Entre diagnósticos e projeções do IPCC, as múltiplas nuances da emergência climática

Imagem: Pixabay.

Por Michel Misse Filho*

A principal notícia deste mês de abril, no que tange à situação climática do planeta, foi a divulgação do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima) da Organização das Nações Unidas. É apontada uma diminuição das chances de limitação do aumento da temperatura em 1,5ºC, cenário para o qual é necessário alcançar o pico de emissões até 2025 e cortá-las pela metade até 2030. O relatório do IPCC é um acontecimento tão científico quanto geopolítico e, divulgado sazonalmente, costuma ocupar um relativo lugar de destaque no noticiário dos grandes veículos de mídia.

Enquanto notícia, os fatos relatados pelas matérias costumam conter boa dose de informações climáticas, projeções de cenários, diagnósticos do problema — afinal, são estes os dados divulgados no âmbito do próprio IPCC. A matéria da Folha de S. Paulo sobre o acontecimento cumpre à risca seu papel e não se furta de elucidar, com clareza, as principais informações, causas e consequências que envolvem a emergência climática em curso. Já esta reportagem da BBC Brasil, publicada na última semana por portais como G1 e Folha de S. Paulo, também mobiliza uma interessante discussão científica em torno das novas tecnologias de “geoengenharia solar”: pesquisas que buscam mitigar o aquecimento do planeta a partir de técnicas como o lançamento de substâncias químicas na estratosfera, fazendo-as atuarem como barreira aos raios solares. Grande parte dos cientistas, todavia, alerta para o grave risco das técnicas, com consequências imprevisíveis para o planeta; reforçam o grau apenas paliativo do empreendimento; e criticam o deslocamento de atenção da raiz do problema, que é a imprescindível necessidade de redução da emissão de gases de efeito estufa.

O problema, no entanto, é que o emaranhado de outras dimensões que envolvem as mudanças climáticas — para além da reunião de cientistas e/ou políticos em organizações multilaterais — também necessita estar presente nas capas dos jornais e televisão. Se o objetivo deve ser o de informar a população para que, indiretamente, aumente a pressão da sociedade civil por medidas mais rigorosas de enfrentamento às mudanças climática, é preciso acionar as diversas nuances do assunto e envolver o público pelos múltiplos caminhos possíveis.

Um bom exemplo é esta matéria publicada pelo National Geographic Brasil, abordando “como o aquecimento global afeta a vida no Brasil”. A publicação envolve o já conhecido aumento de desastres naturais — e cita, por exemplo, as chuvas torrenciais que deixaram 233 mortos em Petrópolis (RJ) —, apontando para a mudança no padrão de chuvas nas regiões Sul e Sudeste, em especial. Também engloba as consequências diretas na saúde humana devido ao estresse térmico, bem como o aumento no custo de produção alimentícia e energética, e suas repercussões no aumento da desigualdade social brasileira.

A necessidade de envolver o público para as questões ambientais em suas diversas facetas é evidenciada, por exemplo, nesta coluna do portal Latinoamérica21, publicada na Folha de S. Paulo, sobre as “Contradições no mundo diante das mudanças climáticas”. Em suma, pesquisas de opinião apontam para um elevado grau de alerta das populações latino-americanas sobre as mudanças climáticas em relação ao resto do mundo; ao mesmo tempo, apesar de alertas, também são estas as mais otimistas quanto à resolução dos problemas. Chama mais a atenção, no entanto, a alta ênfase dada à responsabilização do indivíduo para solucionar as mudanças climáticas: nove em cada dez latino-americanos acreditam que suas ações pessoais fazem a diferença (mais do que a média de países desenvolvidos) e 40% das classes média e média baixa brasileira veem no indivíduo uma responsabilidade maior pela sustentabilidade do que nos governos e empresas.

Embora sem diminuir a importância da conscientização em nível individual, o foco somente nesta instância pode desestimular a pressão popular e a fiscalização dos grandes agentes poluidores. É também nesta direção que deve caminhar o jornalismo, em seu papel de descortinar as muitas variáveis que orbitam as questões socioambientais.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

O raso debate sobre veganismo

Imagem: IPEAS Report – The Politics of Protein, 2022

Por Matheus Cervo*

Nas últimas décadas, o debate sobre os impactos do consumo de carne tem avançado para mostrar que a escolha em aderir uma dieta vegana vai muito além de optar pela libertação animal.

Segundo a FAO-ONU, o consumo de carne vermelha gera 14,5% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) e é responsável por inúmeras infrações trabalhistas nos setores frigoríficos. Além disso, mais de 60% das doenças infecciosas humanas são causadas por agentes patogênicos partilhados com animais selvagens ou domésticos. Por isso, são utilizados antibióticos de forma excessiva na indústria da carne, o que contribui enormemente para o surgimento de agentes resistentes aos mesmos.

Os impactos são ainda mais gritantes quando pensamos de forma sistêmica e percebemos que esse tipo de produção gera desafios críticos à sustentabilidade, como perda de biodiversidade, poluição química, degradação da terra, dificuldade de manter um meio de subsistência e pobreza nutricional nas dietas familiares. Não é trivial notar dados alarmantes que mostram que 80% das terras agrícolas globais são destinadas à produção de soja e milho para fabricação de ração, algo que é extremamente ineficiente para resolver o problema grave da insegurança alimentar.

Ainda assim, existe uma quantidade enorme de matérias jornalísticas que não se comprometem em buscar fontes sérias, gerando desinformação e rejeição sobre o tema. Como exemplo disso, o Metrópoles publicou uma matéria chamada “Entenda por que alguns vegetarianos e veganos voltam a comer carne”. A escrita traz posições de nutricionistas que ainda não se atualizaram no debate científico, já que falam que veganos tendem a voltar a comer carne por ficarem subnutridos (pela suposta falta de proteína) ou por perceberem que estavam em um “surto” por pressões sociais absurdas. Por fim, traz uma série de argumentos de psicólogos para legitimar o processo de reconversão a uma dieta com carne, uma vez que esses profissionais da saúde afirmam a necessidade de autoconhecimento para se “desvincular de crenças que geram sofrimento”.

Um meio que faz um trabalho muito mais sério é O Joio e O Trigo, um projeto de jornalismo investigativo sobre alimentação, saúde e poder. Recentemente, publicaram uma matéria sobre o crescente mercado das caríssimas “carnes vegetais” industriais. Logo de início, partem de inúmeras fontes de informação que pautam a importância do debate sobre a mudança alimentar, como o relatório do Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Alimentares Sustentáveis (IPES-Food), que foi publicado no dia 6 de abril de 2022. Contudo, é com base nesse relatório que a matéria mostra que as soluções não são simples e que muitas alternativas industriais como as mencionadas não são sustentáveis e, inclusive, são patrocinadas pela própria indústria da carne.

O texto termina como uma aula ao jornalismo que se debruça ao veganismo e às mudanças alimentares, já que traz um discurso de que esse debate sobre carnes e proteínas precisa de uma dimensão antropológica. Ou seja, se sabemos que a redução ou a eliminação dos produtos de origem animal são necessárias, precisamos fazer esse debate junto da diversidade cultural de práticas para e com a natureza, com agricultores familiares, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e mesmo grupos urbanos em situação de insegurança alimentar. Não se trata de criar matérias repudiando ou adorando o veganismo, mas, sim, de o debater de forma societária e complexa.

* Graduado em Ciências Sociais, mestre em Comunicação e atual doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A emergencial pauta indígena que interessa sobremaneira aos não indígenas

Imagem: Reprodução da coletiva de imprensa da Apib no ATL

Por Eliege Fante**

Há 18 anos, os povos indígenas se reúnem em Brasília, no mês de abril, com um número cada vez maior de pessoas e de apoiadores. Dia 4 iniciou o Acampamento Terra Livre (ATL) com o tema “Retomando o Brasil: Demarcar Territórios e Aldear a Política” e que deve seguir até o dia 14 deste mês, reunindo cerca de oito mil participantes. Este panorama motiva uma maior dedicação à escuta, mas, parte da imprensa nacional, representada aqui por G1 dia 4 e dia 6, Record dia 4 e SBTNews dia 5 cumpriu o já comum “jornalismo” declaratório, ou seja, reproduziu alguns dizeres de fontes.  

A decisão sobre quais dizeres reproduzir requer tempo para pesquisa e reflexão dos jornalistas. Durante a coletiva de imprensa, no primeiro dia de ATL, as lideranças trouxeram informações portadoras de valores-notícia, apesar da pressão do agronegócio que, através do patrocínio ou outra forma, interfere nas políticas editoriais dos meios de comunicação sobre o que e como é, ou não, publicado. Por exemplo, Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas no Brasil (Apib), destacou na coletiva o “passivo muito grande de territórios a serem reconhecidos e demarcados nas regiões Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-Oeste”. Pois, explicou, a maior parte dos 13% de território indígena no Brasil se situa na região Norte, ou seja, no bioma amazônico. Os dados oficiais* sobre este percentual são: 728 terras indígenas, sendo 487 homologadas e reservadas, 124 em identificação, 74 declaradas, 43 identificadas.

No segundo dia do ATL (05/04) uma das publicações que chama a atenção é o vídeo curto feito pela Apib sobre o passivo referido por Sônia: um total de 891 terras indígenas que aguardam providências do governo federal, diante de apenas 408 registradas, ou seja, com o processo demarcatório concluído. O Relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil do Conselho Missionário Indigenista (CIMI, 2020) repete este número e apresenta o panorama, do qual extraímos o total de 1299 terras indígenas, sendo centenas com pendências administrativas e, o maior número delas, 536, sem providências por parte do Estado brasileiro. Só no Rio Grande do Sul, são 38 sem providência alguma.

Considerando esses números, a grande delegação indígena do RS no ATL, o crescente número de retomadas pelo estado e, inclusive durante a pandemia da covid-19, sem esquecer as mobilizações e doações periódicas pela sociedade civil para o suporte básico dos povos negligenciados pelo governo federal, existem muitas possibilidades de pautas a serem concretizadas pelo jornalismo de modo a auxiliar o público, que acessa esses conteúdos, sobre o que de fato é “tudo” para a reprodução social e o próprio desenvolvimento econômico no presente e futuro próximo. Resta saber se, a imprensa dona dos principais meios de comunicação no país, nacional e estadual, vai permitir o trabalho dos jornalistas profissionais nas redações. Neste caso, teremos uma semana para observar, até 14 de abril.

*Terras Indígenas no Brasil – https://terrasindigenas.org.br/ Acesso em: 05/04/2022.

**Eliege Fante é jornalista autônoma, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS, repórter e editora voluntária na EcoAgência e associada ao Núcleo de Ecojornalistas, o NEJ-RS.

Microplásticos no corpo humano: como ampliar a pauta sobre um estudo científico?

Crédito: Captura de tela do site RFI

Por Débora Gallas Steigleder*

A constatação inédita da presença de micropartículas de plástico no sangue humano é um importante alerta nas áreas de saúde e meio ambiente. Uma matéria da agência de notícias RFI publicada em 25 de março, que trata de estudo holandês sobre o tema, repercutiu em veículos nacionais, como a Folha.

O texto destaca que mais da metade das amostras de sangue dos voluntários contém vestígios de PET (polietileno tereftalato), um dos tipos de plástico mais comuns em nossa rotina por ser utilizado na fabricação de garrafas e fibras de poliéster. Assim, os dados por si só são capazes de alertar o leitor para a exposição cada vez maior do nosso organismo à infinidade de resíduos gerados pela indústria.

É necessário, porém, que o jornalismo estabeleça novas relações com as pesquisas científicas. Além de publicizar seus resultados, veículos e jornalistas podem utilizá-las como mote para pautas que conectem as descobertas recentes a problemas sociais e ambientais de longa data.

No caso brasileiro, por exemplo, é viável ampliar pautas conectadas à responsabilidade compartilhada por setores privado e público e cidadãos na geração, consumo e descarte de materiais recicláveis ou não recicláveis. Essas atribuições são previstas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, implementada em 2010, mas da qual a indústria ainda se esquiva, como destaca texto recente deste Observatório sobre o setor têxtil.

Além da evidente problemática ambiental referente à produção excessiva de novos itens e ao descarte incorreto desses materiais, falar sobre resíduos é falar também sobre o sustento de famílias que trabalham com a reciclagem. Em um Brasil empobrecido, é mais do que pertinente traçar um paralelo entre a escassez do alimento que nos mantêm vivos e a abundância de substâncias que envenenam nosso corpo.

*Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação. Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental. E-mail: deborasteigleder@gmail.com

Incêndios florestais em pauta

Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu

Por Leticia Menezes Pasuch*                                                 

A realidade da crise climática, que aumenta de forma global, é uma pauta recorrente na mídia, sobretudo diante dos seus impactos. Publicada no site da Revista Galileu no dia 16 de março de 2022, a notícia “Incêndios causaram perda de um terço das florestas do planeta” traz um estudo tecnológico inédito sobre as tendências globais de perdas florestais, divulgado no periódico Frontiers in Remote Sensing, que publica pesquisas associadas a ciência e tecnologia.

A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.

No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.

De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.

A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).

Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.

GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

A guerra, os fertilizantes e a (in)sustentabilidade do modelo agrícola brasileiro

Imagem: Captura de tela do site da Forbes

Por Ângela Camana*

Nesta semana, caso não se confirmem os avanços nas negociações entre Rússia e Ucrânia, a guerra no leste europeu completa um mês. Neste período de pautas sensíveis, a ausência de uma delas de faz sentir: diante de uma possível falta de fertilizantes sintéticos, o debate experimentado pouco explora a dependência brasileira deste tipo de produto. A cobertura do tema tem desperdiçado a ocasião para incluir em sua agenda uma crítica mais demorada ao modelo produtivo adotado pelo Brasil, que – para além da já evidente destruição ambiental – agora também dá claros sinais de sua insustentabilidade econômica. Esta ausência parece dar ainda mais munição para o lançamento de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, que aposta na manutenção do modelo produtivo que dá sinais de colapso: para ampliar a produção brasileira do insumo, o governo federal dá aval para a expansão da mineração, inclusive em terras indígenas.

Tão logo o conflito no leste europeu foi deflagrado, a cobertura jornalística de todo o mundo voltou os olhos aos horrores humanitários imediatos: as pessoas deixando suas casas durante um rígido inverno, enfrentando a fome, o cansaço e as barreiras burocráticas nas fronteiras nacionais. Passado o impacto inicial, à crise humanitária foi acrescido um debate sobre os impactos econômicos globais e os principais veículos brasileiros passaram a especular os possíveis efeitos do confronto por aqui. Com as sanções à Rússia, o centro do noticiário, então, passou a ser tomado por uma hipotética “crise dos fertilizantes”, já que o Brasil é dependente dos fertilizantes químicos advindos do exterior: hoje o país importa mais de 70% do nitrogênio, mais de 50% do fósforo e mais de 90% do potássio, que juntos formam o “NPK”.

A pauta agro, que virou pop nos últimos anos pela sua participação nos números e projeções da economia nacional, agora ocupa o palco dos debates por sua fragilidade frente a um cenário de instabilidade. O debate público sugerido pela imprensa tem sido centrado em um modelo bastante específico: o agronegócio exportador, apresentado como o principal prejudicado nesta disputa por fertilizantes sintéticos. No Brasil, o jornalismo hegemônico tem produzido uma cobertura sobre o tema calcada no economicismo e na abstração, sem identificar que os efeitos de um possível desabastecimento de fertilizantes não se farão ver apenas na balança comercial, mas na vida de sujeitos de carne e osso.

A guerra do outro lado do oceano é em si mesma uma tragédia. Com raras exceções, como o excelente podcast Angu de Grilo, o jornalismo brasileiro perde a chance de descrever como o conflito entre Rússia e Ucrânia tem sido usado para autorizar decisões que sustentam o catastrófico modelo de desenvolvimento brasileiro. Perdemos todos nós.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Estamos à mercê de qual cobertura?

Imagem: Print do topo da notícia publicada pelo G1 em 09.03.2022.

Por Clara Aguiar*

No dia 9 de março de 2022, artistas, lideranças indígenas, movimentos sociais e parlamentares da oposição se reuniram em frente ao Congresso Nacional para protestar contra o chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de projetos de lei proposto pelo governo de Jair Bolsonaro que prevê a flexibilização do licenciamento ambiental, a ampliação do uso de agrotóxicos e a liberação da mineração em Terras Indígenas. Idealizado pelo cantor Caetano Veloso, o “Ato pela Terra” contou com a participação de 17 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Apesar da multidão, minutos após o encerramento do ato, a Câmara dos Deputados aprovou o requerimento de urgência do PL nº 191/2020, que regulamenta a exploração de minérios em terras indígenas, inclusive em territórios habitados por povos isolados.

A aprovação do requerimento de urgência do PL foi título de matérias em diversos jornais do Brasil. No G1, a notícia Câmara aprova urgência para votação de projeto sobre mineração em terras indígenas, em um primeiro momento, parece se destacar ao adotar uma abordagem contextualizada que apresenta a proposta do projeto, os argumentos a favor e contra e o que o PL representaria na prática. No entanto, a matéria não é capaz de explicar ao leitor a complexidade socioambiental que envolve o PL 191/2020. Embora a proposta do projeto tenha como objetivo regulamentar uma prática que gera consequências nocivas para o meio ambiente e que possivelmente colocaria em riscos à vida de povos originários, esse aspecto parece ter sido esquecido. Em nenhum momento, o texto traz uma análise mais aprofundada de fontes especialistas em relação aos impactos que ocorrem na atividade de mineração.

Nesta notícia, observa-se um jornalismo declaratório devido ao predomínio de fontes oficiais, já que somente personalidades políticas foram consultadas: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), o líder da Oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE) e a deputada indígena Joenia Wapichana. Quando o meio ambiente está em pauta, Wilson Bueno defende que é preciso “ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2008, p.111).

Apesar do PL estar intrinsecamente ligado às questões socioambientais, o enquadramento não foi além do político. A matéria se limitou a abordar de forma jurídica o projeto em si e não explicou as problemáticas por trás de sua proposta. “Ele [jornalista] precisa ter uma visão mais abrangente do tema porque caso contrário, irá fechar o seu foco, restringir as suas fontes e ficar à mercê de informações ou dados que servem a determinados interesses” (BUENO, 2007, p. 377). Sob a ótica do jornalismo ambiental, a abordagem empregada pelo G1 não incorporou uma visão sistêmica que induz o leitor a relacionar a dimensão ambiental e social com o fato noticiado. A cobertura poderia ter investido em uma maior apuração que buscasse uma leitura crítica, com o emprego de conhecimento especializado e maior representatividade de fontes não governamentais que colocasse em perspectiva a problemática socioambiental.

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

BUENO, W. C. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. In: GIRARDI, I. M. T.; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo Ambiental: Desafios e Reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. pp.105-118.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

Imenso por sua importância, Ato pela Terra é diminuído pela imprensa

Imagem: Caetano canta no Ato pela Terra – Mídia NINJA

Por Sérgio Pereira*

Na quarta-feira passada, dia 9 de março, o Brasil promoveu um de seus maiores atos em defesa do meio ambiente. Talvez o maior já realizado no país com esse objetivo, ao lado da mobilização organizada pelos povos originários em Brasília no ano passado. O Ato pela Terra, liderado por Caetano Veloso, reuniu músicos, atores, atrizes, lideranças indígenas, centenas de entidades da sociedade civil e milhares de pessoas em frente ao Congresso Nacional.

A manifestação foi uma reação a projetos de lei que ameaçam o meio ambiente, o chamado “Pacote da Destruição” de Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Mais precisamente contra os PLs 2.633/2020, que permite a regularização fundiária de terras da União por autodeclaração, sem vistoria prévia do Incra; o 2.159/2021, que dispensa várias atividades e empreendimentos do licenciamento ambiental (esses dois primeiros em tramitação no Senado); o 490/2007, que proíbe a ampliação de áreas já demarcadas para os povos originários e fixa um marco temporal para as terras consideradas “tradicionalmente ocupadas por indígenas”; o 191/2020, que permite a mineração em reservas indígenas; (os dois últimos em tramitação na Câmara Federal) e o 6.299/2002, também chamado de “PL do Veneno” e que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no país, aprovado na semana passada pelos deputados federais.

Cantaram no palco montado em frente ao Congresso, além do próprio Caetano, talentos consagrados como Maria Gadú, Emicida, Seu Jorge, Nando Reis, Criolo, Daniela Mercury e Duda Beat. Mas também participaram artistas como Letícia Sabatella, Malu Mader, Lázaro Ramos, Alessandra Negrini, Elisa Lucinda, Mariana Ximenez, Leona Cavalli, Zezé Polessa, Christiane Torloni e Maria Ribeiro, entre outros. Mais de 200 entidades civis apoiaram o evento. No dia seguinte, as capas dos principais jornais não conseguiram refletir a grandeza da manifestação. O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias ignoraram completamente o ato em suas primeiras páginas.

Imagem: reprodução das capas de O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias

Apenas quatro grandes fizeram registro sem suas capas: O Globo, Folha de S.Paulo (com uma pequena chamada sem foto), Correio Braziliense e Jornal de Brasília, sendo os dois últimos publicações do Distrito Federal, com o fator local (proximidade) pesando com força na edição da primeira página. No caso do Jornal de Brasília, no entanto, a capa se limita a uma foto da cantora Daniela Mercury em uma coluna. O destaque positivo aqui fica por conta de O Globo, do Rio, que colocou a mobilização como segunda foto principal. Pena que o título “Caetano canta contra o garimpo em reservas” não dá a exata dimensão do protesto, como se fosse uma ação isolada do compositor baiano, e destacando apenas um dos projetos de lei.

Imagem: reprodução das capas de O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense e Jornal de Brasília

Já os três principais jornais gaúchos praticamente ignoraram a manifestação em suas versões impressas, sem nenhuma chamada de capa. O Correio do Povo deu pouco mais de 500 caracteres na página 3, sem foto, no final da matéria com o título: “Câmara aprova urgência para projeto de mineração”. O texto não cita a participação de artistas e nem a multidão reunida em Brasília para acompanhar os shows. Na versão on-line, CP postou matéria mais completa da Agência France Presse com o título “Caetano Veloso lidera ato em Brasília contra pacote de ‘destruição’ ambiental”, ilustrada com uma foto de arquivo de Caetano, exatamente às 17 horas, quando o evento estava começando, e sem atualização posterior.

Zero Hora, por sua vez, também deu em sua versão impressa uma nota de aproximadamente 900 caracteres na coluna Política+ (página 10), com foto destacando o encontro dos artistas com o presidente do Senado. Com um título pouco informativo, “Ativismo ambiental”, ZH cita alguns dos artistas que participaram da mobilização, mas omite o público. GZH, no entanto, postou na noite do dia do evento o texto da Agência Estado intitulado “Em ato no Congresso, artistas cobram proteção ao ambiente e aos povos indígenas”. O texto não cita a grande concentração de pessoas e apenas menciona a participação de Caetano, Maria Gadú e Letícia Sabatella, sem relacionar outros artistas ou participantes. A postagem exibe duas fotos, uma de Caetano ao violão ao lado da atriz Letícia Sabatella e outra mostrando o palco e feita a partir do ponto de vista da plateia. O Jornal do Comércio também se limitou a registrar o Ato pela Terra em sua versão impressa com um texto de 900 caracteres na página 18, com uma foto de reunião com a ministra do Supremo Tribunal Federal Carmen Lúcia. No digital, o JC repetiu a mesma nota e foto às 3 horas do dia 10, com o mesmo título: “Artistas vão ao Supremo pedir prioridade a questões ambientais”. Nada sobre o ato e a presença de milhares de pessoas no evento.

Imagem: reprodução de páginas do CP, ZH e JC

Os jornais brasileiros, em sua maioria, tentaram minimizar a importância do ato, buscando desmerecer o seu mérito histórico. Nesse sentido, prestaram serviço aos políticos e demais interessados na aprovação do “Pacote da Destruição”, como o agronegócio e as mineradoras. Para esses, o silêncio e a omissão são importantes instrumentos para atingir seus objetivos.

Cabe lembrar que um jornal não pode se limitar a dar aos leitores apenas aquilo que eles anseiam. Precisa também apontar para aquilo que realmente importa, aquilo que lhes atinge direta ou indiretamente. Precisa alertar o leitor e lhe dar o direito de reação. Como nos adverte o professor estadunidense Davis Merritt, especialista em jornalismo cidadão: “Numa sociedade de indivíduos dispersos e abarrotados com informação descontextualizada, uma vida pública efectiva precisa de ter uma informação relevante que é partilhada por todos, e um lugar para discutir as suas implicações. Somente jornalistas livres e independentes podem – mas habitualmente não conseguem – providenciar essas coisas. Do mesmo modo, a vida pública efetiva requer a atenção e o envolvimento de cidadãos conscienciosos, que só eles podem providenciar. Por outro lado, se as pessoas não estão interessadas na vida pública, elas não têm qualquer necessidade dos jornalistas nem do jornalismo”. (MERRITT apud TRAQUINA, 2003, p.12)

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

  • Referência

TRAQUINA, Nelson. Jornalismo Cívico: reforma ou revolução? In: TRAQUINA, Nelson, MESQUITA, Mário (org): Jornalismo Cívico. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.

PEC do laudêmio: extinção de cobrança, aumento da especulação?

Imagem: Captura de tela do site UOL

Por Eutalita Bezerra*

Assistimos assustados à enxurrada que ceifou vidas e levou um pedaço da história brasileira ao atingir Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, há poucas semanas. O assunto trouxe à tona a discussão sobre o pagamento do laudêmio, valor cobrado em transações imobiliárias no município e integralmente repassado aos descendentes do imperador Pedro II. O pagamento do laudêmio tornou a ser pauta alguns dias depois, quando a Câmara aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 39/2011 que, dentre outras atribuições, extingue a cobrança dos impostos de foro e laudêmio aos donos de áreas consideradas como terreno de marinha. Em análise para este Observatório, admitimos que as publicações sobre o assunto, no caso de Petrópolis, ficaram apenas no campo da curiosidade. Já no segundo, e sobre o qual nos ateremos adiante, as implicações ambientais foram pouco exploradas.

Para entender a movimentação, convém reforçar que, atualmente, proprietários de imóveis em terrenos de marinha — descritos na lei como aqueles situados numa faixa de 33 metros a partir da preamar média de 1831, ano em que foi instituída a cobrança — devem arcar com 0,6% do valor do imóvel, anualmente, referente ao pagamento do foro e outros 5% em caso de transferência onerosa do bem, ao que se chama laudêmio. O projeto aprovado na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado prevê a extinção dessas cobranças por meio da transferência dos terrenos aos seus ocupantes.

Além dos textos que linkamos acima, publicados em seguida da aprovação, uma curta pesquisa utilizando como palavras-chave “PEC 39/2011 Notícias” nos retornou outros textos que nos ajudam nessa discussão. Dentre eles, destacamos a publicação d’A Gazeta, do Espírito Santo. Nele, ao citar os impactos das mudanças previstas pela PEC para o dono do imóvel, o jornalista destaca pontos como maior facilidade de comercialização, desoneração, valorização e aumento da liquidez do imóvel. Já na publicação do Estadão, o assunto ganha diferentes vieses com a apresentação dos argumentos levantados por deputados de duas correntes distintas: o presidente da Câmara, Arthur Lira, que considera “sem sentido” manter a posse dos terrenos com a União e a deputada do PSOL, Sâmia Bomfim, que votou contrária à matéria, admitindo que ela não beneficia a todos, além de ser prejudicial ao meio ambiente.

Analisando os caminhos tomados pelo jornalismo nesses primeiros dias após a aprovação da pauta pela Câmara, entendemos que ainda se fala sobre o assunto de modo superficial e exclusivamente baseado em aspas dos deputados. Nenhum dos textos aos quais tivemos acesso trouxe especialistas ou mesmo comunidades envolvidas para tratar sobre o assunto, tampouco se desdobrou o tema para além do texto oficial. A propósito, conforme o texto da PEC, mais de 500 mil imóveis serão afetados pela mudança. Admitindo que boa parte destes são muito valorizados dada a sua localização privilegiada, nos perguntamos – e provocamos – como o jornalismo, ao explorar as nuances presentes nessa questão, estará disposto a abordar o aumento da especulação imobiliária – já predatória – nesses locais? E, a partir disso, a abordagem jornalística sobre o assunto nos mostrará de que modo a extinção da cobrança, bem como a transferência não onerosa de parte desses terrenos a estados e municípios, incentivará a privatização de áreas de beira-mar, afetando sobremaneira o meio ambiente?

Temendo que não, mas não podendo deixar de propor essa abordagem, destacamos a necessidade de dar um passo além na cobertura, considerando o que foi levantado pela professora Patricia Alves-Melo em artigo para UOL. A coluna expõe potenciais consequências socioambientais da PEC, classificando o caso como uma ação de racismo ambiental,  uma vez que “a iniciativa de permitir a ocupação particular dessas terras abre uma possibilidade real de pressão de grandes interesses imobiliários sobre comunidades de pescadores, marisqueiros, quilombolas e povos indígenas que habitam em tais zonas”. Alerta, ainda, para o risco de fragilizar a adaptação às mudanças climáticas em zonas costeiras sujeitas ao avanço do mar — aumentando a vulnerabilidade destas regiões e de suas populações.

Considerando que, com a matéria seguindo para o Senado, ainda há espaço para pressão popular, a nossa expectativa é por um olhar mais amplo, mais atento e questionador na cobertura do tema, não apenas dando espaço em colunas de opinião, mas abordando com profundidade e diversificando as vozes dentro das próprias reportagens.

*Jornalista, servidora pública, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio Ambiente.

O jornalismo ambiental em Eliane Brum

Imagem: Captura de tela – Divulgação do lançamento virtual do livro Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo realizado por Eliane Brum no dia 4 de novembro de 2021 e disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=keukvEXh9zM )

Roberto Villar Belmonte*

O livro mais recente da jornalista e escritora Eliane Brum é uma experiência arrebatadora e uma leitura desafiadora, como já escreveram, mas também é o relato de uma jornada floresta adentro e, exatamente por isso, é um curso aberto de jornalismo ambiental com aulas (capítulos) que provocam, instigam, impulsionam.

Seus interesses jornalísticos são tão amplos que não cabem dentro do que chamamos de campo do jornalismo ambiental. Acho até que Eliane Brum nunca se autodeclarou jornalista ambiental, pelo menos não recordo de ter lido ou ouvido algo nesse sentido, apesar de ela reportar a destruição do ambiente desde a última década do século passado quando apurava e escrevia no Zero Hora.

Lembro de um texto que ela publicou em meados dos anos 1990 repercutindo denúncia sobre presença de dioxinas nos efluentes líquidos de uma festejada fábrica de celulose instalada há décadas em uma das margens do Guaíba, lago que abastece a capital gaúcha. Duas décadas depois, em 2014, também escrevendo sobre poluição química, já deixava claro em artigo no (recém extinto) El País Brasil denunciando a maldição do amianto (https://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/06/opinion/1389007120_928954.html) que tinha sim assumido um lado na luta ambiental, o lado das vítimas das grandes corporações industriais. 

O cientista Antônio Nobre foi muito feliz no evento virtual de lançamento de Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo quando disse que o “livro passa a ser um clássico instantâneo”. O relato que Eliane Brum faz é uma das mais completas descrições do brutalismo na região, noção proposta na obra mais recente do filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe. “A transformação da humanidade em matéria e energia é o projeto final do brutalismo” (Mbembe, 2021, p.19).

O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), criado pela professora e pesquisadora Ilza Girardi, também responsável por este Observatório, trabalha desde 2008 identificando traços típicos de um jornalismo orientado ecologicamente. Os sete pressupostos já descritos estão presentes no livro mais recente de Eliane Brum: ênfase na contextualização; pluralidade de vozes; assimilação do saber ambiental; interconexão entre as escalas local e global; engajamento e militância; responsabilidade com a mudança de pensamento; e o princípio da precaução. 

O que vivemos, afirma Eliane Brum (p.341), “é uma guerra entre humanes”. De um lado, a minoria de comedores do planeta; do outro, as vidas comidas junto com o planeta. Amazonizar-se, explica a jornalista e escritora, “é, ao mesmo tempo, verbo ativo e reflexivo, que demanda deslocamento de centros geopolíticos, sim, mas demanda também transformação na estrutura de pensamento – transfiguração da linguagem” (Brum, 2021, p.343).

Segundo Brum (p.344-345), “o colapso climático exige radicalidade. Não basta remodelar o capitalismo, como querem alguns, é preciso refundar a pessoa humana”. Ainda de acordo com a autora, “cabe às gerações de humanos que hoje estão vivas a responsabilidade de mudar rapidamente a forma de habitar o planeta. E isso não será feito apenas reciclando lixo, usando carro elétrico ou preparando comida vegana” (p.346).

“Entrelugares é meu lugar de fala. Entrelínguas e entrelinguagens é meu existir. Aos poucos vou me tornando transmundos, translínguas e translinguagens. Estou no movimento do gesto. Aos poucos vou deixando o banzeiro para (r)evolucionar em òkòtó. Rexisto [sic]. Este livro é tudo menos algo definitivo sobre a Amazônia (ou sobre mim). Minha escrita se faz por atravessamentos – de campos de conhecimento, de experiências, de geografias, de gentes, de sensibilidades, de tempos. De corpos. Minha escrita é transcrita. Termino esse livro no meio.” (Brum, 2021, p.377).

Como professor de jornalismo fico imaginando aulas e trabalhos de conclusão de curso com Banzeiro Òkòtó. O envolvimento de Eliane Brum com suas fontes jornalísticas, parceiras no Movimento Amazônia Centro do Mundo, pode ser pensado à luz das reflexões iniciadas pela professora e pesquisadora Fabiana Moraes em outro clássico da literatura jornalística, O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem (2015). Outra obra recente que considero fundamental neste diálogo com a imersão de Brum na floresta amazônica é Jornalismo, Conhecimento e Contexto: Pensamento complexo para uma atividade em transformação (2020), da pesquisadora Ana Paula Lückman. 

Os jornalismos precisam se engajar de fato na luta ambiental para enfrentar a emergência climática não como oportunidade de negócios “verdes”, mas pelo que realmente é. É neste contexto que entendo o florestamento de Eliane Brum relatado em livro como um curso aberto. Um “clássico instantâneo” e, portanto, referência bibliográfica obrigatória do jornalismo ambiental brasileiro.

 

  • Referências

BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

LÜCKMAN, Ana Paula. Jornalismo, conhecimento e contexto: pensamento complexo para uma atividade em transformação. Florianópolis: Insular, 2020.

MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: n-1 edições, 2021.

MORAES, Fabiana. O nascimento de Joicy: transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2015. 

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).