, os quais assistiram algumas vezes seus títulos e textos serem alterados por editores e chefes, maculando a rigorosa pesquisa e apuração realizada com as fontes da ciência. A consequência é dificultar ainda mais a compreensão sobre a real ameaça defendida pelo PL 364, que é (1)  livrar da regularização áreas convertidas indevidamente e  (2) dispensar de autorização futura para o corte de vegetação nativa campestre ou nativa em regeneração. Portanto, esse resultado é muito mais do que “flexibilizar” o que estabelece a Lei 12.651/2012, significa anular a imprescindível proteção da biodiversidade campestre tão rica e tão importante quanto a florestal para a sociedade. Até mesmo a comunicação pública erra ao meramente repetir um dos principais argumentos do deputado autor do PL, que distrai o público afirmando:  “não há previsão de autorização de corte de árvores no projeto”.

Diversos documentos científicos podem auxiliar a imprensa. “There are more than just trees and forests to be conserved and restored” (“há mais do que apenas árvores e florestas para serem conservadas e restauradas”) é o título da carta aberta de cientistas denunciando a grave situação do Cerrado. Em “Brazil’s natural grasslands under attack” (“Os campos nativos do Brasil estão sob ataque”), cientistas denunciam especificamente o PL 364/2019. E em “Campos e savanas precisam entrar no debate público sobre conservação e restauração ecológica”, cientistas justificam a compensação ambiental e restauração ecológica, “desmistificando tabus” difundidos a respeito desse tipo de vegetação que constitui a tão falada e incompreendida ou negada,  megabiodiversidade brasileira, da qual toda a população depende dos benefícios. Sem esquecer o trauma pós-enchente de 2024 no Rio Grande do Sul e a previsão do super El Niño neste segundo semestre, o benefício da regulação hídrica se destaca.   

Revisão: Eutalita Bezerra e Luciano Velleda, integrantes do GPJA.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pelo PPGCOM-UFRGS, integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e atua como jornalista no serviço público gaúcho.

Uma década de Belo Monte

Imagem da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Crédito: Ângela Camana

Por Ângela Camana*

Na semana em que se completam dez anos de inauguração da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, situada em Altamira, no Pará, o jornalismo – tão afeito a efemérides deste tipo – apresenta uma abordagem insuficiente diante desta obra repleta de controvérsias. A ausência de conteúdos de maior fôlego impede o aprofundamento desejado na história e nos efeitos desta obra que marcou a Amazônia e o Brasil: dez anos passados, o que este acontecimento nos ensina? Ou em bem-vinda autocrítica: como o próprio jornalismo tomou parte no conflito instaurado pelo desenvolvimento e futuro desejável da região?

Grande parte da imprensa tem se dedicado a reproduzir uma carta-manifesto assinada por entidades que cobram reparação e questionam a pertinência de novos empreendimentos de grande porte na região, como é o caso de Belo Sun – projeto de mineração que ameaça novamente aquele território. A despeito da importância de oferecer visibilidade à correspondência, a ausência de investigações mais profundas contrasta com o porte e os impactos de Belo Monte, maior hidrelétrica da Amazônia e uma das cinco maiores do mundo. A exceção até aqui é a reportagem de Nadia Pontes, publicada em parceria na Folha de S. Paulo  e na DW, cujo título relembra o que pode de melhor o jornalismo fazer, ao questionar: Como Belo Monte mudou para sempre o Xingu.

O texto de Nadia oferece aos leitores uma perspectiva de como a vida de um rio e, por conseguinte, de comunidades inteiras que o habitavam foi desorganizada, em um processo repleto de controvérsias técnicas e burocráticas. A repórter acompanha o caso há uma década e já dedicou outras publicações ao tema. Neste sentido, o seu texto nesta semana é exemplar de um jornalismo de longa duração, que não permite que pautas sensíveis sejam facilmente esquecidas ou superficialmente reportadas.

Destacar efemérides sem qualquer exercício de reflexão acerca dos efeitos das datas e acontecimentos rememorados é sintoma de um jornalismo praticado sob o signo da urgência e sem compromisso com a memória compartilhada. Insuficiente, portanto, do ponto de vista do interesse público. Resta questionar se, não fosse o manifesto lançado por entidades engajadas com a luta por justiça aos afetados, os dez anos de Belo Monte seriam lembrados.  Veículos locais e nacionais têm divulgado a carta aberta “Belo Monte: dez anos de operação, mais de uma década de danos sem reparação”, mas não avançam oferecendo outros dados e perspectivas para além do que a própria correspondência informa. Mais do que um reconhecimento de boas práticas jornalísticas, a repercussão do manifesto mostra como a sociedade civil organizada é capaz de agendar e apelar à imprensa – e não apenas de esperar por ela.

Tema de numerosas teses e dissertações, inclusive no que tange os discursos da imprensa a seu respeito, a hidrelétrica também figurou em especiais jornalísticos, como o A Batalha de Belo Monte,  de 2013, para citar apenas um exemplo. Completados dez anos da primeira turbina a entrar em operação no Xingu e proliferando denúncias que vão da morte do rio a violações de direitos de indígenas, ribeirinhos e pescadores artesanais, era de se esperar que a pauta fosse retomada com o mesmo fôlego.

Revisão: Eloisa Beling Loose, integrante do GPJA.

* Ângela Camana é jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental(CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com.

O jornalismo segue submerso dois anos depois da inundação de 2024

Foto: Isabelle Rieger

Por Luciano Velleda*

Na primeira semana que marcou os dois anos da tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul, em maio de 2024, o portal GZH, site do maior grupo de comunicação do estado, foi escolhido para analisar quantas reportagens ou colunas trataram do tema das obras de proteção contra futuras enchentes e inundações. Ao todo, entre os dias 24 de abril e 3 de maio, foram publicados sete textos, sendo quatro de colunistas e três matérias.

Principal colunista de política do Grupo RBS, Rosane de Oliveira assinou três das quatro colunas publicadas no período. Em todas, a essência do texto é declaratória em relação as afirmações das fontes oficiais, sem contraponto ou visão crítica. O governador Eduardo Leite é a autoridade com maior visibilidade, sendo o personagem central em quatro dos sete textos publicados. Só a entrevista do governador, no último dia 29 de abril, ao programa “Gaúcha Atualidade”, da rádio Gaúcha, foi desdobrada em três publicações. Apenas uma reportagem, assinada pelas jornalistas Gabriela Plentz e Isadora Garcia, trouxe um panorama crítico da situação das obras dos sistemas de proteção de Eldorado do Sul e Canoas, duas das cidades mais atingidas em 2024.

O primeiro texto traz a cobertura de uma agenda oficial do governo estadual, um balanço das ações executadas até o momento. O título reproduz a afirmação do governador no ato, ao dizer que o “estado está muito preparado para enfrentar novos episódios”. A matéria informa que o governo estadual, por meio do Plano Rio Grande, empenhou R$ 13,9 bilhões na “reconstrução de estruturas e locais atingidos, sem acrescentar outros investimentos feitos, como pelo governo federal”. Na sequência, o texto elenca as ações desenvolvidas por tópicos: infraestrutura; rodovias; governança; gestão e habitação. Entretanto, as informações são apresentadas sem detalhes e contextos, dando a impressão de apenas reproduzirem os dados divulgados pelo governo.

Eduardo Leite

No dia 29 de abril, a entrevista do governador na rádio Gaúcha ganha a primeira repercussão no veículo online em texto assinado por Paulo Rocha. O destaque é o sistema de proteção da cidade de Eldorado do Sul, sem abordar outros projetos de proteção pendentes no RS. O texto, novamente, apenas reproduz as falas de Eduardo Leite na entrevista, sem contraponto ou análise crítica. É anunciada a apresentação, oito meses após a contratação, da atualização do anteprojeto de proteção de Eldorado do Sul. Agora, o governo estadual precisa contratar os projetos básico e executivo, fazer os estudos ambientais e então, depois destas novas etapas, começar a execução da obra.

Na esteira da entrevista ao programa “Gaúcha Atualidade”, no mesmo dia 29 de abril, Rosane de Oliveira publica sua primeira coluna sobre a efeméride dos dois anos da tragédia climática. O texto entrega o que o título promete: “Governador quer mais destaque ao que foi feito depois da enchente”. Pedido feito, pedido aceito.

“O governador reconhece que ainda há muito por ser feito, mas diz que prefere celebrar o que conseguiu entregar. Destaca que o Rio Grande do Sul tem carência de engenheiros, o que afeta o ritmo das empresas e do andamento de projetos, como os que envolvem as bacias dos rios Gravataí e Caí, citados por Leite como exemplos de trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelas mesmas equipes”, diz o texto.

Falta, entretanto, um contraponto, como as críticas dos Comitês de Bacia Hidrográfica do estado, em que muitos gestores reclamaram da falta de diálogo e apoio do governo Leite antes e depois da enchente. Por outro lado, a coluna ressaltou os R$ 300 milhões investidos pelo governo estadual na dragagem de rios, canais e córregos menores de 145 municípios.

No mesmo dia 29 de abril, a colunista de política dá visibilidade ao ato da prefeitura de Canoas, que fez agenda oficial para entregar o chamado “muro da Cassol”, com pouco mais de 100 metros de extensão e dois de largura. A construção, no bairro Rio Branco, foi noticiada como a “primeira obra de reconstrução e fortalecimento do sistema de proteção contra cheias da cidade”. O muro deve integrar a estrutura do dique Rio Branco, com a finalidade de proteger parte da cidade contra o aumento do nível do Rio Gravataí. Porém, mais uma vez, a coluna não abre espaço para críticas relacionadas a obra, algo que vai aparecer na reportagem de Gabriela Plentz e Isadora Garcia.

Ainda no dia 29 de abril, dessa vez é a colunista de economia, Giane Guerra, que retoma num curtíssimo texto de apenas dois parágrafos, a entrevista concedida pelo governador à rádio Gaúcha. O foco é a proteção (ou a falta de) do aeroporto Salgado Filho. A colunista enfatiza que Leite se comprometeu a liberar, “imediatamente”, R$ 30 milhões para a obra que irá proteger o aeroporto de futuras enchentes e inundações.

“Mas os prazos preocupam porque há a previsão de que o El Niño provoque chuvas fortes em setembro. Para a obra ficar pronta até lá, teria que começar em julho e ainda não se sabe nem se o Exército aceitará fazer o serviço. Questionado pela coluna sobre esta apreensão, o governador disse que ajudará na articulação”, diz trecho do primeiro parágrafo. O segundo parágrafo é uma frase do governador afirmando que ajudará na articulação para a obra ser liberada. Sem contexto, sem melhores explicações sobre os motivos que fazem uma obra tão importante nem ter sido iniciada, a coluna acaba. Para saber mais, o leitor precisa ouvir a entrevista de 30 minutos anexada ao texto.

A terceira e última coluna de Rosane de Oliveira no período analisado, foi publicada dia 3 de maio. Assim como nos exemplos anteriores, é uma coluna declaratória, sem ponderação ou contraditório. O texto trata da agenda do prefeito Sebastião Melo, que acompanhou o teste das comportas do sistema de proteção da Capital. O teste virou lei em 2024 e deve ser feito anualmente no dia 3 de maio.

“Melo acompanhou o fechamento das comportas 1, na Usina do Gasômetro, e 2, no Cais Embarcadero, que receberam melhorias de vedação e mobilidade – assim como as comportas 4 e 6, na Avenida Mauá”, descreve trecho da coluna. Na sequência, dá voz ao prefeito: “Assumimos o compromisso de qualificarmos o sistema de proteção contra cheias e temos cumprido esse objetivo com transparência e agilidade. Estamos mais preparados do que antes”, disse Melo.

A coluna informa que a comporta 9 deve ser fechada completamente, assim como outras sete já foram fechadas definitivamente, enquanto as comportas 11 e 12 devem ser substituídas até junho. O texto não aborda o status de nenhuma outra obra ou melhoria do sistema de proteção de Porto Alegre.

Jornalismo

A reportagem publicada no dia 30 de abril por Gabriela Plentz e Isadora Garcia é a única digna de ser chamada pelo nome, sendo o primeiro texto a citar as mudanças climáticas. O destaque são os projetos do sistema de proteção das cidades de Canoas e Eldorado do Sul. O tom é mais crítico, não meramente declaratório como os anteriores.

A reportagem também é a primeira a dar nome e imagem ao drama vivido pelos gaúchos, ao contar um pouco da história da moradora de Eldorado do Sul que perdeu a casa e vive, com o marido e três filhos, num módulo provisório enquanto espera a casa nova ficar pronta. A reportagem conta também um pouco da rotina sob o medo de moradores de Canoas.

“Enquanto o governo do Estado sustenta que o Rio Grande do Sul está mais preparado, quem mora nos dois municípios convive com o descompasso entre o cronograma oficial de obras e o medo de cada nova chuva”, diz trecho da matéria, que segue: “Conforme a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, nenhum dos projetos novos do sistema de proteção teve a construção iniciada. Mas parte das estruturas já existentes foram reformadas e outras reforçadas”.

Ao se referir ao dique de Eldorado do Sul, a reportagem explica que a proteção, uma estrutura de 8,6 quilômetros ao redor do município, “ainda não saiu do papel”.

Em Canoas, cidade que já contava com um sistema de proteção (que se mostrou insuficiente), a reportagem narra a união dos moradores dos bairros Fátima, Rio Branco e Mato Grande para fiscalizar as obras. “Eles reclamam ao ver estruturas incompletas e dizem que há pouco ou nenhum avanço no dia a dia”, conta o texto. Em relação ao andamento do dique do bairro Rio Branco, a matéria traz fragilidades na execução do trabalho de proteção, além de apontar outras obras que nem iniciaram, como a estrutura de contenção próximo à empresa Bianchini, as casas de bombas nº 9 e 10, além do dique do bairro São Luís, que ainda precisa de projeto.

A matéria encerra destacando a previsão de que o sistema de proteção na Região Metropolitana seja concluído até 2031. E abre espaço para o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, afirmar que a segurança envolve também treinar a sociedade para lidar com as mudanças climáticas. “Não existe proteção total baseada em obra de infraestrutura. E isso é fundamental que a sociedade saiba”, diz ele. Enfim, jornalismo.

*Luciano M. Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

Quando a água recua, ficam os impactos sociais e a falta de um jornalismo comprometido com a educação climática

Pelotas – Rio Grande do Sul, Julho/2024. Foto: Myke Sena/DPU


Por Carine Massierer*

As consequências econômicas, ambientais, físicas e emocionais dos desastres climáticos ficam registradas a partir das narrativas e das percepções tornadas públicas pela imprensa, como houve com a inundação de maio de 2024. O evento climático atingiu várias regiões do Rio Grande do Sul, incluindo não só a capital, mas intensamente os Vales do Taquari e Rio Pardo. A tragédia que deixou 185 mortos e 23 pessoas desaparecidas completa dois anos em maio de 2026 e a incidência do fenômeno El Niño deixa apreensivos todos aqueles que de alguma forma sofreram as consequências.

Entre a tragédia e a narrativa da imprensa está a pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari”, feita pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), que foi recentemente divulgada.

Nas matérias a imprensa deu bom espaço para o estudo que traz a percepção de 389 moradores de 11 municípios atingidos pelas cheias nos Vales do Rio Pardo e Taquari. Os conteúdos podem ser conferidos em Portal Arauto, Folha do Mate, AHora, Brasil de Fato e Extraclasse.

O Instagram e Facebook dos veículos também foram utilizados para a ampliação de espaços de divulgação da pesquisa como é o caso do Portal Arauto, em que a postagem não teve nenhuma interação escrita. 

No caso do Grupo A Hora, a matéria consta no link  do Facebook: https://www.facebook.com/grupoahoraoficial/videos/-a-experi%C3%AAncia-das-enchentes-de-202324-mudou-a-forma-como-a-popula%C3%A7%C3%A3o-enxerga-as/2248617299301585/ e o que chama a atenção é que a empresa tem 265 mil seguidores na plataforma e a postagem recebeu apenas quatro comentários, sendo três abordando a tristeza e o sofrimento do povo e um de cunho político. A publicação conta com imagens em vídeo e informações em tela refletindo os principais resultados da pesquisa, mostrando que o conteúdo foi visualizado por 7.7 mil. Dentre os canais de televisão, apenas o programa Jornal do Almoço, que possui edição regional, veiculou a pesquisa pelo Grupo RBS/Globo.

Observa-se que além da imprensa regional, outros veículos que se ativeram a temática foram os de comunicação independentes e alinhados a pautas e movimentos sociais, como o Extra Classe e o Brasil de Fato, que tem abrangência nacional e atuação popular. Os canais de televisão vinculados a imprensa hegemônica não deram espaço e novos sentidos e apropriações da pesquisa ocorreram por parte de políticos e outras autoridades que acabaram fazendo podcasts e outras publicações incluindo a participação dos coordenadores da pesquisa. 

Segundo a pesquisa as inundações alteraram a percepção da população sobre as mudanças climáticas pois 90% dos entrevistados relacionam o agravamento dos eventos extremos à ação humana e ao aquecimento global. Além disso, 54,9% dos participantes percebem uma relação forte entre as enchentes e as mudanças climáticas. Assim, o estudo revela nuances interessantes mostrando que as pessoas associam eventos extremos e água a emoções negativas e destruição, mas apenas 26,9% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas têm causas humanas e 15% apontam que os motivos são divinos ou naturais.

Mesmo sendo muito relevantes, os resultados da pesquisa mostram que os sentidos se alteram ao entrarem na esfera pública virtual. E, ainda, que vai depender do reconhecimento do público para que o tema permaneça nas arenas de discussão e, sobretudo, cheguem até a imprensa hegemônica e consigam romper com a bolha regional de divulgação. 

A recorrência de eventos climáticos extremos requer o investimento em educação para preservar vidas, especialmente, uma educação climática. Espera-se que a imprensa hegemônica participe contribuindo com amplas estratégias de mobilização, também em espaços virtuais, para capilarizar as informações das cidades aos rincões. E, de fato, levar a ações coletivas em prol de melhores condições de vida e de resiliência climática. 

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Jornalismo é oferecer polêmicas, sem abandonar o contexto

Fotos Públicas/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Sérgio Pereira*

A imprensa brasileira é um espelho da visão elitizada da sociedade no que se refere à representatividade. Em outras palavras: integrantes dos denominados grupos minorizados têm sempre mais chances de virar notícia nas páginas policiais. Já em certas editorias, como política, cultura e economia por exemplo, os casos são raros. E, quando ocorre, estamos diante de um fenômeno bissexto e que serve apenas para afiançar a regra. Mas, como poderia ter dito Forrest Gump, um jornal é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar.

Em sua edição impressa do dia 16 de abril, por exemplo, o diário rio-grandense Zero Hora deu voz, em sua valorizada página 2, a uma integrante dos povos originários do Brasil. A participação da influencer Ysani Kalapalo em um fórum de debates realizado em Porto Alegre seis dias antes foi o gancho para justificar a matéria. Em formato pingue-pongue, a entrevista também foi disponibilizada no digital GZH um dia antes.

O título não poderia despertar mais a atenção, como recomendam os manuais de redação: Culturalmente, os princípios de direita se assemelham mais à cultura indígena, diz influenciadora digital Ysani Kalapalo”. Pra quem não conhece, a entrevistada se apresenta nas redes sociais como “ativista, comunicadora, liderança indígena do Alto Xingu e mato-grossense com orgulho”, com quase 300 mil seguidores no Instagram. Ela se declara abertamente eleitora de candidatos da extrema direita, como indica a chamada de ZH.

Não deixa de ser peculiar a posição da entrevistada. Afinal, as principais lutas indígenas são, entre outras, pela conservação e delimitação de suas áreas, a proteção dos biomas onde vivem, políticas públicas específicas para a saúde e educação (intercultural e bilíngue) e uma maior representação na política. E, com certeza, essas não são pautas da direita brasileira. Que o diga o povo da etnia yanomami, cujo número de mortes por desnutrição aumentou 331% nos quatro anos do governo Bolsonaro.

Ineditismo, porém, é uma das características do jornalismo. A velha máxima ensinava que um homem precisa morder um cachorro para virar notícia. Já no caso da “ativista” de GZH, a singularidade está em sua posição política, equivalente à de um líder sindical pregando a implantação de robôs nas linhas de montagem. Mas estamos experimentando tempos atípicos em que quase nada mais causa espanto.  

Antes de Ysani, ZH perdeu a oportunidade de ouvir outra liderança dos povos originários, essa muito mais famosa e reconhecida, inclusive internacionalmente. Ailton Krenak, autor de sucessos livreiros como “Ideias para adiar o fim do mundo”, imortal da Academia brasileira de Letras (ABL) e com mais de 412 mil seguidores na mesma rede social.

Uma das maiores vozes indígenas do país com livros traduzidos para mais de 19 países, Krenak veio à capital gaúcha para a aula inaugural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizada no dia 9 de março passado. GZH, que não deixou de noticiar a vinda do escritor, perdeu a oportunidade de dar aos seus leitores uma visão legítima dos movimentos indígenas nacionais e uma mostra da sabedoria ancestral do autor. 

Já em 21 de abril, GZH postou pingue-pongue com a ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, com questões envolvendo temas como racismo ambiental, demarcação de terras e marco temporal. O material, assinado pelo jornalista Eduardo Rosa, foi produzido a partir da participação da agora deputada federal no programa digital da mesma RBS “Conversas Cruzadas” do dia 20, por conta do Dia dos Povos Indígenas (19 de abril). A entrevista, no entanto, não constava em nenhuma versão impressa de ZH até o dia 22. 

O primeiro pressuposto do Jornalismo Ambiental é a ênfase na contextualização. Essa característica epistemológica busca superar a fragmentação e a descontinuidade dos textos, sugerindo uma visão ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e apresentando uma perspectiva sistêmica (Girardi et al., 2020, p. 284-285). Na entrevista com Ysani Kalapalo, ZH poderia ter oferecido aos leitores as contradições no posicionamento da influencer, as críticas que recebe e as polêmicas em que se envolve. Também poderia informar que ela é vista como uma “traidora da causa” por entidades representativas dos povos originários.

A produção de um veículo impresso exige escolhas. Os editores decidem o que será publicado e o que será engolido pelos fatos. Para fazer essa triagem, critérios são primordiais e definir parâmetros sólidos e bem-fundamentados significa navegar com precisão mesmo em águas turbulentas. Em tempos em que quase tudo suscita polêmica, equilíbrio, bom-senso e contexto se transformam em equipamentos de proteção para o jornalismo. Fica a recomendação: não edite sem eles.

Revisão: Ilza Girardi, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

FORREST GUMP: O contador de histórias. Direção: Robert Zemeckis. Produção: Wendy Finerman, Steve Tisch, Steve Starkey. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1994. 1 DVD (142 min).

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053.

“A resposta somos nós”: Povos indígenas são decisivos para a transição socioambiental 

Foto: Antonio Augusto/Fotos Públicas

Gabrielly Menezes da Silva* 
Cláudia Herte de Moraes**

A Esplanada dos Ministérios em Brasília tornou-se, mais uma vez, o centro da resistência originária com a realização do 22º Acampamento Terra Livre (ATL), entre os dias 5 e 11 de abril de 2026. O evento foi um momento importante para a reafirmação do protagonismo dos povos originários na política ambiental. Para discutir a cobertura jornalística desse evento, decidimos fazer uma análise comparativa que demonstra como diferentes projetos editoriais podem evidenciar facetas diferenciadas da mesma mobilização.

Um Só Planeta se apresenta como projeto editorial multiplataforma ligado à Editora Globo. Na sua reportagem “Povos indígenas apresentam proposta para fim dos combustíveis fósseis e cobram ação do Brasil” destaca a entrega de um plano de sugestões ao governo, focado na construção de um “mapa do caminho global” para a transição energética justa. As principais propostas foram a defesa do fim imediato da abertura de novos campos de petróleo, gás e carvão, além da proposta de criação de “Zonas Livres de Combustíveis Fósseis (FFZs), que proibiriam a exploração em áreas de alta relevância ecológica, como a Amazônia. A representação indígena que aparece na reportagem é Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organizadora do ATL. Tuxá afirma que “não há transição energética justa sem a garantia dos territórios”, evidenciando a demarcação como uma medida concreta de enfrentamento à crise climática.

Na parte política, a reportagem de Um Só Planeta critica o governo brasileiro por ter “dois pesos e duas medidas”, já que o país tenta ser líder no exterior, mas não resolve seus problemas em casa. O texto mostra que o governo já ultrapassou o prazo de dois meses para criar um plano que livre o Brasil da dependência de petróleo e carvão. Existe uma disputa entre os ministérios, enquanto o Meio Ambiente e a Fazenda pressionam por um plano sério de mudança, o Ministério de Minas e Energia tenta enfraquecer a proposta usando projetos antigos que, na verdade, aumentam o uso de combustíveis poluentes. Com a saída de ministros importantes como Marina Silva e Fernando Haddad para as eleições, há um grande medo de que o plano dos indígenas seja “enterrado”, após o empenho realizado pelo governo Lula na COP30. 

Um ponto positivo da reportagem do Um Só Planeta é que ela explica com detalhes como o clima e a natureza dependem do saber dos indígenas para que as soluções ambientais funcionem de verdade. O ponto negativo é que o texto pode ficar muito técnico e “difícil”, o que às vezes também esconde a violência real sofrida nas terras sob pressão de garimpeiros, algo que o Brasil de Fato destaca mais.

A matéria do Brasil de Fato, como uma mídia popular, foca no que é mais urgente para quem vive nas aldeias desde o seu título: “Demarcação e denúncia de mineração em terras indígenas dominam debate no Acampamento Terra Livre”. Neste texto, é destaque que os entraves sofridos pelos indígenas se dão por conta de serem interesses contrários ao modelo de exploração. “Estão litigando contra esse modelo capitalista, enfrentando aquilo que é mais caro e mais precioso para o capitalismo, que é o controle dos territórios” nas aspas da fonte ouvida, Luis Ventura, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Também traz à tona a criação de uma Comissão da Verdade Indígena para investigar crimes que ocorrem, inclusive, no “período democrático atual”, indicando que a violência contra esses povos é uma constante do Estado, independentemente do governo.

Enquanto Um Só Planeta critica a gestão de políticas públicas e foca em grandes acordos globais sobre energia, o Brasil de Fato prioriza o olhar sobre as formas de opressão, com uma crítica estrutural e histórica, sobre a luta e a sobrevivência física dos povos contra invasores dos territórios. No fim, os dois jornais concordam em um ponto, embora com enfoques diferenciados, pois o único caminho para um futuro sustentável do planeta depende do reconhecimento do protagonismo indígena. Como diz o mote do ATL: “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”.

* Graduanda em Jornalismo na UFSM, Bolsista de Iniciação Científica. E-mail: gabrielly.menezes@acad.ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O que a votação do Plano Diretor tem a ver com o meio ambiente?

Foto: Filipe Karam/PMPA

Nico Costamilan* e Eloisa Loose**

Desde o início de março, a imprensa local tem coberto as discussões que cercam a votação do novo Plano Diretor de Porto Alegre. Entre disputas partidárias que se conectam a diferentes interesses sobre os rumos da capital, mais de 500 emendas foram apresentadas. As emendas são propostas de modificações, acréscimos ou supressões feitas ao texto original. Neste caso, o texto original parte de alterações propostas ao Plano Diretor anterior, que vigora desde o ano 2000. No campo político, as emendas são mecanismos que também servem para  adiar ou transformar a pauta, uma forma de medir forças com os opositores. Mas, o que essas decisões implicam no nosso dia a dia?

Nesta análise, o Observatório analisou as notícias publicadas por alguns dos veículos que acompanharam as discussões do Plano Diretor no último mês, a saber: GZH, Matinal, Correio do Povo, Jornal do Comércio e Brasil de Fato. A seleção das notícias foi feita a partir de buscas no Google Notícias e nos sites de cada veículo. Buscamos identificar os pontos mais mencionados sobre o planejamento da cidade e como são reportadas as consequências desta decisão para a qualidade de vida dos moradores, proteção ambiental, prevenção de desastres e adaptação às mudanças climáticas.

É importante recordar que a capital dos gaúchos ficou parcialmente debaixo d’água em 2024. Assim, é  esperado que, na oportunidade de atualizar e  melhorar o  planejamento urbano, isso seja  necessariamente feito de modo a garantir uma cidade mais resiliente e preparada para enfrentar a intensificação  dos eventos extremos climáticos, já assinalados pelos cientistas. No entanto, os debates acalorados na Câmara Municipal evidenciam que essa preocupação não é consensual.  Há uma tentativa, por parte da oposição, de  inclusão das medidas adaptativas e supressão de outras que agravariam a situação, em caso da deflagração de um desastres semelhante ao já vivido; por outro lado, uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano. 

Por um lado, a base parlamentar de oposição ao governo do prefeito Sebastião Melo tenta incluir emendas que visam ampliar a proteção ambiental, a exemplo da manutenção do conceito de área livre permeável e vegetada, criação de corredores ecológicos, proteção de plantas raras, manutenção da função ecológica de topos de morros, além de propostas relacionadas à segurança hídrica e, especialmente, à questão das ilhas de calor, que podem ser ampliadas com a liberação para aumentar a altura de prédios em alguns pontos da cidades. Por outro lado, percebe-se uma uma perspectiva orientada para o desenvolvimento econômico, que simplifica regras do ordenamento urbano e amplia as facilidades para o mercado de especulação imobiliária. E como esse embate repercute na vida dos moradores de Porto Alegre?

Na cobertura realizada por GZH, a relação entre as votações do Plano Diretor com o meio ambiente foi pouco apresentada. Entre as várias matérias curtas sobre as movimentações na Câmara, não houve  aprofundamento das questões criticadas por ambientalistas  – mesmo mencionando que “críticos” sem nome “dizem que” e “apontam que” existem diversos pontos  problemáticos no Plano em questão. A cobertura é  descritiva das sessões, mas simplista e fechada no acontecimento do dia ou da semana, sem contextualização. A única menção à enchente identificada nessas notícias foi feita em uma coluna de opinião de Rodrigo Lopes. Quem quiser ler mais pode acessar matérias do último ano sobre possíveis problemas urbanísticos. 

Já no Correio do Povo, as sessões da Câmara são cobertas de forma objetiva, mas também há matérias explicativas e que tratam dos  impactos causados pelas alterações feitas no Plano Diretor. São citadas falas de vereadores de ambas as alas. Como um bom exemplo de abordagem, a matéria “Às vésperas dos 254 anos, Porto Alegre discute novo Plano Diretor enquanto debate melhorias no saneamento”, de Felipe Faleiro, pauta a votação, a concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) e adaptações climáticas devido às inundações de 2024, de forma a relacionar  as votações noticiadas ao futuro na cidade.

No Brasil de Fato RS, as notícias trazem críticas explícitas aos erros e possíveis danos ambientais. A posição do veículo sobre o assunto se mostra clara ao dar destaque às falas de vereadores da oposição em notícias e quase não traz as justificativas governistas. De imediato, lembram os impactos das inundações e mencionam a necessidade de adaptações climáticas.

Já no Jornal do Comércio, que frequentemente aborda o Plano Diretor pela coluna Pensar a Cidade, da jornalista  Bruna Suptitz, as notícias são  informativas sobre as decisões de cada sessão. No mês analisado, a coluna não aprofundou nenhuma crítica ambiental feita ao texto original proposto, nem às diferentes emendas. 

A Matinal traz contextualizações amplas e críticas ambientais à revisão do  Plano, com destaque para a reportagem “Prédio de 40 andares em áreas de inundação: os erros do Plano Diretor de Porto Alegre”, de Claudia Bueno e Naira Hoffmeister. Nela, as autoras relacionam a crise climática com o planejamento urbano, a especulação imobiliária e os riscos de desastres na capital. 

Ao analisar as coberturas do último mês, fica claro que é possível trazer informações objetivas sobre o debate político da cidade sem esquecer que o meio ambiente está intrinsecamente ligado ao urbanismo. A circulação de pessoas, o transporte, o número de áreas verdes, a adaptação de ruas, edifícios e de toda uma capital para lidar com chuvas extremas, calor extremo, e muito mais. A crise climática exige que as cidades mudem, e rápido. Sob as lentes do Jornalismo Ambiental, comprometido com a mudança de pensamento, precisamos trazer a reflexão para que os veículos locais articulem as mudanças climáticas às notícias diárias. 

A questão climática não deve ser apenas mencionada no momento em que há um desastre e no qual a Praça da Alfândega só pode ser acessada com caiaques, ela está imbricada em todas as discussões sobre onde e como vivemos. A prática de um jornalismo míope, focado apenas no registro do fato imediato, é um desserviço público. Urge que a visão sistêmica seja endossada pelo campo jornalístico e aplicada, ainda que parcialmente, na produção constante de notícias. 

Revisão de Heverton Lacerda, integrante do GPJA.

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Jornalismo deve cobrar prevenção antes que aconteça novamente


Sérgio Pereira*


Área central de Porto Alegre inundada em 2024
Foto: Fotos Públicas/Gustavo Mansur/Palácio Piratini

O Rio Grande do Sul está perto de completar dois anos de sua maior tragédia climática e as consequências das cheias de abril/maio de 2024 ainda reverberam. Pelo menos 23 pessoas continuam desaparecidas (conforme o último levantamento, de agosto do ano passado), milhares de famílias seguem aguardando moradia e municípios permanecem na dependência de obras de recuperação e prevenção.

Para não permitir que o tempo feche cortinas na memória coletiva, GZH lançou em junho daquele mesmo ano o “Painel da Reconstrução”, um hotsite que “monitora as medidas de apoio financeiro provenientes dos governos federal e estadual para a recuperação do Estado”. A iniciativa merece reconhecimento pois se propõe a oferecer uma radiografia sobre os principais investimentos e compromissos pós-enchente. Torna-se, assim, um instrumento útil para controle social e cobrança de recursos públicos destinados ao restabelecimento do RS.

O painel está focado em três áreas prioritárias: infraestrutura, habitação e prevenção a novos eventos climáticos extremos. Há informações valiosas na ferramenta, que em 24 de março deste ano, data dessa consulta, havia sido atualizada 13 dias antes. A começar pelos repasses financeiros. Graças à plataforma, pode-se conferir que o Governo Federal pagou 63,8% (R$ 75,2 bilhões) dos R$ 118 bilhões prometidos. O Governo do RS, por sua vez, aplicou apenas 40,9% (R$ 4,6 bilhões) dos R$ 11,3 bilhões previstos.

Outro exemplo da relevância do levantamento diz respeito à circulação: ainda há no Estado pelo menos 15 trechos de rodovias bloqueadas, total ou parcialmente. As obras da ERS-348, entre Agudo e Dona Francisca, para citar um caso, sequer foram iniciadas.

As informações envolvendo moradias, porém, não são atualizadas há pelo menos seis meses. São mais de 25 mil habitações projetadas, conforme GZH. O portal cientifica que, até agora, foram disponibilizadas 520 temporárias pelo Estado e que o Governo Federal já entregou as chaves definitivas para 5.733 famílias pelo programa Compra Assistida.

Os dados sobre “Prevenção”, contudo, são ainda mais preocupantes. Primeiro, porque os números desse item da plataforma não são alterados há mais de oito meses. Também causa apreensão o andamento dos trabalhos das oito obras prioritárias relacionadas, nenhuma concluída. Dessas, a metade não saiu da fase de elaboração de projeto: dique em Eldorado do Sul; arroio Feijó (Porto Alegre e Alvorada); bacia do Rio do Sinos; e bacia do Rio Gravataí.

As outras quatro listadas, todas em Porto Alegre, superaram as etapas de projeto e licitação e estão em andamento: fechamento em concreto das comportas 8, 9, 10 e 13 do sistema de proteção; substituição das comportas 11, 12 e 14; manutenção de 1,4 quilômetro do chamado dique da Fiergs, na zona norte da capital; e manutenção de 3,4 quilômetros do dique do Sarandi. Os prazos previstos para o término de três dessas quatro obras estão expirados, conforme o levantamento revela. E a quarta está programada para ser concluída agora em março de 2026.

É preciso dizer que o painel poderia estar mais atualizado no campo “Prevenção”. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi noticiado o fechamento em definitivo das comportas 8, 10, 13 e 14 do sistema de proteção de Porto Alegre, mas na plataforma não consta essa informação. Nem mesmo na relação de matérias mais recentes sobre o tema, com links disponíveis logo abaixo das obras prioritárias. Essa latência acaba por comprometer sua eficiência como mecanismo de transparência e vigilância pública.

Afora a desatualização, outra questão surge: por que o painel não é mais explorado como instrumento de cobrança? Principalmente no que se refere à prevenção. Nos últimos dias, a notícia de formação de novo El Niño no Hemisfério Sul fez ligar o sinal de alerta. Conforme o instituto Climatempo, o “risco de chuva extrema sobre o Sul do Brasil é maior este ano”. O Rio Grande do Sul vai estar melhor preparado para uma nova enchente? O jornalismo pode e deve responder a esse questionamento.

O Princípio da Precaução, incorporado aos pressupostos do Jornalismo Ambiental, ensina que devemos ampliar o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardi et al., 2020). Loose e Girardi (2017) acrescentam que a noção de que o jornalista ambiental deve colaborar para o alerta e o enfrentamento dos riscos climáticos está em sintonia com sua responsabilidade de reduzir alarmismo e evitar medidas que desconsiderem as incertezas intrínsecas ao seu fenômeno.

O desastre climático de 2024, que causou a morte de 185 pessoas, deixou traumas profundos no povo gaúcho. Desde então, a cada chuva intensa, o fantasma das cheias faz ressurgir o medo de novas inundações. É missão do jornalismo estar conectado aos interesses e preocupações da sociedade. De que vale então estar de posse de um dispositivo importante e não aproveitar ao máximo o seu potencial? Afinal, ferramenta em uso não acumula poeira. Tanto na carpintaria quanto no jornalismo, esse adágio pode ser de muita utilidade.

Revisão: Ângela Camana, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 23 mar. 2026.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin, v. 22, n. 2, Jul/Dez 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169150/001048279.pdf?sequence=1&isAllowed=y22(2):154-72. Acesso em: 23 mar. 2026.

Muito mercado, pouca comida: o que a guerra do Oriente Médio tem a ver com isso?

Foto: Wikicommmons | Dennis G. Jarvis


Por Gabriella de Barros*

Embora à primeira vista pareçam temas distantes, a guerra no Oriente Médio pode gerar impactos diretos na alimentação no Brasil, especialmente quando observada sob uma perspectiva ambiental. A relação comercial entre Brasil e Irã ajuda a explicar essa conexão: o Irã está entre os principais compradores do milho brasileiro, cuja produção se concentra em estados como Goiás e Mato Grosso, regiões marcadas por expansão agrícola e pressões sobre biomas como o Cerrado.

Ao mesmo tempo, o Irã também se destaca como fornecedor de fertilizantes nitrogenados, em especial a ureia, insumo que ajuda a sustentar o atual modelo de produção agrícola. De acordo com a CNN, os dados de 2025 mostram que Irã e Omã tiveram participação relevante no fornecimento de ureia ao Brasil, respondendo por 18,4% das importações, o que corresponde a aproximadamente 1,5 milhões de toneladas de um total de 8,2 milhões.

Como grande parte dessas exportações depende de rotas que atravessam o Golfo Pérsico, eventuais tensões na região podem comprometer a logística e elevar custos. Esse encarecimento não afeta apenas o mercado, mas reforça a dependência de insumos externos e intensivos em impactos ambientais, colocando em evidência a fragilidade do sistema produtivo, como é apontado pelo estudo de Ana Luíza Cordeiro Lima, da Universidade Federal de Uberlândia, em que cerca de 66% das emissões de óxido nitroso (N₂O) estão ligadas à agricultura, um percentual que abrange não apenas práticas agrícolas, mas também a produção industrial de fertilizantes. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados desregula o ciclo do nitrogênio e está associado a impactos ambientais duradouros.

Para entender como esse assunto repercutiu na imprensa, a análise do Observatório de Jornalismo Ambiental examinou as abordagens de dois portais sobre os possíveis desdobramentos da guerra nos preços dos alimentos e nos insumos do agronegócio brasileiro.

No portal independente Instituto Conhecimento Liberta (ICL), o tema aparece em um programa do dia 06 de março, no YouTube, que discute como o conflito pode influenciar o acesso à alimentação. A conversa aponta que instabilidades geopolíticas tendem a elevar custos logísticos e produtivos, o que pode dificultar ainda mais o acesso a alimentos. A professora da FGV Carla Beni destacou possíveis efeitos sobre a produção agrícola global e o aumento recente nos preços dos fertilizantes. Ainda que o debate avance ao relacionar economia e acesso à comida, há pouco aprofundamento sobre os impactos ambientais associados a esse modelo produtivo dependente de insumos químicos.

Já na cobertura de O Globo, a ênfase recai sobre dados econômicos e projeções de mercado. A notícia indica que milho e soja podem registrar aumentos mais rápidos que produtos de origem animal, embora o encarecimento da ração possa, ao longo do tempo, pressionar também carnes e ovos. As informações se baseiam em dados de entidades do agronegócio e instituições financeiras, como CNA, Anda e Rabobank. No entanto, a análise se concentra no comportamento de preços e na dinâmica do mercado, sem explorar de forma mais ampla as implicações ambientais desse cenário, como o uso intensivo de fertilizantes e seus efeitos sobre o solo e os ecossistemas.

Ao comparar as duas abordagens, percebe-se uma diferença de enquadramento. O ICL busca aproximar o tema da realidade social, enquanto O Globo prioriza indicadores econômicos. Ainda assim, ambas as coberturas deixam em segundo plano a dimensão ambiental do problema, tratando os fertilizantes principalmente como variáveis de custo, e não como elementos centrais de um modelo agrícola com impactos ecológicos relevantes.

Outra lacuna importante está na ausência de contextualização sobre a dependência estrutural do Brasil em relação a insumos importados. Esse fator não apenas expõe a vulnerabilidade do país diante de crises internacionais, mas também levanta questionamentos sobre a sustentabilidade de longo prazo do atual padrão produtivo. Alternativas como a diversificação de fontes, o incentivo a práticas agroecológicas ou a redução do uso de insumos químicos praticamente não aparecem nas narrativas analisadas.

Também chama atenção a limitada diversidade de fontes. Predominam representantes do setor econômico e do agronegócio, enquanto especialistas em meio ambiente, segurança alimentar e políticas públicas são pouco ou nada ouvidos. Essa escolha restringe o debate e reforça um olhar voltado ao mercado, deixando em segundo plano discussões sobre acesso à alimentação, desigualdade social e impactos socioambientais.

Esse enquadramento contribui para uma cobertura que prioriza custos e projeções, mas oferece pouca reflexão sobre quem será mais afetado pelo aumento dos preços e quais são as consequências ambientais desse modelo. Em um contexto de desigualdade, a elevação no valor dos alimentos tende a atingir de forma mais intensa as populações vulneráveis, ao mesmo tempo em que a intensificação produtiva pode ampliar pressões sobre recursos naturais.

Dessa forma, embora as reportagens ajudem a compreender os possíveis efeitos da guerra sobre o mercado agrícola, ainda há espaço para uma abordagem mais integrada. Incorporar dimensões ambientais e sociais permitiria avançar na compreensão das relações entre geopolítica, produção agrícola e segurança alimentar, elementos centrais para o jornalismo ambiental.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

**Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA.

Referências

CASTRO, Mayra. Guerra no Oriente Médio já tem impacto em fertilizantes e preço dos alimentos pode subir no Brasil. O Globo, 11 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/11/guerra-no-oriente-medio-ja-tem-impacto-em-fertilizantes-e-preco-dos-alimentos-pode-subir-no-brasil.ghtml. Acesso em: 13 mar. 2026.

CNN BRASIL. Ureia dispara e mercado reduz negociações em meio à guerra do Irã. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ureia-dispara-e-mercado-reduz-negociacoes-em-meio-a-guerra-do-ira/. Acesso em: 17 mar. 2026.

INSTITUTO CONHECIMENTO LIBERTA (ICL). Guerra no Oriente Médio pode encarecer alimentos no Brasil. YouTube, 2026. Disponível em: https://youtu.be/j3HmXbLbaZw. Acesso em: 13 mar. 2026.

LIMA, Ana Luíza Cordeiro. Fertilizantes nitrogenados: uma revisão bibliográfica sobre impactos ambientais. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Química Industrial) – Instituto de Química, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/42062/1/FertilizantesNitrogenadosUma.pdf. Acesso em: 17 mar. 2026.

Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

Foto: RS via Fotos Públicas

Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).