A articulação entre meio ambiente e saúde para um mundo pandêmico

Fonte: Wikimedia Commons
Por Michel Misse Filho*

Uma breve visita aos principais jornais e sites do Brasil e do mundo mostra, indubitavelmente, que quase não há outro assunto possível senão a pandemia instalada em função do novo coronavírus. A pauta ambiental chegou a conseguir algum espaço na grande mídia, sobretudo com as supostas “boas notícias” das claras águas dos canais de Veneza e a diminuição da poluição do ar – temas já tratados neste Observatório.

Tendo em vista sua capacidade de letalidade em curto prazo, o alastramento da pandemia assusta o mundo, em poucos meses, talvez de forma mais intensa do que a própria crise climática. Não nos confundamos, contudo: é fato de que se trata de assuntos complementares, não excludentes. A conexão é feita, por exemplo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao identificar o coronavírus como zoonótico (transmitido de animais para pessoas) e, portanto, “reflexo da degradação ambiental”. Aproveitemos a oportunidade para realçar o caráter interdisciplinar que compreende a questão ecológica, umbilicalmente ligada às áreas de saúde e ciência. No jornalismo não é diferente, tendo em vista a raiz comum do jornalismo científico, a que as áreas de saúde e meio ambiente se nutriram enquanto especialização temática.

Importa saber que, concomitantemente, problemas ambientais são também problemas de saúde pública. Lembremos, por exemplo, uma matéria de janeiro do G1, na editoria de “Ciência e Saúde”, sobre o descobrimento de 28 vírus desconhecidos nas geleiras do Tibete. A notícia – que sequer menciona o covid-19- alerta para a possibilidade de que, com a crise climática e o derretimento dos gelos glaciais, uma série de vírus sejam liberados e contaminem seres humanos. O perigo do derretimento do permafrost não é um assunto totalmente novo, mas que talvez ganhe outra dimensão no cenário pós-pandemia. A relação entre preservação ambiental e a disseminação de doenças também foi abordada por esta reportagem do canal “Repórter ECO”, de 25 de março, cujo foco é na disseminação de vírus a partir da destruição de habitats específicos aos quais ficavam restritos. 

O contrário é igualmente verdadeiro: problemas de saúde também dizem respeito ao meio ambiente. Vemos como exemplo, nesta notícia do site O Eco, publicada dia 25 de março, a preocupação de cientistas para a proteção dos grandes símios (chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos), ameaçados de extinção, e possivelmente suscetíveis a patógenos que afetam seres humanos. A carta foi publicada por 26 cientistas na revista Nature e, apesar de sugerirem o fechamento de parques nacionais e reservas, a questão se torna ainda mais complexa pela possibilidade de, sem presença humana, aumentar o risco de caça a esses animais.   

    Parece-nos ainda cedo para especular sobre como os assuntos ambientais serão tratados após a atual crise. Cenários de generalizada conscientização global a favor das pautas ambientais podem soar otimistas e utópicos em excesso, apesar de serem o horizonte a ser buscado. Independente de projeções, fica o alerta para o tratamento da questão ambiental em sua dimensão mais ampla, lado a lado com a saúde, sempre guiados pelo conhecimento científico. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

A COVID-19 não irá salvar o meio ambiente

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil
Por Nicoli Saft*

Em meio à pandemia da COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus, alguns veículos jornalísticos estão tentando encontrar um lado bom da crise no meio ambiente. São notícias que falam sobre os canais aparentemente limpos de Veneza e um suposto ar puro em países confinados.
Entretanto, nas mesmas matérias, podemos perceber que a situação não é tão boa quanto os títulos fazem parecer.

Os canais de Veneza aparentam estar limpos devido à diminuição do tráfego de barcos – com o movimento na água reduzido, os sedimentos ficam acumulados no fundo. A própria Prefeitura de Veneza afirmou que a poluição da água não diminuiu. Já o “ar puro” nos locais onde há confinamento em razão do coronavírus é causado pela diminuição de dióxido de nitrogênio (NO2) na atmosfera. A queda na concentração é, sim, devido à paralisação de indústrias e à diminuição de carros, entretanto o ar não está puro, já que foram detectados episódios de poluição por partículas finas (PM2,5 e PM10) na China e na França, países que estão em regime de quarentena.


A primeira matéria citada, do G1, trata de maneira que considero adequada acerca dos canais italianos. O título é apenas uma constatação, e já no subtítulo informam que a poluição se mantém. Uma curta notícia da Veja SP sequer menciona a presença de poluentes, apenas questiona a “sustentabilidade ecológica dessa atividade (turismo) na região”, sem esquecer de mencionar a perda econômica que a pandemia trouxe.

Notícias falsas ganharam as redes sociais afirmando que golfinhos voltaram a frequentar os canais de Veneza, assim como cisnes e peixes. Como mostra essa reportagem da National Geographic ( em inglês), as imagens dos golfinhos foram na verdade registradas em Sardinia, uma ilha italiana no Mar Mediterrâneo; e os cisnes e peixes não são incomuns em algumas regiões de Veneza, ao contrário do que esta matéria da revista Fórum faz parecer. O mesmo texto menciona a declaração da prefeitura e linka um tweet denunciando as fake news sobre o assunto, mas também dá espaço a outro tweet reafirmando a água limpa de Veneza e o ar puro de Hong Kong.


A matéria sobre a qualidade do ar, aliás, é da Agence France-Press, uma das mais requisitadas agências de notícias do mundo e foi republicada por diversos veículos. Entretanto, ela mesma se desdiz. A maioria dos efeitos mais graves da poluição do ar são causados por exposições à longo prazo, e não temos como saber qual o impacto da pandemia na poluição nesse período. Existem aqueles que são otimistas e acreditam que a crise irá modificar os hábitos de consumo das pessoas mesmo após a pior fase ter passado, como mostra essa matéria da BBC , entretanto são apenas suposições .


Nesses tempos obscuros, ficamos desesperados por uma notícia boa. Desesperados, ficamos suscetíveis a notícias falsas. Jornalistas também querem dar notícias boas, mas precisam ter cuidado para não propagar informações errôneas e alimentar falsas esperanças. O meio ambiente não será salvo se apenas ficarmos em casa. Não vamos conseguir voltar atrás de todo o mal que causamos ao planeta em alguns meses de reclusão, infelizmente. O jornalismo não deve alimentar a ideia de que a COVID-19 será boa para o meio ambiente.

Nesta hora temos que nos lembrar de quem serão os mais afetados, se serão aqueles que mais poluem ou se serão aqueles que são impossibilitados de manter o distanciamento social. Aqueles que não terão condições de pagar um tratamento particular se infectados e aqueles que já são negligenciados pelos nossos sistemas. O jornalismo precisa de responsabilidade.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Novos formatos de negócios no jornalismo local: o que esperar da cobertura ambiental?

Por Débora Gallas Steigleder*

Foi lançado oficialmente neste mês de março o Grupo Matinal de Jornalismo, projeto que investe na produção de conteúdo para web enviado aos usuários cadastrados para recebimento de newsletters. O diferencial trazido pelo boletim Matinal, de acesso aberto, e por duas correspondências semanais disponíveis por planos de assinatura, é o foco no local: da cultura à política, são priorizadas notícias e reportagens sobre o Rio Grande do Sul e, mais especificamente, sobre a cidade de Porto Alegre. E o que podemos observar sobre a cobertura de meio ambiente?

Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese
Fonte: Captura de tela da edição de 06 de março de 2019 da revista Parêntese

A edição de número 15 da revista Parêntese, que é enviada aos sábados, abriu espaço para uma reportagem especial sobre os impactos da sojicultura no Rio Grande do Sul. Em Depois de enriquecer produtores gaúchos, soja ameaça o Pampa, a repórter Karen Viscardi expõe as origens do monocultivo e discute seu consequente entrelaçamento com a história da migração gaúcha para ampliação de fronteiras agrícolas pelo Brasil. Tal espaço dificilmente seria encontrado em veículos tradicionais, tanto por conta da limitação física e temporal imputada a produções impressas e audiovisuais, como pela dificuldade destas empresas realizarem autocrítica sobre o posicionamento ideológico construído ao longo de décadas, que apresenta a expansão dos grandes cultivos de soja enquanto evidência da postura aguerrida de gaúchos empreendedores – conforme já comentamos aqui no Observatório.


A transversalidade do olhar também está presente no discurso jornalístico em questão, que aborda as consequências do uso de agrotóxicos nas lavouras, da contaminação de indivíduos à mortandade de abelhas, além de mencionar o impacto da estiagem predominante no Rio Grande do Sul nestes meses de verão na economia do estado e dos produtores rurais. Em acréscimo, a reportagem discute como a sojicultura afeta a biodiversidade do campo nativo e faz minguar atividades produtivas predominantes na região por séculos, como a pecuária.


Apesar desta abordagem ampla sobre a questão, existem pontos a serem aprofundados em retornos futuros a este complexo tema. São diversas as fontes consultadas para a construção da reportagem, mas as vozes resumem-se majoritariamente a especialistas, autoridades e dirigentes de entidades. Seria de grande valia haver uma novidade no jornalismo local suficientemente sustentável em termos financeiros a ponto de viabilizar a ida de repórteres a campo para averiguar os impactos in loco, para além dos relatos de especialistas. Conversar com agricultores e comunidades que vivem o impasse deste modelo econômico baseado em commodities promove novas possibilidades à narrativa jornalística, podendo até mesmo confrontar o título da reportagem, que leva o leitor a interpretar os impactos da sojicultura como um problema recente, verificado apenas a partir do momento em os produtores deixam de lucrar com a safra.


Por fim, em tempos de discussão sobre as consequências locais das mudanças climáticas, faz-se cada vez mais necessário evidenciar que os eventos climáticos extremos tendem a agravar a estiagem já verificada com frequência na região Sul do estado. Urgem, portanto, discussões sobre mitigação e adaptação que considerem a impossibilidade de sobrevivência do Pampa soterrado por soja transgênica.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com

O que mais podemos dizer quando cobrimos chuvas intensas?

Foto chuvas intensas

Imagem: captura de tela de imagem publicada no corpo da reportagem “Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?”, publicada dia 3 de março no jornal O Estado de S. Paulo
* Por Eloisa Beling Loose

Nas últimas semanas as notícias e reportagens sobre os estragos desencadeados pelas chuvas fortes e constantes no Sudeste têm se repetido nos meios de comunicação. Fala-se muito das consequências (alagamentos, enchentes, deslizamentos, perdas materiais e mortes), mas as causas ainda são pouco evidenciadas ou apresentadas de forma parcial. Embora os governantes sejam ouvidos, essa não é a única versão que deveria ter espaço. Esse é um problema ambiental, social, cultural, político e econômico. Negar qualquer uma de suas facetas é sempre ter uma visão fragmentada e, portanto, incompleta dos fatos.

No último dia 2, após as fortes chuvas que atingiram, mais uma vez, o Rio de Janeiro, o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, afirmou que a culpa pela tragédia era das pessoas. O G1 e outros veículos repercutiram que a autoridade foi atingida por barro durante suas declarações na visita ao local afetado, já que reduziu o problema ao lixo não descartado corretamente. O prefeito culpabilizou a sociedade: “se vocês querem ajudar a nossa cidade, é conscientizar a população de que não pode jogar lixo nas encostas, não pode jogar lixo nos bueiros, não pode deixar lixo na rua. Esse é o grande problema do Rio de Janeiro”. Sim, conscientizar a população sobre a limpeza da cidade é importante, mas não é a única resposta e nem resolve por si só a questão. O que dizer sobre a responsabilidade pelo planejamento e gestão da cidade? O que as autoridades públicas têm feito para mitigar os danos das chuvas intensas? Quais as políticas públicas relacionadas à habitação? E quais são os projetos de enfrentamento às mudanças climáticas, provocadoras de fenômenos extremos cada vez mais frequentes? O que está sendo feito para evitar as perdas, que costumam se repetir todo ano?

Há muitas perguntas que precisam ser reiteradas para lembrar a todos que os efeitos das chuvas são tragédias anunciadas, respaldadas por previsões científicas sólidas. Logo, não são as vítimas as culpadas. Não é possível que jornalistas reproduzam esse discurso sem questionamentos. Quem mais sofre com a falta de ação do Estado, sempre é a população mais carente, aquela com menos recursos para se prevenir e se recuperar. Ninguém escolhe residir em área de risco por ter opções.

No trabalho diário é comum que o jornalismo se detenha aos impactos, àquilo que é visível agora e afeta diretamente a vida das pessoas, como no caso da notícia Mortes por chuvas no verão no Sudeste este ano já superam as de 2019, publicada dia 3 de março pelo UOL, e Buscas por vítimas de deslizamentos são encerradas em Santos e São Vicente; operação segue em Guarujá, publicada dia 7 pelo G1. Contudo, sabe-se que, a partir de uma cobertura mais extensa sobre o assunto, é possível observar mais do que o registro e o drama dos afetados, incluindo até mesmo a perspectiva da precaução. A dificuldade se dá em manter o tema na agenda pública, pois há um momento no qual o pico de atenção midiático desaparece; assim, quando o ciclo das chuvas reinicia, o desastre tende a ser apresentado como novo e se resumir em números e declarações que não explicam o porquê estamos assistindo, mais uma vez, a mesma história.

Na contramão da ênfase sobre as consequências, cito aqui um exemplo do que poderíamos ver mais na imprensa – em quantidade e aprofundamento: a reportagem publicada no dia 3 pelo jornal O Estado de S.Paulo, de Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, no qual indaga-se: Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste? Nela são apontados diferentes elementos que agravam o que não temos condições de impedir: a força das chuvas. Nesse texto vários pontos de vista são visibilizados, relacionando os efeitos negativos das chuvas com as alterações do clima, a retirada da natureza dos centros urbanos, a ocupação desordenada, e a falta de políticas públicas que pensem no planejamento e na redução de riscos ambientais.

Mais do que naturalizar que as chuvas castigam as populações mais vulneráveis e que a responsabilidade é das próprias pessoas (que, por meio dessa lógica, elegeriam se colocar em perigo ao residir em áreas de risco), cabe ao jornalismo contextualizar as prioridades políticas dos governantes e esclarecer as razões para, ano após ano, continuarmos tratando a tragédia como algo novo, um acontecimento que irrompe da normalidade esperada. Como sublinha a reportagem de O Estado de S.Paulo, esse contexto é o “novo normal”. Como o jornalismo pode se adequar a isso? Como podemos fazer diferente diante de um cenário em que o futuro (e não apenas o presente) precisa ser considerado? Como dizer mais (no sentido de melhorar a compreensão) e pautar ações preventivas? Essas são algumas indagações que não poderiam ser lembradas pelos jornalistas apenas com a concretude dos prejuízos.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Agrotóxicos: poder econômico sempre encobre as questões de saúde e ambiente

Por Patrícia Kolling*

Essa semana a notícia de um navio carregado com 4 mil toneladas óleo, encalhado na costa do Maranhão, que talvez seja protagonista de um novo desastre ambiental nos próximos dias, foi destaque na imprensa. Como interessam para o jornalismo a novidade, os impactos imediatos e os grandes desastres ambientais, o assunto foi notícia na maioria dos meios de comunicação. Apesar da atualidade do tema, optei por falar neste texto de outro assunto que não é novidade, não causa impactos imediatos, mas que com certeza é precursor de desiquilíbrios ambientais sem precedentes e que também está na pauta da mídia: os agrotóxicos.

Fonte: Captura de tela do site da Agência Pública

Na Folha de São Paulo a manchete foi sobre a portaria publicada pelo Ministério da Agricultura que determina a aprovação automática dos agrotóxicos, pela Secretaria de Defesa Agropecuária, se a avaliação do produto não for realizada em 60 dias. A Secretaria de Defesa Agropecuária é uma das instâncias para liberação para a comercialização de agrotóxicos, tendo também que passar pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pelo Ibama. A notícia destaca que no passado a Anvisa também alterou seu processo de autorização, que passou a considerar apenas o risco de morte para classificar a toxidade. Produtos que eram considerados extremamente tóxicos podem ser avaliados como pouco moderadamente ou pouco tóxicos. A notícia alerta para o fato de que a mudança faz parte de uma estratégia, do chamado “pacotão do veneno”, um projeto de lei proposto pela bancada ruralista que altera as atribuições da Anvisa e do Ministério do Meio Ambiente, dando mais poder ao Ministério da Agricultura na análise de impactos dos agrotóxicos na saúde e meio ambiente. Este projeto, que está parado e pronto para aprovação na Câmara, concentra o poder de veto justamente ao Ministério da Agricultura.

Na BBC Brasil a manchete foi “Brasil é o principal mercado de agrotóxicos ´altamente perigosos´, diz ONG” . O texto destaca que aproximadamente um terço da receita das principais fabricantes de agrotóxicos do mundo vem de produtos classificados como “altamente perigosos” – vendidos principalmente em países emergentes, como Brasil e Índia. Os dados são de um levantamento feito pela Unearthed, organização jornalística independente financiada pelo Greenpeace, em parceria com a ONG Suiça Public Eye. Em 2018, as vendas desse tipo de pesticidas renderam cerca de U$S 4,8 bilhões às cinco maiores companhias do setor, 35% da receitas dessas companhias. A publicação diz que o Brasil é o pais que mais compra pesticidas, movimentando em 2018, R$14,5 bilhões e que cresceu no Brasil nos últimos anos a regulamentação de produtos altamente perigosos.

Fonte: Captura de tela do site BBC Brasil

Já na Agência Pública a pauta foi o adiamento do julgamento, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, de um processo que pede o fim  dos benefícios fiscais dados às empresas produtoras de agrotóxicos no Brasil. O tema também foi abordado pela BBC Brasil. Pasme, desde 1997, um convênio entre o governo dos Estados concede isenção de 60% no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) e a justificativa é que seriam essenciais para a produção de alimentos. Os Estados deixam de receber em torno de R$ 6,2 bilhões, em valores de 2017, apenas neste imposto. Além do ICMS, alguns produtos ativos usados em defensivos agrícolas possuem isenção de 100% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), pago à União.

O processo a ser julgado pelo STF é uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) apresentada em junho de 2016 pelo PSOL contra o governo federal, em que o partido alega que a isenção de impostos para os agrotóxicos desrespeita a Constituição — a Carta assegura o direito ao meio ambiente equilibrado, que estaria sendo violado pela política de subsídios. Enquanto no Brasil as empresas de agrotóxicos pagam menos impostos, alguns países da Europa aumentam as taxações fiscais dos produtos mais tóxicos que geram um custo alto ao Estado. Na Suécia os valores arrecadados com as taxações mais elevadas são utilizados para incentivar políticas de produção agroecológicas. Em outros países, investidos na saúde.

Em pouco mais de uma semana foram quatro matérias em três veículos de comunicação abordando a temática agrotóxicos. Isso é positivo, pois está se falando do assunto. Mas, é claro que o factual está por trás dessas pautas. Ações do Ministério da Agricultura e do STF mobilizaram o assunto. Porém, diante do retrocesso que o país sofre nas questões ambientais, será que essas abordagens são suficientes? O que tem isso tudo a ver com os alimentos que comemos todo dia, com o ar que respiramos e água que bebemos? Como essa liberação sem análise dos agrotóxicos pode comprometer a nossa saúde e a biodiversidade ambiental? Percebe-se uma restrita abordagem das questões da saúde e da diversidade ambiental, enquanto as preocupações econômicas aparecem em primeiro plano nas matérias jornalísticas. Sem dúvida, os interesses econômicos muito fortes estão por trás desse assunto. São bilhões de dólares que mega empresas ganham anualmente com a venda desses produtos. Quanto mais rápido esses produtos forem autorizados mais rápido estarão no mercado, independente se fazem mal ou não para a saúde e o meio ambiente.  

E como pode o Estado brasileiro ainda isentar essas empresas de pagar impostos?  Um estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz revela que, para cada dólar gasto com a compra de agrotóxicos no estado do Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem logo após a aplicação. O cálculo não leva em conta o custo das doenças crônicas, como o câncer. Os textos ainda destacam que com o fim da isenção, o consumidor final que irá pagar a conta pagando mais caro nos alimentos do dia a dia. É lamentável que o poderio econômico sempre prevaleça as questões sociais e ambientais e que não seja possível ao Estado brasileiro pensar e incentivar aás diversas alternativas de produção de alimentos saudáveis. 

*Patrícia Kolling, jornalista e doutoranda do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFRGS, colaboradora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental.

Políticas de desenvolvimento e aumento da temperatura: quais as relações?

Por Eliege Fante*

A temperatura média global está quase 1oC acima desde o início das medições, mas em Passo Fundo (RS) onde nasci, está 1,7oC acima, de acordo com a ferramenta do jornal NYTimes. A supressão de áreas naturais para a sua conversão em monoculturas de commoditties e cidades (urbanização, industrialização, etc.) estão entre as causas do aumento das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global e a mudança climática. A virada do milênio nos trouxe algumas certezas, como a de que os 20 anos mais quentes da história foram registrados nos últimos 22 anos, sendo que 2015 a 2018 ocupam os quatro primeiros lugares do ranking. Outra é que, segundo os cientistas, a temperatura média global não deve ultrapassar 1,5oC sob pena de sofrermos as consequências do desequilíbrio climático: impactos na saúde humana, perda da biodiversidade, prejuízos na economia, entre outras. 

Precisamos ficar preparados para o pior” é a instrução do diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Buckeridge, e também o título de reportagem sobre a vulnerabilidade das cidades neste contexto de mudança climática caracterizada por eventos extremos. Esta vulnerabilidade se evidencia nos “erros de urbanização” citados: canalização de rios e impermeabilização do solo. Todos conhecemos áreas de várzea, de banhado, de preservação permanente em nossos municípios natais que foram aterradas para facilitar ou promover o desenvolvimento através da construção de loteamentos, estádios de futebol, indústrias, parques, etc. Falamos de empreendimentos privados ou públicos, planejados e assinados por profissionais habilitados, licenciados pelos órgãos responsáveis e com as devidas compensações ambientais especificadas. Contudo, os registros de danos e perdas se acumulam, inclusive nas cidades mais desenvolvidas e ricas do país, como Belo Horizonte, vitimada pela chuva torrencial em janeiro, e São Paulo, com fortes chuvas neste mês de fevereiro. 

Devemos lembrar que não são apenas os formatos conhecidos de urbanização que dificultam ou impedem o necessário e adequado escoamento da água dos temporais e/ou a retenção e a conservação de água para os usos nos períodos de estiagem. A lógica desenvolvimentista igualmente determina a atividade econômica dominante e a respectiva política de conversão das áreas naturais no chamado meio rural. Retomando o caso de Passo Fundo, a expansão do agronegócio nos últimos 30 anos com a monocultura da soja e do milho foi de 37 mil hectares em 1987 para 52 mil em 2017 (ver quadro). A área florestal de Mata Atlântica foi preservada sob a proteção da lei vigente, mas a área campestre, como a do capim barba-de-bode, não. De fato, os campos sulinos são as áreas menos preservadas no país. Isso é importante também porque reflete a drástica redução da pecuária familiar, que é a atividade econômica principal do gaúcho. O gaúcho e o cavalo tem sido lembrados praticamente uma vez ao ano, durante as comemorações da revolução farroupilha em setembro. A tradição e alguns hábitos como o do chimarrão não devem desaparecer no Rio Grande do Sul, mas a pecuária está cada vez mais restrita por várias razões, principalmente a conversão dos campos nativos em monoculturas de grãos exóticos.

O Mapbiomas nos mostra que a área de pastagem em Passo Fundo no ano de 1987, de 15.611 hectares, caiu para 4.004 hectares em 2017. E que também caiu a área de mosaico entre agricultura e pastagem: de 12.606 hectares em 1987 para 5.881 hectares em 2017. Se relacionarmos esses dados ao fato de que “A atividade agropecuária domina a geração de gases de efeito estufa no Brasil”, em se tratando de monoculturas de exóticas e pastagens artificiais/cultivadas, não podemos deixar de problematizar o destino do maior aporte de recursos das políticas de desenvolvimento implantadas nesse período e as mudanças ocorridas em Passo Fundo: na paisagem, na atividade produtiva e até na temperatura. Por isso, cabe também às empresas de comunicação hegemônicas assumir mais esta pauta jornalística. Ao mesmo tempo que o potencial do agronegócio de commoditties gera muito lucro a poucos e exacerba a já conhecida desigualdade social, também desequilibra o meio ambiente e acelera os efeitos da mudança climática.   

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação e Informação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Jornalismo Ambiental Direto da Ciência

Imagem: captura de tela – Site de jornalismo científico publica reportagem exclusiva denunciando desmonte de bases cartográficas em São Paulo
Roberto Villar Belmonte*

O jornalismo especializado em temas ambientais abriu espaço na imprensa brasileira quando adotou a ciência como fonte central das reportagens, segundo relato de repórteres que trabalharam com a pauta ecológica nos anos 1970 e 1980, entre eles Randau Marques e Liana John. De lá pra cá a perspectiva científica passou a fazer parte do que é considerado jornalismo ambiental de referência, nas grandes redações e também fora delas. 

Com as mudanças estruturais que assolaram o jornalismo devido à digitalização do mundo no século XXI, redações têm sumido e/ou murchado. Uma das consequências disso é a precarização do trabalho, a outra é o surgimento de pequenos empreendimentos produzindo jornalismo especializado de qualidade. Um exemplo é o site Direto da Ciência mantido por Maurício Tuffani. 

O site foi lançado em março de 2016 quando Tuffani deixou o cargo de editor-chefe da revista Scientific American Brasil, como ele mesmo relata. Política ambiental é uma das pautas objeto de análise, opinião e investigação do serviço jornalístico criado por ele. O editor trabalha com repórteres freelance. E quem paga a conta são os assinantes do serviço especializado.

Reportagem exclusiva publicada pelo repórter freelance José Alberto Gonçalves Pereira, no dia 3 de fevereiro mostra que o olhar especializado do jornalista permite descobrir falcatruas pouco visíveis ao olho do generalista. Ele mostrou como a gestão do governador João Doria (PSDB) desmantelou acervos e bases cartográficas de planejamento urbano.

O que isso tem a ver com a pauta ambiental? Tudo. Esses programas, produtos e sistemas de informações cartográficas são utilizados em políticas ambientais. Situação semelhante – extinção de estruturas de estado que dão suporte a políticas públicas na área ambiental – aconteceu no Rio Grande do Sul quando o ex-governador José Ivo Sartori (PMDB) extinguiu a Fundação de Economia e Estatística e a Fundação Zoobotânica. No caso de São Paulo, o site Direto da Ciência deu furo de reportagem denunciando mais um desmantelamento.

Essa informação exclusiva sobre os danos causados pela extinção da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) segue repercutindo em São Paulo, conforme suíte publicado pelo mesmo repórter, no dia 10 de fevereiro, e também nessa segunda-feira, com texto ampliando os bastidores da extinção.

Semana passada outro jornalista especializado em temas ambientais, com formação científica, também escreveu para o site Direto da Ciência . O repórter freelance Eduardo Geraque, que também é biólogo e tem mestrado em Oceanografia, publicou no dia 13 de fevereiro texto analisando a superficialidade da política para a Amazônia anunciada de improviso pelo atual governo federal , mais uma vez deixando de lado as pessoas que vivem e conhecem a região. Ele aponta como caminho possível a bioeconomia.

Sites jornalísticos como Direto da Ciência, O Eco, InfoAmazônia, Amazônia Real, Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, Nexo Jornal, Envolverde e Eco Nordeste são alguns exemplos que demonstram a possibilidade da cobertura especializada de temas ambientais sobreviver às mudanças estruturais do jornalismo, ou seja, fora das redações tradicionais. Você já apoiou algum desses projetos?

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).