Abordagens transversais em pautas sobre a Amazônia evidenciam a resistência do jornalismo

*Débora Gallas Steigleder

Na quarta-feira passada, 13 de novembro, assisti ao evento Conexões Amazônicas, promovido por integrantes de diversos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que têm a Amazônia como interesse de pesquisa. Na ocasião, Ilza Girardi, Eloisa Loose e Jamille Almeida representaram o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e incentivaram os participantes a refletirem sobre a importância da construção de pontes entre o conhecimento científico e os saberes das comunidades tradicionais. Também destacaram a necessidade de, na atual conjuntura de desinformação, em que há circulação de informações imprecisas ou deliberadamente enganosas, contarmos permanentemente com produções midiáticas qualificadas para além de editorias específicas, que assumam o princípio da precaução frente aos conflitos e riscos ambientais.

Muito já falamos neste Observatório, antes e depois de as queimadas criminosas na floresta amazônica dominarem o noticiário, sobre o dever do jornalismo de abordar a crise ambiental como sistêmica, na qual se conectariam as escalas global e local. A mais recente reportagem de Eliane Brum, publicada em El País em oito de novembro, é um ótimo exemplo para pensarmos a contextualização da pauta frente a este cenário. Erro de projeto coloca estrutura de Belo Monte em risco transcende escalas ao tensionar passado e futuro: ao apontar equívocos estruturais desconsiderados pelo consórcio na construção de reservatório da usina hidrelétrica, Eliane destaca que a crise climática vai piorar a situação, pois a vazão do rio Xingu já é diretamente influenciada pela derrubada da mata para a expansão do cultivo de soja na região de Volta Grande do Xingu.

A reportagem é motivada pela seguinte questão elaborada pela jornalista: “como é possível que o projeto da maior hidrelétrica da Amazônia e uma das maiores do mundo não tenha contemplado o comportamento medido e documentado do rio Xingu?”. A transversalidade da pauta fica evidente quando as fontes consultadas remetem às relações políticas e econômicas que levaram à realização do projeto de Belo Monte e às consequências do empreendimento em dimensões diversas, desde a saúde de ribeirinhos e indígenas até a dinâmica de todo um ecossistema. Além disso, a busca de conexões com outras tragédias, como o rompimento de barragens de rejeitos de mineração em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, localiza a discussão temporalmente, pois estamos falando de projetos que materializam a ideologia capitalista vigente, do desenvolvimento a qualquer custo.

Eliane Brum mostra, portanto, que a busca por novas formas de contar histórias na Internet não precisa se afastar dos elementos que compõem uma boa reportagem ambiental em qualquer mídia: abordagem aprofundada, diversidade de saberes e preocupação com as condições de existência no planeta.

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Jornada indígena: no foco da imprensa internacional, esquecida pela mídia brasileira

Imagem – Lideranças indígenas visitam 12 países da Europa. Foto Mídia Ninja.
Por Patrícia Kolling*

Desde o dia 25 de outubro, lideranças indígenas das cinco regiões brasileiras, estão percorrendo 12 países europeus na Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Em uma agenda lotada, estão reunindo-se com parlamentares, ministros, representantes de comissões internacionais, ativistas, acadêmicos, Organizações Não Governamentais (ONGs) e participando de mobilizações, debates, painéis e programas de comunicação. A Jornada, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), tem o intuito de denunciar as violações dos direitos dos povos indígenas e a destruição do meio ambiente, pelo governo atual.

A presença dos indígenas na Europa e a situação ambiental do Brasil tem sido tema de diversas reportagens na mídia em todos os países pelos quais a comitiva passou. O assunto, porém, não tem sido de muito interesse para a grande mídia brasileira.

Como, então, ficamos sabendo aqui no Brasil das atividades desta Jornada? Ficamos sabendo, porque paralelamente às atividades políticas, acontece um trabalho de assessoria de comunicação de divulgação das ações dos movimentos sociais indígenas e ambientais. Comunicação essa, que oportuniza, através das mídias sociais, a informação direta da sociedade. Junto com as lideranças que percorrem a Europa, estão indígenas comunicadores que cuidam da transmissão das informações sobre a Jornada. Em parceria com uma equipe colaborativa no Brasil e em diversos outros países, o grupo produz todos os dias releases que são encaminhados a grupos de whatsapp, veiculados nas mídias sociais e enviados a imprensa. No início de cada dia é divulgada a agenda dos eventos e no final do dia, em vídeo, um dos indígenas da comitiva faz um diário de bordo , relatando o que foi feito naquele dia e avaliando as atividades. Paralelamente, é produzido o clipping de tudo que é publicado sobre o assunto nos meios de comunicação, além de muitas fotografias e registros audiovisuais.

Felizmente, atualmente as novas tecnologias oportunizam essa outra comunicação e a transmissão de informações com uma perspectiva diferenciada da mídia hegemônica, dominada pelo poder econômico e político. Mártin-Barbero nos alerta que as tecnologias não são neutras e por isso mesmo “constitutivas dos novos modos de construir a opinião pública e das novas formas de cidadania, isto é, das novas condições em que se diz e se faz a política”. (2006, p.70)

Ou seja, temos na comunicação, que se viabiliza através das tecnologias digitais (vídeos, mídias sociais, internet) “um processo que por sua vez, introduz uma verdadeira explosão do discurso público, ao mobilizar a mais heterogênea quantidade de comunidades, associações, tribos, que ao mesmo tempo que liberam as narrativas do político, desde as múltiplas lógicas dos mundos de vida, despotencializam o centralismo burocrático da maioria das instituições, potencializando a criatividade social no desenho da participação cidadã.” (Mártin-Barbero, 2006, p. 70).

Frente a esta participação cidadã, parece que falta ao jornalismo brasileiro reconhecer as mídias e a comunicação realizada pelos movimentos sociais como legítimas, oportunizando espaços para a difusão da multiplicidade de informações, de culturas, de fatos, conhecimentos e pontos de vista.

Na semana passada, porém, dois fatos, com os critérios de noticiabilidade de atualidade, conflito e economia fizeram o tema entrar na pauta. A morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava um grupo de guardiões da Floresta, assassinado por madeireiros, e a presença da comitiva da Jornada na Bélgica solicitando a União Europeia a não ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, foram ganchos para que a Jornada fosse sutilmente citada na mídia brasileira.

Essa breve explanação, é na intenção de nos fazer refletir porque com tantas informações sendo produzidas sobre a sobrevivência ambiental do nosso país e dos nossos povos; a mídia insiste em fechar os olhos e não contextualizar a temática como poderia? Porque as questões ambientais, tão importantes para o futuro da humanidade, precisam pegar “carona” em assuntos de impactos factuais, de violência ou econômicos para serem abordadas na mídia?

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Tecnicidade, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis (Org.) Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

Jornalismo Ambiental e a Justiça em favor dos direitos do cidadão

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios todos os dias, para aliar os ideais de um jornalismo sistêmico comprometido e centrado na visão holística dos fatos com a cultura vigente de construção das notícias. Mas em tempos sombrios, uma liminar do judiciário pode contribuir para que temas extremamente relevantes, como a proposta de um novo Código Ambiental do Rio Grande do Sul, ressurja na imprensa e, ao mesmo tempo, permita que a população e os deputados ganhem tempo para tomar conhecimento e façam um debate sobre o tema.

A liminar que suspendeu o regime de urgência da tramitação da proposta do Novo Código chamou a atenção da imprensa e da sociedade desde que foi protocolada pelo governador atual, em 27 de setembro. Já na época da solicitação do governo, o fato foi noticiado, e muitos deputados já se posicionaram, afirmando que o prazo para a análise da proposta era muito curto, o que impossibilitava a apreciação do conteúdo e a reflexão sobre o tema. A pressa do governo, segundo a matéria publicada no G1 , deve-se, entre outras coisas, ao objetivo de “desburocratizar o processo para quem quer empreender sem descuidar do meio ambiente”.

A modificação em uma legislação é um processo que requer tempo de análise, em função da complexidade e da importância para todos os cidadãos. Justamente por isso, deveria ter sido colocada em discussão pública, caso os legisladores quisessem saber a opinião da população.

As leis e as questões que afetam os cidadãos também devem ser informadas e as empresas jornalísticas do Rio Grande do Sul e do Brasil – no caso o G1, como exemplifica a matéria aqui referida – tem conseguido abrir espaços para temas ambientais, com o auxílio do judiciário, apesar dos muitos desafios (MASSIERER, 2007) que o Jornalismo Ambiental ainda tem pela frente em razão da lógica capitalista de produção, das rotinas intensas e da diminuição das jornalistas nas redações.

No entanto, mesmo com a cobertura dada desde o protocolo da proposta em 27 de setembro – o que sinaliza o comprometimento com o tema e com a qualificação da informação – existem outros pressupostos do Jornalismo Ambiental que desafiam os jornalistas diariamente (LOOSE e GIRARDI, 2017) e que passam pela ênfase na contextualização, pluralidade de vozes, assimilação do saber ambiental, cobertura próxima à realidade do leitor, responsabilidade com a mudança de pensamento e incorporação do princípio da precaução.

MASSIERER, Carine. O olhar jornalístico sobre o meio ambiente um estudo das rotinas de produção nos jornais Zero Hora e Correio do Povo. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Informação) -Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2007.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos.Interin,,Curitiba. V.22, n.2, p.154-172, jul./dez. 2017.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Livros-reportagem: o jornalismo respira em um mundo sem fôlego

Por Reges Schwaab*

A urgente abordagem qualificada das mudanças climáticas não significa pressa. Será necessário encontrar o tempo para a complexidade que o tema requer. Ela começa na compreensão individual que permita visualizar as drásticas alterações globais em curso, já documentadas por cientistas, bandeira de movimentos sociais, tema de filmes e capas de revistas e alvo do negacionismo desprovido de ética.

Já não é possível pensar nosso cotidiano sem o olhar socioambiental. A cobertura guiada por acontecimentos pontuais deve ser suplantada pela realidade implacável da emergência climática, que não escolherá lugar, hora ou fronteira, com verdadeiro potencial de alterar a vida como experimentamos hoje.

Trabalhos com rigor de apuração e abertura interpretativa são valiosas fontes de estudo. E servem a jornalistas e a toda pessoa que queira oxigenar sua compreensão dos múltiplos aspectos das mudanças climáticas.

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Imagem: Reprodução. Livro de Jonathan Safran Foer ainda sem tradução no Brasil

O escritor Jonathan Safran Foer, em “We are the weather”, não adia consequências nem decisões pela ação. As mudanças climáticas são um problema global e individual, mas essas não são hipóteses excludentes, afirma. Oferece um ensaio de grande investimento em pesquisa e forte apelo emocional. Aponta para a necessidade de ações governamentais sistêmicas e de transformação de hábitos de vida, pois o sofrimento causado pela crise do clima será irrestrito.

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 Imagem: Reprodução. David Wallace-Wells já pode ser lido em português

Elogiado por Safran Foer, “A terra inabitável”, do jornalista David Wallace-Wells, desconstrói a fantasia de que as mudanças climáticas têm ritmo lento. Traça um cenário de fome, calor, enchentes, desertificação e crise econômica, com grande capacidade de observação e prospecção. O poderoso embasamento que sustenta o livro faz pensar com assombro nas mudanças que tomarão forma ainda neste século.

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Imagem: Reprodução. Cláudio Angelo mescla reportagem, diário de viagem e relato científico

A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima”, de Claudio Angelo, dialoga com diferentes leitores sem perder o rigor. Uma “leveza” no tom do texto aparece mesmo nos detalhes do derretimento das calotas polares e nas consequências para a agricultura e para as cidades. A força do “repórter na rua”, ou “no mundo”, rende uma mescla de reportagem, diário de viagem e relato científico. As mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade, argumenta.

A literatura produzida sob a rubrica do jornalismo é campo em destaque na crítica especializada e em prêmios nacionais e internacionais. Fontes de qualidade para o debate, mesmo que o colapso seja, inevitavelmente, um componente do nosso futuro.

Para ampliar:
David Wallace-Wells – Desastres em cascata (Revista Piauí)

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Para encontrar as respostas, precisamos fazer as perguntas

Imagem: captura de tela do site The Intercept Brasil
*Ursula Schilling

Para que serve o jornalismo?

Faço essa pergunta, logo de começo, pois pretendo que esse texto verse sobre questionamentos, não somente sobre respostas. É comum esperarmos que o jornalismo nos revele aspectos da vida, pela cobertura de acontecimentos. É possível e previsível que ele faça isso. Mas, considerando seu papel social e seu potencial transformador da realidade, é importante que ele nos leve a pensar, a fazer o exercício reflexivo de entender o que está sob a superfície dos fatos noticiados.

Para ilustrar isso, parecem-me pertinentes duas matérias publicadas pelo The Intercept Brasil na última semana, que problematizam a questão da produção de lixo plástico e seu destino. A agência de notícias norte-americana, que se descreve como combativa e com liberdade editorial, divulgou informações de que a Coca-Cola seria a maior produtora do resíduo no mundoe que, mais do que isso, promoveria o discurso de “marca amiga do meio ambiente” na direção contrária daquilo que pratica. O texto traz dados de relatório internacional que elenca as corporações mais poluidoras do planeta. Tire um tempo para a leitura e veja que há ali, certamente, marcas “queridas” por todos nós e que, certamente, ao menos um item delas temos em casa.

Imagem: Pixabay

O caro leitor, a cara leitora pode estar pensando: mas e as manchas de óleo no Litoral do Nordeste? E as queimadas na Amazônia? Não seriam esse tópicos mais pertinentes para um Observatório de Jornalismo Ambiental?

Definitivamente essas temas, que têm ocupado os noticiários, merecem a devida atenção e uma análise continuada e cuidadosa. Mas eu garanto: o centro da minha reflexão tem relação com tudo isso. Por quê? Porque o que acontece com o ambiente tem causas, tem uma raiz. E são essas causas, a história que a história não conta, como cantou a Mangueira no carnaval 2019, que muitas vezes nem tangenciam a cobertura midiática, que precisam estar no nosso radar e na nossa mira.

Trecho do conteúdo do TIB provoca: “A duvidosa honraria recebida pela Coca-Cola, de figurar por dois anos seguidos como a maior responsável global pela produção de resíduos plásticos, vai de encontro à imagem de liderança ambiental cuidadosamente construída pela empresa”. Aqui está o eixo questionador. As instituições fazem o que realmente dizem fazer?

Não se trata de uma cruzada contra as marcas, de demonizar este ou aquele rótulo, mas de um movimento crítico em relação a todo um sistema produtivo, ancorado numa lógica de consumo muito bem estabelecida e dificil de ser revista.

Trata-se, também, de tirar das costas do consumidor o jugo exclusivo da culpa pelo caos ambiental que aí está. Veja bem, você e eu somos responsáveis por isso (também). Nossos hábitos contribuem, direta ou indiretamente, para a degradação assustadora e quase irreversível da Terra (no caso, a nossa casa). Mas se há consumo, há produção,e é essa instância que precisa ser cada vez mais questionada. É uma equação, com vários envolvidos.

Também não nos iludamos. Sozinho o Jornalismo (compreendidos aqui os jornalistas e sua rotina cada vez mais precarizada de trabalho) não poderá fazer frente à máquina de guerra do capitalismo. É uma luta inglória desafiar o discurso do desenvolvimento e o marketing competente pró-consumo. Um fio de esperança estaria, talvez, no jornalismo independente, uma vez que os veículos de comunciação tradicionais, a indústria da mídia, se mantém a custa dos espaços que vende. Vende para quem? Para quem anuncia. E quem anuncia? E, assim, entramos num looping infinito.

Para onde vai todo o lixo que produzimos? Como funciona, de fato, nossa cadeia produtiva? As empresas, grandes ou pequenas, que usam recursos da natureza e para ela devolvem resíduos, cumprem seus prometidos? E os governos? São comprometidos com a sociedade e o mundo onde ela está e deverá permancer? Ou dançam a dança do capital, protegendo e encobrindo as forças do mercado? Por que as praias do Nordeste brasileiro estão cobertas de petróleo? Por que a Amazônia arde em chamas? Por que os rios morrem? Por que nossas alimentos estão mais envenedados do que nunca? Por quê? Por quê? Por quê?

É um raciocínio simples, quase elementar, percebem? Mas quantos de nós consegue ativar essas interrogações nas atividades do dia a dia, especialmente as relacionadas a consumo (quase todas)?

E voltamos ao princípio: para que serve o jornalismo? Para manter em pauta essas perguntas, enquanto todos nós, não só os jornalistas, precisamos buscar pelas respostas.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O radiojornalismo socioambiental de Paulina Chamorro

Imagem: captura de tela – Episódios 101 ao 123 do podcast Vozes do Planeta estão no serviço de streaming Spotify
Roberto Villar Belmonte*

O podcast Vozes do Planeta, apresentado pela jornalista Paulina Chamorro, chegou em março ao Spotify e está com 23 episódios disponíveis.

Trata-se do primeiro podcast de jornalismo ambiental no formato de entrevista a chegar ao serviço de streaming. O segundo é o Não tem Fora, do jornal Correio do Povo, com apenas um episódio. O podcast mais antigo, o de André Trigueiro, que já tem cem episódios, é um comentário especializado, não segue o formato de entrevista.

O programa de Chamorro não começou no Spotify. Ele já tem 123 edições. Sua estreia foi em maio de 2016 na Rádio Vozes, emissora online criada pela jornalista Patrícia Palumbo, especializada em rádio, música e meio ambiente.

Palumbo foi pioneira na cobertura de temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, na Rádio Eldorado. Chamorro seguiu seus passos e mergulhou fundo na pauta. “O sócio e o ambiental não podem andar separados”, defendeu a apresentadora do programa Vozes do Planeta na sua primeira edição. O jornalista especializado em mudança do clima Claudio Angelo participa do programa desde o início.

Na edição 123, que foi ao ar na terça-feira da semana passada, Paulina Chamorro conversou com a advogada Dani Leite, criadora da plataforma Comida Invisível de conscientização sobre o desperdício de alimentos. Engajada na luta ambiental, Chamorro informa para conscientizar. E deixa claro seu lado, o do ambientalismo.

O jornalismo praticado no podcast Vozes do Planeta cumpre uma função pedagógica que “diz respeito à explicitação das causas e soluções para os problemas ambientais e à indicação de caminhos (que incluem necessariamente a participação dos cidadãos) para a superação dos problemas ambientais” (BUENO, 2008, p.110).

Atenta à participação dos cidadãos, na edição anterior (122) Chamorro ouviu representantes do Movimento Salve Maracaípe e do Instituto Biota da Conservação sobre o óleo que toma conta das praias da Região Nordeste desde o final de agosto. Como jornalista, já percorreu toda costa brasileira. Em março, ajudou a fundar a Liga das Mulheres pelos Oceanos.

Cientistas e ativistas são as vozes de um Brasil engajado na luta ambiental que a jornalista chilena radicada no país entrevista no seu podcast. Na edição 121, que foi ao ar no dia 3 de outubro, por exemplo, Chamorro conversou com Iago Hairon, um dos coordenadores do Engajamundo, e no programa anterior (120) um dos entrevistados foi o glaciologista Jefferson Cardia Simões.

O radiojornalismo socioambiental praticado há mais de duas décadas pela jornalista e ativista Paulina Chamorro procura mobilizar o público por meio de histórias de vida. O formato de entrevista do seu programa possibilita uma pluralidade de vozes nem sempre presente no jornalismo brasileiro. O seu trabalho é um exemplo para os jovens que estão descobrindo a magia do rádio por meio dos podcasts disponibilizados nos serviços de streaming.

Referência:

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo ambiental: explorando além do conceito. In: Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (orgs.). Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. p. 105-118.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).