Enquadramento hegemônico do projeto Natureza da CMPC escanteia questões indígenas e ecológicas

Imagem: Isabelle Rieger

Por Cláudia Herte de Moraes* e Franchesco de Oliveira Y Castro** 

A expansão do setor de celulose no Rio Grande do Sul voltou ao centro do debate público com o Projeto Natureza, da CMPC Celulose Riograndense, empreendimento que prevê a instalação de uma nova fábrica em Barra do Ribeiro, às margens do Guaíba. A fábrica ficará a 3,5 km de praias da zona sul de Porto Alegre e a menos de 7 km dos pontos de captação de água de abastecimento público da cidade.  A cobertura jornalística sobre direitos humanos e conflitos ambientais complexos como esse tem um papel fundamental. Mais do que noticiar o andamento do negócio, o jornalismo é desafiado a evidenciar a pluralidade de vozes no debate, especialmente as historicamente invisibilizadas, como as dos povos indígenas e de comunidades atingidas.

A reportagem de janeiro de 2026 da Agência Pública, “Celulose no RS: projeto da CMPC ameaça indígenas”, mostrou que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) original da empresa praticamente ignorou a presença indígena na região. O povo Guarani Mbyá só passou a ser considerado no processo após a intervenção do Ministério Público Federal (MPF). No jornalismo hegemônico, ao longo deste semestre, poucas reportagens destacaram aspectos da injustiça ambiental. Ao contrário, o discurso predominante foca nos aspectos econômicos do empreendimento. Porém, os impactos ambientais são imensos e foram denunciados em mídias independentes, como pelo Jornal JA: o lançamento de até 242 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba, incluindo substâncias tóxicas e cancerígenas e o alerta sobre o aumento da carga tóxica lançada no Guaíba. 

Não é a primeira vez que há um tratamento normalizador sobre as operações desta empresa. Moraes e Fante (2020) analisaram a cobertura jornalística da quadruplicação da unidade da empresa CMPC, em Guaíba/RS, entre os anos de 2016 e 2017. Mesmo diante de grande poluição, ultrapassando limites legais, forte mau odor e barulho alto e ininterrupto, o jornal Correio do Povo publicou apenas uma notícia e Zero Hora simplesmente desconheceu o conflito. 

No caso da nova fábrica em Barra do Ribeiro, no entanto, o enquadramento é de louvor ao “progresso” e ao “desenvolvimento”. Colunistas povoam os jornais hegemônicos e apoiam a política do governador Eduardo Leite, que diz não admitir perder um investimento bilionário, como aparece em manchete no Jornal do Comércio: “Leite diz que não trabalha com a hipótese de o RS perder investimento bilionário da CMPC“. Semelhante discurso figura no editorial da GZH de 11 de junho, ao afirmar que  “O que não é admissível é o risco de perder o projeto da CMPC por insegurança jurídica e exigências exorbitantes”. Além da pressão para aprovar o projeto, o Grupo RBS direciona a opinião pública a desconsiderar os graves impactos ambientais, afirmando que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) legitima o licenciamento prévio. Porém, como apontou a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), a Funai reafirmou seu compromisso com os direitos dos povos indígenas e manifestou intenção conciliatória, desde que respeitados seus direitos e a legislação.

Por outro lado, no Brasil de Fato, a reportagem “Paraguai vendido como vitrine empresarial expõe disputa sobre projeto da CMPC no RS” destaca que existe um ocultamento do verdadeiro impasse do projeto relacionado ao cumprimento constitucional dos direitos indígenas. O portal ((o))eco trouxe uma abordagem complexa no artigo “Situação política e interesses estrangeiros ameaçam o Guaíba, no Rio Grande do Sul”. Assinado pelo pesquisador da UFRGS Joel Henrique Ellwanger, o texto relaciona a expansão da empresa de celulose aos interesses econômicos internacionais, à conjuntura política do Rio Grande do Sul e aos riscos ambientais para o Guaíba.  

Ao estimular o debate crítico sobre grandes projetos de desenvolvimento e seus efeitos sobre territórios e comunidades envolvidas, os veículos independentes valorizam aspectos como justiça climática, participação social e preservação dos ecossistemas. Desta forma, prevalece o compromisso em fortalecer uma cobertura mais plural e contextualizada, pressupostos relevantes do jornalismo ambiental, e busca defender o debate público com base na crise de direitos e da ecologia. 

Enquanto isso, o enquadramento hegemônico aponta para um progresso sem precaução; e nos perguntamos: para quem?

Revisão: Débora Gallas, vice-líder do GPJA.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.

**Graduando em Jornalismo na UFSM. Integrante do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br

Referência:

MORAES, C.H. de; FANTE, E. M. Jornalismo e invisibilidade do conflito ambiental no caso da CMPC Celulose Riograndense. E-Legis − Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação da Câmara dos Deputados, Brasília, DF, Brasil, v. 13, n. 31, p. 110–129, 2020. https://e-legis.camara.leg.br/cefor/index.php/e-legis/article/view/529

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