Emergências que se encontram: junto à pandemia, a estiagem

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Por Angela Camana*

A situação da pandemia provocada pelo novo coronavírus, cujos efeitos se fazem sentir no Brasil de forma cada vez mais dramática, vem justificadamente dominando as manchetes dos jornais. O noticiário do país tem desdobrado a temática e produzido múltiplas conexões com outras esferas que não a da saúde unicamente, como este Observatório já apontou (por exemplo, as conexões com consumo e com a crise climática).


Sem ignorar as tensões que a Covid-19 coloca aos sujeitos e às instituições, pouco a pouco, outro assunto tem ganhado espaço no jornalismo do Rio Grande do Sul: a estiagem que assola o Sul do Brasil. Só no Estado, mais de 70% dos municípios já decretaram situação de emergência devido à seca. A falta de chuvas faz com que as barragens hidrelétricas estejam em níveis críticos, assim como está comprometida a produção agrícola esperada. A Defesa Civil diz que ainda não há desabastecimento para consumo doméstico, embora tenha mobilizado caminhões-pipa para levar água à população rural.


No site GaúchaZH, o tema ganhou algumas publicações na última semana, com destaque para a notícia veiculada em primeiro de maio, que foi capa do site, Estiagem afeta sete de cada 10 municípios gaúchos. São ouvidas diferentes fontes, as quais são unânimes em diagnosticar o caráter crítico da situação; todos os citados são dirigentes de instituições públicas do Estado, com exceção de uma meteorologista. O predomínio de fontes oficiais e científicas já foi apontado como um dos principais vícios do jornalismo sobre meio ambiente, o que se repete no caso desta notícia.


Há, ainda, uma galeria de fotos, as quais retratam o baixo nível das barragens e o solo seco rachado em açudes e rios. O texto em questão apresenta muitos indicadores, que são reunidos em uma espécie de box ao fim da publicação.

Fonte: Captura de tela do site GaúchaZH

Ainda que haja um esforço importante de apresentar dados (número de municípios afetados, nível dos rios), os mesmos poderiam ser mais bem contextualizados. No mesmo sentido, a cobertura da estiagem ainda parece bastante presa à fórmula das fontes oficiais e negligencia os sujeitos em detrimento da produção. Aliás, a cobertura é sobretudo agropecuária e econômica, pois destaca a urgência do setor em receber ajuda financeira do Governo Federal. Este tipo de foco, ao dar a entender que o dinheiro é solução para a questão, ignora o fato de que a seca no Sul do Brasil é um problema grave e recorrente, cujos efeitos cada vez mais severos já são relacionados à emergência climática. Ironicamente, o modelo produtivo empreendido na região é um dos fatores que se associam às mudanças do clima, o que não se vê debatido nos meios de comunicação.


Como a previsão é de que maio siga com baixo volume de chuvas, a tendência é que a cobertura da temática se intensifique ao longo do mês, conforme aumentarem também os efeitos da seca. Basta esperar que as conexões produzidas quando da veiculação do Covid-19 encontrem ecos no jornalismo gaúcho sobre a estiagem.

*Ângela Camana é Jornalista e socióloga, doutoranda em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante dos Grupos de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS CNPq/UFRGS). angela.camana@hotmail.com

A água no Rio de Janeiro e a necessidade de expandir os impactos da pauta ambiental

Imagem: Captura de tela do site The Intercept Brasil
Por Michel Misse Filho*

Passado mais de um mês de evidência de um novo problema no abastecimento de água no Rio de Janeiro, o assunto dominou os noticiários locais e pautou o dia a dia de quase dez milhões de fluminenses clientes da Cedae. A empresa de economia mista responsável pelo serviço está, ao mesmo tempo, no início da fila para privatização desde 2017, acordada como contraponto com o Governo Federal para o Regime de Recuperação Fiscal do Rio. A atual crise hídrica –que é inerentemente ambiental- se desenrola pela política estadual: o governador Wilson Witzel (PSC), influenciado pelo correligionário Pastor Everaldo, indicou Helio Cabral – ex-conselheiro da Samarco e réu pelo crime ambiental de Mariana- para a presidência da empresa. Com a nova gestão, foram demitidos quase 40 engenheiros especializados no controle da qualidade de água, e a substância geosmina virou a “nova” vilã da rotina dos cariocas. Para piorar, a estação de tratamento ainda chegou a ser fechada após a localização de detergente na água. 

    Para além das diárias notícias que atualizavam o caso e mostravam o fim dos estoques de água mineral nos supermercados, algumas matérias chamam a atenção ao elucidarem melhor a questão. É o caso desta boa matéria de André Trigueiro para o RJTV e portal G1, que explica o passo a passo do sistema de tratamento; os erros operacionais; a falta de investimento da empresa mesmo com o lucro em torno de R$ 800 milhões em 2019; a não realização de projetos relativamente baratos que evitariam o problema; e a destinação, por parte do governo estadual, de apenas 15% da portentosa verba do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam) para fins ambientais.

Ainda mais importante, outras reportagens denunciam o ponto central do problema: a alastrada falta de saneamento básico. A verdadeira causa da “crise”, mais do que o erro operacional da empresa que não eliminou a controversa geosmina, era o despejo de esgoto in natura em pontos próximos à captação, provindo de rios que afluíam no Guandu, levando os dejetos de cidades como Seropédica, Nova Iguaçu e Queimados. 

Longe de ser uma novidade, o problema do saneamento na Baixada Fluminense foi alçado midiaticamente pela “crise” e ganhou melhores contornos em abordagens como esta matéria de Juliana Gonçalves, do site The Intercept Brasil, que trata o problema da água sob a lógica da necropolítica e do racismo ambiental, afinal, não são os bairros da Zona Sul carioca que figuram nas piores posições dos índices de tratamento de esgoto do país. Diz a matéria: “O necropoder, nesse caso, atua por meio do racismo ambiental que determina quem vai ter esgoto tratado e água encanada e quem vai estar exposto a rejeitos tóxicos ou aos efeitos diretos de indústrias poluidoras.”. A deficiência do abastecimento de água no Rio (e o peso financeiro de quem não tem o privilégio de comprar água mineral todo dia) mostra, mais uma vez, que é preciso expandir as consequências e impactos da pauta ambiental, abarcando as diversas dimensões sociais que ela carrega consigo. 

*Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Não podemos subestimar a capacidade de mobilização do Jornalismo Ambiental

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no link da Gaúcha ZH
Por Carine Massierer*

Em junho de 2019 a discussão em torno da mineração no Rio Grande do Sul chamava a minha atenção, de mais de 50 entidades contrárias aos projetos de megamineração e foi tema de um artigo do Observatório de Jornalismo Ambiental, que clamava atenção da imprensa não só para dar espaço ao tema, mas que ele repercutisse também nos jornais locais, nas rádios e conseguisse alertar a população sobre os prós e contras da exploração das riquezas minerais por parte de quatro grandes empreendimentos no Estado.

A formação, naquele mês, do Comitê de Combate à Megamineração no RS mobilizou a imprensa e os jornais de grande repercussão estadual e nacional.  Passado o evento, no entanto, houve um esvaziamento do assunto na imprensa e, no dia 17 de janeiro, a Zero Hora publicou uma matéria mostrando os prós e contras da polêmica deste projeto que, apesar de causar um grande impacto na Região Metropolitana, ainda é pouco desconhecido dos moradores.

O meu encantamento por esta reportagem de meio ambiente não se dá apenas por poder ajudar a clarear as ideias de quem estiver mais desinformado sobre o tema, mas por trazer, além disto, as motivações para a matéria ter sido feita, ,  as pessoas ouvidas para o conjunto de textos, o porquê de terem sido buscados exemplos nos EUA e na China e, por fim, que cuidados foram tomados para o equilíbrio deste conteúdo. Ou seja, a matéria contém uma riqueza de detalhes que mostra a investigação, o trabalho minucioso e de dedicação em busca de informação qualificada e diferenciada que faça a diferença.

Este é o tipo de reportagem que levanta informações fundamentais para dar condições de reflexão, conscientização a população e, quiçá, capacidade de mobilização. 

E não venham me dizer que o jornalismo não tem o poder de contribuir para mudar o mundo, porque tem. Prova disto foi o trabalho feito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey, do jornal The New York Times, que num trabalho paralelo ao de outros colegas jornalistas apuraram e convenceram que várias mulheres aceitassem contar sua história de abuso ao mundo, em uma reportagem publicada em 5 de outubro de 2017. E é exatamente este processo para a produção da reportagem que elas contam no livro Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo, de autoria das duas e que fez com que elas ganhassem o prêmio Pulitzer.

E o que o movimento destas jornalistas tem a ver com o jornalismo ambiental? Assim como elas conseguiram mobilizar mulheres para a exposição pública de abusos sofridos no #MeToo , o Jornalismo Ambiental também poderia mobilizar as pessoas para irem às ruas  protestar pela qualidade d ar, de vida e pela expulsão do RS destas empresas que querem “investir em mineração”  com objetivo de dar retorno ao financeiro ao Estado. O retorno financeiro é um argumento tão sem fundamento que apenas uma revisitada na história da mineração -que já teve picos de produção- mostra que nenhum dos municípios que receberam estas empresas garantiram qualidade de vida e dividendos às populações, como é o caso de Arroio dos Ratos e Minas do Leão  atualmente sofrendo com solos pobres e escavações imensas que servem apenas para recebimento e depósito de lixo da região metropolitana. 

Assim como a análise feita pela professora e jornalista Maura Martins comenta no artigo para a Escotilha que a obra Ela disse – Os bastidores da reportagem que impulsionou o #MeToo é uma empolgante ode à força e ao poder do jornalismo, eu espero que outras reportagens e movimentos civis e jornalísticos consigam romper o estado de inércia social no Rio Grande do Sul e se transformem num movimento de #foramegamineração.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Paulo Guedes e o perigo do jornalismo declaratório

Imagem: captura de tela do site G1
Por Nicole Saft*

Na semana passada, ocorreu em Davos, na Suíça, o Fórum Econômico Mundial. O Brasil esteve lá representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Eis que na terça-feira, dia 21, nosso nobre ministro faz a seguinte declaração: “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Essas frases foram proferidas enquanto ele comentava a relação entre o meio ambiente e a indústria. Pelo que o ministro explicou depois, ele estava se referindo aos países que já destruíram suas florestas e são ricos, que eles agora coseguem se preocupar com o meio ambiente, enquanto o Brasil, por ser ainda um país pobre, tem outras questões mais urgentes.

A infeliz declaração foi título de matérias em diversos jornais, G1 e Folha de S. Paulo   como exemplos. E o jornalismo declaratório ataca novamente. Essas matérias em nenhum momento problematizam a fala de Paulo Guedes, apenas situam a declaração. No governo Bolsonaro, frases “polêmicas” de nossos comandantes ganham manchetes toda semana.  Mesmo depois de um ano, parece que ainda não sabemos como lidar com elas. Damos atenção? Nos revoltamos? Acusamos de “cortina de fumaça”? Não acredito que haja uma resposta certa, mas sei como o jornalismo não deveria tratar essas declarações.

Paulo Guedes é uma figura de autoridade. Segundo Datafolha de dezembro, o ministro é aprovado por 39% das pessoas que souberam identificá-lo. Ou seja, quando um veículo de jornalismo coloca como título “O pior inimigo do meio ambiente é a pobreza – diz Paulo Guedes” e a matéria não fornece informações contrárias, muita gente tende a acreditar que o que o ministro diz é verdade. Nós lemos a matéria a partir de vieses previamente estabelecidos de “Eu apoio Paulo Guedes” ou “Eu não apoio Paulo Guedes”, e como não há um aprofundamento da discussão, só confirmamos o que achávamos da questão.

Mesmo aqueles que são contra o governo, contra Paulo Guedes, podem pasar desapercebidos pela declaração e acreditar que é verdade. Isso porque, como mostra os estudos do psicólogo Daniel Gilbert nos anos 90, não acreditar em uma sentença envolve um segundo passo ativo de descrença, após o primeiro passo natural e passivo de acreditar que o que ouvimos e lemos é verdade. Essa inclusive é uma das facilidades de se propagar desinformação, a qual devemos combater. É um dos grandes perigos do jornalismo declaratório.

E para a discussão da questão de se são os pobres os maiores inimigos do meio ambiente, deixo algumas sugestões. Nesse último sábado, dia 25, completou-se um ano do crime de Brumadinho. Um ano que o rompimento da barragem da Mina do Feijão causou a morte de 259 pessoas. E esse é um crime ambiental que tem culpado, e não é a pobreza. A Vale, responsável pela barragem – também uma das empresas responsáveis por despejar 39 milhões de m³ de lama tóxica no Rio Doce no crime de Mariana em 2015 – já recuperou seu valor de mercado e agora atua buscando lucro. Como mostra a reportagem do Fantástico desse domingo, a empresa sabia os riscos de rompimento da barragem, mas não agiu a respeito. 

Essa discussão vai de encontro a outra, uma disputa semântica. Antropoceno é um conceito utilizado por diversos cientistas para caracterizar o período geológico em que vivemos, marcado pelas mudanças causadas pela ação humana. É um conceito que surgiu na década de 80 e desde lá ganha popularidade. Antropoceno é uma época demarcada pela capacidade humana de intervenção na Terra a partir da industrialização. Entretanto, o termo ainda é discutido, como mostra o artigo do professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano Dr. Eduardo Álvares da Silva Barcelos no volume 31 da Revista Iberoamericana de Economia Ecológica. O artigo aborda um outro termo para definir esta era, Capitaloceno. Conforme conta Barcelos, em 2013, o historiador ambiental Jason Moore lançou a seguinte pergunta:

Estamos realmente vivendo o Antropoceno – com seu retorno a um ponto de vista curiosamente eurocêntrico da humanidade e sua confiança em noções e recursos bem estabelecidos e consolidados de seu determinismo tecnológico – ou estamos vivendo o Capitaloceno, uma era histórica formada por relações que privilegiam a acumulação interminável de capital?

O conceito surge mais como uma crítica a uma determinada narrativa do tempo do que como uma proposta de mudança de termo. Serve para não nos acomodarmos com a ideia de que não há alternativas, afinal destruir o meio ambente é da “natureza do homem”. Uma ideia no mesmo estilo de “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. 

Quando pensamos na fala do ministro não ligamos diretamente a Brumadinho, mas podemos. Podemos ligar a outras várias discussões em andamento. Enquanto o jornalismo se mantém “chapa branca” e puramente declaratório, a desinformação se espalha. Então, será que o jornalismo não deveria fornecer informação de qualidade para que o leitor tire suas conclusões e ter a responsabilidade de refletir sobre o que está sendo dito?

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Potencialidades e carências no jornalismo local sobre meio ambiente

Por Débora Gallas Steigleder *

Conforme a terceira edição do Atlas da Notícia, publicada no final de 2019, aproximadamente 75% dos municípios da Região Sul do Brasil são enquadrados como desertos ou quase desertos de notícias, onde não há quaisquer veículos jornalísticos ou, na melhor das hipóteses, existem apenas um ou dois deles. Viamão, município vizinho à capital sul-riograndense, Porto Alegre, não está enquadrado enquanto deserto de notícias, pois possui dez veículos listados em pesquisa no realizada no site do projeto. No entanto, foi difícil encontrar textos jornalísticos sobre o tema escolhido para análise desta semana no Observatório: o projeto de implantação de aterro sanitário na área rural do município, nas proximidades da Aldeia Guarani Cantagalo e de propriedades de produção de alimentos orgânicos.

Proposto pela Prefeitura de Viamão no início de 2019, o projeto recebeu inúmeras críticas da população local, repercutidas à época por veículos regionais de grande expressividade, como os jornais Zero Hora e Correio do Povo. Pelo fato de a comunidade local seguir mobilizada contra o empreendimento e por conta do agendamento de uma consulta pública pela Prefeitura, realizada na última terça-feira, 14 de janeiro, era de se esperar que as mídias locais estivessem atentas aos desdobramentos desse debate público de relevância para o município. Porém, afora postagens de cidadãos e figuras públicas nas redes sociais, não localizamos cobertura jornalística sobre o acontecimento.

De acordo com busca na ferramenta Google Notícias no dia 15 de janeiro, a única menção de caráter jornalístico à audiência pública aparece em texto do jornal Brasil de Fato publicado em sete de janeiro. O foco da notícia, no entanto, é a aprovação do Projeto de Lei 185/2019, que obriga a aprovação legislativa para instalação de empreendimentos de aterro sanitário, reciclagem e manuseio de lixo no município. Em buscas realizadas individualmente nos portais de veículos locais e regionais, nenhuma menção à realização de audiência pública ou aos desdobramentos do debate sobre a instalação do aterro sanitário – assim como no site da Prefeitura Municipal de Viamão.

Na página do Facebook Correio Viamonense, a qual conta com mais de 12 mil curtidas e se intitula enquanto empresa de mídia com sede em Viamão, há um post com foto da audiência pública e texto contrário ao projeto. Embora não apareça no Atlas da Notícia e seu conteúdo possa não ser caracterizado enquanto jornalismo por replicar textos e imagens sem indicar fonte ou por compartilhar postagens de perfis pessoais, por exemplo, é possível crer que tal página seja resultado de uma ação popular a fim de repercutir assuntos de interesse público. Isto porque, em comparação, a página do Diário de Viamão, veículo listado no Atlas da Notícia e que conta com mais de 23 mil curtidas, não publica quaisquer atualizações desde o dia 4 de janeiro.

Na série O jornalismo no Brasil em 2020, o fortalecimento do jornalismo local foi apontado por Nina Weingrill como uma urgência frente ao crescimento dos desertos de notícias. E são iniciativas da própria comunidade que podem suprir o vazio informativo, ainda que soluções para a sobrevivência financeira precisem ser testadas e aprimoradas. No caso de temas ambientais, esta necessidade é ainda mais evidente. Pautas relevantes para atuais e futuras gerações de comunidades heterogêneas como a população rural de Viamão, em vias de ser diretamente impactada pelo empreendimento do aterro sanitário, seguem invisibilizadas no contexto de crise do jornalismo enquanto instituição e modelo de negócios. 

Imagem 1: Resultado de busca por veículos do município de Viamão no portal Atlas da Notícia
Imagem 2: Resultado de busca no Google Notícias com os termos “aterro sanitário Viamão”

Imagem 3: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook Correio Viamonense

Imagem 4: Repercussão da consulta pública do dia 14 de janeiro na página do Facebook do vereador Guto Lopes

Imagem 5: Resultado de busca de notícias mais recentes no site do Diário de Viamão
*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

“O homem é o que a terra, ou o solo, faz dele.”

Imagem: Ana Maria Primavesi (Divulgação)
Por Eliege Fante*

Em acordo com a frase do título, pode muito bem ser por isso que o ser humano anda tão adoecido, subnutrido ou tentando completar a sua nutrição buscando minerais, vitaminas, etc., além das refeições. Ou o que responderia Ana Maria Primavesi, se é que já não respondeu em um dos trabalhos entre as centenas que estão disponíveis para o nosso conhecimento no site que leva o seu nome.O solo da agricultura em grande escala ou empresarial, aquela das monoculturas e das commodities, vem sendo maltratado sob a pulverização de um número cada vez maior de agrotóxicos (em quantidade e toxicidade). Imaginemos o impacto sobre quatro quintos das terras do país, que segundo notícia da Agência Brasil, ainda em 2014 estavam sob o poder das médias e grandes propriedades rurais.

O manejo do solo era considerado errado pela agrônoma e pioneira da agroecologia em 1980. Em notícia veiculada em Zero Hora à época, ela afirmava que o Brasil não tinha uma política nacional de conservação de solos: “Quando se permite o desmatamento de enormes áreas, não existe política de conservação do solo”. Lembremos das queimadas provocadas nos estados do bioma amazônico em agosto de 2019, ações que ainda não cessaram por completo. E a mudança do clima também preocupava há 40 anos: “Existem leis que não são cumpridas e a modificação do clima, que tanto reclamam, está havendo em decorrência de uma intromissão sem planejamento”. As leis não só não são cumpridas como têm sido muito alteradas.

É o caso do “novo” Código do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul. Nos últimos 15 anos foram noticiadas as demandas dos setores produtivos por atualização, flexibilização, modernização das regras, etc. Antes de terminar o primeiro ano de mandato, o governador Eduardo Leite (PSDB, 2019-2022) conseguiu a aprovação por maioria dos deputados do projeto de lei 431 de 2019 que tinha 480 alterações, definidas e escritas não se sabe por quem, conforme reportado pelo jornal Extra Classe no mês passado.

Recordemos que em 2009, o projeto de lei (PL) 154 do Executivo (Yeda Crusius, PSDB, 2007-2010) propunha “mesclar” todos os códigos em um só: o ambiental, o florestal, o de recursos hídricos e de solos (CP, 28 out. 2009). Mas foi tanta inconstitucionalidade que a Associação do Ministério Público sugeriu aos deputados que não o levassem ao plenário da Assembleia para votação (CP, 10 nov. 2009). E assim aquele PL acabou arquivado.

No Brasil pós-Golpe de 2016 com a radicalização do discurso neoliberal o “novo” Código foi publicado no Diário Oficial de 9 de janeiro de 2020, como Lei 15.434 que “Institui o Código Estadual do Meio Ambiente do Estado do RS”, ignorando a já instituída Lei 11.520 de 2000 e trabalhada por quase uma década com diversificada participação de atores sociais. Em acordo com as próprias demandas dos setores produtivos para uma alteração nesta lei, não teria sido mais adequado o verbo “Atualiza” do que “Institui”?

Ana Maria Primavesi, a agrônoma que faleceu aos 99 anos no quinto dia de 2020, dialogou por oito décadas com inúmeros atores sociais e de todas as classes. Que a pertinência do seu exemplo e de seus ensinamentos para o presente seja reconhecida também pelos jornalistas, a quem cabe informar a sociedade sobre a cronologia e as consequências do desmonte das políticas públicas ambientais.

* Eliege Fante é jornalista, doutoranda em Comunicação pela UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista Capes.

Que calor, que horror, menos pavor e mais consciência ambiental!  

Por Carine Massierer*

O Jornalismo Ambiental tem muitos desafios, mas o maior deles é contribuir para que a população mude suas posturas e reveja sua forma de vida, de interação com o meio ambiente e se torne consciente de que as mudanças climáticas são reais. Prova disto são as ondas de calor que vêm afetando o mundo de Norte a Sul e que são apenas noticiadas quando os prejuízos passam a afetar nossos bolsos, as temperaturas se tornam quase insuportáveis, pessoas e animais estão morrendo e as plantações destinadas a nossa alimentação estão sendo perdidas em função da escassez de chuvas.

As coisas estão mudando faz tempo, mas raros são os espaços na imprensa corporativa e raros são os momentos minimamente dedicados às mudanças climáticas. O tema merece muito mais cobertura e não só quando o calor chega a temperaturas nunca antes alcançadas na história de diferentes países e causa pavor, como na matéria publicada no site do G1 no dia 04/01/20, como mostra a manchete abaixo:

CM artigo OJA - sobe para 23 numero de incendios

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1 acompanhada de vídeo

O incômodo pela ausência de mudanças do clima na imprensa e aí não me refiro somente a imprensa comercial, mas também a falta de iniciativas de produção de matérias por parte das assessorias de imprensa e de pessoas ligadas a organizações da sociedade civil e suas redes, por agências de jornalismo investigativo, dentre outros. Muito se deve a falta de investimento político (pois as mudanças do clima não são tema que atraia votos) e financeiro, o que deveria ser diferente em razão da importância civilizacional, como são as mudanças no clima da Terra.

A mudança do clima em si tem valor-notícia para permanecer no hard news, mas não permanece. Ela somente vira pauta quando situações extremadas preocupam a sociedade, afetam o mercado financeiro e causam perdas nas lavouras, como no registro feito pela Globo no telejornal Hora Um, em 03/01/20, para retratar as faltas de chuvas no Rio Grande do Sul registradas desde o final de 2019, aliadas a altas temperaturas.

falta de chuva e temperaturas altas

Imagem – Captura de tela de matéria publicada no site do G1 na Hora Um da Notícia

O tema é pouco noticiado e sem regularidade, e nem mesmo o Observatório do Clima que poderia ser um espaço de consulta e abrir frente a uma ampliação de espaços para o tema na imprensa brasileira, não tem conseguido mudar a situação apesar de assumir a responsabilidade importante de noticiar e cobrar ativamente o governo.

Enfim, compartilho da ideia do jornalista Ulisses Capozzoli, de que “a mídia é de fundamental importância para a conscientização, especialmente na educação para um presente e futuro cada vez mais exigentes, de um ponto de vista ambiental, entre outros. E aí aparece o paradoxo: o desafio de conscientizar a própria mídia” para a importância do tema e a mudança de postura da população.

Antes que o calor nos mate, façamos do pavor um motivo de mudança de postura pessoal e de convencimento de que o jornalismo precisa sim ter assumir uma posição: estar ao lado do meio ambiente e da vida.

 

Referência:

CAPOZZOLI, Ulisses. Aquecimento global e a consciência da mídia. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br/ciencia/aquecimento-global-e-a-consciencia-da-midia/ . Acesso em: 05 de janeiro de 2020.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada no site do G1
Por Carine Massierer*

A matéria publicada em 12 de setembro no site do G1 chama a atenção, pois o tema das queimadas na Amazônia e em outras regiões do Brasil anda tomando conta dos noticiários tanto em impressos, quanto na internet, rádio e televisão. E são muitas as opiniões da população com relação ao tema. Porém, em muitas publicações a notícia apenas consegue exprimir o relato do fato em si e não dá conta de explicar que esta pauta tem muitos fatores intercorrentes como causadores das queimadas e suas consequências para todos os seres.

Ao Jornalismo Ambiental interessa muito a evidência do tema, que sempre deveria estar presente na mídia em função dos riscos para a preservação de todas as espécies e a manutenção do meio ambiente. Mas a forma como o tema é abordado é preocupante, pois normalmente o leitor não consegue ter um retrato do quanto as interferências humanas estão modificando as condições naturais. Nós precisamos dar informações aos leitores para que as queimadas aqueçam os debates ambientais e não só o Jornalismo.

No caso da matéria mostrada acima e encontrada no link https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/12/pantanal-registra-334percent-mais-focos-de-incendio-em-2019-ano-com-menos-chuvas-e-intensa-onda-de-calor-na-regiao.ghtml , o que se percebe é uma preocupação do veículo e do jornalista em mostrar o aumento dos focos de queimadas considerando os mesmos períodos em 2018 e 2019, a partir de dados apresentados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

No texto são explicadas ainda as causas deste aumento por meio de informações repassadas por Institutos de Pesquisas, como menor incidência de chuvas, mais calor e a ação humana intencional ou não associada a ventos fortes. Além disto, são citadas as ações de governo para conter o problema e como este bioma está sendo afetado se comparado a outros brasileiros. “Ao todo, 49,6% dos focos do período foram registrados na Amazônia. Em segundo lugar vem o Cerrado, com 33%; seguido por Mata Atlântica, com 9,7%; Pantanal, com 4,1%; Caatinga, com 2,8%; e Pampa, com 0,9%”, cita a matéria. Porém há uma ressalva nesta matéria de que desde início de setembro o Cerrado vem apresentando mais queimadas.

A matéria não é longa, mas dá uma dimensão do problema bem realista e com uma boa abrangência dos riscos ambientais e humanos. Isto mostra que o Jornalismo Ambiental pode contribuir para o enfrentamento e compreensão dos riscos inerentes à sociedade contemporânea, pois a notícia apresentada é bem contextualizada, calcada em várias fontes e comprometida com o interesse público. Mas não nos esqueçamos de ir além, precisamos aproveitar que o tema está aquecendo o Jornalismo para promovermos também o debate público.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Noticiabilidade: o que os jornais valorizam mais? 

Imagem: Reprodução de parte do documento do MPF
Por Eliege Fante*

Recentemente o Ministério Público Federal (MPF) emitiu um documento de 21 páginas, bem justificado a partir da legislação vigente e documentado com notas públicas de servidores e notícias publicadas pela imprensa, recomendando ao Ministério de Meio Ambiente (MMA) que tome 13 ações emergenciais, em um prazo de 30 dias, para “frear os danos ambientais em curso no país”.

O jornalismo tem como premissa publicar as informações de interesse público. Mas, um dia após a emissão do documento (5 set. 2019), a constatação é de que apenas o jornal O Estado de SP noticiou a pauta sobre as recomendações que tentam reestabelecer o papel do MMA. A pesquisa através dos buscadores nos sites dos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Globo e Folha de SP não indicou nenhuma abordagem noticiosa. Será que estes meios de comunicação não perceberam o valor notícia de ruptura* nesta cobertura ambiental? A mudança no fluxo dos eventos, até porque o MMA tem 30 dias para responder oficialmente às recomendações do MPF, não é credível para o jornalismo privado? Estariam enxergando mais valor-notícia na continuidade da publicação dos atos do Ministro Ricardo Salles?

A leitura das recomendações feitas pelo MPF mostra a sua validade em se tratando do MMA, um poder público com compromissos nacionais e internacionais a corresponder e a cumprir, sejam no âmbito da Constituição Federal ou da ética. As recomendações listam ações esperadas por parte deste Ministério, tais como retirar e apreender o gado criado em áreas de desmatamento ilegal, obviamente em conjunto com o Ibama e o ICMBio; fiscalizar empresas frigoríficas que não possuem compromissos públicos de controle da origem de matéria-prima, também em conjunto com o Ibama; lavrar autos de infração e embargar áreas desmatadas ilegalmente “de maneira automatizada pelo Ibama e ICMBio, independente de vistoria de campo, quando os sistemas de monitoramento eletrônico apontarem a abertura e o responsável não apresentar a devida autorização”.

Outra recomendação ao MMA é quanto à falácia, amplamente difundida pelos meios de comunicação, sobre o trabalho do INPE e resultados do desmatamento na Amazônia. O MPF pede que sejam apresentadas, “de maneira objetiva, dados técnicos que comprovem cientificamente que as informações produzidas pelo INPE não seriam suficientes para uma estratégia de atuação e fiscalização em campo satisfatória, em conjunto com uso de outros sistemas como os alertas promovidos pelo CENSIPAM e a experiência de outros setores da administração pública, como nas Secretarias de Meio Ambiente Estaduais e Municipais”. Ainda neste sentido, o MPF pede que não contrate empresa de monitoramento (em substituição ao INPE) já que até o momento “não se revela tal necessidade, sob pena de violação aos princípios da economicidade e da razoabilidade”.

Estas duas recomendações, em especial, poderão vir a esclarecer o público que por ventura tenha se sentido confuso, sem saber no que acreditar: se nas palavras do governo que chama de fakenews o que não corresponde ao seu interesse ou nas palavras do órgão público de pesquisa científica, reconhecido mundialmente e com atuação premiada há décadas.

Destacamos ainda a recomendação para o estabelecimento de “uma política de comunicação pública adequada que permita aos servidores públicos […] cumprir o dever legal e constitucional de prestar contas à sociedade das ações específicas e necessárias adotadas diariamente para o cumprimento da legislação ambiental”. Ah, a comunicação pública! Ansiamos que o próximo documento a ser emitido pelo MPF contemple o reestabelecimento da instituição comunicação pública brasileira, vítima de desmonte pelo Governo Bolsonaro. Pois, a dita “reestruturação da Empresa Brasileira de Comunicação” consistiu na fusão da TV Brasil (comunicação pública) com a NBR (comunicação estatal). O resultado é a produção de uma comunicação estatal, de governo, e, portanto, alinhada às cores partidárias do mandato atual. O que fere o preceito constitucional de complementaridade entre os serviços: público, estatal e privado.

Incentivamos fortemente a leitura completa do documento aqui.

*ruptura e mudança no fluxo dos eventos, dimensões das qualidades da noticiabilidade. Franciscato em Silva, Silva e Fernandes. Critérios de noticiabilidade. 2014. p. 102-103.

*Eliege Fante é jornalista, mestra e doutoranda em Comunicação e Informação pelo PPGCOM UFRGS. É também integrante do GPJA

Acontecimento global no jornalismo local: é hora de alinhar escalas e rever visões de mundo

Imagem: Edição de Zero Hora
Por Débora Gallas Steigleder*

O planeta se mobiliza pela Amazônia em chamas, e o jornalismo repercute os diferentes vieses que envolvem este conflito ambiental, evidenciado pela chegada de partículas das queimadas a São Paulo em 19 de agosto.

A edição do fim de semana de 25 e 26 de agosto de Zero Hora, que traz o assunto na capa, pretendeu aprofundar alguns tópicos a partir de apuração própria da redação do jornal gaúcho. O texto na primeira página da cobertura, não assinado, traz um apanhado geral dos aspectos políticos que envolvem o conflito por um viés declaratório, com a tradicional reprodução de pronunciamentos das fontes oficiais. Nada de novo aqui, portanto. A dimensão local é abordada em seguida, em texto de Leonardo Vieceli, que faz um gancho com a menção ao risco que a destruição da floresta representa ao acordo comercial recém firmado entre União Europeia e Mercosul. O repórter relata a preocupação de entidades exportadoras do Rio Grande do Sul com os danos do crime ambiental à imagem do país frente aos parceiros comerciais. Esta centralidade nos impactos econômicos segue a posição editorial da empresa e é repercutida por colunistas de Política e Economia na mesma edição. De certa forma, então, nada de novo até aqui também.

A seguir, um quadro informativo com mitos e verdades sobre a Amazônia ajuda a contextualizar o leitor e complementa o texto de Iarema Soares, que apresenta o olhar dos especialistas sobre as possibilidades de restauração e as perdas inestimáveis nos ecossistemas amazônicos. Assim como a entrevista com bombeiro que está trabalhando no combate às queimadas, realizada por Rodrigo Lopes, estes recursos permitem um diálogo entre escalas. Nada substitui a presença do repórter in loco, mas, em um contexto de limitações físicas (e financeiras), uma construção discursiva que oriente o olhar “daqui para lá” é interessante para gerar proximidade. Um passo importante, porém, seria incorporar uma reflexão constante na cobertura sobre os efeitos diretos da perda da Amazônia em nossas vidas independentemente da proximidade geográfica com ela. Afinal, já passou da hora de reconhecermos as interconexões que fundamentam a vida na Terra.

Talvez o conteúdo local mais expressivo da cobertura seja o histórico da destruição da floresta, assinado por Itamar Melo, com gráficos e comparativo da área desmatada na Amazônia com o território do Rio Grande do Sul. O texto menciona que gaúchos foram estimulados a ocupar a região a partir dos anos 50. E, amplificando a questão da continuidade, é interessante ver aqui o deslocamento de sentido sobre o tema em Zero Hora, por meio de uma espécie de reversão do silenciamento: em minha leitura, por exemplo, remeti imediatamente a todas as coberturas do veículo – e do Grupo RBS, em geral – com narrativas heroicas sobre a conquista do Centro-Oeste e do Matopiba por gaúchos envolvidos no monocultivo de soja. Ao longo de décadas, a expansão das fronteiras agrícolas foi relatada – e exaltada – nos veículos da empresa sem contraponto ambiental. Muitos jornalistas têm-se posicionado para apontar o discurso violento e mentiroso de representantes do governo federal como avalizador de crimes ambientais, e com razão. Mas já é tempo de as mídias e seus profissionais fazerem uma autoavaliação: em que medida terem corroborado para o mito do progresso também contribuiu para a “naturalização” da destruição?

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Através da nuvem de fumaça: quando os meios de comunicação são os nossos olhos

Imagem: Captura de tela do site El País Brasil
Por Ursula Schilling*

O tópico que eu tinha em mente para minha análise seria, mais uma vez, a questão dos agrotóxicos, visto ser esse o meu tema atual de estudos. Mas não posso ignorar o fato de que, há mais de uma semana, a mídia tem dado amplo espaço para um assunto que, por seu caráter desastroso, não pode ser deixado de lado: as queimadas na Amazônia.

Quando decidi escrever sobre este tópico, fiz um rápido exercício e me questionei: o quanto já sei a respeito e por que meios me informei? Consumo pouco jornal impresso, sendo o online minha principal fonte de informação. Tomei contato com o assunto, num primeiro momento, pelo meu feed de notícias do Facebook. Sim, o algoritmo já entendeu os temas que me interessam e minha bolha informativa me mantém atualizada. Mas me chamou atenção, porém, o fato de não apenas sites voltados ao meio ambiente e veículos de mídia segmentada estarem noticiando a situação, mas grandes portais de notícias, que, usualmente, não se dedicam às pautas ambientais, pelo menos, não com a intensidade de agora.

Já propus isso uma vez e proponho novamente: dê um “Google” e digite a palavra “queimadas”. Não é preciso sequer digitar o resto, para que se auto completem as expressões “queimadas na Amazônia”, “queimadas na Amazônia 2019” e coisas do gênero. Um clique e todos os resultados apontam para grandes canais como Globo.com., El País Brasil, Folha de S.Paulo, entre outros.

Imagem: captura de tela do Google

Numa breve reflexão, quero levantar três pontos.

1) Trago um primeiro ponto: qualquer pessoa que more aqui no Sul do Brasil, por exemplo, a não ser que tenha um parente no Pará, onde teria começado “o dia do fogo“, que relate o caos instalado em função dos incêndios, não tem como saber o que realmente acontece na outra ponta do País. E mesmo alguém que more numa das cidades cobertas pela nuvem de fumaça, que se deslocou por centenas de quilômetros, não tem como saber sua origem. Nesse caso, a mídia são os nossos olhos (não vou entrar aqui na questão das redes sociais), para vermos o que acontece longe de nós. Ou seja, os jornalistas estariam, de fato, cumprindo seu papel de informar.

2) Certo. O assunto foi agendado, as queimadas na Amazônia estão nas rodas mais corriqueiras de conversa. Mas e agora? O que se fala exatamente? E aqui vem meu segundo ponto: a mídia, uma vez expondo a dramática situação da maior floresta tropical do mundo, faz isso sob que vieses? Esclarece as razões da destruição acelerada da mata? Ajuda o leitor/espectador a compreender as dimensões e consequências dos estragos? Mais uma vez, parece que sim. Ainda que seja necessário o acesso a diferentes sites, numa espécie de montagem de colcha de retalhos, é possível se munir de muita informação. A evolução das queimadas, suas motivações políticas e econômicas e suas proporções, estão entre perspectivas possíveis.

3) Contudo, é preciso manter o espírito crítico e a vigilância. Ainda que o tema tenha alcançado visibilidade sob diversas abordagens, cabe questionar: por quanto tempo ele terá o interesse da mídia? Mesmo com os vários pontos levantados, somos levados a pensar nossa relação com a destruição da nossa fauna e da nossa flora? Há um nível de esclarecimento que nos permita compreender a gravidade do que acontece? As notícias conseguem fazer frente aos estragos da desinformação?

Após construir meu mosaico informativo, parece-me, infelizmente, que não. Nesse caso, é necessário um trabalho sistemático e, por que não dizer, educativo. Uma vez cessadas as queimadas, se a mídia voltar a calar e invisibilizar o tema, ficamos sem nossos olhos e ouvidos para aquilo que não é de nosso domínio e do nosso cotidiano.

Por isso, proponho um último desafio: daqui dois meses, quando eu retornar a este espaço para trazer mais reflexões, vejamos juntos o quanto dessa grande crise ambiental brasileira ainda estará sendo problematizada, se ela ainda terá espaço nobre nos grandes veículos, a fim de não cair no esquecimento. Mas não espere por mim, nem todo esse tempo. Faça, diariamente, esse exercício crítico. Ele é fundamental.
E que até lá, reste-nos alguma Amazônia.

*Ursula Schilling é jornalista, mestranda em Comunicação e Informação pela UFRGS e faz parte do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Quando o jornalismo ambiental encontra o literário

Captura de tela – Reportagem da edição de agosto da revista Piauí
Por Roberto Villar Belmonte*

Talvez somente nos meses que antecederam a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que aconteceu no Rio de Janeiro entre os dias 3 e 14 de junho de 1992, tenha se falado tanto sobre questões ambientais do Brasil como nesses primeiros meses do Governo Bolsonaro. Os grandes eventos e as catástrofes têm esse efeito nos jornalistas. Eles mobilizam.

O desmonte da governança ambiental planejado no ano passado e colocado em prática no início de 2019 foi descrito detalhadamente em uma reportagem de 11 páginas da revista Piauí assinada por Bernardo Esteves. Na mesma edição de junho, a publicação mensal deu mais 11 páginas para capítulo inédito do livro A Terra inabitável: uma história do futuro, de David Wallace-Wells.

Essa edição tinha ainda um texto de uma página sobre o plantio de milho dos quilombolas do Vale do Ribeira, em São Paulo, e mais cinco páginas sobre uma batalha jurídica para salvar uma árvore amazônica em Copacabana. Essas 28 páginas da Piauí de junho com pautas do campo ambiental poderiam ser atribuídas ao Dia do Meio Ambiente (5 de junho), período em que proliferam juras de amor à sustentabilidade. Mas não é o caso.

A pauta ambiental sempre esteve no radar editorial da publicação de referência criada por João Moreira Salles. Um exemplo é a reconstituição do crime praticado pela Samarco em Mariana (MG) realizada pela repórter Consuelo Dieguez na reportagem A onda publicada na edição de julho de 2016 na Piauí. Esse trabalho entrou para os anais do jornalismo brasileiro e é estudado em sala de aula.

Os recursos do jornalismo literário – imersão do repórter, humanização das personagens, reconstrução de cenas, reprodução de diálogos – ajudam a dar sentido aos dramas e conflitos que envolvem a relação sociedade e natureza. Tais recursos, incentivados na Piauí, são muito produtivos quando a pauta é ambiental devido à complexidade dos temas e as diversas relações necessárias.

A edição de agosto da revista Piauí chegou às bancas com mais uma pauta do campo ambiental: os furtos de abelha no interior de Minas Gerais. A reportagem de quatro páginas do repórter Leonardo Pujol leva o leitor ao mundo dos apicultores, conectando o modo de ver as pautas do jornalismo ambiental aos recursos narrativos do jornalismo literário.

Nesse mundo da criação de abelhas (insetos afetados pela mudança do clima e pelos venenos utilizados nas monoculturas do agronegócio), agora também há ocorrências policiais, como já ocorre há séculos com o gado. Pujol, que contou essa história, faz parte dessa nova geração de jornalistas sensibilizados pelas questões ambientais e, no caso dele, pelo jornalismo literário.

Como salienta o professor Reges Schwaab em um dos capítulos do e-book Jornalismo ambiental: teoria e prática, “o espaço da reportagem ampliada ou em profundidade e o pensamento socioambiental têm, em termos de estrutura de pensamento, um parentesco” (p.71). Prova disso é a revista Piauí, publicação que não apenas abre espaço para temas ambientais, mas também para novos talentos do jornalismo brasileiro.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).