Imprensa foge ao debate sobre os malefícios da mineração no RS

Fonte: Captura de tela parcial do site Sul21

Por Cláudia Herte de Moraes *

O Rio Grande do Sul está sob ameaça. Estamos falando da possibilidade de instalação de mais de 150 projetos de mineração em várias regiões do estado. A mineração definitivamente não é sustentável. Além disso, a gestão irresponsável do setor, em vários momentos, coloca em risco ambientes e populações. Merecem registro os recentes acontecimentos que marcaram as grandes tragédias de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), ainda sem recuperação ou compensação ambiental possível, diante das perdas humanas, de biodiversidade e de modos de vida dos atingidos.

Os desafios da luta ambiental são constantes e o mesmo sistema capitalista, responsável pela crise climática, não dá sinais de renúncia à ganância que lhe é peculiar. As ameaças da mineração estão na pauta da sociedadee os grupos organizados pela luta ambiental estão na ativa. Na última semana, acompanhando o movimento contra a mineração, o webjornal Sul21 foi o único a publicar a Carta do Rio Camaquã, manifestação de mais de 90 entidades ambientalistas, sindicatos, representações estudantis e acadêmicas. No documento são trazidas informações importantes para o esclarecimento público, contendo a denúncia de que, além da mineração, está em curso projeto para instalação de uma hidrelétrica no Rio Camaquã, por Acordo de Cooperação Técnica entre a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA). O Sul21 fez reportagem chamando a atenção da população gaúcha frente às ameaças de perdas na área socioambiental. O webjornal é uma exceção entre veículos da imprensa gaúcha, pois dá espaço aos movimentos e trata a mineração como um problema, ou seja, pontuando os malefícios, para além do discurso produtivista. Em 2019, texto de Carine Massierer neste Observatório, já indicava essa situação preocupante, para a qual o restante dos veículos não buscam dar atenção.

Por outro lado, podemos observar que os movimentos sociais procuram manter suas vozes ativas no debate, especialmente quanto a conflitos ambientais, nos quais o destino das comunidades está em jogo. Neste sentido, analisamos as postagens na rede social Facebook do grupo de moradores, em ação pelo midiativismo ambiental, sobre o projeto de mineração no Rio Camaquã (RS). Refletindo sobre as postagens de resistência na sua interconexão com a luta pelo direito ao ambiente saudável, examinamos tanto a página Rio Camaquã – União Pela Preservação, como notícias governamentais e de um jornal de referência. A observação foi de um período de cinco anos e concluímos que há uma atenção muito limitada ao conflito, ou seja, o debate público sobre a mineração não ocorre de forma ampla no jornalismo gaúcho, além do que estes projetos são geralmente justificados pelos “ganhos econômicos do empreendimento”. O artigo publicado no início de 2020, foi feito em coautoria com Eliege Fante.

Também atuando em prol do debate público, está o Núcleo de Ecojornalistas do RS (NEJ-RS), entidade que reúne jornalistas engajados e especializados na pauta ambiental. O NEJ-RS realiza o evento Terça Ecológica abordando “O mapa da megamineração no RS: Riscos e estratégias de enfrentamento”, com Eduardo Raguse Quadros, engenheiro ambiental e integrante da coordenação do Comitê de Combate à Megamineração no Rio Grande do Sul (CCMRS) neste 27 de outubro. Os projetos em debate, caso aprovados, farão do RS o terceiro estado minerador do país, resultando em prováveis impactos negativos ao ambiente e às populações atingidas. O evento é apoiado pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (GPJA) CNPq/UFRGS.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br