
Crédito: Flickr/ Lara Murillo – “June Climate Meetings” por UNclimatechange, CC BY-NC-SA 4.0
Por Ângela Camana*
Na mesma semana em que nações se reuniram para dar início à Copa do Mundo da FIFA, outro importante evento acontecia: representantes de quase 200 países se encontravam na Conferência de Bonn sobre Mudanças Climáticas (SB64), na Alemanha, encerrada na última quinta-feira, dia 18. A cúpula é considerada um espaço técnico preparatório para a 31ª. Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que ocorre em novembro, copresidida por Turquia e Austrália. A cobertura da imprensa brasileira sobre esta rodada de negociações foi escassa e a repercussão foi dominada por um tom de frustração quanto às possibilidades de avanço rumo a acordos robustos.
A abordagem de caráter mais analítico ficou a cargo de veículos especializados e de mídias vinculadas à sociedade civil organizada, notadamente o Observatório do Clima, cuja crítica foi reproduzida por numerosas páginas. A meta global de adaptação e o financiamento público para o combate às mudanças climáticas foram questionados, o que representa um retrocesso nos debates experimentados na COP30, em Belém. Após intensa cobertura da conferência na Amazônia, o jornalismo tem perdido a oportunidade de oferecer desdobramentos da realização deste megaevento no Brasil, o que compromete a qualidade da informação climática – algo crucial no momento hoje vivido.
Na imprensa de referência, a abordagem foi centrada em agendas especificas, como é o caso da pauta do Canal Rural sobre as proposições do agronegócio para a COP31. Já na Exame e na Folha de S. Paulo, a discussão foi centrada nos ataques à ciência que marcaram a conferência: Índia, China e Arábia Saudita se movimentaram para adiar a publicação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne e chancela as evidências científicas sobre a crise climática. O grupo ainda questionou a necessidade já acordada no âmbito do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C. Em resposta, uma coalizão encabeçada por representantes de Fiji, Nepal, União Europeia, Suíça, Serra Leoa e Panamá insistiu na capacidade da ciência de informar sobre as melhores decisões.
A despeito de enfatizarem os efeitos da ausência dos Estados Unidos nas negociações e caracterizarem Bonn como uma “batalha geopolítica” em função dos ataques ao conhecimento científico, a maioria dos textos sobre a conferência destaca o caráter eminentemente técnico do encontro. O não-reconhecimento de que a crise climática – e os mecanismos de enfrentamento a ela – são embebidos de política fragilizam ainda mais a já capenga cobertura sobre o clima e as COPs. A cobertura “técnica” em nada é neutra: ela própria despolitiza os espaços de debate climático e toda a estrutura de encontros, dissensos e negociações que os sustenta. Que o jornalismo possa, então, renunciar a abstrações e passar a traduzir as disputas de Bonn e das COPs em termos de poder: quem decide, quem financia, quem adia.
Revisão: Eutalita Bezerra, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).
*Jornalista e socióloga. Pesquisadora em pós-doutorado no PPG Agriculturas Amazônicas na UFPA. Colaboradora no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: angela.camana@hotmail.com
