Dia Mundial do Leite: entre preços, importações e as questões ambientais que ficam fora da cobertura

Imagem de Couleur por Pixabay

Por Gabriella de Barros *

Celebrado em 1º de junho, o Dia Mundial do Leite foi criado pela Food and Agriculture Organization para destacar a importância nutricional, econômica e social do leite em diferentes países. No Brasil, a data coincide com um momento de intenso debate sobre as importações de leite em pó provenientes da Argentina e do Uruguai, as medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e os impactos dessa disputa sobre produtores e consumidores.

Para esta análise, foram observadas cinco notícias: Entenda: Brasil importa leite em pó, mas é um dos gigantes em lácteos, Preço do leite volta a subir com menor oferta no campo e Governo aprova medidas antidumping contra leite da Argentina e Uruguai, da CNN Brasil; Camex aprova medidas antidumping contra leite em pó importado de Argentina e Uruguai, do MilkPoint; e MDIC confirma suspensão imediata de antidumping sobre leite em pó do Mercosul, publicada pelo UOL com conteúdo da Agência Estado. As matérias abordam diferentes aspectos do tema: a posição do Brasil no mercado internacional de lácteos, a alta recente dos preços do leite, as medidas antidumping contra produtos importados da Argentina e do Uruguai e a posterior suspensão dessas medidas pelo governo federal.

O que as matérias destacam

Ao analisar o conjunto das notícias, observa-se que a cobertura é fortemente orientada por uma perspectiva econômica. Concentram-se nos impactos das importações sobre a competitividade dos produtores brasileiros, nas oscilações dos preços pagos ao produtor, nas decisões governamentais relacionadas ao comércio internacional e nos possíveis reflexos dessas medidas para a inflação dos alimentos.

As fontes mais presentes são representantes do governo, entidades do setor leiteiro, especialistas em mercado e organizações ligadas à produção agropecuária. Nesse enquadramento, a disputa é apresentada principalmente como um conflito entre dois interesses legítimos: a proteção dos produtores nacionais e a manutenção de preços acessíveis para os consumidores.

A própria suspensão das medidas antidumping é justificada, nas matérias, pela preocupação com os preços dos alimentos e seus efeitos sobre o consumidor final. Dessa forma, a cobertura constrói uma narrativa em que a principal questão é econômica, como equilibrar a renda dos produtores brasileiros com a necessidade de evitar aumentos no preço do leite e de seus derivados.

O que as matérias deixam de lado

Embora a cobertura jornalística ofereça informações relevantes sobre mercado, comércio exterior e inflação, chama atenção a ausência de discussões ambientais mais amplas relacionadas à cadeia produtiva do leite. Pouco ou nada é mencionado sobre os impactos das mudanças climáticas na produção leiteira, mesmo em um contexto no qual secas, enchentes e eventos climáticos extremos vêm afetando a agropecuária em diferentes regiões da América do Sul. Também não aparecem reflexões sobre a vulnerabilidade dos sistemas alimentares diante das transformações climáticas ou sobre os desafios de construir modelos de produção mais sustentáveis.

Da mesma forma, as matérias não exploram como a permanência ou o desaparecimento de pequenos produtores pode afetar a organização dos territórios rurais, a segurança alimentar e a resiliência das cadeias de abastecimento. O debate fica concentrado nas dimensões comerciais e econômicas, enquanto aspectos socioambientais permanecem periféricos ou ausentes.

A disputa em torno do leite importado do Mercosul mostra que questões aparentemente econômicas também são questões ambientais. Discutir a produção de alimentos significa discutir território, clima, modos de vida rurais e a capacidade das sociedades de garantir abastecimento sustentável em um cenário de crescente instabilidade climática. Essa talvez seja a principal pauta ausente em boa parte da cobertura recente: não apenas quanto custa produzir leite, mas qual modelo de produção e de sistema alimentar está sendo construído para o futuro.

Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA

* Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS), do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

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