Imagem: Rua alagada em Porto Alegre. Crédito da foto: Isabelle Rieger
Por Eutalita Bezerra*
Com todo o Rio Grande do Sul sob alertas hidrológicos e meteorológicos na última semana, conforme os boletins emitidos pelo Centro de Monitoramento da Defesa Civil do Estado, a cobertura jornalística passou a dedicar espaço ao tema. Para compreender como esses alertas foram tratados pela imprensa, analisamos a edição impressa do jornal Zero Hora durante o período de vigência do mais recente aviso da Defesa Civil (26 a 29 de julho). O objetivo foi identificar de que forma os alertas oficiais apareceram nas reportagens e verificar se a cobertura se limitou aos impactos imediatos das chuvas ou se também abriu espaço para discutir prevenção, adaptação e soluções.
A primeira edição analisada foi a do fim de semana de 25 e 26 de julho. O clima ocupou a capa do jornal, com uma imagem aérea do Guaíba e da Avenida Castelo Branco sob o título “Defesa Civil prevê ajustes no sistema de alertas do Estado”. Embora a chamada ainda tratasse das chuvas da semana anterior – o que se justifica pelo fechamento da edição antes do início do novo alerta, vigente a partir do dia 26 -, a publicação merece destaque por dedicar duas páginas ao tema. Aproximadamente uma página e meia foi destinada às soluções. Sob a cartola “Prevenção”, o jornal discutiu falhas no sistema de monitoramento e possíveis melhorias na previsão das cheias, destacando situações em que os alertas oficiais não indicavam risco, mas municípios já registravam avanço das águas.
Na edição de 27 de julho, a chamada de capa voltou a tratar do tema: “Defesa Civil amplia alerta diante de previsão de chuva intensa no Estado”. Apesar disso, as imagens de maior destaque na primeira página eram relacionadas ao futebol e às eleições, reduzindo visualmente a relevância da emergência climática. No interior do jornal, entretanto, o assunto recebeu duas páginas completas. A primeira concentrou-se nos alertas meteorológicos e nos municípios em situação de risco. A segunda foi inteiramente dedicada à prevenção climática. Além de apresentar as estações de bombeamento, consideradas aptas para enfrentar uma eventual cheia segundo informações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), a reportagem acompanhou o andamento das obras de prevenção em Porto Alegre e informou sobre a compra de duas novas bombas pela prefeitura. Embora tenha avançado ao abordar medidas preventivas, a cobertura deixou de problematizar questões importantes, como o motivo de parte das obras ainda não ter sido iniciada ou os fatores que levaram aos atrasos.
No dia 28 de julho, as chuvas passaram a ocupar a principal manchete do jornal: “Chuva deixa sete rios sob alerta no Estado”. A capa trazia referências a transtornos, como voos atrasados, quedas de árvores e alagamentos, mas a fotografia escolhida mostrava uma pessoa com o guarda-chuva quebrado pelo vento. Já a reportagem principal, publicada em página inteira sob o título “RS tem alerta de grande perigo para chuva intensa”, utilizou uma imagem de um veículo em uma rua alagada. No texto, apareceram como fontes o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Climatempo, com entrevista de um meteorologista, e a Defesa Civil estadual, responsável pelos alertas.
Na mesma página, outras duas reportagens complementavam a cobertura. A primeira tratava da coletiva de imprensa concedida pelo governador Eduardo Leite, com participação do prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. O foco estava nas ações preventivas adotadas pelo poder público, especialmente as já executadas pela prefeitura da capital. A segunda abordava a ampliação da estrutura da Defesa Civil estadual para enfrentar eventos extremos. Nela, o coordenador estadual do órgão destacava o processo de reestruturação iniciado após as enchentes de 2024.
Na edição de 29 de julho, a chuva voltou a ocupar a manchete principal: “Temporal amplia riscos de inundação e provoca estragos em diferentes regiões”. A fotografia de capa mostrava um destelhamento em Osório, enquanto a evolução das cheias dos rios monitorados pela Defesa Civil também ganhava destaque. No interior do jornal, duas páginas foram dedicadas aos efeitos do temporal. Além de uma nova imagem dos danos em Osório, havia destaque para o desabamento do teto de uma concessionária e os prejuízos materiais decorrentes.
Sob o título “Tempestade: alerta vermelho para grande parte do Estado”, a cobertura foi assinada por nove profissionais, evidenciando um esforço conjunto para acompanhar os desdobramentos da emergência. As fontes permaneceram praticamente as mesmas dos dias anteriores – Climatempo, Inmet e Defesa Civil. A edição também trouxe uma retranca voltada às soluções, intitulada “Prefeitura espera acabar com alagamentos na Capital até 2031”. O texto baseou-se em entrevista do diretor-presidente do Dmae à Rádio Gaúcha, destacando que as casas de bombas teriam funcionado adequadamente durante o temporal e informando a previsão de uma licitação de R$ 2 bilhões para obras de prevenção de alagamentos. No entanto, assim como nas edições anteriores, a reportagem não questiona por que esses projetos ainda não haviam sido iniciados nem discute as razões dos atrasos.
A análise das cinco edições revela uma mudança importante na abordagem do jornal em relação aos eventos climáticos extremos. Em levantamentos anteriores realizados pelo Observatório do Jornalismo Ambiental, predominavam reportagens centradas nos prejuízos, nas perdas e na resposta emergencial às enchentes. Nesta cobertura, entendemos que começam a ganhar espaço pautas relacionadas à prevenção, à adaptação e às soluções estruturais.
Esse avanço merece ser registrado. A prevenção climática passa a ocupar páginas específicas, obras de infraestrutura entram na agenda da cobertura e o funcionamento dos sistemas de proteção é apresentado ao leitor. Ainda assim, permanece uma lacuna importante. A maior parte das reportagens informa quais medidas estão previstas, mas não questiona por que elas ainda não foram implementadas, quais entraves impediram sua execução ou de que forma serão efetivamente concluídas. Em outras palavras, a prevenção começa a aparecer no noticiário, mas ainda precisa ser tratada de forma mais crítica e aprofundada, indo além da divulgação de promessas e permitindo ao jornalismo cumprir seu papel de fiscalização das políticas públicas diante da crise climática.
Revisão: Débora Gallas, líder do GPJA
*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)


