Acontecimento global no jornalismo local: é hora de alinhar escalas e rever visões de mundo

Imagem: Edição de Zero Hora
Por Débora Gallas Steigleder*

O planeta se mobiliza pela Amazônia em chamas, e o jornalismo repercute os diferentes vieses que envolvem este conflito ambiental, evidenciado pela chegada de partículas das queimadas a São Paulo em 19 de agosto.

A edição do fim de semana de 25 e 26 de agosto de Zero Hora, que traz o assunto na capa, pretendeu aprofundar alguns tópicos a partir de apuração própria da redação do jornal gaúcho. O texto na primeira página da cobertura, não assinado, traz um apanhado geral dos aspectos políticos que envolvem o conflito por um viés declaratório, com a tradicional reprodução de pronunciamentos das fontes oficiais. Nada de novo aqui, portanto. A dimensão local é abordada em seguida, em texto de Leonardo Vieceli, que faz um gancho com a menção ao risco que a destruição da floresta representa ao acordo comercial recém firmado entre União Europeia e Mercosul. O repórter relata a preocupação de entidades exportadoras do Rio Grande do Sul com os danos do crime ambiental à imagem do país frente aos parceiros comerciais. Esta centralidade nos impactos econômicos segue a posição editorial da empresa e é repercutida por colunistas de Política e Economia na mesma edição. De certa forma, então, nada de novo até aqui também.

A seguir, um quadro informativo com mitos e verdades sobre a Amazônia ajuda a contextualizar o leitor e complementa o texto de Iarema Soares, que apresenta o olhar dos especialistas sobre as possibilidades de restauração e as perdas inestimáveis nos ecossistemas amazônicos. Assim como a entrevista com bombeiro que está trabalhando no combate às queimadas, realizada por Rodrigo Lopes, estes recursos permitem um diálogo entre escalas. Nada substitui a presença do repórter in loco, mas, em um contexto de limitações físicas (e financeiras), uma construção discursiva que oriente o olhar “daqui para lá” é interessante para gerar proximidade. Um passo importante, porém, seria incorporar uma reflexão constante na cobertura sobre os efeitos diretos da perda da Amazônia em nossas vidas independentemente da proximidade geográfica com ela. Afinal, já passou da hora de reconhecermos as interconexões que fundamentam a vida na Terra.

Talvez o conteúdo local mais expressivo da cobertura seja o histórico da destruição da floresta, assinado por Itamar Melo, com gráficos e comparativo da área desmatada na Amazônia com o território do Rio Grande do Sul. O texto menciona que gaúchos foram estimulados a ocupar a região a partir dos anos 50. E, amplificando a questão da continuidade, é interessante ver aqui o deslocamento de sentido sobre o tema em Zero Hora, por meio de uma espécie de reversão do silenciamento: em minha leitura, por exemplo, remeti imediatamente a todas as coberturas do veículo – e do Grupo RBS, em geral – com narrativas heroicas sobre a conquista do Centro-Oeste e do Matopiba por gaúchos envolvidos no monocultivo de soja. Ao longo de décadas, a expansão das fronteiras agrícolas foi relatada – e exaltada – nos veículos da empresa sem contraponto ambiental. Muitos jornalistas têm-se posicionado para apontar o discurso violento e mentiroso de representantes do governo federal como avalizador de crimes ambientais, e com razão. Mas já é tempo de as mídias e seus profissionais fazerem uma autoavaliação: em que medida terem corroborado para o mito do progresso também contribuiu para a “naturalização” da destruição?

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
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Aquecimento? Que aquecimento?, texto de Luciano Martins no OI

Recomendada a leitura do comentário de Luciano Martins, feito para o Observatório de Imprensa. Em foco as mudanças climáticas e a relação “esquizofrênica” do jornalismo com o tema, como ele mesmo classifica.

Leia na íntegra:  Aquecimento? Que aquecimento?

Clima: mesmo editorial em 56 jornais do mundo

Por ocasião do início oficial das atividades em Copenhague, na Conferência sobre Mudanças Climáticas, o The Guardian encabeçou uma iniciativa de publicação conjunta de um mesmo editorial em vários jornais do mundo. São 56 periódicos participantes, em 45 países e 20 línguas diferentes.  O editor-chefe do jornal britânico, Alan Rusbridger (leia o original aqui, em inglês) ressalta a participação de dois jornais chineses. A destacar pelo fato de a China dividir, com os Estados Unidos, a liderança no ranking das emissões de CO2 e, no mesmo passo, pela sempre lembrada barreira a determinados temas no país. Rusbridger também disse que o ineditismo da ação está em sintonia com a peculiaridade da cobertura sobre o tema: “nunca tivemos de cobrir uma história como essa antes”. Afirmou, ainda, esperar  que a voz combinada dos 56 jornais lembre aos negociadores que um entendimento é necessário e ele está em jogo em Copenhague. Como mentor da idéia, o Guardian estampou o texto na capa de hoje, junto com os logotipos dos jornais que aderiram.

As capas estão reunidas neste link. A idéia é que o texto estivesse ou iniciasse na primeira página, seguindo nos espaços tradicionais de opinião de cada jornal.  O editorial em português pode ser lido no jornal Zero Hora e no Público. O jornal português teve, na minha opinião, uma das melhores capas. Optou por estampar apenas texto, tal uma carta.

Mudanças climáticas na pauta da ANDI

Reprodução do site

A Agência de Notícias dos Direitos da Infância acaba de lançar um portal sobre Mudanças Climáticas. O objetivo é, conforme a entidade, reunir informações para um “jornalismo contextalizado”. O site está disponível em língua portuguesa e espanhola.

A ANDI acompanha o tema desde 2007.  Já foram publicados três relatórios de análise de jornais sobre a cobertura acerca das mudanças climáticas no Brasil. Por meio da metodologia de análise de conteúdo, os relatórios oferecem um “perfil quantitativo e as principais tendências qualitativas da cobertura da imprensa”, segundo o site da entidade, o que permite acompanhar “os desafios e avanços desse tipo de pauta”. Os estudos estão disponíveis para download.

Copenhague – os especiais dos jornais

Os jornais de referência do Brasil e de Portugal estão com especiais sobre a COP 15, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, iniciada hoje, na Dinamarca. Muitos iniciaram o trabalho há alguns dias ou semanas, com matérias buscando antecipar as principais discussões e contextualizar os pontos centrais em debate no encontro. A polêmica criada pelos céticos  em relação dos dados do IPCC, a presença de alguns líderes mundiais como Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, as esperanças de sucesso e as apostas no fracasso da Conferência são os principais motes. Em todos os casos, os jornais têm se valido muito de infográficos e simulações para dar conta dos dados mais específicos.

Por conta do uma pesquisa, estou acompanhando os especiais do Brasil e de Portugal. “Conferência de Copenhague” de um lado do Atlântico, “Cimeira de Copenhaga” do outro. Eis os links.

Brasil:

Portugal:

Outros: