Observatório de Jornalismo Ambiental

A devastação retorna à pauta: entre a derrota política e o risco sistêmico

Por Cláudia Herte de Moraes*

Em geral, os temas ambientais são complexos, refletindo a própria vida em sociedade. Em contraposição, a tônica do Jornalismo, em alguma medida, reside na possibilidade de simplificar a realidade para apresentar ao leitor um panorama dos principais pontos da pauta. Em um cenário de intensa disputa política pós-COP30, selecionei duas reportagens para observar o tratamento dado à derrubada dos vetos do presidente Lula na Lei Geral do Licenciamento Ambiental (popularmente chamada de “PL da Devastação”), ocorrida nesta semana. Escolhi ambas por serem detalhadas, permitindo identificar diferentes aspectos e refletir sobre como o Jornalismo pode atuar na vigilância e na fiscalização da agenda ecológica no Brasil.

A reportagem da Agência Pública focou no significado do fato, encarado como uma derrota para os ambientalistas e a base do governo. O texto detalhou o retorno de pontos perigosos, como a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC) para projetos de médio potencial poluidor, modalidade na qual se encaixam as barragens de Mariana e Brumadinho. Já a BBC News abordou a fragilização das normas e a insegurança territorial aos povos tradicionais. Neste caso, o foco na derrota política do governo também veio acompanhado da descrição dos pontos que voltaram ao arcabouço legal e que reduzem a proteção ambiental, tais como a regionalização de critérios, a ampliação da LAC, a diminuição da defesa da Mata Atlântica e a não vinculação de pareceres de órgãos como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Executivo cogita a judicialização (STF) como resposta.

As reportagens analisadas mostram que há ênfase na contextualização. A BBC, ao mencionar a judicialização e a iminente “guerra de flexibilizações” entre estados, ilustra uma cobertura sistêmica, conectando o ato político (do Legislativo) às esferas jurídica, econômica e federativa. A Pública reforça essa conexão ao ligar o LAC aos desastres de Mariana e Brumadinho, conferindo peso histórico e social ao risco iminente.

Os textos usam a voz de autoridades técnicas e ambientais (Ibama, MMA, ONGs) demonstrando que o saber ambiental foi uma lente importante para a apuração. Observei que há um tom de alerta e advertência, ao preverem o aumento do desmatamento e a insegurança jurídica, diretamente alinhado com o Princípio da Precaução. O Jornalismo, neste caso, atua como um sistema de alarme social, amplificando as vozes que buscam antecipar e evitar o dano irreversível.

Embora as reportagens tragam informações importantes e contextualizadas, diante do cenário de destruição, constatei que ainda há espaço para aprofundamentos, especialmente em direção à transformação social. Os textos citam o argumento dos defensores do PL (que apontam maior “segurança jurídica” e/ou a possibilidade de maior “desenvolvimento”) de forma superficial, geralmente em uma única frase. O indicado é aprofundar a lógica por trás do lobby e dos argumentos pró-flexibilização. É fundamental entender o que o chamado setor produtivo espera e como essa agenda se articula no Congresso, expondo, por exemplo, os interesses da bancada ruralista. A reportagem deve investigar se esses interesses são contemplados economicamente e até mesmo se o produto do agro brasileiro, sem fiscalização, perde valor e competitividade em mercados externos exigentes.

Percebi que a complexidade da derrubada de vetos (56 de 63) e dos mecanismos legais (LAC, regionalização dos critérios) pode ser densa para o público leigo. A indicação aqui seria melhorar a qualidade da informação com o uso estratégico de recursos visuais que detalhem o retrocesso ambiental e a dinâmica dos vetos de forma mais didática e acessível.

Adotar o tom da derrota do Executivo pode ser um risco, desviando o foco do problema estrutural. A ideia é que o Jornalismo assuma a responsabilidade de ir além da reação política imediata. Para isso, é preciso manter a cobertura constante sobre os impactos concretos da nova lei, associados ao aumento do desmatamento e a novos desastres socioambientais. Cobrar a responsabilização dos parlamentares que derrubaram os vetos, e sugerir alternativas e soluções é uma proposição da função política do jornalismo ambiental, servindo para orientar a ação do cidadão, e não apenas sua indignação.

 Em conclusão, posso afirmar que as duas reportagens representam um avanço na cobertura ambiental brasileira, agindo com as lentes do jornalismo ambiental ao expor a gravidade de uma decisão legislativa que foi contrária à posição de inúmeras organizações sociais, ambientalistas e científicas. Mas, para consolidar-se como agente para a mudança de pensamento e não apenas de informação, deve refinar sua prática na desconstrução das narrativas do lobby (a partir da pluralidade de perspectivas e da qualificação da informação), trazendo para si o compromisso com o monitoramento a longo prazo dos impactos, garantindo que a “vitória” do Congresso sobre os vetos não se torne uma derrota permanente para o interesse público.

*Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br 

Como a imprensa brasileira avaliou a COP30: tensões, omissões e avanços limitados

Por Nadja Nobre*

A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.

Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.

Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.

O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.

A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.

Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.

A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.

Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.

No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.

Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.

A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.

* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.

Oceano perde destaque na decisão final da COP30, mas entra no radar da cobertura jornalística

Foto: samsommer/unsplash

Por Débora Gallas*

Berçário da vida na Terra, hoje o oceano é o principal viabilizador da sobrevivência de nossa e de muitas espécies – mesmo as que, como a nossa, vivem em solo firme. O oceano é responsável por absorver cerca de 30% dos gases causadores do efeito estufa da atmosfera e mais de 90% do excesso de calor gerado por essas emissões. Assim, consegue produzir mais de 50% do oxigênio do planeta. Porém, o aquecimento desenfreado das águas por conta das mudanças climáticas está prejudicando sua capacidade de regular o clima global.

É curioso, portanto, que somente na 30ª Conferência do Clima da ONU tenha recebido mais destaque. De maneira inédita, o tema contou com uma enviada especial, Marinez Scherer, professora da Universidade Federal de Santa Catarina. A Conferência também propôs uma agenda de ação climática, que consiste em caminhos propostos para a implementação de soluções, considerando o oceano como um de seus eixos temáticos.

Durante a COP30, houve, por exemplo, o lançamento da Força-Tarefa Oceânica, liderada por Brasil e França, um esforço de 17 países para incluírem a preservação das áreas marinhas e costeiras nas suas metas voluntárias para o clima, as chamadas NDCs. Também ocorreu o anúncio do Pacote Azul, uma espécie de portifólio de soluções para o oceano já em curso em todo o mundo, em áreas como gestão de resíduos, pesca sustentável e restauração ambiental, a fim de monitorar e acelerar sua implementação.

Questões relacionadas ao oceano também foram pautadas pelo conselho científico da COP30 e em espaços como o Pavilhão da Ciência Planetária e o Pavilhão do Oceano, na Zona Azul – que recebe os participantes credenciados.

Dentro das salas de negociação, o esforço pode não ter obtido os resultados esperados, visto que o oceano foi timidamente citado no documento final – a Decisão Mutirão. Mas o jornalismo notou o tema ao longo da Conferência, ainda que em coberturas pontuais. Verificamos esse interesse através da pesquisa, no Google Notícias, pelos termos “oceano” + “COP30” publicadas entre 6 e 27 de novembro.

A atuação de uma enviada especial para o oceano foi notícia em sites como Agência Brasil, Um Só Planeta, Envolverde e Repórter Brasil. Este, aliás, foi um dos poucos veículos que apresentou algum tipo de continuidade na cobertura sobre o tema, publicando matérias de Vinícius Konchinski. A primeira aborda a ausência de discussões sobre o plástico na agenda da COP30 – muito embora uma reação coordenada dos países sobre a questão tenha sido frustrada também em agosto deste ano com a suspensão das negociações sobre um tratado internacional contra a poluição plástica.

Já a reportagem seguinte traz um balanço final de especialistas sobre o avanço da pauta na COP30. A enviada especial Marinez Scherer avalia que esta edição foi um ponto de virada para o oceano por conta da Força-Tarefa Oceânica e do Pacote Azul. Já o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo Alexander Turra considerou frustrantes os diversos debates sobre oceano na Conferência não estarem contemplados na declaração final. O Portal NeoMondo, por sua vez, publicou boletins diários do professor sobre sua participação na Conferência.

Publicada antes do encerramento da COP30, em 21 de novembro, a reportagem de Herton Escobar para o Jornal da USP também relatou a expectativa dos especialistas em relação ao tema, mas ainda em um tom mais otimista, em que os entrevistados destacam a edição de Belém como uma arena fundamental para visibilizar a contribuição do oceano no combate às mudanças climáticas. 

Já veículos da imprensa hegemônica, como UOL e O Globo, repercutiram sobretudo as cifras que envolvem o Pacote Azul, antecipado por reportagem de Jéssica Maes para a Folha de S.Paulo em 6 de novembro. O documento prevê investimentos de ao menos 116 bilhões de dólares nos eixos conservação, alimentos, energia renovável, transporte e turismo.

Embora não apareçam nos resultados da pesquisa no Google Notícias, destacamos, ainda, a cobertura de outros veículos que, como Repórter Brasil, integraram a iniciativa da Casa do Jornalismo Socioambiental, na qual mais de 20 iniciativas de jornalismo independente de todo o Brasil organizaram sua cobertura e a publicação conjunta de conteúdos produzidos pelas equipes.

Alice Martins Morais, do Amazônia Vox, conversou com o representante de Tuvalu na COP30, um arquipélago no Oceano Pacífico que corre o risco de desaparecer por conta do aumento do nível do mar. Já Meghie Rodrigues e Chloé Pinheiro, do podcast Ciência Suja e da newsletter Polígono, conversaram com as cientistas Marina Hirota e Regina Rodrigues (UFSC) sobre o papel da ciência na COP. As convidadas abordaram o papel do corpo de cientistas fornecendo e organizando as evidências disponibilizadas aos tomadores de decisão – e mencionam perdas irreversíveis relacionadas ao oceano e ocasionadas pelo aquecimento global, como o branqueamento de corais e o colapso da corrente marítima AMOC, que regula a temperatura climática global.

Sabemos que o aquecimento das águas do oceano está relacionado à maior recorrência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ciclones e furacões, além de causar erosão costeira, aumento do nível do mar e impacto direto em atividades produtivas como pesca e turismo. Por isso, é fundamental que não somente sua participação cresça nas próximas decisões multilaterais sobre o meio ambiente, mas que a imprensa siga acompanhando o tema de forma constante e transversal.

Para sensibilizar a população sobre a importância do oceano e gerar mobilizações sociais que alcancem os tomadores de decisão, um caminho incontornável é conectar questões ambientais como a degradação das águas e dos ecossistemas que nela vivem a temas cotidianos dos campos político, econômico e cultural. Como discurso que orienta o olhar coletivo, o jornalismo é essencial nesse processo.

*Jornalista, doutora em comunicação, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e da Rede Ressoa Oceano, pela qual acompanhou a COP30 em Belém.

Enquanto discutimos o mapa do caminho, o futuro nos escapa

Por Franchesco de Oliveira* e Cláudia Herte de Moraes**

Depois de dias intensos em Belém, a COP-30 deixa de ser apenas um encontro global e se torna um ponto de virada (ou de cobrança) para o mundo. Agora, no pós-COP-30, é hora de olhar para além dos discursos e avaliar o que realmente ficou: os compromissos firmados, as tensões expostas, os avanços possíveis e as lacunas que persistem. Entre análises que apontam divergências internas, acordos considerados tímidos e expectativas não atendidas por cientistas, ambientalistas e negociadores, estamos em um momento decisivo para entender o que, de fato, mudou e o que ainda permanece na agenda climática mundial.

A conferência terminou com promessas de acelerar a transição energética, elevar o financiamento climático e estabelecer mecanismos mais rígidos de adaptação. Houve avanços, mas também frustrações: os países maiores emissores ainda resistem a metas vinculantes, e o financiamento aos países do Sul Global continua marcado por burocracias e disputas políticas. Ainda assim, Belém deslocou o eixo das discussões: a urgência climática tem território, tem povo, tem nome. E tem pressa. 

Neste Observatório de Jornalismo Ambiental, acompanhamos a preparação e a realização da COP-30 a partir de diferentes abordagens e jornalismos. Podemos afirmar que a pauta se consolidou como mais relevante e mais aprofundada nesta edição do evento, realizado no coração da Amazônia. A atmosfera e a proximidade da COP-30 trouxeram elementos de destaque para o debate sobre a emergência climática que, afinal, já está sendo vivenciada de forma avassaladora no mundo. 

Para a análise do Nexo, mesmo com a inclusão de temas na COP que geralmente passam ao largo da visibilidade midiática (justiça racial, gênero e participação social com a Cúpula dos Povos), o ponto central sobre os combustíveis fósseis e desmatamento foi considerado vago e incapaz de reparar minimamente a dívida histórica do Norte Global com o Sul Global. Neste sentido, a reportagem analisada colabora para um debate mais aprofundado sobre as causas do aquecimento global e não apenas sobre as consequências já sentidas em vários cantos do mundo. 

Da mesma forma, a BBC destacou que a COP-30 terminou sob o peso das ausências, sobretudo a dos Estados Unidos, e de um texto final que frustrou ambientalistas ao não incluir qualquer referência aos “mapas do caminho” para abandonar os combustíveis fósseis e zerar o desmatamento, duas das propostas centrais defendidas por Lula. Embora o “Mutirão Global” tenha sido saudado por evitar a implosão do Acordo de Paris, o recuo diante da pressão de grandes produtores e consumidores de petróleo, como Arábia Saudita, Índia e China, marcou um dos pontos mais sensíveis da conferência. Ainda assim, a BBC apontou avanços moderados, como o aumento do financiamento para adaptação agora com a meta de triplicar até 2035, a inclusão histórica do termo “afrodescendentes” nos documentos oficiais e a adoção de 59 indicadores globais para medir a capacidade de adaptação climática. Ou seja, o veículo destacou o avanço da justiça racial, incorporando uma visão mais complexa da questão climática que é socioambiental em sua base.

Para o G1 a palavra que resume a COP30 é frustração. A principal decepção foi a ausência total de menções aos combustíveis fósseis nos documentos finais, assim como  nos textos de Nexo e BBC.  O portal inclui uma avaliação de que  houve avanços simbólicos, como a inclusão inédita de referências a afrodescendentes. Indicou ainda que para a ONU, a falta de ambição reflete a conjuntura geopolítica fragmentada, com os Estados Unidos ausentes, a União Europeia enfraquecida e China relutante em assumir liderança. Observamos que a análise do G1 trouxe a visão da governança global, de forma indireta, indicando que para a construção de um caminho ainda há fortes entraves de Estados negacionistas e/ou pressionados pelas elites econômicas que atuam globalmente.

Diante desse conjunto de avanços pequenos e problemas que continuam sem solução, os textos do pós-COP funcionam como um alerta: o mundo não está discutindo apenas metas, mas o que ainda é possível evitar diante da crise climática. Belém mostrou a força dos povos da floresta, das vozes que quase nunca são ouvidas e da pressão social que tenta mudar o centro das decisões. 

Ficou evidente que as grandes potências defendem de forma cada vez mais aguerrida os seus interesses ligados aos combustíveis fósseis e que a política internacional segue dividida. Relembramos aqui uma análise deste Observatório sobre a cobertura da COP-28, em 2023, que tratava do mesmo tema: o abandono dos combustíveis fósseis é uma exigência de nosso tempo

Durante a “barqueata” que integrou a programação da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30, o cacique Raoni disse: “Precisamos cuidar do planeta. Se continuar o desmatamento, nossos filhos e netos vão ter problemas sérios. O nosso território garante a respiração do mundo inteiro.” O pós-COP-30 não é um encerramento, e sim um aviso: o planeta continua cobrando medidas concretas enquanto muitos países ainda hesitam em agir. O relógio climático não para e a história vai registrar quem escolheu empurrar o problema para depois, enquanto o futuro escapava.

*Franchesco de Oliveira é graduando em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: franchesco.castro@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

A crise climática precisa ouvir quem herda o planeta: As crianças!

Por Carine Massierer*

Se as crianças são o futuro do nosso país e seguem sendo educadas desconectadas da natureza, desvinculadas das matérias primas naturais e não conhecendo os processos de produção, como exigir delas uma conexão para a preservação ambiental? Em paralelo, a midiatização acaba por promover o distanciamento das relações sociais e cada vez mais temos a informação vinculada ao que as mídias virtuais nos entregam.

E o que tudo isso tem a ver com a COP 30? Se o futuro do Brasil e das crianças não está na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, onde ele pode estar?

Em 11 dias o Brasil comemorou ser sede dos 30 anos da COP em uma edição especial por acontecer na Amazônia, destacando a importância da floresta para o clima global e por reunir contribuições de mais de 600 crianças de 12 países e quatro continentes, reforçando a urgência de incluir as novas gerações nas decisões climáticas. Representando o Rio Grande do Sul, o município de Estância Velha se fez presente, por meio de uma carta de sugestões com ações de combate aos problemas causados pelo fator climático.

Além do movimento infantil, Unicef e outras entidades representativas e ONGs, como o Instituto Alana, movimentaram os espaços de debate na Conferência e também as mídias virtuais para chamar a atenção dos governantes e da Imprensa.

A imprensa não ficou de fora: o Correio Braziliense, Agência Brasil,  O Globo, CNN Brasil, TVT News, G1, Band, Folha de São Paulo. Todos estes veículos noticiaram esta edição da Conferência como a mais significativa no que se refere a manifestação pública pela necessidade de garantia de direitos às crianças frente aos agravamentos das vulnerabilidades em contextos de emergências climáticas.

No entanto, a matéria da Folha de São Paulo mostra o contraponto dos demais textos, apresentando a manifestação de ONGs que lutam pela cidadania das pessoas mais vulneráveis. As crianças estão entre as principais vítimas, de acordo com estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alerta para o fato de que seis de cada dez crianças brasileiras já sofrem os impactos das mudanças climáticas.

Segundo as fontes do texto da Folha, dos 50 mil credenciados na COP 30, apenas 100 eram crianças e adolescentes que estavam presentes por força da sociedade civil. Isso descortina o fato de que se as crianças estão entre as principais vítimas das emergências e precisam ser prioridade neste debate. 

Assim, a COP 30 além de ser o evento mais importante destas duas semanas no Brasil e de ter a imprensa reverberando de alguma forma a presença das infâncias, os governantes precisam refletir e agir rapidamente fazendo com que as políticas públicas e a educação deste país estejam preparadas para as emergências climáticas.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Uma semana e muitos impasses: a cobertura da imprensa sobre as negociações da COP-30

Por Alice Balbé* e Caroline Garcia**

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-30, terminou e tem repercutido na cobertura midiática pela falta de consenso sobre as pautas principais e pela aguardada conclusão das negociações políticas. As discussões na primeira COP no Brasil seguem em Belém, no Pará, até o dia 21 de novembro de 2025.

A luta contra os combustíveis fósseis e o financiamento climático têm sido um dos principais desafios nas negociações das COPs. Os principais impasses estão em torno do financiamento climático robusto, da adaptação, da eliminação dos combustíveis fósseis e da transparência nas metas nacionais (NDCs). A CBN caracterizou a primeira semana como de “avanços mínimos e pressão”, a BBC Brasil como um “cabo de guerra” entre custeio e investimento no petróleo e o Estadão como “morna”. A Folha de SP destacou o clima de tensão política, a tentativa brasileira de assumir protagonismo e a busca por novas estratégias para destravar negociações em temas sensíveis ao futuro da governança climática global.

Já a Reuters explicou o processo de discussões que exige consenso entre os 194 países envolvidos e descreveu que um dos impasses para os acordos é o próprio modelo de votação. Lembrando que um dos acordos para “eliminar gradualmente” o uso global de carvão foi diluído após uma objeção de última hora da Índia na COP-26, em Glasgow, em 2021. No entanto, discutir mudanças na estrutura das negociações pode comprometer ainda mais as tentativas de acordos, que já lidam com políticas anti-clima, como dos Estados Unidos, que não enviaram delegados à COP-30. 

O Colabora destacou os ineditismos e o protagonismo no Brasil, com a promessa do “Mapa do Caminho”, que segue fora da agenda principal, mas em negociações, e com a aprovação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Também houve destaque para o tema da desinformação ter entrado na agenda e para a mobilização social com o protagonismo indígena sem precedentes. 

A inclusão da desinformação na agenda oficial refletiu uma preocupação inédita. Seguindo uma tendência de grande volume de publicações nas redes sociais nos primeiros dias da COP (Balbé; Carvalho, 2017) e diante do desafio de enfrentar desinformação, foi realizado um monitoramento nas redes sociais TikTok, Instagram e X. O jornal GLOBO revelou que, só no primeiro dia do evento, mais de 1.114 postagens foram classificadas como falsas. Os dados mostram que esses conteúdos foram publicados por perfis de oposição ao governo, contendo informações falsas, descontextualizadas e imagens manipuladas. Esses dados reforçam a importância do lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima liderada pelo Brasil e que, por enquanto, conta com a assinatura de 11 países e visa trazer uma resposta institucional ao impacto da desinformação em contextos climáticos.

A COP-30 tem a maior participação de povos originários em três décadas de conferências do clima, resultado de uma articulação inédita com o governo federal. Dados da Agência Brasil destacam o feito: cerca de 400 representantes indígenas atuam credenciados nas salas de negociação oficial, enquanto uma aldeia montada em Belém reúne aproximadamente 3 mil pessoas de etnias do Brasil, de outras regiões da América Latina e de comunidades tradicionais da África e Ásia. 

Por outro lado, é um duplo momento dos povos originários: a participação inédita e a luta contínua por mais voz. Nas ruas, apelos pela demarcação de terras e denúncias sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, como repercutiu o jornal O Povo. Essas manifestações representam uma retomada do espaço de protesto público, após duas edições de COP realizadas em países com fortes restrições à mobilização civil no Egito (COP-27) e Emirados Árabes (COP-28).

Além das pautas políticas, questões logísticas também ganharam destaque. A CNN Brasil repercutiu críticas à organização do evento, incluindo falhas de segurança, no abastecimento de água nos banheiros e problemas de refrigeração nos pavilhões. O incômodo gerado entre a sociedade civil foi tal que a ONU chegou a enviar uma carta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, criticando a estrutura e exigindo ajustes imediatos, uma medida incomum por parte da organização.

De forma geral, a cobertura trouxe um misto de “primeiros passos” dados e de expectativa para as reuniões políticas que se iniciam esta semana. Qual será o protagonismo que o Brasil quer assumir? Qual será o legado da primeira COP na Amazônia?

*Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

**Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista de iniciação à popularização da ciência no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: carol.diasgarcias@gmail.com

Referência:

BALBÉ, A. D.; CARVALHO, A. (2017). As mudanças climáticas no Twitter: a ascendência da mídia e da política. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 40. https://doi.org/10.5380/dma.v40i0.49047

Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração

Por Karina Gomes Barbosa*

No último dia 5 de novembro, Mariana relembrou os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. O desastre-crime matou 19 pessoas, provocou um aborto, destruiu comunidades tradicionais em Minas Gerais e devastou o Rio Doce até a foz, no Espírito Santo. Aqui, do epicentro do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, considerado o pior desastre socioambiental da história do país, vemos esta década de forma ambígua e amarga.

De um lado, as comunidades atingidas conseguiram – e conseguem – vitórias inegáveis, graças a uma mobilização incansável ainda que sem direito a integrar as mesas decisórias da reparação desde 2015. Entre essas conquistas estão o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), em 2016, e a promessa de melhores condições de saúde com a construção de um hospital universitário em Mariana, neste ano. Na última sexta-feira, 14, a anglo-australiana BHP foi condenada nos tribunais ingleses pelo colapso da barragem de rejeitos.

Do outro, porém, são 10 anos de lutas desiguais, contra corporações minerárias transnacionais que emperram o andamento das ações judiciais no Brasil (foram absolvidas das acusações criminais, junto com os principais executivos e as empresas que atestaram a segurança da estrutura); contra ações de reparação sem escuta ativa e sem respeitar as necessidades e desejos das pessoas atingidas; contra preconceitos; e contra a invisibilidade.

Um dos espaços onde essa falta de presença se dá com mais força é o jornalismo. De 2015 para cá, houve mudanças perceptíveis na cobertura. Aquilo que num primeiro momento se configurou quase como um assédio a pessoas em choque, traumatizadas, incapazes de elaborar aquilo por que haviam passado, aos poucos se transformou numa escrita jornalística fria, distante.

Por anos, os temas relacionados a Fundão que emergiam na imprensa nacional diziam respeito às ações judiciais, aos desdobramentos nas investigações criminais e aos anúncios feitos pela Renova, entidade criada para, supostamente, gerenciar a reparação, e que sempre foi controlada pelas antigas rés do crime, dissolvida em 2025 porque não cumpriu suas obrigações.

Uma cobertura mais humanizada aparecia apenas nas efemérides, e nem em todas elas, quando veículos do país inteiro vinham dar conta do que estava ocorrendo aqui com as pessoas e comunidades atingidas, ou em veículos independentes ou laboratoriais produzidos no curso de Jornalismo da UFOP. Nos últimos anos, nem isso. Muitos veículos, inclusive mineiros, usaram material produzido pela Agência Brasil para não terem de se deslocar a Mariana.

Aos poucos o cenário vem se transformando, modesta e sazonalmente. Alguns veículos ampliaram, em certa medida, o olhar sobre o crime de 2015, trazendo temas caros às pessoas atingidas, como a violação cotidiana de direitos e os problemas de saúde decorrentes da catástrofe socioambiental. Essa presença mais constante, de uma abordagem menos emotiva e mais focada na perspectiva da luta e dos direitos humanos, modificou inclusive a relação de muitos e muitas atingidas com a imprensa: de desconfiança absoluta a uma atitude mais colaborativa com aqueles que mostravam as angulações para poderem ser atendidos por quem tem uma agenda de luta sem tréguas.

Em 2025, essa mudança ficou perceptível. Fundão já havia voltado aos holofotes desde junho, quando o presidente Lula e uma caravana de ministros estiveram em Mariana para anunciar um controverso acordo de repactuação – uma revisão dos termos da reparação assinada em 2016 –, elaborado mais uma vez sem a presença ou sequer uma escuta responsável e comprometida de atingidos e atingidas. Em novembro, a cobertura, de modo geral, foi respeitosa e buscou equilibrar as dimensões econômicas, jurídicas, socioambientais e o aspecto humano.

Contudo, uma ausência notável permanece e se perpetua, como miopia ou dificuldade de o jornalismo olhar para os acontecimentos com uma perspectiva sistêmica. Pouco ou nada se fala da conexão entre a exploração minerária predatória e a emergência climática. Os efeitos da extração de minerais são visíveis a olho nu, todos os dias, e obviamente cobram sua conta para a cidade, a bacia hidrográfica, o país, o planeta. Parece que mais uma vez, após mais de dois séculos, o minério consegue se esconder de sua responsabilidade sobre a devastação socioambiental do mundo.

Aqui em Mariana, a exploração protagonizada por Samarco, Vale, BHP, Cedro e, em breve, Cidreira – fora a moda das mini minas como a Patrimônio Mineração, na comunidade do Botafogo, em Ouro Preto – prevê o uso de uma quantidade abissal de água, jamais claramente apurada, inclusive para assentar o pó das atividades. Curiosamente, as duas cidades sofrem com falta d’água, a despeito de estarem rodeadas de nascentes.

A poeira que chega à zona urbana leva a diversos problemas respiratórios e de pele e a uma sobrecarga do sistema de saúde. Os serviços de saúde não são os únicos onerados. Mariana enfrenta problemas de saneamento básico e coleta de lixo, devido ao excesso populacional trazido pelos trabalhadores da mineração, além de aluguéis e comida inflacionados. O fluxo de ônibus de transporte de funcionários e de caminhões, alguns de carroceria tripla para transportar máquinas de ficção científica, geram poluição sonora, engarrafamentos, danos abundantes ao asfalto e, óbvio, emissão de gases poluidores.

Uma caminhada nas proximidades das barragens (agora, dizem, em descomissionamento) e pelas áreas de extração exibe a face mais explícita dos danos: o que eram montanhas e morros repletos de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado vão se tornando aos poucos zonas áridas, terrosas, terra arrasada. O reflorestamento parece uma eterna promessa que não se cumpre, porque a expropriação nunca tem fim.

Se vemos grandes reportagens apontando o desmatamento na Amazônia e o garimpo ilegal como vilões das mudanças climáticas, corporações como a Vale surgem como empresas comprometidas com a mineração verde – enquanto transformam a comunidade de Antônio Pereira em cenário de filme de terror em tons avermelhados. Isso sem falar que a zona rural de Mariana e todas essa outras localidades não existem para a mídia.

Quem já ouviu falar de Campinas, Pedras, Ponte do Gama, Águas Claras, ou até mesmo de Paracatu de Baixo e Gesteira, dois subdistritos arrastados, como foi Bento Rodrigues?

Andando um pouco mais, quem, num raio de menos de 100 km de Mariana, já leu ou escutou o nome de Socorro, distrito de Barão de Cocais que guarda semelhanças profundas históricas e demográficas com Bento Rodrigues, mas que carrega o estigma de não ter entrado para a história como terra arrasada, já que lá a barragem da Vale não rompeu, mas expulsou as pessoas de sua tricentenária comunidade desde 2019?

Os impactos imediatos e futuros gerados pelas mineradoras em pequenas cidades de 60, 80 mil habitantes (o IBGE não considera a população flutuante minerária) são desconsiderados pelo jornalismo, que parece não conectar a criação de diversas Marianas, Brumadinhos, Itabiras pelo país com os regimes de chuva irregulares, às tempestades que desalojam populações em vulnerabilidade, às ondas de calor que se multiplicam a cada ano, a secas inclementes, ao desaparecimento de áreas verdes, à morte de nascentes.

São cidades pequenas, desimportantes no cenário geral, parece. Cujos modos de vida esmagados pela mineração não têm noticiabilidade suficiente. A mineração legalizada, chancelada por ANM, MME e tantas siglas governamentais, tem credibilidade para dizer que não polui, mitiga, repara, refloresta, recompõe, devolve o que tirou, ao mesmo tempo que submete comunidades a processos de terrorismo de barragens, chantagens financeiras, violências e incertezas.

Enquanto isso, a Samarco começa um processo de expansão chamado Longo Prazo, com o objetivo de ampliar em 100% a capacidade de extração até 2042. Mais uma vez, o jornalismo parece dar pouca atenção à perspectiva distópica que se avizinha sobre a região, onde nasceu Minas Gerais graças ao ouro e que vive sob a maldição/dádiva do minério desde então.

A cegueira do jornalismo ante a essa conexão flagrante vai custar caro, como já custou em 2015, 2019 e ao longo da história mineira. Quando nossos pequenos problemas explodirem na foz de um rio, quando nossos pequenos danos se tornarem 272 mortos, quando nossas pequenas minas contribuírem para o fracasso do país com as metas de qualquer COP, eles serão novamente noticiados, com surpresa, horror e, provavelmente, a mesma incompreensão estrutural.

A autora agradece a André Luís Carvalho pela leitura e pelas contribuições.

* Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), convidada por este Observatório em razão de seus estudos que envolvem o desastre-crime que completou recentemente dez anos. E-mail: karina.barbosa@gmail.com.

Rio Bonito do Iguaçu: quando um evento extremo é noticiado sem raízes

Por Eutalita Bezerra*

O Sul do Brasil enfrenta um novo episódio de destruição: mal se recupera das enchentes, agora lida com os danos causados por nova tempestade severa. Se na enxurrada o principal atingido foi o Rio Grande do Sul, desta vez, ainda que o estado gaúcho também tenha sido impactado pela tempestade, a destruição se abateu mais fortemente sobre Santa Catarina e Paraná. O primeiro foi afetado por pelo menos três tornados durante a onda de chuvas ocorrida no último dia 7. Já o segundo contou um dos mais intensos tornados registrados no planeta neste ano, com ventos de até 330 km/h, conforme a Metsul Meteorologia e os governos estaduais. O fenômeno dizimou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, que teve 90% dos imóveis danificados ou totalmente destruídos.

Para esta análise, buscamos entender a forma que os veículos de comunicação se debruçaram sobre a questão, na fase de rescaldo. Tomamos como foco o Paraná, considerando a repercussão mais significativa, dada a singularidade do fenômeno. Optamos por utilizar o ChatGPT como ferramenta de busca**. Valemo-nos do seguinte prompt: “Na ultima sexta-feira (7), o Paraná foi atingido por uma tempestade severa e por tornados. Me indique links de veículos jornalísticos com presença digital consolidada que tenham divulgado essa notícia.”. A pesquisa inicial retornou sete links, entre veículos brasileiros e estrangeiros (Associated Press, India Times e El Pais), dos quais um, o da AP News, apareceu duas vezes. Um dos textos foi descartado por não se tratar de veículo reconhecidamente jornalístico, embora produza notícias: o Climatempo. 

Chegamos à publicação da CNN Brasil, “Tornado no Paraná deixa ao menos 1.000 pessoas desalojadas”, veiculada em 8 de novembro. As fontes ouvidas foram o Governo do Paraná e a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil, mas há citação direta apenas do governador. O texto inicia contabilizando as perdas verificadas até aquele dia. Também relaciona as ações emergenciais do Governo do Paraná, citando abrigos e estruturas montadas para alimentação, triagem e encaminhamento dos afetados. Apresenta-se o número de mortos e feridos. De forma educativa, a repórter também diferencia “desabrigados” e “desalojados”. A publicação é finalizada com hiperlinks para uma reportagem sobre a classificação do tornado e outra metodológica, explicando como a categorização é feita. 

Ao longo do texto, outras hiperligações também são disponibilizadas, quais sejam: para publicação sobre luto oficial de três dias no estado, para pronunciamento do secretário de saúde citando “cenário de guerra” após tornado e para entrevista do governador, segundo o qual esta seria uma catástrofe sem precedentes na história do Paraná. Na mesma publicação também há uma subdivisão chamada “Leia mais”, que direciona para outras três publicações: “Veja quem são os mortos na catástrofe”, “Passagem de três tornados causa destruição no Oeste de Santa Catarina” e “O que é um ciclone extratropical? Saiba o que fazer durante uma tempestade”.

A segunda publicação disponibilizada pela ferramenta de busca foi da Agência Brasil, “Tornado destrói 90% de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e causa seis mortes”, também do dia 8. A publicação tem como foco a cidade mais afetada, com imagens da destruição, citando dados de Defesa Civil, Governo do Paraná e Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Do mesmo modo que no texto anterior, citações diretas apenas do governador Ratinho Júnior, que fala sobre as ações emergenciais e que os estudos sobre a força do fenômeno ainda estavam em andamento. A publicação é finalizada com duas matérias relacionadas: Ciclone causa destruição, deixa 4 mortos e 400 feridos no Paraná e outra de alerta para ciclone em São Paulo na mesma data

O ChatGPT retornou, ainda, a publicação do The Times of India, veiculada em 9 de novembro, intitulada “Video: Moment tornado hit Brazil’s Parana; six killed hudreds injured”. Além de descrever o evento climático, a matéria trouxe vídeo do momento em que o tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu, replicado do perfil “WeatherMonitors” no X, antigo Twitter. Também se referiu a imagens aéreas que demonstraram o estrago deixado pelo tornado, embora não as tenha mostrado. Como fontes, foram citadas a Al Jazeera; o Governador do Paraná e o Presidente da República.

A Associated Press publicou que “Powerful tornado in Brazil kills 6 people and injures hundreds more”. De forma bastante breve, a publicação descreveu brevemente o fato, sem contextualizá-lo, e referiu-se ao luto oficial e à expressão de solidariedade do Presidente Lula. Embora cite “autoridades estaduais” para descrever a situação naquele momento, não especifica quem foi o emissor da informação.

Com efeito, entendemos que a ferramenta nos permitiu um panorama breve, mas indicativo de como tem se dado a cobertura sobre eventos climáticos extremos: a abordagem apressada de desastres que pedem profundidade.  Quando o jornalismo se limita a contabilizar perdas sem explicar causas, contextos ou conexões, ele se distancia de sua função social mais profunda: a de ajudar o público a compreender, e não apenas a lamentar, o que o vento levou.

Nenhuma das publicações contextualizou o fato, classificou como evento extremo ou localizou Rio Bonito do Iguaçu no mapa ambiental. Aqui o fazemos: a cidade, ao longo dos anos, foi transformada pelo desmatamento, colocando-se como o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, segundo a ONG SOS Mata Atlântica. De acordo com publicação da BBC , ainda em 2021, até aquele momento já haviam sido destruídos 24,9 mil hectares de floresta no município. Eis a reflexão e, por que não, a sugestão de pauta.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Por ser a primeira utilização deste formato de busca no Observatório, optei por descrevê-la mais aprofundadamente nesta nota. A opção deveu-se à experimentação: consideramos estudos recentes que demonstram uma incipiente mudança no comportamento de usuários que migram de buscadores tradicionais para ferramentas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT (Tibau, Siqueira e Nunes, 2024; Reuters, 2025). Também questionamos, na oportunidade, a ferramenta, a fim de verificar os critérios para a indicação de tais links. Segundo o ChatGPT, observou-se o critério de relevância jornalística (Histórico de produção noticiosa contínua, independência editorial e registro formal como empresa de mídia, equipe de redação identificável e canais oficiais); presença digital consolidada (domínio verificado, SEO e histórico indexado pelo Google Notícias, política de correção ou contato editorial visível no site); variedade geográfica e editorial.

“O agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental.

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Plantando tecnologia, colhendo silêncio: o enquadramento do agronegócio como herói climático no Jornal Nacional

Por Gabriella de Barros*

Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.

Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.

A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.

O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.

Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.

A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.

Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.

A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática. 

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI). 

Referências

GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.

NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Farms and forests can fight climate change. Roma: FAO, 04 dez. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/newsroom/detail/Farms-and-forests-can-fight-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Special Report: Global Warming of 1.5°C. Geneva: IPCC, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/ . Acesso em: 31 out. 2025.

INSTITUTE FOR ENVIRONMENTAL RESEARCH & EDUCATION (IERE). How is agriculture affecting climate change? Vashon: IERE, jan. 2025. Disponível em: https://iere.org/how-is-agriculture-affecting-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.