Crédito: Fotos Públicas / Rafael Ribeiro/CBF
Por Nico Kûara Costamilan e Eloisa Beling Loose
A Copa do Mundo da FIFA iniciou na última semana, trazendo coberturas sobre calor extremo e seus impactos nos jogos, nos atletas, jornalistas e na torcida. Segundo relatório e pacote informativo divulgado pela ONU Mudança do Clima (UNFCCC), o público deve perceber sinais visíveis das adaptações às altas temperaturas no esporte em 2026: ritmo de jogo mais lento, substituições precoces, mudanças táticas, toalhas refrescantes, pausas para hidratação, toalhas refrescantes, coletes com gelo e possíveis interrupções e mudanças de horário.
Ondas de calor estão se tornando cada vez mais frequentes, intensas e perigosas devido às mudanças climáticas, e nenhum país anfitrião da Copa do Mundo atualmente escapa das temperaturas extremas. Devido aos possíveis riscos à saúde, a FIFA vem tomando decisões estratégicas em relação ao clima nos últimos anos: em 2022, o país-sede, o Qatar, modificou a data da competição, transferindo-a do verão para o inverno; e, em 2026, determinou um intervalo de três minutos para hidratação dos jogadores em cada tempo.
Na última semana, este Observatório analisou as notícias publicadas em veículos jornalísticos brasileiros sobre o excesso de calor na Copa do Mundo. Entre pesquisas e materiais amplamente divulgados neste mês, a ONU criou uma página interativa sobre a Copa do Mundo que aborda clima, refugiados e direitos humanos; manifestos e pesquisas de cientistas norte-americanos foram amplamente divulgados em veículos jornalísticos dos EUA nos últimos meses; e o executivo da UNFCCC, Simon Stiell, declarou que as pausas para hidratação devem servir como um lembrete dos impactos do aquecimento global e da necessidade da luta pela redução das emissões de GEE e da transição energética.
Tais iniciativas foram repercutidas nas notícias quando mencionam o excesso do calor, ainda que algumas delas apenas se detenham ao impacto da temperatura extrema nos corpos dos jogadores e como as seleções estão se adaptando. Outras trazem as pesquisas e alertas da ciência recentemente divulgados articulando com os efeitos das mudanças climáticas no evento.
Em matéria online do Fantástico desta segunda-feira (15) foi apresentada a estratégia da seleção belga para adaptar o organismo dos jogadores ao calor intenso: sessões de sauna de mais de 20 minutos após os treinamentos. Sobre a mesma estratégia inusitada, GE, Lance! e Estadão Conteúdo (republicadas no Correio do Povo e no O Dia), não tocaram no gritante aspecto climático do tema. As notícias têm uma lacuna de falta de aprofundamento e ligação do fenômeno com as mudanças climáticas – fala-se do calor extremo, mas não se menciona o que causou esse cenário.
O clima está nas pautas cotidianas mais que nunca, mas, mesmo assim, precisamos nos manter vigilantes de como podemos melhorar as coberturas jornalísticas, mesmo as esportivas e de entretenimento. Algumas frases de contextualização sobre as mudanças climáticas já fazem a diferença no entendimento dos leitores, que terão oportunidade de relacionar o fenômeno global com diferentes questões do seu dia a dia.
Como compartilhado no pacote informativo da UNFCCC para jornalistas, como emissoras, comentaristas e repórteres, esse é um momento importante para explicar aos leitores e telespectadores o que está acontecendo, para além do inusitado ou curioso. As mudanças climáticas são relevantes a tudo que ocorre em nosso tempo, inclusive no esporte favorito de boa parte do mundo.
* Estudante de Jornalismo da UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: nicocostamilan@gmail.com.
** Professora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

