A desconexão e a falta de visão sistêmica fizeram os jornais gaúchos esquecerem do Dia Mundial dos Oceanos

Capão da Canoa – RS. Crédito: Ilza Girardi

Por Ilza Maria Tourinho Girardi*

No dia 8 de junho é celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. A data foi proposta em 1992, durante a Cúpula da Terra (Rio-92), no Rio de Janeiro, numa iniciativa do International Centre for Ocean Development (ICOD) do Canadá e do Ocean Institute of Canada, e foi oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas (ONU) em 2008. Os oceanos são fundamentais para a vida em nosso planeta, pois além de abrigarem a maior biodiversidade do mundo, produzem oxigênio e são reguladores do clima terrestre. A data também assinala o Dia do Oceanógrafo, que é o profissional dedicado ao seu estudo e cuidado.

Em tempos em que um El Niño de intensidade moderada a forte é anunciado com probabilidade de ocorrer a partir do próximo semestre, podendo provocar chuvas intensas, ventos fortes e inundações no Rio Grande do Sul e seca nas regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste, a data deveria ser assinalada pelos jornais de Porto Alegre. A cidade foi uma das atingidas pelo desastre hidrológico de 2024. Conforme pesquisadores como Rualdo Menegat, Porto Alegre, por exemplo, ainda não está preparada para um novo evento como o ocorrido há dois anos, pois muitas obras de proteção não foram concluídas, nem mesmo há um indicativo de como a população deve agir se a situação se repetir.

Esta análise parte do entendimento de que jornais publicados em Porto Alegre deveriam assinalar a data e mostrar a relação do El Niño com o aquecimento anormal do mar provocado pelo aumento das emissões de gases de efeito estufa em função da matriz energética, que não muda, pois empresas e governos arranjam desculpas para continuar explorando petróleo e carvão.

Foram verificadas as edições do dia 8 de junho dos jornais Zero Hora, Correio do Povo, Jornal do Comércio, O Sul e Diário Gaúcho, que são representantes da imprensa hegemônica do Rio Grande do Sul.  O jornal Zero Hora foi encartado numa “capa promocional” com propaganda da PUC-RS com seus projetos na área ambiental e tecnológica. A primeira página da capa é bem impactante, pois a arte dá a sensação de que o jornal está embarrado, com foto de casas submersas na água cheia de lama, lembrando a inundação de 2024. A manchete é “Cuidar da Terra já não é mais um projeto futuro”. Na frase de apoio vemos: “Nos últimos 5 anos, os desastres climáticos aumentaram em 250% no Brasil e cientistas apontam a tendência de mais eventos extremos nos próximos anos, com o RS entre as regiões mais suscetíveis”. No pé da página temos três chamadas: “Desmatamento: Em 2024, perdemos por minuto o equivalente à área de 18 campos de futebol em florestas primárias”; “Biodiversidade: Mais de 75% das espécies do mundo já foram extintas e 1 milhão podem sumir na próxima década”; “Educação: 40% dos currículos de educação básica não citam mudanças climáticas.”

Como se trata de uma “capa promocional” não há nenhuma chamada para uma matéria no interior do jornal. O Dia Mundial dos Oceanos não foi lembrado. Na página 2, no Informe Especial, há uma nota com o número 2 e título A ONU e o El Niño, com um pequeno texto falando sobre a origem do fenômeno, relacionado ao aumento da temperatura do oceano na superfície no centro e no leste do Oceano Pacífico Equatorial. O texto apresenta as consequências desse aumento da temperatura, mas nenhuma informação sobre as razões antrópicas para que isso ocorra.

O Correio do Povo, por sua vez, apresenta a mesma capa como informe publicitário da PUC-RS. O Dia Mundial dos Oceanos e o Dia do Oceanógrafo são lembrados no Editorial, na página 8. O texto destaca a importância do Oceanógrafo, identificando as atividades que o profissional desenvolve voltadas para “identificar o panorama da vida marinha, seus recursos, riscos, como no aquecimento global (…)”. Além disso, destaca a atuação dos profissionais nas zonas costeiras, lagos e rios, nas inundações, em projetos de desassoreamento dos rios. O último parágrafo afirma que “como organismo vivo que é, a Terra não pode prescindir de ter respeitados todos os seus itens vitais” e seu o nível de degradação “precisa ser contido com celeridade”. Na verdade, nada é dito sobre os oceanos e sua importância na regulação da temperatura do Planeta e nem sobre sua biodiversidade. Nem ao menos são mencionadas questões factuais que conectam diretamente o Rio Grande do Sul ao oceano. Exemplos são a recente criação do Parque Nacional do Albardão, em Santa Vitória do Palmar, o maior parque marinho do Brasil, que protege espécies aquáticas importantes, como as toninhas. Podemos também lembrar do projeto de construção de porto em Arroio do Sal, no Litoral Norte, que pode afetar a biodiversidade local e as formações costeiras, segundo críticos.

O Diário Gaúcho não mencionou o Dia Mundial dos Oceanos. Sua manchete anuncia “Novos imóveis também nas periferias da capital”. A frase de apoio destaca que os “Programas de moradia popular ajudam a impulsionar o “boom” de lançamentos do mercado imobiliário em 2026”. O assunto também foi destaque na capa de Zero Hora: Lançamentos de imóveis na capital crescem e reforçam retomada do setor.” O tema não será analisado aqui, mas sabe-se que a capital possui um alto número de imóveis vazios, inclusive prédios públicos, que poderiam ser utilizados para moradias populares, precisando, portanto, projetos governamentais para esse fim.

O Jornal O Sul ignorou o Dia Mundial dos Oceanos. O mesmo ocorreu com o Jornal do Comércio. Dos cinco jornais analisados, somente um citou minimamente a data. Essa ausência impressiona pela falta de informação ou de sensibilidade relacionada à importância dos oceanos para regular a temperatura da Terra, além de sua riqueza em biodiversidade, que também é ameaça pela poluição dos mares em especial pelos plásticos. Esses, aliás, são produzidos a partir do petróleo e do gás natural. A cobertura também mostra a desconexão com a formação do El Niño, que é uma preocupação dos gaúchos, que lamentavelmente não tem uma visão sistêmica sobre a natureza.

Existem diversos manuais de Jornalismo sobre cobertura de meio ambiente, desastres climáticos, além de seminários e cursos sobre a matéria. Infelizmente a pressão do trabalho impede os jornalistas de buscarem mais informações e aprenderem sobre esses temas que são essenciais a vida humana e dos demais seres. O que está acontecendo com o Jornalismo? Os pressupostos epistemológicos do Jornalismo Ambiental são uma orientação sobre como fazer Jornalismo, mas se tais pressupostos são desconhecidos, a função social do Jornalismo, estudada no início da faculdade, nos alerta que a informação é um direito do cidadão. Os jornais existem para informar a sociedade sobre o que está acontecendo e pode afetar sua vida. Os interesses mercadológicos não deveriam afetar o conteúdo editorial. Frequentemente tais interesses afetam a qualidade de vida da população, pois para muitos a poluição ainda é sinônimo de emprego e desenvolvimento e aumento de seus lucros.

*Professora Titular aposentada da UFRGS, Professora Colaboradora do PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

Revisão: Débora Gallas Steigleder, jornalista, mestre e  doutora em Comunicação pelo PPGCOM/UFRGS. Líder do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

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