A falsa neutralidade na cobertura da questão ambiental nas eleições

Imagem: Reprodução de Rede Brasil Atual.

Por Matheus Cervo*

Com o início das campanhas eleitorais no Brasil  em 16 de agosto, o jornalismo começou a cobrir mais ativamente as mensagens que vêm sendo transmitidas pelas campanhas dos presidenciáveis. Não é inesperado que muitos veículos de comunicação se voltem para as possíveis propostas de governo direcionadas à questão ambiental, após quatro anos de notícias sobre os enormes impactos ambientais negativos devidos à atuação do atual governo federal. Como memória disso e de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), lembramos que houve um aumento de 56,6% da média de desmatamento anual da Amazônia de 2019 à 2022 em comparação com o período anterior (2016 à 2018).

Contudo, mesmo com a realidade dos últimos quatro anos e com a quantidade enorme de dados científicos sobre a questão, a cobertura sobre as propostas dos presidenciáveis tem se dado através de um debate raso e meramente declaratório em muitos veículos. Como exemplo disso, podemos ver a matéria do Uol acerca da declaração de Bolsonaro sobre as áreas indígenas protegidas fazerem o mapa do Brasil parecer com um “corpo com catapora” – um país pintado com áreas protegidas que “afetariam o agronegócio e o homem do campo”. Essa matéria, publicada no dia 26 de agosto, não faz nada além de declarar o que foi dito pelo candidato à reeleição, apenas aumentando ainda mais o alcance da falácia sobre um assunto complexo, que poderia ter sido debatido com pesquisas sérias na área e importantes vozes que atualmente abordam esse tema. O mesmo é feito pelo Portal Terra que, apesar de fazer um compilado de falas dos principais quatro presidenciáveis sobre a questão do marco temporal às terras indígenas, não se posiciona sobre o tema com dados e pesquisas, tratando o debate como meras opiniões equivalentes a serem consideradas.

Essa falta de profundidade afeta várias questões ambientais dentro do jornalismo que pauta as eleições, como as matérias que cobrem as propostas em relação ao agronegócio e as possibilidade de reforma agrária no Brasil. O jornal Correio do Estado publicou uma matéria no dia nove de setembro sobre as declarações de Ciro Gomes, candidato do PDT, sobre a temática. O tom novamente foi meramente declaratório, expandindo as falas do presidenciável sobre a força do agronegócio como o setor econômico “que leva o Brasil nas costas”. Além disso, a matéria apenas reescreve as falas do candidato sobre o “problema econômico do agronegócio” relacionado com o consumo de fertilizantes externos da Rússia e da Ucrânia, o que o faz pensar em medidas para criar autonomia brasileira na produção de fertilizantes. Essa tonalidade neutra do Correio do Estado faz com que não haja nenhuma discussão real e científica sobre as propostas – como faz o projeto O Joio e O Trigo que mostra que a investigação sobre os impactos do uso de agrotóxicos ocasiona perseguições e mortes no nosso país.

Por isso, qual deve ser o papel da cobertura das propostas dos presidenciáveis ao meio ambiente dentro do jornalismo ambiental? Sem dúvida, não deve ser um jornalismo que se pretende neutro e, para isso, opera simplesmente através da declaração do que está sendo dito por diferentes candidatos. Ao contrário, deve tomar posição através da memória do que temos vivido nos últimos quatro anos e deve retomar a fala de inúmeros pesquisadores na área para que tenhamos um entendimento melhor de quais são as propostas mais adequadas que juntam pensamento político e pensamento acadêmico/científico.

* Cientista Social/Antropólogo. Mestre em Comunicação. Atual doutorando em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS.

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Mesmo com o trabalho da imprensa, a boiada segue passando

Imagem: Captura de tela da notícia publicada na Deutsche Welle.

Por Eloisa Beling Loose*

Na semana passada, o podcast Mamilos destacou em “A boiada passou – e agora?” os vários problemas ambientais que estão sendo agravados desde que a estratégia de desmonte das políticas públicas ambientais começou a ser executada pelo governo federal. O programa aponta que, “desde o início da gestão Bolsonaro, foram assinados 57 atos legislativos que enfraqueceram as regulamentações ambientais. Quase metade deles foram assinados durante os primeiros 7 meses da pandemia de coronavírus”. A ampla repercussão que teve a reunião do dia 22 de abril de 2020, quando o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles disse que a pandemia poderia ser entendida como uma oportunidade para o governo “passar a boiada” sobre a área ambiental, já que o foco do debate público ficaria na crise sanitária, completa quase um ano, e os prejuízos, ainda que publicizados, só crescem – como fica evidente em críticas internacionais direcionadas ao Brasil.

Além do enfraquecimento da fiscalização e das políticas em prol da conservação do ambiente, o negacionismo climático e o discurso de que o desenvolvimento econômico depende da exploração dos recursos naturais sustentam medidas que colocam em risco aqueles que defendem a natureza e lutam pelo interesse coletivo. No mês passado, Michelle Bachelet, alta comissária da Organização das Nações Unidas para Direitos Humanos, criticou as ações brasileiras em relação à falta de combate ao desmatamento na Amazônia e no Pantanal – algo que já se tornou frequente no âmbito internacional – e denunciou os ataques sofridos por jornalistas e ativistas. Já que os jornalistas “fazem questão” de cobrir a destruição ambiental, torna-se necessário menosprezá-los, intimidá-los e aumentar a circulação de informações falsas, afinal, uma das maneiras de gerar dúvidas sobre o que realmente está acontecendo é desacreditar os mensageiros.

De acordo com a coluna de Jamil Chade, no Uol, Bachelet afirmou nessa ocasião que “No Brasil e outros países da Amazônia e do Pantanal, a redução da aplicação das leis ambientais durante a pandemia levou a um aumento da mineração ilegal e do corte ilegal de madeira, com impacto particularmente prejudicial sobre os povos indígenas”.  Tais protestos estão relatados em uma série de acontecimentos, que periodicamente são apresentadas por diferentes veículos de imprensa, mas que não estão sendo suficientes para reverter esse quadro. Somente nos últimos dias,  identificamos notícias a respeito de ataque a terras indígenas, como o incêndio que ocorreu no território do povo Tremembé, e de crimes socioambientais, como o transbordamento de uma lagoa administrada por uma mineradora de ouro, que poderia ter contaminado as água do Rio Tromaí (a empresa negou que houve rompimento de barragem ou que as águas pudessem causar algum dano), a explosão do garimpo ilegal em território ianomâmi e a ampliação da exploração ilegal no estado do Mato Grosso.

Apesar de os estudos científicos apontarem que os indígenas são os melhores guardiões das florestas e, portanto, fundamentais para a mitigação da crise climática, como revelou relatório produzido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) nesta semana, a facilitação do avanço da boiada sobre os bens coletivos só mira o crescimento econômico. A repercussão da Agência Pública ressalta que o relatório coloca em xeque o posicionamento do presidente Bolsonaro, mas, mesmo assim, a suposta objetividade de alguns meios não deixou evidente para o público o nexo causa-consequência existente entre as políticas do governo e o desastre anunciado que segue seu curso. 

Ainda que a cobertura ambiental tenha se expandido, com um volume maior de notícias sobre a temática, como esses fatos estão sendo reportados? O trabalho da imprensa pode ser diferente? Quais são as abordagens necessárias para interromper a passagem da boiada? Para que possamos refletir!

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

Jornalismo ambiental: complexidade para ligar os pontos

Imagem: Captura de tela do programa Direto ao Ponto de 8 de fevereiro de 2021. Jornalistas entrevistam Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente
Fonte: Reprodução Youtube / Canal Jovem Pan News

Por Débora Gallas Steigleder*

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, nossa principal tarefa é comentar os destaques da semana na cobertura jornalística sobre meio ambiente. Mas o que priorizar quando percebemos a sobreposição de debates urgentes em um curto espaço de tempo? A análise é ainda mais desafiadora quando há cobertura pulverizada sobre temas relevantes, mas que não são “pautas quentes”, ou seja, aqueles assuntos que, dotados de impacto evidente e inquestionável, repercutem em todos os noticiários do dia.

Dois conteúdos publicados na semana anterior inicialmente me chamaram a atenção pela relevância e pela similaridade de formato: são entrevistas com fontes de reconhecida autoridade em seu campo de atuação – a ciência. A primeira selecionada se chama Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”. Trata-se de entrevista com María Neira realizada por Juan Miguel Hernández Bonilla e publicada em 6 de fevereiro em El País, traduzida da edição em espanhol. A fala de Neira alerta para a relação entre a conversão de florestas tropicais em áreas de agricultura intensiva e a propagação de novos vírus entre a população humana. 

Este tema não é inédito para o jornalismo, pois ele já havia sido tratado em profundidade, por exemplo, em uma reportagem de João Moreira Salles publicada em outubro de 2020 na Revista Piauí. O texto abordou a possibilidade de a Amazônia ser o epicentro de uma próxima pandemia devido ao acelerado processo de destruição da floresta. Mas, na medida em que as coberturas se tornam mais recorrentes, o público pode contemplar outras perspectivas para melhor compreender o fenômeno.

Neste sentido, outra entrevista publicada na mesma semana dá continuidade à necessária conversa sobre as conexões entre riscos ambientais e impactos na população humana e na biodiversidade, especificando a Amazônia como personagem principal. Savanização da Amazônia já está ocorrendo traz entrevista com o cientista Carlos Nobre realizada por Daniela Chiaretti e publicada em 5 de fevereiro em Valor Econômico.

Percebemos que a continuidade da cobertura complexa, que se propõe a ligar os pontos entre causas e consequências, problemas e soluções, é ainda mais urgente no contexto de domínio do poder por negacionistas da ciência. Em entrevista ao programa Direto ao Ponto, da Jovem Pan, no dia 8 de fevereiro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu que o governo federal trabalha com “ações”. Ao ser questionado pela jornalista Sucena Shkrada Resk sobre as políticas ambientais que deveriam ser implementadas frente ao processo de savanização da Amazônia constatado por Carlos Nobre, Salles disse se tratar de uma “opinião alarmista”. 

Na sequência, em resposta à jornalista Ana Carolina Amaral, que o questionou sobre as decisões do governo contestadas judicialmente por ausência de embasamento técnico, o ministro deslegitimou a atuação das organizações não governamentais, universidades e imprensa. Afirmou que “a imprensa, aparelhada pela esquerda, e os partidos se juntam e tocam ação no Judiciário” e que a afirmação de que o país sofre com o desmonte ambiental é “militância disfarçada de jornalismo”.

De cara com o desmonte para o qual o governo fecha os olhos, o jornalismo ambiental deve seguir no esforço de evidenciar os riscos globais, atuando de forma contínua e se valendo de diferentes formas e conteúdos para realizar a cobertura de pautas tão urgentes. Afinal, somente uma diversidade de abordagens pode dar conta da complexidade dos fenômenos ambientais.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deboragallas@gmail.com.