Manchas de óleo voltam a aparecer no Nordeste: uma nova chance para pluralizar a cobertura

Print UOL 22.06

Imagem: Reprodução retirada da matéria do Uol de 22/06/2020.
Por Eloisa Beling Loose*

O ano de 2019 foi um ano repleto de grandes tragédias ambientais no Brasil. Começou com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho-MG e seguiu com aquelas já há anos conhecidas desencadeadas pelas fortes chuvas (porém, provocadas por uma série de problemas de gestão e ausência de políticas públicas), especialmente no Sudeste. Depois disso, o vazamento de óleo na costa nordestina, as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia – só para citar os acontecimentos de maior envergadura. Em razão do alto impacto negativo, número de afetados, conflitos e dramaticidade envolvida em todos os casos, tais eventos permaneceram por muito tempo sob os holofotes da imprensa, sobretudo o vazamento de óleo, que ainda somava aos valores-notícia já citados o fator de ineditismo. Contudo, não basta que haja um acompanhamento da imprensa durante a tragédia. É preciso pensar no que está sendo dito, de que forma e por quem.

Na última semana voltaram a aparecer fragmentos de óleo em praias de diferentes estados do Nordeste. Conforme análises preliminares, aparentam ser do mesmo tipo daquele que se alastrou na costa do Nordeste no ano passado, decorrentes uma fase pós-vazamento, acarretada por fatores meteorológicos que revolveram o material que estava sedimentado no fundo do mar ou preso em corais. De acordo com informações divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o vazamento de óleo tinha atingido até então 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros – mas, como podemos perceber, os efeitos do vazamento não cessaram. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que esse foi o maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

As notícias recentes foram dadas por vários veículos, como G1, CNN Brasil e JC. O Uol publicou uma matéria mais extensa, na qual trata do aparecimento de restos de borracha também, lembrando que o ambiente afetado ainda não se recuperou. O reaparecimento das manchas é, no âmbito do jornalismo, um novo gancho ou gatilho, uma oportunidade para retomar esse assunto que, embora tenha sido foco de atenção da mídia por um longo período, ainda não tem respostas quanto ao volume e à origem do petróleo vazado, e nem quanto aos prejuízos e danos gerados a médio e longo prazo. Mesmo sendo uma tragédia sem precedentes por aqui, após a retirada da parte visível do problema e a falta de algum aspecto novo na investigação, suas consequências pararam de ser noticiadas.

Em levantamento feito sobre a cobertura ambiental do Jornal Nacional em 2019, o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) verificou que a primeira matéria sobre o assunto é de 27 de setembro, quase um mês depois do seu surgimento, quando as manchas já atingiam nove estados, e que o assunto permaneceu na agenda até 30 de dezembro, totalizando 63 notas ou reportagens sobre o tema ao longo dos quatro meses em análise, em 44 edições, totalizando pouco mais de duas horas de cobertura sobre o assunto. O gráfico abaixo mostra que em outubro há um volume maior de reportagens que são, aos poucos, substituídas por notas cobertas (com imagens da tragédia) e notas peladas (quando apenas os apresentadores narram alguma informação):

Gráfico JN
Fonte: GPJA (2020).

Em dezembro de 2019 há apenas duas notas de 20 segundos sobre o assunto, uma sobre o auxílio-emergencial destinado aos pescadores (13.12) e outra sobre o retorno das manchas no Ceará (30.12). O arrefecimento da atenção da imprensa se dá porque inexistem novos fatos sobre a situação e as narrativas sobre os processos e fenômenos de duração lenta (como a contaminação que persiste nas águas e na cadeia alimentar, por exemplo) são ainda desafios que se impõem, cada vez mais, à lógica jornalística de reportar o que pode é palpável.

Uma análise mais específica sobre o derramamento de óleo em questão, coordenada pelo Intervozes e denominada “O Vozes Silenciadas – a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” (2020), foi realizada a partir de veículos de abrangência nacional e regional, e corrobora com nossa análise preliminar. O estudo identifica que o tema demorou quase um mês para receber visibilidade, deixou de ser coberto mesmo quando havia questões em aberto, fez uso recorrentes de fontes oficiais (não dando voz às comunidades locais e povos tradicionais, os mais afetadas pela contaminação) e pouco discutiu as versões. Mesmo tratando do tema diariamente, as informações não tinham contraponto ou aprofundamento e se baseavam no dito “jornalismo declaratório” – alimentado por um governo descomprometido com a questão ambiental.

O reaparecimento de fragmentos de óleo é uma nova chance para que o jornalismo trate daquilo que, no calor do momento, não foi possível abordar. Mais do que atualizar o contexto do desastre, é possível ouvir todas e todos que podem narrar suas experiências diante dos sinais, às vezes, vagarosos de degradação do ambiente e das mudanças geradas em suas vidas. As considerações do estudo do Intervozes destacam que o jornalismo, em seus diferentes formatos e alcances, deve se reinventar, pois “[…] ao darem espaço privilegiado a tais atores, os veículos reforçam o seu lugar de poder e, ao não promoverem, como deveriam, o confronto de ideias com outros segmentos sociais, com igual espaço de fala, legitimam as declarações oficiais como a verdade dos fatos”.

Diante disso, seguimos acreditando que as análises científicas sobre o trabalho da imprensa possam contribuir com outras formas de registro jornalístico; que o retorno das manchas de óleo possa servir agora para uma leitura menos apurada e mais plural dos efeitos da tragédia; e que o jornalismo possa se pautar mais sobre critérios de relevância e cuidado com a vida do que com a dramaticidade ou o apelo de uma imagem.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Sustentabilidade no jornal: conteúdo patrocinado

*Eutalita Bezerra

Tem cara de jornalismo, está onde deveria estar o jornalismo. Mas é publicidade. Nos últimos dias, diversos informes publicitários a respeito da sustentabilidade tomaram espaço em páginas de jornais conhecidos. Um conceito que, muitas vezes, tem cara de preocupação com o meio ambiente, está onde deveria estar a preocupação com o meio ambiente. Mas também é só publicidade.

Não é novidade que o conteúdo de marca tem se apropriado da construção discursiva típica do jornalismo a fim de disseminar publicidade como se fosse notícia. Admitimos publicações dos últimos dias sobre o assunto como temática desta análise por se tratar de momento em que alargar as discussões sobre sustentabilidade é imperativo.
Em conteúdo patrocinado, que questiona “Como sustentabilidade e o agronegócio podem ser aliados?” , a Chevrolet sugere que está interligação beneficia tanto os consumidores, com alimentos mais saudáveis, como os produtores, que podem cobrar mais caro e “acessar mercados mais exigentes”. O material publicado no G1 no último dia 19 de junho, oferece como exemplo fazendas que unem a preservação do meio ambiente com a sua produção – que inclui pecuária extensiva, sabidamente problemática do ponto de vista ambiental. É claro que o informe não poderia desprezar a citação à produção orgânica, assunto que já está, de certa maneira, cristalizado no conhecimento do leitor médio como sendo, de fato, benéfico. A empresa se utiliza deste discurso para reforçar que é possível conectar a agricultura em larga escala com a sustentabilidade, levando a crer que aquela é a lógica que recorre no setor.

O Correio da Bahia também publicou material publicitário sobre o assunto poucos dias depois. O texto “sustentabilidade: um compromisso de todos”, foi produzido pelo Estúdio Correio, braço do jornal voltado à publicidade. Embora inicie se referindo à Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, se percebe rapidamente que a proposta é apresentar as ações da Multinacional Bracell, produtora de celulose solúvel que cultiva eucalipto em 31 municípios baianos. A empresa, segundo a publicação, “busca preservar, manter e estudar a biodiversidade das áreas onde atua”. Recorde-se que a produção de celulose é altamente poluente do ar, da água, e que a plantação de eucalipto é deveras danosa à terra. Nenhum desses assuntos, por certo, aparece num conteúdo patrocinado, que se assemelha ao discurso jornalístico na sua feitura, mas nada tem em comum com os preceitos que regem está atividade.

Destacamos tais passagens para reforçar a necessidade de se tomar o discurso sobre sustentabilidade a partir do jornalismo, questionando empresas e instituições sobre aquilo que o discurso publicitário – que há tantos anos abraça esse conceito como maquiagem para as suas campanhas – tem apagado. Que pensemos sobre este conceito – o da sustentabilidade – tal como o mundo pede que ele seja: referente à proteção do meio ambiente como sujeito, interligando-se a questões como bem-viver e as perspectivas dos povos originários, afastando-se do ponto de vista mercadológico em que, em geral, a palavra é empregada. Somente então falaremos de sustentabilidade que não é publicidade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*

“Quando o Brasil vai entender que sem os povos indígenas nós não vamos constituir uma nação?”

Eliege Fante*

A descontinuidade da cobertura jornalística possivelmente seja uma das causas do nosso precário conhecimento sobre a questão indígena. A essa abordagem insuficiente relaciona-se a falta de reação à altura por parte dos cidadãos brasileiros diante da iminência de genocídio dos povos originários, apesar das inúmeras denúncias de diversas entidades. Isto é expresso na pergunta-título, feita por Ailton Krenak em sua palestra no Simpósio “Ciência, Arte e Educação em tempos de pandemia” em 12 de junho de 2020. A crítica que toca, inclusive ou principalmente, a comunicação social hegemônica está na invisibilidade sobre esses povos, “mesmo no período de vida democrática do nosso país”, salientou.
Segundo Krenak, “Temos um governo que está a cada dia e a cada semana produzindo um novo instrumento de violência, de negação dos direitos dos povos que vivem na floresta [e em outras regiões do país onde conflitos fundiários sempre incidem sobre territórios indígenas] e uma cooptação da opinião pública desinformada sobre esses povos”. De fato, é a internet através das redes sociais que tem “noticiado” muitas mobilizações relevantes, ao contrário do que tem feito os meios/empresas de comunicação hegemônica de modo geral. Foi dessa maneira que ficamos sabendo, na semana passada, da nona entrega em apenas três meses de alimentos, roupas, cobertas, cobertores, garrafas de vidro, duas mudas, sendo uma de abacate e outra de araucária, ao povo da Retomada Indígena de Maquiné (RS). Um coletivo de voluntários organizou uma campanha permanente porque “toda ajuda é bem-vinda e necessária” diante do abandono e negligência dos órgãos públicos em plena pandemia da Covid-19. Residem na aldeia 15 famílias com 37 crianças, cuja sobrevivência dependia da venda do artesanato nas cidades.
Um voluntário dessa mobilização nos contou que, no início da pandemia, os órgãos públicos ligados à questão indígena realizaram uma entrega de alimentos e outros recursos, como máscaras e álcool gel. Esta entrega foi repercutida em alguns meios/empresas de comunicação hegemônica, talvez devido a predileção por fontes oficiais. Contudo, os/as jornalistas sabem que as fontes de credibilidade não são apenas aquelas ligadas aos poderes de Estado ou aquelas autorizadas pela política editorial/comercial das empresas. As fontes estão envolvidas com os fatos e têm informações constantes, como é o caso dos integrantes de movimentos sociais e entidades não-governamentais, além, evidentemente, dos próprios envolvidos que, não raro, não têm vínculo algum com nenhuma organização. Ao mesmo tempo, não desconsideramos que os órgãos dos governos devem ser cobrados pela imprensa sobre as informações e a garantia do atendimento das necessidades nas aldeias e não apenas neste período de isolamento/distanciamento social, mas também em favor das demarcações dos territórios e outras demandas da população indígena.

Fonte: Captura de tela do site Cimi

Contudo, não será a falta de informação que dificultará a continuidade da cobertura da pauta indígena nem o nosso acompanhamento sobre este tema essencial. O site do Conselho Indigenista Missionário abriu a editoria “Povos indígenas e o coronavírus” para manter as informações de contágio atualizadas. Ao mesmo tempo, encontrar fontes indígenas e escutá-las durante a pandemia é uma possibilidade inadiável através dos diversos sites e redes sociais que trazem a comunicação social indígena, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Mídia Índia e a Comunicação Kuery.

*Jornalista pós-graduada em Comunicação e Informação PPGCOM-UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e filiada ao Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

As marcas da pandemia na sociedade e no meio ambiente

Patrícia Kolling*

Fonte: Captura de tela da Folha de São Paulo

Na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente dezenas de lives debateram a questão ambiental. No Brasil, o Programa de Meio Ambiente, da Organização das Nações Unidas, promoveu os debates A Hora da Natureza, que no dia 04 de junho reuniu Sebastião Salgado e Rosyska Darcy. O projeto 342 Amazônia permitiu o encontro de André Trigueiro e Caetano Veloso falando sobre meio ambiente e promovendo o lançamento do playlist do projeto, com música gravadas no ano passado. No dia 5, uma mega live de cinco horas reuniu diferentes pessoas em torno do tema, desde artistas, cientistas, pesquisadores, lideranças e representantes indígenas. Os debates em plataformas digitais surpreendem pela diversidade humana, o que num evento presencial seria improvável, devido aos altos custos e logísticas de deslocamento. Além disso, por ser remota a participação de todos, sem dúvida, a poluição causada pelo deslocamento das pessoas em carros e aviões caiu a zero. E por estar disponível na internet, pode proporcionar o acesso a milhares de pessoas que não teriam condições de se deslocar a um evento presencial, promovendo a democratização da informação. Oxalá, que essa uma forma de encontro e comunicação perdure pós pandemia.

Mas semana do meio ambiente a temática ambiental não teve lá muito destaque na imprensa brasileira. A data coincidiu com uma semana de recorde nos números de mortos pela Covid19. Felizmente, entretanto, a pauta socioambiental tem ganhado espaço nos meios de comunicação nas últimas semanas, apesar da pandemia. Matérias sobre a situação do desmatamento, queimadas e garimpo na Amazônia têm tido repercussões em vários veículos. 

Um caso chama atenção por unir o tema preponderante no momento com a questão ambiental. Na Folha de S.Paulo, a repórter Ana Carolina Amaral destaca que, neste ano, o ar está mais limpo, as cidades com menos ruídos, é possível ver animais circulando mais próximos das ocupações humanas e as emissões  de gases-estufa foram reduzidas, apesar do desmatamento, as queimadas  e o garimpo ilegal na floresta Amazônica terem apresentados números elevados nos últimos meses (ver: Queda na poluição inspira busca de soluções sustentáveis pós pandemia). De acordo com a Global Carbon Project, as emissões de carbono devem cair entre 4 e 7% no mundo, principalmente devido à queda de 50% nas emissões de transportes superficiais ao redor do globo. Segundo a matéria, se a taxa for mantida anualmente, por meio de políticas de retomada econômica, o mundo poderia cumprir o acordo de Paris e evitar as graves consequências do aquecimento global. 

A pergunta que nos instiga neste momento é exatamente neste sentido: será que teremos condições, interesse e ações para manter reduzidos os níveis de poluição do ar, da água e poluição sonora, a partir do momento que os números de mortes e infectados pelo coronavírus diminuir, as pessoas começarem a sair do isolamento e as empresas retomarem produção e comercialização?

A repórter da Folha refere-se no texto ao manifesto “Queremos respirar um novo agora”, elaborado por 24 Organizações Não-Governamentais. O documento solicita ao poder público que na retomada econômica inclua condicionantes ambientais nos pacotes de ajuda ao setor privado.  Entre as medidas sugeridas estão a produção de veículos mais limpos, incentivo ao transporte individual ativo com o planejamento de vias urbanas para pedestres e ciclistas, frota de ônibus não poluentes e o combate ao desmatamento e as queimadas. Infelizmente, na China, onde a retomada econômica já está em curso, os índices de poluição também já retomaram os números anteriores ao período crítico da pandemia.

No debate A Hora da Natureza, o fotografo Sebastião Salgado e a escritora Rosyska Darcy defenderam mudanças mais profundas e individuais que a quarentena pode ser capaz de promover. Sebastião Salgado nos fez refletir sobre o que é essencial para sobrevivermos. Quando apenas os comércios essenciais estavam funcionando, continuamos vivendo muito bem, com o que já tínhamos a nosso dispor, argumentou. Fica a pergunta: o que é essencial para vivermos bem? Rosyska Darcy destacou a vida em comunidade, as relações com as pessoas e a vida rodeada de nossos afetos. “É preciso repensar o cotidiano. O que pra nós faz sentido? Esse algo novo que precisa ser construído é o bem estar das pessoas. Um viver menos submetido a ganancia. Um bem estar que vale a noção de sustentabilidade”, respondeu. 

Para ambos, mais do que ações grandiosas para se viver num mundo novo e melhor, a mudança está na vida comunitária e na solidariedade. “Fala-se em construir um mundo novo, diria que esse mundo mais justo e solidário, começa com mais intensidade agora no auge da pandemia. Se ele não começa agora, eu tenho sérias dúvidas que vingará amanhã. A solidariedade precisa ser exercida agora como virtude cívica e obrigação moral”, defendeu Rosyska.  Sebastião Salgado reforçou que isso requer a participação de todas as pessoas: “A necessidade de todos irmos para o debate. Todos irmos para a solidariedade. Todos exercermos respeito pelo outro”. A perspectiva reforça o trabalho comunitário e democrático: “O problema é pessoal, é autocritica, é necessário olhar para si. Só vamos construir com os outros… sozinhos não vamos conseguir”, concluiu o fotógrafo. 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e  professora da UFMT

Quem tem medo do jornalismo engajado?

Fonte: Captura de Tela do site do projeto “De olho nos ruralistas”

Por Débora Gallas Steigleder*

“Faça textos imparciais e objetivos”, recomenda o Manual de Redação do jornal O Estado de São Paulo aos editores, repórteres e redatores da empresa. De fato, a precisão é um valor essencial à produção noticiosa. Um texto baseado em juízos de valor, além de não informar, pode confundir e desorientar. Não é jornalismo, portanto. Porém, proponho aqui entender a função do jornalismo para além de categorias que aparecem a ele associadas de forma recorrente, como “imparcialidade”, “objetividade” e “neutralidade”.
O engajamento não nega o ímpeto de perseguir a objetividade enquanto método de apuração e verificação dos fatos, mas rompe com a crença de que o jornalista consegue se despir de sua subjetividade no exercício da atividade. Por isso, costuma ficar de fora do rol dos ideais identificados com o jornalismo. Quando defendemos o engajamento como um elemento característico do jornalismo ambiental, entendemos que se trata de um caminho para garantir coerência com a pauta abordada.
As críticas ao engajamento envolvem o temor de que o jornalismo flerte com o ativismo e que isso levaria à perda de credibilidade. No entanto, o momento atual é de disputa pela sobrevivência. Para conectar o público a pautas de urgência como o caos climático e a conexão entre a devastação ambiental à propagação da pandemia do COVID-19, é necessário agregar às estratégias de sensibilização do público formatos que ultrapassem a impessoalidade associada ao jornalismo tradicional e ilustrem as conexões entre os fenômenos da realidade.
Iniciativas derivadas de posturas engajadas têm como aspectos positivos a transparência sobre a orientação político-ideológica e a independência em relação ao financiamento, já que um veículo com posicionamento crítico ao agronegócio não aceitará publicidade ou patrocínio desse setor, por exemplo. É o que propõe o projeto De Olho Nos Ruralistas ao repercutir o processo de devastação ambiental sob o governo de Jair Bolsonaro.

No dia 26 de maio, o texto de Alceu Luís Castilho informou detalhadamente as entidades responsáveis por veicular anúncio de apoio à gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A publicação retomou levantamento realizado pelo próprio portal em 2019 com a lista de empresas que financiam a Frente Parlamentar Agropecuária através de associações do agronegócio brasileiro. O assunto foi retomado por conta do discurso de Salles durante a reunião ministerial de 22 de abril, em que o ministro defendeu aproveitar o foco da cobertura jornalística da pandemia para “ir passando a boiada” e afrouxar ainda mais os regramentos das políticas públicas ambientais. Na mesma semana, também repercutindo a frase de Salles, Observatório do Clima, ClimaInfo e Greenpeace Brasil iniciaram uma campanha nas redes sociais intitulada #nomeaosbois, pela qual cobraram posicionamento público das empresas representadas pelas entidades que assinaram o manifesto em apoio ao ministro. Neste caso, o jornalismo engajado esteve em sintonia com outras estratégias de comunicação que buscaram dar visibilidade à pauta e mobilizar o debate público sobre as responsabilidades do governo e do setor privado na crise ambiental.
Esta ampliação do diálogo entre jornalismo e outros atores é um movimento muito importante no contexto atual de devastação dos biomas brasileiros que pode ser irreversível. Não temos mais tempo: o jornalismo precisa incorporar novos elementos de sensibilização do público para atentar à urgência do tema. Isto não significa renunciar aos seus princípios e valores ou às formas já consolidadas da atividade jornalística; significa, apenas, a ampliação de possibilidades nas coberturas. A pluralidade de olhares e abordagens será bem-vinda para uma mobilização social representativa.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A boiada de Salles e o jornalismo ambiental

Imagem: captura de tela – Reportagem recente do site O Eco criado em agosto de 2004 para “dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los”.

Roberto Villar Belmonte*

No dia em que o Brasil passou a ser o segundo país mais afetado pelo novo coronavírus Sars-Cov-2, com mais de 330 mil casos oficialmente registrados e 21.048 mortes causadas pela Covid-19, o mundo descobriu que a pandemia não é apenas tratada como uma “gripezinha” pelos aloprados chefiados por Jair Bolsonaro, ela também vem sendo usada como cortina de fumaça para afrouxar ainda mais os regramentos ambientais. Foi o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já condenado em primeira instância por improbidade administrativa, quem explicou sem cerimônias essa estratégia macabra em reunião ministerial gravada dia 22 de abril no Palácio do Planalto e divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira, 22 de maio: “Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Uma crise nacional e um megaevento sempre mobilizam a atenção da imprensa e, por consequência, agendam a opinião pública. Por isso quando ocorre confisco da poupança, vazamento de petróleo, desabamento de barragem da mineração, denúncias de corrupção e uma pandemia todos ficam atentos. Foi o que aconteceu com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Brasil em 1992: jornais, revistas, rádios e tvs mantiveram a pauta ambiental em destaque durante vários meses. No entanto, tão logo terminou a Cúpula da Terra promovida pela ONU no Riocentro e no Aterro do Flamengo, o assunto passou a ser o impeachment de Fernando Collor de Mello. E o meio ambiente voltou à marginalidade. Muito já se escreveu sobre esse apagão na cobertura de temas ambientais no país pós-Rio 92. Dizia-se na época até que os jornalistas interessados e/ou especializados eram tão poucos que caberiam em uma Kombi.

Não é mais o caso e por isso os desmandos do ministro condenado são denunciados com veemência pela imprensa brasileira, mesmo durante a pandemia, e também pelos correspondentes estrangeiros que atuam no país. Atualmente existem mais de 30 serviços especializados na cobertura de temas ambientais no Brasil, principalmente sites e portais. Na Região Sudeste, os principais jornais têm repórteres que acompanham de perto a área, uns cobrindo com uma perspectiva científica, outros pelo viés econômico, mesmo sem uma editoria de meio ambiente. A pauta ambiental não é mais vista como um assunto exótico dentro das principais redações, como era no final do século passado. Também não existia naquela época empreendimentos jornalísticos como A Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, The Intercept Brasil, Amazônia Real, Infoamazônia, O Eco e nem uma articulação de ONGs ambientalistas com uma produção de conteúdo tão qualificada como a do Observatório do Clima.

O que Salles quis dizer então com “momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa”? A eleição dos amigos e simpatizantes das milícias armadas teve um efeito semelhante à realização da Rio 92 no Brasil: a imprensa brasileira colocou o meio ambiente na pauta denunciando crimes e estultices oficiais. A sustentabilidade ambiental já não é mais só um tema exótico, ela passou a ser vista também como diferencial econômico por parte do empresariado. Além disso, o negacionismo climático e o terraplanismo do governo federal surpreenderam até mesmo os que sempre defenderam, à esquerda e à direita, o desenvolvimento a qualquer custo. Por isso as manobras e maracutaias do ministro condenado ocupam espaço de destaque na agenda pública. Com a chegada da pandemia, as pessoas estão bem mais preocupadas com a sua própria saúde, com a má gestão da crise e com o futuro da economia. Mas as denúncias ambientais continuam sendo publicadas.

Cinco dias antes do STF liberar a gravação do vídeo mostrando a reunião de Bolsonaro com seus ministros em linguajar de botequim, o site de jornalismo ambiental O Eco, criado em agosto de 2004, publicou a segunda parte de uma série que investiga a relação entre o mercado financeiro e a indústria da carne no Brasil. Na reportagem de perspectiva econômica Muito discurso, pouca prática: empresas “verdes” financiam indústria da carne na Amazônia, Fernanda Wenzel, Naira Hofmeister, Pedro Papini e Juliana Lopes mostram que os três frigoríficos que mais compram bois na Amazônia – JBS, Marfrig e Minerva – receberam 18 bilhões de dólares em investimento entre 2013 e 2019, apesar de estarem entre os dez processadores de carne do país com maior chance de promoverem o desmatamento. Todos investidores foram identificados. A matéria mostra que o mercado financeiro é bom de discurso verde, mas ainda deixa a desejar em suas práticas.

A reportagem faz parte de projeto que busca melhorar a eficiência dos acordos da carne e da soja, realizado por meio de uma parceria do site O Eco com o Imazon e apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. O jornalismo ambiental praticado nos anos 20 do século XXI é mais experiente e preparado do que o da última década do século passado. Existem muito mais jornalistas interessados no tema, com diferentes níveis de engajamento com a causa ambiental, e mais iniciativas jornalísticas acompanhando de perto os problemas e as soluções possíveis. Prova disso foi a reação de toda a imprensa brasileira diante da confissão de culpa do ministro do Meio Ambiente do governo negacionista de extrema direita que parece gostar do caos produzido pelo avanço da pandemia. O apagão da cobertura ambiental ocorrido pós-Rio 92 não se repetirá durante o atual governo e nem tampouco nessa pandemia que tem, inclusive, causas ambientais. Salles e sua boiada cutucaram a onça com vara curta.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Governo parece objetivar a destruição ambiental

Fonte: Captura de tela do site Nexo

Por Nicoli Saft*

Enquanto o mundo se preocupa com a covid-19, a destruição de nossos ecossistemas perpetrada pelo governo federal não para. O Nexo Jornal fez um breve resumo das principais ações do governo a respeito do meio ambiente durante a pandemia, e podemos perceber que elas só levam ao agravamento da crise ambiental. Temos a demissão de servidores por fazerem seu trabalho e repelirem o garimpo em terras indígenas, a militarização da frente de combate ao garimpo ilegal, as mudanças de regras para a exportação de madeira, a anistia a desmatadores da Mata Atlântica e a gravíssima MP da Grilagem (Medida Provisória 910), que provavelmente se tornará um Projeto de Lei, visto que a MP caduca esta semana.

Gostaria que desse para fazer um texto do observatório sobre cada uma dessas questões, sobre como a mídia tem tratado elas. Infelizmente, a cobertura não tem sido tão extensa assim, e o mundo todo sofre com isso. Como bem falou minha colega Eloisa Beling Loose no último texto publicado aqui no Observatório, “É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas”.

O texto do Nexo é bom, aponta claramente os rumos do governo no que tange o meio ambiente. O problema é que o objetivo do governo parece ser a destruição do nosso ecossistema. O jornal lista cinco ações do governo Infelizmente temos já mais duas para somar: a militarização do ICMBio travestido de reforma administrativa e um decreto que passa o poder de concessão das Florestas Públicas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A reforma no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade já estava prevista desde fevereiro. As 11 coordenações regionais foram extintas, e no lugar delas foram criadas cinco gerências, uma para cada região do país. Três delas serão chefiadas por militares (Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste). A Sul ainda está vaga. A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente disse que irá vai recorrer ao Ministério Público Federal para que se investigue o atendimento aos critérios técnicos e gerenciais. Segundo a associação “As medidas tomadas até o momento ampliam os salários e os poderes em áreas intermediárias, em detrimento dos trabalhos finalísticos das Unidades de Conservação, como fiscalização e monitoramento. Aumentam os gastos com cargos políticos e de administração e pioram a autonomia e as condições de trabalho dos servidores, que terão maiores áreas para gerenciar, o que demonstra que as atividades finalísticas do ICMBio não são a prioridade”. Pode se achar mais detalhes na única e damasiada factual reportagem da Folha de S. Paulo sobre o assunto. Senti falta de gráficos explicativos, um fact-checking a respeito do aumento de salários apontado pela ASCEMA e uma explicação menos formal do que de fato muda.

Nesta última semana também Jair Bolsonaro assinou um decreto que transferiu o poder de concessão das florestas públicas federais do MMA para o MAPA. O texto, que não explica os motivos da mudança, transfere a competência de formular estratégias, políticas, planos e programas para a gestão das florestas. O ministério de Tereza Cristina ainda ficará responsável por escolher quais áreas serão concedidas e comandar o processo de licitação. O Globo e a Folha fizeram matérias sobre, seguindo rumos bem diferentes ao tentar encontrar os motivos da mudança. A Folha aponta que a medida seria uma resposta do governo ao adiamento da votação da MP da Grilagem. A reportagem cita “ambientalistas”, sem nunca explicar quem seriam esses. Entretanto, a reportagem nos dá uma boa explicação das mudanças e aponta possíveis consequências.

A matéria do Globo já traz uma outra perspectiva, a preocupação de que as florestas voltem a ser vistas sob a ótica mercantil. O motivo da transferência das florestas para a pasta de agricultura pode não ser primeiramente este, mas, com certeza, afeta a forma como vemos nossas florestas. A matéria do Globo não traz tantas explicações quanto à da Folha, mas a parabenizo por trazer essa interpretação, tão dolorosa se perceber mas ainda assim tão escancarada. Com a lista do Nexo Jornal, as ações tomadas quanto ao ICMBio e as matérias do Globo e da Folha, infelizmente só conseguimos concluir que a preservação do meio ambiente não é um dos objetivos do governo Bolsonaro, o objetivo parece ser justamente o contrário, a sua destruição. Tendo em mente esses sucessivos ataques, acredito ser papel do jornalismo não deixar de lado esse tema mesmo durante a pandemia. Temos que deixar o governo saber que estamos cientes do que estão fazendo, e comunicar a toda a sociedade. O jornalismo precisa assumir seu lado como defensor do meio ambiente para não deixar ele ser destruído.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Do que não podemos esquecer: o agravamento do descaso ambiental

Imagem: Captura da tela de notícia da Folha de S. Paulo

Por Eloisa Beling Loose*

Com a expansão do contágio da Covid-19, o aumento do número de mortes e os inúmeros efeitos sociais e econômicos derivados da maior crise sanitária da contemporaneidade, é esperado que a atenção da imprensa se volte, de maneira massiva, para o entendimento desse assunto. Contudo, recordemos que outras pautas continuam sendo relevantes e até urgentes, e não devem ser deixadas de lado. 

A necessária quarentena não pode ser cumprida por muitos e ainda há aqueles que percebem esse silenciamento do poder público sobre outros assuntos como oportunidade para lograr benefícios indevidos. E a emergência ambiental continua em curso. Mesmo que de forma não sistemática, é o que alguns veículos têm apontado nos últimos dias em relação à situação de intensificação de crimes ambientais nesse momento de suposto isolamento social e de sobreposição de crises.

O crescimento das queimadas nesse período já foi registrado em biomas brasileiros. De acordo com notícia da Folha de S. Paulo, a área queimada no Pantanal é a maior já registrada pelo Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em um início de ano – período que não corresponde à estação do fogo. Além de afetar a conservação da biodiversidade, a fumaça causa uma série de problemas respiratórios – o que amplia a procura por hospitais e a demanda por respiradores em pleno enfrentamento contra a Covid-19. 

Na Amazônia, as queimadas relacionam-se ainda com o desmatamento, grilagem e mineração de terras indígenas. O fotógrafo Sebastião Salgado lançou um manifesto de proteção aos povos indígenas divulgado por vários meios de comunicação, que chamou a atenção para o agravamento dos riscos relacionados à Covid-19 em terras que estão sendo invadidas e incendidas. Em matéria do El País, há um breve panorama sobre a ameaça da pandemia nas populações indígenas na região da fronteira tripartite, historicamente dizimadas por epidemias levadas pelos brancos, mas que sofrem ainda mais com o afrouxamento da vigilância e a falta de políticas públicas que pensem no seus modos de vida.

Em notícia produzida pelo Repórter Brasil e publicada no UOL, faz-se o alerta em relação à situação da população da região amazônica, na qual os efeitos das queimadas avulta a gravidade das internações de crianças nesse período de seca da floresta, que vai de maio a outubro. Segundo a Fiocruz, nesta época, o número de internações de crianças com doenças respiratórias dobra nas áreas mais afetadas pelo fogo; acrescenta-se isso à procura por leitos em razão do coronavírus e podemos ter uma combinação catastrófica. Ao final, informa-se que o governo federal decretou uma Garantia da Lei e da Ordem, de modo a mobilizar os militares para o combate ao desmatamento e focos de incêndio, a partir desta segunda-feira (11 de maio). Porém, o fechamento do texto retoma a ideia de que os grileiros, madeireiros e garimpeiros não fazem home office, sublinhando o quão negligente tem sido o governo em relação ao cuidado socioambiental.

As ações governamentais de resposta são lentas e tendem a minimizar o problema, como já ocorreu no ano passado. Também há pressão política, sobretudo da bancada ruralista, em aprovar a Medida Provisória 910/2019, que beneficia com anistia desmatadores e grileiros de terras públicas – o que seria um claro incentivo às queimadas, somado à redução de equipes de fiscalização na rua. É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas.  

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Emergências que se encontram: junto à pandemia, a estiagem

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Por Angela Camana*

A situação da pandemia provocada pelo novo coronavírus, cujos efeitos se fazem sentir no Brasil de forma cada vez mais dramática, vem justificadamente dominando as manchetes dos jornais. O noticiário do país tem desdobrado a temática e produzido múltiplas conexões com outras esferas que não a da saúde unicamente, como este Observatório já apontou (por exemplo, as conexões com consumo e com a crise climática).


Sem ignorar as tensões que a Covid-19 coloca aos sujeitos e às instituições, pouco a pouco, outro assunto tem ganhado espaço no jornalismo do Rio Grande do Sul: a estiagem que assola o Sul do Brasil. Só no Estado, mais de 70% dos municípios já decretaram situação de emergência devido à seca. A falta de chuvas faz com que as barragens hidrelétricas estejam em níveis críticos, assim como está comprometida a produção agrícola esperada. A Defesa Civil diz que ainda não há desabastecimento para consumo doméstico, embora tenha mobilizado caminhões-pipa para levar água à população rural.


No site GaúchaZH, o tema ganhou algumas publicações na última semana, com destaque para a notícia veiculada em primeiro de maio, que foi capa do site, Estiagem afeta sete de cada 10 municípios gaúchos. São ouvidas diferentes fontes, as quais são unânimes em diagnosticar o caráter crítico da situação; todos os citados são dirigentes de instituições públicas do Estado, com exceção de uma meteorologista. O predomínio de fontes oficiais e científicas já foi apontado como um dos principais vícios do jornalismo sobre meio ambiente, o que se repete no caso desta notícia.


Há, ainda, uma galeria de fotos, as quais retratam o baixo nível das barragens e o solo seco rachado em açudes e rios. O texto em questão apresenta muitos indicadores, que são reunidos em uma espécie de box ao fim da publicação.

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Ainda que haja um esforço importante de apresentar dados (número de municípios afetados, nível dos rios), os mesmos poderiam ser mais bem contextualizados. No mesmo sentido, a cobertura da estiagem ainda parece bastante presa à fórmula das fontes oficiais e negligencia os sujeitos em detrimento da produção. Aliás, a cobertura é sobretudo agropecuária e econômica, pois destaca a urgência do setor em receber ajuda financeira do Governo Federal. Este tipo de foco, ao dar a entender que o dinheiro é solução para a questão, ignora o fato de que a seca no Sul do Brasil é um problema grave e recorrente, cujos efeitos cada vez mais severos já são relacionados à emergência climática. Ironicamente, o modelo produtivo empreendido na região é um dos fatores que se associam às mudanças do clima, o que não se vê debatido nos meios de comunicação.


Como a previsão é de que maio siga com baixo volume de chuvas, a tendência é que a cobertura da temática se intensifique ao longo do mês, conforme aumentarem também os efeitos da seca. Basta esperar que as conexões produzidas quando da veiculação do Covid-19 encontrem ecos no jornalismo gaúcho sobre a estiagem.

*Ângela Camana é Jornalista e socióloga, doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante dos Grupos de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS CNPq/UFRGS). angela.camana@hotmail.com

Hábitos de consumo em tempos de pandemia

Fonte: Captura de tela do site da Agência Brasil

Por Eutalita Bezerra*

O objetivo 12 da Agenda 2030, plano de ação global para mudar o mundo em mais 10 anos, situa a produção e o consumo sustentáveis como pilares para alcançar esta transformação. Conforme o objetivo, são medidas indispensáveis à redução da pressão sobre o meio ambiente um novo olhar para o consumo e para a produção. Por absoluta necessidade, o novo Coronavírus, que deflagrou uma pandemia, ao que parece, tem sido um catalizador desta mudança.

A Agência Brasil destacou, utilizando o indicador Intenção de Consumo das Famílias medido pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, que houve uma retração de 2,5% na previsão de consumo na passagem de março para abril. Esta diminuição deveu-se, dentre outras coisas, à incerteza sobre as consequências que a pandemia pode provocar nos indicadores econômicos deste ano.

No início de abril, o Pioneiro  apontou como esta retração tem se traduzido em mudança de hábitos dos consumidores. Uma destas transformações diz respeito à consciência de comunidade. A reportagem citou, por exemplo, que com a pandemia os consumidores estão mais propensos à valorização de setores da economia criativa, a um interesse maior pelo consumo local e sustentável, além de estarem mais dispostos a consumir produtos de segunda mão, algo que ainda era carregado de estigmas.

A reportagem, que ouve especialistas da Psicologia, da Economia e do Marketing para traçar este panorama, ainda é complementada por levantamento realizado com mais de 2 mil pessoas pela Opinion Box, segundo a qual é possível afirmar que a pandemia forçou uma readequação do cotidiano, a começar pelos hábitos de consumo.

Fonte: Captura de tela do site O Pioneiro

Ainda na publicação há uma lista de caminhos a seguir para o momento de cautela. Nesta, itens como o uso racional da comida, a redução no consumo de luz e água e evitar gastos desnecessários nas compras online são propostos aos leitores.

No que tange ao consumo de supérfluos, dois momentos merecem ser destacados.  Passamos recentemente pela semana Fashion Revolution, encerrada no último dia 24, em que se busca questionar a indústria de moda sobre seus processos, desde a extração de matéria-prima até a destinação dos seus resíduos. Em tempos de pandemia, o varejo de moda sofrerá grandes mudanças que perpassam toda a sua cadeia produtiva. É o que aponta reportagem do Diario do Nordeste , segundo a qual existe uma tendência brasileira de aproximação com a corrente minimalista, criada nos Estados Unidos, relacionada a um estilo de vida mais baseado no que é essencial, com novos hábitos pautados pelo localismo, a sustentabilidade e o autocuidado.”

Um segundo ponto que levantamos diz respeito ao Índice Batom (lipstick index). Criado em 2001, por ocorrência dos atentados de 11 de setembro, este indicador aponta que em tempos de crise o consumo de produtos cosméticos de entrada costumam crescer. Porém, se no ano passado o mercado de beleza – que tem um impacto ambiental bastante significativo – andava aquecido, a pandemia pode ter levado abaixo o índice citado. Em reportagem publicada por Exame, o segmento deve ter neste ano uma retração de 2,5% . E o Brasil segue a tendência, com a expectativa de uma queda expressiva na venda de fragrâncias e produtos associados à vida social,categorias que representam um terço do mercado brasileiro de beleza.

Tais apontamentos nos permitem considerar que a mudança em curso pode nos direcionar a um consumo mais consciente e a uma retomada dos nossos interesses mais primitivos, pautados em necessidades racionais. As reportagens, porém, ainda carecem de fazer a interligação entre esta mudança e a menor pressão nos bens naturais, de forma que seja possível ao leitor médio entender de que maneira estes pequenos hábitos impactam toda a sociedade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com

Jornalismo em tempos de transe planetário

Por Mathias Lengert*

“Entramos em 2020 com a Terra em transe, já com vistas para 2030”. A afirmação do primeiro editorial do ano da revista Época Negócios não falava da pandemia, mas o transe antecipado retrata acertadamente os atuais acontecimentos.  

O momento é de mudança brusca de planos. A propagação do novo Coronavírus, organismo invisível a olho nu, mas com impactos nas dimensões humana e econômica, colocou o planeta em transe. Neste momento crítico, a física e ativista Vandana Shiva direciona a nossa busca por compreensão, lembrando a partir da nossa humanidade que “somos membros da família planetária”.

O relatório do Fórum Econômico de Davos, publicado em janeiro, apontou que os cinco principais riscos globais à prosperidade estão relacionados às questões ambientais. O documento sinalizou o tom das discussões no evento e não poupou o próprio capitalismo de receber a culpa sobre o aumento de catástrofes climáticas.

A urgência climática enfatizada no Fórum de Davos se refletiu na edição de março da Época Negócios, onde também foi destacado o capitalismo em transe. A revista expressa a preocupação que transpassa todas as páginas, afinal, em suas palavras, “a crise é grave. Gravíssima. E exige intervenção imediata”.

Fonte: Captura de tela de Época Negócios.

As pautas da revista transitam da energia renovável à alimentação vegetariana, da mobilização de Greta Thunberg ao mercado de carbono. O enriquecimento narrativo do jornalismo aprofundado remonta satisfatoriamente à complexidade ambiental, e assim, expressa que a mudança climática nos impacta de diferentes maneiras. Época Negócios é crítica, considerando que é uma publicação voltada à empresários e empreendedores, que ao elucidar o atual sistema econômico insustentável e as ações individuais brandas, indica alternativas e respostas para às questões ambientais.

A narrativa sobre a possibilidade de enfrentamento da revista sugere que monetizar bens naturais e coletivos é uma atitude viável – o que é problemático se considerarmos que estamos em déficit de recursos naturais, visto que consumimos mais do que a Terra consegue repor, o correspondente a 1,75 planeta. É especialmente na reportagem que explora os créditos de carbono, que a emissão de gases de efeito estufa é apresentada como item de compra e venda, como produto de um nicho de mercado.

Outro ponto discutível é a presença de uma promoção demasiada de organizações e startups que se autointitulam ecológicas nas reportagens. Fico com a sensação de que só há interesse da revista na sustentabilidade porque as organizações têm manifestado entusiasmo (ou até mesmo conveniência) em incorporar a questão às marcas.

Segundo esta publicação, o capitalismo precisa enfrentar “o mais árduo dos desafios” para permanecer viável: sair do seu transe. É possível mudar paliativamente o sistema econômico e adequar o consumo às tendências iminentes, no entendimento da revista. Penso que o jornalismo pode ir além, avaliando em profundidade esse ideal da sustentabilidade que prioriza a economia em detrimento das dimensões ambiental e social. As funções do jornalismo contemplam ações mobilizadoras e catalizadoras para um amplo debate público em torno de temas essenciais e pautas como essas que vimos aqui.

* Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Lições da pandemia para a ação climática

Fonte: Ecoa/UOL
Por Cláudia Herte de Moraes*

Em 2019, a jovem sueca Greta Thunberg foi destaque nas mídias ao redor do mundo justamente por potencializar a mensagem sobre o que a ciência do clima tem feito há décadas. No Fórum Econômico em Davos, em janeiro de 2020, falando de emergência climática, a ativista disse que “Precisamos começar a ouvir a ciência e tratar esta crise com a importância que ela merece”, conforme reportagem da agência Sputinik. 

Em relação à pandemia, a ciência também amplia o seu papel através da indicação de caminhos para seu enfrentamento, com orientações sobre a gravidade da doença COVID-19, formas de evitar o contágio, pesquisas sobre medicamentos e vacinas. Mesmo com os alertas, alguns governantes levam suas populações a pagar um preço muito alto de contaminação e milhares de mortes, como o exemplo dos Estados Unidos, mostrado na crítica do New York Times. Parece que o valor econômico ainda está sendo colocado acima da vida. O mesmo ocorre com a crise climática, que bate à nossa porta de forma inequívoca, mas não mobiliza governos para seu enfrentamento. Então, a primeira lição é não ignorar os avisos da ciência.

Além da valorização dos cientistas, temos a lição, não menos importante, para agir de forma preventiva. Se há incerteza quanto ao funcionamento do vírus, o mais correto é agir a partir do princípio da precaução, definido na Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) como uma garantia contra os riscos potenciais, mesmo que o estado atual do conhecimento não possa identificá-los, pois “a existência de um risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prever este dano”. 

Em terceiro, temos a oportunidade de priorizar a ajuda aos mais vulneráveis. Pela falta de políticas públicas eficazes ao longo do tempo, há milhões de pessoas doentes, pobres, sem moradia, saúde, saneamento, ou alimentação, e que são mais afetadas nas crises. Devem ser resgatadas pela sociedade, pois a construção da igualdade social é da ordem da sustentabilidade. Na retomada econômica, ao implementar políticas públicas para a superação das vulnerabilidades sociais, estaremos ampliando o esforço de adaptação à emergência climática. 

Para abordar a análise da imprensa neste cenário, cabe salientar que a maioria dos grandes veículos tem dado destaque ao papel da ciência e aos aspectos preventivos, mas poucos à desigualdade. Neste segundo grupo, encontramos a reportagem especial da plataforma Ecoa, do portal Uol: “No Brasil, quase 35 milhões de pessoas vivem sem acesso a água tratada, enquanto 100 milhões não possuem esgoto, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento em 2018.” Como esperar que sem acesso a bens essenciais as pessoas estariam protegidas? Ao lado disso, construir uma nova forma de agir em relação à política, como propõe Mariana Belmont, colunista da mesma plataforma: “Teremos um grande desafio político, e nesse sentido quero dizer que teremos que olhar a política como meio fundamental para o combate às desigualdades, um olhar para reconstrução.”.

Diante da crise, podemos pensar e agir de forma mais sustentável, reconectando o humano com o valor da vida, priorizando ecossistemas ao invés do lucro, de forma mais democrática e fraterna. O jornalismo é capaz de trazer grande contribuição social neste sentido, indicando ações que são coerentes com o patamar do conhecimento coletivo, de forma preventiva e pela igualdade. São lições adequadas ao enfrentamento tanto do coronavírus quanto da emergência climática.

* Jornalista, doutora em Comunicação e Informação (UFRGS), professora na UFSM e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS CNPq, email: chmoraes@gmail.com

A dimensão socioambiental do coronavírus através de relações ecossistêmicas e interespécies

Pangolim em Kuala Lumpur, Malaysia, in 2002. Fonte: Jimin Lai/Agence France-Presse — Getty Images / NY Times
Por Matheus Cervo*

É impossível não falarmos do novo coronavírus (COVID-19) em uma publicação de abril de 2020, já que parte da emergência da pandemia se dá devido uma teia de relações interespécies. Através de uma matéria veiculada pelo canal do YouTube do Vox chamada How wild life trade is linked to coronavirus (Como o comércio da vida selvagem está ligado ao coronavírus) em 06 de março de 2020, percebe-se que a emergência do novo coronavírus possui uma longa trajetória de relação entre humanos e não humanos na China. Há evidências de que o COVID-19 surgiu de complexas relações interespecíficas entre morcegos, pangolins e humanos. 

Peter Li, professor associado da universidade de Houston-Downtown,  afirmou que o surgimento contínuo de viroses não é uma surpresa para nenhum especialista em trocas comerciais que envolvem animais na China, já que os animais ficam enjaulados em cubículos de metal e empilhados uns em cima dos outros para abate no mesmo local de comércio. Claro que essa modalidade de venda de animais não é uma especialidade chinesa, mas alguns mercados, como o “wet-market” de Wuhan, oferecem uma variedade extasiante de animais silvestres para consumo culinário humano, gerando uma peculiaridade em torno da emergência do COVID-19.

O início dessa especificidade comercial ocorreu com uma decisão do governo comunista chinês na data de 1970 que, controlando toda produção de comida, falhou em fornecer alimentação para a população. Na beira do colapso, o governo chinês, em 1978, permitiu que a produção fosse realizada no âmbito privado e, para sustentação dessa agricultura familiar emergente, muitos animais silvestres começaram a ser criados. A mudança na lei de proteção da “vida silvestre” em 1988 designou os animais silvestres como “recursos pertencentes ao Estado” e ofereceu proteção às pessoas que estavam engajadas nesse tipo de produção.

Em 2003, a SARS surgiu em um dos “wet-markets” em Foshan na província de Guandong através da comercialização do gato civeta. Uma notícia da Associated Press foi veiculada neste mesmo ano demonstrando que o governo chinês voltou com a permissão de exploração de múltiplas espécies da vida silvestre para comercialização após o surto. De acordo com a matéria do Vox, essa prática se transmutou durante as últimas quatro décadas: esse mercado cresceu para uma indústria de 148 bilhões de yuans (106 bilhões de reais). Nessa mesma matéria, Peter Li afirma que não é a população mais pobre da China que consome em grande escala esse tipo de carne atualmente, mas, sim, uma minoria de classes mais altas que acreditam nas propriedades milagrosas de produtos exóticos como estes. 

Em 2020, novamente a Associated Press lança uma matéria semelhante à 2003: China temporarily bans wildlife trade in wake of outbreak (China temporariamente bane as trocas de animais silvestres após surto). A história se repete. Acredito que devemos nos perguntar: será que nossas narrativas estão se repetindo na pandemia do novo coronavírus e será que vamos falhar de novo em compreender que a questão sanitária é uma questão socioambiental?

*Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605. Email: cervomatheus@gmail.com

A articulação entre meio ambiente e saúde para um mundo pandêmico

Fonte: Wikimedia Commons
Por Michel Misse Filho*

Uma breve visita aos principais jornais e sites do Brasil e do mundo mostra, indubitavelmente, que quase não há outro assunto possível senão a pandemia instalada em função do novo coronavírus. A pauta ambiental chegou a conseguir algum espaço na grande mídia, sobretudo com as supostas “boas notícias” das claras águas dos canais de Veneza e a diminuição da poluição do ar – temas já tratados neste Observatório.

Tendo em vista sua capacidade de letalidade em curto prazo, o alastramento da pandemia assusta o mundo, em poucos meses, talvez de forma mais intensa do que a própria crise climática. Não nos confundamos, contudo: é fato de que se trata de assuntos complementares, não excludentes. A conexão é feita, por exemplo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao identificar o coronavírus como zoonótico (transmitido de animais para pessoas) e, portanto, “reflexo da degradação ambiental”. Aproveitemos a oportunidade para realçar o caráter interdisciplinar que compreende a questão ecológica, umbilicalmente ligada às áreas de saúde e ciência. No jornalismo não é diferente, tendo em vista a raiz comum do jornalismo científico, a que as áreas de saúde e meio ambiente se nutriram enquanto especialização temática.

Importa saber que, concomitantemente, problemas ambientais são também problemas de saúde pública. Lembremos, por exemplo, uma matéria de janeiro do G1, na editoria de “Ciência e Saúde”, sobre o descobrimento de 28 vírus desconhecidos nas geleiras do Tibete. A notícia – que sequer menciona o covid-19- alerta para a possibilidade de que, com a crise climática e o derretimento dos gelos glaciais, uma série de vírus sejam liberados e contaminem seres humanos. O perigo do derretimento do permafrost não é um assunto totalmente novo, mas que talvez ganhe outra dimensão no cenário pós-pandemia. A relação entre preservação ambiental e a disseminação de doenças também foi abordada por esta reportagem do canal “Repórter ECO”, de 25 de março, cujo foco é na disseminação de vírus a partir da destruição de habitats específicos aos quais ficavam restritos. 

O contrário é igualmente verdadeiro: problemas de saúde também dizem respeito ao meio ambiente. Vemos como exemplo, nesta notícia do site O Eco, publicada dia 25 de março, a preocupação de cientistas para a proteção dos grandes símios (chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos), ameaçados de extinção, e possivelmente suscetíveis a patógenos que afetam seres humanos. A carta foi publicada por 26 cientistas na revista Nature e, apesar de sugerirem o fechamento de parques nacionais e reservas, a questão se torna ainda mais complexa pela possibilidade de, sem presença humana, aumentar o risco de caça a esses animais.   

    Parece-nos ainda cedo para especular sobre como os assuntos ambientais serão tratados após a atual crise. Cenários de generalizada conscientização global a favor das pautas ambientais podem soar otimistas e utópicos em excesso, apesar de serem o horizonte a ser buscado. Independente de projeções, fica o alerta para o tratamento da questão ambiental em sua dimensão mais ampla, lado a lado com a saúde, sempre guiados pelo conhecimento científico. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

A COVID-19 não irá salvar o meio ambiente

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil
Por Nicoli Saft*

Em meio à pandemia da COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, alguns veículos jornalísticos estão tentando encontrar um lado bom da crise no meio ambiente. São notícias que falam sobre os canais aparentemente limpos de Veneza e um suposto ar puro em países confinados.
Entretanto, nas mesmas matérias, podemos perceber que a situação não é tão boa quanto os títulos fazem parecer.

Os canais de Veneza aparentam estar limpos devido à diminuição do tráfego de barcos – com o movimento na água reduzido, os sedimentos ficam acumulados no fundo. A própria Prefeitura de Veneza afirmou que a poluição da água não diminuiu. Já o “ar puro” nos locais onde há confinamento em razão do coronavírus é causado pela diminuição de dióxido de nitrogênio (NO2) na atmosfera. A queda na concentração é, sim, devido à paralisação de indústrias e à diminuição de carros, entretanto o ar não está puro, já que foram detectados episódios de poluição por partículas finas (PM2,5 e PM10) na China e na França, países que estão em regime de quarentena.


A primeira matéria citada, do G1, trata de maneira que considero adequada acerca dos canais italianos. O título é apenas uma constatação, e já no subtítulo informam que a poluição se mantém. Uma curta notícia da Veja SP sequer menciona a presença de poluentes, apenas questiona a “sustentabilidade ecológica dessa atividade (turismo) na região”, sem esquecer de mencionar a perda econômica que a pandemia trouxe.

Notícias falsas ganharam as redes sociais afirmando que golfinhos voltaram a frequentar os canais de Veneza, assim como cisnes e peixes. Como mostra essa reportagem da National Geographic ( em inglês), as imagens dos golfinhos foram na verdade registradas em Sardinia, uma ilha italiana no Mar Mediterrâneo; e os cisnes e peixes não são incomuns em algumas regiões de Veneza, ao contrário do que esta matéria da revista Fórum faz parecer. O mesmo texto menciona a declaração da prefeitura e linka um tweet denunciando as fake news sobre o assunto, mas também dá espaço a outro tweet reafirmando a água limpa de Veneza e o ar puro de Hong Kong.


A matéria sobre a qualidade do ar, aliás, é da Agence France-Press, uma das mais requisitadas agências de notícias do mundo e foi republicada por diversos veículos. Entretanto, ela mesma se desdiz. A maioria dos efeitos mais graves da poluição do ar são causados por exposições à longo prazo, e não temos como saber qual o impacto da pandemia na poluição nesse período. Existem aqueles que são otimistas e acreditam que a crise irá modificar os hábitos de consumo das pessoas mesmo após a pior fase ter passado, como mostra essa matéria da BBC , entretanto são apenas suposições .


Nesses tempos obscuros, ficamos desesperados por uma notícia boa. Desesperados, ficamos suscetíveis a notícias falsas. Jornalistas também querem dar notícias boas, mas precisam ter cuidado para não propagar informações errôneas e alimentar falsas esperanças. O meio ambiente não será salvo se apenas ficarmos em casa. Não vamos conseguir voltar atrás de todo o mal que causamos ao planeta em alguns meses de reclusão, infelizmente. O jornalismo não deve alimentar a ideia de que a COVID-19 será boa para o meio ambiente.

Nesta hora temos que nos lembrar de quem serão os mais afetados, se serão aqueles que mais poluem ou se serão aqueles que são impossibilitados de manter o distanciamento social. Aqueles que não terão condições de pagar um tratamento particular se infectados e aqueles que já são negligenciados pelos nossos sistemas. O jornalismo precisa de responsabilidade.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Novos formatos de negócios no jornalismo local: o que esperar da cobertura ambiental?

Por Débora Gallas Steigleder*

Foi lançado oficialmente neste mês de março o Grupo Matinal de Jornalismo, projeto que investe na produção de conteúdo para web enviado aos usuários cadastrados para recebimento de newsletters. O diferencial trazido pelo boletim Matinal, de acesso aberto, e por duas correspondências semanais disponíveis por planos de assinatura, é o foco no local: da cultura à política, são priorizadas notícias e reportagens sobre o Rio Grande do Sul e, mais especificamente, sobre a cidade de Porto Alegre. E o que podemos observar sobre a cobertura de meio ambiente?

Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese
Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese

A edição de número 15 da revista Parêntese, que é enviada aos sábados, abriu espaço para uma reportagem especial sobre os impactos da sojicultura no Rio Grande do Sul. Em Depois de enriquecer produtores gaúchos, soja ameaça o Pampa, a repórter Karen Viscardi expõe as origens do monocultivo e discute seu consequente entrelaçamento com a história da migração gaúcha para ampliação de fronteiras agrícolas pelo Brasil. Tal espaço dificilmente seria encontrado em veículos tradicionais, tanto por conta da limitação física e temporal imputada a produções impressas e audiovisuais, como pela dificuldade destas empresas realizarem autocrítica sobre o posicionamento ideológico construído ao longo de décadas, que apresenta a expansão dos grandes cultivos de soja enquanto evidência da postura aguerrida de gaúchos empreendedores – conforme já comentamos aqui no Observatório.


A transversalidade do olhar também está presente no discurso jornalístico em questão, que aborda as consequências do uso de agrotóxicos nas lavouras, da contaminação de indivíduos à mortandade de abelhas, além de mencionar o impacto da estiagem predominante no Rio Grande do Sul nestes meses de verão na economia do estado e dos produtores rurais. Em acréscimo, a reportagem discute como a sojicultura afeta a biodiversidade do campo nativo e faz minguar atividades produtivas predominantes na região por séculos, como a pecuária.


Apesar desta abordagem ampla sobre a questão, existem pontos a serem aprofundados em retornos futuros a este complexo tema. São diversas as fontes consultadas para a construção da reportagem, mas as vozes resumem-se majoritariamente a especialistas, autoridades e dirigentes de entidades. Seria de grande valia haver uma novidade no jornalismo local suficientemente sustentável em termos financeiros a ponto de viabilizar a ida de repórteres a campo para averiguar os impactos in loco, para além dos relatos de especialistas. Conversar com agricultores e comunidades que vivem o impasse deste modelo econômico baseado em commodities promove novas possibilidades à narrativa jornalística, podendo até mesmo confrontar o título da reportagem, que leva o leitor a interpretar os impactos da sojicultura como um problema recente, verificado apenas a partir do momento em os produtores deixam de lucrar com a safra.


Por fim, em tempos de discussão sobre as consequências locais das mudanças climáticas, faz-se cada vez mais necessário evidenciar que os eventos climáticos extremos tendem a agravar a estiagem já verificada com frequência na região Sul do estado. Urgem, portanto, discussões sobre mitigação e adaptação que considerem a impossibilidade de sobrevivência do Pampa soterrado por soja transgênica.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com

O que mais podemos dizer quando cobrimos chuvas intensas?

Foto chuvas intensas

Imagem: captura de tela de imagem publicada no corpo da reportagem “Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?”, publicada dia 3 de março no jornal O Estado de S. Paulo
* Por Eloisa Beling Loose

Nas últimas semanas as notícias e reportagens sobre os estragos desencadeados pelas chuvas fortes e constantes no Sudeste têm se repetido nos meios de comunicação. Fala-se muito das consequências (alagamentos, enchentes, deslizamentos, perdas materiais e mortes), mas as causas ainda são pouco evidenciadas ou apresentadas de forma parcial. Embora os governantes sejam ouvidos, essa não é a única versão que deveria ter espaço. Esse é um problema ambiental, social, cultural, político e econômico. Negar qualquer uma de suas facetas é sempre ter uma visão fragmentada e, portanto, incompleta dos fatos.

No último dia 2, após as fortes chuvas que atingiram, mais uma vez, o Rio de Janeiro, o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, afirmou que a culpa pela tragédia era das pessoas. O G1 e outros veículos repercutiram que a autoridade foi atingida por barro durante suas declarações na visita ao local afetado, já que reduziu o problema ao lixo não descartado corretamente. O prefeito culpabilizou a sociedade: “se vocês querem ajudar a nossa cidade, é conscientizar a população de que não pode jogar lixo nas encostas, não pode jogar lixo nos bueiros, não pode deixar lixo na rua. Esse é o grande problema do Rio de Janeiro”. Sim, conscientizar a população sobre a limpeza da cidade é importante, mas não é a única resposta e nem resolve por si só a questão. O que dizer sobre a responsabilidade pelo planejamento e gestão da cidade? O que as autoridades públicas têm feito para mitigar os danos das chuvas intensas? Quais as políticas públicas relacionadas à habitação? E quais são os projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, provocadoras de fenômenos extremos cada vez mais frequentes? O que está sendo feito para evitar as perdas, que costumam se repetir todo ano?

Há muitas perguntas que precisam ser reiteradas para lembrar a todos que os efeitos das chuvas são tragédias anunciadas, respaldadas por previsões científicas sólidas. Logo, não são as vítimas as culpadas. Não é possível que jornalistas reproduzam esse discurso sem questionamentos. Quem mais sofre com a falta de ação do Estado, sempre é a população mais carente, aquela com menos recursos para se prevenir e se recuperar. Ninguém escolhe residir em área de risco por ter opções.

No trabalho diário é comum que o jornalismo se detenha aos impactos, àquilo que é visível agora e afeta diretamente a vida das pessoas, como no caso da notícia Mortes por chuvas no verão no Sudeste este ano já superam as de 2019, publicada dia 3 de março pelo UOL, e Buscas por vítimas de deslizamentos são encerradas em Santos e São Vicente; operação segue em Guarujá, publicada dia 7 pelo G1. Contudo, sabe-se que, a partir de uma cobertura mais extensa sobre o assunto, é possível observar mais do que o registro e o drama dos afetados, incluindo até mesmo a perspectiva da precaução. A dificuldade se dá em manter o tema na agenda pública, pois há um momento no qual o pico de atenção midiático desaparece; assim, quando o ciclo das chuvas reinicia, o desastre tende a ser apresentado como novo e se resumir em números e declarações que não explicam o porquê estamos assistindo, mais uma vez, a mesma história.

Na contramão da ênfase sobre as consequências, cito aqui um exemplo do que poderíamos ver mais na imprensa – em quantidade e aprofundamento: a reportagem publicada no dia 3 pelo jornal O Estado de S.Paulo, de Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, no qual indaga-se: Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste? Nela são apontados diferentes elementos que agravam o que não temos condições de impedir: a força das chuvas. Nesse texto vários pontos de vista são visibilizados, relacionando os efeitos negativos das chuvas com as alterações do clima, a retirada da natureza dos centros urbanos, a ocupação desordenada, e a falta de políticas públicas que pensem no planejamento e na redução de riscos ambientais.

Mais do que naturalizar que as chuvas castigam as populações mais vulneráveis e que a responsabilidade é das próprias pessoas (que, por meio dessa lógica, elegeriam se colocar em perigo ao residir em áreas de risco), cabe ao jornalismo contextualizar as prioridades políticas dos governantes e esclarecer as razões para, ano após ano, continuarmos tratando a tragédia como algo novo, um acontecimento que irrompe da normalidade esperada. Como sublinha a reportagem de O Estado de S.Paulo, esse contexto é o “novo normal”. Como o jornalismo pode se adequar a isso? Como podemos fazer diferente diante de um cenário em que o futuro (e não apenas o presente) precisa ser considerado? Como dizer mais (no sentido de melhorar a compreensão) e pautar ações preventivas? Essas são algumas indagações que não poderiam ser lembradas pelos jornalistas apenas com a concretude dos prejuízos.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Agrotóxicos: poder econômico sempre encobre as questões de saúde e ambiente

Por Patrícia Kolling*

Essa semana a notícia de um navio carregado com 4 mil toneladas óleo, encalhado na costa do Maranhão, que talvez seja protagonista de um novo desastre ambiental nos próximos dias, foi destaque na imprensa. Como interessam para o jornalismo a novidade, os impactos imediatos e os grandes desastres ambientais, o assunto foi notícia na maioria dos meios de comunicação. Apesar da atualidade do tema, optei por falar neste texto de outro assunto que não é novidade, não causa impactos imediatos, mas que com certeza é precursor de desiquilíbrios ambientais sem precedentes e que também está na pauta da mídia: os agrotóxicos.

Fonte: Captura de tela do site da Agência Pública

Na Folha de São Paulo a manchete foi sobre a portaria publicada pelo Ministério da Agricultura que determina a aprovação automática dos agrotóxicos, pela Secretaria de Defesa Agropecuária, se a avaliação do produto não for realizada em 60 dias. A Secretaria de Defesa Agropecuária é uma das instâncias para liberação para a comercialização de agrotóxicos, tendo também que passar pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelo Ibama. A notícia destaca que no passado a Anvisa também alterou seu processo de autorização, que passou a considerar apenas o risco de morte para classificar a toxidade. Produtos que eram considerados extremamente tóxicos podem ser avaliados como pouco moderadamente ou pouco tóxicos. A notícia alerta para o fato de que a mudança faz parte de uma estratégia, do chamado “pacotão do veneno”, um projeto de lei proposto pela bancada ruralista que altera as atribuições da Anvisa e do Ministério do Meio Ambiente, dando mais poder ao Ministério da Agricultura na análise de impactos dos agrotóxicos na saúde e meio ambiente. Este projeto, que está parado e pronto para aprovação na Câmara, concentra o poder de veto justamente ao Ministério da Agricultura.

Na BBC Brasil a manchete foi “Brasil é o principal mercado de agrotóxicos ´altamente perigosos´, diz ONG” . O texto destaca que aproximadamente um terço da receita das principais fabricantes de agrotóxicos do mundo vem de produtos classificados como “altamente perigosos” – vendidos principalmente em países emergentes, como Brasil e Índia. Os dados são de um levantamento feito pela Unearthed, organização jornalística independente financiada pelo Greenpeace, em parceria com a ONG Suiça Public Eye. Em 2018, as vendas desse tipo de pesticidas renderam cerca de U$S 4,8 bilhões às cinco maiores companhias do setor, 35% da receitas dessas companhias. A publicação diz que o Brasil é o pais que mais compra pesticidas, movimentando em 2018, R$14,5 bilhões e que cresceu no Brasil nos últimos anos a regulamentação de produtos altamente perigosos.

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil

Já na Agência Pública a pauta foi o adiamento do julgamento, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, de um processo que pede o fim  dos benefícios fiscais dados às empresas produtoras de agrotóxicos no Brasil. O tema também foi abordado pela BBC Brasil. Pasme, desde 1997, um convênio entre o governo dos Estados concede isenção de 60% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e a justificativa é que seriam essenciais para a produção de alimentos. Os Estados deixam de receber em torno de R$ 6,2 bilhões, em valores de 2017, apenas neste imposto. Além do ICMS, alguns produtos ativos usados em defensivos agrícolas possuem isenção de 100% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), pago à União.

O processo a ser julgado pelo STF é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) apresentada em junho de 2016 pelo PSOL contra o governo federal, em que o partido alega que a isenção de impostos para os agrotóxicos desrespeita a Constituição — a Carta assegura o direito ao meio ambiente equilibrado, que estaria sendo violado pela política de subsídios. Enquanto no Brasil as empresas de agrotóxicos pagam menos impostos, alguns países da Europa aumentam as taxações fiscais dos produtos mais tóxicos que geram um custo alto ao Estado. Na Suécia os valores arrecadados com as taxações mais elevadas são utilizados para incentivar políticas de produção agroecológicas. Em outros países, investidos na saúde.

Em pouco mais de uma semana foram quatro matérias em três veículos de comunicação abordando a temática agrotóxicos. Isso é positivo, pois está se falando do assunto. Mas, é claro que o factual está por trás dessas pautas. Ações do Ministério da Agricultura e do STF mobilizaram o assunto. Porém, diante do retrocesso que o país sofre nas questões ambientais, será que essas abordagens são suficientes? O que tem isso tudo a ver com os alimentos que comemos todo dia, com o ar que respiramos e água que bebemos? Como essa liberação sem análise dos agrotóxicos pode comprometer a nossa saúde e a biodiversidade ambiental? Percebe-se uma restrita abordagem das questões da saúde e da diversidade ambiental, enquanto as preocupações econômicas aparecem em primeiro plano nas matérias jornalísticas. Sem dúvida, os interesses econômicos muito fortes estão por trás desse assunto. São bilhões de dólares que mega empresas ganham anualmente com a venda desses produtos. Quanto mais rápido esses produtos forem autorizados mais rápido estarão no mercado, independente se fazem mal ou não para a saúde e o meio ambiente.  

E como pode o Estado brasileiro ainda isentar essas empresas de pagar impostos?  Um estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz revela que, para cada dólar gasto com a compra de agrotóxicos no estado do Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem logo após a aplicação. O cálculo não leva em conta o custo das doenças crônicas, como o câncer. Os textos ainda destacam que com o fim da isenção, o consumidor final que irá pagar a conta pagando mais caro nos alimentos do dia a dia. É lamentável que o poderio econômico sempre prevaleça as questões sociais e ambientais e que não seja possível ao Estado brasileiro pensar e incentivar aás diversas alternativas de produção de alimentos saudáveis. 

*Patrícia Kolling, jornalista e doutoranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFRGS, colaboradora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental.

Políticas de desenvolvimento e aumento da temperatura: quais as relações?

Por Eliege Fante*

A temperatura média global está quase 1oC acima desde o início das medições, mas em Passo Fundo (RS) onde nasci, está 1,7oC acima, de acordo com a ferramenta do jornal NYTimes. A supressão de áreas naturais para a sua conversão em monoculturas de commoditties e cidades (urbanização, industrialização, etc.) estão entre as causas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e a mudança climática. A virada do milênio nos trouxe algumas certezas, como a de que os 20 anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking. Outra é que, segundo os cientistas, a temperatura média global não deve ultrapassar 1,5oC sob pena de sofrermos as consequências do desequilíbrio climático: impactos na saúde humana, perda da biodiversidade, prejuízos na economia, entre outras. 

Precisamos ficar preparados para o pior” é a instrução do diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Buckeridge, e também o título de reportagem sobre a vulnerabilidade das cidades neste contexto de mudança climática caracterizada por eventos extremos. Esta vulnerabilidade se evidencia nos “erros de urbanização” citados: canalização de rios e impermeabilização do solo. Todos conhecemos áreas de várzea, de banhado, de preservação permanente em nossos municípios natais que foram aterradas para facilitar ou promover o desenvolvimento através da construção de loteamentos, estádios de futebol, indústrias, parques, etc. Falamos de empreendimentos privados ou públicos, planejados e assinados por profissionais habilitados, licenciados pelos órgãos responsáveis e com as devidas compensações ambientais especificadas. Contudo, os registros de danos e perdas se acumulam, inclusive nas cidades mais desenvolvidas e ricas do país, como Belo Horizonte, vitimada pela chuva torrencial em janeiro, e São Paulo, com fortes chuvas neste mês de fevereiro. 

Devemos lembrar que não são apenas os formatos conhecidos de urbanização que dificultam ou impedem o necessário e adequado escoamento da água dos temporais e/ou a retenção e a conservação de água para os usos nos períodos de estiagem. A lógica desenvolvimentista igualmente determina a atividade econômica dominante e a respectiva política de conversão das áreas naturais no chamado meio rural. Retomando o caso de Passo Fundo, a expansão do agronegócio nos últimos 30 anos com a monocultura da soja e do milho foi de 37 mil hectares em 1987 para 52 mil em 2017 (ver quadro). A área florestal de Mata Atlântica foi preservada sob a proteção da lei vigente, mas a área campestre, como a do capim barba-de-bode, não. De fato, os campos sulinos são as áreas menos preservadas no país. Isso é importante também porque reflete a drástica redução da pecuária familiar, que é a atividade econômica principal do gaúcho. O gaúcho e o cavalo tem sido lembrados praticamente uma vez ao ano, durante as comemorações da revolução farroupilha em setembro. A tradição e alguns hábitos como o do chimarrão não devem desaparecer no Rio Grande do Sul, mas a pecuária está cada vez mais restrita por várias razões, principalmente a conversão dos campos nativos em monoculturas de grãos exóticos.

O Mapbiomas nos mostra que a área de pastagem em Passo Fundo no ano de 1987, de 15.611 hectares, caiu para 4.004 hectares em 2017. E que também caiu a área de mosaico entre agricultura e pastagem: de 12.606 hectares em 1987 para 5.881 hectares em 2017. Se relacionarmos esses dados ao fato de que “A atividade agropecuária domina a geração de gases de efeito estufa no Brasil”, em se tratando de monoculturas de exóticas e pastagens artificiais/cultivadas, não podemos deixar de problematizar o destino do maior aporte de recursos das políticas de desenvolvimento implantadas nesse período e as mudanças ocorridas em Passo Fundo: na paisagem, na atividade produtiva e até na temperatura. Por isso, cabe também às empresas de comunicação hegemônicas assumir mais esta pauta jornalística. Ao mesmo tempo que o potencial do agronegócio de commoditties gera muito lucro a poucos e exacerba a já conhecida desigualdade social, também desequilibra o meio ambiente e acelera os efeitos da mudança climática.   

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação e Informação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Jornalismo Ambiental Direto da Ciência

Imagem: captura de tela – Site de jornalismo científico publica reportagem exclusiva denunciando desmonte de bases cartográficas em São Paulo
Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo especializado em temas ambientais abriu espaço na imprensa brasileira quando adotou a ciência como fonte central das reportagens, segundo relato de repórteres que trabalharam com a pauta ecológica nos anos 1970 e 1980, entre eles Randau Marques e Liana John. De lá pra cá a perspectiva científica passou a fazer parte do que é considerado jornalismo ambiental de referência, nas grandes redações e também fora delas. 

Com as mudanças estruturais que assolaram o jornalismo devido à digitalização do mundo no século XXI, redações têm sumido e/ou murchado. Uma das consequências disso é a precarização do trabalho, a outra é o surgimento de pequenos empreendimentos produzindo jornalismo especializado de qualidade. Um exemplo é o site Direto da Ciência mantido por Maurício Tuffani. 

O site foi lançado em março de 2016 quando Tuffani deixou o cargo de editor-chefe da revista Scientific American Brasil, como ele mesmo relata. Política ambiental é uma das pautas objeto de análise, opinião e investigação do serviço jornalístico criado por ele. O editor trabalha com repórteres freelance. E quem paga a conta são os assinantes do serviço especializado.

Reportagem exclusiva publicada pelo repórter freelance José Alberto Gonçalves Pereira, no dia 3 de fevereiro mostra que o olhar especializado do jornalista permite descobrir falcatruas pouco visíveis ao olho do generalista. Ele mostrou como a gestão do governador João Doria (PSDB) desmantelou acervos e bases cartográficas de planejamento urbano.

O que isso tem a ver com a pauta ambiental? Tudo. Esses programas, produtos e sistemas de informações cartográficas são utilizados em políticas ambientais. Situação semelhante – extinção de estruturas de estado que dão suporte a políticas públicas na área ambiental – aconteceu no Rio Grande do Sul quando o ex-governador José Ivo Sartori (PMDB) extinguiu a Fundação de Economia e Estatística e a Fundação Zoobotânica. No caso de São Paulo, o site Direto da Ciência deu furo de reportagem denunciando mais um desmantelamento.

Essa informação exclusiva sobre os danos causados pela extinção da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) segue repercutindo em São Paulo, conforme suíte publicado pelo mesmo repórter, no dia 10 de fevereiro, e também nessa segunda-feira, com texto ampliando os bastidores da extinção.

Semana passada outro jornalista especializado em temas ambientais, com formação científica, também escreveu para o site Direto da Ciência . O repórter freelance Eduardo Geraque, que também é biólogo e tem mestrado em Oceanografia, publicou no dia 13 de fevereiro texto analisando a superficialidade da política para a Amazônia anunciada de improviso pelo atual governo federal , mais uma vez deixando de lado as pessoas que vivem e conhecem a região. Ele aponta como caminho possível a bioeconomia.

Sites jornalísticos como Direto da Ciência, O Eco, InfoAmazônia, Amazônia Real, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, Nexo Jornal, Envolverde e Eco Nordeste são alguns exemplos que demonstram a possibilidade da cobertura especializada de temas ambientais sobreviver às mudanças estruturais do jornalismo, ou seja, fora das redações tradicionais. Você já apoiou algum desses projetos?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A água no Rio de Janeiro e a necessidade de expandir os impactos da pauta ambiental

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Por Michel Misse Filho*

Passado mais de um mês de evidência de um novo problema no abastecimento de água no Rio de Janeiro, o assunto dominou os noticiários locais e pautou o dia a dia de quase dez milhões de fluminenses clientes da Cedae. A empresa de economia mista responsável pelo serviço está, ao mesmo tempo, no início da fila para privatização desde 2017, acordada como contraponto com o Governo Federal para o Regime de Recuperação Fiscal do Rio. A atual crise hídrica –que é inerentemente ambiental- se desenrola pela política estadual: o governador Wilson Witzel (PSC), influenciado pelo correligionário Pastor Everaldo, indicou Helio Cabral – ex-conselheiro da Samarco e réu pelo crime ambiental de Mariana- para a presidência da empresa. Com a nova gestão, foram demitidos quase 40 engenheiros especializados no controle da qualidade de água, e a substância geosmina virou a “nova” vilã da rotina dos cariocas. Para piorar, a estação de tratamento ainda chegou a ser fechada após a localização de detergente na água. 

    Para além das diárias notícias que atualizavam o caso e mostravam o fim dos estoques de água mineral nos supermercados, algumas matérias chamam a atenção ao elucidarem melhor a questão. É o caso desta boa matéria de André Trigueiro para o RJTV e portal G1, que explica o passo a passo do sistema de tratamento; os erros operacionais; a falta de investimento da empresa mesmo com o lucro em torno de R$ 800 milhões em 2019; a não realização de projetos relativamente baratos que evitariam o problema; e a destinação, por parte do governo estadual, de apenas 15% da portentosa verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) para fins ambientais.

Ainda mais importante, outras reportagens denunciam o ponto central do problema: a alastrada falta de saneamento básico. A verdadeira causa da “crise”, mais do que o erro operacional da empresa que não eliminou a controversa geosmina, era o despejo de esgoto in natura em pontos próximos à captação, provindo de rios que afluíam no Guandu, levando os dejetos de cidades como Seropédica, Nova Iguaçu e Queimados. 

Longe de ser uma novidade, o problema do saneamento na Baixada Fluminense foi alçado midiaticamente pela “crise” e ganhou melhores contornos em abordagens como esta matéria de Juliana Gonçalves, do site The Intercept Brasil, que trata o problema da água sob a lógica da necropolítica e do racismo ambiental, afinal, não são os bairros da Zona Sul carioca que figuram nas piores posições dos índices de tratamento de esgoto do país. Diz a matéria: “O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras.”. A deficiência do abastecimento de água no Rio (e o peso financeiro de quem não tem o privilégio de comprar água mineral todo dia) mostra, mais uma vez, que é preciso expandir as consequências e impactos da pauta ambiental, abarcando as diversas dimensões sociais que ela carrega consigo. 

*Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Paulo Guedes e o perigo do jornalismo declaratório

Imagem: captura de tela do site G1
Por Nicole Saft*

Na semana passada, ocorreu em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial. O Brasil esteve lá representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Eis que na terça-feira, dia 21, nosso nobre ministro faz a seguinte declaração: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Essas frases foram proferidas enquanto ele comentava a relação entre o meio ambiente e a indústria. Pelo que o ministro explicou depois, ele estava se referindo aos países que já destruíram suas florestas e são ricos, que eles agora coseguem se preocupar com o meio ambiente, enquanto o Brasil, por ser ainda um país pobre, tem outras questões mais urgentes.

A infeliz declaração foi título de matérias em diversos jornais, G1 e Folha de S. Paulo   como exemplos. E o jornalismo declaratório ataca novamente. Essas matérias em nenhum momento problematizam a fala de Paulo Guedes, apenas situam a declaração. No governo Bolsonaro, frases “polêmicas” de nossos comandantes ganham manchetes toda semana.  Mesmo depois de um ano, parece que ainda não sabemos como lidar com elas. Damos atenção? Nos revoltamos? Acusamos de “cortina de fumaça”? Não acredito que haja uma resposta certa, mas sei como o jornalismo não deveria tratar essas declarações.

Paulo Guedes é uma figura de autoridade. Segundo Datafolha de dezembro, o ministro é aprovado por 39% das pessoas que souberam identificá-lo. Ou seja, quando um veículo de jornalismo coloca como título “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza – diz Paulo Guedes” e a matéria não fornece informações contrárias, muita gente tende a acreditar que o que o ministro diz é verdade. Nós lemos a matéria a partir de vieses previamente estabelecidos de “Eu apoio Paulo Guedes” ou “Eu não apoio Paulo Guedes”, e como não há um aprofundamento da discussão, só confirmamos o que achávamos da questão.

Mesmo aqueles que são contra o governo, contra Paulo Guedes, podem pasar desapercebidos pela declaração e acreditar que é verdade. Isso porque, como mostra os estudos do psicólogo Daniel Gilbert nos anos 90, não acreditar em uma sentença envolve um segundo passo ativo de descrença, após o primeiro passo natural e passivo de acreditar que o que ouvimos e lemos é verdade. Essa inclusive é uma das facilidades de se propagar desinformação, a qual devemos combater. É um dos grandes perigos do jornalismo declaratório.

E para a discussão da questão de se são os pobres os maiores inimigos do meio ambiente, deixo algumas sugestões. Nesse último sábado, dia 25, completou-se um ano do crime de Brumadinho. Um ano que o rompimento da barragem da Mina do Feijão causou a morte de 259 pessoas. E esse é um crime ambiental que tem culpado, e não é a pobreza. A Vale, responsável pela barragem – também uma das empresas responsáveis por despejar 39 milhões de m³ de lama tóxica no Rio Doce no crime de Mariana em 2015 – já recuperou seu valor de mercado e agora atua buscando lucro. Como mostra a reportagem do Fantástico desse domingo, a empresa sabia os riscos de rompimento da barragem, mas não agiu a respeito. 

Essa discussão vai de encontro a outra, uma disputa semântica. Antropoceno é um conceito utilizado por diversos cientistas para caracterizar o período geológico em que vivemos, marcado pelas mudanças causadas pela ação humana. É um conceito que surgiu na década de 80 e desde lá ganha popularidade. Antropoceno é uma época demarcada pela capacidade humana de intervenção na Terra a partir da industrialização. Entretanto, o termo ainda é discutido, como mostra o artigo do professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Dr. Eduardo Álvares da Silva Barcelos no volume 31 da Revista Iberoamericana de Economia Ecológica. O artigo aborda um outro termo para definir esta era, Capitaloceno. Conforme conta Barcelos, em 2013, o historiador ambiental Jason Moore lançou a seguinte pergunta:

Estamos realmente vivendo o Antropoceno – com seu retorno a um ponto de vista curiosamente eurocêntrico da humanidade e sua confiança em noções e recursos bem estabelecidos e consolidados de seu determinismo tecnológico – ou estamos vivendo o Capitaloceno, uma era histórica formada por relações que privilegiam a acumulação interminável de capital?

O conceito surge mais como uma crítica a uma determinada narrativa do tempo do que como uma proposta de mudança de termo. Serve para não nos acomodarmos com a ideia de que não há alternativas, afinal destruir o meio ambente é da “natureza do homem”. Uma ideia no mesmo estilo de “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. 

Quando pensamos na fala do ministro não ligamos diretamente a Brumadinho, mas podemos. Podemos ligar a outras várias discussões em andamento. Enquanto o jornalismo se mantém “chapa branca” e puramente declaratório, a desinformação se espalha. Então, será que o jornalismo não deveria fornecer informação de qualidade para que o leitor tire suas conclusões e ter a responsabilidade de refletir sobre o que está sendo dito?

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Potencialidades e carências no jornalismo local sobre meio ambiente

Por Débora Gallas Steigleder *

Conforme a terceira edição do Atlas da Notícia, publicada no final de 2019, aproximadamente 75% dos municípios da Região Sul do Brasil são enquadrados como desertos ou quase desertos de notícias, onde não há quaisquer veículos jornalísticos ou, na melhor das hipóteses, existem apenas um ou dois deles. Viamão, município vizinho à capital sul-riograndense, Porto Alegre, não está enquadrado enquanto deserto de notícias, pois possui dez veículos listados em pesquisa no realizada no site do projeto. No entanto, foi difícil encontrar textos jornalísticos sobre o tema escolhido para análise desta semana no Observatório: o projeto de implantação de aterro sanitário na área rural do município, nas proximidades da Aldeia Guarani Cantagalo e de propriedades de produção de alimentos orgânicos.

Proposto pela Prefeitura de Viamão no início de 2019, o projeto recebeu inúmeras críticas da população local, repercutidas à época por veículos regionais de grande expressividade, como os jornais Zero Hora e Correio do Povo. Pelo fato de a comunidade local seguir mobilizada contra o empreendimento e por conta do agendamento de uma consulta pública pela Prefeitura, realizada na última terça-feira, 14 de janeiro, era de se esperar que as mídias locais estivessem atentas aos desdobramentos desse debate público de relevância para o município. Porém, afora postagens de cidadãos e figuras públicas nas redes sociais, não localizamos cobertura jornalística sobre o acontecimento.

De acordo com busca na ferramenta Google Notícias no dia 15 de janeiro, a única menção de caráter jornalístico à audiência pública aparece em texto do jornal Brasil de Fato publicado em sete de janeiro. O foco da notícia, no entanto, é a aprovação do Projeto de Lei 185/2019, que obriga a aprovação legislativa para instalação de empreendimentos de aterro sanitário, reciclagem e manuseio de lixo no município. Em buscas realizadas individualmente nos portais de veículos locais e regionais, nenhuma menção à realização de audiência pública ou aos desdobramentos do debate sobre a instalação do aterro sanitário – assim como no site da Prefeitura Municipal de Viamão.

Na página do Facebook Correio Viamonense, a qual conta com mais de 12 mil curtidas e se intitula enquanto empresa de mídia com sede em Viamão, há um post com foto da audiência pública e texto contrário ao projeto. Embora não apareça no Atlas da Notícia e seu conteúdo possa não ser caracterizado enquanto jornalismo por replicar textos e imagens sem indicar fonte ou por compartilhar postagens de perfis pessoais, por exemplo, é possível crer que tal página seja resultado de uma ação popular a fim de repercutir assuntos de interesse público. Isto porque, em comparação, a página do Diário de Viamão, veículo listado no Atlas da Notícia e que conta com mais de 23 mil curtidas, não publica quaisquer atualizações desde o dia 4 de janeiro.

Na série O jornalismo no Brasil em 2020, o fortalecimento do jornalismo local foi apontado por Nina Weingrill como uma urgência frente ao crescimento dos desertos de notícias. E são iniciativas da própria comunidade que podem suprir o vazio informativo, ainda que soluções para a sobrevivência financeira precisem ser testadas e aprimoradas. No caso de temas ambientais, esta necessidade é ainda mais evidente. Pautas relevantes para atuais e futuras gerações de comunidades heterogêneas como a população rural de Viamão, em vias de ser diretamente impactada pelo empreendimento do aterro sanitário, seguem invisibilizadas no contexto de crise do jornalismo enquanto instituição e modelo de negócios. 

Imagem 1: Resultado de busca por veículos do município de Viamão no portal Atlas da Notícia
Imagem 2: Resultado de busca no Google Notícias com os termos “aterro sanitário Viamão”

Imagem 3: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook Correio Viamonense

Imagem 4: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook do vereador Guto Lopes

Imagem 5: Resultado de busca de notícias mais recentes no site do Diário de Viamão
*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

“O homem é o que a terra, ou o solo, faz dele.”

Imagem: Ana Maria Primavesi (Divulgação)
Por Eliege Fante*

Em acordo com a frase do título, pode muito bem ser por isso que o ser humano anda tão adoecido, subnutrido ou tentando completar a sua nutrição buscando minerais, vitaminas, etc., além das refeições. Ou o que responderia Ana Maria Primavesi, se é que já não respondeu em um dos trabalhos entre as centenas que estão disponíveis para o nosso conhecimento no site que leva o seu nome.O solo da agricultura em grande escala ou empresarial, aquela das monoculturas e das commodities, vem sendo maltratado sob a pulverização de um número cada vez maior de agrotóxicos (em quantidade e toxicidade). Imaginemos o impacto sobre quatro quintos das terras do país, que segundo notícia da Agência Brasil, ainda em 2014 estavam sob o poder das médias e grandes propriedades rurais.

O manejo do solo era considerado errado pela agrônoma e pioneira da agroecologia em 1980. Em notícia veiculada em Zero Hora à época, ela afirmava que o Brasil não tinha uma política nacional de conservação de solos: “Quando se permite o desmatamento de enormes áreas, não existe política de conservação do solo”. Lembremos das queimadas provocadas nos estados do bioma amazônico em agosto de 2019, ações que ainda não cessaram por completo. E a mudança do clima também preocupava há 40 anos: “Existem leis que não são cumpridas e a modificação do clima, que tanto reclamam, está havendo em decorrência de uma intromissão sem planejamento”. As leis não só não são cumpridas como têm sido muito alteradas.

É o caso do “novo” Código do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. Nos últimos 15 anos foram noticiadas as demandas dos setores produtivos por atualização, flexibilização, modernização das regras, etc. Antes de terminar o primeiro ano de mandato, o governador Eduardo Leite (PSDB, 2019-2022) conseguiu a aprovação por maioria dos deputados do projeto de lei 431 de 2019 que tinha 480 alterações, definidas e escritas não se sabe por quem, conforme reportado pelo jornal Extra Classe no mês passado.

Recordemos que em 2009, o projeto de lei (PL) 154 do Executivo (Yeda Crusius, PSDB, 2007-2010) propunha “mesclar” todos os códigos em um só: o ambiental, o florestal, o de recursos hídricos e de solos (CP, 28 out. 2009). Mas foi tanta inconstitucionalidade que a Associação do Ministério Público sugeriu aos deputados que não o levassem ao plenário da Assembleia para votação (CP, 10 nov. 2009). E assim aquele PL acabou arquivado.

No Brasil pós-Golpe de 2016 com a radicalização do discurso neoliberal o “novo” Código foi publicado no Diário Oficial de 9 de janeiro de 2020, como Lei 15.434 que “Institui o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do RS”, ignorando a já instituída Lei 11.520 de 2000 e trabalhada por quase uma década com diversificada participação de atores sociais. Em acordo com as próprias demandas dos setores produtivos para uma alteração nesta lei, não teria sido mais adequado o verbo “Atualiza” do que “Institui”?

Ana Maria Primavesi, a agrônoma que faleceu aos 99 anos no quinto dia de 2020, dialogou por oito décadas com inúmeros atores sociais e de todas as classes. Que a pertinência do seu exemplo e de seus ensinamentos para o presente seja reconhecida também pelos jornalistas, a quem cabe informar a sociedade sobre a cronologia e as consequências do desmonte das políticas públicas ambientais.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Que calor, que horror, menos pavor e mais consciência ambiental!  

Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios, mas o maior deles é contribuir para que a população mude suas posturas e reveja sua forma de vida, de interação com o meio ambiente e se torne consciente de que as mudanças climáticas são reais. Prova disto são as ondas de calor que vêm afetando o mundo de Norte a Sul e que são apenas noticiadas quando os prejuízos passam a afetar nossos bolsos, as temperaturas se tornam quase insuportáveis, pessoas e animais estão morrendo e as plantações destinadas a nossa alimentação estão sendo perdidas em função da escassez de chuvas.

As coisas estão mudando faz tempo, mas raros são os espaços na imprensa corporativa e raros são os momentos minimamente dedicados às mudanças climáticas. O tema merece muito mais cobertura e não só quando o calor chega a temperaturas nunca antes alcançadas na história de diferentes países e causa pavor, como na matéria publicada no site do G1 no dia 04/01/20, como mostra a manchete abaixo:

CM artigo OJA - sobe para 23 numero de incendios

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1 acompanhada de vídeo

O incômodo pela ausência de mudanças do clima na imprensa e aí não me refiro somente a imprensa comercial, mas também a falta de iniciativas de produção de matérias por parte das assessorias de imprensa e de pessoas ligadas a organizações da sociedade civil e suas redes, por agências de jornalismo investigativo, dentre outros. Muito se deve a falta de investimento político (pois as mudanças do clima não são tema que atraia votos) e financeiro, o que deveria ser diferente em razão da importância civilizacional, como são as mudanças no clima da Terra.

A mudança do clima em si tem valor-notícia para permanecer no hard news, mas não permanece. Ela somente vira pauta quando situações extremadas preocupam a sociedade, afetam o mercado financeiro e causam perdas nas lavouras, como no registro feito pela Globo no telejornal Hora Um, em 03/01/20, para retratar as faltas de chuvas no Rio Grande do Sul registradas desde o final de 2019, aliadas a altas temperaturas.

falta de chuva e temperaturas altas

Imagem – Captura de tela de matéria publicada no site do G1 na Hora Um da Notícia

O tema é pouco noticiado e sem regularidade, e nem mesmo o Observatório do Clima que poderia ser um espaço de consulta e abrir frente a uma ampliação de espaços para o tema na imprensa brasileira, não tem conseguido mudar a situação apesar de assumir a responsabilidade importante de noticiar e cobrar ativamente o governo.

Enfim, compartilho da ideia do jornalista Ulisses Capozzoli, de que “a mídia é de fundamental importância para a conscientização, especialmente na educação para um presente e futuro cada vez mais exigentes, de um ponto de vista ambiental, entre outros. E aí aparece o paradoxo: o desafio de conscientizar a própria mídia” para a importância do tema e a mudança de postura da população.

Antes que o calor nos mate, façamos do pavor um motivo de mudança de postura pessoal e de convencimento de que o jornalismo precisa sim ter assumir uma posição: estar ao lado do meio ambiente e da vida.

 

Referência:

CAPOZZOLI, Ulisses. Aquecimento global e a consciência da mídia. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/ciencia/aquecimento-global-e-a-consciencia-da-midia/ . Acesso em: 05 de janeiro de 2020.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Retrospectiva: 2019 foi o ano do meio ambiente (pelos piores motivos)

Imagem: Captura de tela do site G1 Brasil
*Por Ursula Schilling

Até os mais desavisados ou menos interessados em acompanhar as notícias diárias sabem apontar pelo menos dois desastres ambientais de 2019. Pense um minuto. Provavelmente vieram a sua mente as queimadas da Amazônia e as machas de óleo nas praias do Nordeste, os mais recentes na linha de tempo. Faça um novo esforço e talvez você se lembre que, em janeiro, o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho/MG matou 259 pessoas (identificadas até o momento), desalojou e adoeceu outras tantas e causou danos irreparáveis à fauna e à flora.

Ao longo de 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental trouxa à discussão, semanalmente, exemplos de diferentes abordagens jornalísticas acerca da questão ambiental. Falamos aqui sobre o afrouxamento das leis ambientais, que estimularam ainda mais a utilização de agrotóxicos – os agrotóxicos, aliás, foram liberados num ritmo sem precedentes em 2019 -, o desmatamento, e, com ele, a ameaça às vegetações nativas. Discutimos amplamente as queimadas na Floresta Amazônica, as mudanças climáticas, o avanço da megamineração.

A partir das análises publicadas, vimos a pauta ambiental ganhar espaço, visto que não é mais possível calar tantos estragos. Compartilhamos exemplos de bom e de mau jornalismo. Deparamos com um jornalismo que ainda cala, que reporta fragmentos informativos, sem interesse em uma verdadeira problematização de questões urgentes.

Imagem: Captura de tela do site Veja

Por outro lado, vimos emergir, ao mesmo tempo, um jornalismo questionador, com base em dados, feito com alma e com uma profunda preocupação com seu papel social, com sua função primeira de informar de fato. Por isso, deixei para a parte final dessa reflexão, formas de fazer jornalismo que nos provocam, inspiram e dão esperança, como o jornalismo de imersão de Eliane Brum, como as narrativas restaurativas do podcast Mamilos, como jovens e futuros jornalistas que questionam os critérios de noticiabilidade. E há muito mais. É possível contar histórias fugindo do senso comum. Tanto é possível que já é feito.

Tendo isso em conta, seguiremos com nosso trabalho de análise, convictos de que, para cada um que cala, que silencia, haverá um que grita, que propaga aquilo que precisa ser dito. Seguiremos questionando o papel e os limites do jornalismo na luta contra a desinformação. Seguiremos defendendo uma mídia mais combativa, um jornalismo de resistência em defesa da causa ambiental.

Que 2020 (também) seja o ano do meio ambiente. Por motivos melhores e mais animadores.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As narrativas restaurativas do podcast Mamilos

Imagem: captura de tela – Juliana Wallauer e Cris Bartis praticam um jornalismo de peito aberto no podcast Mamilos
Roberto Villar Belmonte*

O Pulitzer, principal prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, anunciou, dia 5 de dezembro, uma nova categoria: reportagem em áudio. “O renascimento do jornalismo em áudio nos últimos anos deu origem a uma extraordinária variedade de histórias de não ficção”, reconheceu Dana Canedy, administradora da premiação. Em parte isso ocorre em função do sucesso de público dos podcasts, fenômeno também observado no Brasil. Por aqui, um dos programas semanais de maior audiência é o Mamilos, produzido e apresentado por Juliana Wallauer e Cris Bartis desde 2014.

A proposta das duas é colocar semanalmente no ar o que elas chamam de narrativas restaurativas, uma espécie de jornalismo de paz para compreender temas polêmicos da atualidade. “Estamos mais preocupadas em criar pontes do que provar pontos”, afirmou Cris Bartis em um TEDx Talks em junho. Suas fontes sempre têm algo interessante pra dizer, mas também são pessoas interessadas em ouvir. “A gente conversa pra conectar, para mostrar nossa humanidade, pra mostrar que tem gente envolvida”, disse a apresentadora.

O episódio 229, Alter do Chão: paraíso em disputa , que foi ao ar dia 9 de dezembro, trouxe uma novidade ao programa. As duas apresentadoras estiveram no interior do Pará colocando em prática uma técnica de reportagem fundamental e que vem sendo destacada com frequência nesse observatório: a imersão. Por coincidência, elas foram convidadas por um dos brigadistas presos em novembro pela Polícia Civil local.

O convite foi feito após o programa “Povos Indígenas: de onde viemos e para onde vamos“, que foi ao ar em agosto desse ano com Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, e Adriana Ramos, especialista em políticas socioambientais e associada do Instituto Socioambiental (ISA).

Mamilos não é um podcast de jornalismo ambiental. Mas o jornalismo de peito aberto realizado nesse programa permite uma abordagem em profundidade dos temas. As narrativas restaurativas não apenas ajudam a construir pontes, mas também ampliam a compreensão do público acerca de temas polêmicos que exigem diferentes pontos de vista para serem tratados. No contexto brasileiro, não é pouca coisa: “Nossa busca, com curiosidade e humildade, é desenvolver um jornalismo construtivo, de soluções, não violento”.

O podcast Mamilos não reproduz notícias em excesso, característica presente em muitos podcasts jornalísticos, que acaba truncando a narrativa, ao invés de ajudar. A edição de áudio é muito bem feita, o que permite um mergulho na conversa das duas apresentadoras. O episódio Alter do chão: Paraíso em Disputa tem quase duas horas, mas a conversa flui de uma maneira agradável.

A observação de ambas, baseada em entrevistas em off para preservar as fontes que vivem na região conflagrada, e as conversas gravadas com os convidados permitem um reflexão profunda sobre a região: “Nessa jornada nos envolvemos em conversas que nos fizeram refletir sobre o direito à terra, a forma como ela é distribuída, como a especulação imobiliária age e afeta as comunidades, como um apanhado de pessoas de diferentes lugares do mundo, com diferentes sonhos e interesses podem formar uma comunidade. Essa expedição contou com muitos convidados. Só é possível pra entender o lugar vivendo o lugar e falando com as pessoas de lá. Muitas conversas foram feitas com gravador e sem gravador”.

Mamilos em estúdio já era um programa diferenciado, pela abordagem em profundidade. Esse episódio sobre Alter do Chão, que resultou de uma jornada no interior do Pará, reafirma a importância da observação, da reportagem, da proximidade com o acontecimento. As apresentadoras não têm uma formação jornalística clássica, não passaram pelas grandes redações do país, mas com essa proposta de narrativa restaurativa produzem um programa jornalístico fora da curva.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Relatos jornalísticos sobre a COP-25: a discussão extravasou o evento

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Imagem: Reprodução Envolverde – Carta Capital. Entrega da carta climática de povos indígenas das Américas, Caribe e Antilhas na COP-25
* Eloisa Beling Loose

Muito antes da COP-25 começar, em 2018, ela já era assunto no Brasil. Falava-se em sair do Acordo de Paris, em proteger as riquezas naturais brasileiras dos interesses estrangeiros, colocava-se em suspeição a realidade das mudanças climáticas. Por fim, em novembro daquele ano houve o cancelamento da realização da COP em solo brasileiro.

Mesmo com a retirada da candidatura para sediar a COP-25, a agenda climática no país se fez muito presente em 2019, especialmente devido ao aumento das queimadas na Amazônia, amplamente noticiado pela imprensa nacional e internacional desde agosto, e que não pode ser isolado da crise climática. O desmonte de políticas públicas ambientais brasileiras e as manifestações já sentidas na pele em diferentes lugares fomentam o debate midiático e político de forma constante. Se no começo o receio apontado era que o Brasil perdesse o protagonismo internacional na discussão das mudanças climáticas – e com isso perderia também oportunidades de investimentos e negócios -, o fim do evento revelou que o país conseguiu ir além, sendo considerado “parte do problema” por negociadores que tentam avançar no enfrentamento do clima.

A BBC já noticiava em dia 11 de dezembro que Países em desenvolvimento acusam Brasil de tentar bloquear avanço em negociações do clima e, no fim da conferência, no domingo, dia 15,  a mais longa das cúpulas do clima realizadas pela ONU, manifestou mais sinais da postura contrária do governo: “O responsável pelo último dos impasses foi o Brasil, que não aceitava inicialmente dois parágrafos incluídos no acordo que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global”, expõe o texto Após atrasos e impasses, países aprovam texto final da COP25, publicado no portal R7. A proposta de fazer algo ambicioso já (o slogan da COP-25 é “Time for Action”) foi frustrada pela priorização dos interesses econômicos nacionais, baseados em combustíveis fósseis e em uma lógica de mercado calcada na exploração da natureza.

O papel do governo brasileiro já havia sido relatado pela imprensa e também criticado. O Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, deixou claro que o “Esforço do Brasil é para conseguir recursos”, mesmo quando a finalidade da COP é outra. Muitos veículos, como G1, Uol, IG, Carta Capital e Veja, mostraram como o Brasil estava sendo malvisto quando divulgaram as anti-premiações do “Fóssil do Dia” e do “Fóssil do Ano”, reconhecimento da Rede Internacional de Ação Climática (CAN) aos países que tiveram a pior atuação na área.

O jornalista André Trigueiro, em podcast sobre a COP-25, nomeou de desastrosa a participação brasileira na Conferência, alertando para a gravidade do contexto. Também Amelia Gonzalez, em blog no G1, discute as regras feitas em torno dos mercados que buscam lucro sem considerar as pessoas, trazendo o exemplo de Belo Monte, que “ajuda que o Brasil mantenha uma boa imagem em Conferências sobre o Clima, como gerador de energia ‘limpa’, mesmo sendo um dos mais poluidores do mundo”. Em notícia do Nexo Jornal, o único aspecto positivo ressaltado recai sobre a participação da sociedade civil e outros setores e atores que buscam acordos pró-clima de forma direta, desvinculando-se do governo federal.

É importante recordar que a mudança de sede do Brasil para o Chile e depois para Madri há pouco mais de um mês da data do evento prejudicou a participação e articulação da sociedade civil, especialmente da América Latina, que contava com a oportunidade para pressionar os líderes de Estado. A colunista do El País, Eliane Brum, escreveu sobre a perda de uma oportunidade histórica, mas motivada por interesses que permitam a manutenção do status quo: “Os negociadores não querem sujar as mãos com as ruas da América Latina em diferentes tipos de convulsão. Preferem manter as negociações intermináveis em ambiente climatizado. A ironia aqui não é opcional. Querem mesmo controlar o clima do debate e não ser pressionado por aqueles que sofrem a falta de políticas públicas para enfrentamento do maior desafio da trajetória humana”. Ao promover o encontro na Europa, economicamente inviável para a participação da maioria dos impactados, pode-se pensar mais em como lucrar com os mercados de carbono e arquitetar caminhos para fazer mudanças mais brandas.

Apesar de as fontes oficiais ainda serem as mais procuradas e os discursos econômicos e políticos serem constantes nos relatos jornalísticos, percebe-se que a própria urgência de uma virada mobiliza outros atores, que passam também a ter espaços nas notícias (antes, durante e depois das COPs). Se na análise realizada a partir da cobertura de revistas brasileiras das COPs 15 e 16 identificou-se dificuldade dos veículos na construção de discursos próximos à sustentabilidade real, a perda de liderança do governo atual proporcionou que as vozes afetadas estivessem mais presentes nas matérias, como foi o caso da ativista adolescente Greta Thunberg, eleita a “Personalidade do Ano de 2019” pela revista Times e que chama a atenção para os mais vulneráveis aos riscos climáticos, e, em menor escala, da quilombola Luceli Morais Pio e da liderança indígena Sônia Guajajara.

Se houve um tempo em que a questão climática só era pautada de forma pontual, a partir da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e das próprias COPs, percebe-se que está ocorrendo, gradualmente, uma extrapolação do assunto, que está conectado com aspectos políticos, econômicos, culturais, de saúde, de segurança… Tal transversalização do tema contribui para manter a atenção pública sobre o colapso e, quiçá, sensibilização para seu enfrentamento.

A Conferência das Partes (COP) é o órgão supremo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que tem como o objetivo frear as emissões de gases de efeito estufa causadores da amplificação de riscos climáticos. A COP ocorre anualmente desde 1995, por um período de duas semanas, para avaliar a situação das mudanças climáticas no mundo e discutir formas de reduzir sua intensificação e, consequentemente, seus impactos. Os delegados governamentais dos países signatários dessa Convenção são os únicos com poder de voto, mas participam também dos eventos jornalistas e membros da sociedade civil. Desde 2015, quando foi assinado um grande acordo climático global, o Acordo de Paris, as conferências anuais têm se dedicado a como colocá-lo em prática, mas os processos decisórios costumam ser longos e lentos, pois as deliberações são tomadas por consenso entre as Partes – o que exige inúmeras negociações e nem sempre acarretam medidas à altura dos desafios impostos pela emergência climática.

A COP-25 encerrou, os resultados ficaram aquém do esperado mais uma vez, notou-se a desconexão das preocupações políticas com a urgência e gravidade do problema que precisamos enfrentar, porém ainda há tempo para agir. E o jornalismo deve fazer a sua parte enquanto prática social voltada para o interesse público. Que as mudanças observadas ao longo do tempo na cobertura jornalística sobre clima tenham um ritmo maior e possam ser amplificadas para alertar a todos sobre o que está de fato em risco quando falamos de crise climática: a nossa existência nesse planeta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

“É impressionante a imprensa dar espaço para esses adultos aí”

Por Reges Schwaab*

Diz. Afirma. Duas expressões recorrentes nas manchetes dos jornais de referência, em especial em seus portais digitais. Mas não só. Nesta quarta, 14, a manchete de terça ainda se repetia: “Bolsonaro chama Greta de ‘pirralha’ e diz ser contra desmatamento ilegal”. Diz. Afirma. E o fato de alguém dizer parece desobrigar o jornalismo da apuração. A triste frase do presidente, que rodou o mundo, e fez com que Greta Thunberg alterasse sua descrição no Twitter (imagem a seguir), pode não parecer caso para uma grande análise.  Mas, na verdade, faz lembrar do contexto mais amplo da disputa de sentidos acerca da emergência climática, a bandeira de protesto de Greta e outras milhares de pessoas, luta que mobiliza jovens, ativistas e cientistas em diferentes países.

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Imagem: Reprodução/Twitter

Poderíamos esperar uma grande repercussão do jornal acerca da afirmação sobre Greta? Talvez não. Mas a proposta é ver aqui outro viés. O “diz” e o “afirma” acompanham, recorrentemente, as manchetes sobre os chamados negacionistas, a quem o jornalismo resolve, em intervalos regulares, conceder espaço e mostrar que o aquecimento global não existe, ou não é fruto da intervenção humana. Isso porque todo jornal ainda insiste em se denominar “imparcial” e “comprometido com a verdade”, tendo de ouvir os “dois lados”.

“É impressionante a imprensa dar espaço para uma pirralha dessa aí”, foi a frase de Bolsonaro na terça. Poderíamos fazer um jogo de inversão? Melhor não, pois cairíamos no mesmo preconceito. O insulto proferido contra Greta ecoa a desconsideração da criança e de que a infância seja um lugar de saber. Então, a luta de Greta é uma pirraça infantil. E não sendo nada mais do que gritos de uma criança, por que haveriam de ser considerados? Apareceram charges retratando Bolsonaro como um bebê diante de Greta. Mas soam na mesma direção, a criança que faz pirraça diante do adulto. A luta geral vai em outro sentido.

O “impressionante”, nos parece, é que mesmo diante de pilhas de dados científicos, produzidos por diferentes correntes acadêmicas, os que negam a interferência humana no ecossistema tenham suas afirmações amplificadas em nome da encenação de pluralidade jornalística. Sobre esse tema, merece leitura o texto de Herton Escobar na ComCiência (Dar voz à mentira não é imparcialidade, é irresponsabilidade). Basta verificar, são atores que nunca participaram de um debate científico sério sobre o tema. Só dizem. Isso inclui o presidente e o ministro do Meio Ambiente brasileiros.

Na semana em que as mudanças do clima foram um dos assuntos mais comentados no Twitter, diante da COP25, a Conferência da ONU sobre o clima, o Brasil dos já crescidos segue sem entender de futuro. Na crítica de Greta, que incomodou Bolsonaro, estava a evidência da culpa pública e coletiva pelo extermínio dos indígenas e pela falta de proteção ao território da Amazônia. E como escreveu Eliane Brum no El País, se a COP 25 não frear a destruição da Amazônia, seria melhor nem ter saído de casa. Greta não diz ao vento. A despeito de críticas direcionadas a ela, que aparecem a todo momento, Greta sabe: nada foi feito efetivamente pelos senhores tão adultos, nós aí incluídos.

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Imagem: Reprodução/Greta é eleita pela Time a personalidade do ano

Para ampliar: Crise climática e justiça ambiental

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo de imersão de Eliane Brum

Patrícia Kolling*

Ela queria “cobrir” o mundo a partir do local que entende ser o centro do mundo, a Amazônia. Para tal, em 2017, fez as malas e mudou-se de São Paulo para Altamira, no Pará. Estamos falando da jornalista e colunista Eliane Brum, que ao participar recentemente do programa Córtex, da mídia independente Estúdio Fluxo , justificou a mudança dizendo: “eu queria inverter o lugar de onde eu olho mundo e o Brasil. Eu intui que isso ia me permitir entender as coisas de uma outra forma, melhor talvez”. Após dois anos morando na Amazônia, ela destaca que já se sente de outro jeito e entende outros jeitos de ser. “A cidade é uma camisa de força de concreto sob a natureza. A gente se desconectou de tal maneira, que não se sente parte de um organismo que é vivo, que é esse planeta. Quando você começa a viver aqui, e eu fico muito na floresta, você começa a se sentir de um outro jeito, entender um outro jeito de ser. Hoje me sinto parte deste planeta de forma orgânica, carne do planeta, o meu jeito de estar nesse planeta já mudou. Mudou até a linguagem. Não tenho palavras, língua, para falar das coisas que eu percebo. Estou buscando aprender outras línguas que possam dar conta desse novo jeito de habitar esse planeta”.

Em tempos em que o jornalismo é cada vez mais produzido em frente ao computador, com o uso da internet, em salas fechadas com ar condicionado, em que a maioria das fontes são entrevistas por telefone, e-mail ou whatsApp; a jornalista Eliane Brum quebra paradigmas para ver, ouvir e sentir no corpo e na alma o que os povos da floresta vivem e tem a dizer no olho no olho. Eliane Brum tem a sensibilidade de fazer um jornalismo que valoriza a história das pessoas e famílias que são suas fontes, ou seja, a subjetividade de cada uma delas. Em Altamira ela acompanha a história de muitas famílias que foram expulsas das suas casas na beira do rio, das ilhas onde viviam, ou seja, dos espaços em que haviam constituídos suas histórias de vida, devido a construção da hidrelétrica Belo Monte. “Na minha experiência de repórter as subjetividades são tão ou mais importantes que as objetividades para produzir o que acontece”, destaca a jornalista. Essas famílias hoje moram em casas construídas pela empresa Norte Energia, administradora do projeto da hidrelétrica, em bairros isolados da cidade, distantes do rio, em casas construídas sem valorizar sua cultura e seus costumes. “A cultura daqui é de receber as pessoas e amarrar a rede. Eles fizeram casas onde não tem espaço para a rede. Casa de ribeirinho sem espaço para rede é mesma coisa que não ter cozinha”, destaca Eliane, que ao viver próximo dessas famílias e com elas conviver frequentemente consegue compreender detalhes das suas vida, que um repórter que não vivencia situações semelhantes jamais perceberia.

Entre as contradições que ela aponta estão a que essas pessoas que viviam junto ao rio e dele tiravam seu sustento, hoje não tem água nem nas torneiras. “A água das caixas d´águas não tem pressão para chegar as torneiras. Elas foram expulsas para construir uma hidrelétrica e pagam uma das energias mais cara do Brasil. Eles tinham água, luz, peixe. Eles tinham a floresta, a roça. Eles tinham os amigos, os parentes, tinham a felicidade. Eles tinham vida. E agora foram jogados aqui.”, lamenta a jornalista

No vídeo em conversa com o jornalista Bruno Torturra, Eliane faz uma reflexão sobre o que é ser rico e pobre, a partir das subjetividade de cada povo. Ela explica que para os indígenas, quilombolas, ribeirinhos ser rico é não precisar de dinheiro. “Viver na floresta é ser rico. Eles eram ricos, porque não precisavam de dinheiro. Agora precisam de dinheiro para pagar luz, água e não tem. Hoje eles são pobres urbanos”, evidencia. Neste sentido, ela ressalta a dificuldade da sociedade de visualizar diferentes tipos de povos, costumes e culturas. “A forma como as pessoas se veem e acham que o mundo é só de um jeito, torna esses povos sempre invisibilizados” destaca. Ela evidencia a necessidade de enxergar e valorizar essas “outras humanidades”

Eliane nos dá uma aula de jornalismo ambiental, com a sua capacidade de compreensão dos fatos de maneira contextualizada e conectada. Ela consegue relacionar fatos políticos, sociais, ambientais e econômicos com muita rapidez e eficiência em vários momentos da conversa.
Ao citar o cientista da terra, Antônio Nobre, ela ressalta que uma árvore grande coloca na atmosfera mil litros de água por dia. Então, ela nos chama a refletir que ao encontrarmos na rodovia Transamazônica caminhões com dezenas de toras de árvores (segundo ela são muitos transitando): “Cada árvore daquelas são mil litros de água por dia a menos na atmosfera. A floresta inteira coloca 20 trilhões de litros de água por dia. A floresta transpira e salva o mundo todos os dias. Se esta floresta acabar, e ela está neste processo, vamos viver num planeta hostil. E quem pode impedir isso são os povos da floresta, porque se existe floresta em pé é onde estão os povos da floresta. Parte desta floresta foi plantada por estes povos. Os povos são a floresta. Ao matá-la, matamos eles também”.

Ao final ela explica que considera a Amazônia como o centro do mundo, “pois em época de emergência das mudanças climáticas, não tem como controlar o aquecimento global sem ter a floresta viva”. Ao lermos os textos ou ouvirmos as falas de Eliane Brum somos tocados, porque compreendemos o todo, e qual a nossa importância no contexto da preservação ambiental, como as perspectivas teóricas do jornalismo ambiental propõe.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

A prisão dos brigadistas de Alter do Chão e um podcast

Imagem: Capa do podcast café da manhã no Spotify
Por Nicoli Saft*

Para o texto de hoje do Observatório, resolvi destacar um bom exemplo de jornalismo, e um de um meio não tradicional, mas que nos últimos anos vem ganhando cada vez mais adeptos. No podcast diário Café da Manhã, da Folha de S. Paulo, o jornalismo ambiental já apareceu diversas vezes este ano, como era de se esperar em um ano que teve Brumadinho, queimadas desenfradas, petróleo no litoral nordestino e o recorde de desmatamento na Amazônia. Na última quinta-feira, 28 de novembro, o assunto foi a prisão de quatro brigadistas acusados de atear fogo em uma área de proteção ambiental de Alter do Chão em setembro. Alter do Chão é um distrito da cidade paraense Santarém, e é conhecida mundialmente pelas suas belas praias de água doce.

Os quatro homens que foram presos são voluntários da Brigada de Incêndio do local, organização fundada em 2018 pelo Instituto Aquífero Alter do Chão e que atua em conjunto do Corpo de Bombeiros no combate às queimadas da floresta. A prisão fez parte da operação Fogo do Sairé, da Polícia Civil do Pará, que também apreendeu documentos da organização não-governamental Projeto Saúde e Alegria (PSA), que atua há 30 anos na floresta fornecendo serviços de saúde para a população. Os quatro brigadistas ficaram presos de terça à quinta-feira, quando foram liberados por decisão judicial.

O podcast da Folha é apresentado usualmente por Rodrigo Vizeu e Magê Flores, mas como esta está de férias, tem sido apresentado por Victoria Azevedo, repórter da coluna Mônica Bergamo. Os apresentadores entrevistam outros jornalistas da Folha e “trazem nas manhãs de segunda à sexta, de forma leve e simples, o fundamental sobre os assuntos do momento no Brasil e no mundo”, conforme descrição do podcast no Spotify. O programa segue a linha do americano The Daily, do New York Times, apresentado por Michael Barbaro.

Os entrevistados dessa quinta-feira foram Ana Carolina Amaral, do blog Ambiência, e João Pedro Pitombo, repórter da Folha em Salvador. Primeiramente Pitombo apresenta um pouco do que foi o incêndio que destruiu uma área de cerca de 650 mil m² e que levou quatro dias para ser controlado. Pitombo também apresentou a hipótese da Polícia Civil: os brigadistas iam até a floresta, iniciavam o fogo, saíam do local e pouco depois retornavam para apagar, fazendo também imagens do fogo, que vendiam para organizações internacionais para captar doações para as brigadas e ONGs da região. Outro argumento da Polícia é que houve mau uso dos recursos das ONGs, principalmente no que se refere a uma doação da ONG WWF Brasil, que teria pago 47 mil reais para fotos do incêndio, o que a organização nega. Essas fotos teriam sido utilizadas para obter outras doações, inclusive uma de 500 mil dólares da fundação do ator Leonardo Di Caprio, fato que também é negado pela WWF.

Ana Carolina Amaral conta sobre alguns detalhes do inquérito policial, e de suas inconsistências. A partir de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça, a Polícia Civil montou parte de seu inquérito. Há, conforme a repórter relata, abismos entre a intenção de falas em seus contextos originais nos diálogos e a interpretações que a polícia teve. Amaral ainda chama a atenção para o perigo de que essas táticas sejam utilizadas em outras investigações para culpabilizar as mais diversas organizações.

No restante do episódio, surgem as declarações do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e os esclarecimentos da WWF. Pitomba ainda conta sobre uma reportagem que fez sobre Alter do Chão logo antes da Operação Fogo do Sairé, nela, relata sobre as pressões imobiliárias que a região vem sofrendo, além das ocupações ilegais de grileiros. O Ministério Público Federal também investiga desde setembro a causa dos incêndios e, ao contrário da Polícia Civil, aponta como causa da degradação ambiental em Alter do Chão o assédio de grileiros, a ocupação desordenada e a especulação imobiliária.

Destaco esse podcast por nos tirar um pouco daquele jornalismo impessoal e imparcial. Aqui, há uma clara rejeição à postura de trabalho adotada pela Polícia Civil do Pará e um apontamento dos possíveis culpados. Na sexta-feira, quando o presidente Jair Bolsonaro resolveu culpar Leonardo Di Caprio pelos incêndios na Amazônia, embora seja uma proposição aparentemente ridícula, eu sabia exatamente do que ele estava falando. E ainda, considero podcasts um meio interessante de levar o jornalismo ambiental às pessoas. Um dos grandes problemas que enfrentamos, e sobre o qual eu mesma já falei aqui no Observatório, é o distanciamento que temos em relação aos problemas ambientais, seja as mudanças climáticas ou o petróleo no litoral nordestino. O podcast por si só traz uma proximidade com os jornalistas e com o tema discutido. Sentimos quase como se fosse um amigo nos contando uma história, e portanto, aquilo que é dito importa. Não que seja a única solução possível, é claro, mas é uma alternativa.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Microplástico nos oceanos e a necessidade jornalística de ir além da tradução de artigos científicos

Foto GPJA

Imagem: Captura de tela de matéria da BBC News
Michel Misse Filho*

Não raro observamos, nos noticiários televisivo, digital e impresso, reportagens que atentam para o problema das quantidades crescentes e absurdas de plásticos nos oceanos. Foram diversas matérias nos últimos anos, construídas com um especial enfoque, por exemplo, nas ilhas de plástico do Oceano Pacífico (somadas, compreendem uma área maior do que a de países como a França), bem como nas terríveis fotos de tartarugas, peixes e baleias envoltas em sacolas ou garrafas de refrigerante.

Muito além das fotografias espetaculares das ilhas de resíduos, a problemática do microplástico tem se mostrado notadamente importante, transpassando o sistema digestivo de inúmeros seres que habitam os oceanos – e que também chegam à nossa mesa de jantar, finalmente. Uma matéria publicada este mês pela BBC News , em seu site, é um bom exemplo para tratarmos do assunto em correlação com a divulgação científica na mídia.

Intitulada “Plásticos invadem ‘berçários’ de larvas de peixes”, a notícia revela um estudo inédito, que aponta para o aparecimento de fragmentos de plásticos nos locais ricos em plâncton, como em certos “corredores” na superfície do mar onde se concentram materiais orgânicos, propiciando uma zona de maior concentração de alimentos para as larvas. Apesar de pesquisadores já desconfiarem do fato, cientificamente só se tinha a confirmação da ingestão da substância plástica em peixes adultos e, portanto, cientistas se alarmam com as consequências da ingestão dessas toxinas no estágio mais vulnerável do desenvolvimento das espécies. Em vez de tartarugas com grandes sacolas, emerge a figura dos fragmentos plásticos, menores que cinco milímetros e originados por decomposição dos plásticos maiores, agora sabidamente ingeridos desde o início da cadeia alimentar, com consequências ainda não desveladas pelos estudiosos.

A análise da matéria é uma boa oportunidade em confluir divulgação científica e a pauta do microplástico em corpos hídricos, cada vez mais recorrente. Sob o ponto de vista da ciência, a matéria cumpre o seu papel de informar, com clareza, as descobertas do estudo, traduzindo-as para um público não especializado, como deve ser de praxe na atividade jornalística. O problema, contudo, é a dificuldade em se utilizar de um gancho como esse (a própria publicação do estudo) para que se possa descortinar uma série de relações – causais ou não, contingentes ou não – que tenham a ver com o assunto mencionado. Limitar a divulgação científica na mídia à simples tradução de um artigo científico em linguagem jornalística não parece ser proveitoso nem à percepção da ciência pela sociedade, e nem ao jornalismo que, empobrecido e com redações cada vez mais enxutas, se mantém distante da rua e do olhar in loco. No caso do jornalismo ambiental, em que a divulgação científica faz parte da própria gênese de criação do campo, realçar o intercâmbio entre academia e sociedade parece ainda mais importante para que a pauta ambiental possa adquirir um olhar mais sistêmico e complexo da questão.

Sendo a próxima década (2021-2030) definida pela ONU como a “Década para a Oceanografia”, é fundamental abordar o assunto além das imagens chocantes das grandes montanhas de lixo, mas também para temas não visíveis à olho nu, mas que crescem de forma avassaladora, como a questão dos microplásticos, da acidificação dos oceanos, e da importância dos oceanos contra as mudanças climáticas. Mais do que isso, cabe também ao jornalismo ampliar o seu leque de olhares e, portanto, de perguntas: quem sabe, assim sejam ensaiadas novas respostas.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

 

O jornalismo que subestima acidentes nucleares nos coloca em perigo

Imagem – Captura de tela do site da BBC Brasil.
*Por Eutalita Bezerra

No último dia 21, a BBC News Mundo divulgou, com alarde uma descoberta publicada em artigo científico por pesquisadores do Instituto de Economia do Trabalho da Alemanha, segundo o qual a principal causa de mortes após o acidente nuclear de Fukushima, ocorrido no Japão em 2011, não foi a radiação, mas o frio.

Se você, leitor, ainda não entendeu exatamente, é preciso saber que a informação principal também não chega tão rapidamente na publicação original. Dividido em quatro subtópicos, somente no penúltimo deles a notícia começa a esclarecer a relação entre o acidente e as mortes por frio. E, ainda assim, nos deixa com mais questões que respostas. Um desserviço?

Além de não informar em que periódico o estudo foi publicado ou como ele foi metodologicamente construído, embora admita que quase 30% da população japonesa foi avaliada, o texto afirma que, com a redução na produção de energia nuclear no Japão pós-tsunami e acidente de Fukushima, o preço da eletricidade subiu até 38% em algumas regiões do país e conectam esse aumento à redução no consumo de eletricidade para aquecimento da população. Tal mudança de comportamento, no inverno rigoroso, diz o artigo, levou a mais de 1280 mortes, ante cerca de 130 causadas diretamente pela radiação, conforme estudos citados pelos pesquisadores ouvidos por BBC News, e outras 1232 pela evacuação após o acidente.

Neste momento, já nos caberia fazer uma soma simples: 1552 mortes causadas diretamente pelo acidente são subestimadas pela reportagem – ou pelo estudo? – ao trazer já em seu título a pomposa informação de que “ A surpreendente causa de centenas de mortes após acidente nuclear de Fukushima – não é a radiação”.

Não há dúvidas de que, caso se trate de um estudo consistente, sua publicação é válida . A divulgação científica não somente é desejada como é necessária para a vida social. O que não podemos, seja no papel de divulgadores de ciência ou de jornalistas ambientais (ou não) é diminuir o impacto de um acidente nuclear, como foi o de Fukushima, que só perdeu em extensão para o de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986.

Para que a publicação fosse realmente informativa, com um olhar complexo sobre o assunto e que permitisse aos seus leitores um conhecimento substancial sobre o tema, além de apresentar o estudo seria necessário, também, informar sobre os problemas derivados de um acidente ambiental de tamanha magnitude. Não são “somente” 130 mortes pela radiação e 1232 pela desocupação. Trata-se da contaminação de toda uma região pela dispersão de toneladas de material radioativo, seja na terra no ar ou na água.

Pouco tempo após o acidente, mais precisamente em 2012, o Jornal espanhol Diagonal divulgou informações sobre o estado atual de Fukushima. A reportagem foi traduzida e publicada pela Revista IHU, que, dentre outras informações, destaca que naquele momento, passados 26 anos do acontecido em Chernobyl, que no mundo ainda existia metade da radiação que havia sido despejada no momento daquele acidente, somado, na ocasião, a todo o restante despejado por Fukushima nos oceanos. Como informações como esta, que demonstram que a extensão do dano é mundial e é possível admitir que milhões de outros organismos estão sendo afetados e seguirão sendo ao longo de milhares de anos – “o plutônio 239 tem uma vida média de cerca de 24.000 anos e com o tempo se transforma em amerício 241, outro elemento radioativo que pode ser incorporado ao organismo humano (IHU, 2012)” – subestimar a repercussão direta de um acidente nuclear é um perigo que BBC News e diversas outras mídias que publicaram este estudo sem um trabalho aprofundado (Uol e Globo.com apenas republicaram a reportagem da BBC, por exemplo) não se preocuparam em correr. Mas, acreditamos e defendemos!, deveriam.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Abordagens transversais em pautas sobre a Amazônia evidenciam a resistência do jornalismo

*Débora Gallas Steigleder

Na quarta-feira passada, 13 de novembro, assisti ao evento Conexões Amazônicas, promovido por integrantes de diversos Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que têm a Amazônia como interesse de pesquisa. Na ocasião, Ilza Girardi, Eloisa Loose e Jamille Almeida representaram o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental e incentivaram os participantes a refletirem sobre a importância da construção de pontes entre o conhecimento científico e os saberes das comunidades tradicionais. Também destacaram a necessidade de, na atual conjuntura de desinformação, em que há circulação de informações imprecisas ou deliberadamente enganosas, contarmos permanentemente com produções midiáticas qualificadas para além de editorias específicas, que assumam o princípio da precaução frente aos conflitos e riscos ambientais.

Muito já falamos neste Observatório, antes e depois de as queimadas criminosas na floresta amazônica dominarem o noticiário, sobre o dever do jornalismo de abordar a crise ambiental como sistêmica, na qual se conectariam as escalas global e local. A mais recente reportagem de Eliane Brum, publicada em El País em oito de novembro, é um ótimo exemplo para pensarmos a contextualização da pauta frente a este cenário. Erro de projeto coloca estrutura de Belo Monte em risco transcende escalas ao tensionar passado e futuro: ao apontar equívocos estruturais desconsiderados pelo consórcio na construção de reservatório da usina hidrelétrica, Eliane destaca que a crise climática vai piorar a situação, pois a vazão do rio Xingu já é diretamente influenciada pela derrubada da mata para a expansão do cultivo de soja na região de Volta Grande do Xingu.

A reportagem é motivada pela seguinte questão elaborada pela jornalista: “como é possível que o projeto da maior hidrelétrica da Amazônia e uma das maiores do mundo não tenha contemplado o comportamento medido e documentado do rio Xingu?”. A transversalidade da pauta fica evidente quando as fontes consultadas remetem às relações políticas e econômicas que levaram à realização do projeto de Belo Monte e às consequências do empreendimento em dimensões diversas, desde a saúde de ribeirinhos e indígenas até a dinâmica de todo um ecossistema. Além disso, a busca de conexões com outras tragédias, como o rompimento de barragens de rejeitos de mineração em Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, localiza a discussão temporalmente, pois estamos falando de projetos que materializam a ideologia capitalista vigente, do desenvolvimento a qualquer custo.

Eliane Brum mostra, portanto, que a busca por novas formas de contar histórias na Internet não precisa se afastar dos elementos que compõem uma boa reportagem ambiental em qualquer mídia: abordagem aprofundada, diversidade de saberes e preocupação com as condições de existência no planeta.

A potência das narrativas envolventes de Sônia Bridi e Paulo Zero

A jornada da vidaImagem: Captura de tela da abertura do episódio disponível no site
* Por Eloisa Beling Loose

O tempo na televisão aberta é precioso. Cada segundo vale muito em razão de seu amplo alcance a um público muito heterogêneo. Também a repercussão desse meio de comunicação é diferenciada. O impacto de uma imagem pode, muitas vezes, comunicar mais e melhor que muitas palavras.  É por isso que as reportagens de televisão não costumam ser longas e primam pela objetividade, buscando ir direto ao ponto – e as voltadas para o meio ambiente não fogem da regra.

No entanto, há alguns espaços televisivos em que outros formatos são possíveis, como é o caso do programa dominical de infotenimento Fantástico, da Rede Globo. É nesse ambiente que os repórteres Sônia Bridi e Paulo Zero têm conseguido captar a atenção do público para temas ambientais urgentes a partir de uma narrativa jornalística repleta de delicadezas e imagens de tirar o fôlego. O trabalho deles mobiliza para a problemática ambiental a partir dos aspectos culturais e afetivos das populações retratadas.

No primeiro episódio da temporada “A Jornada da Vida” sobre o rio Ganges, que estreou no último domingo, dia 10, os jornalistas apresentam, em mais de 15 minutos, o percurso realizado pelo Himalaia até a nascente do Ganges, a quatro mil metros de altitude, evidenciando os sinais decorrentes das mudanças climáticas. Ao registrar a paisagem hoje e comparar com imagens do passado, Bridi e Zero ressaltam que os efeitos da crise do clima já são visíveis.

Com um texto que reúne elementos do jornalismo literário e de diários de viagem, somados a uma variedade de imagens (fortes, poéticas, inescapáveis) que nos prendem à narrativa, a produção nos carrega para dentro da Índia e aborda a questão climática de forma transversal. Os rituais sagrados, a paisagem natural, a forma de cultivar a terra nas montanhas são elementos apontados no começo do capítulo para nos familiarizar com esse lugar bastante distante da realidade brasileira.

A descrição das alterações na vegetação durante o percurso e a imagem de um grupo de carneiros-azuis do Himalaia com informações sobre seu comportamento nos remetem a um jornalismo de natureza, mas há mais que isso. Há a conexão com a emergência ambiental do nosso tempo. Bridi entrevista um conhecedor profundo da região, que registrou seis décadas de mudanças climáticas, mostrando como a geleira retrocedeu ao longo do tempo.

A reportagem sobre a expedição traz além do encantamento e curiosidade por um universo desconhecido, as provas de que algo mudou. “Há poucos anos essas pedras brancas estavam embaixo da geleira”, afirma a repórter ao atravessá-las. Aliás, é preciso lembrar que a questão climática está presente na trajetória dos profissionais faz alguns anos – em 2012, Bridi lançou o livro Diário do Clima – As aventuras e a ciência por trás da série Terra, que tempo é esse?, também veiculada no Fantástico.

Retomando o episódio em análise, ao chegar nas proximidades da origem do rio Ganges, a narrativa traz a mitologia indiana que envolve essa nascente. Em seguida, o aviso é dado: a mudança do clima é uma ameaça para o rio, não poupa nem os lugares considerados sagrados. “Os Himalaias já perderam 15% de seu gelo desde os anos 1970 e devem perder mais 30% até o final do século, mesmo que o planeta esquente apenas um grau e meio”, sublinha a jornalista.

Mesclando a força das imagens com uma construção textual atraente e bem embasada, o trabalho de Bridi e Zero exercem fascínio ao mesmo tempo que alertam para as consequências das mudanças climáticas. Uma potência de narrativa ambiental em plena TV aberta.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Jornada indígena: no foco da imprensa internacional, esquecida pela mídia brasileira

Imagem – Lideranças indígenas visitam 12 países da Europa. Foto Mídia Ninja.
Por Patrícia Kolling*

Desde o dia 25 de outubro, lideranças indígenas das cinco regiões brasileiras, estão percorrendo 12 países europeus na Jornada Sangue Indígena: Nenhuma Gota a Mais. Em uma agenda lotada, estão reunindo-se com parlamentares, ministros, representantes de comissões internacionais, ativistas, acadêmicos, Organizações Não Governamentais (ONGs) e participando de mobilizações, debates, painéis e programas de comunicação. A Jornada, organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), tem o intuito de denunciar as violações dos direitos dos povos indígenas e a destruição do meio ambiente, pelo governo atual.

A presença dos indígenas na Europa e a situação ambiental do Brasil tem sido tema de diversas reportagens na mídia em todos os países pelos quais a comitiva passou. O assunto, porém, não tem sido de muito interesse para a grande mídia brasileira.

Como, então, ficamos sabendo aqui no Brasil das atividades desta Jornada? Ficamos sabendo, porque paralelamente às atividades políticas, acontece um trabalho de assessoria de comunicação de divulgação das ações dos movimentos sociais indígenas e ambientais. Comunicação essa, que oportuniza, através das mídias sociais, a informação direta da sociedade. Junto com as lideranças que percorrem a Europa, estão indígenas comunicadores que cuidam da transmissão das informações sobre a Jornada. Em parceria com uma equipe colaborativa no Brasil e em diversos outros países, o grupo produz todos os dias releases que são encaminhados a grupos de whatsapp, veiculados nas mídias sociais e enviados a imprensa. No início de cada dia é divulgada a agenda dos eventos e no final do dia, em vídeo, um dos indígenas da comitiva faz um diário de bordo , relatando o que foi feito naquele dia e avaliando as atividades. Paralelamente, é produzido o clipping de tudo que é publicado sobre o assunto nos meios de comunicação, além de muitas fotografias e registros audiovisuais.

Felizmente, atualmente as novas tecnologias oportunizam essa outra comunicação e a transmissão de informações com uma perspectiva diferenciada da mídia hegemônica, dominada pelo poder econômico e político. Mártin-Barbero nos alerta que as tecnologias não são neutras e por isso mesmo “constitutivas dos novos modos de construir a opinião pública e das novas formas de cidadania, isto é, das novas condições em que se diz e se faz a política”. (2006, p.70)

Ou seja, temos na comunicação, que se viabiliza através das tecnologias digitais (vídeos, mídias sociais, internet) “um processo que por sua vez, introduz uma verdadeira explosão do discurso público, ao mobilizar a mais heterogênea quantidade de comunidades, associações, tribos, que ao mesmo tempo que liberam as narrativas do político, desde as múltiplas lógicas dos mundos de vida, despotencializam o centralismo burocrático da maioria das instituições, potencializando a criatividade social no desenho da participação cidadã.” (Mártin-Barbero, 2006, p. 70).

Frente a esta participação cidadã, parece que falta ao jornalismo brasileiro reconhecer as mídias e a comunicação realizada pelos movimentos sociais como legítimas, oportunizando espaços para a difusão da multiplicidade de informações, de culturas, de fatos, conhecimentos e pontos de vista.

Na semana passada, porém, dois fatos, com os critérios de noticiabilidade de atualidade, conflito e economia fizeram o tema entrar na pauta. A morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, que integrava um grupo de guardiões da Floresta, assassinado por madeireiros, e a presença da comitiva da Jornada na Bélgica solicitando a União Europeia a não ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, foram ganchos para que a Jornada fosse sutilmente citada na mídia brasileira.

Essa breve explanação, é na intenção de nos fazer refletir porque com tantas informações sendo produzidas sobre a sobrevivência ambiental do nosso país e dos nossos povos; a mídia insiste em fechar os olhos e não contextualizar a temática como poderia? Porque as questões ambientais, tão importantes para o futuro da humanidade, precisam pegar “carona” em assuntos de impactos factuais, de violência ou econômicos para serem abordadas na mídia?

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Tecnicidade, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Dênis (Org.) Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT

Jornalismo Ambiental e a Justiça em favor dos direitos do cidadão

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios todos os dias, para aliar os ideais de um jornalismo sistêmico comprometido e centrado na visão holística dos fatos com a cultura vigente de construção das notícias. Mas em tempos sombrios, uma liminar do judiciário pode contribuir para que temas extremamente relevantes, como a proposta de um novo Código Ambiental do Rio Grande do Sul, ressurja na imprensa e, ao mesmo tempo, permita que a população e os deputados ganhem tempo para tomar conhecimento e façam um debate sobre o tema.

A liminar que suspendeu o regime de urgência da tramitação da proposta do Novo Código chamou a atenção da imprensa e da sociedade desde que foi protocolada pelo governador atual, em 27 de setembro. Já na época da solicitação do governo, o fato foi noticiado, e muitos deputados já se posicionaram, afirmando que o prazo para a análise da proposta era muito curto, o que impossibilitava a apreciação do conteúdo e a reflexão sobre o tema. A pressa do governo, segundo a matéria publicada no G1 , deve-se, entre outras coisas, ao objetivo de “desburocratizar o processo para quem quer empreender sem descuidar do meio ambiente”.

A modificação em uma legislação é um processo que requer tempo de análise, em função da complexidade e da importância para todos os cidadãos. Justamente por isso, deveria ter sido colocada em discussão pública, caso os legisladores quisessem saber a opinião da população.

As leis e as questões que afetam os cidadãos também devem ser informadas e as empresas jornalísticas do Rio Grande do Sul e do Brasil – no caso o G1, como exemplifica a matéria aqui referida – tem conseguido abrir espaços para temas ambientais, com o auxílio do judiciário, apesar dos muitos desafios (MASSIERER, 2007) que o Jornalismo Ambiental ainda tem pela frente em razão da lógica capitalista de produção, das rotinas intensas e da diminuição das jornalistas nas redações.

No entanto, mesmo com a cobertura dada desde o protocolo da proposta em 27 de setembro – o que sinaliza o comprometimento com o tema e com a qualificação da informação – existem outros pressupostos do Jornalismo Ambiental que desafiam os jornalistas diariamente (LOOSE e GIRARDI, 2017) e que passam pela ênfase na contextualização, pluralidade de vozes, assimilação do saber ambiental, cobertura próxima à realidade do leitor, responsabilidade com a mudança de pensamento e incorporação do princípio da precaução.

MASSIERER, Carine. O olhar jornalístico sobre o meio ambiente um estudo das rotinas de produção nos jornais Zero Hora e Correio do Povo. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Informação) -Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2007.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos.Interin,,Curitiba. V.22, n.2, p.154-172, jul./dez. 2017.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Livros-reportagem: o jornalismo respira em um mundo sem fôlego

Por Reges Schwaab*

A urgente abordagem qualificada das mudanças climáticas não significa pressa. Será necessário encontrar o tempo para a complexidade que o tema requer. Ela começa na compreensão individual que permita visualizar as drásticas alterações globais em curso, já documentadas por cientistas, bandeira de movimentos sociais, tema de filmes e capas de revistas e alvo do negacionismo desprovido de ética.

Já não é possível pensar nosso cotidiano sem o olhar socioambiental. A cobertura guiada por acontecimentos pontuais deve ser suplantada pela realidade implacável da emergência climática, que não escolherá lugar, hora ou fronteira, com verdadeiro potencial de alterar a vida como experimentamos hoje.

Trabalhos com rigor de apuração e abertura interpretativa são valiosas fontes de estudo. E servem a jornalistas e a toda pessoa que queira oxigenar sua compreensão dos múltiplos aspectos das mudanças climáticas.

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Imagem: Reprodução. Livro de Jonathan Safran Foer ainda sem tradução no Brasil

O escritor Jonathan Safran Foer, em “We are the weather”, não adia consequências nem decisões pela ação. As mudanças climáticas são um problema global e individual, mas essas não são hipóteses excludentes, afirma. Oferece um ensaio de grande investimento em pesquisa e forte apelo emocional. Aponta para a necessidade de ações governamentais sistêmicas e de transformação de hábitos de vida, pois o sofrimento causado pela crise do clima será irrestrito.

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 Imagem: Reprodução. David Wallace-Wells já pode ser lido em português

Elogiado por Safran Foer, “A terra inabitável”, do jornalista David Wallace-Wells, desconstrói a fantasia de que as mudanças climáticas têm ritmo lento. Traça um cenário de fome, calor, enchentes, desertificação e crise econômica, com grande capacidade de observação e prospecção. O poderoso embasamento que sustenta o livro faz pensar com assombro nas mudanças que tomarão forma ainda neste século.

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Imagem: Reprodução. Cláudio Angelo mescla reportagem, diário de viagem e relato científico

A espiral da morte – como a humanidade alterou a máquina do clima”, de Claudio Angelo, dialoga com diferentes leitores sem perder o rigor. Uma “leveza” no tom do texto aparece mesmo nos detalhes do derretimento das calotas polares e nas consequências para a agricultura e para as cidades. A força do “repórter na rua”, ou “no mundo”, rende uma mescla de reportagem, diário de viagem e relato científico. As mudanças climáticas são o maior desafio da humanidade, argumenta.

A literatura produzida sob a rubrica do jornalismo é campo em destaque na crítica especializada e em prêmios nacionais e internacionais. Fontes de qualidade para o debate, mesmo que o colapso seja, inevitavelmente, um componente do nosso futuro.

Para ampliar:
David Wallace-Wells – Desastres em cascata (Revista Piauí)

*Reges Schwaab é jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Maria e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Para encontrar as respostas, precisamos fazer as perguntas

Imagem: captura de tela do site The Intercept Brasil
*Ursula Schilling

Para que serve o jornalismo?

Faço essa pergunta, logo de começo, pois pretendo que esse texto verse sobre questionamentos, não somente sobre respostas. É comum esperarmos que o jornalismo nos revele aspectos da vida, pela cobertura de acontecimentos. É possível e previsível que ele faça isso. Mas, considerando seu papel social e seu potencial transformador da realidade, é importante que ele nos leve a pensar, a fazer o exercício reflexivo de entender o que está sob a superfície dos fatos noticiados.

Para ilustrar isso, parecem-me pertinentes duas matérias publicadas pelo The Intercept Brasil na última semana, que problematizam a questão da produção de lixo plástico e seu destino. A agência de notícias norte-americana, que se descreve como combativa e com liberdade editorial, divulgou informações de que a Coca-Cola seria a maior produtora do resíduo no mundoe que, mais do que isso, promoveria o discurso de “marca amiga do meio ambiente” na direção contrária daquilo que pratica. O texto traz dados de relatório internacional que elenca as corporações mais poluidoras do planeta. Tire um tempo para a leitura e veja que há ali, certamente, marcas “queridas” por todos nós e que, certamente, ao menos um item delas temos em casa.

Imagem: Pixabay

O caro leitor, a cara leitora pode estar pensando: mas e as manchas de óleo no Litoral do Nordeste? E as queimadas na Amazônia? Não seriam esse tópicos mais pertinentes para um Observatório de Jornalismo Ambiental?

Definitivamente essas temas, que têm ocupado os noticiários, merecem a devida atenção e uma análise continuada e cuidadosa. Mas eu garanto: o centro da minha reflexão tem relação com tudo isso. Por quê? Porque o que acontece com o ambiente tem causas, tem uma raiz. E são essas causas, a história que a história não conta, como cantou a Mangueira no carnaval 2019, que muitas vezes nem tangenciam a cobertura midiática, que precisam estar no nosso radar e na nossa mira.

Trecho do conteúdo do TIB provoca: “A duvidosa honraria recebida pela Coca-Cola, de figurar por dois anos seguidos como a maior responsável global pela produção de resíduos plásticos, vai de encontro à imagem de liderança ambiental cuidadosamente construída pela empresa”. Aqui está o eixo questionador. As instituições fazem o que realmente dizem fazer?

Não se trata de uma cruzada contra as marcas, de demonizar este ou aquele rótulo, mas de um movimento crítico em relação a todo um sistema produtivo, ancorado numa lógica de consumo muito bem estabelecida e dificil de ser revista.

Trata-se, também, de tirar das costas do consumidor o jugo exclusivo da culpa pelo caos ambiental que aí está. Veja bem, você e eu somos responsáveis por isso (também). Nossos hábitos contribuem, direta ou indiretamente, para a degradação assustadora e quase irreversível da Terra (no caso, a nossa casa). Mas se há consumo, há produção,e é essa instância que precisa ser cada vez mais questionada. É uma equação, com vários envolvidos.

Também não nos iludamos. Sozinho o Jornalismo (compreendidos aqui os jornalistas e sua rotina cada vez mais precarizada de trabalho) não poderá fazer frente à máquina de guerra do capitalismo. É uma luta inglória desafiar o discurso do desenvolvimento e o marketing competente pró-consumo. Um fio de esperança estaria, talvez, no jornalismo independente, uma vez que os veículos de comunciação tradicionais, a indústria da mídia, se mantém a custa dos espaços que vende. Vende para quem? Para quem anuncia. E quem anuncia? E, assim, entramos num looping infinito.

Para onde vai todo o lixo que produzimos? Como funciona, de fato, nossa cadeia produtiva? As empresas, grandes ou pequenas, que usam recursos da natureza e para ela devolvem resíduos, cumprem seus prometidos? E os governos? São comprometidos com a sociedade e o mundo onde ela está e deverá permancer? Ou dançam a dança do capital, protegendo e encobrindo as forças do mercado? Por que as praias do Nordeste brasileiro estão cobertas de petróleo? Por que a Amazônia arde em chamas? Por que os rios morrem? Por que nossas alimentos estão mais envenedados do que nunca? Por quê? Por quê? Por quê?

É um raciocínio simples, quase elementar, percebem? Mas quantos de nós consegue ativar essas interrogações nas atividades do dia a dia, especialmente as relacionadas a consumo (quase todas)?

E voltamos ao princípio: para que serve o jornalismo? Para manter em pauta essas perguntas, enquanto todos nós, não só os jornalistas, precisamos buscar pelas respostas.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O radiojornalismo socioambiental de Paulina Chamorro

Imagem: captura de tela – Episódios 101 ao 123 do podcast Vozes do Planeta estão no serviço de streaming Spotify
Roberto Villar Belmonte*

O podcast Vozes do Planeta, apresentado pela jornalista Paulina Chamorro, chegou em março ao Spotify e está com 23 episódios disponíveis.

Trata-se do primeiro podcast de jornalismo ambiental no formato de entrevista a chegar ao serviço de streaming. O segundo é o Não tem Fora, do jornal Correio do Povo, com apenas um episódio. O podcast mais antigo, o de André Trigueiro, que já tem cem episódios, é um comentário especializado, não segue o formato de entrevista.

O programa de Chamorro não começou no Spotify. Ele já tem 123 edições. Sua estreia foi em maio de 2016 na Rádio Vozes, emissora online criada pela jornalista Patrícia Palumbo, especializada em rádio, música e meio ambiente.

Palumbo foi pioneira na cobertura de temas ambientais no radiojornalismo de São Paulo, na Rádio Eldorado. Chamorro seguiu seus passos e mergulhou fundo na pauta. “O sócio e o ambiental não podem andar separados”, defendeu a apresentadora do programa Vozes do Planeta na sua primeira edição. O jornalista especializado em mudança do clima Claudio Angelo participa do programa desde o início.

Na edição 123, que foi ao ar na terça-feira da semana passada, Paulina Chamorro conversou com a advogada Dani Leite, criadora da plataforma Comida Invisível de conscientização sobre o desperdício de alimentos. Engajada na luta ambiental, Chamorro informa para conscientizar. E deixa claro seu lado, o do ambientalismo.

O jornalismo praticado no podcast Vozes do Planeta cumpre uma função pedagógica que “diz respeito à explicitação das causas e soluções para os problemas ambientais e à indicação de caminhos (que incluem necessariamente a participação dos cidadãos) para a superação dos problemas ambientais” (BUENO, 2008, p.110).

Atenta à participação dos cidadãos, na edição anterior (122) Chamorro ouviu representantes do Movimento Salve Maracaípe e do Instituto Biota da Conservação sobre o óleo que toma conta das praias da Região Nordeste desde o final de agosto. Como jornalista, já percorreu toda costa brasileira. Em março, ajudou a fundar a Liga das Mulheres pelos Oceanos.

Cientistas e ativistas são as vozes de um Brasil engajado na luta ambiental que a jornalista chilena radicada no país entrevista no seu podcast. Na edição 121, que foi ao ar no dia 3 de outubro, por exemplo, Chamorro conversou com Iago Hairon, um dos coordenadores do Engajamundo, e no programa anterior (120) um dos entrevistados foi o glaciologista Jefferson Cardia Simões.

O radiojornalismo socioambiental praticado há mais de duas décadas pela jornalista e ativista Paulina Chamorro procura mobilizar o público por meio de histórias de vida. O formato de entrevista do seu programa possibilita uma pluralidade de vozes nem sempre presente no jornalismo brasileiro. O seu trabalho é um exemplo para os jovens que estão descobrindo a magia do rádio por meio dos podcasts disponibilizados nos serviços de streaming.

Referência:

BUENO, Wilson da Costa. Jornalismo ambiental: explorando além do conceito. In: Jornalismo ambiental: desafios e reflexões. GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; SCHWAAB, Reges Toni (orgs.). Porto Alegre: Dom Quixote, 2008. p. 105-118.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo precisa ampliar entendimento sobre a atualidade para garantir pluralidade de vozes

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Imagem: Captura de tela do conteúdo publicado pela BBC Brasil
Por Débora Gallas Steigleder*

A atualidade é razão de ser, critério imperativo do jornalismo. Trata-se, pois, de uma instituição baseada na cultura do tempo presente, como ressalta o professor Carlos Franciscato (2014). No entanto, à medida em que a circulação das informações se acelera e interconecta diferentes escalas, o tempo presente relatado pelo jornalismo é cada vez mais sorrateiro, escapando entre nossos dedos com tamanha rapidez que já nem mais lembramos o que exatamente nos causou tanta indignação no noticiário da semana passada.

Podemos dizer, por exemplo, que o discurso de Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, proferido em 24 de setembro, foi rapidamente superado após a leva de checagem de fatos e reações inflamadas nas redes sociais que repercutiram, no máximo, até o final daquela semana. Afinal, era necessário passar à próxima pauta bombástica sobre meio ambiente e política. Em tempos de relações internacionais abaladas pela Amazônia em chamas, o cardápio é farto.

Por isso, fui positivamente surpreendida com conteúdo publicado no site da BBC Brasil em 13 de outubro. Em entrevista realizada por telefone com o cacique kayapó Raoni Metuktire, difamado por Bolsonaro à ocasião do discurso na ONU, o repórter João Fellet teve a oportunidade de retomar pontos que devem ser debatidos à exaustão no atual contexto de caos climático e humanitário.

É papel do jornalismo questionar gestos e políticas coniventes com o genocídio de populações historicamente oprimidas, desde crianças negras alvejadas durante operações policiais nas favelas até povos indígenas que se veem acuados em suas próprias terras por madeireiros, garimpeiros, grileiros e pela realização de obras de grande impacto socioambiental. Dar a palavra a Raoni garante continuidade à disputa de visões de mundo evidenciada pelo posicionamento do atual governo, disputa que não se esgota nos discursos oficiais ou nas frases de efeitos proferidas em lives nas redes sociais. O debate público está em curso, e deve ser repercutido no jornalismo por meio de uma pluralidade de vozes.

Neste sentido, este movimento não deixa de ser uma recusa ao modus operandi do jornalismo meramente declaratório, que apenas traz a fala literal das autoridades sem repercutir os contrapontos de pessoas e grupos que têm legitimidade para comentar o assunto. É necessário aprendermos que estes demais atores podem, por cultura ou hábito, não seguir o mesmo tempo do jornalismo. E que sua manifestação não é menos importante por conta disto. Cabe ao jornalismo reconfigurar a percepção do tempo presente, ampliando a experiência da atualidade para além do imediato ou simultâneo através de mais detalhamentos, contextualizações e desdobramentos.

Referência:

FRANCISCATO, Carlos. O jornalismo e a reformulação da experiência do tempo nas sociedades ocidentais. Brazilian Journalism Research, v.11, n.2, p.96-123, 2014.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

Quando o jornalismo vai além dos problemas: um bom exemplo sobre mudanças climáticas

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Imagem: Captura de tela da primeira página da reportagem de Zero Hora sobre mudanças climáticas
* Por Eloisa Beling Loose

A pauta ambiental é, na maioria das vezes, impulsionada por desastres, tragédias e prejuízos. Isso está relacionado não apenas aos acontecimentos mais visíveis ou concretos, que conseguem ser facilmente identificáveis pelos jornalistas na rotina de construir relatos sobre o presente, mas também aos critérios de noticiabilidade, que perpassam aspectos negativos – afinal, “notícias boas são notícias ruins”, pois são elas que prendem a atenção do público e geram desmembramentos (suítes), acarretando mais audiência e, consequentemente, maior faturamento. Inclusive existem estudos que indicam que as notícias com viés negativo são mais facilmente processadas e lembradas, chamando mais a atenção dos seres humanos (WENZEL, GERSON e MORENO, 2016). Contudo, especialmente quando falamos da cobertura da crise climática, não basta focar apenas no problema – que, dessa maneira, pode desencadear inércia ou apatia. Para que haja uma reação, sensibilização e, quiçá, uma mudança de atitude, é preciso que soluções ou boas práticas sejam visibilizadas pela imprensa.

Embora não seja tarefa difícil ampliar a abordagem dos relatos jornalísticos para além dos riscos e efeitos negativos – porque já existem muitas ações de enfrentamento em diferentes escalas -, a fragmentação típica da prática jornalística (especialmente dos veículos com produção em tempo real e diária) reproduz com muita frequência o enfoque unilateral dos problemas. É por isso que destaco, positivamente, a reportagem “O alerta climático ressoa no Sul”, de Itamar Melo, no jornal Zero Hora.

Além de expor a urgência e gravidade das mudanças do clima a partir do Rio Grande do Sul, a escala geográfica mais próxima do seu público-alvo, por meio de exemplos sentidos e acompanhados pelos gaúchos, o texto avança sobre o alarme da situação e dá espaço para apresentar medidas que podem ser feitas em nível individual e as adaptações necessárias no principal setor econômico do estado, o da agropecuária.

Ao tratar das respostas à emergência climática, tomando como gancho a repercussão dos jovens nas greves pelo clima, é possível visualizar uma perspectiva mais orientada para a ação, de um jornalismo que cumpre com a responsabilidade de informar e envolver as comunidades na resolução de seus problemas – diferente daquela cobertura centrada somente na negatividade, que provoca desânimo e desesperança. Ao pontuarmos que o Jornalismo Ambiental deve ser engajado, estamos sublinhando que é preciso construir relatos propositivos, que subsidiem de forma qualificada os cidadãos para suas tomadas de decisão.

Vale ressaltar também a consulta por fontes de informação que conhecem a realidade local, além de outras que contribuem com a contextualização de forma ampla. As mudanças climáticas são um fenômeno interdisciplinar e que se manifesta em múltiplos níveis, e os relatos jornalísticos devem refletir essa complexidade buscando ouvir diferentes vozes e investir na contextualização humanizada, que toque de alguma forma os públicos. É claro que há limites no fazer jornalístico e que nenhuma reportagem dará conta de tudo, entretanto, bons exemplos como esse, publicados frequentemente, contribuem com a formação e percepção ambiental da sociedade. Porque a crise climática, como bem lembra a reportagem, diz respeito, sobretudo, a nossa vida na Terra: “Vamos salvar a nós mesmos. Porque o planeta sobrevive. Se eu eliminar a espécie humana, a Terra volta ao equilíbrio e vive ainda bilhões de anos. E nós, será que conseguimos sobreviver se continuarmos a fazer o que estamos fazendo?” (ZH, Caderno doc, 12 e 13/10/19, p.11).

Referência:

WENZEL, Andrea; GERSON, Daniela; MORENO, Evelyn. Engaging Communities Through Solutions Journalism, 2016.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Análises e críticas sobre o projeto Mina Guaíba merecem integrar um aprofundamento devido pela imprensa 

Imagem – Sistema Online de Licenciamento https://secweb.procergs.com.br/sra/logon.xhtml, para leitura dos documentos vinculados ao processo administrativo 6354.0567/18-1 referente ao projeto Mina Guaíba
Por Eliege Fante*

Finalmente, um respiro: o Ministério Público Estadual (MPE) ingressou na 10ª. Vara da Fazenda Pública com uma Ação Civil Pública (ACP) visando “suspender a emissão de licença ambiental para qualquer empreendimento relacionado ao projeto de instalação do Pólo Carboquímico na Região Metropolitana de Porto Alegre”, inclusive, o projeto Mina Guaíba, da empresa Copelmi. A ação foi na primeira quinzena de setembro, mas divulgada durante audiência pública realizada, em Porto Alegre, no último dia 30.

Desde o protocolo do projeto em novembro de 2018 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento no Estado, vivemos sobressaltados. No entanto, explorar o carvão é uma política de estado; ao menos desde 2003, todos os governos mobilizaram os esforços para a sua concretização: Germano Rigotto (PMDB), Yeda Crusius (PSDB), Tarso Genro (PT), José Ivo Sartori (MDB) e o atual Eduardo Leite (PSDB). Estes governos, seus aliados e apoiadores não viam e continuam não enxergando o sentido em deixar o carvão “parado” ou “lá embaixo”, não obstante sua exploração provoque impactos sociais e ambientais e, também nas economias locais (como a agroecologia, etc.). E, ainda, desencadeie transformações nos ecossistemas.

Sobre o projeto Mina Guaíba, os problemas e os impactos temidos foram farta e exaustivamente enumerados, descritos e desenhados (através de mapas e quadros com dados) em dezenas de documentos produzidos por técnicos ambientais, professores e pesquisadores de universidades, associações, ONGs e demais entidades. Podemos (e deveríamos) ler esses documentos no site da Fepam . É preciso cadastrar-se e clicar sobre os pdfs.

O documento que escolhi foi o trabalho do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS) para mencionar um pouco do que está em jogo neste debate que é de interesse público e das futuras gerações. O referido trabalho é o item “Informação Outra número 175-2019”, onde lemos “Anexo II”. Além da análise do EIA-Rima (Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental), o grupo fez entrevistas na região pretendida pela Copelmi para explorar o carvão.

Este trabalho e os demais disponíveis no site da Fepam, merecem uma leitura atenta não só de jornalistas, mas também do público em geral, pois o projeto Mina Guaíba ameaça a qualidade da água, do ar, do solo e a conservação da biodiversidade. O uso da palavra “ameaça” se justifica pela opção da matéria-prima a ser explorada, o carvão, mineral extremamente tóxico e poluente (conferir apresentação do prof. Rualdo Menegat ), e pela inconsistência das informações constantes no projeto da Copelmi, segundo o grupo TEMAS.

Se sabe que o projeto é de 2014, mas os dados não poderiam ter sido atualizados? O TEMAS contou 189 famílias vivendo atualmente entre o loteamento Guaíba City e o Assentamento Apolônio de Carvalho. Os pesquisadores cobram o resultado da contagem nos demais loteamentos, assentamentos e aldeias indígenas. Mas, para a Copelmi, basta saber que em 2014 havia 53 unidades familiares. A área pretendida para exploração afetaria as etnias indígenas Mbyá-Guarani, Kaingang e Charrua. No Rima esta informação foi omitida e, no EIA, a Reserva Indígena Estadual é citada como “acampamento supostamente indígena”, o que significa conforme o TEMAS “negação e violação dos direitos” destas comunidades. Aliás, a imprensa nos deve uma contextualização desta ameaça que paira sobre a população indígena regional, pauta invisibilizada até o momento.

Quanto ao Assentamento Apolônio de Carvalho, o EIA-Rima aborda a atividade agropecuária de forma genérica, omite a produção agroecológica de arroz com expressão nacional e continental, e a produção para o autoconsumo. Porém, aos olhos da Copelmi, Apolônio de Carvalho é um local de pobreza e vulnerabilidade social e o seu veredito àquelas pessoas é um Plano de reassentamento. De fato, a Copelmi desconhece a realidade do Apolônio porque não coletou em 100% os dados sobre as famílias e suas atividades produtivas. A explicação é de que esta etapa poderia vir a ser cumprida na sequência do processo de licenciamento. Mas o TEMAS questiona: como avaliar os efeitos sobre a economia local sem o levantamento adequado dos dados? Qual o tamanho das áreas de cultivo que serão inviabilizadas na região caso o empreendimento seja levado adiante? Quais as consequências dessa inviabilização para a produção agrícola local e para a geração de empregos? Todos nós somos partes interessadas nestas respostas.

O TEMAS aponta contradição nos dados divulgados de potencial de exploração e tempo de produção de carvão previstos pelo projeto da Copelmi: o tempo varia entre 23 e 30 anos e o volume a ser extraído varia de 166 milhões de ton a 186 milhões e 300 mil ton. Nesta condição, perguntamos: quando poderemos saber o número correto do volume de rejeito a ser gerado? O Rima não diz qual a destinação e nem apresenta o plano de uso detalhado dos rejeitos. Sequer os planos de segurança e emergência foram apresentados. “O EIA/Rima negligencia informações imperativas a adequada análise da viabilidade socioeconômica de um empreendimento,” concluem os pesquisadores do TEMAS.

Posso concluir, além de agradecer aos pesquisadores do TEMAS-UFRGS pelas informações prestadas, que há muita informação disponível no site da Fepam para ser reverberada urgentemente pela imprensa e somar na qualificação deste debate público.

* EFante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

A cobertura sobre meio ambiente entre o desenrolar de tragédias e o bom exemplo localizado

Observatório de JA - fotos

Imagens: Capturas de tela das reportagens citadas

 

Por Michel Misse Filho*

Os grandes veículos de mídia brasileiros têm dado especial enfoque noticioso, nas últimas semanas, a dois temas ambientais: a discussão em torno da floresta amazônica –e o que ela desencadeia em termos de política externa para o Brasil, concomitantemente à realização da Assembleia Geral da ONU – e, mais recentemente e com menos ênfase, o aparecimento de petróleo cru em mais de cem praias do Nordeste.

O primeiro tema, após sucessivas reportagens e a criação de uma crise internacional para o governo, passa agora pela atuação militar nas missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Em meio às empreitadas, reportagem d’O Globo mostra que fiscais do IBAMA acusam o exército de negar apoio às ações de combate aos garimpos ilegais e focar apenas nas de incêndio – ações notadamente de maior visibilidade, afirmam funcionários do órgão ambiental. O descompasso entre as duas instituições ocorreria em função da possibilidade de destruição de equipamentos para mineração ilegal, e é fundamental levarmos em conta a desautorização pública que o governo fez, em abril, da destruição de maquinário em Rondônia – esta semana, o presidente também sustentou que o interesse na Amazônia é na mineração. Já as notícias do crime ambiental que mancha as praias do litoral nordestino passam, agora, pela investigação do rastro de origem da substância, em que a Venezuela desponta como principal suspeito, em matéria da revista Época.

O que as duas matérias têm em comum é a ascensão de um caráter cada vez mais investigativo e menos ambiental, mesmo que essas duas instâncias não sejam contraditórias entre si – muito pelo contrário, se completam. O objetivo aqui não é o de criticar a construção dessas matérias, mas notar uma trajetória aparentemente frequente na pauta ambiental: surge inicialmente com uma tragédia e, como tal, necessita de uma investigação que, ao desenrolar a história, parece ganhar autonomia jornalística frente ao próprio fato ambiental em si.

O jornalismo diário também apresenta abordagens que vão ao extremo oposto das tragédias. Deparei-me quarta-feira (02/10) com a seção “Dias melhores”, da Folha de São Paulo, que noticiou a conquista de um prêmio de sustentabilidade pela cidade sergipana de São Cristóvão, devido à sua política hídrica, com água tratada em quase 100% das casas. A pequena matéria é bonita, importante e inspiradora para outras cidades, mas também se restringe à pequena localidade.

Chama a atenção, ademais, a já conhecida dificuldade de sair da polarização “tragédia” e “bom exemplo localizado”, em que pese a necessidade de trazer complexidade aos fatos noticiados. Comumente perdem-se oportunidades de ir além do factual, podendo abarcar uma visão sistêmica, construtora de um jornalismo ambiental que fosse mais do que simples notícias sobre meio ambiente, como já foi observado e reiterado diversas vezes por pesquisadores deste Observatório.

*Jornalista, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

As manchas de petróleo no Nordeste e a demora da imprensa em noticiar o caso nacionalmente

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Desde o início do mês de setembro, manchas de uma substância que se assemelha a piche estão sendo econtradas no litoral nordestino. Já são 53 municípios atingidos , 112 pontos em oito dos nove estados do Nordeste, sendo o litoral baiano o único não atingido da região. A substância é petróleo cru, que não é produzido no Brasil, conforme a Petrobras.

Nove tartarugas e uma ave bobo-pequeno foram encontradas cobertas com a substância, a ave e sete das tartarugas foram encontradas mortas ou morreram após resgate. Uma tartaruga foi limpa e devolvida ao mar e uma foi encaminhada a um centro de reabilitação. Um dos grandes riscos é que o petróleo atinja reservas ambientais e locais de desova de tartarugas.
A origem do óleo ainda é desconhecida, sendo o descarte ilegal do material por navios uma provável causa. Pesquisadores estão analisando imagens de satélite para tentar localizar uma possível fonte.

Por mais que as primeiras manchas foram descobertas já nos dois primeiros dias de setembro, foi somente essa semana, mais precisamente a partir de quarta-feira, 25, que a imprensa nacional começou noticiar o fato. Foram feitas algumas boas reportagens elucidando os acontecimentos, como esta do G1 , estas duas da Folha (https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/26/manchas-de-oleo-no-nordeste-o-que-se-sabe-sobre-o-problema.ghtml e https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/09/oleo-que-atinge-praias-do-nordeste-e-petroleo-e-nao-e-brasileiro-diz-ibama.shtml e este episódio do podcast Durma com Essa, do Nexo Jornal . Entretanto, essa demora para a cobertura atingir o âmbito nacional me gera desconforto. Foram precisos mais de 20 dias, quase 100 praias atingidas e dez animais afetados para o Brasil ficar sabendo?

Os critérios de noticiabilidade que aprendemos durante a faculdade não dão conta dos riscos ambientais. Podemos apontar diversos elementos que fazem essa ser uma notícia para todo o Brasil, como a chance de o petróleo atingir áreas protegidas e prejudicar a desova de tartarugas bem como o risco de atingir outros ecossistemas, como os manguezais e estuários; os prejuízos econômicos que uma porventura queda no número de turistas pode trazer; o riscos de as pessoas entrarem em contato com a substância possivelmente cancerígena; como e por que um material que nem é produzido no país chega nas nossas praias; o desmonte de órgãos públicos de fiscalização; entre outros tantos.

O Nordeste não deve ser tratado como aquele lugar longe do “centro país” interpretado pelo Sudeste/Sul. Precisamos enxergar o Brasil como um só. O jornalismo precisa saber avaliar que quando desastres ambientais acontecem em uma ponta do país, a outra ponta também pode ser atingida. Ao noticiar os fatos antes, alguns locais afetados poderiam ter se preparado antes mesmo que o óleo os atingisse, e as consequências poderiam ser amenizadas. A população estaria cobrando respostas há mais tempo, e, quem sabe, já as teria. Às vezes o jornalismo precisa esquecer alguns de seus critérios de noticiabilidade para também auxiliar a questão a ser resolvida.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A materialização das queimadas na economia: o jornalismo diante do boicote aos produtos brasileiros

Imagem – Captura de tela do Google
Por Eutalita Bezerra*

Nos últimos dias, desde os importadores de carne, couro e soja até gigantes fundos de investimento passaram a ter o Brasil como um país a não se investir, a menos que o governo tupiniquim apresente medidas para a proteção da Amazônia. Com o país como vilão do meio ambiente, o jornalismo tem se apoiado na sua principal muleta para tratar do meio ambiente, a Economia, para descrever o cenário. Nesse contexto, para o jornalismo, os boicotes surgem como a materialização do desmonte da economia brasileira frente ao mundo. E tais abstenções têm sido exploradas diariamente, com bastante fôlego, inclusive.

Uma breve busca por “boicote” nos leva a afirmar que cada passo que afasta o Brasil das grandes economias tem sido destacado pela imprensa nacional. O tom passa pelo já habitual catastrofismo, como o alerta lançado por El País ou aquele repercutido por O Globo passando pela negação do problema, conforme Correio Braziliense.

Seja como for, o fato de tornar palpável o problema, demonstrando de que maneira o Brasil é visto pela comunidade internacional quando abre mão de proteger a maior floresta tropical do mundo – e para a qual várias das grandes economias não negam ter seus olhos voltados – parece ser um caminho possível para acordar o Brasil para a necessidade de pressionar o seu governo. Ao que parece, a imprensa hegemônica, que durante anos esteve deitada em berço esplêndido, inclusive nos últimos governos -, os quais, não se pode negar, que pouco agiram para a proteção ambiental da Amazônia – começa a abraçar o discurso internacional sob pena de perda de dividendos ou mesmo de soberania.

As reportagens, muitas das quais extensas e devidamente complexas, fornecem informações importantes para a compreensão do tema. Falemos, por exemplo, da já citada incursão de El País sobre o assunto, intitulada “Boicote por crise dos incêndios na Amazônia chega ao mercado financeiro e acende alerta”. Apresentando o banco norueguês Nordea, que suspendeu a compra de títulos brasileiros após incêndios, a matéria traz um especialista da Fundação Getúlio Vargas atestando a importância da instituição financeira estrangeira, cujo nome não é, de fato, habitual nos noticiários brasileiros.

Também se preocupa em esclarecer que a responsabilidade ambiental, social e de governança tem sido uma questão importante para diversos fundos de investimento, o que pode indicar ao leitor que o boicote pode aumentar e chegar a outros investidores, estes ainda mais impactantes para o nosso país. Além disso, traz ainda multinacionais do setor agropecuário que já sinalizaram a abstenção ou a revisão da compra de produto brasileiro. E, por fim, mostra o presidente do Brasil dando as costas aos apelos mundiais dizendo que “a Europa não tem nada a nos ensinar”.

É deste tipo de incursão que falamos ao discutir complexidade. É tornar o assunto próximo do leitor, permitir que ele entenda o porquê de uma queimada cuja fumaça se dissipa longe dos seus olhos pode impactar a economia de todo o país, inclusive afetando a sua mesa e o seu bolso. É o jornalismo que desdobra as questões que são de interesse público e do público de que falamos. É ele que tem muito a nos ensinar.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A notícia por trás da notícia

The Intercept

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site The Intercept Brasil

 

Por Ursula Schilling*

É notória a repercussão que os temas ambientais têm tido na mídia, especialmente nos últimos meses. Infelizmente, isso não se dá pelos melhores motivos, visto que, pelo aumento do desmonte das políticas ambientais e da sistemática degradação da natureza – tamanha, que não está podendo ser ignorada – há matérias, no impresso e no online, em profusão.

Se, no início do trabalho deste Observatório, o desafio era encontrar notícias com a temática, agora, é selecionar objetos de análise em meio a muita oferta de material. Veja-se o copo meio cheio: assuntos como mudanças climáticas, desmatamento e uso de agrotóxicos, saíram das coxias informativas para as capas dos jornais.

Feito esse preâmbulo, proponho um rápido olhar sobre duas matérias publicadas nos sites The Intercept Brasil e BBC Brasil. A primeira, de 24 de agosto, intitulada “Lobistas do Partido Republicano ajudam o Brasil a recrutar empresas dos EUA para explorar a Amazônia”, traz informações sobre a possível relação da destruição da Floresta Amazônica com o movimento lobista americano, interessado em explorar os recursos naturais brasileiros. A segunda reportagem, publicação mais recente, de 14 de setembro, “O que as queimadas na Amazônia têm a ver com a economia e por que as eras Dilma e Bolsonaro fogem à regra”, traça uma linha de tempo das queimadas, estabelecendo um vínculo com questões políticas e econômicas ao longo de diferentes gestões do Governo Federal.

Um dos valores notícia é a atualidade. O aqui e o agora importam. Mas se isso é verdade, também é verdade que um acontecimento, visualizado numa linha de tempo, é constituído de passado, presente e futuro, ou seja, o que acontece hoje tem causas e terá consequências. Desde o início de agosto, quando houve uma espécie de marco zero da noticiabilidade das queimadas na Amazônia, com “o dia do fogo”, a pauta teve seu valor notícia aumentado. Mas, para além do assunto “principal”, o que há por trás das queimadas? O que é publicado nos ajuda a compreender o que acontece, por que acontece e os impactos subsequentes? Qual nossa parcela de responsabilidade nesse contexto?

Estará o jornalismo atento a essas questões? Com base nas análises recentes publicadas neste Observatório, entende-se que sim. Diversos veículos têm feio um esforço para elucidar o que acontece nos bastidores da crise ambiental sem precedentes pela qual passa o país. Mas a prática ainda se mostra esparsa.

Por isso trago os exemplos citados acima. Cada um por um viés, levanta informações para além de uma questão pontual. Abordagens como essas são importantes, para que construamos repertório e, por consequência, uma visão mais crítica. É o que se espera.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Noticiabilidade: o que os jornais valorizam mais? 

Imagem: Reprodução de parte do documento do MPF
Por Eliege Fante*

Recentemente o Ministério Público Federal (MPF) emitiu um documento de 21 páginas, bem justificado a partir da legislação vigente e documentado com notas públicas de servidores e notícias publicadas pela imprensa, recomendando ao Ministério de Meio Ambiente (MMA) que tome 13 ações emergenciais, em um prazo de 30 dias, para “frear os danos ambientais em curso no país”.

O jornalismo tem como premissa publicar as informações de interesse público. Mas, um dia após a emissão do documento (5 set. 2019), a constatação é de que apenas o jornal O Estado de SP noticiou a pauta sobre as recomendações que tentam reestabelecer o papel do MMA. A pesquisa através dos buscadores nos sites dos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Globo e Folha de SP não indicou nenhuma abordagem noticiosa. Será que estes meios de comunicação não perceberam o valor notícia de ruptura* nesta cobertura ambiental? A mudança no fluxo dos eventos, até porque o MMA tem 30 dias para responder oficialmente às recomendações do MPF, não é credível para o jornalismo privado? Estariam enxergando mais valor-notícia na continuidade da publicação dos atos do Ministro Ricardo Salles?

A leitura das recomendações feitas pelo MPF mostra a sua validade em se tratando do MMA, um poder público com compromissos nacionais e internacionais a corresponder e a cumprir, sejam no âmbito da Constituição Federal ou da ética. As recomendações listam ações esperadas por parte deste Ministério, tais como retirar e apreender o gado criado em áreas de desmatamento ilegal, obviamente em conjunto com o Ibama e o ICMBio; fiscalizar empresas frigoríficas que não possuem compromissos públicos de controle da origem de matéria-prima, também em conjunto com o Ibama; lavrar autos de infração e embargar áreas desmatadas ilegalmente “de maneira automatizada pelo Ibama e ICMBio, independente de vistoria de campo, quando os sistemas de monitoramento eletrônico apontarem a abertura e o responsável não apresentar a devida autorização”.

Outra recomendação ao MMA é quanto à falácia, amplamente difundida pelos meios de comunicação, sobre o trabalho do INPE e resultados do desmatamento na Amazônia. O MPF pede que sejam apresentadas, “de maneira objetiva, dados técnicos que comprovem cientificamente que as informações produzidas pelo INPE não seriam suficientes para uma estratégia de atuação e fiscalização em campo satisfatória, em conjunto com uso de outros sistemas como os alertas promovidos pelo CENSIPAM e a experiência de outros setores da administração pública, como nas Secretarias de Meio Ambiente Estaduais e Municipais”. Ainda neste sentido, o MPF pede que não contrate empresa de monitoramento (em substituição ao INPE) já que até o momento “não se revela tal necessidade, sob pena de violação aos princípios da economicidade e da razoabilidade”.

Estas duas recomendações, em especial, poderão vir a esclarecer o público que por ventura tenha se sentido confuso, sem saber no que acreditar: se nas palavras do governo que chama de fakenews o que não corresponde ao seu interesse ou nas palavras do órgão público de pesquisa científica, reconhecido mundialmente e com atuação premiada há décadas.

Destacamos ainda a recomendação para o estabelecimento de “uma política de comunicação pública adequada que permita aos servidores públicos […] cumprir o dever legal e constitucional de prestar contas à sociedade das ações específicas e necessárias adotadas diariamente para o cumprimento da legislação ambiental”. Ah, a comunicação pública! Ansiamos que o próximo documento a ser emitido pelo MPF contemple o reestabelecimento da instituição comunicação pública brasileira, vítima de desmonte pelo Governo Bolsonaro. Pois, a dita “reestruturação da Empresa Brasileira de Comunicação” consistiu na fusão da TV Brasil (comunicação pública) com a NBR (comunicação estatal). O resultado é a produção de uma comunicação estatal, de governo, e, portanto, alinhada às cores partidárias do mandato atual. O que fere o preceito constitucional de complementaridade entre os serviços: público, estatal e privado.

Incentivamos fortemente a leitura completa do documento aqui.

*ruptura e mudança no fluxo dos eventos, dimensões das qualidades da noticiabilidade. Franciscato em Silva, Silva e Fernandes. Critérios de noticiabilidade. 2014. p. 102-103.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutoranda em Comunicação e Informação pelo PPGCOM UFRGS. É também integrante do GPJA

Crise internacional aumenta valor notícia da Amazônia

Capa Época

Imagem: captura de tela – Capa da revista Época da primeira semana de setembro

 

Roberto Villar Belmonte*

Em poucos meses, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu uma façanha: catapultou o valor notícia da floresta amazônica a patamares raramente vistos na imprensa brasileira pelo menos nas últimas três décadas. Essa avalancha de histórias terá um efeito de longo prazo na consciência ambiental do brasileiro que ainda não pode ser analisado. Por isso seguimos escrutinando com lupa o noticiário e passamos, a partir de hoje, a publicar nossas observações duas vezes por semana: segundas e quintas.

Reveladora é a reportagem de capa da revista Época dessa semana escrita por Sérgio Roxo, enviado especial a uma das áreas mais devastadas pelo fogo no Sul do Pará, publicada com a cartola ‘Crise Internacional’. O jornalista lá esteve no final de agosto e apurou como atua a gangue das queimadas na região e por que esses incendiários não estão presos.

“O mecanismo do desmatamento não é segredo para ninguém naquele ponto do Pará — e não há histórico de crimes ambientais cometidos por organizações não governamentais voltadas para a preservação da floresta. Nessa região, as árvores desaparecem e dão lugar a pasto”, escreveu na primeira das seis páginas de texto.

O repórter reconstrói com depoimentos uma batida realizada por policiais e fiscais do Ibama na Fazenda Ouro Verde, onde três tratores foram apreendidos e retomados à força pelo suposto proprietário incendiário, identificado como Geraldinho Palmeira, por falta de escolta armada durante o transporte dos veículos apreendidos.

Além de funcionários de fazendas vizinhas e policiais, fontes ligadas ao Ministério Público Federal e ao Instituto Socioambiental ajudaram o repórter a descrever os furos legais e a falta de política que incentivam a destruição da floresta. Ele também ouviu um fazendeiro que abandonou a prática de derrubar a mata.

Na mesma época, Fabiano Maisonnave e Lalo de Almeida, do jornal Folha de S.Paulo, também estiveram na região, na Terra Indígena Trincheira Bacajá, no município de São Félix do Xingu (PA). Na aldeia, eles acompanharam a chegada dos índios xikrin após retomarem área de grileiros e publicaram a história com exclusividade no dia 26 de agosto.

Nessa segunda-feira (02/09), Maisonanave publicou texto em primeira pessoa descrevendo a aventura. O título do texto deveria virar máxima do jornalismo ambiental: “Jornalismo é caminhar por horas na floresta para cobrir disputa por terra”. Oxalá fosse sempre assim.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Acontecimento global no jornalismo local: é hora de alinhar escalas e rever visões de mundo

Imagem: Edição de Zero Hora
Por Débora Gallas Steigleder*

O planeta se mobiliza pela Amazônia em chamas, e o jornalismo repercute os diferentes vieses que envolvem este conflito ambiental, evidenciado pela chegada de partículas das queimadas a São Paulo em 19 de agosto.

A edição do fim de semana de 25 e 26 de agosto de Zero Hora, que traz o assunto na capa, pretendeu aprofundar alguns tópicos a partir de apuração própria da redação do jornal gaúcho. O texto na primeira página da cobertura, não assinado, traz um apanhado geral dos aspectos políticos que envolvem o conflito por um viés declaratório, com a tradicional reprodução de pronunciamentos das fontes oficiais. Nada de novo aqui, portanto. A dimensão local é abordada em seguida, em texto de Leonardo Vieceli, que faz um gancho com a menção ao risco que a destruição da floresta representa ao acordo comercial recém firmado entre União Europeia e Mercosul. O repórter relata a preocupação de entidades exportadoras do Rio Grande do Sul com os danos do crime ambiental à imagem do país frente aos parceiros comerciais. Esta centralidade nos impactos econômicos segue a posição editorial da empresa e é repercutida por colunistas de Política e Economia na mesma edição. De certa forma, então, nada de novo até aqui também.

A seguir, um quadro informativo com mitos e verdades sobre a Amazônia ajuda a contextualizar o leitor e complementa o texto de Iarema Soares, que apresenta o olhar dos especialistas sobre as possibilidades de restauração e as perdas inestimáveis nos ecossistemas amazônicos. Assim como a entrevista com bombeiro que está trabalhando no combate às queimadas, realizada por Rodrigo Lopes, estes recursos permitem um diálogo entre escalas. Nada substitui a presença do repórter in loco, mas, em um contexto de limitações físicas (e financeiras), uma construção discursiva que oriente o olhar “daqui para lá” é interessante para gerar proximidade. Um passo importante, porém, seria incorporar uma reflexão constante na cobertura sobre os efeitos diretos da perda da Amazônia em nossas vidas independentemente da proximidade geográfica com ela. Afinal, já passou da hora de reconhecermos as interconexões que fundamentam a vida na Terra.

Talvez o conteúdo local mais expressivo da cobertura seja o histórico da destruição da floresta, assinado por Itamar Melo, com gráficos e comparativo da área desmatada na Amazônia com o território do Rio Grande do Sul. O texto menciona que gaúchos foram estimulados a ocupar a região a partir dos anos 50. E, amplificando a questão da continuidade, é interessante ver aqui o deslocamento de sentido sobre o tema em Zero Hora, por meio de uma espécie de reversão do silenciamento: em minha leitura, por exemplo, remeti imediatamente a todas as coberturas do veículo – e do Grupo RBS, em geral – com narrativas heroicas sobre a conquista do Centro-Oeste e do Matopiba por gaúchos envolvidos no monocultivo de soja. Ao longo de décadas, a expansão das fronteiras agrícolas foi relatada – e exaltada – nos veículos da empresa sem contraponto ambiental. Muitos jornalistas têm-se posicionado para apontar o discurso violento e mentiroso de representantes do governo federal como avalizador de crimes ambientais, e com razão. Mas já é tempo de as mídias e seus profissionais fazerem uma autoavaliação: em que medida terem corroborado para o mito do progresso também contribuiu para a “naturalização” da destruição?

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Quando o jornalismo ambiental encontra o literário

Captura de tela – Reportagem da edição de agosto da revista Piauí
Por Roberto Villar Belmonte*

Talvez somente nos meses que antecederam a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que aconteceu no Rio de Janeiro entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, tenha se falado tanto sobre questões ambientais do Brasil como nesses primeiros meses do Governo Bolsonaro. Os grandes eventos e as catástrofes têm esse efeito nos jornalistas. Eles mobilizam.

O desmonte da governança ambiental planejado no ano passado e colocado em prática no início de 2019 foi descrito detalhadamente em uma reportagem de 11 páginas da revista Piauí assinada por Bernardo Esteves. Na mesma edição de junho, a publicação mensal deu mais 11 páginas para capítulo inédito do livro A Terra inabitável: uma história do futuro, de David Wallace-Wells.

Essa edição tinha ainda um texto de uma página sobre o plantio de milho dos quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo, e mais cinco páginas sobre uma batalha jurídica para salvar uma árvore amazônica em Copacabana. Essas 28 páginas da Piauí de junho com pautas do campo ambiental poderiam ser atribuídas ao Dia do Meio Ambiente (5 de junho), período em que proliferam juras de amor à sustentabilidade. Mas não é o caso.

A pauta ambiental sempre esteve no radar editorial da publicação de referência criada por João Moreira Salles. Um exemplo é a reconstituição do crime praticado pela Samarco em Mariana (MG) realizada pela repórter Consuelo Dieguez na reportagem A onda publicada na edição de julho de 2016 na Piauí. Esse trabalho entrou para os anais do jornalismo brasileiro e é estudado em sala de aula.

Os recursos do jornalismo literário – imersão do repórter, humanização das personagens, reconstrução de cenas, reprodução de diálogos – ajudam a dar sentido aos dramas e conflitos que envolvem a relação sociedade e natureza. Tais recursos, incentivados na Piauí, são muito produtivos quando a pauta é ambiental devido à complexidade dos temas e as diversas relações necessárias.

A edição de agosto da revista Piauí chegou às bancas com mais uma pauta do campo ambiental: os furtos de abelha no interior de Minas Gerais. A reportagem de quatro páginas do repórter Leonardo Pujol leva o leitor ao mundo dos apicultores, conectando o modo de ver as pautas do jornalismo ambiental aos recursos narrativos do jornalismo literário.

Nesse mundo da criação de abelhas (insetos afetados pela mudança do clima e pelos venenos utilizados nas monoculturas do agronegócio), agora também há ocorrências policiais, como já ocorre há séculos com o gado. Pujol, que contou essa história, faz parte dessa nova geração de jornalistas sensibilizados pelas questões ambientais e, no caso dele, pelo jornalismo literário.

Como salienta o professor Reges Schwaab em um dos capítulos do e-book Jornalismo ambiental: teoria e prática, “o espaço da reportagem ampliada ou em profundidade e o pensamento socioambiental têm, em termos de estrutura de pensamento, um parentesco” (p.71). Prova disso é a revista Piauí, publicação que não apenas abre espaço para temas ambientais, mas também para novos talentos do jornalismo brasileiro.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O problema dos agrotóxicos não está somente na comida

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que “nenhum consumidor está sendo intoxicado” por agrotóxicos. Sua fala vem após a adoção de novas regras de classificação dos pesticidas, que na prática diminuiu de 702 para 43 o número de agrotóxicos extremamente tóxicos . Com a nova classificação, apenas os produtos letais são caracterizados como “extremamente tóxicos”. Os produtos que causam úlceras, corrosão na pele e opacidade da córnea também eram classificados assim. As informações dos rótulos destes produtos também terão novo sistema, com a adoção de símbolos, por exemplo.

Resolvi tratar nesse texto não apenas de uma ou duas matérias, mas tratar do contexto, algo que falta nas três matérias da Folha linkadas acima. A ministra fala sobre o perigo de se alardear que a “comida está envenenada”, que isto seria um desserviço para o Brasil e que poderia prejudicar a imagem do país perante o mercado internacional. Entretanto, um dos grandes problemas do uso de agrotóxicos e das novas regras de classificação não está no consumidor final. Está na aplicação.

Na última segunda-feira, dia 5, também foi publicada uma reportagem no jornal El País Brasil sobre uma aldeia Guarani Kaiowá que foi intoxicada por uma nuvem de pó de calcário e agrotóxicos. A aldeia Guyraroká está localizada em Caarapó, no Mato Grosso do Sul, e aguarda a demarcação de suas terras. A escola da comunidade está a 50 metros da cerca que separa o território indígena de uma fazenda. As crianças comiam merenda quando a nuvem chegou e foram as primeiras a serem atingidas. Em poucos minutos, toda a aldeia ficou coberta de poeira, inclusive as hortas. Vários indígenas, principalmente crianças e idosos, apresentaram sintomas de intoxicação por pesticidas – enjôos, irritação na pele, diarreia e dores de cabeça. Animais, como cães e galinhas, morreram. E falamos somente dos sintomas imediatos, pois a poeira também está ligada a problemas respiratórios.

A Guyraroká é cercada por plantações de cana, soja e milho e os cerca de 120 Guarani Kaiowá que vivem na aldeia são constantemente expostos a pesticidas, que são aplicados por aviões e tratores. Na reportagem, uma senhora da aldeia conta que recorrem a raízes e plantas medicinais para tratamento, pois o acesso a médicos e remédios é difícil. Entretanto, ela tem medo de que logo não restará mais essas plantas, pois as “nossas florestas estão virando pastos e lavouras”.

Com os cortes de orçamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), funcionários que atendam os indígenas são raros. Na região de Caarapó, com cerca de 10 mil indígenas e grandes conflitos, só há uma servidora da Funai . E quando os índígenas buscam o hospital regional, sofrem ameaças. Os fazendeiros chegam a pedir aos funcionários para não os atenderem ou darem remédios trocados.

E não são somente indígenas que sofrem com a pulverização de pesticidas em áreas impróprias. Reportagem da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil aponta que agrotóxicos estão sendo utilizados como arma química no Pará. Três acampamentos de agricultores sem-terra de uma comunidade quilombola foram alvos de ataques desde 2013. A reportagem trata do caso do acampamento Helenira Rezende, localizado na zona rural do município de Marobá, nas terras do complexo Cedro, área reivindicada pela Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S.A., empresa que pertence ao banqueiro Daniel Dantas. Cerca de 150 famílias foram vítimas do que chamam de “ataque químico”, ocorrido no dia 17 de março de 2018. Segundo os moradores, uma pequena aeronave sobrevoou a região durante toda a tarde, pulverizando agrotóxicos. A disputa judicial que trata dessas terras já completou 10 anos.

A guerra travada entre latifundiários e indígenas, entre latifundiários e agricultores sem terra, entre latifundiários e pequenos agricultores não é novidade. Em julho, se atingiu o número recorde de 290 ‘defensivos agrícolas” aprovados. Com as novas regras, os aplicadores saberão quais os produtos letais e quais os que “apenas” causam úlceras. O jornalismo brasileiro tradicional precisa entender que agrotóxicos não são apenas sobre alimentos, podemos observar que os agrotóxicos estão sendo utilizados até mesmo como armas pelos grandes fazendeiros. Para problematizar os agrotóxicos deve-se pensar também nos conflitos territoriais brasileiros e em quem sofre na pele com isso.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Desmatamento: o jornalismo precisa nos aproximar da Amazônia. 

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

O desmatamento na Amazônia, a partir de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), foi a principal pauta política e ambiental da semana. Conforme matéria publicada na Folha de São Paulo, com base em imagens de satélite, o órgão federal mostrou que mais de 1.000km2 de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena do mês de julho deste ano, um aumento de 68% em relação a julho de 2018. O valor mensal registrado em julho de 2019 é o mais alto da série divulgada desde agosto de 2015. Os dados mensais são do Deter, órgão do Inpe, que não mede o desmatamento, mas indica tendência de desmatamento, para auxiliar na fiscalização.

A divulgação dos dados gerou uma crise política no Brasil, que culminou com a exoneração do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, na última sexta-feira, dia 02. Sobre os dados do Inpe, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o percentual de aumento de desmatamento obtido pelo sistema Deter não condiz com a verdade. O Presidente da República também questionou o órgão federal.

Diante desta e de outras crises criadas atualmente sobre as questões ambientais, é necessário que o jornalismo se posicione pela informação e conscientização dos cidadãos brasileiros. Mas o que se vê em muitos veículos jornalismo é o que chamamos de jornalismo declaratório, reproduzindo somente as falas do ministro, do presidente, de representantes de órgãos ou autoridades. Na matéria apresentada acima, a maior parte do texto foca nas falas e respostas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é destacada no título, do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Busquei na Folha de São Paulo outras matérias a partir das palavras Amazônia e desmatamento e não encontrei nenhuma que aprofundasse, contextualizasse e simplificasse os dados do Inpe. Essa característica não é exclusividade deste jornal, e nem desta temática, mas de vários meios de comunicação. Para entendermos quem das autoridades acima está falando a verdade, precisamos de apuração detalhada e aprofundada e não apenas saber o que um disse e o outro falou.

A maioria dos brasileiros mora longe da Amazônia. Não tem a mínima ideia do que 1000 km2 de desmatamento em quinze dias na Amazônia pode representar em suas vidas. O que o desmatamento tem a ver com as secas frequentes? Com o aumento das temperaturas? Com a falta de água nas torneiras do sudeste? Como interfere nos mananciais das águas e assoreamento dos rios? E para os que moram na Amazônia, o que esses números representam? O que isso representa para as famílias extrativistas, tradicionais e indígenas que lá vivem? As áreas desmatadas se transformarão em que: pastagens e lavouras de soja? Que impactos essas atividades tem na região e na emissão de gases poluentes? Como nós, através dos produtos que consumimos, estamos contribuindo com esse desmatamento? Essas são algumas questões que nos surgem quando vemos dados sobre desmatamento na Amazônia que precisam ser respondidas pelos meios de comunicação para que a sociedade brasileira compreenda o tema e se posicione de forma cidadã.

Jornalisticamente, a pauta é quente, os dados são atuais e a oportunidade de produzir reportagens sobre o assunto é evidente. E a mídia internacional compreendeu muito bem essa oportunidade de aproximar o mundo da Amazônia. A revista Economist tratou o tema com reportagem de capa , contextualizando a crise política com informações ambientais. Os jornais The New York Times e The Guardian também abordaram o assunto.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

A humanidade consome demais e o jornalismo questiona muito pouco

G1

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no G1
Por Eloisa Beling Loose*

Hoje, dia 29 de julho, muitos veículos de comunicação estão reportando a sobrecarga da Terra, limite máximo de uso dos recursos naturais que podem ser renovados sem gerar problemas ao meio ambiente (e, por consequência, à vida dos homens neste planeta). Em 2019, essa data-limite veio três dias antes que no ano de 2018.

O G1 apresenta como manchete: Planeta atinge esgotamento de recursos naturais mais cedo em toda a série histórica e o Uol aponta que: Humanidade já esgotou recursos do planeta para este ano, diz ONG. Os dois sites de notícias mais acessados do Brasil lembram que estamos consumindo 1,75 planeta por ano, sendo que nosso déficit com a natureza data da década de 1970.

O alerta, contudo, não é recorrente na prática jornalística, que tende a naturalizar o pensamento dominante de que é preciso crescer para se desenvolver. Embora o jornalismo tenha compromisso com os interesses sociais, na lógica hegemônica, na qual está inscrito, consumir é status e até solução para os problemas econômicos, políticos e sociais.

Se observarmos as editorias de Economia, por exemplo, a ênfase está no mercado e não em uma forma cooperativa e/ou equilibrada de gerir conjuntamente as necessidades da sociedade com aquelas do meio ambiente. A finitude dos recursos não é debatida, criando a falsa impressão de que nosso padrão atual é viável. O consumismo quase nunca é pauta, pois foi incorporado ao estilo de vida moderna e à própria sustentação econômica das empresas jornalísticas, dependentes por muitos anos das verbas publicitárias. As diferenças abissais de consumo entre os países também tendem a ser ocultadas e o contrário – o incentivo a um modo de vida com mais supérfluos e propenso a mais exageros – parece ser visibilizado de forma acrítica.

Apesar de as notícias de hoje sinalizarem para os custos desse excesso, advertindo para a extrapolação que estamos fazendo ano a ano e sugerindo que os indivíduos calculem sua pegada ecológica, o jornalismo não consegue avançar nessa discussão mesmo tendo uma data como gancho. Os impactos ambientais são decorrentes de políticas, de negócios, de acordos internacionais que favorecem a extração da natureza a baixo custo e a subjugação da força de trabalho da maioria dos países do mundo em detrimento de outros poucos. Cada um pode e deve fazer a sua parte, porém isso inclui as instituições e os governos. Questionar o sistema também é papel dos jornalistas.

Os silenciamentos da imprensa quanto às lógicas que conduzem a nossa realidade social produzem lacunas de entendimento e a falta de caminhos para enfrentar as situações postas pode gerar apatia – ou, o que é pior, a sensação de que não há alternativa. O que as notícias do G1 e do Uol não mencionam é que há estudos que mostram que ainda podemos reverter o quadro. De acordo com a Global Footprint Network, é possível que a Terra consiga recuperar seu equilíbrio antes de 2050, caso a gente consiga adiar o Dia de Sobrecarga de apenas cinco dias todos os anos. Para tanto, uma campanha chamada Steps to #MoveTheDate lista uma série de ações concretas para alterarmos esse cenário.

Para além de expor as problemáticas, as soluções devem aparecer e ultrapassar os comportamentos individuais. É importante refletir e investigar sobre o que mantém o consumo exacerbado da sociedade mesmo diante da informação de que isso não é uma realidade possível para todos – e nem mesmo para uma minoria a longo prazo.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo torna complexo o olhar para a peleteria

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no Portal G1
Por Eutalita Bezerra*

Há muitos anos foi extinta a necessidade humana de proteger-se usando pele de animais. Apesar disso, este ainda é um dos argumentos utilizados em defesa da peleteria, atividade que extrai tecido animal para vestimenta. Na reportagem publicada no último dia 18, no Portal G1, esta explicação ainda aparece, porém, já se percebe certa vontade de mudança.
Impondo à atual juventude – os chamados Millennials – a responsabilidade pela pressão sobre as indústrias de moda, a reportagem afirma que vem do ativismo e da preocupação com a sustentabilidade desta geração a redução do uso de pele animal na moda. Contando com fontes como a Peta – e citando grandes labels, tais como Burberry, Gucci, Michel Kors e, mais recentemente, Chanel, o texto admite um recuo na utilização de couros considerados exóticos, extraídos, dentre outros, de cobras, lagartos e crocodilos. Os demais tipos de pele e outros tecidos provenientes de animais, como lã e seda, são citados muito brevemente, o que nos parece uma tentativa de tornar o questionamento mais palatável. Pudera: basta uma pesquisa rápida e se sabe, conforme o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, por exemplo, que o Brasil, conta com mais de 260 estabelecimentos do ramo e exporta mais de 2 bilhões de dólares por ano em couro para 80 países.
Porém, trazendo uma professora de moda da FAAP, a reportagem consegue navegar nos meandros da questão. Isto porque apresenta o consumo de pele animal como insustentável, com grandes danos ao meio ambiente, além do próprio sofrimento animal e do excessivo consumo de água. Afirma, ainda, que não é suficiente trocar o couro animal pelo sintético, que vem de matéria-prima derivada de petróleo.
E, o que mais nos agrada: se preocupa em apontar caminhos. Apresentando o couro de abacaxi, material preparado com as fibras das folhas do vegetal, como parte das coleções de grandes marcas, o jornalista mostra ao seu leitor que é possível, mesmo dentro da lógica de consumo atual, repensar a relação entre consumidores e insumos. O piñatex, que já foi tema de reportagem na Forbes e na Exame, é produzido nas Filipinas como subproduto da agricultura. Sua criadora, a designer Carmem Hijosa, trabalhou durante anos na indústria do couro animal, antes de buscar outras alternativas.
Podemos dizer que o jornalista se preocupa em olhar para os diversos viéses da situação e o faz com algum fôlego. Complexifica o assunto. Escolhe suas fontes com clareza daquilo que busca. Fala de moda trazendo à luz da Ciência. Fala de sofrimento animal como demonstração da insustentabilidade atual. Fala de indústria e suas controvérsias. E fala de futuro apresentando caminhos.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

No tempo das catástrofes, jovens jornalistas questionam critérios de noticiabilidade

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no portal Humanista
Débora Gallas Steigleder*

No último dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, participei do podcast #ConversaHumanista, produzido por estudantes da disciplina Laboratório de Jornalismo Convergente, do curso de Jornalismo da UFRGS. Em pauta, por ocasião da data, a cobertura jornalística sobre meio ambiente no Brasil. Representando o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, dividi a mesa com a estudante Camila Souza, que reportou ao portal Humanista as ameaças à produção agroecológica, a comunidades rurais e urbanas e à conservação da biodiversidade representadas por um grande empreendimento de mineração de carvão nas adjacências de Porto Alegre – assunto sobre o qual temos nos debruçado neste Observatório.
A reportagem do Humanista apresenta abordagem sistêmica diante do risco multifacetado que envolve o projeto. Assume um lado – o direito de existência das comunidades humanas e não-humanas – e dá voz ao contraditório, ouvindo o representante da mineradora Copelmi. Reconhece que a pluralidade de vozes vai além da pluralidade de fontes ao mapear a diversidade da produção agroecológica no assentamento Apolônio de Carvalho, no município de Eldorado do Sul, e relacioná-la à luta das famílias ali estabelecidas. Neste sentido, traz um relato sobre o modo de vida local, buscando proximidade leitores – quem mora em Porto Alegre, por exemplo, pode identificar consequências diretas da mineração em sua própria vida por conta da potencial contaminação da água e de alimentos.
E, mais importante do que corresponder individualmente a preceitos que identificamos como próprios do jornalismo ambiental, vemos que a reportagem foi apenas um primeiro movimento de cobertura contínua sobre o tema. O Humanista repercutiu a Audiência Pública realizada em Eldorado do Sul em 27 de junho e vem aproveitando o gancho para aprofundar o assunto, como nesta entrevista com Rualdo Menegat, autor do Atlas Ambiental de Porto Alegre. Este foi um desafio que apontamos como central ao jornalismo durante o #ConversaHumanista. Por que falar sobre problemas ambientais somente no dia 5 de junho? Por que limitar a cobertura à repercussão de crimes ambientais como os das mineradoras Samarco e Vale e não aprofundar os questionamentos sobre o sistema político e econômico em que vivemos, o qual permite relativizar a importância da precaução sob o pretexto do lucro financeiro?
O futuro é agora, e cabe orientarmos os jornalistas em formação a repensarem e atualizarem os critérios de noticiabilidade que engessam a agenda de repórteres e nos distanciam de um valor comum – a viabilidade de nossa existência neste planeta. Neste contexto, bem-vindas são as iniciativas que reconhecem a inovação no jornalismo como o fomento de uma consciência crítica da realidade, para além da mera inserção de gadgets e ferramentas tecnológicas na rotina de trabalho.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Projeto de megamina na região metropolitana de Porto Alegre merece maior aprofundamento pela grande imprensa

Fonte: Reprodução de ILEA UFRGS Vídeos.
Por Eliege Fante*

Audiências públicas já foram realizadas em Charqueadas e Eldorado do Sul (RS) onde o projeto Mina Guaíba da Copelmi é endereçado. Mas, Porto Alegre também reivindica a realização de uma audiência pública, cuja zona central fica a apenas 16 km da proposta de megamina de quase cinco mil hectares. Em geral, as notícias da grande imprensa têm abordado a geração de renda, empregos e novas tecnologias conforme a divulgação da empresa, e a poluição e os riscos impressos no projeto segundo técnicos ambientais. Contudo, ainda há muito a ser dito e debatido. Para tentar dar conta da complexidade entorno da tomada de decisão sobre autorizar ou não o projeto, jornalistas podem recorrer ao trabalho dos pesquisadores do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS), protocolado no último dia 4 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento ambiental. Trata-se de um contra laudo sobre o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) do projeto Mina Guaíba da Copelmi. A motivação decorre das inconsistências e erros percebidos pelos professores e pesquisadores.

A própria Fepam tem estudos em andamento sobre a mineração no Estado (Programas e Projetos, no site). Por se tratar de um projeto de implantação da maior mina a céu aberto da América Latina, seria pertinente apurar estes dados acumulados e a situação ambiental e econômica das regiões. Conferir a qualidade do ar, do solo e da água, bem como da saúde das comunidades afetadas, como se fosse uma radiografia da mineração gaúcha. No livro da Fepam de 2002, Meio Ambiente e Carvão, Impactos da exploração, o então diretor-presidente da Fundação, Nilvo Luiz Alves da Silva, alertava: “Um desenvolvimento energético sustentável significa que devemos ir além de algumas questões tradicionalmente abordadas como viabilidade técnica e econômica. O processo deve incorporar os impactos no ambiente e na saúde, esgotamento de fontes energéticas, equidade intra e intergeracional e a definição das políticas públicas relativas ao setor.”.

A questão intergeracional também preocupa o geólogo, professor e pesquisador da UFRGS, Rualdo Menegat. “O projeto não garante sustentabilidade ambiental, não convence do ponto de vista técnico, o EIA-Rima não é confiável. É uma injustiça geracional enorme, podemos deixar este problema para nossos filhos e netos gerenciarem este passivo daqui a 23 anos? Temos este direito?” Estas e outras questões levantadas por Menegat, como a do uso da água de dois aquíferos (Quaternário e Rio Bonito) pela pretendida Mina Guaíba, merece ser considerada pela grande imprensa com o aprofundamento correspondente à importância que o recurso tem para a vida. Menegat pergunta se não seria o caso de optarmos pela conservação deste recurso imprescindível já que a capital e municípios vizinhos têm o abastecimento dependente do Lago Guaíba. Ainda mais, diz ele, que não há plano de substituto em caso de haver uma impossibilidade para a captação. Antes da autorização do projeto pelo órgão licenciador, há respostas cruciais a serem buscadas. De fato, uma audiência pública em Porto Alegre poderia proporcionar este espaço.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

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Sobre o desmatamento do Bioma Pampa: é possível fazer jornalismo para além do senso comum

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S.Paulo
Por Ursula Schilling*

Repetidas vezes, em nossas análises para este observatório, damo-nos conta de um cenário nada animador, de acordo com o qual as pautas ambientais carecem de espaço na mídia e, quando o recebem, esses espaços trazem abordagens superficiais, enviesadas (com uma olhar desenvolvimentista ou da dita economia verde), sem propor um verdadeiro debate sobre o tema.
Mas se isso é verdade, também é verdade que há sinais de que um jornalismo sério e comprometido com a qualidade da informação não só é possível, como já existe em alguns casos. Um exemplo disso é a matéria “Pampa gaúcho sofreu desmate de 44%, aponta novo monitoramento do Inpe“, de autoria da jornalista gaúcha Paula Sperb, para a editoria de ambiente do site do jornal Folha de S.Paulo. Publicado em 5 de junho, o texto trata da questão do desmatamento do Bioma Pampa, trazendo dados inéditos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, segundo o qual, em 2016, 43,7% da vegetação nativa já estava suprimida, ou seja, desmatada.
O interessante da matéria não são os dados em si – o que já é “positivo”, uma vez que não se ouve ou não se lê comumente sobre o Bioma Pampa em veículos jornalísticos de referência – mas o fato de eles não virem sozinhos. Mesmo que de forma sucinta, há uma problematização do tópico, uma vez que são apontadas algumas das possíveis causas da destruição do Pampa, um dos seis biomas brasileiros, que só existe no Rio Grande do Sul.
A começar, o texto destaca, brevemente, o que é o Bioma Pampa, para que o leitor minimamente se situe, entenda do que se trata e, mais que isso, perceba a dimensão do que é tratado. Pode não parecer importante, mas quando o assunto são questões ambientais, trazer para a realidade próxima, explicar termos não muito conhecidos, faz diferença para que as pautas não sejam tão abstratas ou distantes para quem as lê. Além disso, há uma explicação sobre os impactos do desaparecimento desse bioma, envolvendo, até mesmo, questões culturais, geralmente tão caras ao povo gaúcho.
Em seguida, Sperb traz a fala de um professor da Universidade Federal do Pampa – Unipampa, apontando que o Bioma Pampa está perdendo espaço para o plantio de soja. Aqui, o trecho é duplamente interessante, pois além de apontar uma das possíveis causas para a destruição do bioma, ainda levanta, paralelamente, a problemática das monoculturas, hoje ainda pouquíssimo abordada. Vale destacar que a expressão “monocultura da soja” vem com link para um texto intitulado “Terras indígenas foram invadidas com soja transgênica, conclui Ibama”.

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S. Paulo

A notícia publicada por Sperb é curta, mas isso também é uma prova de que não são necessárias extensas reportagens para que se aborde um tópico com o mínimo de aprofundamento e problematização, saindo do senso comum. Até porque um assunto não há de se encerrar numa única abordagem. Trazer à luz, sistematicamente, temas que precisam de repercussão e espaço, como são os relacionados ao meio ambiente, é um princípio importante para proporcionar ao leitor um conhecimento mínimo acerca dessas questões e, com o tempo, o espírito crítico que se espera que o bom jornalismo nos ajude a desenvolver.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O que o Jornalismo tem a ver com a nova fronteira da mineração?

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site Sul21
Por Carine Massierer*

A mineração não é assunto novo no Brasil, mas passou a chamar mais atenção da imprensa quando ocorreram grandes acidentes em minas de propriedade da empresa Vale S/A localizadas em Minas Gerais. No Rio Grande do Sul a imprensa até então se dedicava a reproduzir notícias sobre estes acontecimentos e muito poucas vezes pautou a mineração no Estado.

Porém, em novembro de 2018, foi apresentado pelo governo do Estado um diagnóstico sobre a mineração e manifestada a intenção do poder público de atrair para o Rio Grande do Sul empresas com interesse na exploração das riquezas minerais. No momento, quatro grandes empreendimentos tramitam junto aos órgãos ambientais.

A partir disto, jornais de grande repercussão estadual e nacional, como Brasil de Fato, Sul21, Jornal do Comércio, ZH, Extra Classe e Correio do Povo passaram a noticiar o tema. Porém com uma rápida análise se percebe que os veículos de esquerda e jornais que tem como base os movimentos ressaltam os malefícios e se cercam de fontes e entrevistas para demonstrar o que pode ser causado pela nova fronteira da mineração. A imprensa com maior expressividade no Estado foca em relatar os acontecimentos sociais que envolvem a mineração.

E o que o Jornalismo tem a ver com a nova fronteira da mineração?
O jornalismo tem que contribuir para que a população tenha informações sobre de que forma a mineração pode afetar a sua vida e deve apresentar elementos para que as pessoas possam se manifestar. Além disto, ele pode e deve dar voz a quem mais precisa: as pessoas que podem ser afetadas pela mineração.

Na matéria publicada pelo Sul21 em 19 de junho, pode-se perceber que o jornalista Marco Weissheimer consegue dar voz a muitas fontes a respeito da mineração. A reportagem trata da formação de um comitê que envolve mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração no Estado e ouviu todos que participaram da reunião de formação do comitê, mostrando a preocupação dos movimentos com relação aos projetos que estão em processo de licenciamento ambiental.

O Mina Guaíba pretende extrair carvão a céu aberto em uma área localizada entre os municípios de Eldorado do Sul e Charqueadas; o projeto Caçapava do Sul quer minerar zinco, chumbo e cobre às margens do rio Camaquã; o projeto Três Estradas pretende extrair fosfato em uma região de Lavras do Sul; e o projeto Retiro quer extrair titânio em uma área localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico. Fala inclusive o líder do assentamento de Eldorado do Sul, pois as famílias seriam afetadas.

Porém, não consta no texto, sequer em link, a proposta do governo a respeito, muito menos informações que deem ao leitor uma noção cronológica da nova fronteira da mineração e como o legislativo e o judiciário têm se posicionado. Ou seja, apesar de ter muitas fontes, o “outro lado” também buscado pelo jornalismo, não está presente no texto.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo ambiental e a regra de ouvir os dois lados

Foto do planeta Terra feita pelos astronautas da Apollo 17 no dia 7 de dezembro de 1972 conhecida como Blue Marble (bolita azul, em tradução livre) ampliou a noção de risco planetário e a consciência ambiental. Fonte: Nasa
Por Roberto Villar Belmonte*

Não há como ter um debate equilibrado em uma reportagem ou programa jornalístico entre cientistas e defensores do terraplanismo, aqueles que acreditam que o planeta Terra é plano. Esse foi um dos exemplos citados para problematizar a regra de ouvir os dois lados durante o congresso internacional de ombudsmans que reuniu 35 profissionais de 27 países na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, na primeira semana de junho para discutir o “jornalismo em um mundo polarizado”. O relato foi publicado pela nova ombudsman da Folha de S.Paulo, Flavia Lima, na sua coluna do dia 9 de junho.

No jornalismo ambiental, tal regra também não pode ser levada em conta em reportagens sobre a mudança do clima, como já assumiu publicamente no Brasil o repórter André Trigueiro antes mesmo do Acordo de Paris (2015). Em um programa sério sobre crise climática, não é possível abrir espaço para os negacionistas, defende acertadamente Trigueiro, que também é professor de jornalismo ambiental na PUC- Rio. Os negacionistas são animadores de plateia pagos para desinformar, como mostrou reportagem de Patrícia Mello e Avener Prado em um dos capítulos do especial Crise do Clima publicado em 2018 pela FSP.

Fora essas duas situações extremas, no geral a regra de ouvir o(s) outro(s) lado(s) é fundamental. Tanto é assim que uma das conclusões mais frequentes nas pesquisas sobre reportagens que tratam de temas ambientais é justamente o predomínio da fala oficial e a falta de outras perspectivas na abordagem jornalística das pautas de interesse público que giram em torno da relação sociedade-natureza.

Um exemplo dessa importância de ouvir o(s) outro(s) lado(s) é a notícia publicada no jornal Folha de S.Paulo sexta-feira passada (14 jun. 2019) pela repórter Ana Carolina Amaral com a manchete Proposta de Kim prevê isentar setor agrário de licenciamento. A matéria repercute o texto-base do projeto que cria a nova lei geral de licenciamento ambiental divulgado em grupo de trabalho coordenado pelo deputado federal Kim Kataguiri (DEM/SP). Como a repórter conhece o contexto do assunto, ouviu também duas fontes ligadas aos movimentos ambientalistas que quase nenhuma voz tem na atual configuração política do país. Se a regra de ouvir o outro lado não fosse respeitada, apenas a versão oficial seria publicada.

Quem melhor define no Brasil esse lado que o jornalismo ambiental assume nas suas narrativas é o site O Eco, criado em 2004 por Marcos Sá Correa, Kiko Brito e Sérgio Abranches: “Damos voz a bichos e plantas, às pessoas que os protegem e aos bons debates sobre conservação”. Um bom debate só é possível quando a opinião pública tem acesso a diferentes perspectivas.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Dia Mundial do Meio Ambiente: por pautas menos catastrofistas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site da Revista Galileu
*Eloisa Beling Loose

Dentre as muitas efemérides que servem de gancho para a produção jornalística, no dia 5 de junho temos uma dedicada ao meio ambiente. O Dia Mundial do Meio Ambiente foi criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1972, e busca chamar a atenção para a importância da sustentabilidade da vida de todas as espécies – inclusive a nossa – no planeta.

O assunto está mais presente na pauta em razão do volume de problemas ambientais que nos cercam (poluição de ar e água, desmatamento, contaminação por agrotóxicos, rompimento de barragens de rejeitos de mineração, flexibilização das políticas ambientais, extinção de espécies, etc.) e seu tratamento jornalístico costuma ser desolador. O destaque em aspectos negativos tende a gerar uma percepção de que não há mais saídas.

Na última semana, a data foi lembrada por muitos veículos jornalísticos e a “fórmula do choque”, tentando despertar as pessoas sobre o cenário pessimista no qual nos encontramos, foi repetida inúmeras vezes. A matéria publicada no site da Revista Galileu, Mudanças climáticas podem acabar com a civilização até 2050, diz estudo, por exemplo, celebra o dia 5 de junho lembrando que estamos a caminho da extinção da espécie humana. A partir de um relatório do Centro Nacional de Descoberta do Clima da Austrália, o texto indica que as mudanças climáticas podem colapsar a nossa civilização até 2050, tornando o mundo um caos, em razão das condições cada vez mais adversas decorrentes das consequências climáticas.

A notícia da Galileu aponta também o que deveria ser feito. Segundo o documento que é sua única fonte: é necessário alterar a matriz produtiva mundial para que ela seja de zero carbono e pensar mais no planejamento para lidar com cenários extremos. É claro que isso envolve um alto investimento de recursos e um empenho coletivo dos países em priorizar a vida (e não só daqueles que podem pagar por isso). Esse esforço, até hoje, apesar das muitas evidências, não tem sido realmente efetivo, porém a matéria da Galileu não oferece ao leitor uma discussão das tentativas e explicações do porquê isso ainda acontece.

O Acordo de Paris, compromisso negociado por 195 países, em 2015, e que entrará em vigor somente no próximo ano, pretende manter o aumento da temperatura média global em menos de 2°C acima dos níveis pré-industriais. Os esforços, porém, são para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. A grande questão é que, como explicita o texto, os piores cenários tendem a ser subestimados. E qual a razão de se achar que não há urgência em uma mudança radical nos nossos modos de vida?

Ainda que os relatos jornalísticos sejam sempre recortes da realidade, percebe-se uma recorrência de notícias com fonte única e quase nenhuma contextualização. Além disso, a ênfase nos aspectos mais catastrofistas inibe o foco para a ação, para aquilo que devemos fazer hoje. Soluções de escala global são bem-vindas, mas o enfrentamento deve ocorrer em todas as esferas. Considerando todos os efeitos que já sentimos na pele e as previsões dos cientistas, adotar comportamentos e práticas diárias associadas às baixas emissões de gases de efeito estufa é um imperativo.

Quando a imprensa trata do futuro como algo que, em breve, deixará de existir, está sendo contraproducente, pois repercute a ideia de que não há muita coisa a ser feita. Ao entender o jornalismo como uma prática profissional comprometida com o interesse público, seu papel é justamente dar visibilidade às ações e projetos que estão trabalhando em prol de caminhos que garantam o cuidado com o meio ambiente, indispensável para nossa sobrevivência. Que o Dia Mundial do Meio Ambiente possa ser comemorado com enfrentamento e que, em breve, não seja preciso ter uma data para nos lembrar o óbvio: não podemos destruir o ambiente do qual dependemos para viver.

*Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo e as questões culturais indígenas

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

Nesta observação olharei para dois textos que se relacionam. Um deles publicado no G1, na semana passada, Índios usam tablets, celulares e drones para monitorar castanhais e mapear áreas de coleta em MT e o outro publicado no El País, Por que os indígenas são a chave para proteger a biodiversidade planetária . Este último tem como base um relatório da ONU que destaca que nas terras habitadas pelos povos originários o desaparecimento de espécies é mais lento que no resto do mundo.

Ambos trazem à tona a reflexão sobre a relação dos indígenas com o meio ambiente e as áreas onde vivem. Pelos indígenas, a terra, a floresta, os animais, e outros recursos naturais não são explorados intensiva e ininterruptamente até a sua exaustão. Como diz a especialista do Instituto Socioambiental, Nurit Bensusan, no El País, por conhecerem intimamente a floresta, com rapidez eles identificam impactos que podem estar atingindo-a e mudam de atitudes, por exemplo, deixam de caçar em determinada área se ela está de alguma forma sendo afetada. O objetivo maior, então, não é a exploração econômica até a exaustão da área, mas, a manutenção harmoniosa da relação com a fauna, flora, rios e terras para as atuais e futuras gerações. A matéria do G1 demonstra esse aspecto, falando da coleta das castanhas, que garante subsistência sem a necessidade de derrubar a floresta.

Porém, dificilmente o jornalismo consegue olhar para essas questões sob a perspectiva da cultura indígena, em que os aspectos econômicos não aparecem em primeiro lugar. Já no subtítulo do texto, o jornalista do G1 ressalta que os castanhais são fonte de renda para os indígenas. Durante o texto o jornalista também evidencia outros aspectos relacionados a comercialização do produto, como a obtenção do Selo Nacional de Agricultura Familiar Indígena, garantindo credibilidade ao produto e rentabilidade, o preço da comercialização da castanha e a quantidade coletada.

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site El País

Outro aspecto que nos chama atenção nos dois textos, e que é frequente nos materiais jornalísticos, é a não valorização das fontes indígenas. No texto do G1, quem fala são os técnicos do projeto do Projeto Pacto nas Águas. No texto do El País são os especialistas do ISA, Funai e Greenpeace. O dirigente indígena Dinamam Tuxá somente é chamado a falar sobre questões políticas.

A matéria do G1 ressalta, porém, a integração do uso de novas tecnologias aos conhecimentos tradicionais, desmistificando a ideia de que ao terem acesso a celulares, computadores e drones eles deixariam de ser indígenas. É necessário ter presente que, como a nossa, as culturas indígenas não são estáticas. Elas mudam ao longo do tempo e incorporam muitas das inovações utilizadas por grupos sociais diferenciados. Além disso, mesmo se relacionando com os não-índios, os povos indígenas mantêm suas identidades e se afirmam como grupos étnicos diferenciados, portadores de tradições próprias. A identidade étnica, ou seja, a consciência de pertencimento a um determinado povo, não se apaga com uso da tecnologia, mas pelo contrário se fortalece no jogo complexo entre o “tradicional” e o “novo”, o “próprio” e o “estrangeiro”.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

O problema do distanciamento do leitor ao tratar sobre mudanças climáticas

campo gelo patagonia

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

Em uma curta matéria, a jornalista Natalia A. Ramos Miranda escreve para a Agência Reuters sobre o rompimento de um campo de gelo de 12 mil quilômetros quadrados na Patagônia chilena. O G1 publicou a notícia no dia 24 de maio.

Trazendo uma entrevista com o diretor da Divisão de Neve e Geleiras na DGA (autoridade de Águas do Chile), Gino Casassa, a notícia é dada por um viés científico, mas não aprofundado. A causa do aumento de temperaturas na Cordilheira dos Andes não é mencionada e os impactos do rompimento desses blocos de gelo muito menos. Temos então dois problemas, um jornalismo que não se preocupa em aproximar o leitor do tema e que não fala diretamente da responsabilidade humana nas mudanças climáticas.

A influência humana no clima é clara, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês). A matéria poderia citar dados que apontassem nessa direção, por exemplo de que entre os cientistas do IPCC existe a confiança de 95% de que as emissões de gases do efeito estufa (GEEs) resultantes das atividades humanas foram responsáveis por mais de metade da elevação média da temperatura registrada entre 1951 e 2010. Esses dados foram apresentados no quinto relatório do Painel, de 2014, que foi formulado diretamente por 259 autores de 39 países que avaliaram mais de 9200 estudos sobre o tema.

Mudanças climáticas sempre existiram. O planeta se aquece e resfria. Se não deixarmos claro que a ação humana influencia nas mudanças climáticas e os problemas que isso causa no planeta, uma visão negacionista do aquecimento global pode ser facilmente alcançada pelo leitor. Na matéria no G1 há alguns comentários nesse sentido. Para combater essa visão é necessário contextualizar as informações. As pesquisadoras Julia B. Corbett e Jessica L. Durfee publicaram em 2004 um estudo sobre a representação da mídia do aquecimento global. Segundo elas, quanto maior for a contextualização das afirmações sobre ciência climática, menor vai ser a incerteza sobre o assunto e sua importância. Quanto menor a incerteza, maior a capacidade de se fazer algo sobre.

E agora entramos no outro problema. Tratamos as mudanças climáticas como algo distante, sem impacto direto nas nossas vidas. Entretanto, o relatório do IPCC mencionado anteriormente prevê uma frequência maior de eventos extremos climáticos (tempestades tropicais, inundações, ondas de calor, seca, nevascas, furacões, tornados e tsunamis) com graves consequências para populações humanas e ecossistemas naturais. Também aponta que o aumento da temperatura média do planeta tem elevado o nível do mar devido ao derretimento de calotas polares e desses campos de gelo e que isso pode causar o desaparecimento de ilhas e cidades litorâneas.

Ao tratar somente do fato do campo de gelo ter se rompido, a matéria se distancia da realidade do leitor. Este não é motivado a pensar a fundo sobre as mudanças climáticas e a agir a respeito. A falta de contexto, a falta de ligação com o leitor os deixa só com uma pergunta na mente: mas e daí?

Um jornalismo consciente e ambiental motiva a reflexão do leitor sobre o tema tratado. Em sua tese de doutorado, a pesquisadora Eloisa Beling Loose tratou sobre como o jornalismo local noticia as mudanças climáticas. Segundo ela, “a conexão do local com o global é fundamental para se pensar em outras atitudes e o jornalismo, como campo de excelência de medição e legitimação de discursos, precisa estar atento às formas com que dissemina a questão”. Para gerar a reflexão pretendida pelo jornalista, a notícia precisa estar contextualizada, é necessário mergulhar na realidade do leitor e mostrar porque o aquecimento global é importante.

Referências:

CORBETT, C. Julia; DURFEE, Jessica L. Testing public (un)certainty of science media representantions of global warming, Science Communication, v.26, n.2, 2004. p.129-151.

LOOSE, Eloisa B. Riscos climáticos no circuito da notícia local: percepção, comunicação e governança. Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento). Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Universidade Federal do Paraná, 2016.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Desafios à moda sustentável

Reportagem Época

Imagem: Captura de tela – Reportagem publicada no site da Época Negócios
Por Eutalita Bezerra*

Há alguns dias vivemos a semana Fashion Revolution. Porto Alegre, por exemplo, sediou diversas atividades alusivas ao evento cuja pauta propunha um olhar reflexivo sobre a cadeia da moda, uma das mais poluentes do mundo e que cresce exponencialmente. Época Negócios afirma em reportagem publicada no último dia 13 de maio que, hoje, a indústria da moda deixa a desejar em investimentos quando o assunto é sustentabilidade. Isto vai na contramão do que se apregoava nas discussões recentes – inclusive ao que ela mesma noticiava dois meses antes, conforme retomaremos.

Apontando como justificativa a falta de esforço conjunto dos players do mercado, Época apresenta um novo relatório publicado por consultorias internacionais que verificaram metas de sustentabilidade das labels de moda e sua efetiva aplicação, atestando que a indústria havia subido dois pontos a menos que o ano anterior neste quesito.

Época descreve o cenário catástrófico que pode se confirmar em pouco mais de 20 anos caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas por essas empresas, visto que a indústria da moda gera mais destes poluentes que todos os voos internacionais e cargas marítimas juntos. Para a mitigação, sugere, por parte das empresas, a implementação de soluções de maneira ampla e rápida. Do poder público, a criação de regras mais rígidas. Às mídias, que se mantenham atentas aos problemas do setor. Aos investidores, que apoiem marcas dedicadas à causa. E recorre, ainda, ao consumidor, propondo que este pressione as marcas que consomem, considerando que as empresas se preocupam com a sustentabilidade à medida que são demandadas pelos clientes.

A esta gama de soluções apresentadas e ao caminho possível trazido por Época, entendemos tratar-se de um olhar amplo e apurado, como propõem os preceitos do jornalismo ambiental. Além de trazer diversos vieses sobre a questão, que esclarecem desde as causas até as suas consequências, a reportagem é rica em números e em exemplos que aproximam a leitura do consumidor, afinal, a vestimenta é um dos poucos itens de consumo que é comum a tantas sociedades.

Para um enriquecimento da abordagem, e então retomamos o que foi pontuado no início, sobre a longa reportagem feita dois meses antes na mesma revista, se poderia ter ouvido outras fontes que não apenas um dos coautores do relatório. O que dizem outros interessados no assunto? As empresas concordam que têm investido menos?  O que as fez tomar passos para trás nesse caminho considerando que, conforme outros relatórios trazidos também por Época, cada vez mais o consumidor exige uma postura economicamente sustentável dessas empresas? Sobraram questões e faltaram respostas.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Por que o jornalismo deve se posicionar diante da ameaça à vegetação nativa no Brasil

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Imagem: Captura de tela – Reportagem de Daniela Chiaretti publicada no site do jornal Valor Econômico

 

Por Débora Gallas Steigleder*

A Lei de Proteção da Vegetação Nativa, popularmente denominada Código Florestal, sancionada em 2012 pela presidenta Dilma Rousseff após mais de uma década de debates no Congresso Nacional, voltou à pauta no último mês. Isto porque os senadores Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e colega Marcio Bittar (MDB/AC) apresentaram o Projeto de Lei 2362/2019, que propõe o fim da reserva legal nos imóveis rurais de todo o País.

Publicada em 29 de abril no site do jornal Valor Econômico, a reportagem da jornalista Daniela Chiaretti busca traduzir o impacto da aprovação da proposta. O título dá destaque aos números, como é de se esperar de um veículo que costuma repercutir e informar o mercado financeiro, mas permite ao leitor visualizar a dimensão das áreas afetadas ao equivalê-las à área de “três Bahias”.

Ao longo do texto, a repórter aborda os principais pontos do PL, marcado por afirmações desprovidas de embasamento, tais como a de que o Brasil é “um dos [países] que mais preserva sua vegetação no mundo”. Tais afirmações são contrapostas às análises de uma fonte especializada, um pesquisador, cuja relevância diante do tema é justificada pela jornalista logo após o lead.

Esta postura proativa, de prezar a apuração jornalística frente à mera reprodução de versões das fontes oficiais, é um aspecto pouco verificado nas diversas pesquisas do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) sobre coberturas da mídia hegemônica** e, portanto, deve ser incentivado. Isto porque um dos princípios-chave do jornalismo ambiental é sua preocupação com o ambiente enquanto bem comum.

Na continuidade da cobertura, valeria trazer mais vozes ao texto para reforçar a complexidade do tema. A fonte especialista tem autoridade a partir do seu saber científico, mas diversos outros atores sociais também podem argumentar contra a proposta a partir de seus saberes. Porém, de forma geral, a cobertura está alinhada com o jornalismo ambiental ao já partir do pressuposto de que o PL é prejudicial à biodiversidade e à qualidade de vida das comunidades humanas. E esta postura deve ser assumida por todos os jornalismos, tanto os hegemônicos quanto os especializados em economia e finanças.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
** Uma das mais recentes publicações do Grupo atenta para a importância de envolver outros atores para além do Estado na discussão sobre possíveis soluções para situações de injustiça ambiental. Ver em: GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; STEIGLEDER, Débora Gallas; SILVA, Jamille Almeida da; LOOSE, Eloisa Beling. Injusticia ambiental en el periodismo: análisis de reportajes sobre contaminación por pesticidas. La trama de la comunicación, Rosario (Argentina), v.23, n.1, p.15-29, jan./jul. 2019.

 

 

 

 

 

O Jornalismo entre políticas

05.05

Imagem: Reprodução de notícia publicada no dia 18.04.19 no jornal Correio do Povo (p.6)
Por Eliege Fante*

Toda vez que leio a respeito da “ineficiência das políticas públicas” referente à redução das emissões de gases de efeito estufa causadores da mudança climática, fico pensando se seriam as políticas ambientais ou as econômicas…

O motivo da crítica às políticas públicas é o dado apresentado na notícia Aquecimento Global: Concentração de CO2 bate novo recorde histórico, publicada no site Apolo11, onde diz que “2018 registrou o quarto maior crescimento de emissão de CO2 na atmosfera nos últimos 60 anos”. Este resultado revela a distância que tomamos da ideia de voltar ao patamar de 350 ppm (partes por milhão)  – acesse a campanha 350 – de dióxido de carbono na atmosfera, já que atualmente alcançamos a presença de 410 ppm.

Uma rápida pesquisa no acervo do jornal Correio do Povo (RS) no mês de abril de 2019, através do seu buscador online, com a palavra-chave “Petrobras”, indicou a abordagem de alguns assuntos ligados ao petróleo. Sem surpresas, nenhuma menção ao iminente fim desse recurso natural.

As datas das edições encontradas foram: 12, 13, 15, 16, 18, 20 e 27 de abril. Tratar do aumento ou não do preço do diesel e da gasolina não é o suficiente, mesmo que essa seja a única abordagem do governo. Aliás, um dos papeis do Jornalismo é difundir justamente o que não é dito pelos governantes a respeito das questões de interesse público.

Pelo contrário, uma notícia local de 16 de abril, p. 5, citava a iniciativa “Gás para crescer”. Notícia anterior sobre o mesmo evento, em 12 de abril, p. 10, adiantava que a discussão seria sobre a “modernização do setor de gás natural e […] criação de um mercado nacional com oferta abundante e preços competitivos.” As palavras que destaquei seriam a justificativa para o aprofundamento da exploração do gás, também energia fóssil.

Certamente governo e empresários estão a par da mudança do clima por causa do aumento da temperatura da atmosfera, que não pode superar 2º C, mas temos atualmente 50% de chance de isso não ocorrer, visto o aumento de um grau confirmado em 2018. Então, a pergunta seria: como pretendem ou imaginam dar continuidade aos seus ramos de negócio se a sua matéria-prima original está com os anos para a exploração (ou produção) contados? (Leia Antecipar o fim do petróleo, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil).

A resposta à pergunta feita provavelmente apontaria como solução o uso de tecnologias mais modernas como o fracking (Leia mais informações sobre o assunto aqui) ou aquelas empregadas para a extração do Pré-Sal.

A notícia de 18 de abril, p. 6, reproduzida no começo da análise, abordou a ajuda aos estados com o repasse de recursos provenientes dessa exploração nos próximos anos. Se o governo brasileiro quisesse mesmo ajudar os estados, além de manter intocado o Pré-Sal, não teria determinado um teto de gastos (por 20 anos!) nas áreas da educação, saúde e segurança. As mais lembradas durante as campanhas eleitorais.

Sobre o teto, vale recordar a manifestação da Organização das Nações Unidas feita em 2016 (Brasil: teto de 20 anos para o gasto público violará direitos humanos, alerta relator da ONU): “É completamente inapropriado congelar somente o gasto social e atar as mãos de todos os próximos governos por outras duas décadas. Se essa emenda for adotada, colocará o Brasil em uma categoria única em matéria de retrocesso social.”

O governo não parece mesmo interessado em ajudar, já que as políticas públicas atuais convergem com este cenário de retrocesso social arquitetado há mais de dois anos. Afinal, o mês de abril não terminou sem o anúncio do “corte de 30% em verbas para todas as universidades federais” (veja notícia do Correio do Povo publicada no dia 30.04.19). Mais uma questão apenas repassada pela imprensa e carente de justificativas por parte do governo.

Os preceitos do Jornalismo determinam o interesse em ajudar a sociedade, trabalhando em busca de respostas às questões de interesse público. O que o público espera da nossa profissão é mais profundidade ao reportar os temas e menos repasse de informações oficiais. Podemos transcender às políticas que fixam os temas em editorias assim como em Ministérios e Secretarias dos governos.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

 

 

 

O que o Jornalismo tem a ver com a nossa água de todos os dias?

Captura de tela

Imagem: Captura de tela da reportagem publicada na Folha do Mate

 

Por Carine Massierer*

O ser humano pode ficar semanas sem comida, mas se passar de três dias sem água, pode morrer. Assim, água é um recurso essencial e nós corremos o risco, em função da poluição, de termos um dos bens mais preciosos à nossa vida, indisponível.

Daí o imperativo do Jornalismo informar à população o que está acontecendo com a água que ingerimos todos os dias. Você que lê este texto, sabe o que tem na água que bebe? Eu já imaginava que a água consumida por nós corria o risco de estar impotável, por isto, ao ver a manchete “Testes detectam 21 agrotóxicos na água que abastece Venâncio Aires”, publicada em 20/04 às 6h30min, eu fiquei apreensiva e fui ler o conteúdo.

A matéria é daquelas que nos instigam a leitura porque apresenta dados municipais e brasileiros, tabela com a descrição dos agrotóxicos encontrados no município, pesquisas a respeito, explicações de fontes diferenciadas, os perigos à saúde, os efeitos dos agrotóxicos na natureza, como foi feita a coleta da água, a fala dos envolvidos e opiniões da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) e da Vigilância Sanitária. Esta matéria mesmo sendo publicada na editoria de Local, caberia na editoria de Meio Ambiente, Saúde ou qualquer outra porque aborda de forma qualificada este tema e sua transversalidade. Justamente isto é o que se propõe o Jornalismo Ambiental.

Isto demonstrou não só que o conteúdo vem sendo qualificado cada vez mais e aprofundado em jornais locais, mas mostra ainda o engajamento do veículo e sua preocupação social em deixar a par a população de que há um perigo no consumo da água em Venâncio Aires (RS).

Em virtude da importância social do tema, fui averiguar quando a matéria geradora da pauta tinha sido publicada pela Agência Pública. No dia 12/04 a matéria foi publicada no site Por Trás do Alimento, com o título “Conheça os 27 agrotóxicos encontrados na água que abastece as cidades do Brasil”, e repostada dia 15/04 no mesmo site e no da Agência Pública, com a chamada “Coquetel com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios”. A partir daí veículos de pequenas e grandes cidades do país passaram a pautar o assunto, mas e a grande imprensa da capital? Até o dia 24/04 não foram localizadas postagens na internet dos jornais Correio do Povo e Zero Hora a respeito, veículos de referência no Rio Grande do Sul.

Sendo assim, o que se pode pensar é que a ampliação dos temas de forma mais qualificada é possível ser feita em jornais não hegemônicos como, muitas vezes, são os jornais locais. O que aponta para uma nova perspectiva na modernidade, de que os espaços para matérias especializadas e aprofundadas estão se tornando cada vez menores em grandes veículos.

Enfim, independente do tamanho do veículo, é importante observar que a Agência Pública está conseguindo ser uma interpretadora e informadora de dados públicos disponíveis, levando informações de extrema importância aos meios de comunicação e a população de todo o país. Isto, sobretudo, é uma conquista para a comunicação pública e para o Jornalismo Ambiental que, segundo Girardi (2001, p. 60), “informa, forma e faz um papel educativo, cumprindo com a missão de contribuir com a construção da cidadania, desde a perspectiva local à perspectiva planetária”.

Referência:

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O jornalismo ambiental nos cursos de jornalismo. In: JACKS, Nilda et alTendências na comunicação. Porto Alegre: L&PM, 2001.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

 

A temática dos agrotóxicos: para cada dito, um silenciado

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Fotografia de charlesricardo/ Pixabay  

 

Por Ursula Schilling*

Os agrotóxicos são um dos temas que vêm ganhando espaço na mídia nacional, o que poderia indicar uma quebra do silenciamento sobre o assunto. Infelizmente, os destaques têm sido sobre o aumento recorde na liberação de novas licenças no país, sobre a manutenção da venda do glifosato, o agrotóxico mais utilizado em terras brasileiras, bem como sobre a contaminação na água e no solo, inclusive em áreas urbanas, o que deixa clara a utilização de tais produtos em níveis preocupantes.

No entanto, apesar da aparente atenção ao tópico, cabe a pergunta: que enfoque tem sido dado à questão? Uma rápida busca pelas notícias mais recentes trará exemplos como: Glifosato: Por que a Anvisa propõe manter liberada a venda do agrotóxico mais usado no Brasil (BBC Brasil, fevereiro de 2019), Registro de agrotóxicos no Brasil cresce e atinge maior marca em 2018 (Folha de S.Paulo, março de 2019), 1 em 4 municípios tem ‘coquetel’ com agrotóxicos na água (Exame, abril de 2019).

Outro ponto a ser levantado é onde essas notícias estão sendo veiculadas. Isso importa, porque não basta um assunto ser abordado. Ele tem que chegar até quem o leia, assista, ouça. Vale a ressalva, pois não é incomum observar que, na maior parte, as matérias aparecem em canais segmentados, ou seja, só quem já se interessa por determinada área terá acesso a eles.

Basta o simples exercício de “dar um Google”, buscando pela expressão “agrotóxicos no Brasil 2019”. Dos dez primeiros resultados, dois são de grandes canais, a saber, Globo e Folha de S. Paulo. Os demais são de sites e veículos específicos dedicados à causa ambiental.

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Imagem: Captura de tela – busca realizada no Google

Isso não quer dizer que a grande mídia não tenha se manifestado. Programas de grandes emissoras, como o Globo Rural, da Rede Globo, tomaram sua parte no assunto. Sobre esse exemplo, vale a leitura do primeiro texto publicado neste observatório,  que destaca o fato de não só não haver uma problematização sobre o ostensivo uso dos agrotóxicos, como de existir, ao invés, uma defesa. Um dos argumentos seria a necessidade da produção de alimentos em larga escala.

Só aqui haveria um amplo espaço para contrapor a teoria malthusiana de que a população cresce mais do que a produção de alimentos. Quantas matérias questionam o desperdício de um terço da produção mundial de comida (segundo estimativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO)? Quantos agroecologistas são ouvidos para defender que a produção familiar é mais segura e perfeitamente viável? Quem explica a lógica por trás do fato de o Brasil utilizar substâncias proibidas em outros países? Quantas vezes se viu uma visão histórica sobre a criação dos primeiros agrotóxicos e fertilizantes durantes as duas grandes guerras?

Se resgatarmos o papel social do jornalismo, vale a provocação: o que a mídia tem falado a respeito mune as pessoas das informações necessárias para que entendam globalmente a problemática do uso indiscriminado de substâncias tóxicas naquilo que nos servirá de alimento e das consequências? Não estará o jornalismo exercendo uma função meramente denuncista ao invés de propor um olhar crítico e um debate mais polifônico?

Um começo, seria dar voz a diferentes atores nesse cenário: à indústria, aos fazendeiros, sim, mas também aos pequenos agricultores, a pesquisadores e médicos… e, claro, a quem consome o que resulta desse sistema de produção, os consumidores.

Precisamos manter a visão crítica, seja como produtores ou consumidores de conteúdo, pois, mesmo que muito já seja dito, para cada dito, há muito ainda sendo silenciado.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

 

Agrotóxicos: qual a função e o limite do jornalismo?

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Imagem: Captura de tela – Reportagem do Globo Rural sobre os riscos dos agrotóxicos realizada por Ana Dalla Pria, Maurício Maia e Sandro Queiroz
Por Roberto Villar Belmonte*

Por que o Brasil registra tantos problemas com agrotóxicos? Essa foi a pergunta que o programa Globo Rural tentou responder nas edições dos dias 31 de março e 7 de abril com uma série de reportagens produzida no Paraná.

As reportagens abrem com a vinheta do Globo Natureza, sugerindo ao telespectador que a perspectiva apresentada seria a da natureza ou ambiental. No entanto, o enquadramento foi o do Agro é Pop: a Indústria-Riqueza do Brasil, campanha publicitária em prol do agronegócio exibida no horário nobre da emissora.

O programa comprou a resposta da indústria: O Brasil tem problemas com agrotóxicos – quase 40 mil casos de intoxicações notificados entre 2007 e 2017 – porque os agricultores usam errado o veneno.

E o modelo de agricultura intensiva implantado depois da II Guerra Mundial não estaria esgotado? Um pesquisador da Embrapa Meio Ambiente informou que não e alertou que sem agrotóxicos “traríamos uma crise mundial de alimentos. De fome”.

Perguntas que não foram feitas ao pesquisador: Quanto dinheiro o Brasil investe no desenvolvimento de tecnologias sem agrotóxicos? Quantos programas oficiais de incentivo à agroecologia existem no país? Por quê?

Para comprovar a tese do uso errado defendida pela indústria do veneno, a reportagem mostrou três casos de contaminação por uso de agrotóxicos sem equipamento de proteção individual. E de avanço de lavouras em áreas urbanas.

Se o veneno fosse usado corretamente, com as proteções e os limites determinados pela legislação, e somente quando eles realmente são necessários agronomicamente, então não haveria contaminação nem óbito. E nem prejuízos.

A perspectiva econômica foi usada para mostrar ao telespectador que o uso errado é, na verdade, dinheiro posto fora, mesmo argumento da produção limpa ou mais limpa (cleaner production) difundida pela ONU desde a Agenda 21 de 1992.

Reduzir o impacto ambiental pelo aumento da eficiência das lavouras, resultando em mais lucratividade, é o que os projetos de Agricultura de Precisão vêm tentando desde o início de sua implantação no Brasil no final do século passado.

Mas o verdadeiro problema é a eficiência? Ou seria o próprio modelo agrícola predatório e excludente? Para a lógica do desenvolvimento sustentável bancada pela indústria, e comprada pelo Globo Rural, é só uma questão de uso correto.

A função do jornalismo é aceitar a versão da indústria e da pesquisa oficial, leia-se o modelo de agricultura tropical desenvolvido pela Embrapa, ou deveria também questionar esse conceito nacional sintetizado no slogan Agro é Pop?

Antes do desenvolvimento sustentável (industrial) ser proposto pela Comissão Bruntland e referendado pela ONU no Brasil em 1992, Ignacy Sachs falava, também no âmbito das Nações Unidas, em um ecodesenvolvimento com soluções locais.

A reportagem do Globo Rural termina assim: “Os agrotóxicos estão e continuarão presentes na vida de todos nós, agricultores ou não. Então, usar menos, aplicar de forma correta, proteger os mananciais são medidas necessárias e urgentes”.

Tem razão o Globo Rural. Mas será esse o limite do jornalismo? Não estaria na hora, diante dos graves problemas de intoxicação e poluição, de enquadrar também, em rede nacional, as soluções realmente ecológicas?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Pesquisadores em Jornalismo Ambiental de todo o Brasil reúnem-se para debater mudanças climáticas

 

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Como engajar as populações locais para repensar o impacto das desigualdades e injustiças ambientais quando há predomínio da agenda internacional na cobertura jornalística sobre mudanças climáticas? Esta foi uma das questões que orientou as mesas de debate do IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, ocorrido na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS), em Porto Alegre, nos dias 27 e 28 de setembro.

Os palestrantes ressaltaram as questões políticas, econômicas e sociais que envolvem as mudanças climáticas e a importância de o jornalismo recorrer a fontes para além das oficiais e as do campo científico a fim de sensibilizar a população. O conferencista de abertura do evento, o pesquisador espanhol Rogelio Fernández Reyes, afirmou que estamos em momento de transição para uma nova etapa do Jornalismo, calcada na sustentabilidade e em um processo de mudança cultural por consequência. O evento também buscou unir teoria e prática através de depoimentos como o da jornalista Liana John, de São Paulo, que falou sobre seus 40 anos de experiência na realização de reportagens ambientais.

O destaque desta edição ficou por conta da Iniciação Científica. Com o objetivo de valorizar e incentivar a continuidade dos trabalhos dos graduandos em Jornalismo, a sessão foi privilegiada na programação para que todos os participantes do evento pudessem acompanhar as discussões propostas pelos estudantes. De acordo com a coordenadora geral do IV ENPJA, a professora da Fabico/UFRGS Ilza Girardi, o evento buscou facilitar o acesso dos participantes, especialmente os de Iniciação Científica, com a oferta de inscrições a valores populares.

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Outro ponto alto foi a programação cultural: a dupla de voz e violão Clarissa de Baumont e Daniel Keller interpretou canções de protesto do período da ditadura militar no Brasil; já a atividade com a facilitadora de danças circulares Patrícia Preiss teve como objetivo estimular a conexão dos participantes entre si e com o ambiente. Na ocasião, também ocorreu o lançamento do e-book gratuito Jornalismo Ambiental: Teoria e Prática, que pode ser baixado através do site jornalismoemeioambiente.com.

O IV ENPJA foi organizado pelo Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), da Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS (Propesq), da Fabico/UFRGS, do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS) e da Rede Interdisciplinar e Multidisciplinar de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável e Mudanças Climáticas, vinculada ao Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS (RIMP/ILEA).

Texto e fotografias de Débora Gallas Steigleder

 

Evento discute Jornalismo Ambiental na prática e na pesquisa

O IV Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) recebe convidados nacionais e internacionais para debater a função social do jornalismo diante das problemáticas ambientais mais prevalentes da atualidade, com destaque para as mudanças climáticas. O evento ocorre em 27 e 28 de setembro (quinta e sexta-feira) na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (FABICO/UFRGS: Rua Ramiro Barcelos, 2705, Campus Saúde).

Nesta edição, além da apresentação de trabalhos científicos nas categorias Comunicações Livres e Iniciação Científica e do lançamento de livros da área de jornalismo e meio ambiente, o evento contará com quatro mesas e palestras. O destaque fica por conta da conferência de abertura, Um jornalismo em transição diante das mudanças climáticas, que contará com a participação do professor da Universidade de Sevilha (Espanha) Rogelio Fernández-Reyes. O pesquisador trabalha com jornalismo ambiental, a comunicação das mudanças climáticas e a comunicação de alternativas socioambientais.

A mesa Mudanças Climáticas e as relações com a imprensa debaterá as interfaces entre a pesquisa científica sobre mudanças climáticas e os meios de comunicação. Os convidados são o professor do Departamento de Geografia da UFRGS e diretor do Centro Polar e Climático (CPC/UFRGS), Francisco Eliseu Aquino, a professora do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS e pesquisadora do Grupo de Pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS) Lorena Fleury e a jornalista e pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Ciências Sociais e Sustentabilidade (NIECSS) e da Rede Ibero-americana de Pesquisa em Ambiente e Sociedade Gabriela Di Giulio.

No dia 28, a mesa Jornalismo Ambiental: diálogos entre Brasil e Colômbia contará com a presença da jornalista, escritora e professora brasileira Liana John, que atua profissionalmente há mais de 40 anos e, neste período, participou de diversas publicações sobre a temática ambiental, e da participação por videoconferência da professora Maryluz Vallejo, da Pontificia Universidad Javeriana (Colômbia), que também é repórter e editora cultural do jornal El Mundo de Medellín.

Já a mesa de encerramento, Divulgação de informações climáticas e prevenção de desastres, será composta por Andrea Santos, representante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, e por Eloisa Beling Loose, pós-douroranda em Comunicação pela UFRGS e pesquisadora em jornalismo e mudanças climáticas, contemplada pelo Prêmio Capes de Tese na área de Ciências Ambientais, em 2017, pelo trabalho “Riscos Climáticos no Circuito da Notícia Local: Percepção, Comunicação e Governança”.

Inscrições

Ainda há vagas para participação de ouvintes com direito a certificado ao final das atividades. Estudantes de graduação pagam R$ 20,00; estudantes de pós-graduação, R$ 30,00; e os professores e profissionais, R$ 50,00. O pagamento da taxa de inscrição deve ser feito por meio de depósito na conta do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), com envio posterior do comprovante de pagamento para o e-mail encontrojornalismoambiental@gmail.com.

O IV ENPJA é uma realização do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), e conta com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (FABICO/UFRGS), do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA) e da Rede Interdisciplinar e Multidisciplinar de pesquisa Desenvolvimento Sustentável e Mudanças Climáticas, vinculada ao Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS (RIMP/ILEA).

IV ENPJA ocorre em setembro

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A quarta edição do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) será nos dias 27 e 28 de setembro na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Neste ano o evento contará, além das já tradicionais sessões de apresentação de trabalhos orientados para o Jornalismo Ambiental, programação voltada para a reflexão e debate do Jornalismo e Mudanças Climáticas, uma das questões ambientais mais atuais e urgentes do nosso tempo.

Além de ser uma edição temática, a edição de 2018 traz outra novidade: a inclusão da relatoria nas sessões de Comunicações Livres. A proposta busca qualificar ainda mais a discussão do tema.

O IV ENPJA possui uma categoria de Iniciação Científica, dedicada à formação de jovens pesquisadores, e uma de Comunicações Livres. Os trabalhos científicos podem ser enviados até dia 9 de julho, segundo as orientações do template, para o e-mail: encontrojornalismoambiental@gmail.com. Para mais informações sobre a chamada de trabalhos, confira a aba “Normas”.

Jornadas PPGCOM/UFRGS: o papel do jornalista diante dos conflitos ambientais

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O Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS), a linha de pesquisa em Jornalismo e Processos Editoriais e o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) realizam, nos dias 16 e 17 de junho de 2016, jornada de estudos com o tema Jornalismo e Conflitos Ambientais. O evento ocorre no Auditório 1 da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Rua Ramiro Barcelos, 2705, Campus Saúde, Bairro Santana, Porto Alegre-RS). As inscrições, gratuitas, podem ser realizadas neste formulário.

Por meio de uma abordagem multidisciplinar, o encontro debate o papel social do Jornalismo para a democracia, considerando-o como um dos agentes no processo de comunicação de riscos e na cobertura dos conflitos ambientais. Entre os palestrantes confirmados, estão a repórter Jessica Mota, da Agência Pública, o pesquisador uruguaio e jornalista independente Victor Bacchetta, o professor Felipe Milanez, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano e colunista da revista Carta Capital, além de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria e UFRGS.

Os temas em discussão envolvem a conduta dos jornalistas e o interesse público frente aos conflitos ambientais, as especificidades teóricas do conceito de conflito ambiental e os dilemas acerca da mineração após o desastre ocorrido em Mariana (MG) no ano passado. Confira a programação completa a seguir. Para mais informações, entre em contato com a organização pela página do grupo no Facebook ou pelo e-mail pesquisajornalismoambiental@gmail.com

O Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq é coordenado pela professora titular da FABICO e do PPGCOM/UFRGS e Doutora em Comunicação Ilza Maria Tourinho Girardi. O grupo é responsável pela organização de eventos acadêmicos como o Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental, cujas edições mais recentes ocorreram em Porto Alegre no ano de 2014 e em São Paulo, em 2015.

Programação Completa, clique a seguir.

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Anais do III ENPJA – ISSN 2359-2230

Já estão disponíveis os Anais do III Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental. O ISSN da publicação é 2359-2230. Os artigos apresentados nas sessões de Comunicações Livres e Iniciação Científica podem ser acessados em site próprio.
O III ENPJA aconteceu em São Paulo, em outubro de 2015. O encontro integrou a programação do VI Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, cujo tema foi o “Mundo em Transição”.
O próximo ENPJA acontece em 2017 e o local ainda não está definido. Acompanhe pelo blog novas informações.

Call for papers III ENPJA

A Comissão Científica do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) torna pública a chamada de trabalhos para a terceira edição do evento, a ser realizada em 20 e 21 de outubro no SESC da Vila Mariana, em São Paulo – SP, durante o VI Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental (CBJA). O ENPJA acolhe textos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que abordem temáticas concernentes ao binômio jornalismo e meio ambiente.

Coordenação Científica
Cláudia Herte de Moraes (GPJA, UFSM)
Eliege Fante (GPJA)

Leia o edital completo.

Curta a página do ENPJA no Facebook.

Anais do II ENPJA – ISSN 2359-2230

Os anais do II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental estão disponíveis em site próprio. O ISSN da publicação é 2359-2230.

Estão disponíveis os artigos apresentados nas sessões de Comunicações Livres, Iniciação Científica e Relatos de Experiência.

O III ENPJA será realizado em São Paulo, em 2015. Acompanhe as informações aqui pelo site. A chamada de trabalhos será divulgada no decorrer do primeiro semestre do ano.

II ENPJA – 29 a 31/05/14: programa e inscrições

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O II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental será realizado de 29 a 31 de maio em Porto Alegre – RS. Seu principal objetivo é reunir pesquisadores docentes e discentes interessados no diálogo sobre o atual momento de investigação no tema e possibilidades futuras de atuação compartilhada.

Serão três dias de trabalho, incluindo conferências, painéis, reunião de Grupos de Pesquisa e sessões de apresentação de trabalhos acadêmicos. O evento conta com apoio da Capes – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

As inscrições serão aceitas até a data do evento (link a seguir). Os valores são: até 30/04 – R$50,00 para estudantes (graduação e pós-graduação) e R$ 80,00 para o público em geral (professores, pesquisadores, profissionais); após 30/04, – R$ 60,00 para estudantes e R$120,00 para o público em geral. Pesquisadores com apresentação de trabalho são isentos de taxa, devendo apenas enviar os dados solicitados no link.

Inscrições

Listagem dos trabalhos aceitos para apresentação

Sessões de apresentação – distribuição dos trabalhos

Programação  (sujeita a alterações)*

II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental

Local: FABICO – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação / UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Rua Ramiro Barcelos, 2705 – Campus Saúde – Bairro Santana – CEP 90035-007 – Porto Alegre. Contato: enpja@jornalismoemeioambiente.com
Apoio:
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Dia 29 de maio – quinta-feira

Manhã

Apresentação de trabalhos de pesquisa 

08h – 11h30: Sessão 01 – Coordenação e mediação: Doutoranda Eloísa Loose (UFPR)

08h – 11h30: Sessão 02 – Coordenação e mediação: Profa. Doutoranda Cláudia Herte de Moraes (UFSM)

Tarde

13h30 – 17h Conferência de Abertura: Jornalismo ambiental para o mundo em transformação

Convidados:

Profa. Dra. Anabela Carvalho (IECA Board Member e Universidade do Minho/Portugal)

Prof. Dr. Raul Reis (School of Journalism and Mass Communication, Florida International University)

Coordenação e mediação: Profa. Dra. Ilza Girardi (UFRGS).

Dia 30 de maio – sexta-feira

Manhã

Apresentação de trabalhos de pesquisa

08h – 11h30: Sessão 03 – Coordenação e mediação: Doutoranda Eloísa Loose (UFPR)

08h – 11h30: Sessão 04 – Coordenação e mediação: Jorn. Mestre Fabrício Fonseca Ângelo (Fiocruz-AM)

Tarde

13h – 14h30: Reunião de trabalho dos membros do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e demais membros de outros grupos de pesquisa presentes tendo em vista a criação de uma agenda de pesquisa comum.

Coordenação: Profa. Dra. Sônia Aguiar (UFS) e Profa. Dra. Ilza Girardi (UFRGS)

15h – 18h: Painel: Metodologias de pesquisa em jornalismo ambiental

Convidados:

– Profa. Dra. Sonia Aguiar Lopes (UFS) – um panorama histórico das pesquisas brasileiras em jornalismo ambiental

– Prof. Dr. Reges Schwaab (UFOP) – a contribuição da Análise do Discurso para os estudos do jornalismo ambiental

– Prof. Dr. Valdir Morigi (UFRGS) – a contribuição da Teoria das Representações Sociais à pesquisa em jornalismo ambiental

– Profa. Dra. Liege Zamberlan (Faccat) – a contribuição do Paradigma Complexo aos estudos de jornalismo ambiental

Coordenação e mediação: Prof. Dr. Leonel Aguiar (PUC-RIO)

Dia 31 de maio – sábado

Manhã

09h -12h: Debate: O ensino de jornalismo ambiental no marco das novas diretrizes curriculares

Convidados:

Prof. Dr. Demétrio Soster (UNISC e SBPJor)

Prof. Dr. Celso Schröder (Fenaj)

Profa. Dra. Ilza Girardi (UFRGS e proposta da RBJA)

Prof. Dr. Leonel Aguiar (PUC-Rio)

Coordenação e Mediação: Prof. Dr. Reges Schwaab (UFOP)

Tarde

14h – Conferência de encerramento:  Diálogos com o nosso mundo e o nosso tempo

Lama Padma Samten (Centro de Estudos Budistas Caminho do Meio)

Coordenação e Mediação: Profa. Dra. Ilza Maria Tourinho Girardi (UFRGS)

16h – Encerramento

_________________________________________________________

Comissão Organizadora II ENPJA – Porto Alegre
Ilza M. T. Girardi (UFRGS) – Coordenação Geral
Ângela Camana (UFRGS)
Débora Gallas (UFRGS)
Eloisa Loose (UFPR)
Gisele Neuls (GPJA)
Reges Schwaab (UFOP)
Roberto Villar Belmonte (UFRGS)

Coordenação das Avaliações
Gisele Neuls (GPJA)
Reges Schwaab (UFOP)

Comissão Científica
Ilza Girardi (UFRGS)
Cláudia Herte de Moraes (UFSM)
Fabrício Ângelo (FIOCRUZ-AM)
Gisele Neuls (GPJA)
Leonel Aguiar (PUC-Rio)
Mônica Prado (UniCeub)
Reges Schwaab (UFOP)
Wilson Bueno (Umesp)

Olhares sobre o Jornalismo Ambiental: retrospectos, consolidações e perspectivas após uma década de SBPJor

Durante o 11º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo – SBPJor, a Comunicação Coordenada Olhares sobre o Jornalismo Ambiental: retrospectos, consolidações e perspectivas após uma década de SBPJor, organizada pela Profa. Dra. Isaltina Gomes (UFPE), reuniu cinco trabalhos. Os pesquisadores, de diferentes instituições, apresentaram reflexões conjuntas pela quarta vez na SBPJor, a segunda com um tema gerador para todos os artigos. Em 2013, a inspiração foram os 10 anos de Congressos da entidade de pesquisa em Jornalismo. Confira os trabalhos apresentados, já publicados nos Anais do evento.

Ementa: Considerando os 10 anos de trajetória da Associação Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo (SBPJor), esta mesa coordenada que reúne interessados nas questões socioambientais atreladas às práticas jornalísticas busca fazer um retrospecto dos caminhos percorridos pelo Jornalismo Ambiental na última década, assim como avaliar aspectos que remetem a consolidações e desafios atuais. Os primeiros encontros desta associação permitiram que muitos dos pesquisadores deste grupo se conhecessem e discutissem sob outras óticas, temas e enfoques da relação existente entre jornalismo e meio ambiente, ampliando e refinando as reflexões sobre este objeto de interface. Com o amadurecimento das análises, grupos de trabalho emergiram e, desde 2010, busca-se unir os trabalhos voltados para os estudos do Jornalismo Ambiental a fim de qualificar o debate e avançar em novas abordagens e ângulos de investigação.

1. O diálogo teórico entre jornalismo ambiental e o campo das ciências sociais

Antonio Teixeira de Barros (Câmara dos Deputados)

2. A pesquisa em Jornalismo Ambiental na região Sul do Brasil 

Ilza Girardi (UFRGS); Angela Camana (UFRGS); Eliege Fante (GPJA);  Patrícia Kolling (UFMT); Carine Massierer (GPJA); Claudia Herte de Moraes (UFSM e UFRGS); Giovani de Oliveira (UFRGS)

3. Espaço do jornalismo e problemáticas socioambientais em encontros da Compós (2003 – 2013)

Isaltina Maria de A. M. Gomes; Jean Fábio B. Cerqueira; Diego A. Salcedo; Natalia M. Flores; Priscila M. Medeiros (UFPE)

4. Análise do desenvolvimento da produção acadêmica da Intercom em jornalismo e meio ambiente: apontamentos sobre os últimos 10 anos 

Myrian Del Vecchio de Lima; Eloisa Being Loose; Danielle S. Mei; Thaís Schneider; Valéria Duarte; Higor Lambach (UFPR)

5. Leituras conceituais sobre jornalismo e ambiente

Dione Oliveira Moura (UnB); Reges Schwaab (UFOP); Noêmia Félix da Silva (PUC-GO e UnB)

 

II ENPJA – 29 a 31.maio.2014

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II ENPJA – Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental será de 29 a 31 de maio de 2014 em Porto Alegre. A FABICO/UFRGS sediará o encontro.

As inscrições serão abertas na última semana de março. Aguarde as atualizações sobre a programação de debates e painéis, detalhes para inscrição e apresentação dos trabalhos já selecionados. Acompanhe aqui pelo site todas as informações ao longo dos próximos dias.

O II ENPJA seria realizado em outubro de 2013, mas foi adiado por falta de financiamento. A Comissão organizadora entrará em contato com os proponentes de trabalhos aprovados para a agenda de apresentações.

II ENPJA – Divulgação de aceites e comunicado sobre adiamento do evento

Caros congressistas,

É com pesar que informamos que o II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental será adiado para o primeiro semestre de 2014. Sem o apoio das agências de fomento não dispomos dos recursos financeiros necessários para garantir o evento, transporte e hospedagem, não só dos integrantes das Comissões Organizadora e Científica, mas, em especial, de nossos palestrantes. Todos os pesquisadores que submeteram trabalhos ao II ENPJA foram comunicados da decisão via e-mail e estão recebendo suas cartas de aceite ou o resultado das avaliações.

A data e o local de realização ainda serão ajustados pela Comissão Organizadora do II ENPJA. Lamentamos não conseguir realizar o encontro de pesquisa junto com o V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental neste ano. Confiamos que conseguiremos os apoios necessários para uma edição vindoura do CBJA.

Informações sobre o V CBJA devem ser acompanhadas no site do evento. Para o II ENPJA seguiremos utilizando este espaço.

Confira a listagem de trabalhos aceitos para apresentação.

II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental

Coordenação
Gisele Neuls (Anhanguera-Uniderp)
Mônica Prado (UniCeub)
Reges Schwaab (UFOP)

Coordenação das Avaliações
Gisele Neuls (Anhanguera-Uniderp)
Reges Schwaab (UFOP)

Comissão Científica
Ilza Girardi (UFRGS)
Fabrício Ângelo (FIOCRUZ-AM)
Gisele Neuls (Anhanguera-Uniderp)
Leonel Aguiar (PUC-Rio)
Mônica Prado (UniCeub)
Reges Schwaab (UFOP)
Wilson Bueno (Umesp)

Pareceristas

Comunicações Livres
Daniela Vianna (Procam)
Dione Moura (UNB)
Ilza Girardi (UFRGS)
Leonel Aguiar (PUC-Rio)
Myrian Del Vecchio de Lima (UFPR)
Sonia Aguiar (UFS)
Wilson Bueno (Umesp)

Iniciação Cientifica
Eloísa Loose (UFPR)
Fabrício Ângelo (FIOCRUZ-AM)
Patrícia Kolling (UFMT)
Noêmia Felix (Unb)
Luiz Cláudio Ferreira (Uniceub)

Relatos de Práticas e Experiências
Carine Massierer (Emater/RS)
Cláudia Moraes (UFSM)
Eloísa Loose (UFPR)
Roberto Villar Belmonte (UFRGS)
Verônica Soares da Costa (UFOP)

Divulgação de aceites ENPJA

A Comissão Cientifica do II ENPJA comunica que o resultado da avaliação das submissões ao evento será divulgado até o dia 25/07 07.08.

O prazo de divulgação teve de ser ampliado considerando o adiamento do trabalho dos pareceristas após a ampliação do período de submissão, estendido até 30.06.

A página oficial do V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental já está no ar:  www.jornalismoambiental.org.br

Update: Comunicamos que houve atrasos na conclusão de alguns pareceres, todos justificados. Além disso, a terceira rodada de avaliação, quando ocorreu empate na primeira apreciação (por dois pareceristas), ainda está em andamento para alguns casos. Temos um número reduzido de pareceristas, porém todos dedicados a concluir no menor prazo possível. Esperamos ter o comunicado pronto o mais breve possível e agradecemos a compreensão.

* Atualizado em 26.07.13

Chamada de artigos II ENPJA

enpja-proSubmissões encerradas em 30.06. Aguarde novas informações.

II Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental
V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental – CBJA
Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental – RBJA

Chamada de artigos / Call for papers

A Comissão Científica do Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo Ambiental (ENPJA) torna pública a chamada de trabalhos para a segunda edição do evento, a ser realizada de 16 a 19 de outubro de 2013, em Brasília – DF. O evento é parte da programação do V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental (CBJA) e acolhe textos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que abordem temáticas concernentes aos eixos centrais do ENPJA e se encaixem em uma das três categorias de trabalho, conforme definido pelo presente edital.

1. Escopo, objetivos e ementa – Duas décadas depois da Eco-92, o tema do desenvolvimento sustentável segue em pauta na imprensa, na mídia e na política, tendo agregado novas pesquisas, descobertas, temas e desafios. Apesar disso, a necessidade de melhor orientar as interações entre a natureza e a sociedade em direção a um futuro mais sustentável é cada vez mais urgente. A Conferência do Rio do ano passado definiu como compromisso elaborar Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) para enfrentar este desafio. A comunicação, e especialmente o jornalismo, têm um papel relevante a desempenhar, na medida em que contribuem para a popularização do debate, bem como para a formação da opinião pública acerca das importantes decisões que precisam ser tomadas coletivamente.

Assim, o objetivo deste II ENPJA é realizar um balanço das pesquisas do Jornalismo e da Comunicação, bem como da cobertura da imprensa brasileira sobre este tema, e discutir o papel que o Jornalismo e a Comunicação desempenham na transição para um mundo mais sustentável. Convidamos os pesquisadores a enviar submissões que analisem todos os aspectos de comunicação relacionados à sustentabilidade, com particular interesse em estudos de Jornalismo, Educomunicação e Comunicação Socioambiental. Encorajamos contribuições de grupos de pesquisa, doutorandos, mestrandos e jovens pesquisadores. Artigos oriundos de pesquisas e reflexões fora do escopo desta chamada serão aceitos, desde que tratem de objetos relacionados a temas socioambientais e suas relações com o Jornalismo e a Comunicação.

2. Categorias para apresentação de trabalhos – Os interessados em apresentar trabalho no II ENPJA devem submetê-lo a uma das seguintes categorias:

2.1. Comunicações Livres – Acolherá textos propostos por doutores, doutorandos, mestres ou mestrandos.

2.2. Iniciação Científica – Reservada para trabalhos de graduados e graduandos, bolsistas de iniciação científica ou extensão. Em caso de trabalhos de graduandos é obrigatória a assinatura conjunta do orientador como segundo autor. A co-autoria do professor-orientador não inviabiliza sua participação como primeiro autor de proposta na sessão de Comunicações Livres.

2.3. Relatos de Práticas e Experiências – Sessão destinada a textos que reflitam sobre práticas, projetos ou ações em jornalismo ambiental ou comunicação ambiental, submetidos por profissionais da área não ligados a programas de pós-graduação e grupos de pesquisa.

Serão aceitos trabalhos com até três autores, exceto no caso de Grupos ou Projetos de Pesquisa devidamente registrados e identificados em nota de rodapé no texto. Cada autor somente poderá submeter um texto, com a ressalva para os casos de orientadores dos trabalhos de Iniciação Científica, conforme explicitado no item 2.2.

3. Submissão dos textos completos – Os trabalhos serão recebidos de 20 de abril a 10 de junho 30 de junho. Serão aceitos trabalhos em português e espanhol. Os interessados devem usar o template do evento, disponível aqui, seguindo obrigatoriamente as regras de formatação nele contidas. Os trabalhos devem ser enviados já revisados e no prazo estabelecido ao endereço enpja@jornalismoemeioambiente.com. Trabalhos que não utilizem o template e fora da formatação solicitada não serão avaliados.

4. Avaliação, seleção e publicação dos resultados – O processo de avaliação será gerenciado pela coordenação da Comissão Científica. Os trabalhos que estiverem adequados às regras estabelecidas serão avaliados em seu mérito científico no sistema double blind peer review, ou seja, por dois membros da Comissão e sem a identificação dos autores. Caberá ao coordenador do processo fazer a criteriosa distribuição dos trabalhos submetidos evitando conflitos de interesse (relações de orientação e de pesquisa). Serão consideradas aprovadas nas categorias Comunicações Livres e Relatos de Práticas e Experiências somente as comunicações que receberem dois pareceres favoráveis.

À critério da Comissão, trabalhos submetidos à categoria Iniciação Científica poderão receber sugestões de alterações, ficando seu aceite final condicionado aos ajustes e devolução no prazo estabelecido. Nesse caso, a não devolução do texto em segunda versão resultará em descredenciamento da listagem final de aceites. Não caberá recurso ao parecer da Comissão.

Casos de empate serão decididos por um terceiro parecerista indicado pela Comissão. O trabalho será avaliado sob os seguintes critérios: pertinência ao campo da pesquisa em comunicação e meio ambiente; relevância científica; explicitação do problema, objetivos e resultados; adequação da bibliografia trabalhada; qualidade da reflexão teórica e/ou empírica; explicitação e consistência da metodologia (quando pertinente); domínio da linguagem científica.

Serão selecionados até 48 trabalhos, tendo como diretriz os seguintes sub-totais: até 28 trabalhos para a categoria de Comunicações Livres; até 14 trabalhos para a categoria de Iniciação Científica; e até seis Relatos de Experiências.

6. Inscrição e publicação nos anais – Após a publicação da listagem definitiva de aceites, os autores dos trabalhos selecionados deverão efetuar sua inscrição no prazo estipulado, efetivando o pagamento da taxa de inscrição conforme as regras do V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental para garantir a publicação do texto nos Anais do evento. Na hipótese de aceitação do trabalho para apresentação no Congresso, automaticamente o(s) autor(s) estará(ão) outorgando à Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental o direito de reprodução do texto nos Anais do V Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental. Na hipótese de co-autoria, todos os autores que desejarem certificado, inclusive professores-orientadores, deverão efetuar sua inscrição no evento.

7. Síntese das datas (ano 2013)

Lançamento do edital: 02 de abril

Período de recebimento de trabalhos: 20 de abril a 10 de junho 30 de junho

Divulgação dos trabalhos aceitos:

a) Comunicações Livres (resultado final): 15 de julho
b) Relatos de práticas e experiências (resultado final): 15 de julho
c) Iniciação Científica – Fase 1: 15 de julho
– Período de ajustes para trabalhos aceitos com condicionantes (somente para Iniciação Científica): 15 de julho a 26 de julho
– Recebimento dos trabalhos após a revisão (somente para Iniciação Científica): 15 de julho a 26 de julho
– Divulgação final dos aceites para Iniciação Científica: até 05 de agosto

Inscrição para inclusão nos anais: 05 de agosto a 16 de setembro

Realização do II ENPJA: 16 a 19 de outubro.

7. Sobre a participação da Comissão Científica no ENPJA – Membros da Comissão Científica somente poderão submeter trabalhos em categorias nas quais não atuem como pareceristas. A coordenação, todavia, fica impedida de participar com artigos nesta edição.

8. Casos omissos – Os casos omissos serão decididos de forma colegiada pela Comissão Científica. Não caberá recurso ao julgamento da Comissão.

Brasília, 02 de abril de 2013.

Coordenação

Gisele Neuls (Anhanguera-Uniderp)
Mônica Prado (UniCeub)
Reges Schwaab (UFOP)

Comissão Científica

Ilza Girardi (UFRGS)
Fabrício Ângelo (FIOCRUZ-AM)
Gisele Neuls (Anhanguera-Uniderp)
Leonel Aguiar (PUC-Rio)
Mônica Prado (UniCeub)
Reges Schwaab (UFOP)
Wilson Bueno (Umesp)

NOVO: Orientações para elaboração de Relatos de Práticas e Experiências

*Atualizado em 03/06/2013.

CFP: 2º Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (EICA) – até 7 de abril

O 2º Encontro Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (EICA), a ser realizado na Universidade Federal de Sergipe (UFS), está recebendo propostas de trabalhos até 7 de abril (prazo ampliado). O evento, de 27 a 29 de maio de 2013, terá inscrições para participantes ouvintes até 24 de maio. O EICA é uma iniciativa do Laboratório Interdisciplinar de Comunicação Ambiental (LICA), em parceria com o Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFS e apoio financeiro da Fapitec-SE – Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe. 

A programação do 2º EICA será iniciada com uma conferência sobre Natureza, “economia verde” e justiça ambiental: dilemas contemporâneos, a cargo do economista equatoriano Alberto Acosta, professor e pesquisador da FLACSO – Faculdad Latinoamericana de Ciencias Sociales e autor do livro Buen Vivir o Sumak Kausai. O Encontro terá também quatro mesas temáticas e duas sessões de comunicações orais.

Veja todos os detalhes sobre o 2º EICA.

(com informações do site do evento).

XVIII CICOM – Communicating Climate Change: from Global Agenda to Media Representation

Call for papers para a Conferência Internacional de Comunicação. Nesta edição o tema geral é “Comunicar a mudança climática”. Veja os detalhes:

XVIII CICOM International Conference of Communication, Pamplona, November 7th-8th 2013

Communicating Climate Change: from Global Agenda to Media Representation

School of Communication, University of Navarra

Climate change (CC) has become one of the main challenges that the global village is facing today. Scientists have reached a significant agreement about the origins and magnitude of this process, whose consequences are already evident in many points all over the planet. However, research shows that there is a deficit of media coverage and information on CC and that its quality and effectiveness is not always suitable.

Among the factors that influence this information deficiency, it should be pointed out, among others, the intense politicization that CC treatment has undergone and the complexity of communicating the sciences involved in its study. These processes are influenced by guidelines and values regularly used in the exercise of, which occasionally struggle with scientific rigor of information and may become a burden for message effectiveness.

The XXVIII International Conference of Communication CICOM which will take place in Pamplona, Spain, November 7 & 8, 2013, will focus on the different aspects regarding the interaction between journalism and communication on environmental issues in general, and more particularly, on climate change.

The thematic areas proposed are the following:

– Social representation of environment and CC

– Environment, CC and media

– Journalism guidelines and values on the treatment of environmental information

– Source treatment and approach to environmental information

– Information interest on environmental issues versus scientific rigor

– Images and icons of environment and CC

Paper proposals should be submitted no later than June 15th 2013 by email to the Conference’s address: cicom@unav.es.

Maximum length for the abstract will be 700 words including keywords. Accepted abstract will be contacted by July 15th 2013.

For further information about CICOM program and related events check up at: website: http://www.unav.edu/web/facultad-de-comunicacion/cicom-eng

You are kindly welcome to share this information with potentially interested colleagues and academic partners.

Dossiê Razón y Palabra: comunicação e desafios ambientais

A revista mexicana Razón y Palabra dedicou seu número 29 (maio/julho 2012) ao tema “Importância de la comunicación y sus interfaces con los desafios ambientales”, em dossiê coordenado por Elizabeth Oliveira. Clique aqui para ler a apresentação da edição e nos títulos a seguir para acessar cada artigo.

BASES DO JORNALISMO AMBIENTAL E OS DESAFIOS PARA A COBERTURA DA RIO+20
Ilza Maria Tourinho Girardi
Cláudia Herte de Moraes
Eloísa Beling Loose

LA OLA DE CALOR DE 2003 EN ESPAÑA, ENTRE LA REALIDAD BIOFÍSICA Y EL RECONOCIMIENTO MEDIÁTICO
Rogelio Fernández Reyes

MÍDIA, SOCIEDADE DE RISCOS E OS DESAFIOS DOS RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO BRASIL
Maria Daniela de Araújo Vianna

COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL E SUSTENTABILIDADE: ESTUDO DE CASO DO RELATÓRIO 2010 DA BRITISH PETROLEUM
Luiz Antônio Gaulia
Leonel Azevedo de Aguiar

COMUNICAÇÃO E SUSTENTABILIDADE: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS
Wilson da Costa Bueno

ANÁLISE DE DISCURSOS ESPECIALIZADOS EM MEIO AMBIENTE: COMO O JORNALISMO AMBIENTAL PODE CONTRIBUIR PARA UM NOVO OLHAR
Eloisa Beling Loose

LIFE EVENTS AS WINDOWS OF OPPORTUNITY FOR SUSTAINABLE CONSUMPTION AS ILLUSTRATED BY AN EXHIBITION AND A NUTRITION CAMPAIGN
Lisbeth Oliveira

O LUGAR DAS REVISTAS BRASILEIRAS NO DISCURSO SOBRE O VERDE
Reges Schwaab

O SILÊNCIO DOS AFOGADOS. O DESAPARECIMENTO DA POPULAÇÃO RIBEIRINHA NO NOTICIÁRIO SOBRE A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE GARABI
Carlos Dominguez

DA REDE À RUA: A REAÇÃO CONTRA O CÓDIGO FLORESTAL NAS REDES SOCIAIS E A COBERTURA DA MÍDIA
Ana Carollina Campos Leitão

A IMPORTÂNCIA DO JORNALISMO DE QUALIDADE NA REDUÇÃO DE RISCOS E DESASTRES
Juliana Frandalozo Alves dos Santos

EM NOME DO BEM COMUM: A COMUNICAÇÃO COMO MEIO PARA AMPLIAR E VALORIZAR AÇÕES DE CONSCIENTIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL
Antonio Carlos Teixeira

APRENDIZADO PARA A SUSTENTABILIDADE
Vilmar Sidnei Demamam Berna

Uma homenagem a Adrian Cowell

Assista ao especial do programa Cidades e Soluções, da Globo News, sobre o valioso trabalho do documentarista Adrian Cowell na Amazônia. Entre seus importantes trabalhos está “A década da destruição”, série sem precedentes abordando o abuso de uma nação na região amazônica. Um documento importante produzido por André Trigueiro e equipe. Assista aqui.

Comunicação Coordenada “Jornalismo e problemáticas socioambientais” na SBPJor 2011

A Comunicação Coordenada “Jornalismo e problemáticas socioambientais” integrará a programação do 9º Encontro da SBPJor, de 3 a 5 de novembro, no Rio de Janeiro. O grupo é formado por pesquisadores que integraram a Coordenada do ano passado e novos autores. Teremos seis trabalhos sendo debatidos na tarde de 4 de novembro. A ementa da Coordenada e a listagem de trabalhos vai a seguir. Os textos serão disponibilizados aqui após o evento.

Ementa: Junho de 2012 marca os 20 anos de realização da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio 92, período em que os dilemas ambientais ganharam maior visibilidade. Diferentes atores têm empreendido uma disputa pública por nomear a questão da forma mais adequada. A luta ecológica, surgida no clima de contracultura dos anos 1960 e 1970, capilariza-se em novas formas de ação social, quer na busca por legitimidade de movimentos “verdes”, grupos e populações tradicionais, quer na entrada do setor empresarial na temática. Diante dos interesses difusos estão os governos, e um esperado papel de negociação. Mesmo emergindo em diferentes campos, é no exercício da comunicação que as problemáticas socioambientais são atualizadas, por meio da produção de jornalistas, em espaços tradicionais, ou de múltiplos sujeitos, por meio de novas tecnologias da informação. E além de promover mediação, o jornalismo toma a complexa relação sociedade-natureza como objeto, para além da formulação de conteúdos informativos. O conjunto de trabalhos desta coordenada instala sua discussão nas controvérsias geradas pelo tema, pensando suas implicações nas práticas jornalísticas, nas narrativas e na reflexão acadêmica na área.

Palavras-chave: Jornalismo, meio ambiente, práticas jornalísticas, discurso, problemáticas socioambientais.

Trabalhos:

Análise dos estudos sobre jornalismo ambiental: primeiras incursões – Sonia Aguiar

Mudanças no olhar da imprensa pernambucana sobre Suape: do desenvolvimentista ao socioambiental – Isaltina Maria de Azevedo Melo Gomes; Débora Souza Britto; Eutalita Bezerra da Silva; Júlia Arraes de Alencar; Raíssa Ebrahim dos Santos

Discursos e vozes por trás das COP-15 e COP-16 – Ilza Maria Tourinho Girardi; Ângela Camana; Carine Massierer; Cláudia Moraes; Eloisa Beling Loose; Gisele Neuls; Laura Gertz

De outros Olhares? Representações do ambientalismo em imagens de sites indígenas da Amazônia – Isac de Souza Guimarães Júnior

O valor do verde no saber dizer de revistas da Abril – Reges Schwaab

Redefinições do jornalismo ambiental: abordagens teóricas e rotinas produtivas – Antônio Teixeira de Barros

Continue Lendo “Comunicação Coordenada “Jornalismo e problemáticas socioambientais” na SBPJor 2011″

Os testemunhos na cobertura das catástrofes ambientais

Texto de Márcia Franz Amaral (UFSM), apresentado no GT Estudos em Jornalismo, no 20º Encontro da Compós.

Resumo: O trabalho analisa as especificidades dos discursos dos testemunhos nos acontecimentos das catástrofes climáticas nas revistas semanais. A partir da noção do testemunho como um discurso sobre uma experiência singular, refletimos sobre o teor testemunhal presente nas matérias relacionadas à tragédia provocada pelos deslizamentos nos municípios serranos do Rio de Janeiro em janeiro de 2011.  Caracterizamos os testemunhos e os cotejamos com as manifestações das fontes do tipo expert. Mostramos como a experiência, aparentemente fonte do sentido, configura-se numa rede discursiva que constrói o acontecimento catastrófico.

Acesse aqui.

Bibliografia espanhola: Rogelio Fernándes Reyes

O blog compartilha alguns textos enviados pelo jornalista Rogelio Fernándes Reyes, de Sevilha, Espanha. Rogelio Fernándes Reyes é Doutor em Jornalismo pela Universidade de Sevilha e pela Universidade Pablo de Olavide e é bacharel em Jornalismo pela Universidade Complutense de Madrid. Tem interesse na nova cultura de sustentabilidade e o papel que a comunicação pode desempenhar. Dedica-se, ainda, ao tema “juventude e drogas”. Ele gentilmente indicou alguns artigos e sua tese de doutorado, listados e linkados a seguir:

FERNANDEZ Reyes, Rogelio (2002), Periodismo Ambiental y Ecologismo: Tratamiento informativo del vertido de Aznalcóllar en El País, edición de Andalucía. Tesis doctoral de la Facultad de Ciencias de la Información de la Universidad de Sevilla, 2002. Link.

FERNANDEZ Reyes, Rogelio   (2009), El cambio climático en editoriales de prensa. Ecología Política y Periodismo Ambiental: una propuesta de herramienta de análisis. Tesis doctoral defendida en la Universidad Pablo de Olavide, 2009.

Artigos:

(2010), “La sostenibilidad: una nueva etapa en el periodismo ambiental y en el periodismo en general”, en DELOS, Vol 3, nº 8. Link

(2010): “Irrupción mediática y representación ideológica del cambio climático en España”, en Contribuciones a las Ciencias Sociales, octubre 2010. Link

(2010), “Reconocimiento y cuestionamiento mediático del cambio climático en España”, en Contribuciones a las Ciencias Sociales, diciembre 2010. Link

(2011), “La función formativa o educativa en el periodismo ambiental”, en Contribuciones a las Ciencias Sociales, marzo 2011. Link

Jornalismo e ambiente: a proximidade distante entre os estudos brasileiros e portugueses (resenha)

Jornalismo e ambiente: a proximidade distante entre os estudos brasileiros e portugueses é o título da resenha que assino na edição 2010/2 da Revista Matrizes, da USP. O texto traz algumas considerações sobre  o livro Jornalismo e ambiente: análise de investigações realizadas no Brasil e em Portugal, de Antonio Teixeira de Barros e Jorge Pedro Sousa (Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, 2010, 112 p.), já indicado aqui no blog.

Leia a resenha aqui.

O livro também foi resenhado por Maria Érica de Oliveira Lima na atual edição da Revista Intercom. Leia aqui.