O problema dos agrotóxicos não está somente na comida

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1
Por Nicoli Saft*

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou que “nenhum consumidor está sendo intoxicado” por agrotóxicos. Sua fala vem após a adoção de novas regras de classificação dos pesticidas, que na prática diminuiu de 702 para 43 o número de agrotóxicos extremamente tóxicos . Com a nova classificação, apenas os produtos letais são caracterizados como “extremamente tóxicos”. Os produtos que causam úlceras, corrosão na pele e opacidade da córnea também eram classificados assim. As informações dos rótulos destes produtos também terão novo sistema, com a adoção de símbolos, por exemplo.

Resolvi tratar nesse texto não apenas de uma ou duas matérias, mas tratar do contexto, algo que falta nas três matérias da Folha linkadas acima. A ministra fala sobre o perigo de se alardear que a “comida está envenenada”, que isto seria um desserviço para o Brasil e que poderia prejudicar a imagem do país perante o mercado internacional. Entretanto, um dos grandes problemas do uso de agrotóxicos e das novas regras de classificação não está no consumidor final. Está na aplicação.

Na última segunda-feira, dia 5, também foi publicada uma reportagem no jornal El País Brasil sobre uma aldeia Guarani Kaiowá que foi intoxicada por uma nuvem de pó de calcário e agrotóxicos. A aldeia Guyraroká está localizada em Caarapó, no Mato Grosso do Sul, e aguarda a demarcação de suas terras. A escola da comunidade está a 50 metros da cerca que separa o território indígena de uma fazenda. As crianças comiam merenda quando a nuvem chegou e foram as primeiras a serem atingidas. Em poucos minutos, toda a aldeia ficou coberta de poeira, inclusive as hortas. Vários indígenas, principalmente crianças e idosos, apresentaram sintomas de intoxicação por pesticidas – enjôos, irritação na pele, diarreia e dores de cabeça. Animais, como cães e galinhas, morreram. E falamos somente dos sintomas imediatos, pois a poeira também está ligada a problemas respiratórios.

A Guyraroká é cercada por plantações de cana, soja e milho e os cerca de 120 Guarani Kaiowá que vivem na aldeia são constantemente expostos a pesticidas, que são aplicados por aviões e tratores. Na reportagem, uma senhora da aldeia conta que recorrem a raízes e plantas medicinais para tratamento, pois o acesso a médicos e remédios é difícil. Entretanto, ela tem medo de que logo não restará mais essas plantas, pois as “nossas florestas estão virando pastos e lavouras”.

Com os cortes de orçamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), funcionários que atendam os indígenas são raros. Na região de Caarapó, com cerca de 10 mil indígenas e grandes conflitos, só há uma servidora da Funai . E quando os índígenas buscam o hospital regional, sofrem ameaças. Os fazendeiros chegam a pedir aos funcionários para não os atenderem ou darem remédios trocados.

E não são somente indígenas que sofrem com a pulverização de pesticidas em áreas impróprias. Reportagem da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil aponta que agrotóxicos estão sendo utilizados como arma química no Pará. Três acampamentos de agricultores sem-terra de uma comunidade quilombola foram alvos de ataques desde 2013. A reportagem trata do caso do acampamento Helenira Rezende, localizado na zona rural do município de Marobá, nas terras do complexo Cedro, área reivindicada pela Agropecuária Santa Bárbara Xinguara S.A., empresa que pertence ao banqueiro Daniel Dantas. Cerca de 150 famílias foram vítimas do que chamam de “ataque químico”, ocorrido no dia 17 de março de 2018. Segundo os moradores, uma pequena aeronave sobrevoou a região durante toda a tarde, pulverizando agrotóxicos. A disputa judicial que trata dessas terras já completou 10 anos.

A guerra travada entre latifundiários e indígenas, entre latifundiários e agricultores sem terra, entre latifundiários e pequenos agricultores não é novidade. Em julho, se atingiu o número recorde de 290 ‘defensivos agrícolas” aprovados. Com as novas regras, os aplicadores saberão quais os produtos letais e quais os que “apenas” causam úlceras. O jornalismo brasileiro tradicional precisa entender que agrotóxicos não são apenas sobre alimentos, podemos observar que os agrotóxicos estão sendo utilizados até mesmo como armas pelos grandes fazendeiros. Para problematizar os agrotóxicos deve-se pensar também nos conflitos territoriais brasileiros e em quem sofre na pele com isso.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
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Desmatamento: o jornalismo precisa nos aproximar da Amazônia. 

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no site G1.
Por Patrícia Kolling*

O desmatamento na Amazônia, a partir de dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), foi a principal pauta política e ambiental da semana. Conforme matéria publicada na Folha de São Paulo, com base em imagens de satélite, o órgão federal mostrou que mais de 1.000km2 de floresta amazônica foram derrubados na primeira quinzena do mês de julho deste ano, um aumento de 68% em relação a julho de 2018. O valor mensal registrado em julho de 2019 é o mais alto da série divulgada desde agosto de 2015. Os dados mensais são do Deter, órgão do Inpe, que não mede o desmatamento, mas indica tendência de desmatamento, para auxiliar na fiscalização.

A divulgação dos dados gerou uma crise política no Brasil, que culminou com a exoneração do diretor do Inpe, Ricardo Galvão, na última sexta-feira, dia 02. Sobre os dados do Inpe, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o percentual de aumento de desmatamento obtido pelo sistema Deter não condiz com a verdade. O Presidente da República também questionou o órgão federal.

Diante desta e de outras crises criadas atualmente sobre as questões ambientais, é necessário que o jornalismo se posicione pela informação e conscientização dos cidadãos brasileiros. Mas o que se vê em muitos veículos jornalismo é o que chamamos de jornalismo declaratório, reproduzindo somente as falas do ministro, do presidente, de representantes de órgãos ou autoridades. Na matéria apresentada acima, a maior parte do texto foca nas falas e respostas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que é destacada no título, do ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, do diretor do Inpe, Ricardo Galvão. Busquei na Folha de São Paulo outras matérias a partir das palavras Amazônia e desmatamento e não encontrei nenhuma que aprofundasse, contextualizasse e simplificasse os dados do Inpe. Essa característica não é exclusividade deste jornal, e nem desta temática, mas de vários meios de comunicação. Para entendermos quem das autoridades acima está falando a verdade, precisamos de apuração detalhada e aprofundada e não apenas saber o que um disse e o outro falou.

A maioria dos brasileiros mora longe da Amazônia. Não tem a mínima ideia do que 1000 km2 de desmatamento em quinze dias na Amazônia pode representar em suas vidas. O que o desmatamento tem a ver com as secas frequentes? Com o aumento das temperaturas? Com a falta de água nas torneiras do sudeste? Como interfere nos mananciais das águas e assoreamento dos rios? E para os que moram na Amazônia, o que esses números representam? O que isso representa para as famílias extrativistas, tradicionais e indígenas que lá vivem? As áreas desmatadas se transformarão em que: pastagens e lavouras de soja? Que impactos essas atividades tem na região e na emissão de gases poluentes? Como nós, através dos produtos que consumimos, estamos contribuindo com esse desmatamento? Essas são algumas questões que nos surgem quando vemos dados sobre desmatamento na Amazônia que precisam ser respondidas pelos meios de comunicação para que a sociedade brasileira compreenda o tema e se posicione de forma cidadã.

Jornalisticamente, a pauta é quente, os dados são atuais e a oportunidade de produzir reportagens sobre o assunto é evidente. E a mídia internacional compreendeu muito bem essa oportunidade de aproximar o mundo da Amazônia. A revista Economist tratou o tema com reportagem de capa , contextualizando a crise política com informações ambientais. Os jornais The New York Times e The Guardian também abordaram o assunto.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

A humanidade consome demais e o jornalismo questiona muito pouco

G1

Imagem: Captura de tela – Notícia publicada no G1
Por Eloisa Beling Loose*

Hoje, dia 29 de julho, muitos veículos de comunicação estão reportando a sobrecarga da Terra, limite máximo de uso dos recursos naturais que podem ser renovados sem gerar problemas ao meio ambiente (e, por consequência, à vida dos homens neste planeta). Em 2019, essa data-limite veio três dias antes que no ano de 2018.

O G1 apresenta como manchete: Planeta atinge esgotamento de recursos naturais mais cedo em toda a série histórica e o Uol aponta que: Humanidade já esgotou recursos do planeta para este ano, diz ONG. Os dois sites de notícias mais acessados do Brasil lembram que estamos consumindo 1,75 planeta por ano, sendo que nosso déficit com a natureza data da década de 1970.

O alerta, contudo, não é recorrente na prática jornalística, que tende a naturalizar o pensamento dominante de que é preciso crescer para se desenvolver. Embora o jornalismo tenha compromisso com os interesses sociais, na lógica hegemônica, na qual está inscrito, consumir é status e até solução para os problemas econômicos, políticos e sociais.

Se observarmos as editorias de Economia, por exemplo, a ênfase está no mercado e não em uma forma cooperativa e/ou equilibrada de gerir conjuntamente as necessidades da sociedade com aquelas do meio ambiente. A finitude dos recursos não é debatida, criando a falsa impressão de que nosso padrão atual é viável. O consumismo quase nunca é pauta, pois foi incorporado ao estilo de vida moderna e à própria sustentação econômica das empresas jornalísticas, dependentes por muitos anos das verbas publicitárias. As diferenças abissais de consumo entre os países também tendem a ser ocultadas e o contrário – o incentivo a um modo de vida com mais supérfluos e propenso a mais exageros – parece ser visibilizado de forma acrítica.

Apesar de as notícias de hoje sinalizarem para os custos desse excesso, advertindo para a extrapolação que estamos fazendo ano a ano e sugerindo que os indivíduos calculem sua pegada ecológica, o jornalismo não consegue avançar nessa discussão mesmo tendo uma data como gancho. Os impactos ambientais são decorrentes de políticas, de negócios, de acordos internacionais que favorecem a extração da natureza a baixo custo e a subjugação da força de trabalho da maioria dos países do mundo em detrimento de outros poucos. Cada um pode e deve fazer a sua parte, porém isso inclui as instituições e os governos. Questionar o sistema também é papel dos jornalistas.

Os silenciamentos da imprensa quanto às lógicas que conduzem a nossa realidade social produzem lacunas de entendimento e a falta de caminhos para enfrentar as situações postas pode gerar apatia – ou, o que é pior, a sensação de que não há alternativa. O que as notícias do G1 e do Uol não mencionam é que há estudos que mostram que ainda podemos reverter o quadro. De acordo com a Global Footprint Network, é possível que a Terra consiga recuperar seu equilíbrio antes de 2050, caso a gente consiga adiar o Dia de Sobrecarga de apenas cinco dias todos os anos. Para tanto, uma campanha chamada Steps to #MoveTheDate lista uma série de ações concretas para alterarmos esse cenário.

Para além de expor as problemáticas, as soluções devem aparecer e ultrapassar os comportamentos individuais. É importante refletir e investigar sobre o que mantém o consumo exacerbado da sociedade mesmo diante da informação de que isso não é uma realidade possível para todos – e nem mesmo para uma minoria a longo prazo.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Jornalismo torna complexo o olhar para a peleteria

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no Portal G1
Por Eutalita Bezerra*

Há muitos anos foi extinta a necessidade humana de proteger-se usando pele de animais. Apesar disso, este ainda é um dos argumentos utilizados em defesa da peleteria, atividade que extrai tecido animal para vestimenta. Na reportagem publicada no último dia 18, no Portal G1, esta explicação ainda aparece, porém, já se percebe certa vontade de mudança.
Impondo à atual juventude – os chamados Millennials – a responsabilidade pela pressão sobre as indústrias de moda, a reportagem afirma que vem do ativismo e da preocupação com a sustentabilidade desta geração a redução do uso de pele animal na moda. Contando com fontes como a Peta – e citando grandes labels, tais como Burberry, Gucci, Michel Kors e, mais recentemente, Chanel, o texto admite um recuo na utilização de couros considerados exóticos, extraídos, dentre outros, de cobras, lagartos e crocodilos. Os demais tipos de pele e outros tecidos provenientes de animais, como lã e seda, são citados muito brevemente, o que nos parece uma tentativa de tornar o questionamento mais palatável. Pudera: basta uma pesquisa rápida e se sabe, conforme o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, por exemplo, que o Brasil, conta com mais de 260 estabelecimentos do ramo e exporta mais de 2 bilhões de dólares por ano em couro para 80 países.
Porém, trazendo uma professora de moda da FAAP, a reportagem consegue navegar nos meandros da questão. Isto porque apresenta o consumo de pele animal como insustentável, com grandes danos ao meio ambiente, além do próprio sofrimento animal e do excessivo consumo de água. Afirma, ainda, que não é suficiente trocar o couro animal pelo sintético, que vem de matéria-prima derivada de petróleo.
E, o que mais nos agrada: se preocupa em apontar caminhos. Apresentando o couro de abacaxi, material preparado com as fibras das folhas do vegetal, como parte das coleções de grandes marcas, o jornalista mostra ao seu leitor que é possível, mesmo dentro da lógica de consumo atual, repensar a relação entre consumidores e insumos. O piñatex, que já foi tema de reportagem na Forbes e na Exame, é produzido nas Filipinas como subproduto da agricultura. Sua criadora, a designer Carmem Hijosa, trabalhou durante anos na indústria do couro animal, antes de buscar outras alternativas.
Podemos dizer que o jornalista se preocupa em olhar para os diversos viéses da situação e o faz com algum fôlego. Complexifica o assunto. Escolhe suas fontes com clareza daquilo que busca. Fala de moda trazendo à luz da Ciência. Fala de sofrimento animal como demonstração da insustentabilidade atual. Fala de indústria e suas controvérsias. E fala de futuro apresentando caminhos.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

No tempo das catástrofes, jovens jornalistas questionam critérios de noticiabilidade

Fonte: Captura de tela de notícia publicada no portal Humanista
Débora Gallas Steigleder*

No último dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, participei do podcast #ConversaHumanista, produzido por estudantes da disciplina Laboratório de Jornalismo Convergente, do curso de Jornalismo da UFRGS. Em pauta, por ocasião da data, a cobertura jornalística sobre meio ambiente no Brasil. Representando o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental, dividi a mesa com a estudante Camila Souza, que reportou ao portal Humanista as ameaças à produção agroecológica, a comunidades rurais e urbanas e à conservação da biodiversidade representadas por um grande empreendimento de mineração de carvão nas adjacências de Porto Alegre – assunto sobre o qual temos nos debruçado neste Observatório.
A reportagem do Humanista apresenta abordagem sistêmica diante do risco multifacetado que envolve o projeto. Assume um lado – o direito de existência das comunidades humanas e não-humanas – e dá voz ao contraditório, ouvindo o representante da mineradora Copelmi. Reconhece que a pluralidade de vozes vai além da pluralidade de fontes ao mapear a diversidade da produção agroecológica no assentamento Apolônio de Carvalho, no município de Eldorado do Sul, e relacioná-la à luta das famílias ali estabelecidas. Neste sentido, traz um relato sobre o modo de vida local, buscando proximidade leitores – quem mora em Porto Alegre, por exemplo, pode identificar consequências diretas da mineração em sua própria vida por conta da potencial contaminação da água e de alimentos.
E, mais importante do que corresponder individualmente a preceitos que identificamos como próprios do jornalismo ambiental, vemos que a reportagem foi apenas um primeiro movimento de cobertura contínua sobre o tema. O Humanista repercutiu a Audiência Pública realizada em Eldorado do Sul em 27 de junho e vem aproveitando o gancho para aprofundar o assunto, como nesta entrevista com Rualdo Menegat, autor do Atlas Ambiental de Porto Alegre. Este foi um desafio que apontamos como central ao jornalismo durante o #ConversaHumanista. Por que falar sobre problemas ambientais somente no dia 5 de junho? Por que limitar a cobertura à repercussão de crimes ambientais como os das mineradoras Samarco e Vale e não aprofundar os questionamentos sobre o sistema político e econômico em que vivemos, o qual permite relativizar a importância da precaução sob o pretexto do lucro financeiro?
O futuro é agora, e cabe orientarmos os jornalistas em formação a repensarem e atualizarem os critérios de noticiabilidade que engessam a agenda de repórteres e nos distanciam de um valor comum – a viabilidade de nossa existência neste planeta. Neste contexto, bem-vindas são as iniciativas que reconhecem a inovação no jornalismo como o fomento de uma consciência crítica da realidade, para além da mera inserção de gadgets e ferramentas tecnológicas na rotina de trabalho.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Projeto de megamina na região metropolitana de Porto Alegre merece maior aprofundamento pela grande imprensa

Fonte: Reprodução de ILEA UFRGS Vídeos.
Por Eliege Fante*

Audiências públicas já foram realizadas em Charqueadas e Eldorado do Sul (RS) onde o projeto Mina Guaíba da Copelmi é endereçado. Mas, Porto Alegre também reivindica a realização de uma audiência pública, cuja zona central fica a apenas 16 km da proposta de megamina de quase cinco mil hectares. Em geral, as notícias da grande imprensa têm abordado a geração de renda, empregos e novas tecnologias conforme a divulgação da empresa, e a poluição e os riscos impressos no projeto segundo técnicos ambientais. Contudo, ainda há muito a ser dito e debatido. Para tentar dar conta da complexidade entorno da tomada de decisão sobre autorizar ou não o projeto, jornalistas podem recorrer ao trabalho dos pesquisadores do Grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade da UFRGS (TEMAS), protocolado no último dia 4 na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), órgão responsável pelo licenciamento ambiental. Trata-se de um contra laudo sobre o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) do projeto Mina Guaíba da Copelmi. A motivação decorre das inconsistências e erros percebidos pelos professores e pesquisadores.

A própria Fepam tem estudos em andamento sobre a mineração no Estado (Programas e Projetos, no site). Por se tratar de um projeto de implantação da maior mina a céu aberto da América Latina, seria pertinente apurar estes dados acumulados e a situação ambiental e econômica das regiões. Conferir a qualidade do ar, do solo e da água, bem como da saúde das comunidades afetadas, como se fosse uma radiografia da mineração gaúcha. No livro da Fepam de 2002, Meio Ambiente e Carvão, Impactos da exploração, o então diretor-presidente da Fundação, Nilvo Luiz Alves da Silva, alertava: “Um desenvolvimento energético sustentável significa que devemos ir além de algumas questões tradicionalmente abordadas como viabilidade técnica e econômica. O processo deve incorporar os impactos no ambiente e na saúde, esgotamento de fontes energéticas, equidade intra e intergeracional e a definição das políticas públicas relativas ao setor.”.

A questão intergeracional também preocupa o geólogo, professor e pesquisador da UFRGS, Rualdo Menegat. “O projeto não garante sustentabilidade ambiental, não convence do ponto de vista técnico, o EIA-Rima não é confiável. É uma injustiça geracional enorme, podemos deixar este problema para nossos filhos e netos gerenciarem este passivo daqui a 23 anos? Temos este direito?” Estas e outras questões levantadas por Menegat, como a do uso da água de dois aquíferos (Quaternário e Rio Bonito) pela pretendida Mina Guaíba, merece ser considerada pela grande imprensa com o aprofundamento correspondente à importância que o recurso tem para a vida. Menegat pergunta se não seria o caso de optarmos pela conservação deste recurso imprescindível já que a capital e municípios vizinhos têm o abastecimento dependente do Lago Guaíba. Ainda mais, diz ele, que não há plano de substituto em caso de haver uma impossibilidade para a captação. Antes da autorização do projeto pelo órgão licenciador, há respostas cruciais a serem buscadas. De fato, uma audiência pública em Porto Alegre poderia proporcionar este espaço.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

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Sobre o desmatamento do Bioma Pampa: é possível fazer jornalismo para além do senso comum

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S.Paulo
Por Ursula Schilling*

Repetidas vezes, em nossas análises para este observatório, damo-nos conta de um cenário nada animador, de acordo com o qual as pautas ambientais carecem de espaço na mídia e, quando o recebem, esses espaços trazem abordagens superficiais, enviesadas (com uma olhar desenvolvimentista ou da dita economia verde), sem propor um verdadeiro debate sobre o tema.
Mas se isso é verdade, também é verdade que há sinais de que um jornalismo sério e comprometido com a qualidade da informação não só é possível, como já existe em alguns casos. Um exemplo disso é a matéria “Pampa gaúcho sofreu desmate de 44%, aponta novo monitoramento do Inpe“, de autoria da jornalista gaúcha Paula Sperb, para a editoria de ambiente do site do jornal Folha de S.Paulo. Publicado em 5 de junho, o texto trata da questão do desmatamento do Bioma Pampa, trazendo dados inéditos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe, segundo o qual, em 2016, 43,7% da vegetação nativa já estava suprimida, ou seja, desmatada.
O interessante da matéria não são os dados em si – o que já é “positivo”, uma vez que não se ouve ou não se lê comumente sobre o Bioma Pampa em veículos jornalísticos de referência – mas o fato de eles não virem sozinhos. Mesmo que de forma sucinta, há uma problematização do tópico, uma vez que são apontadas algumas das possíveis causas da destruição do Pampa, um dos seis biomas brasileiros, que só existe no Rio Grande do Sul.
A começar, o texto destaca, brevemente, o que é o Bioma Pampa, para que o leitor minimamente se situe, entenda do que se trata e, mais que isso, perceba a dimensão do que é tratado. Pode não parecer importante, mas quando o assunto são questões ambientais, trazer para a realidade próxima, explicar termos não muito conhecidos, faz diferença para que as pautas não sejam tão abstratas ou distantes para quem as lê. Além disso, há uma explicação sobre os impactos do desaparecimento desse bioma, envolvendo, até mesmo, questões culturais, geralmente tão caras ao povo gaúcho.
Em seguida, Sperb traz a fala de um professor da Universidade Federal do Pampa – Unipampa, apontando que o Bioma Pampa está perdendo espaço para o plantio de soja. Aqui, o trecho é duplamente interessante, pois além de apontar uma das possíveis causas para a destruição do bioma, ainda levanta, paralelamente, a problemática das monoculturas, hoje ainda pouquíssimo abordada. Vale destacar que a expressão “monocultura da soja” vem com link para um texto intitulado “Terras indígenas foram invadidas com soja transgênica, conclui Ibama”.

Imagem – Captura de tela de notícia publicada no site Folha de S. Paulo

A notícia publicada por Sperb é curta, mas isso também é uma prova de que não são necessárias extensas reportagens para que se aborde um tópico com o mínimo de aprofundamento e problematização, saindo do senso comum. Até porque um assunto não há de se encerrar numa única abordagem. Trazer à luz, sistematicamente, temas que precisam de repercussão e espaço, como são os relacionados ao meio ambiente, é um princípio importante para proporcionar ao leitor um conhecimento mínimo acerca dessas questões e, com o tempo, o espírito crítico que se espera que o bom jornalismo nos ajude a desenvolver.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).