Observatório de Jornalismo Ambiental

Uma resposta à fragmentação das informações pelo jornalismo hegemônico

Fonte: Captura parcial de tela do site GGN

Por Eliege Fante*

A fragmentação das informações, ou a sua apresentação na forma de “retalhos”, difundida pelo jornalismo hegemônico, mais uma vez não somou para a compreensão dos conceitos em disputa na sociedade. É o caso de bioeconomia, um dos principais assuntos do Fórum Econômico de Davos, virtual devido à pandemia da Covid-19 e realizado entre 25 e 29 de janeiro de 2021. Neste link, a notícia do Estadão repetiu as ideias do presidente da Natura, fonte e empresa cativas nas pautas sobre bioeconomia e desenvolvimento sustentável. E apenas reiterou os três pilares da bioeconomia, já circulantes: ciência, pesquisa e inovação, respeito às comunidades locais e desenvolvimento econômico com a “floresta em pé”. Contudo, como esse processo raramente é descrito, problematizado e tampouco as comunidades locais são ouvidas, no mesmo volume e dimensão que os players da grande economia, as informações permanecem fragmentadas tal como “retalhos” dispersos e a serem costurados por quem lê e busca uma compreensão para tentar participar, com alguma lucidez, dos debates sobre os destinos das políticas públicas. 

Por se tratar de uma cobertura, era de se esperar que os assuntos tratados fossem explicados e até tivessem a reflexão aprofundada numa notícia. Neste sentido, a diversidade de fontes no mesmo texto é imprescindível: mais de uma fonte, sendo não somente o contraditório e com exposição do pluralismo; superação do preconceito de que os públicos não leem notícias complexas; ampliação do conceito de “autoridade no assunto” para muito além das fontes oficiais, ou no mínimo, das repetidas exaustivamente. Esses modos de “costurar os retalhos” das informações sobre bioeconomia, entre outros, não são novos, porém são mais conhecidos pelos jornalistas e, não tanto pelos profissionais encarregados de decidir como uma notícia vai ser publicada, por serem mais alinhados aos interesses singulares das empresas de comunicação do que à deontologia do Jornalismo.

Assim, a notícia de cobertura sobre o Fórum de Davos e a bioeconomia acabou cedendo um espaço maior a outro assunto muito sério e, da mesma maneira, com informações fragmentadas. Mas, não foi com qualquer “retalho”: transmitiu a posição do presidente da Natura sobre os debates em torno dos pedidos de impeachment de Bolsonaro (sem partido, 2019-2022), que vêm ganhando força, inclusive sendo organizados por membros da direita brasileira e movimentos que somaram para a deflagração do Golpe de 2016 contra a Presidenta Dilma Rousseff (PT, 2015-2016): a de que o impeachment é desnecessário em nome do “bom senso”. Só que a comparação feita pela fonte entrevistada, entre a “insatisfação” e a “frustração”, expressadas pela população dos países europeus com a da população brasileira, desconsiderou todas as informações reunidas em quase um ano de pandemia, e que um único documento sintetizou dramaticamente: que dos 98 países que tiveram as respostas à Covid-19 avaliadas, o Brasil obteve o pior desempenho.   

Para responder ao desafio de costurar os “retalhos” de informações difundidas pelo jornalismo hegemônico, sobre bioeconomia e outros importantes temas cujos sentidos estão em permanente disputa, e visando uma efetiva participação democrática, cada cidadão e cidadã precisa buscar os blogs de jornalistas, como o GGN de Luís Nassif, o qual difundiu os vídeos do Fórum Social Mundial 2021, há 20 anos alternativo ao Econômico de Davos. E, ainda, pesquisar os documentos das ONG’s, tão criticadas pelo atual governo federal, mas que vêm aprofundando e problematizando os sentidos do desenvolvimento sustentável, da economia verde e da bioeconomia, como este da Fundação Heinrich Boll de 2014. Sem esquecer de apoiar ativamente o fortalecimento da luta pela democratização da comunicação

* Eliege Fante é jornalista e pós-graduada pela UFRGS em Comunicação e Informação. Integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e é associada ao Núcleo de Ecojornalistas (NEJ-RS). E-mail: gippcom@gmail.com

A humanização no jornalismo ambiental brasileiro

Imagem: Reprodução de notícia publicada em Mongabay no dia 18/01/2021

Por Patrícia Kolling*

Começar a ler um texto jornalístico, se deparando com a foto acima, que reflete um sorriso franco, um olhar firme e um rosto expressivo, é como sentir vida no texto e na história. O texto referente à foto conta a história de Osvalinda Alves Pereira, trabalhadora rural que vive no Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão, no sudeste do Pará. No dia 24 de novembro ela foi a primeira brasileira a receber o prêmio Edelstam, premiação sueca concedida as pessoas que contribuíram de forma excepcional, e com grande coragem para a defesa dos direitos humanos.

Segundo a notícia, em 2012, Osvalinda montou uma associação de mulheres para capacitar agricultores a difundir o projeto agroflorestal já consolidado em seu lote. O sistema criava alternativa de trabalho e renda para os assentados até então submetidos a condições análogas à de escravos na extração de madeira. Desde então, uma série de ameaças foram feitas a Osvalinda e ao seu marido Daniel. Duas sepulturas (com cruzes) foram construídas a 100 metros da sua casa em 2018, o que levou o casal a se retirar do assentamento durante 18 meses.

O assentamento é porta de entrada para um corredor de áreas protegidas e, cobiçadas por madeireiros ilegais. Ler a história, os dramas e as conquistas da mulher e trabalhadora rural Osvalinda nos aproxima da realidade vivida por ela e por outras centenas ou até milhares de pessoas que lutam pela preservação ambiental.

O jornalismo ganha seus méritos, quando suas notícias e reportagens abrem espaço para histórias de vida e relatos humanizados que nos aproximam das pessoas e das causas ambientais, como se elas estivessem acontecendo do lado da nossa casa, e não a milhares de quilômetros de distância. O texto vai entrelaçando a história de Osvalinda a outras informações, trazendo à tona as contradições nos discursos políticos, as irregularidades na fiscalização da exportação de madeira e também números sobre o aumento de áreas de desmatamento, que teve seu maior patamar da década, e, paralelamente, a redução das autuações por esse crime.

A reportagem, relação com a história de Osvalinda, mostra como a desestruturação das atividades de fiscalização ambiental, podem deixar ainda mais desprotegidas pessoas que, como ela, defendem os direitos humanos e se opõe a realização desta prática ilegal. Ou seja, nos permite ver como as determinações governamentais, criadas e aprovadas em Brasília, que privilegiam a impunidade, podem impactar no dia a dia das pessoas Brasil a fora, colocando em risco suas vidas.

É claro, que, jornalisticamente falando, Osvalinda foi pauta desta matéria devido ao prêmio recebido internacionalmente, o que dá caráter de atualidade e novidade a notícia, porém, mesmo que não tivesse sido premiada, é uma cidadã com uma história de vida determinante para instituir a empatia da sociedade às causas ambientais. No mesmo dia da publicação da notícia do Mongabay, 18 de janeiro, o Jornal Nacional veiculou uma notícia com números sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, incluindo o Pará, como estado em que o aumento do desmatamento foi mais significativo. Notícia bem produzida, com dados do Instituto Imazon, muitas imagens, mas na qual sentiu-se falta de uma Osvalinda para despertar no telespectador a sensibilidade às causas ambientais.

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e professora da UFMT.

Crise da Covid-19 e ataques à imprensa e aos ativistas seguem como desafios para 2021

Imagem: Reprodução de notícia do UOL, de 16/01/2021

Por Cláudia Herte de Moraes*

No retorno do recesso e das “festas” de final de ano, logo nos deparamos com a realidade que infelizmente assola o mundo: a pandemia ainda persiste e o desfecho em nosso país continua totalmente envolto em incertezas. Os votos de um ano bom – aqueles feitos na virada do ano – não esconderam a grande dor que assola milhares de famílias brasileiras, que choram as mais de 200 mil mortes decorrentes da Covid-19. Ano passado parece que ainda não terminou, infelizmente. Muitos entoamos com esperança o verso que foi revivido em canção por Belchior e, mais recentemente, por Emicida: Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro. Ninguém aguenta mais, pois as tristezas são diárias e há tanto a fazer.

Nesta semana, a gravidade da situação da crise da saúde pública no Brasil se mostrou mais uma vez ao mundo, quando o oxigênio simplesmente faltou no Amazonas, matando vários pacientes que dele dependiam e colocando em risco de morte outros tantos, incluindo bebês prematuros e todos e todas que estão sob cuidados médicos no estado. Vale a pena destacar a reportagem de Wanderley Preite Sobrinho no UOL que traz uma análise de múltiplos fatores contribuintes para o descalabro que se instalou em Manaus – e que sirvam os alertas aos governos e aos cidadãos para uma atuação efetiva contra a pandemia em todo território.

Não é de hoje que os inimigos declarados daqueles que ocupam o poder estão tanto na imprensa, quanto entre ONGs e ativistas de modo geral, isso porque as denúncias e alertas decorrem especialmente destes setores. Em 2020, o direito à liberdade de expressão e de imprensa foi violado inúmeras vezes. No ano anterior (2019), um relatório da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) já apontava que a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência havia contribuído “grandemente” para derrubar a posição do Brasil no ranking da Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, por dois anos seguidos.

No Brasil de 2021 seguem os ataques à imprensa, especialmente àquela considerada progressista, àquela que investiga o poder de forma mais independente. O site do Repórter Brasil, por exemplo, foi atacado com exigências de que apagassem arquivos de reportagens que denunciavam o mal dos venenos/agrotóxicos. Em 7 de janeiro, houve uma tentativa de invasão física ao local. O prognóstico é que estes ataques continuem, como pontuou Natália Viana da Agência Pública.

Em julho de 2020, a notícia foi o levantamento sobre a morte de ativistas ambientais e de direitos humanos, que são crescentes no mundo, sendo os indígenas os mais vulneráveis aos ataques. O Brasil figura em vexatório 3º lugar, segundo a ONG Global Witness. O ativismo ambiental é considerado essencial para o enfrentamento da mudança climática. A ocorrência de constantes assassinatos de ativistas diz muito sobre como a sociedade não defende aquelas e aqueles que lutam efetivamente por um futuro sustentável, viável e equilibrado.

Em 2021 precisamos pensar na construção de um “novo normal” que esteja baseado nos direitos fundamentais de todas e todos, com liberdade de expressão e de imprensa e com atuação firme de jornalistas e da sociedade contra os desgovernos na saúde e no ambiente. Precisamos lutar pela vida acima da morte e pelo ambiente sustentável acima do lucro.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E Mail: claudia.moraes@ufsm.br.

Toda pauta é ambiental: natal, consumo e o meio ambiente em liquidação

Fonte: Luiz Antonio Toni por Pixabay 

*Por Ursula Schilling

O planeta tem limites. Essa deveria ser a premissa para tudo o que fazemos: trabalhar, produzir, consumir e, claro, informar. Mas caminhamos a passos ligeiros na direção oposta a isso. Agimos como se tudo o que a Terra e a terra nos fornecem fosse inesgotável. E pouco valesse.

É uma lógica, conforme destacou Reges Schwaab no seu texto da semana passada para este observatório (se você ainda não leu, leia), “reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências “.

Compramos, usamos pouco, descartamos e compramos de novo, mesmo que algo de qualidade muito duvidosa, que custe pouco ou muito) e que (talvez) tenha explorado trabalho escravo ou mão-de-obra infantil, para que possamos saciar, temporariamente, nossa sede de ter algo, não importa o que.

Como um item de vestuário, por exemplo, custa menos do que a matéria-prima, o processo de manufatura, a confecção e a etapa de distribuição? No mínimo, é uma conta que não tem como fechar. No caso de eletroeletrônicos, tomamos como normal a obsolescência programada.

Fonte: Captura de tela do site Agência Brasil

Seguimos nesse movimento e nos esquecemos de que, como muito bem lembrou recentemente em suas redes sociais o jornalista André Trigueiro, quando jogamos algo fora, por mais que aquilo “suma” da nossa vista, não existe “fora”. Podemos até ignorar o que não é nossa realidade imediata, mas isso não significa que não existam ilhas de lixos de textil, eletrônico e outros, em algum lugar altamente degradado.

No natal, e em outras datas comemorativas que foram mercantilizadas, transformadas em eventos comerciais e não mais sociais, familiares e festivos, não é diferente. Em 2020, apesar da dita crise, e de uma pandemia em níveis ainda críticos, notícias de diversos sites dão conta de que o comércio pretende comemorar as vendas ou, pelo menos, correr para isso.

Mesmo com o aumento dos casos de Covid-19, o horário dos estabelecimentos, em Porto Alegre, por exemplo, foi ampliado.
Defendemos, sustentando o discurso da indústria e do varejo, e que só interessa aos ricos, que é preciso fazer a roda da economia girar, que é preciso consumir para gerar empregos, que é com emprego que a sociedade será mais igualitária e as pessoas terão uma vida mais digna. Por favor, me diga, com fatos e dados, se vivemos num mundo justo e igualitário e se somente eu estou no lugar errado.

Antes de manifestações reacionárias, deixo registrado que não questiono a importância do trabalho, da renda (digna), de bens essenciais para uma vida também digna. Tampouco, que não celebremos datas, que não tenhamos nossos ritos e que não presenteemos pessoas queridas. A questão aqui é vivermos numa eterna black friday e tratarmos o consumo como solução. Não paramos para enxergá-lo, assim como está estabelecido, como um grande causador da degradação da natureza, entendida a natureza como tudo que é vivo na face da mãe Gaia, incluindo nós.

É por isso que o jornalismo tem, para o bem e para o mal, um papel preponderante nessa cadeia. O que se vê, inclusive a partir de diversas análises deste canal, é uma mídia tradicional, e geralmente de massa, que sustenta, apoia e dissemina esse discurso dominante e contribui para manter relações de dominação e produção.

A cada natal, os cidadãos, nesse contexto, meros consumidores, são conclamados a girar a roda da economia. O meio ambiente, que passa ao largo das abordagens, continua aqui, sendo explorado, esgotado e ignorado pelo frenesi coletivo do consumo. Das editorias de economia, de onde pululam projeções, comemorações de alta nas vendas, supersafras e crescimento no PIB, deveriam também surgir perguntas como “e quando a (in)esgotável fonte de recursos acabar?”.

Aqui, mais uma vez, o jornalismo ambiental, destacados dele dois eixos, desponta como um norte. Somente com uma visão sistêmica nas redações, que liga os pontos, que relaciona diferentes esferas da vida, a causa ambiental poderá ser tratada com profundidade e seriedade. Ao mesmo tempo, para que isso ocorra, é preciso que essa seja uma pauta transversal a todos os assuntos possíveis. Ou seja, economia, cultura e política são editorias ambientais, sim. E muito. Cabe ainda um terceiro eixo: nada disso ocorrerá sem uma adequada formação do jornalista.

Não há respostas prontas, mas é certo que, se superarmos um modelo de educação (que também reverbera no jornalismo) que memoriza, replica e não questiona, um modelo que teme o antagonismo, podemos tentar romper barreiras.

É um assunto complexo, que move paixões e, principalmente, que mexe com interesses e forças políticas e econômicas que parecem impossíveis de superar. Mas é preciso começar pelo começo. Pela reflexão, pelo questionamento, pela crítica, é desacomodando velhos e novos conceitos, que nem sabemos se não nossos, e colocando em xeque o status quo, que forças de oposição poderão começar a se mover no sentido de reverter a dramática situação inúmeras vezes aqui constatada.

Não será uma virada de chave fácil, mas, cedo ou tarde, compreenderemos que habitamos TODOS o mesmo planeta. Espero que não tão tarde.
(seja modesto e crítico nas suas compras de natal)


*Jornalista e membro Núcleo de Ecojornalistas do RS e do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS)

Comendo o planeta: nós e o jornalismo podemos nos libertar do autoengano?

Imagem: Reges Schwaab

Por Reges Schwaab*

Para ir em direção ao colapso, o conjunto de humanos tem mantido sua habilidade de andar a passos largos. Essa caminhada é reflexo de uma relação com o mundo, e com os demais, pautada por fatias de realidade, descompassada do tempo natural e alicerçada em aparências. Nossa ação, em geral, não vem tramada pelo coletivo e pelo cuidado com a vida, mas por balizadores de esferas privadas. E nem há um incentivo, em perspectiva macro e política, para isso. A emergência ambiental e climática pode até ser escrita como urgente na manchete, mas é incômoda no imediato, por isso deixada de lado e negada no comportamento cotidiano.

A reflexão precisa ser contundente. E parece novamente importante de ser trabalhada quando lemos que o total de objetos construídos pela humanidade supera, pela primeira vez, a massa dos seres vivos na Terra. Conforme matéria da Folha de S. Paulo, “a transformação de matérias-primas naturais em artefatos humanos cresceu de forma tão vertiginosa que, a cada semana, os novos objetos feitos pela nossa espécie superam o peso corporal de cada pessoa viva hoje”. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature por uma equipe do Instituto Weizmann de Ciência. Os plásticos já superam todos os animais somados: são oito gigatoneladas (bilhões de toneladas) contra quatro gigatoneladas dos animais, revela o estudo.

A leitura da notícia acabou permeada aqui por uma provocação do líder índigena Ailton Krenak, ambientalista, filósofo e escritor. Feita em outro contexto, mas adequada ao que parece necessário em termos de debate. É uma afirmação com potencialidade de ruptura com a mesmidade da nossa relação com o entorno:

Outro dia fiz um comentário público de que a ideia de sustentabilidade era uma vaidade pessoal, e isso irritou muitas pessoas. Disseram que eu estava fazendo uma afirmação que desorganizava uma série de iniciativas que tinham como propósito educar as pessoas para a sustentabilidade. Aí eu disse: “Eu concordo com você que nós precisamos nos educar sobre isso, mas não é inventando um mito da sustentabilidade que nós vamos, de verdade, trabalhar pra isso”. Inventando um mito da sustentabilidade, nós vamos apenas nos enganar, mais uma vez, como quando inventamos as religiões, por exemplo. Tem gente que fica muito confortável se contorcendo na ioga, ralando no caminho de Santiago ou rolando no Himalaia, achando que com isso está se elevando. Na verdade, o que ele está fazendo é só uma fricção com a paisagem, não vai fazer ninguém sair do ponto morto. Então, é uma provocação acerca do egoísmo. Eu não vou me salvar sozinho de nada! Eu não tenho fuga. Nós estamos todos enrascados. E eu acho que seria irresponsável ficar dizendo para as pessoas que se nós economizarmos água, ou se só comermos orgânicos e andarmos de bicicleta, nós vamos diminuir a velocidade com que nós estamos comendo o mundo.**

A mágica desse pensamento provocador é justamente mostrar que é preciso quebrar o automatismo. A existência, para ir além da mera sobrevivência, precisa de um lugar de começar, para nós e para o jornalismo. No conjunto de críticas que lemos aqui, no sentido de como o jornalismo nos interessa, temos posto que é necessário distender o tempo–espaço que habitamos, pensando nossas vidas por modos que não neguem o compartilhar.

Krenak não desconsidera a ação sustentável, mas chama a atenção para a necessidade de um pensamento que abarque todos os seres. Sem essa ótica solidária aberta, não apenas humana, outros saberes e modos de ser, para além da nossa experiência objetiva, continuam desconsiderados. Fazer esse tipo de comunicação nos leva a uma abordagem de atravessar, de ir a outros povos e ter com outras mediações culturais. Como o próprio Krenak costuma alertar em seus livros, nossos gestos não podem ser pautados apenas por um mundo de concreto, de ruas e de cidades, “que imprime no corpo da Terra a marca dos homens como se eles fossem a única existência inteligente e sensível”.

Nossos movimentos narrativos, portanto, não deveriam reforçar a predação que dá origem a relatos como esse da pesquisa mencionada, de um andar hegemônico, que nos propõe ir pelo mundo como se a proposta desenvolvimentista branca e ocidental fosse a única inteligência válida. A mesma inteligência que já sabe o que está fazendo, mas celebra o autoengano. Quando alguém aponta o equívoco, a reação é considerar a crítica radical. A reação do jornalismo é, também, ver utopia, a impossibilidade. Em geral, nos mantemos brutais em alimentar a colisão, encerrados em nossa fixação aos objetos, dependentes da máquina de fazer coisas, como reflete Krenak, uma máquina que não queremos desligar. Por isso, quando vai falar, o jornalismo também gosta desse lugar confortável.

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InfoAmazonia investiga os gargalos da bioeconomia

Imagem: captura de tela – Primeira reportagem da série sobre gargalos da bioconomia publicada no dia 29 de novembro

Roberto Villar Belmonte*

O InfoAmazonia, projeto de jornalismo ambiental liderado por Gustavo Faleiros, começou a publicar no dia 29 de novembro uma série de reportagens sobre os gargalos da bioeconomia. Produzida por Eduardo Geraque, a primeira parte do especial trata da produção de castanha-do-Pará, conhecida no mercado internacional como castanha-do- Brasil (Sem articulação, produção de castanha da Amazônia esta travada | InfoAmazonia).

Com dados do mercado, a primeira reportagem da série mostra como a cadeia produtiva desse tradicional produto da floresta está desarticulada no Brasil. Duas fontes ligadas aos produtores locais do Amazonas e do Mato Grosso explicam as dificuldades de garantir um bom preço durante todo o ano.

Duas fontes de universidades públicas ajudam a compreender os desafios do setor, uma pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia e um pesquisador da Universidade Federal Rural da Amazônia. A reportagem também utiliza dados do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais.

A apuração foi feita a distância, sem imersão da reportagem na realidade dos produtores locais. Mesmo assim a proposta desta série é uma importante iniciativa de jornalismo ambiental de perspectiva econômica do InfoAmazonia, portal jornalístico que vem se destacando pelo uso do jornalismo guiado por dados nas pautas ambientais.

Com apoio internacional, o InfoAmazonia desenvolve no Brasil uma espécie de geojornalismo, termo criado pelo próprio Faleiros, a utilização de mapas georreferenciados que fornecem uma interpretação em camadas da região amazônica.
O projeto passou a receber também contribuições de outras fontes de informação para ampliar o conhecimento jornalístico sobre o maior bioma do país.

Discutir a bioeconomia no Brasil é importante para que a sociedade perceba que a política de desmonte ambiental do governo de extrema direita vai além do afrouxamento das normas e regulamentos, passa também pela ausência de políticas públicas que viabilizem ganhos econômicos com a floresta em pé.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Onde estão os vaga-lumes?Meio ambiente, nosso modus vivendi e realidades pouco abordadas pelo jornalismo

Fonte: Pixabay

*Por Ursula Schilling

Dia desses, assistindo, com minha filha de 2 anos e meio, a um canal infantil só sobre animais, apareceu, não me lembro em que contexto, o desenho de um vaga-lume. Minha pequena companheira fitou a tela admirada. Até aquele dia, não vira ou ouvira falar da criatura. Ao que ela me olhou, curiosa, tentei explicar: “é um vaga-lume, filha, um inseto que brilha no escuro… não se vê muitos por aí”.

Dei-me conta, então, de que eu mesma não os vejo desde a infância. Até os meus 10 anos de idade (isso faz bastante tempo), mais ou menos, ainda era comum assistir, nos fundos da minha casa, de onde se avistava um imenso terreno verde, ao espetáculo luminoso de centenas desses pequenos animais piscantes.

Mas onde estão, afinal, os vaga-lumes? Por que não ouço ninguém falar do seu sumiço? Segundo matéria publicada no site da revista Superinteressante, em fevereiro deste ano, esses insetos estão sob risco de extinção. Entre as causas apontadas: uso de agroquímicos, que podem exterminá-los do ambiente ainda em estágio larval; perda de habitat em função da ocupação humana e consequente destruição ambiental; poluição luminosa, visto que as luzes artificiais afetam o ritmo de diversos animais, inclusive o nosso.

Fonte: Captura de tela do site da revista Superinteressante

O desaparecimento de espécies, sejam elas grandes ou pequenas, não parece receber destaque das manchetes. E, se não está nos jornais, compreendidos aqui quaisquer canais de mídia, é como se não fizesse parte de nossa realidade, como se não nos afetasse ou fosse algo muito distante.

Há diversos autores e teorias que explicam porque isso ocorre. Ainda que não seja o único elemento a sere considerado na construção social da realidade, o jornalismo tem papel significativo nessa construção, seja ela objetiva ou subjetiva. O jornalista interpreta os acontecimentos na sua produção discursiva e, por meio das notícias, o indivíduo poderá interpretar o mundo que o cerca e será afetado em maior ou menor grau pelas notícias. É uma forma de conhecer e conhecer-se no mundo. Com isso, podemos ter a falsa impressão de que aquilo que não nos é contado (ou que não faz parte de nossa realidade imediata) não existe. E, se não existe, como refletir a respeito?

Em se tratando da pauta ambiental, sabemos que catástrofes como queimadas, eventos climáticos dramáticos e rompimento de barragens, por exemplo, ainda são grandes ganchos para a cobertura do tema. A importância de tais tópicos é inquestionável, mas e os reflexos do nosso dia a dia no meio ambiente? Aquilo que não é catastrófico no curto prazo ou não grita aos nossos olhos, mas que tem resultados igualmente desastrosos, merece e deve ser agendado jornalisticamente.

Precisamos exercer e demandar um jornalismo que questione nosso modus vivendi, que traga discussões incômodas mas necessárias. Do contrário, não são só os animais que desaparecerão. Não é um processo simples, são muitos vieses e caminhos possíveis.

Por ora, terei de mostrar as luzes de natal à minha filha e dizer: “assim brilham os vaga-lumes”, desejando que ela tenha a oportunidade de conhecê-los ao vivo, e não somente pela televisão.

*Jornalista, mãe, membro do Núcleo de Ecojornalistas do RS.

O racismo ambiental e o jornalismo míope

Imagem: Captura de tela do site Periferia em Movimento

Por Mathias Lengert*

Mariana, Minas Gerais, novembro de 2015. Um mar de lama contamina a bacia do Rio Doce, vitima 19 pessoas e arruína povoados e distritos próximos. Mais de 80% da população atingida é negra. A tragédia, que agora completa 5 anos (ainda sem todas as indenizações pagas), ilustra um recorrente processo de marginalização, empobrecimento e desigualdade étnica e racial em torno de direitos socioambientais.


Em resumo, trata-se do racismo ambiental. A definição ainda carece de visibilidade social, política e jornalística para evidenciar a maneira desproporcional que problemas ambientais impactam os grupos mais vulneráveis. As demandas por justiça ambiental são reivindicações das populações negras e indígenas, sobretudo no Brasil. O Dia da Consciência Negra, na última sexta-feira (20), reacende a reflexão sobre o racismo estrutural e suas implicações na mídia.


O assunto aparece timidamente nas coberturas, por ora, ainda restrito aos esforços do jornalismo alternativo em sondar os impactos da degradação ambiental na vida da população marginalizada, agravada nesse momento em razão da pandemia do Covid-19. Reportando a situação de vítimas afetadas pelo derramamento de óleo no litoral da Bahia, o site de notícias Brasil de Fato denuncia o descaso governamental com a formulação de políticas públicas para as comunidades negras. A fala da militante e pescadora quilombola Marizelia Lopes na reportagem exemplifica a vulnerabilidade: é uma “cegueira intencional”.


Além de estar presente no Estado, a invisibilidade do racismo ambiental é exercida nos jornais tradicionais, que não voltam suas coberturas ao tema e suas soluções possíveis. O jornalismo deve exercitar um olhar consciente que a defesa da vida exige responsabilidade com a mobilização coletiva por justiça ambiental. Ante a cegueira que se faz proposital, é preciso, tal como propõe o jornalismo ambiental, enxergar novos referenciais de igualdade na relação da humanidade com a natureza.


Noticiando a exposição de crianças à degradação ambiental urbana, o site de notícias paulistano Periferia em Movimento relatou a frustração de moradores de favela com a ausência de saneamento básico e indicou dados desses impactos na saúde infantil. O destaque coube aos pesquisadores e ONGs, sem uma ênfase categórica na opinião da população periférica.


A ausência de realce da imprensa em perspectivas que atentem às circunstâncias sensíveis às vivências e às discriminações raciais sofridas reflete um despreparo em apurar os fatos de maneira crítica, investigando as estruturas sociais que perpetuam práticas racistas. A projeção da injustiça ambiental nos debates sociais exige que o jornalismo priorize uma agenda voltada ao âmbito local, e pautada na resolução dos problemas no dia a dia das pessoas vulneráveis.


Para que essa mudança ocorra, além de relatar os casos de racismo ambiental, o jornalismo deve apostar em uma abordagem que compreenda também as dimensões econômica, cultural e política da questão, bem como, que ecoe as reivindicações da população negra marginalizada.

  • Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: mathias.lengert@gmail.com

Nas eleições municipais no Brasil, o meio ambiente está na pauta?

Por Carine Massierer*

Fonte: Captura de tela do site da Câmara dos Deputados

A Amazônia, e o meio ambiente como um todo, esteve em pauta na eleição dos EUA e o presidente eleito, Joe Biden, prometeu dedicar atenção à preservação da floresta que extrapola as divisas brasileiras. E no Brasil, em meio a pandemia e disputas não menos acirradas de candidatos à prefeituras e às câmaras de vereadores, existem políticos preocupados com mudanças climáticas e a preservação ambiental?

Segundo texto jornalístico produzido pela assessoria da Câmara dos Deputados, de 10 de novembro, desmatamentos, devastação de biomas, secas e inundações alternadas, poluição atmosférica, crimes socioambientais, aquecimento global e mudanças climáticas são problemas atuais que dão prioridade à temática na agenda política dos municípios de todo o país. No entanto, na grande imprensa as pautas ambientais não tiveram destaque e nos estados e municípios poucos veículos exploraram a temática de maneira expressiva na publicação de intenções dos candidatos.

Isto que neste ano a Frente Parlamentar Ambientalista da Câmara dos Deputados criou uma plataforma municipal que contempla princípios e ferramentas que a gestão local deve adotar para priorizar políticas públicas fundamentais. Lançada em setembro, a plataforma também explica o papel que os cidadãos/eleitores podem/devem desempenhar nas eleições municipais e sugere pontos que servem para avaliar os candidatos em relação ao meio ambiente.

No dia 11 de novembro, a Frente Parlamentar promoveu um debate para reforçar as ações e propostas da plataforma. Mas, novamente a plataforma e a temática ambiental não reverberaram na mídia nacional. A agência Money Times foi umas poucas que publicou matéria sobre o tema , no dia 14/11/20, destacando a importância da agenda ambiental para os gestores nas eleições municipais e ressaltando que a plataforma também quer estimular os cidadãos a escolherem candidatos comprometidos com o meio ambiente.

Assim como a Plataforma Ambiental Municipal, a ferramenta criada pela Agência Pública para consulta dos nomes dos candidatos com multas ambientais em todo o país, disponível aqui, também teve pouca expressão na mídia comercial. Esta iniciativa foi apresentada em uma ampla reportagem da Agência, veiculada em 11/11/20, que trouxe um levantamento que revela que 152 candidatos a prefeito, 71 a vice e 529 a vereador acumulam 1.017 multas ambientais por infrações como desmatamento, comércio ilegal de madeira ou por provocarem queimadas em áreas protegidas. Os valores dessas multas, somados, ultrapassam R$ 175 milhões.

Fonte: Captura de tela da Agência Pública

Com iniciativas políticas como a da Frente Parlamentar Ambientalista e da Agência Pública nós tivemos a oportunidade, neste pleito de 2020, de testar novas ferramentas e estar a par não só do discurso, mas também do compromisso dos políticos com o meio ambiente. O que falta ainda é a imprensa dar mais repercussão a estas propostas e não ser uma mera copiadora de conteúdos de agências.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Nas eleições dos EUA, a pauta é amazônica

Por Ângela Camana

Fonte: Captura de tela do site da Veja

Na última semana o mundo acompanhou atento o desenlace das eleições norte-americanas, cuja vitória do candidato democrata à presidência, Joe Biden, foi conhecida no sábado, dia 7. Enquanto os votos eram apurados, no Brasil observamos a declaração de apoio de Bolsonaro à reeleição de Donald Trump, um gesto inédito na política externa nacional, tradicionalmente neutra quanto aos pleitos das nações estrangeiras. Todo este cenário já tenso adquire outros matizes em função do papel que a Amazônia teve na disputa, já que Biden afirmou que estará atento à preservação da floresta, o que foi amplamente repercutido pela imprensa. 

Em entrevista concedida em março, mas reverberada fortemente nesta primeira semana de novembro, Biden afirmou sua disposição para articular um grupo de países a fim de pressionar o governo Bolsonaro pela conservação da Amazônia, prevendo aportes financeiros massivos e mesmo sanções econômicas caso isso não ocorra. O presidente brasileiro respondeu, reforçando o apoio a Trump e argumentando que os dizeres do candidato democrata são uma afronta à soberania nacional. No último dia 3, o vice-presidente Hamilton Mourão, que dirige o Conselho Nacional da Amazônia, também declarou seu incômodo com a postura do norte-americano

Os maiores veículos de imprensa brasileira publicizaram todo este debate no âmbito da extensa cobertura dedicada às eleições norte-americanas. No entanto, há que se considerar que não conseguiram escapar do jornalismo declaratório, isto é, da mera reprodução de falas das personalidades em questão. Uma pena, já que a pauta ambiental envolve controvérsias e disputas que merecem ser melhor exploradas, sobretudo na semana na qual os próprios EUA abandonaram o Acordo de Paris. Tudo indica que a agenda ambiental no contexto das relações Brasil-EUA voltará a ter força nos próximos meses: passada a corrida presidencial, espera-se que os veículos brasileiros possam abordar a questão para além da editoria de política investindo em novas fontes e análises.

Por fim, neste pleito acirrado e marcado por acusações, é importante destacar também a ação inédita das três principais emissoras de televisão norte-americanas ao interromperem a transmissão ao vivo do discurso do atual presidente Donald Trump, em função de seu conteúdo falso. Qual o limite do espaço a ser dado a fontes que propagam fake news? Como o compromisso ético do jornalismo com a verdade vem sendo tensionado ano após ano por atores que difundem desinformação deliberadamente, veja-se o caso dos negacionistas das mudanças climáticas, a atitude emblemática da imprensa norte-americana vem em boa hora. Que sirva de exemplo a outros veículos mundo afora. 

* Jornalista e socióloga. Membro do GPJA e do TEMAS (Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade). E-mail: angela.camana@hotmail.com