Observatório de Jornalismo Ambiental

A “revitalização” dos trechos II e III da orla do Guaíba como risco aos trabalhadores e ao ecossistema citadino

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Matheus Cervo*

No mês de junho, precisei me deslocar pela cidade para receber um serviço essencial. Passei pela orla do Guaíba e fiquei espantado com o que vi: a margem do Guaíba estava extremamente desmatada com muitos trabalhadores operando mesmo neste período de pandemia.

Pesquisei e vi que Porto Alegre continua no ritmo da transformação urbana a todo custo com o Programa ORLA POA – programa de “revitalização” da orla centro/sul da capital gaúcha. Conforme site da própria prefeitura, os trechos II e III das obras continuam em andamento apesar da situação pandêmica que a cidade enfrenta. Ao entrarmos na matéria “Obras do trecho 3 da Orla do Guaíba avançam mesmo com impacto da pandemia” publicada em 26/05/2020, recebemos um pop-up que avisa a todos os habitantes da cidade que estamos enfrentando o “Desafio Porto Alegre” para chegarmos em 55% de isolamento social na capital. Após fechar o pop-up, encontramos duas imagens de trabalhadores operando na transformação da orla do Guaíba.

Fonte: Site da Prefeitura de Porto Alegre, 2020

Imagens 2 e 3 – Porto Alegre, RS – 26/05/2020: Prefeito Nelson Marchezan Junior e o Secretário de Infraestrutura e Mobilidade Urbana, Marcelo Gazen, realizam visita as obras do Trecho 3 da Orla

Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020
Fonte: Jefferson Bernardes/PMPA, 26/05/2020

Essa comunicação paradoxal da prefeitura também está expressa no texto que noticia heroicamente que o “o impacto da pandemia do novo coronavírus vem sendo absorvido pelo consórcio que realiza as obras […]”. Procurei matérias jornalísticas sobre essa questão em específico e fiquei espantando com a forma de cobertura dessa pauta sobre a cidade em 2020.

O Jornal do Comércio, em 20/03/2020, apenas noticiou que o trecho 2 foi suspenso por tempo indeterminado e ainda ressaltou que a concessionária responsável pela obra “ficará encarregada […] do cuidado com a flora e a fauna do parque”. Publicou ainda um artigo em 02/07/2020 em que é emitida a opinião de que a gestão municipal está acertando em não parar as obras para tornar a cidade “muito mais bonita, funcional e atrativa”.

A Zero Hora segue uma forma de cobertura semelhante em duas matérias: 1) uma em 20/03/2020 que somente mostrou a suspensão temporária da licitação do trecho que terá uma roda-gigante; 2) outra em 24/04/2020 que apenas mostra que as obras foram retomadas com previsão de conclusão em outubro. Além disso, o veículo publicou matéria em 02/07/2020 que mostra simulações da mega pista de skate que está sendo construída em tempo de pandemia. O Sul21 também noticiou matéria sobre a roda-gigante em 14/01/2020 e não pautou mais essa questão desde então.

Existem outros exemplos de matérias jornalísticas publicadas neste primeiro semestre de 2020, mas a base da discussão que aqui levanto é geral para a comunicação desta pauta em Porto Alegre. Primeiramente, está sendo feita pouca crítica ao trabalho de obras nos trechos II e III da orla do guaíba na pandemia. Em segundo lugar, não há sinal de uma crítica aos impactos socioambientais que essa grande obra tem à nossa cidade e à nossa relação com o rio/lago.

Fonte: Anselmo Cunha/PMPA — 26/05/2020

Há, sim, uma glorificação do projeto imbuída no uso das palavras “revitalização”, “embelezamento”, “roda-gigante”, “maior pista de skate da América Latina”. A noção de progresso aliada ao gigantismo das concepções modernas de espaço urbano são glorificadas mesmo que isso esteja causando um risco enorme aos trabalhadores (não há forma de criar segurança nessa situação pandêmica como algumas dessas matérias afirmam) e aos ecossistemas existentes na nossa urbe. Acredito que precisamos pensar melhor essa pauta em 2020.

* Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma universidade. Acesso ao lattes: http://lattes.cnpq.br/8290548520385605.

Pela maior inclusão da ecologia no debate progressista: responsabilidades e confluências políticas e jornalísticas

Fonte: Pixabay

Inimigo de maior urgência da sociedade global hoje, a pandemia do novo coronavírus não está desassociada a fatores ambientais de diversas esferas, cuja discussão já foi abordada neste Observatório. Sabemos, ainda, que a redução prevista de cerca de 7% nas emissões de carbono em virtude da recessão causada pela pandemia, embora positiva para uma “conta climática” de 2020, não será suficiente na luta contra as mudanças climáticas, caso a retomada econômica permaneça — como foi no pós-crise de 2008 — ainda baseada em combustíveis fósseis e nos velhos modelos de desenvolvimento. 

Assistimos ainda, como contraponto à onda populista e negacionista que se alastrou e elegeu políticos de altos escalões em muitos países, os partidos ecológicos ganharem paulatinamente maior espaço na Europa, com capacidade de influenciar positivamente o debate sobre um pacto verde para a retomada econômica no continente. Já nos Estados Unidos, a antes utópica — e já rejeitada no Senado americano — proposta de um Green New Deal parece ressurgir no programa democrata de Joe Biden para as eleições deste ano. A coluna de Mathias Alencastro para a Folha de São Paulo passa por esses pontos para afirmar que, no contexto brasileiro, a pauta ecológica e a urgência climática estão ausentes dos debates e de tentativas de criação de um Frente Ampla progressista no país. Argumenta-se que apesar dos ataques estarem concentrados, com razão, na criminosa gestão de Salles e em temas consensuais como o desmatamento, pouco se fala sobre a “necessidade de um programa de reorganização industrial e financeira adaptado ao desafio ecológico”.

 Para além de nossas fronteiras e problemas domésticos, uma notícia que correu o mundo nas últimas semanas foi o recorde de 38ºC registrado numa cidade da Sibéria. A pequena notícia da Associated Press, publicada pelo portal G1, permanece na superfície do tema e sequer menciona o aquecimento global. A matéria da Folha sobre o mesmo assunto, ao contrário, contextualiza e amplia as dimensões ligadas às mudanças climática naquela região, como chuvas torrenciais, incêndios e uma explosão de mariposas devoradora de árvores. 

Ainda segundo a coluna da Folha citada anteriormente, notícias como o superaquecimento do Ártico são frequentemente ignoradas pelas redes sociais de políticos progressistas brasileiros. De fato, falar em reorganização econômica verde no desastroso cenário político de um país em frangalhos parece soar totalmente descolado da realidade nacional. Mas se mesmo líderes políticos de oposição custam a se apropriarem da pauta, cabe ao jornalismo, como importante impulsionador do debate político, cumprir seu papel social e trazer à tona, com profundidade, as nuances do maior desafio de nossos tempos. 

Se entendemos que uma maior inserção do debate climático no Brasil passa, necessariamente, pelas responsabilidades e confluências das searas política e jornalística, cabe nossa menção a um importante personagem que fará falta justamente pela capacidade de introdução da pauta ambiental nestas duas esferas: Alfredo Sirkis, jornalista, ex-deputado federal, ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, falecido dias após lançar “Descarbonário”, seu novo livro que trata de mudanças climáticas. Sirkis vinha militando pela colocação, na pauta nacional e mundial, do debate sobre a valoração econômica do “menos carbono”, expostas nesta entrevista ao jornal Le Monde e traduzida pelo portal da think thank Centro Brasil no Clima. Militância e propostas ousadas, como devem ser, para um desafio urgente que se descortinará ao crepúsculo da atual pandemia, e que deve habitar redações e parlamentos mundo à fora. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

No caminho da praga, tinha um ser humano

Imagem – Captura de tela de reportagem publicada pela Agência Pública
Por Carine Massierer*

No final de junho, uma grande nuvem de gafanhotos vinda da Argentina ameaçou chegar à fronteira brasileira. O Ministério da Agricultura do Brasil publicou uma portaria declarando estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Essa medida tem duração de um ano e permite, temporariamente, a contratação de pessoal, a importação de agrotóxicos para conter a praga e a flexibilização do uso dos produtos já autorizados para novas culturas. Com isso, pode ser aprovado o uso de agrotóxicos que não estariam autorizados para o controle de gafanhotos.

A decisão tomou as páginas dos principais jornais do Brasil, como a Folha de São Paulo (Ministério declara emergência em RS e SC para combate de gafanhotos) que fez matéria expondo a decisão ministerial e o monitoramento dos gafanhotos feito pelo governo do estado. Mesmo assim, não aprofundou a informação sobre as possíveis causas do fenômeno. Diante dessa forma de comunicar este problema socioambiental, os questionamentos se mantiveram: quais as causas desse fenômeno? 

Também encontrei matérias do Correio do Povo (Entenda o fenômeno da nuvem de gafanhotos que assola o Norte da Argentina), do UOL Economia (Como se forma uma nuvem de gafanhotos? É comum? Veja perguntas e respostas) e da Agência Pública (Para combater nuvem de gafanhotos, governo libera mais usos para agrotóxicos). Esses jornais dedicaram mais espaço para explicações científicas de como se formam as nuvens de gafanhotos. A Agência Pública e a Repórter Brasil ouviram cinco pesquisadores em entomologia – o estudo dos insetos – para entender como a ação humana influencia este fenômeno.

Um dos motivos para a formação dessas nuvens são as mudanças climáticas. Estamos vivendo períodos de temperaturas altas com clima seco na entrada do inverno (enquanto o habitual seria as temperaturas baixas na região sul do Brasil), o que favoreceu  a proliferação dos insetos. Outra causa é a eliminação dos inimigos naturais do gafanhoto (pássaros, sapos, fungos e bactérias) parcialmente ocasionado pelo uso incorreto e abusivo de inseticidas e agrotóxicos.

Esses argumentos corroboram com o alerta  de Loose (Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento) sobre como o jornalismo deve agir frente esses fenômenos:

Urge que o jornalismo tome o tema como central seja pelo seu compromisso com o interesse público (já que falamos da sobrevivência da humanidade), seja pela premência do problema (que pode ser mais rapidamente enfrentado com a colaboração da imprensa, que constrói sentidos de riscos e possibilidades de combatê-los)”.

O assunto ainda carece de mais atenção, especialmente no que tange a medidas de mitigação e adaptação – respostas que mostram que é possível viver sob outras lógicas menos danosas ao planeta e à nossa própria espécie.

Referências: 

BELING LOOSE, Eloisa. Jornalismo e Mudanças Climáticas: panorama das pesquisas da área e discussão sobre a cobertura de riscos e formas de enfrentamento. Revista Alceu, v. 20, n. 38, 2019, p. 107-128.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). 

Manchas de óleo voltam a aparecer no Nordeste: uma nova chance para pluralizar a cobertura

Print UOL 22.06

Imagem: Reprodução retirada da matéria do Uol de 22/06/2020.
Por Eloisa Beling Loose*

O ano de 2019 foi um ano repleto de grandes tragédias ambientais no Brasil. Começou com o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Brumadinho-MG e seguiu com aquelas já há anos conhecidas desencadeadas pelas fortes chuvas (porém, provocadas por uma série de problemas de gestão e ausência de políticas públicas), especialmente no Sudeste. Depois disso, o vazamento de óleo na costa nordestina, as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia – só para citar os acontecimentos de maior envergadura. Em razão do alto impacto negativo, número de afetados, conflitos e dramaticidade envolvida em todos os casos, tais eventos permaneceram por muito tempo sob os holofotes da imprensa, sobretudo o vazamento de óleo, que ainda somava aos valores-notícia já citados o fator de ineditismo. Contudo, não basta que haja um acompanhamento da imprensa durante a tragédia. É preciso pensar no que está sendo dito, de que forma e por quem.

Na última semana voltaram a aparecer fragmentos de óleo em praias de diferentes estados do Nordeste. Conforme análises preliminares, aparentam ser do mesmo tipo daquele que se alastrou na costa do Nordeste no ano passado, decorrentes uma fase pós-vazamento, acarretada por fatores meteorológicos que revolveram o material que estava sedimentado no fundo do mar ou preso em corais. De acordo com informações divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o vazamento de óleo tinha atingido até então 1.009 localidades, de 11 estados e 130 municípios brasileiros – mas, como podemos perceber, os efeitos do vazamento não cessaram. O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que esse foi o maior desastre ambiental da história no litoral brasileiro em termos de extensão.

As notícias recentes foram dadas por vários veículos, como G1, CNN Brasil e JC. O Uol publicou uma matéria mais extensa, na qual trata do aparecimento de restos de borracha também, lembrando que o ambiente afetado ainda não se recuperou. O reaparecimento das manchas é, no âmbito do jornalismo, um novo gancho ou gatilho, uma oportunidade para retomar esse assunto que, embora tenha sido foco de atenção da mídia por um longo período, ainda não tem respostas quanto ao volume e à origem do petróleo vazado, e nem quanto aos prejuízos e danos gerados a médio e longo prazo. Mesmo sendo uma tragédia sem precedentes por aqui, após a retirada da parte visível do problema e a falta de algum aspecto novo na investigação, suas consequências pararam de ser noticiadas.

Em levantamento feito sobre a cobertura ambiental do Jornal Nacional em 2019, o Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) verificou que a primeira matéria sobre o assunto é de 27 de setembro, quase um mês depois do seu surgimento, quando as manchas já atingiam nove estados, e que o assunto permaneceu na agenda até 30 de dezembro, totalizando 63 notas ou reportagens sobre o tema ao longo dos quatro meses em análise, em 44 edições, totalizando pouco mais de duas horas de cobertura sobre o assunto. O gráfico abaixo mostra que em outubro há um volume maior de reportagens que são, aos poucos, substituídas por notas cobertas (com imagens da tragédia) e notas peladas (quando apenas os apresentadores narram alguma informação):

Gráfico JN
Fonte: GPJA (2020).

Em dezembro de 2019 há apenas duas notas de 20 segundos sobre o assunto, uma sobre o auxílio-emergencial destinado aos pescadores (13.12) e outra sobre o retorno das manchas no Ceará (30.12). O arrefecimento da atenção da imprensa se dá porque inexistem novos fatos sobre a situação e as narrativas sobre os processos e fenômenos de duração lenta (como a contaminação que persiste nas águas e na cadeia alimentar, por exemplo) são ainda desafios que se impõem, cada vez mais, à lógica jornalística de reportar o que pode é palpável.

Uma análise mais específica sobre o derramamento de óleo em questão, coordenada pelo Intervozes e denominada “O Vozes Silenciadas – a cobertura do vazamento de petróleo na costa brasileira” (2020), foi realizada a partir de veículos de abrangência nacional e regional, e corrobora com nossa análise preliminar. O estudo identifica que o tema demorou quase um mês para receber visibilidade, deixou de ser coberto mesmo quando havia questões em aberto, fez uso recorrentes de fontes oficiais (não dando voz às comunidades locais e povos tradicionais, os mais afetadas pela contaminação) e pouco discutiu as versões. Mesmo tratando do tema diariamente, as informações não tinham contraponto ou aprofundamento e se baseavam no dito “jornalismo declaratório” – alimentado por um governo descomprometido com a questão ambiental.

O reaparecimento de fragmentos de óleo é uma nova chance para que o jornalismo trate daquilo que, no calor do momento, não foi possível abordar. Mais do que atualizar o contexto do desastre, é possível ouvir todas e todos que podem narrar suas experiências diante dos sinais, às vezes, vagarosos de degradação do ambiente e das mudanças geradas em suas vidas. As considerações do estudo do Intervozes destacam que o jornalismo, em seus diferentes formatos e alcances, deve se reinventar, pois “[…] ao darem espaço privilegiado a tais atores, os veículos reforçam o seu lugar de poder e, ao não promoverem, como deveriam, o confronto de ideias com outros segmentos sociais, com igual espaço de fala, legitimam as declarações oficiais como a verdade dos fatos”.

Diante disso, seguimos acreditando que as análises científicas sobre o trabalho da imprensa possam contribuir com outras formas de registro jornalístico; que o retorno das manchas de óleo possa servir agora para uma leitura menos apurada e mais plural dos efeitos da tragédia; e que o jornalismo possa se pautar mais sobre critérios de relevância e cuidado com a vida do que com a dramaticidade ou o apelo de uma imagem.

* Jornalista, mestre em Comunicação e Informação, e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

 

 

Sustentabilidade no jornal: conteúdo patrocinado

*Eutalita Bezerra

Tem cara de jornalismo, está onde deveria estar o jornalismo. Mas é publicidade. Nos últimos dias, diversos informes publicitários a respeito da sustentabilidade tomaram espaço em páginas de jornais conhecidos. Um conceito que, muitas vezes, tem cara de preocupação com o meio ambiente, está onde deveria estar a preocupação com o meio ambiente. Mas também é só publicidade.

Não é novidade que o conteúdo de marca tem se apropriado da construção discursiva típica do jornalismo a fim de disseminar publicidade como se fosse notícia. Admitimos publicações dos últimos dias sobre o assunto como temática desta análise por se tratar de momento em que alargar as discussões sobre sustentabilidade é imperativo.
Em conteúdo patrocinado, que questiona “Como sustentabilidade e o agronegócio podem ser aliados?” , a Chevrolet sugere que está interligação beneficia tanto os consumidores, com alimentos mais saudáveis, como os produtores, que podem cobrar mais caro e “acessar mercados mais exigentes”. O material publicado no G1 no último dia 19 de junho, oferece como exemplo fazendas que unem a preservação do meio ambiente com a sua produção – que inclui pecuária extensiva, sabidamente problemática do ponto de vista ambiental. É claro que o informe não poderia desprezar a citação à produção orgânica, assunto que já está, de certa maneira, cristalizado no conhecimento do leitor médio como sendo, de fato, benéfico. A empresa se utiliza deste discurso para reforçar que é possível conectar a agricultura em larga escala com a sustentabilidade, levando a crer que aquela é a lógica que recorre no setor.

O Correio da Bahia também publicou material publicitário sobre o assunto poucos dias depois. O texto “sustentabilidade: um compromisso de todos”, foi produzido pelo Estúdio Correio, braço do jornal voltado à publicidade. Embora inicie se referindo à Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, se percebe rapidamente que a proposta é apresentar as ações da Multinacional Bracell, produtora de celulose solúvel que cultiva eucalipto em 31 municípios baianos. A empresa, segundo a publicação, “busca preservar, manter e estudar a biodiversidade das áreas onde atua”. Recorde-se que a produção de celulose é altamente poluente do ar, da água, e que a plantação de eucalipto é deveras danosa à terra. Nenhum desses assuntos, por certo, aparece num conteúdo patrocinado, que se assemelha ao discurso jornalístico na sua feitura, mas nada tem em comum com os preceitos que regem está atividade.

Destacamos tais passagens para reforçar a necessidade de se tomar o discurso sobre sustentabilidade a partir do jornalismo, questionando empresas e instituições sobre aquilo que o discurso publicitário – que há tantos anos abraça esse conceito como maquiagem para as suas campanhas – tem apagado. Que pensemos sobre este conceito – o da sustentabilidade – tal como o mundo pede que ele seja: referente à proteção do meio ambiente como sujeito, interligando-se a questões como bem-viver e as perspectivas dos povos originários, afastando-se do ponto de vista mercadológico em que, em geral, a palavra é empregada. Somente então falaremos de sustentabilidade que não é publicidade.

* Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Eutalita@gmail.com*

“Quando o Brasil vai entender que sem os povos indígenas nós não vamos constituir uma nação?”

Eliege Fante*

A descontinuidade da cobertura jornalística possivelmente seja uma das causas do nosso precário conhecimento sobre a questão indígena. A essa abordagem insuficiente relaciona-se a falta de reação à altura por parte dos cidadãos brasileiros diante da iminência de genocídio dos povos originários, apesar das inúmeras denúncias de diversas entidades. Isto é expresso na pergunta-título, feita por Ailton Krenak em sua palestra no Simpósio “Ciência, Arte e Educação em tempos de pandemia” em 12 de junho de 2020. A crítica que toca, inclusive ou principalmente, a comunicação social hegemônica está na invisibilidade sobre esses povos, “mesmo no período de vida democrática do nosso país”, salientou.
Segundo Krenak, “Temos um governo que está a cada dia e a cada semana produzindo um novo instrumento de violência, de negação dos direitos dos povos que vivem na floresta [e em outras regiões do país onde conflitos fundiários sempre incidem sobre territórios indígenas] e uma cooptação da opinião pública desinformada sobre esses povos”. De fato, é a internet através das redes sociais que tem “noticiado” muitas mobilizações relevantes, ao contrário do que tem feito os meios/empresas de comunicação hegemônica de modo geral. Foi dessa maneira que ficamos sabendo, na semana passada, da nona entrega em apenas três meses de alimentos, roupas, cobertas, cobertores, garrafas de vidro, duas mudas, sendo uma de abacate e outra de araucária, ao povo da Retomada Indígena de Maquiné (RS). Um coletivo de voluntários organizou uma campanha permanente porque “toda ajuda é bem-vinda e necessária” diante do abandono e negligência dos órgãos públicos em plena pandemia da Covid-19. Residem na aldeia 15 famílias com 37 crianças, cuja sobrevivência dependia da venda do artesanato nas cidades.
Um voluntário dessa mobilização nos contou que, no início da pandemia, os órgãos públicos ligados à questão indígena realizaram uma entrega de alimentos e outros recursos, como máscaras e álcool gel. Esta entrega foi repercutida em alguns meios/empresas de comunicação hegemônica, talvez devido a predileção por fontes oficiais. Contudo, os/as jornalistas sabem que as fontes de credibilidade não são apenas aquelas ligadas aos poderes de Estado ou aquelas autorizadas pela política editorial/comercial das empresas. As fontes estão envolvidas com os fatos e têm informações constantes, como é o caso dos integrantes de movimentos sociais e entidades não-governamentais, além, evidentemente, dos próprios envolvidos que, não raro, não têm vínculo algum com nenhuma organização. Ao mesmo tempo, não desconsideramos que os órgãos dos governos devem ser cobrados pela imprensa sobre as informações e a garantia do atendimento das necessidades nas aldeias e não apenas neste período de isolamento/distanciamento social, mas também em favor das demarcações dos territórios e outras demandas da população indígena.

Fonte: Captura de tela do site Cimi

Contudo, não será a falta de informação que dificultará a continuidade da cobertura da pauta indígena nem o nosso acompanhamento sobre este tema essencial. O site do Conselho Indigenista Missionário abriu a editoria “Povos indígenas e o coronavírus” para manter as informações de contágio atualizadas. Ao mesmo tempo, encontrar fontes indígenas e escutá-las durante a pandemia é uma possibilidade inadiável através dos diversos sites e redes sociais que trazem a comunicação social indígena, como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Mídia Índia e a Comunicação Kuery.

*Jornalista pós-graduada em Comunicação e Informação PPGCOM-UFRGS, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e filiada ao Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul

As marcas da pandemia na sociedade e no meio ambiente

Patrícia Kolling*

Fonte: Captura de tela da Folha de São Paulo

Na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente dezenas de lives debateram a questão ambiental. No Brasil, o Programa de Meio Ambiente, da Organização das Nações Unidas, promoveu os debates A Hora da Natureza, que no dia 04 de junho reuniu Sebastião Salgado e Rosyska Darcy. O projeto 342 Amazônia permitiu o encontro de André Trigueiro e Caetano Veloso falando sobre meio ambiente e promovendo o lançamento do playlist do projeto, com música gravadas no ano passado. No dia 5, uma mega live de cinco horas reuniu diferentes pessoas em torno do tema, desde artistas, cientistas, pesquisadores, lideranças e representantes indígenas. Os debates em plataformas digitais surpreendem pela diversidade humana, o que num evento presencial seria improvável, devido aos altos custos e logísticas de deslocamento. Além disso, por ser remota a participação de todos, sem dúvida, a poluição causada pelo deslocamento das pessoas em carros e aviões caiu a zero. E por estar disponível na internet, pode proporcionar o acesso a milhares de pessoas que não teriam condições de se deslocar a um evento presencial, promovendo a democratização da informação. Oxalá, que essa uma forma de encontro e comunicação perdure pós pandemia.

Mas semana do meio ambiente a temática ambiental não teve lá muito destaque na imprensa brasileira. A data coincidiu com uma semana de recorde nos números de mortos pela Covid19. Felizmente, entretanto, a pauta socioambiental tem ganhado espaço nos meios de comunicação nas últimas semanas, apesar da pandemia. Matérias sobre a situação do desmatamento, queimadas e garimpo na Amazônia têm tido repercussões em vários veículos. 

Um caso chama atenção por unir o tema preponderante no momento com a questão ambiental. Na Folha de S.Paulo, a repórter Ana Carolina Amaral destaca que, neste ano, o ar está mais limpo, as cidades com menos ruídos, é possível ver animais circulando mais próximos das ocupações humanas e as emissões  de gases-estufa foram reduzidas, apesar do desmatamento, as queimadas  e o garimpo ilegal na floresta Amazônica terem apresentados números elevados nos últimos meses (ver: Queda na poluição inspira busca de soluções sustentáveis pós pandemia). De acordo com a Global Carbon Project, as emissões de carbono devem cair entre 4 e 7% no mundo, principalmente devido à queda de 50% nas emissões de transportes superficiais ao redor do globo. Segundo a matéria, se a taxa for mantida anualmente, por meio de políticas de retomada econômica, o mundo poderia cumprir o acordo de Paris e evitar as graves consequências do aquecimento global. 

A pergunta que nos instiga neste momento é exatamente neste sentido: será que teremos condições, interesse e ações para manter reduzidos os níveis de poluição do ar, da água e poluição sonora, a partir do momento que os números de mortes e infectados pelo coronavírus diminuir, as pessoas começarem a sair do isolamento e as empresas retomarem produção e comercialização?

A repórter da Folha refere-se no texto ao manifesto “Queremos respirar um novo agora”, elaborado por 24 Organizações Não-Governamentais. O documento solicita ao poder público que na retomada econômica inclua condicionantes ambientais nos pacotes de ajuda ao setor privado.  Entre as medidas sugeridas estão a produção de veículos mais limpos, incentivo ao transporte individual ativo com o planejamento de vias urbanas para pedestres e ciclistas, frota de ônibus não poluentes e o combate ao desmatamento e as queimadas. Infelizmente, na China, onde a retomada econômica já está em curso, os índices de poluição também já retomaram os números anteriores ao período crítico da pandemia.

No debate A Hora da Natureza, o fotografo Sebastião Salgado e a escritora Rosyska Darcy defenderam mudanças mais profundas e individuais que a quarentena pode ser capaz de promover. Sebastião Salgado nos fez refletir sobre o que é essencial para sobrevivermos. Quando apenas os comércios essenciais estavam funcionando, continuamos vivendo muito bem, com o que já tínhamos a nosso dispor, argumentou. Fica a pergunta: o que é essencial para vivermos bem? Rosyska Darcy destacou a vida em comunidade, as relações com as pessoas e a vida rodeada de nossos afetos. “É preciso repensar o cotidiano. O que pra nós faz sentido? Esse algo novo que precisa ser construído é o bem estar das pessoas. Um viver menos submetido a ganancia. Um bem estar que vale a noção de sustentabilidade”, respondeu. 

Para ambos, mais do que ações grandiosas para se viver num mundo novo e melhor, a mudança está na vida comunitária e na solidariedade. “Fala-se em construir um mundo novo, diria que esse mundo mais justo e solidário, começa com mais intensidade agora no auge da pandemia. Se ele não começa agora, eu tenho sérias dúvidas que vingará amanhã. A solidariedade precisa ser exercida agora como virtude cívica e obrigação moral”, defendeu Rosyska.  Sebastião Salgado reforçou que isso requer a participação de todas as pessoas: “A necessidade de todos irmos para o debate. Todos irmos para a solidariedade. Todos exercermos respeito pelo outro”. A perspectiva reforça o trabalho comunitário e democrático: “O problema é pessoal, é autocritica, é necessário olhar para si. Só vamos construir com os outros… sozinhos não vamos conseguir”, concluiu o fotógrafo. 

*Patrícia Kolling é jornalista, doutoranda em comunicação pela UFRGS e  professora da UFMT

Quem tem medo do jornalismo engajado?

Fonte: Captura de Tela do site do projeto “De olho nos ruralistas”

Por Débora Gallas Steigleder*

“Faça textos imparciais e objetivos”, recomenda o Manual de Redação do jornal O Estado de São Paulo aos editores, repórteres e redatores da empresa. De fato, a precisão é um valor essencial à produção noticiosa. Um texto baseado em juízos de valor, além de não informar, pode confundir e desorientar. Não é jornalismo, portanto. Porém, proponho aqui entender a função do jornalismo para além de categorias que aparecem a ele associadas de forma recorrente, como “imparcialidade”, “objetividade” e “neutralidade”.
O engajamento não nega o ímpeto de perseguir a objetividade enquanto método de apuração e verificação dos fatos, mas rompe com a crença de que o jornalista consegue se despir de sua subjetividade no exercício da atividade. Por isso, costuma ficar de fora do rol dos ideais identificados com o jornalismo. Quando defendemos o engajamento como um elemento característico do jornalismo ambiental, entendemos que se trata de um caminho para garantir coerência com a pauta abordada.
As críticas ao engajamento envolvem o temor de que o jornalismo flerte com o ativismo e que isso levaria à perda de credibilidade. No entanto, o momento atual é de disputa pela sobrevivência. Para conectar o público a pautas de urgência como o caos climático e a conexão entre a devastação ambiental à propagação da pandemia do COVID-19, é necessário agregar às estratégias de sensibilização do público formatos que ultrapassem a impessoalidade associada ao jornalismo tradicional e ilustrem as conexões entre os fenômenos da realidade.
Iniciativas derivadas de posturas engajadas têm como aspectos positivos a transparência sobre a orientação político-ideológica e a independência em relação ao financiamento, já que um veículo com posicionamento crítico ao agronegócio não aceitará publicidade ou patrocínio desse setor, por exemplo. É o que propõe o projeto De Olho Nos Ruralistas ao repercutir o processo de devastação ambiental sob o governo de Jair Bolsonaro.

No dia 26 de maio, o texto de Alceu Luís Castilho informou detalhadamente as entidades responsáveis por veicular anúncio de apoio à gestão de Ricardo Salles no Ministério do Meio Ambiente. A publicação retomou levantamento realizado pelo próprio portal em 2019 com a lista de empresas que financiam a Frente Parlamentar Agropecuária através de associações do agronegócio brasileiro. O assunto foi retomado por conta do discurso de Salles durante a reunião ministerial de 22 de abril, em que o ministro defendeu aproveitar o foco da cobertura jornalística da pandemia para “ir passando a boiada” e afrouxar ainda mais os regramentos das políticas públicas ambientais. Na mesma semana, também repercutindo a frase de Salles, Observatório do Clima, ClimaInfo e Greenpeace Brasil iniciaram uma campanha nas redes sociais intitulada #nomeaosbois, pela qual cobraram posicionamento público das empresas representadas pelas entidades que assinaram o manifesto em apoio ao ministro. Neste caso, o jornalismo engajado esteve em sintonia com outras estratégias de comunicação que buscaram dar visibilidade à pauta e mobilizar o debate público sobre as responsabilidades do governo e do setor privado na crise ambiental.
Esta ampliação do diálogo entre jornalismo e outros atores é um movimento muito importante no contexto atual de devastação dos biomas brasileiros que pode ser irreversível. Não temos mais tempo: o jornalismo precisa incorporar novos elementos de sensibilização do público para atentar à urgência do tema. Isto não significa renunciar aos seus princípios e valores ou às formas já consolidadas da atividade jornalística; significa, apenas, a ampliação de possibilidades nas coberturas. A pluralidade de olhares e abordagens será bem-vinda para uma mobilização social representativa.

*Jornalista, doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

A boiada de Salles e o jornalismo ambiental

Imagem: captura de tela – Reportagem recente do site O Eco criado em agosto de 2004 para “dar voz a bichos e plantas, através daqueles que se interessam em protegê-los”.

Roberto Villar Belmonte*

No dia em que o Brasil passou a ser o segundo país mais afetado pelo novo coronavírus Sars-Cov-2, com mais de 330 mil casos oficialmente registrados e 21.048 mortes causadas pela Covid-19, o mundo descobriu que a pandemia não é apenas tratada como uma “gripezinha” pelos aloprados chefiados por Jair Bolsonaro, ela também vem sendo usada como cortina de fumaça para afrouxar ainda mais os regramentos ambientais. Foi o próprio ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já condenado em primeira instância por improbidade administrativa, quem explicou sem cerimônias essa estratégia macabra em reunião ministerial gravada dia 22 de abril no Palácio do Planalto e divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira, 22 de maio: “Então para isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de Covid, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

Uma crise nacional e um megaevento sempre mobilizam a atenção da imprensa e, por consequência, agendam a opinião pública. Por isso quando ocorre confisco da poupança, vazamento de petróleo, desabamento de barragem da mineração, denúncias de corrupção e uma pandemia todos ficam atentos. Foi o que aconteceu com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Brasil em 1992: jornais, revistas, rádios e tvs mantiveram a pauta ambiental em destaque durante vários meses. No entanto, tão logo terminou a Cúpula da Terra promovida pela ONU no Riocentro e no Aterro do Flamengo, o assunto passou a ser o impeachment de Fernando Collor de Mello. E o meio ambiente voltou à marginalidade. Muito já se escreveu sobre esse apagão na cobertura de temas ambientais no país pós-Rio 92. Dizia-se na época até que os jornalistas interessados e/ou especializados eram tão poucos que caberiam em uma Kombi.

Não é mais o caso e por isso os desmandos do ministro condenado são denunciados com veemência pela imprensa brasileira, mesmo durante a pandemia, e também pelos correspondentes estrangeiros que atuam no país. Atualmente existem mais de 30 serviços especializados na cobertura de temas ambientais no Brasil, principalmente sites e portais. Na Região Sudeste, os principais jornais têm repórteres que acompanham de perto a área, uns cobrindo com uma perspectiva científica, outros pelo viés econômico, mesmo sem uma editoria de meio ambiente. A pauta ambiental não é mais vista como um assunto exótico dentro das principais redações, como era no final do século passado. Também não existia naquela época empreendimentos jornalísticos como A Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, Repórter Brasil, The Intercept Brasil, Amazônia Real, Infoamazônia, O Eco e nem uma articulação de ONGs ambientalistas com uma produção de conteúdo tão qualificada como a do Observatório do Clima.

O que Salles quis dizer então com “momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa”? A eleição dos amigos e simpatizantes das milícias armadas teve um efeito semelhante à realização da Rio 92 no Brasil: a imprensa brasileira colocou o meio ambiente na pauta denunciando crimes e estultices oficiais. A sustentabilidade ambiental já não é mais só um tema exótico, ela passou a ser vista também como diferencial econômico por parte do empresariado. Além disso, o negacionismo climático e o terraplanismo do governo federal surpreenderam até mesmo os que sempre defenderam, à esquerda e à direita, o desenvolvimento a qualquer custo. Por isso as manobras e maracutaias do ministro condenado ocupam espaço de destaque na agenda pública. Com a chegada da pandemia, as pessoas estão bem mais preocupadas com a sua própria saúde, com a má gestão da crise e com o futuro da economia. Mas as denúncias ambientais continuam sendo publicadas.

Cinco dias antes do STF liberar a gravação do vídeo mostrando a reunião de Bolsonaro com seus ministros em linguajar de botequim, o site de jornalismo ambiental O Eco, criado em agosto de 2004, publicou a segunda parte de uma série que investiga a relação entre o mercado financeiro e a indústria da carne no Brasil. Na reportagem de perspectiva econômica Muito discurso, pouca prática: empresas “verdes” financiam indústria da carne na Amazônia, Fernanda Wenzel, Naira Hofmeister, Pedro Papini e Juliana Lopes mostram que os três frigoríficos que mais compram bois na Amazônia – JBS, Marfrig e Minerva – receberam 18 bilhões de dólares em investimento entre 2013 e 2019, apesar de estarem entre os dez processadores de carne do país com maior chance de promoverem o desmatamento. Todos investidores foram identificados. A matéria mostra que o mercado financeiro é bom de discurso verde, mas ainda deixa a desejar em suas práticas.

A reportagem faz parte de projeto que busca melhorar a eficiência dos acordos da carne e da soja, realizado por meio de uma parceria do site O Eco com o Imazon e apoio da Gordon and Betty Moore Foundation. O jornalismo ambiental praticado nos anos 20 do século XXI é mais experiente e preparado do que o da última década do século passado. Existem muito mais jornalistas interessados no tema, com diferentes níveis de engajamento com a causa ambiental, e mais iniciativas jornalísticas acompanhando de perto os problemas e as soluções possíveis. Prova disso foi a reação de toda a imprensa brasileira diante da confissão de culpa do ministro do Meio Ambiente do governo negacionista de extrema direita que parece gostar do caos produzido pelo avanço da pandemia. O apagão da cobertura ambiental ocorrido pós-Rio 92 não se repetirá durante o atual governo e nem tampouco nessa pandemia que tem, inclusive, causas ambientais. Salles e sua boiada cutucaram a onça com vara curta.

*Roberto Villar Belmonte é jornalista, professor e pesquisador dedicado à cobertura ambiental. Membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Governo parece objetivar a destruição ambiental

Fonte: Captura de tela do site Nexo

Por Nicoli Saft*

Enquanto o mundo se preocupa com a covid-19, a destruição de nossos ecossistemas perpetrada pelo governo federal não para. O Nexo Jornal fez um breve resumo das principais ações do governo a respeito do meio ambiente durante a pandemia, e podemos perceber que elas só levam ao agravamento da crise ambiental. Temos a demissão de servidores por fazerem seu trabalho e repelirem o garimpo em terras indígenas, a militarização da frente de combate ao garimpo ilegal, as mudanças de regras para a exportação de madeira, a anistia a desmatadores da Mata Atlântica e a gravíssima MP da Grilagem (Medida Provisória 910), que provavelmente se tornará um Projeto de Lei, visto que a MP caduca esta semana.

Gostaria que desse para fazer um texto do observatório sobre cada uma dessas questões, sobre como a mídia tem tratado elas. Infelizmente, a cobertura não tem sido tão extensa assim, e o mundo todo sofre com isso. Como bem falou minha colega Eloisa Beling Loose no último texto publicado aqui no Observatório, “É preciso que o jornalismo seja sentinela dos assuntos que impactam nossa sobrevivência no presente e futuro. A cobertura da pandemia de Covid-19 não pode encobrir ou servir de justificativa para minimizar os problemas ambientais que seguem assolando nossos ecossistemas”.

O texto do Nexo é bom, aponta claramente os rumos do governo no que tange o meio ambiente. O problema é que o objetivo do governo parece ser a destruição do nosso ecossistema. O jornal lista cinco ações do governo Infelizmente temos já mais duas para somar: a militarização do ICMBio travestido de reforma administrativa e um decreto que passa o poder de concessão das Florestas Públicas do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

A reforma no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade já estava prevista desde fevereiro. As 11 coordenações regionais foram extintas, e no lugar delas foram criadas cinco gerências, uma para cada região do país. Três delas serão chefiadas por militares (Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste). A Sul ainda está vaga. A Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente disse que irá vai recorrer ao Ministério Público Federal para que se investigue o atendimento aos critérios técnicos e gerenciais. Segundo a associação “As medidas tomadas até o momento ampliam os salários e os poderes em áreas intermediárias, em detrimento dos trabalhos finalísticos das Unidades de Conservação, como fiscalização e monitoramento. Aumentam os gastos com cargos políticos e de administração e pioram a autonomia e as condições de trabalho dos servidores, que terão maiores áreas para gerenciar, o que demonstra que as atividades finalísticas do ICMBio não são a prioridade”. Pode se achar mais detalhes na única e damasiada factual reportagem da Folha de S. Paulo sobre o assunto. Senti falta de gráficos explicativos, um fact-checking a respeito do aumento de salários apontado pela ASCEMA e uma explicação menos formal do que de fato muda.

Nesta última semana também Jair Bolsonaro assinou um decreto que transferiu o poder de concessão das florestas públicas federais do MMA para o MAPA. O texto, que não explica os motivos da mudança, transfere a competência de formular estratégias, políticas, planos e programas para a gestão das florestas. O ministério de Tereza Cristina ainda ficará responsável por escolher quais áreas serão concedidas e comandar o processo de licitação. O Globo e a Folha fizeram matérias sobre, seguindo rumos bem diferentes ao tentar encontrar os motivos da mudança. A Folha aponta que a medida seria uma resposta do governo ao adiamento da votação da MP da Grilagem. A reportagem cita “ambientalistas”, sem nunca explicar quem seriam esses. Entretanto, a reportagem nos dá uma boa explicação das mudanças e aponta possíveis consequências.

A matéria do Globo já traz uma outra perspectiva, a preocupação de que as florestas voltem a ser vistas sob a ótica mercantil. O motivo da transferência das florestas para a pasta de agricultura pode não ser primeiramente este, mas, com certeza, afeta a forma como vemos nossas florestas. A matéria do Globo não traz tantas explicações quanto à da Folha, mas a parabenizo por trazer essa interpretação, tão dolorosa se perceber mas ainda assim tão escancarada. Com a lista do Nexo Jornal, as ações tomadas quanto ao ICMBio e as matérias do Globo e da Folha, infelizmente só conseguimos concluir que a preservação do meio ambiente não é um dos objetivos do governo Bolsonaro, o objetivo parece ser justamente o contrário, a sua destruição. Tendo em mente esses sucessivos ataques, acredito ser papel do jornalismo não deixar de lado esse tema mesmo durante a pandemia. Temos que deixar o governo saber que estamos cientes do que estão fazendo, e comunicar a toda a sociedade. O jornalismo precisa assumir seu lado como defensor do meio ambiente para não deixar ele ser destruído.

* Jornalista, mestranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul com bolsa Capes. Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).