Marco temporal: jornalismo e o não reconhecimento dos indígenas

Imagem: Projeção em prédio de Brasília na semana da mobilização indígena contra o Marco Temporal. Do perfil no Instagram @projetemos.

Por Reges Schwaab

Foi adiado para esta semana o que é considerado o julgamento mais importante dos últimos trinta anos para os povos indígenas. A tese do “marco temporal” prevê que os povos indígenas só teriam direito à terra se estivessem sobre sua posse no dia cinco de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Ou precisariam comprovar uma disputa judicial ou um conflito pela área na mesma data. 

O marco temporal e sua defesa expõem uma perspectiva perversa, achatada, contrária à alteridade. São cortadas dela a racionalidade ambiental, a consciência histórica e a centralidade do outro como balizadores da vida em comum. O fator ambiental desconsiderado pelos seus defensores também extingue as possibilidades de diálogo compreensivo e a necessidade de reparação histórica aos povos originários. No lugar, como vimos acontecer tantas vezes, vêm as sementes modificadas pela lógica da terra como propriedade, um objeto a ser explorado. Por séculos, os indígenas foram massacrados e expulsos de seus espaços. Só esse grave fator já invalida a defesa do marco temporal. Mas temos outros elementos. É notório que a permanência dos indígenas em seus territórios é garantia de preservação e conservação ambiental. Além disso, a cultura desses povos é desenvolvida a partir de um conhecimento que interliga profundamente seu modo de vida ao ambiente, uma inteligência autônoma e radical, uma das raras chaves para a autêntica ação diante do cenário de crise ambiental que vivemos. Preferimos devastá-los em lugar de compreendê-los, entretanto. 

Quando o jornalismo insiste em faltar, é preciso dar a manchete na rua, como na projeção flagrada na imagem acima. Termos seis mil indígenas mobilizados em Brasília já é um acontecimento digno de acompanhamento jornalístico qualificado. Requer trabalho de reportagem e exploração das distintas compreensões sobre o tema. Em vez disso, lemos novamente um jornalismo calado diante do complexo, e guiado pelo patrocínio do agronegócio em seu interesse pela posse de todos os terrenos possíveis. 

Em páginas duplas no primeiro caderno da edição de 22 de agosto, O Estado de S. Paulo mostra o tom: Julgamento do STF pode afetar propriedades de todo o Brasil. Nele, assim como em outros meios de referência, durante a semana em que o julgamento deveria começar, indígenas nunca foram protagonistas da sua própria questão e nem vozes para contar como sua própria história poderia ser acolhida. A violência contra os povos originários se capilariza de muitas formas no Brasil, e emerge forte no discurso, especialmente porque ainda está nos jornais uma capacidade de circulação desses dizeres. No centro da construção de sentidos sobre o ambiental, para o avanço do capital na colonização do imaginário, temos visto que não há limites. As parcerias pagas em jornais e canais informativos se ampliam, em que pese o fato de que toda cobertura já é, há tempos, acentuada pelo modelo de agronegócio como único caminho, não importa a temática. Como este mesmo Observatório já comentou tantas vezes, patrocínio, pagamento por conteúdo, falta de pluralidade de fontes estão entre os fatores que contaminam a produção jornalística, desconfiguram sua narrativa, fazendo emergir um simulacro de produção informativa, sem contrapontos e sem debate. 

Além da negativa de espaço a uma narrativa mais completa, temos de evidenciar a ausência de um gesto anterior ao fazer jornalístico. Seis mil indígenas estiveram em Brasília, mas o jornalismo, em geral, não quis falar com eles, não teve tempo para escutá-los em sua temporalidade e, por isso, não considera o conhecimento originário, a visão de mundo desses povos, nem seus direitos. Ver as falhas no diálogo entre as distintas vozes permite um olhar crítico ao que o jornalismo oferece em acontecimentos históricos cruciais. Além disso, permite recordar de um apagamento histórico de muitos sujeitos, da desconsideração do outro e do meio ambiente, dois dos elementos de sustentação das sociedades democráticas e sustentáveis. 

 O próprio julgamento do STF, que deve ser estendido por várias sessões, tem uma temporalidade distinta da temporalidade indígena, ou de uma temporalidade humana, da urgência da vida. Há, inclusive, apostas na demora como modo de esvaziar a mobilização. A temporalidade jornalística é, igualmente, distinta de ambas, especialmente a dos povos originários. A história, a cultura e a cosmovisão desses povos não cabem em nossas páginas tão apressadas. O jornalismo adianta a resposta e prefere logo fechar questão no que considera o ideal. 

O desrespeito e a negativa em abrir-se a uma compreensão dos indígenas deve seguir sendo criticada. É preciso lembrar que só pela alteridade podemos estabelecer o espaço comum, conviver e avançar de modo igualitário. É o que a filosofia nomeará como o gesto do reconhecimento. O outro como o compromisso primeiro para a comunicação e o jornalismo, tendo a alteridade como projeto para a produção do conhecimento, é inegociável, não parece haver outro caminho para trabalhar as crises do nosso tempo. Que história cada um desses seis mil indígenas poderia reportar? Que encontro seus relatos poderiam nos proporcionar se não fosse oferecida apenas a cobertura protocolar? E se pudéssemos, a partir do gesto do reconhecimento, escutá-los e aprender a dizer com eles?

O rosto do outro me afirma e torna minha própria existência humana ao solicitar-me uma escuta e, ao mesmo tempo, uma palavra. Sob esse aspecto, o dizer estabelece uma relação entre duas liberdades, afirmando a identidade dos interlocutores. Nos reconhecemos quando interpelados pelo rosto do outro: não se trata de submissão, mas de um comando ou apelo feito de uma identidade à outra. O rosto, o humano, abre uma fresta na casca do ser, tornando-o refém do outro, do estrangeiro que bate à nossa porta. A exposição ao outro define as identidades e faz com que o outro se torne importante, vital para a existência do eu (MARTINO; MARQUES, 2019, p. 35). 

Referência:

MARTINO, Luís Mauro Sá; MARQUES, Angela Cristina Salgueiro. A comunicação como ética da alteridade: pensando o conceito com Lévinas. Intercom (SÃO PAULO. ONLINE), v. 42, p. 21-40, 2019.

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Joaquim Leite ignora a imprensa. E vice-versa

Por Sérgio Pereira*

Fonte: Captura de tela do site G1

Nesta segunda-feira (23), completam-se exatos dois meses da demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Nos dois anos e meio em que ficou à frente da pasta, Salles se comportou exatamente de forma oposta ao que se espera de um ministro da área. Durante sua gestão, o Brasil bateu recordes de desmatamento e de áreas destruídas por queimadas na Amazônia e no Pantanal. Sua saída foi vista como um alívio não apenas pelos ambientalistas, mas por todos que se preocupam minimamente com a questão ambiental.
Em seu lugar assumiu o pouco conhecido Joaquim Alvaro Pereira Leite e, como sempre, a mídia se apressou em apresentar o perfil do recém-empossado, inclusive informando que sua família está envolvida em disputa de terras indígenas em São Paulo. Desde então, o MMA e, principalmente, o novo titular da pasta deixaram praticamente de ser notícia, como se a exoneração de Salles tivesse resolvido todos os problemas.
Uma busca personalizada no Google já é reveladora. Nos dois primeiros meses no ministério, Salles foi citado em 2.037 notícias (1.310 em janeiro e 727 em fevereiro de 2019). Já Leite tem apenas 816 (600 entre junho e julho e 116 entre julho e agosto deste ano), a maioria pautada por sua nomeação em 23 de junho e pela apresentação de seu currículo pela imprensa.
Estratégico, Leite não busca a polêmica e evita dar entrevistas. O oposto de seu antecessor, que chegou ao absurdo de ser fotografado em frente a dezenas de toras de árvores quando foi ao Pará, com o surreal objetivo de devolver aos madeireiros a carga ilegal apreendida pela Polícia Federal.
Leite quase busca o anonimato. No site do Ministério do Meio Ambiente, ele foi citado em notícias apenas 11 vezes em dois meses, uma média de um texto a cada seis dias. Uma forma de acompanhar seus passos é consultar sua agenda oficial, também disponível no site da MMA. Assim é possível verificar que o ministro já esteve reunido com diversas entidades empresariais, como Federação das Indústrias do Estado de São Paulo/Fiesp, Confederação Nacional da Indústria/CNI, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil/CNA, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos/Apex, Associação Brasileira dos Produtores de Algodão/Abrapa, e com representantes de empresas como Vale, Shell, Klabin (a maior exportadora de papéis para embalagens do Brasil) e Cidade Matarazzo (empreendimento imobiliário paulista), em audiências individuais.
Sua agenda aponta apenas um horário com entidades ambientais, no dia 17 de julho, registrado como “Reunião com ONGs”. O encontro, de apenas uma hora, foi com integrantes da Conservation International Brasil, The Nature Conservancy Brasil, Tropical Forest Alliance e Save Cerrado, entre outras. O tema na agenda eletrônica identifica a reunião como “Processo de Escuta Pré COP26”. Ou seja: uma reunião de preparação para a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acorrerá em Glasgow, na Escócia, em novembro deste ano.
Por sinal, o novo ministro viajou para Londres, em julho, para participar de encontro preparatório para a COP26. Curiosamente, o site do MMA não traz postagens sobre seu compromisso no Reino Unido. Os jornais tradicionais brasileiros também, praticamente, ignoraram a viagem.
Outro dado indicador de seu estilo registrado em sua agenda é que reservou horário apenas uma vez para conceder entrevista até agora, três dias após a posse, para uma equipe do Valor Econômico.
Numa análise sobre os sites de notícias G1, Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo, é possível verificar que o estilo discreto de Joaquim Leite contaminou a pauta dos três veículos. No portal da Globo, o atual ministro aparece como destaque apenas em uma oportunidade após a sua posse, quando de uma visita à base militar do Pará.
A Folha segue o mesmo compasso. Destaque apenas para um elogio do vice-presidente Hamilton Mourão ao novo titular da MMA. O jornal paulista, no entanto, merece menção pelo editorial de 7 de julho (“Circo amazônico”), que cobra do vice-presidente e de Leite solução para o desmonte na fiscalização no Norte do país. O Estadão, por sua vez, é ainda mais econômico ao abordar o assunto, e os poucos registros se resumem a algumas colunas de opinião e com enfoque favorável ao governo, como as constantes viagens à Amazônia e uma suposta cobrança do ministro em reunião com o presidente da COP26 para “reconhecimento de esforços de países subdesenvolvidos”.
Não resta dúvida que Joaquim Leite quer seguir a política predadora de Salles e Jair Bolsonaro bem longe dos jornalistas. Estamos entrando no período crítico das queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste. No ano passado, tivemos recordes de destruição. A imprensa precisa cumprir seu papel de fiscalizador e buscar formas de contornar a estratégia furtiva do novo ministro. Caso contrário, corremos o risco de deixar a boiada passar novamente. E no maior silêncio.

*Jornalista. E-mail: spimprensa@gmail.com

As mudanças irreversíveis no clima precisam incluir o debate sobre a justiça climática

Cláudia Herte de Moraes *

O mundo já escutou – ou deveria – que agora estamos em uma nova fase do aquecimento global. Em 2019, cientistas declararam a “emergência climática”. Em alguns casos a expressão crise climática, caos climático e colapso climático têm substituído o termo ainda mais usado – mudanças climáticas – exemplo do The Guardian. A divulgação do VI Relatório do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU), na segunda-feira 9 de agosto, trouxe o tema da emergência climática global novamente às manchetes. Os chamados “recados da ciência” são cada vez mais claros e assertivos: estudos mapeados por centenas de cientistas representando 195 países, indicam que se tornou praticamente impossível a limitação de até 1,5°C acima da temperatura de parâmetro – da era pré-industrial, colocada como horizonte no cenário do Acordo de Paris (2015). Desta forma, também as consequências das mudanças climáticas já estão sendo sentidas por milhões ao redor do mundo. 

Não se pode mais esconder a crise climática. Ela é considerada “inequívoca”, assim como a participação humana para o aquecimento global, pela primeira vez quantificada:   cerca 98%, destacando-se o aumento mais rápido da temperatura do planeta de 1970 em diante do que em qualquer outro período. Ou seja, é resultado de um tipo de progresso ou desenvolvimento hegemônico que degradou ao extremo as condições ambientais no planeta,  notadamente colaborando com as duas principais causas para o aquecimento global: o desmatamento e a queima excessiva de combustíveis fósseis. 

O aviso é de um grande perigo iminente, pois a alteração em sistemas de suporte, que regulam o clima na terra, se torna cada vez mais desastrosa em seus efeitos: dificuldades extras na produção de alimentos, alteração em ciclo de chuvas, ciclones, incêndios generalizados,impactos na saúde humana e animal,  além do risco à sobrevivência de grandes populações ao redor do mundo, afetadas diretamente pelo aumento do nível do mar.

Neste 2021, o último recorde das medições de temperatura ocorreu em julho, o mês mais quente registrado desde 1880. A cada dia temos variadas notícias de consequências do aquecimento global: ondas de calor extremo no Hemisfério Norte, chuvas torrenciais na China e Alemanha, temporadas de ventos e furacões mais agressivos em vários locais no planeta. No Brasil, a crise hídrica e o inverno mais seco afetam a colheita em várias partes do país. Com análise dos dados do IPCC, a produção de alimentos será afetada no Brasil.

A frase do secretário geral da ONU, António Guterres, de que o IPCC-AR6 é um alerta vermelho para a humanidade, foi amplificada pela imprensa brasileira, a exemplo da BBC News Brasil. Muito frequente foi a menção ao consenso científico sobre a crise indicando que os efeitos do aquecimento global estão por toda parte, cada vez mais visíveis. O facebook.eco em conjunto com a Lupa fez uma comparação com os alertas anteriores do IPCC e constatou a formação deste discurso.

Um dos aspectos observados está na relação temporal das análises. Agora, os eventos já estão sendo sentidos pela geração atual – e não se trata mais de situações apenas para “nossos netos”. Além disso, a cobertura jornalística trouxe a percepção de que a política e os governos precisam agir o quanto antes. Visualizamos comentários sobre decisões locais contrárias à ação climática – de governos negacionistas – como sendo não apenas crimes contra as populações locais, mas também percalços para a humanidade, como destacou o UOL.

Para ilustrar e exemplificar neste Observatório de Jornalismo Ambiental, fizemos uma busca exploratória no Google, com os termos “Relatório IPCC”, na data de 14 de agosto. Foram excluídos artigos e análises, e observado resultados por relevância, ou seja, os links que mais circularam na internet envolvendo notícias em português (Brasil). Observamos que os cinco veículos mais acessados foram os portais de notícias G1 e UOL, bem como os jornais Estadão, Folha de São Paulo e a CNN. Podemos observar que neste tema em específico – divulgação de relatórios da ONU – a chamada imprensa tradicional tem um maior espaço e ganha maior projeção. Os sites mais alternativos não retornaram como os primeiros em relevância, entre esses figurando apenas o Facebook.Eco (publicado por Piauí FSP) e uma reportagem da Mongabay publicado no UOL

Na tônica da cobertura da imprensa tradicional há seriedade nas considerações dos aspectos científicos bem como destaque à comunicação mais objetiva e clara dos resultados pelo IPCC.  Chama a atenção que ainda é tímida a abordagem do tema da injustiça climática. Precisamos refinar a busca para encontrar destaques sobre os efeitos em populações vulneráveis e desigualdades socioambientais. Não constavam nas primeiras páginas, mas conseguimos localizar nesta repercussão do relatório sobre o impacto da crise em relação aos direitos humanos.

Que as repercussões sobre o relatório sejam aprofundadas e cheguem com força até a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26) marcada para novembro em Glasgow (Escócia). Os cientistas indicam o caminho para a limitação das emissões imediatamente, na perspectiva de emissão líquida zero até 2050. Assim, esta conferência será decisiva, pois já está passando da hora de ações concretas pelos formuladores de políticas para um enfrentamento urgente à mudança global, não se furtando de incluir o impacto destes cenários para os mais pobres e vulneráveis

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br

Jornalismo de neve: o mesmo de sempre? Nem sempre

Por Míriam Santini de Abreu*


A cobertura das ocorrências de neve já virou motivo de piada no meio jornalístico de Santa Catarina. A pauta é sempre a mesma: o deslumbre dos turistas (e repórteres), a abundância de roupas para enfrentar o frio, a campanha do agasalho, a lotação esgotada de hotéis e pousadas na Serra, a tentativa de confecção de bonecos de neve enlameados. Em caminho oposto, duas matérias se destacaram na edição de 30 de julho, uma no Portal ND+ e outra no DC (Portal NSCTotal). No primeiro, as dificuldades de famílias empobrecidas diante das baixas temperaturas; no segundo, a ligação entre o frio atípico da semana que passou e a crise climática.
Assinada pela jornalista Ângela Bastos, a notícia do DC aborda o quanto o frio afeta o cotidiano de famílias que moram no Maciço do Morro da Cruz, que se estende de Norte a Sul no Centro de Florianópolis. A repórter descreve o espaço geográfico, as moradias precárias e detalha as medidas desesperadas das famílias para tentar se aquecer, como tapar frestas das casas com papelão e folhas de jornal e se esquentar com o calor do corpo de outro membro da família, com pais e filhos dormindo juntos. A notícia sai do lugar comum da cobertura jornalística local, que costuma associar a pobreza à destruição da natureza.
Intitulada “Frio atípico em SC é sinal de alerta para impactos do aquecimento global”, a notícia do ND+, assinada por Lorenzo Dornelles, traz como fontes pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Mesmo sem aprofundar a explicação, a notícia busca estabelecer a relação entre os recordes de temperaturas mínimas no âmbito regional, com 0°C em Florianópolis e -8,6°C em Bom Jardim da Serra, por exemplo, e de máximas em outros países, como o Canadá e os Estados Unidos, onde houve temperaturas acima dos 50°C nas últimas semanas. Na mesma edição, outra notícia falava sobre um migrante do Pará socorrido com início de hipotermia após pernoitar em uma área de mata em Concórdia, no Oeste do Estado, sob temperatura de 0°C.
Ainda que pouco densas, matérias como essas abrem caminhos promissores para veículos e jornalistas de Santa Catarina em busca de abordagens mais totalizantes para a pauta sazonal da chegada do frio e da neve. Para enriquecer essa cobertura, é importante apostar na pluralidade de fontes e interpretações, ouvir as pessoas afetadas pelo frio fora do circuito do turismo deslumbrado e questionar o posicionamento do poder público sobre as medidas a serem tomadas para mitigar esses impactos. Além disso, cada vez mais é fundamental aprofundar as conexões entre a neve e outros fenômenos que também são decorrentes das mudanças climáticas.

  • Jornalista, especialista em Educação e Meio Ambiente, mestre em Geografia e doutora em Jornalismo

Depois da boiada, o cardume: novos dados sobre contaminação por mercúrio decorrente do garimpo ilegal devem servir de alerta

Imagem: Captura de tela

Por Ângela Camana*

O Governo Bolsonaro, como as publicações deste Observatório indicam, tem sido de intenso ataque ao ambiente a aos direitos humanos no Brasil. Para além do desmatamento recorde e do desmonte de políticas públicas de conservação promovidos pela atual gestão, a imprensa também nos alerta para o recrudescimento dos conflitos ambientais envolvendo povos indígenas no país. O incentivo ao garimpo ilegal de ouro e os confrontos que dele decorrem não são novidade e já ganharam até linha do tempo em grandes portais. No entanto, nesta semana pudemos acompanhar um novo capítulo nesta escalada de violência e de descaso com a vida: os efeitos do garimpo ilegal já se fazem sentir na água, no solo, no ar e nos corpos da Amazônia.

Estudos estimam que o mercúrio utilizado no garimpo ilegal entre 2019 e 2020 excede as 100 toneladas: destas, 30% vai parar nos rios. Os peixes são a base da alimentação de grande parte dos povos indígenas amazônicos e pesquisas indicam que quatro a cada dez crianças menores de cinco anos nas regiões Yanomami estão contaminadas por altas concentrações do metal – entre os Munduruku, são seis em cada dez. Uma plataforma lançada no dia 20 de julho, o Observatório do Mercúrio, reúne diferentes pesquisas sobre a temática, além de dispor informações georrefenciadas que facilitam a identificação e correlação entre a atividade mineradora e os casos de contaminação humana e de peixes. Ainda que o assunto seja sério e exceda em muito as fronteiras amazônicas, a cobertura da imprensa em grande medida se restringiu à publicação do release produzido pela WWF, uma das instituições responsáveis pela plataforma.

Uma exceção é o bom trabalho publicado no El Pais, que situa o lançamento do Observatório do Mercúrio em uma rede de acontecimentos mais ampla, escutando pesquisadores responsáveis pelas investigações. O texto é competente ao articular o cenário de contaminação ao discurso permissivo do Governo Federal, e alerta para os riscos do PL 490, já aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, que – ao dificultar a demarcação de terras indígenas – abre margem para a ampliação do cenário de mineração. Na semana anterior, a Revista Piauí também já havia pautado a questão do mercúrio em um texto de título sagaz: Desensinando a Pescar. Bem, em um governo no qual um coordenador da FUNAI sugere “meter fogo” em indígenas isolados, recomendar a reeducação alimentar dessas populações já nem nos gera tanto espanto. Oxalá que o bom jornalismo siga se recusando a normalizar este e outros absurdos.

*Jornalista e socióloga. Doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: angela.camana@hotmail.com.

Incêndios florestais, seca, chuvas e a Havan em Canoas

Imagem: Reprodução do Matinal

Por Nicoli Saft*

À medida que a última semana transcorria, ficava cada vez mais difícil decidir sobre o que escrever para este Observatório. Começa a semana com o decreto de situação de emergência no Mato Grosso do Sul devido a incêndios florestais e a seca, seguindo com os também incêndios florestais nos Estados Unidos. Na quarta-feira, foi divulgada uma pesquisa do Inpe apontando que a Floresta Amazônica já emite mais gás carbônico do que absorve. Na quinta, uma excelente reportagem sobre a construção da Havan em Canoas (RS), eliminando com ela a última grande área verde do centro da cidade. Mas, então, chegou a sexta-feira, e as chuvas na Europa Central já haviam matado 120 pessoas. E o que todos estes acontecimentos informam sobre nosso tempo?

A emergência climática não está apenas no futuro, está acontecendo agora. E o que estamos fazendo? Bom, construindo lojas de departamento em áreas de preservação permanente, é claro. A reportagem “Instalação da Havan em Canoas abre caminho para o fim da última grande área verde no centro da cidade” foi escrita pelos estudantes Júlia Ozório, Nicole Goulart, Rafael Pereira, Eduarda Stefenon e Valentina Bressan, da UFRGS, e por Naira Hofmeister, do Matinal. A investigação foi produzida pelos estudantes para a disciplina de Ciberjornalismo III, do curso de Jornalismo, ministrada pelo professor Dr. Marcelo Träsel.

A matéria denuncia o pouco caso que a administração municipal faz da destruição da mata em virtude de novos empreendimentos no local. Como um exemplo emblemático, poucos dias antes da derrubada das árvores, biólogos encontraram no local indícios de uma espécie de lagostim nunca descrita pela ciência, e temem que ela irá desaparecer com as obras. A reportagem é dividida em três: a primeira relata os problemas envolvendo a construção do prédio da Havan em Canoas, uma segunda mostra o histórico da empresa em desrespeitar o meio ambiente e as legislações municipais, e uma terceira relembra casos em que a Prefeitura de Canoas negligenciou o meio ambiente, recomendo a leitura de todas.

Não se fala em aquecimento global ou emergência climática na reportagem, mas o texto mostra como a degradação daquela área verde pode afetar os moradores. Sem os banhados para reter a água no solo, ocorrerão inundações frequentes. A fauna do Arroio Araçá, destino da água da inundação, poderá ser afetada também. O microclima do bairro será impactado, ficando mais quente. E com o aumento dos carros, aumenta a poluição atmosférica. A reportagem explica como tudo está ligado, como as coisas acontecem.

Algumas matérias sobre as chuvas nos países europeus ou sobre os incêndios florestais citam a crise climática, outras chegam até a apontar o que especialistas estão falando, trazendo a conexão existente entre os fatos e as transformações globais. Eu não espero que no dia de um desastre já se possa explicá-lo, é claro. Mas o que eu gostaria que acontecesse, no caso da tempestade, dos incêndios florestais, das secas e das ondas de calor, é que os jornais mostrassem, de forma clara, qual a ligação desses eventos com a destruição do planeta pela humanidade, algo que se pode ver – atentando para suas devidas proporções e diferenças – no rigoroso trabalho publicado pelo Matinal.

Não parece ser por acaso que a única reportagem aprofundada sobre o terreno em Canoas que eu encontrei foi escrita por estudantes e publicada em um veículo de mídia independente. Ir contra grandes empresários não é exatamente o que o jornalismo tradicional faz no seu dia a dia, infelizmente. Então temos aqui duas questões que podem ser aprendidas com o colegas que ainda está na faculdade: confrontar empresas e governos que destroem o meio ambiente e explicar como essa destruição nos envolve e nos afeta.

Para finalizar, deixo uma questão: o que podemos fazer agora para interromper este processo de exploração da Terra? O jornalismo precisa explorar pautas sobre quais ações são necessárias tanto para evitar o agravamento do aquecimento global quanto para fornecer qualidade de vida a todos durante a emergência climática que já estamos. É triste pensar isso, mas espero que agora que países ricos europeus também estão sendo brutalmente atingidos, possamos olhar para essas questões com mais seriedade.

*Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Oportunidades para avançar na pauta da crise hídrica

Imagem: Pixabay

Por Eloisa Beling Loose*

Desde maio é possível observar, em diferentes meios de comunicação, uma frequente cobertura sobre os impactos, sobretudo econômicos, derivados da escassez da água. O sinal de que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão baixos desencadeou aumento na conta de luz e o receio de um novo apagão, como aquele sentido em 2001. Contudo, mais do que falar da água como recurso energético, o registro da pior seca dos últimos 91 anos serve de gatilho para que o jornalismo aborde os muitos interesses que envolvem sua disputa, como noticiou a CNN, e seu futuro em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.


Ao tratar esse contexto como de crise é preciso avaliar o quanto essa situação é mesmo atípica ou pode ser remediada no curto prazo. Uma nota técnica da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia aponta que este momento não é um desvio da curva que voltará ao normal, mas parte de uma tendência. As hidrelétricas estão com menos água porque os regimes de chuva estão mudando, resultado das alterações do clima – e isso não terá efeitos apenas em 2021. Mas, o que estamos fazendo para nos precavermos? O aumento da geração de energia por termelétricas, além de pesar no bolso do consumidor, contribui para a intensificação das mudanças climáticas em razão da maior emissão de gases de efeito estufa. Sofremos os efeitos da escassez hídrica e reagimos com medidas que tendem a potencializar o problema. Por quê? Quem ganha com isso?


A matéria do El País O que liga o aumento na conta de luz ao desmatamento da Amazônia e à emergência climática? Tudo” trouxe uma conexão importante, não apenas com o clima, mas também com o desmatamento da Amazônia (que nem sempre é vinculado à crise climática). É importante repetir que os fenômenos estão interligados e que o desmonte de políticas públicas ambientais afeta todo nosso modo de vida porque não há nada isolado na natureza. A perspectiva ambiental ajuda a compreender que água é um bem que deve ser cuidado por toda humanidade. O que estamos fazendo?


Apelar para a consciência do usuário também não é (ou deveria ser) o bastante. Utilizar a água com parcimônia é necessário, porém vale investigar quem são os grandes consumidores deste País e como se dá sua gestão. Nossa situação não é decorrente do acaso, de “um azar”, como declarou o presidente Jair Bolsonaro, mas de falta de planejamento e ações efetivas contra as mudanças climáticas. Leonardo Sakamoto, em sua coluna do UOL, destaca a conexão da falta d’água com a emergência climática, finalizando seu texto com o chamado para atuarmos em diferentes frentes: na geração de energia, no abastecimento, na produção industrial e na agropecuária.


Uma das poucas matérias encontradas nesta última semana que discute o uso da água pela agropecuária e coloca em xeque sua forma de produção é feita pela BBC Brasil. Nela, além da articulação entre a questão climática e o desmatamento, atrelada à expansão agrícola, é abordado o processo de irrigação das lavouras – em parte da bacia do Paraná, ela é responsável por 90% do consumo, que poderia ser destinado para o abastecimento das cidades ou geração de eletricidade. Segundo relatório da Agência Nacional das Águas de 2021, a irrigação é responsável por quase 50% da demanda de todo Brasil e esse número deve crescer para ampliar ou até mesmo manter a produtividade. Quais serão as consequências disso para os outros setores?


As secas, decorrentes da falta de chuvas, são processos longos e que costumam ser “normalizadas” com o tempo, recebendo menos atenção midiática do que outros eventos extremos mais intensos e de curto prazo. Que o aumento da conta da luz ou a ameaça do apagão para a reeleição de Bolsonaro transforme-se em oportunidades para que a cobertura da água seja mais problematizada e ganhe diversos enfoques. A questão hídrica é somente uma das facetas de um emaranhado de crises gerado pelo nosso modelo de desenvolvimento. Quando vamos falar mais sobre isso?

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Do frio brasileiro ao calor do Canadá, a importância de contextualizar a pauta do clima

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Uma onda de frio percorreu grande parte do país nesta última semana, do Sul ao Centro-Oeste. Já se tornou relativamente comum que, nesses momentos e em todos os anos, saiam dos porões — há muito abertos — negacionistas de plantão vociferando contra a existência e intensificação do aquecimento global. Quando acontece, trata-se de uma pseudodisputa: não interessa a eles a vitória de suas narrativas mentirosas, basta o simples questionamento na sociedade, a pura suspensão da certeza científica, o desvio do foco de atenção do que realmente importa. É possível que até mesmo a família Bolsonaro já tenha se cansado de propagar a mentira do frio, dessa vez mais preocupados com o desenrolar da CPI da covid-19 e com as denúncias sobre o ex-ministro, Ricardo Salles, relacionadas ao favorecimento de madeireiros ilegais na Amazônia.

Ondas sazonais de frio em nada contradizem a emergência climática (ao contrário, podem ser efeitos dela), e é importante que isso esteja claro sempre que a desinformação mentirosa ousar aparecer. Acontece que, nesta semana, isso ficou mais explícito diante do contraste radical e concomitante ao nosso “frio”, a partir das ondas históricas de calor registradas, mais uma vez e ano após ano, em países do hemisfério norte. Que o verão deles é no nosso inverno, não é novidade; mas um país como o Canadá bater três recordes seguidos, alcançando históricos 49,6º C, é mais do que preocupante. As centenas de mortes em decorrência direta das ondas de calor evidenciam um novo risco à saúde humana tão importante quanto aqueles relacionados aos grandes desastres já intensificados pela emergência climática, como furacões, ciclones, entre outros fenômenos. Pessoas com doenças crônicas, idosos e crianças são ainda mais vulneráveis ao estresse térmico provocado pelas ondas de calor, como informa a Sociedade Brasileira de Medicina da Família e Comunidade.

Entre as matérias publicadas no G1 sobre o tema, uma de autoria da BBC News e restrita à editoria Natureza (seção Aquecimento Global) é a mais qualificada, ao abordar os fatores meteorológicos para o calor e contendo uma breve análise de um especialista sobre o aumento da probabilidade desses eventos em função do aquecimento global. Já a notícia com pauta mais factual e inédita (no jargão jornalístico, mais “quente”) sobre o caso, na editoria Mundo e de autoria do próprio G1, falha ao apenas noticiar as mortes e as temperaturas do Canadá, negligenciando a discussão sobre a emergência climática, relegada a uma pequena frase no final da matéria. No dia seguinte, esta matéria do mesmo portal noticia o incêndio que devastou um vilarejo canadense e, novamente, relega as mudanças climáticas à última frase da matéria, desta vez em tom de inevitabilidade: “Cientistas avisam que, com as mudanças climáticas, fenômenos do tipo ficarão mais frequentes”.

A frase não está errada, e é importante que se frise a direção trágica que a humanidade caminha. No entanto, é imprescindível que o jornalismo não se ausente da elucidação dos contextos, causas (sobre os efeitos climáticos irreversíveis “em dominó”, a BBC publicou ótima matéria nesta semana) e medidas a serem tomadas, sobretudo nas publicações para o grande público, para além das editorias especializadas no assunto. Fica também implícita, aí, a necessidade de uma dimensão política e ativa inerente ao exercício jornalístico. Vale tanto para elucidar um tipo de senso comum sobre o frio, quanto para realçar e lembrar, sempre que possível, a altíssima associação, em termos probabilísticos, do aquecimento global com as ondas de calor.

* Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com.

Cai o ministro, segue a boiada: o PL490 é sobre a vida de todos nós

Por Ângela Camana*

Imagem: Captura de tela do site El Pais Brasil

Os acontecimentos desta última semana de junho, narrados em textos que ocuparam as capas dos principais portais de notícias, são representativos de um argumento recorrente entre aqueles e aquelas que se dedicam a pensar o jornalismo ambiental: as “questões ambientais” não estão restritas a uma editoria específica, pois as transbordam. A cobertura sobre a tramitação do PL490 – que altera a legislação sobre terras indígenas, instituindo, entre outras mudanças, o marco temporal – foi manchete ao longo de toda a semana, mobilizando discussões que vão desde os arranjos político-partidários à denúncia do ataque que este projeto de lei promove aos direitos dos povos originários e, em última instância, à própria natureza, já que abre margem para o garimpo e a grilagem. Poucos textos, no entanto, abordaram o fato de que a preservação da floresta é cara não unicamente aos que nela habitam, mas a todo o planeta, já que a manutenção da biodiversidade é necessária à regulação do clima, por exemplo. E, infelizmente, a pauta também chegou às páginas policiais, devido à ação truculenta da polícia para sufocar a manifestação dos indígenas de diversas etnias em frente ao congresso – com repercussão inclusive em veículos internacionais, como o The Guardian.


Observar a cobertura que a imprensa brasileira dedicou ao PL490 já é uma tarefa a ser sugerida nas salas de aula dos cursos de jornalismo de todo país – pois, por mais que algumas notícias relutem em assumir, trata-se de pauta cujas fronteiras editoriais são borradas: direitos humanos, economia e política são indissociáveis da natureza. Averiguar as estratégias narrativas adotadas pelos veículos acerca de uma pauta que envolve mais de 500 anos de história, a usurpação de terras indígenas, torna-se um desafio ainda maior quando observamos que este debate irrompe justamente na semana em que o Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles deixa o governo.
Ricardo Salles – como lembram jornais mundo a fora – está envolvido em acusações de tráfico de madeira e é possível que novas provas venham à tona nas próximas semanas. Não podemos esquecer que Salles é também o autor da célebre sugestão de que o Brasil deveria aproveitar a pandemia para “passar a boiada”. De fato, é a perspectiva que se coloca, sobretudo quando observamos a nomeação de um ruralista como novo ministro.
Infelizmente, parece que se vão os ministros, mas seguem seus bois – e estes passam por cima da Constituição, dos biomas e dos direitos indígenas. Como diz Eliane Brum em sua coluna semanal, no El Pais, a votação do PL490 é um ponto de não retorno: “A boiada passa inteira e nós todos, inclusive os autores do crime, ficaremos embaixo dos cascos porque a floresta vai virar outra coisa. E a coisa que vira não vai regular o clima”.
Fica o convite, então, para que o jornalismo brasileiro pare de se debater entre suas muitas cartolas pré-prontas e assuma, de uma vez por todas, que o ambiente seja não só uma pauta, mas um aliado. E é importante para todos nós que se imponha um freio à boiada e aos boiadeiros.

Cais Mauá: Com quantos adjetivos negativos se (des)faz um espaço?

*Eutalita Bezerra

Imagem: Captura de tela do site do Jornal do Comércio

Nos últimos quatro ou cinco anos, por conta da minha pesquisa de doutorado, investiguei a cobertura acerca das construções (ou destruições) nas áreas de Cais no Brasil. Em certo momento, buscando uma analogia entre o que ocorria no Cais José Estelita, em Pernambuco, no qual um conjunto de empreiteiras leiloou o terreno à beira do rio e propôs erguer ali um paredão de edifícios, e um possível futuro do Cais Mauá, em Porto Alegre, folheei as publicações tradicionais da cidade. A expectativa era de traçar paralelos entre as narrativas. O silêncio sobre o assunto era de tal forma significativo que inviabilizou a análise.

No último ano, porém ,tenho percebido um crescimento das discussões sobre o assunto nas páginas gaúchas, possivelmente mobilizado pelo já inaugurado Cais Embarcadero e por novas possibilidades para a região. Um exemplo pode ser visto no último dia 15 de junho, em que duas publicações foram feitas pelo Jornal do Comércio, ambas tratando de uma possível “revitalização” e exploração econômica da antiga área portuária de Porto Alegre.

A primeira delas, intitulada, “ ‘Projeto Cais Mauá é emblemático e único no País’, diz responsável no BNDES”, publicado sob a cartola “Patrimônio”, trata especialmente dos esforços do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, instituição responsável pelo estudo que vai sugerir ao Estado o formato para atrair interesse do setor privado naquela área.

Ao tratar sobre o espaço, convém destacar os termos utilizados, seja para descrevê-lo ou para apontar os caminhos já tomados: espaço degradado, desafio, concessão fracassada, conjunto deteriorado. O tombamento de alguns dos armazéns pelo patrimônio histórico também é citado como um entrave, inclusive apresentado como um dos responsáveis pela rescisão de um contrato anterior para obras na região.

Apesar de tantas agruras, o Banco parece enxergar ali potencialidades. Sua localização privilegiada, no centro da cidade, bem como seus mais de três quilômetros de extensão, o tornam de tal maneira “único” que merece a atenção do Departamento de Ativos Imobiliários da instituição financeira. Ao mesmo tempo, este, segundo a publicação, evitou comentar o potencial da área, bem como o volume de investimentos esperado.

Já a segunda publicação vem na coluna Pensar a Cidade, tutelada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul, com a cartola “Urbanismo”. Sob o título “Estudo sobre o Cais Mauá inicia com escuta ao público”, informa acerca dos primeiros de dez workshops propostos pelo Consórcio Revitaliza, grupo de oito empresas delegadas, junto com o BNDES, pelo estado para definir o melhor uso para a área.

O texto descreve os encontros como reuniões para apresentar “levantamentos iniciais sobre a área, bem como coletar sugestões sobre como poderia ser usada e qual a percepção das pessoas sobre o Cais e sua relação com a cidade”. O primeiro encontro teria ocorrido apenas com empresários e o segundo, apontado como “dia de maior debate”, recebeu a comunidade local, do entorno ou com algum interesse direto na área.

Professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, representantes de entidades da sociedade civil, como o Observatório das Metrópoles e da Associação Amigos do Cais do Porto, foram nominados no texto como vozes dissidentes. O texto admite, ainda, novas reuniões com entidades de arquitetura, universidades e imprensa sobre as “singularidades criativas que caracterizam o local”. O mesmo texto também admite que em pelo menos dois dos encontros serão realizadas devoluções, informando o que se pode ou não incorporar ao projeto a partir das contribuições recebidas.

Nesta publicação, embora o caminho pareça mais aberto que aquele vislumbrado noutras oportunidades ao se discutir o futuro de áreas de Cais, a naturalização do olhar para o espaço como apenas um ativo,necessariamente nos chama a atenção, mas não é o ponto mais importante neste momento. O que nos atinge com mais propriedade é o fato de que, mesmo quando em abertura a contribuições que fujam da lógica acumuladora e espoliadora, não há qualquer menção ao potencial impacto ambiental decorrente de sua utilização. Não é possível, aliás, dizer que esse assunto não foi tratado na reunião. Mas é plenamente factível afirmar que, caso tenha sido, o jornal não tomou como importante o suficiente para ser citado num texto que conta com três subtítulos.


Ao jornalismo, especialmente em momentos decisivos como este, em que o impacto de um empreendimento de grande envergadura não é analisado em sua potencialidade e nos seus riscos, cabe reforçar que o silêncio também é narrativa. E aqui retomo o olhar ao que ocorreu em Pernambuco: lido como um não-lugar pelos jornais, o terreno do Cais José Estelita, hoje e adiante, serve a uma ínfima parte da população. Seguirá com a expectativa do que poderia ter sido e não foi.


Para um destino diferente, os jornalistas precisam explanar as questões ambientais envolvidas nessa pauta hoje. É mister admitir que este não pode ser um assunto para segundo momento, quando as definições “sobre o que se pode ou não incorporar ao projeto”, como dito anteriormente, já estejam tão cristalizadas que seja impossível enxergar outros caminhos.

* Jornalista, Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental. E-mail: eutalita@gmail.com