Incêndios florestais em pauta

Mapa de perda de floresta devido ao fogo vs. outros fatores entre 2001 e 2019 (Foto: Alexandra Tyukavina, Peter Potapov, Matthew C. Hansen, Amy H. Pickens, Stephen Stehman, Svetlana Turubanova, Diana Parker, Viviana Zalles, André Lima, Indrani Kommareddy, Xiao-Peng Song, Lei WANG, and Nancy Harris). Fonte: Reprodução da notícia publicada em Galileu

Por Leticia Menezes Pasuch*                                                 

A realidade da crise climática, que aumenta de forma global, é uma pauta recorrente na mídia, sobretudo diante dos seus impactos. Publicada no site da Revista Galileu no dia 16 de março de 2022, a notícia “Incêndios causaram perda de um terço das florestas do planeta” traz um estudo tecnológico inédito sobre as tendências globais de perdas florestais, divulgado no periódico Frontiers in Remote Sensing, que publica pesquisas associadas a ciência e tecnologia.

A matéria levanta questões importantes e de interesse público referentes à situação das queimadas nas áreas florestais e sua proporção global entre 2001 e 2019 – sendo maior do que o estimado, além de mencionar o Brasil e as recentes queimadas na Amazônia, que chamaram a atenção dos pesquisadores. É apresentado o mapa produzido pelos autores, ilustrando em clara resolução as regiões que tiveram perda florestal e facilitando a visualização de quais áreas foram perdidas pela queimada ou por outros fatores e onde ainda não houve perdas.

No entanto, o conteúdo do texto se limita à reprodução dos dados da pesquisa, oferecendo pouca contextualização da temática que a envolve. Também não ouve muitas fontes, trazendo apenas declaração de uma das autoras do trabalho. A matéria não aponta a relação desses fenômenos com as ações humanas, que provocam, em maior parte, os incêndios florestais, além de não aprofundar esses danos à biodiversidade e aos ecossistemas.

De acordo com Wilson Bueno (2007a, p.18), com uma cobertura jornalística ambiental fragmentada, “o cidadão muitas vezes tem dificuldades para entender a amplitude e a importância de determinados conceitos e vislumbra o meio ambiente como algo que lhe é externo”, dificultando o entendimento do seu papel nessa atmosfera ambiental. Isso não auxilia na compreensão, nesse caso, dos motivos pelos quais os incêndios florestais ainda acontecem, quais são as consequências acarretadas pelas queimadas – como a emissão de gases do efeito estufa, mencionada no estudo – e, principalmente, o que pode ser feito para reverter tal situação e qual é a importância da participação dos setores público e privado no combate aos incêndios florestais.

A matéria negligencia o debate da emergência climática, inserindo apenas uma breve menção, no último parágrafo, de que o mapa apresentado “deve ser utilizado como ferramenta para fazer a gestão florestal e auxiliar no desenvolvimento de políticas globais e programas de conservação e modelagem climática”. A sua publicação foi feita no Dia Nacional de Conscientização sobre as Mudanças Climáticas e, no dia anterior (15), o mesmo veículo publicou outra notícia sobre um relatório que aponta consequências do aquecimento global nas américas até 2050, igualmente limitada e orientada para uma perspectiva catastrófica, trazendo dados científicos sem contextualizar a repercussão do estudo e ainda recorrendo ao sensacionalismo, uma das síndromes do jornalismo ambiental apontadas por Bueno (2007b).

Ao contrário, a cobertura dos incêndios, conforme o jornalismo ambiental, deveria ser comprometida com a mudança de paradigmas, enxergando além das aparências (BUENO, 2007a) e trazendo as pautas ambientais de forma ampliada, de modo a visibilizar as ações necessárias para lidar com catástrofes. A imprensa não poderia se eximir do papel educativo, colocando as informações necessárias e corretas à disposição da sociedade, que poderá tomar suas decisões diárias conectadas com a construção de uma vida sustentável (GIRARDI; LOOSE; BAUMONT, 2011).

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Majoara, 2007a.

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 15, 2007b. pp. 33-44.

GIRARDI, Ilza; LOOSE, Eloisa; BAUMONT, Clarissa (orgs.) Ecos do Planeta: Estudos sobre Informação e Jornalismo Ambiental. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

A guerra, os fertilizantes e a (in)sustentabilidade do modelo agrícola brasileiro

Imagem: Captura de tela do site da Forbes

Por Ângela Camana*

Nesta semana, caso não se confirmem os avanços nas negociações entre Rússia e Ucrânia, a guerra no leste europeu completa um mês. Neste período de pautas sensíveis, a ausência de uma delas de faz sentir: diante de uma possível falta de fertilizantes sintéticos, o debate experimentado pouco explora a dependência brasileira deste tipo de produto. A cobertura do tema tem desperdiçado a ocasião para incluir em sua agenda uma crítica mais demorada ao modelo produtivo adotado pelo Brasil, que – para além da já evidente destruição ambiental – agora também dá claros sinais de sua insustentabilidade econômica. Esta ausência parece dar ainda mais munição para o lançamento de iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes, que aposta na manutenção do modelo produtivo que dá sinais de colapso: para ampliar a produção brasileira do insumo, o governo federal dá aval para a expansão da mineração, inclusive em terras indígenas.

Tão logo o conflito no leste europeu foi deflagrado, a cobertura jornalística de todo o mundo voltou os olhos aos horrores humanitários imediatos: as pessoas deixando suas casas durante um rígido inverno, enfrentando a fome, o cansaço e as barreiras burocráticas nas fronteiras nacionais. Passado o impacto inicial, à crise humanitária foi acrescido um debate sobre os impactos econômicos globais e os principais veículos brasileiros passaram a especular os possíveis efeitos do confronto por aqui. Com as sanções à Rússia, o centro do noticiário, então, passou a ser tomado por uma hipotética “crise dos fertilizantes”, já que o Brasil é dependente dos fertilizantes químicos advindos do exterior: hoje o país importa mais de 70% do nitrogênio, mais de 50% do fósforo e mais de 90% do potássio, que juntos formam o “NPK”.

A pauta agro, que virou pop nos últimos anos pela sua participação nos números e projeções da economia nacional, agora ocupa o palco dos debates por sua fragilidade frente a um cenário de instabilidade. O debate público sugerido pela imprensa tem sido centrado em um modelo bastante específico: o agronegócio exportador, apresentado como o principal prejudicado nesta disputa por fertilizantes sintéticos. No Brasil, o jornalismo hegemônico tem produzido uma cobertura sobre o tema calcada no economicismo e na abstração, sem identificar que os efeitos de um possível desabastecimento de fertilizantes não se farão ver apenas na balança comercial, mas na vida de sujeitos de carne e osso.

A guerra do outro lado do oceano é em si mesma uma tragédia. Com raras exceções, como o excelente podcast Angu de Grilo, o jornalismo brasileiro perde a chance de descrever como o conflito entre Rússia e Ucrânia tem sido usado para autorizar decisões que sustentam o catastrófico modelo de desenvolvimento brasileiro. Perdemos todos nós.

* Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Estamos à mercê de qual cobertura?

Imagem: Print do topo da notícia publicada pelo G1 em 09.03.2022.

Por Clara Aguiar*

No dia 9 de março de 2022, artistas, lideranças indígenas, movimentos sociais e parlamentares da oposição se reuniram em frente ao Congresso Nacional para protestar contra o chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de projetos de lei proposto pelo governo de Jair Bolsonaro que prevê a flexibilização do licenciamento ambiental, a ampliação do uso de agrotóxicos e a liberação da mineração em Terras Indígenas. Idealizado pelo cantor Caetano Veloso, o “Ato pela Terra” contou com a participação de 17 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Apesar da multidão, minutos após o encerramento do ato, a Câmara dos Deputados aprovou o requerimento de urgência do PL nº 191/2020, que regulamenta a exploração de minérios em terras indígenas, inclusive em territórios habitados por povos isolados.

A aprovação do requerimento de urgência do PL foi título de matérias em diversos jornais do Brasil. No G1, a notícia Câmara aprova urgência para votação de projeto sobre mineração em terras indígenas, em um primeiro momento, parece se destacar ao adotar uma abordagem contextualizada que apresenta a proposta do projeto, os argumentos a favor e contra e o que o PL representaria na prática. No entanto, a matéria não é capaz de explicar ao leitor a complexidade socioambiental que envolve o PL 191/2020. Embora a proposta do projeto tenha como objetivo regulamentar uma prática que gera consequências nocivas para o meio ambiente e que possivelmente colocaria em riscos à vida de povos originários, esse aspecto parece ter sido esquecido. Em nenhum momento, o texto traz uma análise mais aprofundada de fontes especialistas em relação aos impactos que ocorrem na atividade de mineração.

Nesta notícia, observa-se um jornalismo declaratório devido ao predomínio de fontes oficiais, já que somente personalidades políticas foram consultadas: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o líder do governo na Casa, Ricardo Barros (PP-PR), o líder da Oposição, Wolney Queiroz (PDT-PE) e a deputada indígena Joenia Wapichana. Quando o meio ambiente está em pauta, Wilson Bueno defende que é preciso “ter compromisso com o interesse público, com a democratização do conhecimento, com a ampliação do debate. Não pode ser utilizado como porta-voz de segmentos da sociedade para legitimar poderes e privilégios” (2008, p.111).

Apesar do PL estar intrinsecamente ligado às questões socioambientais, o enquadramento não foi além do político. A matéria se limitou a abordar de forma jurídica o projeto em si e não explicou as problemáticas por trás de sua proposta. “Ele [jornalista] precisa ter uma visão mais abrangente do tema porque caso contrário, irá fechar o seu foco, restringir as suas fontes e ficar à mercê de informações ou dados que servem a determinados interesses” (BUENO, 2007, p. 377). Sob a ótica do jornalismo ambiental, a abordagem empregada pelo G1 não incorporou uma visão sistêmica que induz o leitor a relacionar a dimensão ambiental e social com o fato noticiado. A cobertura poderia ter investido em uma maior apuração que buscasse uma leitura crítica, com o emprego de conhecimento especializado e maior representatividade de fontes não governamentais que colocasse em perspectiva a problemática socioambiental.

Referências:

BUENO, Wilson da Costa. Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente: teoria e pesquisa. São Paulo: Mojoara Editorial, 2007.

BUENO, W. C. Jornalismo Ambiental: explorando além do conceito. In: GIRARDI, I. M. T.; SCHWAAB, R. T. (Orgs.). Jornalismo Ambiental: Desafios e Reflexões. Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. pp.105-118.

*Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

Imenso por sua importância, Ato pela Terra é diminuído pela imprensa

Imagem: Caetano canta no Ato pela Terra – Mídia NINJA

Por Sérgio Pereira*

Na quarta-feira passada, dia 9 de março, o Brasil promoveu um de seus maiores atos em defesa do meio ambiente. Talvez o maior já realizado no país com esse objetivo, ao lado da mobilização organizada pelos povos originários em Brasília no ano passado. O Ato pela Terra, liderado por Caetano Veloso, reuniu músicos, atores, atrizes, lideranças indígenas, centenas de entidades da sociedade civil e milhares de pessoas em frente ao Congresso Nacional.

A manifestação foi uma reação a projetos de lei que ameaçam o meio ambiente, o chamado “Pacote da Destruição” de Jair Bolsonaro e seus apoiadores. Mais precisamente contra os PLs 2.633/2020, que permite a regularização fundiária de terras da União por autodeclaração, sem vistoria prévia do Incra; o 2.159/2021, que dispensa várias atividades e empreendimentos do licenciamento ambiental (esses dois primeiros em tramitação no Senado); o 490/2007, que proíbe a ampliação de áreas já demarcadas para os povos originários e fixa um marco temporal para as terras consideradas “tradicionalmente ocupadas por indígenas”; o 191/2020, que permite a mineração em reservas indígenas; (os dois últimos em tramitação na Câmara Federal) e o 6.299/2002, também chamado de “PL do Veneno” e que flexibiliza o controle e a aprovação de agrotóxicos no país, aprovado na semana passada pelos deputados federais.

Cantaram no palco montado em frente ao Congresso, além do próprio Caetano, talentos consagrados como Maria Gadú, Emicida, Seu Jorge, Nando Reis, Criolo, Daniela Mercury e Duda Beat. Mas também participaram artistas como Letícia Sabatella, Malu Mader, Lázaro Ramos, Alessandra Negrini, Elisa Lucinda, Mariana Ximenez, Leona Cavalli, Zezé Polessa, Christiane Torloni e Maria Ribeiro, entre outros. Mais de 200 entidades civis apoiaram o evento. No dia seguinte, as capas dos principais jornais não conseguiram refletir a grandeza da manifestação. O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias ignoraram completamente o ato em suas primeiras páginas.

Imagem: reprodução das capas de O Estado de S.Paulo, Estado de Minas, O Tempo e Super Notícias

Apenas quatro grandes fizeram registro sem suas capas: O Globo, Folha de S.Paulo (com uma pequena chamada sem foto), Correio Braziliense e Jornal de Brasília, sendo os dois últimos publicações do Distrito Federal, com o fator local (proximidade) pesando com força na edição da primeira página. No caso do Jornal de Brasília, no entanto, a capa se limita a uma foto da cantora Daniela Mercury em uma coluna. O destaque positivo aqui fica por conta de O Globo, do Rio, que colocou a mobilização como segunda foto principal. Pena que o título “Caetano canta contra o garimpo em reservas” não dá a exata dimensão do protesto, como se fosse uma ação isolada do compositor baiano, e destacando apenas um dos projetos de lei.

Imagem: reprodução das capas de O Globo, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense e Jornal de Brasília

Já os três principais jornais gaúchos praticamente ignoraram a manifestação em suas versões impressas, sem nenhuma chamada de capa. O Correio do Povo deu pouco mais de 500 caracteres na página 3, sem foto, no final da matéria com o título: “Câmara aprova urgência para projeto de mineração”. O texto não cita a participação de artistas e nem a multidão reunida em Brasília para acompanhar os shows. Na versão on-line, CP postou matéria mais completa da Agência France Presse com o título “Caetano Veloso lidera ato em Brasília contra pacote de ‘destruição’ ambiental”, ilustrada com uma foto de arquivo de Caetano, exatamente às 17 horas, quando o evento estava começando, e sem atualização posterior.

Zero Hora, por sua vez, também deu em sua versão impressa uma nota de aproximadamente 900 caracteres na coluna Política+ (página 10), com foto destacando o encontro dos artistas com o presidente do Senado. Com um título pouco informativo, “Ativismo ambiental”, ZH cita alguns dos artistas que participaram da mobilização, mas omite o público. GZH, no entanto, postou na noite do dia do evento o texto da Agência Estado intitulado “Em ato no Congresso, artistas cobram proteção ao ambiente e aos povos indígenas”. O texto não cita a grande concentração de pessoas e apenas menciona a participação de Caetano, Maria Gadú e Letícia Sabatella, sem relacionar outros artistas ou participantes. A postagem exibe duas fotos, uma de Caetano ao violão ao lado da atriz Letícia Sabatella e outra mostrando o palco e feita a partir do ponto de vista da plateia. O Jornal do Comércio também se limitou a registrar o Ato pela Terra em sua versão impressa com um texto de 900 caracteres na página 18, com uma foto de reunião com a ministra do Supremo Tribunal Federal Carmen Lúcia. No digital, o JC repetiu a mesma nota e foto às 3 horas do dia 10, com o mesmo título: “Artistas vão ao Supremo pedir prioridade a questões ambientais”. Nada sobre o ato e a presença de milhares de pessoas no evento.

Imagem: reprodução de páginas do CP, ZH e JC

Os jornais brasileiros, em sua maioria, tentaram minimizar a importância do ato, buscando desmerecer o seu mérito histórico. Nesse sentido, prestaram serviço aos políticos e demais interessados na aprovação do “Pacote da Destruição”, como o agronegócio e as mineradoras. Para esses, o silêncio e a omissão são importantes instrumentos para atingir seus objetivos.

Cabe lembrar que um jornal não pode se limitar a dar aos leitores apenas aquilo que eles anseiam. Precisa também apontar para aquilo que realmente importa, aquilo que lhes atinge direta ou indiretamente. Precisa alertar o leitor e lhe dar o direito de reação. Como nos adverte o professor estadunidense Davis Merritt, especialista em jornalismo cidadão: “Numa sociedade de indivíduos dispersos e abarrotados com informação descontextualizada, uma vida pública efectiva precisa de ter uma informação relevante que é partilhada por todos, e um lugar para discutir as suas implicações. Somente jornalistas livres e independentes podem – mas habitualmente não conseguem – providenciar essas coisas. Do mesmo modo, a vida pública efetiva requer a atenção e o envolvimento de cidadãos conscienciosos, que só eles podem providenciar. Por outro lado, se as pessoas não estão interessadas na vida pública, elas não têm qualquer necessidade dos jornalistas nem do jornalismo”. (MERRITT apud TRAQUINA, 2003, p.12)

*Jornalista, servidor público, mestrando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio ambiente

  • Referência

TRAQUINA, Nelson. Jornalismo Cívico: reforma ou revolução? In: TRAQUINA, Nelson, MESQUITA, Mário (org): Jornalismo Cívico. Lisboa: Livros Horizonte, 2003.

PEC do laudêmio: extinção de cobrança, aumento da especulação?

Imagem: Captura de tela do site UOL

Por Eutalita Bezerra*

Assistimos assustados à enxurrada que ceifou vidas e levou um pedaço da história brasileira ao atingir Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, há poucas semanas. O assunto trouxe à tona a discussão sobre o pagamento do laudêmio, valor cobrado em transações imobiliárias no município e integralmente repassado aos descendentes do imperador Pedro II. O pagamento do laudêmio tornou a ser pauta alguns dias depois, quando a Câmara aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 39/2011 que, dentre outras atribuições, extingue a cobrança dos impostos de foro e laudêmio aos donos de áreas consideradas como terreno de marinha. Em análise para este Observatório, admitimos que as publicações sobre o assunto, no caso de Petrópolis, ficaram apenas no campo da curiosidade. Já no segundo, e sobre o qual nos ateremos adiante, as implicações ambientais foram pouco exploradas.

Para entender a movimentação, convém reforçar que, atualmente, proprietários de imóveis em terrenos de marinha — descritos na lei como aqueles situados numa faixa de 33 metros a partir da preamar média de 1831, ano em que foi instituída a cobrança — devem arcar com 0,6% do valor do imóvel, anualmente, referente ao pagamento do foro e outros 5% em caso de transferência onerosa do bem, ao que se chama laudêmio. O projeto aprovado na Câmara dos Deputados e que segue para o Senado prevê a extinção dessas cobranças por meio da transferência dos terrenos aos seus ocupantes.

Além dos textos que linkamos acima, publicados em seguida da aprovação, uma curta pesquisa utilizando como palavras-chave “PEC 39/2011 Notícias” nos retornou outros textos que nos ajudam nessa discussão. Dentre eles, destacamos a publicação d’A Gazeta, do Espírito Santo. Nele, ao citar os impactos das mudanças previstas pela PEC para o dono do imóvel, o jornalista destaca pontos como maior facilidade de comercialização, desoneração, valorização e aumento da liquidez do imóvel. Já na publicação do Estadão, o assunto ganha diferentes vieses com a apresentação dos argumentos levantados por deputados de duas correntes distintas: o presidente da Câmara, Arthur Lira, que considera “sem sentido” manter a posse dos terrenos com a União e a deputada do PSOL, Sâmia Bomfim, que votou contrária à matéria, admitindo que ela não beneficia a todos, além de ser prejudicial ao meio ambiente.

Analisando os caminhos tomados pelo jornalismo nesses primeiros dias após a aprovação da pauta pela Câmara, entendemos que ainda se fala sobre o assunto de modo superficial e exclusivamente baseado em aspas dos deputados. Nenhum dos textos aos quais tivemos acesso trouxe especialistas ou mesmo comunidades envolvidas para tratar sobre o assunto, tampouco se desdobrou o tema para além do texto oficial. A propósito, conforme o texto da PEC, mais de 500 mil imóveis serão afetados pela mudança. Admitindo que boa parte destes são muito valorizados dada a sua localização privilegiada, nos perguntamos – e provocamos – como o jornalismo, ao explorar as nuances presentes nessa questão, estará disposto a abordar o aumento da especulação imobiliária – já predatória – nesses locais? E, a partir disso, a abordagem jornalística sobre o assunto nos mostrará de que modo a extinção da cobrança, bem como a transferência não onerosa de parte desses terrenos a estados e municípios, incentivará a privatização de áreas de beira-mar, afetando sobremaneira o meio ambiente?

Temendo que não, mas não podendo deixar de propor essa abordagem, destacamos a necessidade de dar um passo além na cobertura, considerando o que foi levantado pela professora Patricia Alves-Melo em artigo para UOL. A coluna expõe potenciais consequências socioambientais da PEC, classificando o caso como uma ação de racismo ambiental,  uma vez que “a iniciativa de permitir a ocupação particular dessas terras abre uma possibilidade real de pressão de grandes interesses imobiliários sobre comunidades de pescadores, marisqueiros, quilombolas e povos indígenas que habitam em tais zonas”. Alerta, ainda, para o risco de fragilizar a adaptação às mudanças climáticas em zonas costeiras sujeitas ao avanço do mar — aumentando a vulnerabilidade destas regiões e de suas populações.

Considerando que, com a matéria seguindo para o Senado, ainda há espaço para pressão popular, a nossa expectativa é por um olhar mais amplo, mais atento e questionador na cobertura do tema, não apenas dando espaço em colunas de opinião, mas abordando com profundidade e diversificando as vozes dentro das próprias reportagens.

*Jornalista, servidora pública, doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo e Meio Ambiente.

O jornalismo ambiental em Eliane Brum

Imagem: Captura de tela – Divulgação do lançamento virtual do livro Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo realizado por Eliane Brum no dia 4 de novembro de 2021 e disponível no YouTube (https://www.youtube.com/watch?v=keukvEXh9zM )

Roberto Villar Belmonte*

O livro mais recente da jornalista e escritora Eliane Brum é uma experiência arrebatadora e uma leitura desafiadora, como já escreveram, mas também é o relato de uma jornada floresta adentro e, exatamente por isso, é um curso aberto de jornalismo ambiental com aulas (capítulos) que provocam, instigam, impulsionam.

Seus interesses jornalísticos são tão amplos que não cabem dentro do que chamamos de campo do jornalismo ambiental. Acho até que Eliane Brum nunca se autodeclarou jornalista ambiental, pelo menos não recordo de ter lido ou ouvido algo nesse sentido, apesar de ela reportar a destruição do ambiente desde a última década do século passado quando apurava e escrevia no Zero Hora.

Lembro de um texto que ela publicou em meados dos anos 1990 repercutindo denúncia sobre presença de dioxinas nos efluentes líquidos de uma festejada fábrica de celulose instalada há décadas em uma das margens do Guaíba, lago que abastece a capital gaúcha. Duas décadas depois, em 2014, também escrevendo sobre poluição química, já deixava claro em artigo no (recém extinto) El País Brasil denunciando a maldição do amianto (https://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/06/opinion/1389007120_928954.html) que tinha sim assumido um lado na luta ambiental, o lado das vítimas das grandes corporações industriais. 

O cientista Antônio Nobre foi muito feliz no evento virtual de lançamento de Banzeiro Òkòtó: Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo quando disse que o “livro passa a ser um clássico instantâneo”. O relato que Eliane Brum faz é uma das mais completas descrições do brutalismo na região, noção proposta na obra mais recente do filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe. “A transformação da humanidade em matéria e energia é o projeto final do brutalismo” (Mbembe, 2021, p.19).

O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), criado pela professora e pesquisadora Ilza Girardi, também responsável por este Observatório, trabalha desde 2008 identificando traços típicos de um jornalismo orientado ecologicamente. Os sete pressupostos já descritos estão presentes no livro mais recente de Eliane Brum: ênfase na contextualização; pluralidade de vozes; assimilação do saber ambiental; interconexão entre as escalas local e global; engajamento e militância; responsabilidade com a mudança de pensamento; e o princípio da precaução. 

O que vivemos, afirma Eliane Brum (p.341), “é uma guerra entre humanes”. De um lado, a minoria de comedores do planeta; do outro, as vidas comidas junto com o planeta. Amazonizar-se, explica a jornalista e escritora, “é, ao mesmo tempo, verbo ativo e reflexivo, que demanda deslocamento de centros geopolíticos, sim, mas demanda também transformação na estrutura de pensamento – transfiguração da linguagem” (Brum, 2021, p.343).

Segundo Brum (p.344-345), “o colapso climático exige radicalidade. Não basta remodelar o capitalismo, como querem alguns, é preciso refundar a pessoa humana”. Ainda de acordo com a autora, “cabe às gerações de humanos que hoje estão vivas a responsabilidade de mudar rapidamente a forma de habitar o planeta. E isso não será feito apenas reciclando lixo, usando carro elétrico ou preparando comida vegana” (p.346).

“Entrelugares é meu lugar de fala. Entrelínguas e entrelinguagens é meu existir. Aos poucos vou me tornando transmundos, translínguas e translinguagens. Estou no movimento do gesto. Aos poucos vou deixando o banzeiro para (r)evolucionar em òkòtó. Rexisto [sic]. Este livro é tudo menos algo definitivo sobre a Amazônia (ou sobre mim). Minha escrita se faz por atravessamentos – de campos de conhecimento, de experiências, de geografias, de gentes, de sensibilidades, de tempos. De corpos. Minha escrita é transcrita. Termino esse livro no meio.” (Brum, 2021, p.377).

Como professor de jornalismo fico imaginando aulas e trabalhos de conclusão de curso com Banzeiro Òkòtó. O envolvimento de Eliane Brum com suas fontes jornalísticas, parceiras no Movimento Amazônia Centro do Mundo, pode ser pensado à luz das reflexões iniciadas pela professora e pesquisadora Fabiana Moraes em outro clássico da literatura jornalística, O nascimento de Joicy: Transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem (2015). Outra obra recente que considero fundamental neste diálogo com a imersão de Brum na floresta amazônica é Jornalismo, Conhecimento e Contexto: Pensamento complexo para uma atividade em transformação (2020), da pesquisadora Ana Paula Lückman. 

Os jornalismos precisam se engajar de fato na luta ambiental para enfrentar a emergência climática não como oportunidade de negócios “verdes”, mas pelo que realmente é. É neste contexto que entendo o florestamento de Eliane Brum relatado em livro como um curso aberto. Um “clássico instantâneo” e, portanto, referência bibliográfica obrigatória do jornalismo ambiental brasileiro.

 

  • Referências

BRUM, Eliane. Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

LÜCKMAN, Ana Paula. Jornalismo, conhecimento e contexto: pensamento complexo para uma atividade em transformação. Florianópolis: Insular, 2020.

MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: n-1 edições, 2021.

MORAES, Fabiana. O nascimento de Joicy: transexualidade, jornalismo e os limites entre repórter e personagem. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2015. 

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor universitário e membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Cobertura sobre Atafona: para pensar além da destruição

Imagem: Reprodução da notícia analisada – Ruínas de casa na Praia de Atafona, engolida pelo mar. Erosão transforma paisagem em cenário apocalíptico Foto: Mauro Pimentel/AFP

Por Valentina Bressan*

Em 14 de fevereiro de 2022, foi publicada no portal online do jornal O Globo
uma notícia sobre o balneário de Atafona, que fica na cidade de São João da Barra, no Rio de Janeiro. O mote da matéria é que a água do mar está avançando rapidamente sobre a costa, destruindo as casas no litoral.

Embora a notícia traga pontos interessantes e de interesse público, muito do conteúdo da matéria recai nos clichês de um jornalismo que pode pretender-se ambiental, mas ainda não chega a ter o “caráter revolucionário” proposto por Wilson Bueno (2007, p.17). O sociólogo John Hannigan afirma que “a cobertura ambiental dos meios de comunicação social é, em larga medida, limitada e moldada pelas mesmas limitações de produção que governavam o trabalho noticioso em geral” (2000, p.87).

Na matéria d’O Globo, a apuração e redação não foram feitas por um repórter próprio do veículo, mas por uma correspondente uruguaia da Agence France-Presse (AFP). Deslocar o repórter até Atafona seria, certamente, mais custoso economicamente do que contratar uma agência noticiosa.

O segundo ponto, que fala sobre o espaço do portal destinado ao jornalismo ambiental, é a editoria. No site d’O Globo, a matéria está dentro da editoria “RIO”. Isso não é necessariamente negativo, já que, segundo Eduardo Gerarque (2018), é preciso que o Jornalismo tenha uma visão sistêmica, transversal dos assuntos ambientais. Contudo, por outro lado, isso também diz muito sobre o “não-lugar” que o tema, muitas vezes, ocupa na mídia tradicional.

Quanto ao enquadramento, a frase da linha fina, “Devido a uma combinação de fatores naturais e humanos, o mar avança até 6 metros por ano […],  evidencia o foco dado ao tema ao longo da matéria. Nos moldes do que aponta Carlos Walter Porto-Gonçalves (2004), é feita uma separação entre homem e natureza. Essa oposição entre cultura e natureza fica aparente: é o mar quem é capaz de destruir casas, de engolir o balneário.

No lide, a notícia traz o fato de que o aquecimento global é responsável pela intensificação da erosão no litoral de Atafona, porém as informações são superficiais: o uso que o homem fez da água nas últimas décadas e a construção de casas, que eliminou as dunas e a vegetação. Entretanto, o
aquecimento global é desconectado das “causas humanas”, como se este não fosse também intensificado pelas ações das pessoas.

A situação do balneário é descrita como apocalíptica, incomum e, embora os critérios de noticiabilidade do Jornalismo orientem para o novo e o improvável, esta abordagem não é a ideal para o Jornalismo Ambiental, pois não dá conta de conectar os acontecimentos com os contextos sociais.

Ainda que sejam consultadas múltiplas fontes de informação, não há um aprofundamento das causas e consequências, impedindo que haja uma ligação entre os aspectos locais e globais. Em vez disso, a notícia fica focada no “sal da cobertura noticiosa”, como afirma Hannigan: os danos e as perdas humanas, mas que não trazem a contextualização esperada para compreendermos a complexidade dos fatos ambientais.

* Aluna da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-mail: val.bressan@gmail.com.

Indústria têxtil: produção excessiva ou necessidade de reciclagem?

Imagem: Print da reportagem exibida no Fantástico com os caminhos possíveis para o problema de destinação de roupas e sobras de tecidos.

Por Eloisa Beling Loose*


Há muito lixo têxtil no mundo. A reportagem especial do Fantástico do último domingo, de quase 15 minutos, apresentou milhões de toneladas de roupas e tecidos que sobram da fabricação das peças e são acumuladas em praias ou desertos, sem nova utilidade para a humanidade e responsáveis por sérios prejuízos ambientais. As imagens são impactantes.

A reportagem trata dos impactos desse descarte inadequado e assinala que a decomposição pode demorar muito: as malhas de algodão, por exemplo, podem levar 20 anos enquanto as de materiais sintéticos, como poliéster, podem persistir no ambiente por até 400 anos. Entretanto, a causa da produção massiva recebe pouco enfoque na reportagem. Por que mesmo são produzidas tantas peças? Quem precisa de tanta roupa? Qual é o tamanho do lucro que está por trás de tanto desperdício?

De acordo com dados do relatório Fios da Moda, realizado pelo Instituto Modefica e FGV, são produzidas quase 9 bilhões de novas peças por ano no Brasil, o que representa uma média de 42 novas peças de roupa por pessoa. Se os recursos naturais são finitos, por que estamos produzindo em uma escala tão desproporcional às nossas reais necessidades?

O foco na reciclagem e reaproveitamento, escolha da reportagem, é necessário, porém não dá conta das razões irracionais que promovem uma cultura de consumismo diretamente associada à degradação da natureza em prol do lucro. A economia circular, baseada na otimização dos recursos a partir da redução, reutilização, recuperação e reciclagem, é bem-vinda, mas será a real solução para mitigar os danos de um sistema massivo que propositalmente se torna obsoleto em um curto tempo?

A responsabilidade pelo descarte da indústria têxtil é questionada, citando a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, segundo a qual os geradores teriam que cuidar da destinação adequada das sobras, mas fica claro que, na prática, a lei não está sendo cumprida. Uma das fontes ouvidas, representante do setor têxtil, busca desviar o assunto da responsabilização. O poder público repete que não há condições para fiscalizar todas as empresas.

O consumo exacerbado, motivado pelos baixos preços e desejo incessante de sempre vestir algo novo, acarreta um ciclo constante de compra, uso e descarte. Esse sistema, conhecido como fast fashion, tem contribuído para as mudanças das paisagens naturais que recebem toneladas de resíduos têxteis e, mesmo com iniciativas positivas (como a experiência do Clube de Mães no Brasil e do mercado de Kantamanto em Gana, sinalizadas pela reportagem), não consegue romper com a raiz do problema.

A rápida descartabilidade dos produtos, cerne de muitas indústrias nos dias de hoje, além de ser dependente da exploração constante dos recursos da natureza, deriva em montantes sem precedentes de produtos subutilizados. Enquanto a exploração seguir sendo economicamente vantajosa, não haverá razão para que o mercado opte por materiais reciclados. Ao naturalizar o modus operandi da indústria, apenas respostas paliativas e sempre insuficientes serão possíveis.

* Jornalista, pesquisadora e professora. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Mudanças climáticas: as crianças são o futuro e elas merecem ter um


Por Carine Massierer*

Reportagem recente (Mudanças climáticas podem comprometer o futuro de milhões de crianças (educacaoeterritorio.org.br )) do Programa Educação e Território, da Associação Cidade Escola Aprendiz de São Paulo, traz uma reflexão importante: as crianças em todo o mundo estão expostas aos impactos da crise e das mudanças climáticas. Isto se faz ver em inundações, temperaturas extremas, aumento de doenças respiratórias e na falta de aceso a alimentos livres de contaminantes, situações que não foram vivenciadas pelas gerações anteriores.

Imagem: Captura de tela do site Educação e Território

A matéria, assim como outras que suscitam este debate, foi impulsionada pela publicação do relatório (The Climate Crisis is a Child Rights Crisis | UNICEF) da Unicef sobre o índice de Risco Climático das Crianças (IRCC), em agosto de 2021. Com estes dados no horizonte, durante a COP26 em novembro, pais e mães de 44 países (incluindo o Brasil) assinaram uma carta pedindo urgência ao fim do financiamento de todas as novas explorações de combustíveis fósseis. Para além dos alertas provenientes dos relatórios e da pressão pública por mudanças, o aumento de temperaturas extremas neste verão no Brasil e a rigidez do inverno no hemisfério norte ampliam as preocupações para com o futuro das crianças, especialmente para quem acabou de dar à luz um filho.

Diante disto, grandes veículos como a Folha de São Paulo estão trazendo reportagens que retratam esta preocupação com o futuro da infância frente as mudanças climáticas, como pode ser acompanhado no link: Famílias mudam hábitos e vão até a Justiça para salvar filhos da crise do clima – 01/01/2022 – Ambiente – Folha (uol.com.br). A publicação mostra mudança de hábitos por parte das famílias e da busca junto a Justiça da garantia de salvação dos filhos da crise climática. A BBC Brasileira também traz em janeiro manifesto de crianças por seus “direitos” de igualdade de uso do ambiente nas mesmas condições que seus pais. Disponível em: As crianças que estão processando 33 países na Europa – BBC News Brasil

O que se pode perceber é que a imprensa tem ampliado não só os espaços de reportagens sobre as mudanças climáticas, mas tem contribuído para a publicização da reivindicação dos pais por condições de vida mais sustentáveis no planeta – na expectativa de que a infância tenha uma garantia de futuro. E, ao contrário do que prevalecia até pouco tempo atrás, quando somente os cientistas ou adultos tinham um lugar de fala nas manifestações e nos textos jornalísticos, a infância passa a ter um espaço também. Tímido ainda, mas que vem contribuindo para a discussão que já está posta de que as mudanças climáticas existem e afetam a todos.

Em uma publicação de 2013, intitulada Jornalismo e direitos humanos de crianças e adolescentes, a jornalista Jaqueline Almeida, já alertava que dentre os desafios para a garantia de direitos humanos estão a pobreza, desigualdades sociais, políticas de saúde, educação e proteção social ineficientes ou inexistentes, meio ambiente – escassez ou excesso de água, grandes desastres, mudanças climáticas, etc. Sendo assim, as mudanças do clima exigem que a infância seja considerada pela sociedade, pelos seres humanos em suas ações – e tambémpelo Jornalismo. 

Não é de hoje que pesquisadores da comunicação, da área da saúde, ciências naturais e da educaçãotrazem a preocupação da emergência climática e da necessidade de educação das crianças e jovens para o entendimento de que as ações humanas impactam o meio ambiente e estes efeitos afetam a humanidade. Cilene Victor (Vista de A opacidade do sofrimento humano decorrente de desastres sob a perspectiva do jornalismo humanitário (udea.edu.co), pesquisadora da área da comunicação, acredita que o Jornalismo Humanitário possa contribuir para que as crianças não tenham seus direitos violados. No entanto, ela ressalta que este jornalismo começa a erguer os seus primeiros alicerces num contexto onde milhões de vítimas da fome, dos conflitos armados, das guerras civis, da violência generalizada, dos desastres e das mudanças climáticas sofrem um silenciamento que é resultado da omissão e da indiferença dos meios de comunicação.

Com a preocupação de comunicar de forma eficiente a população que mais irá sofrer com essas mudanças o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Mudanças Climáticas (NapMC/Incline) e pelo Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP lançaram o livro Novos Temas em Emergência Climática, disponível gratuitamente no formato de e-book. Vale a pena consultar, curtir e compartilhar para o futuro dos nossos filhos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Possível impacto da mineração no turismo visibiliza pauta ambiental


Água turva e barrenta em Alter do Chão, Santarém, Pará, pode ser consequência da mineração.
Imagem: Julia Dolce – InfoAmazonia

Por Patrícia Kolling

Nas últimas semanas, os danos socioambientais causados pelo garimpo ilegal, realizado em terras amazônicas, tornaram-se novamente pauta na imprensa brasileira. Existe a suspeita de que os sedimentos da mineração na bacia do rio Tapajós, estejam influenciando na coloração das águas das praias de Alter do Chão, Santarém (Pará), região conhecida como caribe amazônico. O site InfoAmazonia, no dia 19 de janeiro, trouxe a notícia de que as águas do rio Tapajós, conhecidas pela transparência e efeito verde azulado, estão barrentas e turvas, apresentando um tom amarronzado.  A matéria destaca que em abril do ano passado um levantamento realizado pelo InfoAmazonia, em parceria com a Earthrise Media, havia revelado a mancha de poluição dos garimpos de ouro na bacia do Tapajós estendida por 500 quilômetros rio abaixo, entre os municípios de Jacareacanga e Santarém. Na época, o levantamento, apresentado no site através de um infográfico muito didático, mostrando a diferença das áreas e rios afetados de 1984 até 2021, não obteve grande impacto noticioso. Provavelmente, muitas comunidades tradicionais, de pescadores, indígenas e moradores da região estariam sendo impactadas por essa poluição ao longo dos anos.

Neste ano, porém, quando os possíveis danos da mineração, chegaram à região turística de Alter do Chão, podendo impactar economicamente, o tema conquistou repercussão nacional. O Jornal Nacional apresentou duas matérias sobre o assunto. Uma no dia 19 de janeiro, destacando a mudança da coloração da água e a preocupação quanto a poluição que ela traz, e mostrando o crescimento do garimpo na bacia do Tapajós. A notícia cita dados da Polícia Federal sobre o despejo, pelo garimpo, de 7 milhões de toneladas de rejeitos no Tapajós, e de uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), que detectou altos níveis de mercúrio no sangue dos moradores de Santarém.

Cinco dias depois, o tema voltou a ser notícia no Jornal Nacional, apresentando imagens aéreas e de satélites, que mostram o rio Tapajós sendo invadido pela lama dos rios Crepori e Jamannxim. “Em julho de 2019, a mancha de lama já era visível na região de Santarém. Em 2020, a linha ficou ainda mais forte e, em julho de 2021, a mancha estava ainda mais intensa”, diz a notícia, mostrando que o problema já é antigo, mas somente agora teve destaque ao atingir uma região visitada por muitos turistas.

O importante nessas matérias jornalísticas, além do factual, é que auxiliam o público a compreender os impactos do garimpo no ecossistema como um todo. A bióloga da UFOPA, Heloisa Meneses, entrevistada pelo InfoAmazonia destaca que, além de causar uma alteração visível na cor do rio, a atividade garimpeira ilegal impacta a composição biótica da água, o funcionamento das cadeias alimentares e, consequentemente, os ecossistemas aquáticos. A matéria do Jornal Nacional ressalta os riscos da poluição da água tanto para as populações tradicionais, como para toda a população amazônica. O coordenador do Mapbiomas, Cesar Diniz complementa que: “A chegada de sedimento garimpeiro até próximo da foz é um problema ambiental e humano muito grave. Essa é a preocupação. Mesmo na seca, o carreamento de sedimentos do Tapajós, até próximo de sua foz no Amazonas, está preocupantemente alto”. O InfoAmazonia mostra que a poluição nos rios amazônicos tem uma conexão direta com impactos ambientais que estão sendo observados no Oceano Atlântico, com a floração de enormes massas de macroalgas, em especial o sargaço, no mar do Caribe.

Mesmo trazendo muitas informações sobre os prejuízos do garimpo ao meio ambiente e a população, os meios de comunicação foram cautelosos em responsabilizar o garimpo pela mudança de coloração da água. O InfoAmazonia, citando a bióloga da Universidade Federal do Oeste do Pará, Heloisa Meneses, diz que um conjunto de fatores, como as alterações climáticas, pode ser responsável pela mudança de coloração da água, “no qual o garimpo e o desmatamento têm um papel importante por serem dois potenciais poluidores”, avalia Meneses. Ela explica que que além de liberar resíduos na água, a atividade garimpeira promove a “movimentação do solo”. “Tudo isso altera a dinâmica dos rios, do ponto de vista químico-físico e biológico”.

A notícia da BBC Brasil, publicada também pela Folha de São Paulo, trouxe o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. Ao explicar sobre a vazão dos rios e as características da coloração das águas, ele ressaltou que a melhor maneira de determinar a causa da água barrenta no Tapajós em Alter do Chão, seria analisar o conteúdo dessa água. “Essa análise conseguiria distinguir a argila oriunda do Amazonas, da lama proveniente de garimpo”, diz o geólogo. Seja por prudência ao responsabilizar uma atividade econômica tão poderosa como a mineração por esse dano ambiental, ou por responsabilidade com a informação jornalística, a contextualização e abrangência na apuração e abordagem do tema são importantes para a informação do leitor e telespectador.

* Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da Universidade Federal de Mato Grosso – Campus Araguaia.