Observatório de Jornalismo Ambiental

Jornalismo deve cobrar prevenção antes que aconteça novamente


Sérgio Pereira*


Área central de Porto Alegre inundada em 2024
Foto: Fotos Públicas/Gustavo Mansur/Palácio Piratini

O Rio Grande do Sul está perto de completar dois anos de sua maior tragédia climática e as consequências das cheias de abril/maio de 2024 ainda reverberam. Pelo menos 23 pessoas continuam desaparecidas (conforme o último levantamento, de agosto do ano passado), milhares de famílias seguem aguardando moradia e municípios permanecem na dependência de obras de recuperação e prevenção.

Para não permitir que o tempo feche cortinas na memória coletiva, GZH lançou em junho daquele mesmo ano o “Painel da Reconstrução”, um hotsite que “monitora as medidas de apoio financeiro provenientes dos governos federal e estadual para a recuperação do Estado”. A iniciativa merece reconhecimento pois se propõe a oferecer uma radiografia sobre os principais investimentos e compromissos pós-enchente. Torna-se, assim, um instrumento útil para controle social e cobrança de recursos públicos destinados ao restabelecimento do RS.

O painel está focado em três áreas prioritárias: infraestrutura, habitação e prevenção a novos eventos climáticos extremos. Há informações valiosas na ferramenta, que em 24 de março deste ano, data dessa consulta, havia sido atualizada 13 dias antes. A começar pelos repasses financeiros. Graças à plataforma, pode-se conferir que o Governo Federal pagou 63,8% (R$ 75,2 bilhões) dos R$ 118 bilhões prometidos. O Governo do RS, por sua vez, aplicou apenas 40,9% (R$ 4,6 bilhões) dos R$ 11,3 bilhões previstos.

Outro exemplo da relevância do levantamento diz respeito à circulação: ainda há no Estado pelo menos 15 trechos de rodovias bloqueadas, total ou parcialmente. As obras da ERS-348, entre Agudo e Dona Francisca, para citar um caso, sequer foram iniciadas.

As informações envolvendo moradias, porém, não são atualizadas há pelo menos seis meses. São mais de 25 mil habitações projetadas, conforme GZH. O portal cientifica que, até agora, foram disponibilizadas 520 temporárias pelo Estado e que o Governo Federal já entregou as chaves definitivas para 5.733 famílias pelo programa Compra Assistida.

Os dados sobre “Prevenção”, contudo, são ainda mais preocupantes. Primeiro, porque os números desse item da plataforma não são alterados há mais de oito meses. Também causa apreensão o andamento dos trabalhos das oito obras prioritárias relacionadas, nenhuma concluída. Dessas, a metade não saiu da fase de elaboração de projeto: dique em Eldorado do Sul; arroio Feijó (Porto Alegre e Alvorada); bacia do Rio do Sinos; e bacia do Rio Gravataí.

As outras quatro listadas, todas em Porto Alegre, superaram as etapas de projeto e licitação e estão em andamento: fechamento em concreto das comportas 8, 9, 10 e 13 do sistema de proteção; substituição das comportas 11, 12 e 14; manutenção de 1,4 quilômetro do chamado dique da Fiergs, na zona norte da capital; e manutenção de 3,4 quilômetros do dique do Sarandi. Os prazos previstos para o término de três dessas quatro obras estão expirados, conforme o levantamento revela. E a quarta está programada para ser concluída agora em março de 2026.

É preciso dizer que o painel poderia estar mais atualizado no campo “Prevenção”. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi noticiado o fechamento em definitivo das comportas 8, 10, 13 e 14 do sistema de proteção de Porto Alegre, mas na plataforma não consta essa informação. Nem mesmo na relação de matérias mais recentes sobre o tema, com links disponíveis logo abaixo das obras prioritárias. Essa latência acaba por comprometer sua eficiência como mecanismo de transparência e vigilância pública.

Afora a desatualização, outra questão surge: por que o painel não é mais explorado como instrumento de cobrança? Principalmente no que se refere à prevenção. Nos últimos dias, a notícia de formação de novo El Niño no Hemisfério Sul fez ligar o sinal de alerta. Conforme o instituto Climatempo, o “risco de chuva extrema sobre o Sul do Brasil é maior este ano”. O Rio Grande do Sul vai estar melhor preparado para uma nova enchente? O jornalismo pode e deve responder a esse questionamento.

O Princípio da Precaução, incorporado aos pressupostos do Jornalismo Ambiental, ensina que devemos ampliar o tempo de ação do jornalismo, orientando-o para o futuro na tentativa de alertar e evitar consequências negativas (Girardi et al., 2020). Loose e Girardi (2017) acrescentam que a noção de que o jornalista ambiental deve colaborar para o alerta e o enfrentamento dos riscos climáticos está em sintonia com sua responsabilidade de reduzir alarmismo e evitar medidas que desconsiderem as incertezas intrínsecas ao seu fenômeno.

O desastre climático de 2024, que causou a morte de 185 pessoas, deixou traumas profundos no povo gaúcho. Desde então, a cada chuva intensa, o fantasma das cheias faz ressurgir o medo de novas inundações. É missão do jornalismo estar conectado aos interesses e preocupações da sociedade. De que vale então estar de posse de um dispositivo importante e não aproveitar ao máximo o seu potencial? Afinal, ferramenta em uso não acumula poeira. Tanto na carpintaria quanto no jornalismo, esse adágio pode ser de muita utilidade.

Revisão: Ângela Camana, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053. Acesso em: 23 mar. 2026.

LOOSE, Eloisa Beling; GIRARDI, Ilza Maria Tourinho. O Jornalismo Ambiental sob a ótica dos riscos climáticos. Interin, v. 22, n. 2, Jul/Dez 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/169150/001048279.pdf?sequence=1&isAllowed=y22(2):154-72. Acesso em: 23 mar. 2026.

Muito mercado, pouca comida: o que a guerra do Oriente Médio tem a ver com isso?

Foto: Wikicommmons | Dennis G. Jarvis


Por Gabriella de Barros*

Embora à primeira vista pareçam temas distantes, a guerra no Oriente Médio pode gerar impactos diretos na alimentação no Brasil, especialmente quando observada sob uma perspectiva ambiental. A relação comercial entre Brasil e Irã ajuda a explicar essa conexão: o Irã está entre os principais compradores do milho brasileiro, cuja produção se concentra em estados como Goiás e Mato Grosso, regiões marcadas por expansão agrícola e pressões sobre biomas como o Cerrado.

Ao mesmo tempo, o Irã também se destaca como fornecedor de fertilizantes nitrogenados, em especial a ureia, insumo que ajuda a sustentar o atual modelo de produção agrícola. De acordo com a CNN, os dados de 2025 mostram que Irã e Omã tiveram participação relevante no fornecimento de ureia ao Brasil, respondendo por 18,4% das importações, o que corresponde a aproximadamente 1,5 milhões de toneladas de um total de 8,2 milhões.

Como grande parte dessas exportações depende de rotas que atravessam o Golfo Pérsico, eventuais tensões na região podem comprometer a logística e elevar custos. Esse encarecimento não afeta apenas o mercado, mas reforça a dependência de insumos externos e intensivos em impactos ambientais, colocando em evidência a fragilidade do sistema produtivo, como é apontado pelo estudo de Ana Luíza Cordeiro Lima, da Universidade Federal de Uberlândia, em que cerca de 66% das emissões de óxido nitroso (N₂O) estão ligadas à agricultura, um percentual que abrange não apenas práticas agrícolas, mas também a produção industrial de fertilizantes. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados desregula o ciclo do nitrogênio e está associado a impactos ambientais duradouros.

Para entender como esse assunto repercutiu na imprensa, a análise do Observatório de Jornalismo Ambiental examinou as abordagens de dois portais sobre os possíveis desdobramentos da guerra nos preços dos alimentos e nos insumos do agronegócio brasileiro.

No portal independente Instituto Conhecimento Liberta (ICL), o tema aparece em um programa do dia 06 de março, no YouTube, que discute como o conflito pode influenciar o acesso à alimentação. A conversa aponta que instabilidades geopolíticas tendem a elevar custos logísticos e produtivos, o que pode dificultar ainda mais o acesso a alimentos. A professora da FGV Carla Beni destacou possíveis efeitos sobre a produção agrícola global e o aumento recente nos preços dos fertilizantes. Ainda que o debate avance ao relacionar economia e acesso à comida, há pouco aprofundamento sobre os impactos ambientais associados a esse modelo produtivo dependente de insumos químicos.

Já na cobertura de O Globo, a ênfase recai sobre dados econômicos e projeções de mercado. A notícia indica que milho e soja podem registrar aumentos mais rápidos que produtos de origem animal, embora o encarecimento da ração possa, ao longo do tempo, pressionar também carnes e ovos. As informações se baseiam em dados de entidades do agronegócio e instituições financeiras, como CNA, Anda e Rabobank. No entanto, a análise se concentra no comportamento de preços e na dinâmica do mercado, sem explorar de forma mais ampla as implicações ambientais desse cenário, como o uso intensivo de fertilizantes e seus efeitos sobre o solo e os ecossistemas.

Ao comparar as duas abordagens, percebe-se uma diferença de enquadramento. O ICL busca aproximar o tema da realidade social, enquanto O Globo prioriza indicadores econômicos. Ainda assim, ambas as coberturas deixam em segundo plano a dimensão ambiental do problema, tratando os fertilizantes principalmente como variáveis de custo, e não como elementos centrais de um modelo agrícola com impactos ecológicos relevantes.

Outra lacuna importante está na ausência de contextualização sobre a dependência estrutural do Brasil em relação a insumos importados. Esse fator não apenas expõe a vulnerabilidade do país diante de crises internacionais, mas também levanta questionamentos sobre a sustentabilidade de longo prazo do atual padrão produtivo. Alternativas como a diversificação de fontes, o incentivo a práticas agroecológicas ou a redução do uso de insumos químicos praticamente não aparecem nas narrativas analisadas.

Também chama atenção a limitada diversidade de fontes. Predominam representantes do setor econômico e do agronegócio, enquanto especialistas em meio ambiente, segurança alimentar e políticas públicas são pouco ou nada ouvidos. Essa escolha restringe o debate e reforça um olhar voltado ao mercado, deixando em segundo plano discussões sobre acesso à alimentação, desigualdade social e impactos socioambientais.

Esse enquadramento contribui para uma cobertura que prioriza custos e projeções, mas oferece pouca reflexão sobre quem será mais afetado pelo aumento dos preços e quais são as consequências ambientais desse modelo. Em um contexto de desigualdade, a elevação no valor dos alimentos tende a atingir de forma mais intensa as populações vulneráveis, ao mesmo tempo em que a intensificação produtiva pode ampliar pressões sobre recursos naturais.

Dessa forma, embora as reportagens ajudem a compreender os possíveis efeitos da guerra sobre o mercado agrícola, ainda há espaço para uma abordagem mais integrada. Incorporar dimensões ambientais e sociais permitiria avançar na compreensão das relações entre geopolítica, produção agrícola e segurança alimentar, elementos centrais para o jornalismo ambiental.

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).

**Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA.

Referências

CASTRO, Mayra. Guerra no Oriente Médio já tem impacto em fertilizantes e preço dos alimentos pode subir no Brasil. O Globo, 11 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/11/guerra-no-oriente-medio-ja-tem-impacto-em-fertilizantes-e-preco-dos-alimentos-pode-subir-no-brasil.ghtml. Acesso em: 13 mar. 2026.

CNN BRASIL. Ureia dispara e mercado reduz negociações em meio à guerra do Irã. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ureia-dispara-e-mercado-reduz-negociacoes-em-meio-a-guerra-do-ira/. Acesso em: 17 mar. 2026.

INSTITUTO CONHECIMENTO LIBERTA (ICL). Guerra no Oriente Médio pode encarecer alimentos no Brasil. YouTube, 2026. Disponível em: https://youtu.be/j3HmXbLbaZw. Acesso em: 13 mar. 2026.

LIMA, Ana Luíza Cordeiro. Fertilizantes nitrogenados: uma revisão bibliográfica sobre impactos ambientais. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Química Industrial) – Instituto de Química, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/42062/1/FertilizantesNitrogenadosUma.pdf. Acesso em: 17 mar. 2026.

Desastres viram notícia. Preveni-los, não.

Foto: RS via Fotos Públicas

Eutalita Bezerra*

Nos últimos anos, o agravamento da crise climática tem ampliado o volume de iniciativas institucionais voltadas à mitigação de impactos ambientais e à adaptação das sociedades ao aquecimento global. Porém, parte dessas ações, mesmo quando envolvendo organismos internacionais, coalizões da sociedade civil ou decisões com impacto direto sobre políticas públicas, passam quase despercebidas no noticiário tradicional.

No início deste mês, duas iniciativas relevantes circularam principalmente em meios de comunicação alinhados à pauta ambiental. No dia 4, organizações que compõem o Observatório do Clima divulgaram a Agenda Legislativa 2026, documento que analisa proposições em tramitação no Congresso Nacional e no Senado Federal que desafiam ou colocam em risco o meio ambiente.

Dois dias depois, em 6 de março, a Organização das Nações Unidas anunciou o início do processo de elaboração do Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento (PNAR), iniciativa que pretende orientar a estratégia brasileira para lidar com o aumento de episódios de calor extremo, fenômeno cada vez mais frequente em um planeta em aquecimento. Ambas as iniciativas reúnem elementos clássicos de noticiabilidade. Envolvem instituições de peso, têm impacto potencial sobre políticas públicas e dialogam diretamente com um dos temas mais urgentes da atualidade, a crise climática. Ainda assim, ganharam pouca ou nenhuma visibilidade midiática.

Um levantamento exploratório realizado para este artigo em mecanismos de busca e nos principais portais de notícias do país indica cobertura pontual ou inexistente sobre os temas nos dias seguintes às divulgações.A busca por “Agenda Legislativa 2026” nas dez primeiras páginas da aba de notícias do Google, por exemplo, aponta que o assunto circulou especialmente em veículos especializados e fora do circuito dominante da grande imprensa. É o caso do Site O Eco, o Nexo , o Ciclo Vivo, o Clima Info e a Agência Brasil

Mesmo nesses casos, os textos publicados são muito semelhantes entre si e provavelmente versões reescritas de releases, sem aprofundamento jornalístico.  O Brasil de Fato foi um dos poucos veículos que avançou além do material institucional e ouviu um especialista para comentar o documento. Já o anúncio do processo de construção do PNAR foi ainda mais invisível e apareceu basicamente nos perfis institucionais da própria ONU.

Foto: RS via Fotos Públicas

Esse descompasso entre relevância pública e visibilidade jornalística não é novo. Seguidamente discutimos, neste observatório, que a cobertura ambiental costuma ganhar destaque sobretudo em momentos de desastre, como queimadas, enchentes ou deslizamentos. O que se observa agora é algo ainda mais preocupante: a dificuldade de dar espaço, inclusive em veículos especializados, a processos estruturais de formulação de políticas públicas.

Ainda à luz dos critérios de noticiabilidade, sabemos que iniciativas institucionais de planejamento, mesmo quando estratégicas, frequentemente carecem de elementos dramáticos, o que reduz sua competitividade no fluxo informativo das redações. Quando se trata da crise climática, porém, essa lógica produz um efeito paradoxal.

Quanto mais estruturais e preventivas são as iniciativas, menor tende a ser sua visibilidade pública. O resultado é um noticiário ambiental dominado por eventos extremos, enquanto processos decisivos de formulação de políticas climáticas, capazes de evitar que muitas dessas tragédias aconteçam, permanecem fora do radar da cobertura cotidiana.

A ausência de cobertura consistente sobre iniciativas como a Agenda Legislativa do Observatório do Clima ou o Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento não representa apenas uma lacuna editorial. Representa uma falha na mediação pública de um debate que definirá as condições de vida nas próximas décadas. Se o jornalismo pretende continuar sendo um espaço central de construção da esfera pública, precisa reconhecer que a crise climática não é uma pauta eventual. É o contexto que atravessa todas as outras. Ignorá-la não é apenas um erro de agenda. É, cada vez mais, uma forma de desinformação.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Guerra e clima não coabitam manchetes

Número de mortes e aspectos técnicos dominam enfoques da cobertura jornalística sobre guerras e desastres naturais, enquanto contexto climático fica fora do radar

Fonte: RS/Fotos Públicas

Heverton Lacerda*

Quem acompanha, com olhar atento, as publicações da imprensa brasileira a respeito da tragédia em Ubá (MG) e sobre as guerras patrocinadas por superpotências militares pode identificar, com facilidade, a falta de correlacionamento das pautas com as mudanças climáticas. As abordagens são muito similares: notícias factuais sem contextualização ampla, mantendo os fatos principais isolados.

É como se os enormes impactos ao meio ambiente não contribuíssem para ampliar a tragédia comum que afeta a vida em todo o planeta. As matérias não dão conta de identificar – sequer em notas de rodapé – que as destruições causadas pelas guerras e pelas próprias catástrofes climáticas ampliam o problema ambiental. Quanto mais agressões o corpo planetário sofre, mais diminui sua resiliência natural. Consecutivamente, a Terra perde capacidade de absorção de impactos e regeneração. 

Além de ceifar vidas e destruir territórios, infraestruturas e habitats naturais, guerras e tragédias climáticas ampliam emissões de gases de efeito estufa e os riscos sobre estruturas artificiais críticas. Um exemplo são as tecnologias que envolvem radiações ionizantes, muito utilizadas nas áreas de energia, indústria, médica, farmacêutica e agricultura, entre outras. Além do potencial de causar mortes por intoxicação, ferimentos ou traumas, os acidentes radiológicos comprometem a saúde mental e podem contaminar o solo, a água e o ar. O acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior do mundo fora de usina nuclear, aconteceu em 1987. Até hoje, o Brasil abriga mais de três mil instalações radioativas em seu território, conforme o Ministério da Saúde.

Um alerta nesse sentido, ainda que sem mencionar a relação direta com o contexto climático, aparece no portal Opera Mundi, entre outros, quando noticia que a Rússia adverte risco de ‘catástrofe radiológica’ em guerra de EUA e Israel contra Irã.

As guerras e as catástrofes climáticas guardam relações e apresentam distinções. Ambas são reflexos de ações humanas, de decisões tomadas por grupos de poder político e econômico.  As guerras modernas geram toneladas de escombros e emitem gases poluentes em proporções muito maiores do que as atividades do dia a dia. São foguetes, mísseis, drones, veículos blindados – terrestres, marítimos, aéreos -, tecnologias de comunicação de última geração e muito mais. Tudo isso consome muita água e energia, desde a mineração dos materiais utilizados na construção dos equipamentos até as emissões de poluentes de origem fóssil e eletromagnética durante as operações. O volume de recursos financeiros gastos na indústria da guerra seria suficiente para abastecer os fundos climáticos mundiais e apoiar comunidades em risco em todas as partes do mundo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, atingido pelas enchentes em 2024, até hoje não conseguiu reconstruir seu território e prepará-lo para o futuro incerto e preocupante que a ciência projeta, diante dos dados disponíveis.

Diferente das guerras, os eventos climáticos extremos já resultam, em grande parte, do acúmulo de atividades degradantes praticadas pela humanidade ao longo dos últimos dois séculos e meio. As catástrofes mais intensas que estamos testemunhando nos anos recentes são consequências do nosso passado. Já os resultados das destruições podem ser considerados agentes de enfraquecimento da resiliência natural dos territórios, exigindo ações preventivas mais eficazes e urgentes. Neste sentido, no entanto, tanto as guerras quanto as catástrofes ambientais intensificam ainda mais a crise climática. 

Talvez o jornalismo, de modo geral, não tenha condições, na correria diária, de ampliar a contextualização ao nível do detalhe, o que poderia comprometer um pouco a objetividade e a facilidade de compreensão das pautas. No entanto, a criatividade e os atuais recursos de design multimídia podem ser aliados estratégicos de apoio à intenção de contextualizar. Intenção é o ponto chave. Guerra e clima podem e devem coabitar não só manchetes, mas as melhores matérias jornalísticas. 

Cabe lembrar que, além da contextualização, o princípio da precaução é outro pressuposto teórico do Jornalismo Ambiental. Ele pode ajudar os colegas jornalistas a compreenderem, identificarem e explicarem os efeitos colaterais – neste caso, os reflexos na crise do clima – dos fatos em destaque na pauta. O compromisso com a fidelidade dos fatos e o alerta para as possíveis causas e consequências, diretas e indiretas, são elementos-chave para manter a pauta climática na transversalidade da boa cobertura jornalística. A visão sistêmica e o olhar para além das cortinas de fumaça demonstram a sagacidade do jornalista, fundamental para a cobertura de pautas complexas.

Revisão: Gabriella Barros, integrante do GPJA

*Heverton Lacerda é jornalista, especialista em Ciências Humanas, mestre em Comunicação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA)  e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Petróleo e mudanças climáticas: como a imprensa noticia a investida americana na Venezuela

Cobertura jornalística trata pouco do debate ambiental quando o assunto é a exploração do combustível fóssil no Mar do Caribe

Imagem: Freepik

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

A cobertura sobre o novo domínio do petróleo venezuelano pelos Estados Unidos desde o ataque à Caracas no início de janeiro foi intensa. Apenas no portal G1, mais de 80 matérias jornalísticas foram veiculadas mencionando “venezuela/estados unidos” e “petróleo” em janeiro. Nenhuma delas mencionou o impacto do recurso no meio ambiente, e poucos outros veículos indicaram o quanto isso irá turbinar a crise do clima.  Já em outro formato, o Grupo Globo deu atenção ao enfoque: no podcast O Assunto, do G1. Nele, Natuza Nery comenta as contradições da busca pelo petróleo em tempos de aquecimento global desenfreado, e traz uma análise histórica dos interesses americanos na Venezuela. Mas, esse não seria um enquadramento possível também nas notícias do portal?

Em sua coluna na Folha de São Paulo, Marcelo Leite trouxe os cálculos de carbono das metas climáticas fixadas pelo Acordo de Paris e o trabalho contrário que o time de Donald Trump procura fazer. Também na Folha, e originalmente no New York Times, destaca-se que o petróleo da Venezuela polui mais, emite quantias altíssimas de metano e gera derramamentos. Na CNN, uma reportagem indica que os planos de extração de mais petróleo no país acendem alerta climático, e que o petróleo venezuelano: bruto, pesado e ácido, está entre os mais poluentes do mundo. Novamente no Grupo Globo, a plataforma Um Só Planeta traz a situação sob a perspectiva da transição energética defendida nas cúpulas do clima e a Deutsche Welle analisa como isso pode refletir na política energética brasileira

Ressalta-se que, nas editorias de Mundo/Internacional e Economia, ainda é escassa a perspectiva ambiental nas coberturas associadas aos combustíveis fósseis, mesmo nas matérias relacionadas ao ataque e controle da infraestrutura petroleira venezuelana. Não o fazer é deixar de atender o interesse público da sociedade passando por cima do direito constitucional de ter um futuro com qualidade de vida em um planeta equilibrado. Manter o tema atrelado apenas à perspectiva econômica ou geopolítica, invisibiliza as raízes da crise climática e de todas as demais crises oriundas de um modelo de desenvolvimento baseado na depleção das riquezas naturais, simplificadamente nomeadas como recursos. 

Imagem: Pexels

Contextualizando os fatos 

Em três de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram um ataque armado de grandes proporções à Venezuela. Para justificá-lo, o presidente do país, Donald Trump, alegou combater o narcotráfico, o regime de Nicolás Maduro e ameaças à segurança nacional. Após a captura/sequestro de Maduro, Trump declarou que sua gestão tomaria controle da infraestrutura petroleira do país, que a recuperaria, e que empresas americanas voltariam à operá-la e comandá-la. 

O discurso colonialista dos Estados Unidos não deixou muitas pessoas surpresas – a sua história em relação à economia de outros países mostra que a interferência do Tio Sam não têm limites. Sanções, guerras comerciais e ataques armados são algumas das demonstrações de poder feitas pelos estadunidenses na lógica nacional de acumular capital e modelar a geopolítica global aos seus interesses.

E é por isso que o assunto principal rapidamente tornou-se o petróleo (e aqui já não se falou muito mais em narcoterrorismo ou em salvar a democracia venezuelana). O petróleo é a atual base energética do mundo – há mais de um século, garante segurança econômica para quem o exporta e sustenta o comércio mundial.  E a Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 303 bilhões de barris, segundo a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). 

Agora, o que acontece quando líderes globais são negacionistas climáticos, sustentados por investidores coniventes e apoiadores que acreditam no mesmo? O impacto pesado e destruidor da energia fóssil é reservado apenas às notas de rodapé das decisões políticas dos EUA, mas impactam a todos.  

A mudança da matriz energética significa uma mudança completa na estrutura da geopolítica global. Para os Estados Unidos, apoiar a transição energética é colocar em risco seu poder sobre outros países com sua reserva petrolífera, e dar o braço a torcer para os que estão à frente pela transição energética. O domínio dos combustíveis fósseis significa poder comercial, que é uma das principais ‘moedas’ políticas do país. Como vimos em 2025, no caso das taxas ao Brasil, China e outros países, por exemplo, o governo Trump pode provocar guerras comerciais por objetivos arbitrários a qualquer momento. 

Diante de um país influente, com um líder que não poderia se importar menos com os impactos da emergência climática, o mundo se articula de novas formas – acordos, alianças e possíveis lideranças se apresentam como competidoras ao domínio estadunidense. Inclusive, se fala da necessidade do fortalecimento do multilateralismo climático

Com mudanças na “geopolítica da energia”, os Estados Unidos terão, de um jeito ou de outro, de se encaixar no que é o futuro – a energia limpa. Ainda é incerta a rapidez dessa mudança, mas o fato é que no tempo presente, os Estados Unidos sinalizam para seguir explorando a  ultrapassada energia fóssil e insistir no negacionismo criminoso, com o objetivo de explorar até o último recurso fóssil da terra, e principalmente das terras dos outros. 

*Eloisa Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

** Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

Referências

CARLINDO, Sabrina. PEIXINHO, Dimas Moraes. A geopolítica da energia e a consolidação do petróleo como instrumento de poder. Revista Sapiência, v. 14, n. 1, 2025. Disponível em: https://www.revista.ueg.br/index.php/sapiencia/article/view/16027

A cobertura ambiental de 2025: o que esperar depois da COP brasileira?

Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose**

Em 2025, o jornalismo de meio ambiente no Brasil lidou com uma agenda intensa: da política e legislação ambiental em chamas aos holofotes da COP-30 em Belém, que, para além da cobertura dos preparativos, contou com iniciativas de mobilização e discussão durante o ano todo. Foi possível observar notícias pautadas pela urgência na prevenção e mitigação de desastres climáticos, e mais visibilidade às demandas dos povos originários. Contudo, ainda é cedo para dizer que esses enfoques persistirão no médio e longo prazos.

Na publicação “O Jornalismo no Brasil em 2025”, da Associação Brasileira de Jornalismo e do Farol Jornalismo, veiculada no final de 2024, profissionais e pesquisadores de Jornalismo apontaram temáticas a se atentar nas coberturas. Entre elas, “Comunicação indígena será decisiva para enfrentar mudanças climáticas em 2025” da Rede Wayuri, e “Em 2025, coberturas de desastres climáticos vão exigir novos jornalismos”, fruto das observações do que foi vivenciado no Rio Grande do Sul a partir da eclosão do desastre em maio de 2024.

Uma análise retrospectiva do trabalho da imprensa ao longo deste ano indica que algumas previsões se concretizaram, mas muitos desafios persistem. Embora tenhamos tido um ano com muita cobertura ambiental, a fragmentação do assunto dificulta a compreensão da população, enfraquecendo o debate público. Mesmo com o mundo de olho na Amazônia em razão da COP, os políticos brasileiros aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (ou PL da Devastação), que prejudica a proteção do meio ambiente. 

Com o Observatório, analisamos os enquadramentos, termos e lacunas das reportagens percebidas pelo viés do Jornalismo Ambiental. Em maio, nossa análise “A cobertura da aprovação do PL  sobre licenciamento: como se posicionam os jornais mainstream?” demonstrou que os veículos hegemônicos trouxeram contrapontos importantes ao PL, mas focaram de forma majoritária em fatores econômicos, com espaço exacerbado aos interesses do agronegócio e das petroleiras. Em agosto, Ilza Girardi e Isabelle Rieger seguiram observando de perto os termos utilizados na mídia hegemônica e independente para tratar da nova lei, sendo “desburocratização”, “flexibilização” e “abertura” os mais citados pela primeira, enquanto a segunda focou na possível destruição do meio ambiente causada pela aprovação. 

No texto de 2024 que buscava apontar o que estava por vir, a ampliação do debate ambiental no País estava prevista. Porém, notamos a predominância de uma perspectiva político-econômica, que favorece o desenvolvimentismo a qualquer custo. Com relação à cobertura do PL da Devastação, de forma específica, o Observatório identificou as contradições de se flexibilizar a proteção ambiental enquanto se fala cada vez mais no combate à emergência climática. 

Outra contradição marcante em 2025 foi a concessão da licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas em data próxima à realização da Conferência das Partes. Embora anfitrião da COP, o governo federal defendeu o discurso de que a exploração do petróleo viabilizaria a transição energética. Na previsão de 2024, já se apontava que “explorar petróleo para garantir a transição energética ou vender o mercado de carbono como uma saída para a crise climática são falácias que deveriam ser mais bem checadas pelo jornalismo.”

Também foi notado o amplo apelo de setores econômicos, como a mineração e o agronegócio, que contribuem para as emissões de gases de efeito estufa fazendo lobby no ano da COP, para se venderem como protagonistas das soluções climáticas. Entretanto, em alguma medida, jornalistas apenas foram porta-vozes das disputas que atravessam a questão ambiental, como se o nosso futuro neste planeta não fosse a principal pauta de interesse público da contemporaneidade.

A perspectiva de maior volume de notícias em razão  da COP-30 se realizou, sendo que muitos aspectos climáticos foram bem explicados e aprofundados na mídia. O evento impulsionou o crescimento de projetos jornalísticos especializados, cursos de formação para comunicadores e uma cobertura mais intensificada por veículos tradicionais e independentes. Neste Observatório, avançamos na produção de críticas de mídia, com o especial “De olho na COP”. A imprensa, particularmente a não hegemônica, cobriu intensamente a contradição de o Brasil sediar a COP-30 enquanto licenciava a perfuração de poços. A omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da COP-30 foi o tema mais criticado pela imprensa brasileira, que relatou a frustração do resultado da conferência.

Segundo o texto da Rede Wayuri, a importância da comunicação e dos saberes indígenas é considerada decisiva para o enfrentamento da crise climática, representando não apenas um ato de justiça histórica, mas também uma estratégia urgente para salvar o futuro de todos. O texto vislumbrando o Jornalismo em 2025, destacava mais espaço para a comunicação popular e as redes comunitárias,.

A partir da COP-30, esse protagonismo indígena ganhou relevo. Com a maior participação de povos originários em três décadas, cerca de 400 representantes indígenas estiveram credenciados nas salas de negociação oficial. A mobilização indígena foi um fator de destaque em alguns veículos, especialmente os independentes e dedicados à pauta ambiental, sendo considerada uma grande força política.

Apesar da presença inédita, a análise da cobertura midiática durante os eventos, como a Pré-COP, realizada em Brasília, indicou que a imprensa tradicional tratou as manifestações e reivindicações de povos indígenas e quilombolas de forma tímida, deixando suas vozes à margem do debate público midiático. Em decisões cruciais, como a aprovação da Lei Geral do Licenciamento e da exploração em território ambiental sensível como a Foz do Amazonas, suas vozes continuam sendo ignoradas, com poucas execeções. Logo, a reivindicação por mais visibilidade segue sendo uma demanda dos povos indígenas – e de muitos outros grupos que não são vistos como fontes qualificadas para a elaboração de notícias. Uma luta que deve avançar nos próximos anos.

Para 2026, o Farol Jornalismo e a Abraji lançaram novamente uma publicação de previsões para o Jornalismo – e aqui destacamos o texto: “Emergência climática e integridade da informação num cenário polarizado”. Nele, os autores indicam que o tema da emergência climática é tensionado por simpatias e antipatias políticas. Com as eleições presidenciais no próximo ano e o contexto de polarização interna, é esperado crescentes ondas de desinformação e produção de falsos conteúdos com o auxílio da Inteligência Artificial. Diante desses desafios, a confiança do público no Jornalismo é evidenciada, sendo que as informações devem ser íntegras, com checagem e fundamentação de qualidade, baseadas na ciência. Essa análise destaca também a importância do jornalismo local, cuja cobertura deve questionar as falhas e pressionar o dedo nas feridas dos governos regionais por todo o Brasil.

Além disso, alertam para outra tarefa do Jornalismo: a COP não acaba quando termina. As inúmeras pautas ambientais levantadas em 2025, impulsionadas pelo evento, não podem ser esquecidas. O trabalho pela preservação do meio ambiente é contínuo e deve estar presente durante todo o ano, em todas as editorias, de forma sistêmica. 

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e pesquisadora voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

O agro que sonhava ser pop agora quer virar lição de casa

Foto: Matinal/Isabelle Rieger

Por Ilza Maria Tourinho Girardi* e Sérgio Pereira**

Ser brasileiro com consciência ambiental e de cidadania exige muita saúde ou ter um amparo psicológico permanente.

A COP30, realizada em Belém (PA) no mês de novembro, deixou muito a desejar pelas decisões aguardadas e que não aconteceram. Além disso, foi liberada a exploração, em forma de estudos iniciais, do petróleo na foz do rio Amazonas. As vozes indígenas, demais povos da floresta, dos cientistas e dos ecologistas não foram ouvidas. Nem os pedidos do cacique caiapó Raoni sensibilizaram Lula. Agora, o presidente da República pede a seus ministros das pastas de Minas e Energia, do Meio Ambiente e Mudança do Clima, da Fazenda e da Casa Civil que elaborem o mapa para a substituição dos combustíveis fósseis. Então, por que liberar agora?

Vivemos no Brasil tempos de dissonância cognitiva. Nesse cenário político perturbador somos surpreendidos com a matéria da independente Matinal Jornalismo do dia 8 de dezembro sobre as atividades da associação De Olho no Material Escolar (DONME). Assinado pela jornalista Brenda Fernández, a reportagem “Como o agro quer controlar o que é ensinado nas escolas gaúchas” traz alerta importante para organização criada por produtores rurais e que está tentando mudar a forma como o agronegócio é abordado nas escolas públicas.

Conforme a matéria, a DONME já palestrou em 18 cidades gaúchas, a maioria conhecidas por sua tradição agrícola, como Uruguaiana, Alegrete, Bagé, Pelotas, Rio Grande e Dom Pedrito, entre outras. As atividades quase sempre são realizadas em feiras agrícolas ou em formato de visita a fazendas modelos de empresas associadas ao projeto. Conforme dados da entidade, até agora, cerca de 3,7 mil alunos e professores do RS foram impactados com os seus cursos entre 2024 e 2025.

A principal missão da associação é tentar fazer prevalecer seu discurso sobre como o agronegócio é importante para a economia. “Na pauta da DONME, estão sete prioridades elencadas em uma cartilha divulgada pela associação (leia aqui) em que a entidade deixa claro os seus objetivos. Entre as propostas para o PNE, está aplicar uma prova em professores ‘inspirada na experiência bem-sucedida do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil’, aumentar a participação da sociedade na indicação de avaliadores responsáveis pela revisão dos livros e criar uma etapa em que órgãos e instituições científicas auditem ‘de forma independente’ os conteúdos dos livros antes da publicação”, relata a jornalista na reportagem.

O agro quer agora fazer prevalecer sobre o imaginário de nossos estudantes uma narrativa parcial, incompleta e, por vezes, negacionista. A exemplo do movimento de extrema direita Escola Sem Partido, a entidade tenta apagar da realidade informações sobre o agronegócio brasileiro e seus problemas. É o caso da silenciosa destruição dos biomas brasileiros, inclusive o Pampa afetado sem perdão pelo avanço da soja; do uso indiscriminado de agrotóxicos; ou do grave problema da deriva de pesticidas que afeta não somente a saúde de todos, mas também a economia de produtores de outras culturas.

As últimas notícias não têm dado descanso aos brasileiros que travam a luta ambiental e que defendem um país melhor para todos, não apenas para alguns, como a classe ruralista. É grande a força do agro, cada vez mais mecanizado, com sua majoritária bancada no Congresso Nacional determinando os rumos da política, com a predominância em nossas lavouras da monocultura da soja, exportada em sua grande maioria como ração para gado. A escola, no entanto, não é lugar para versões, mas sim um espaço para o aprendizado, a convivência social e, agora mais do que nunca, para consolidação da verdade.

*Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS 

E-mail: ilza.girardi@ufrgs.br

**Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS.

E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

A devastação retorna à pauta: entre a derrota política e o risco sistêmico

Por Cláudia Herte de Moraes*

Em geral, os temas ambientais são complexos, refletindo a própria vida em sociedade. Em contraposição, a tônica do Jornalismo, em alguma medida, reside na possibilidade de simplificar a realidade para apresentar ao leitor um panorama dos principais pontos da pauta. Em um cenário de intensa disputa política pós-COP30, selecionei duas reportagens para observar o tratamento dado à derrubada dos vetos do presidente Lula na Lei Geral do Licenciamento Ambiental (popularmente chamada de “PL da Devastação”), ocorrida nesta semana. Escolhi ambas por serem detalhadas, permitindo identificar diferentes aspectos e refletir sobre como o Jornalismo pode atuar na vigilância e na fiscalização da agenda ecológica no Brasil.

A reportagem da Agência Pública focou no significado do fato, encarado como uma derrota para os ambientalistas e a base do governo. O texto detalhou o retorno de pontos perigosos, como a Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC) para projetos de médio potencial poluidor, modalidade na qual se encaixam as barragens de Mariana e Brumadinho. Já a BBC News abordou a fragilização das normas e a insegurança territorial aos povos tradicionais. Neste caso, o foco na derrota política do governo também veio acompanhado da descrição dos pontos que voltaram ao arcabouço legal e que reduzem a proteção ambiental, tais como a regionalização de critérios, a ampliação da LAC, a diminuição da defesa da Mata Atlântica e a não vinculação de pareceres de órgãos como Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Executivo cogita a judicialização (STF) como resposta.

As reportagens analisadas mostram que há ênfase na contextualização. A BBC, ao mencionar a judicialização e a iminente “guerra de flexibilizações” entre estados, ilustra uma cobertura sistêmica, conectando o ato político (do Legislativo) às esferas jurídica, econômica e federativa. A Pública reforça essa conexão ao ligar o LAC aos desastres de Mariana e Brumadinho, conferindo peso histórico e social ao risco iminente.

Os textos usam a voz de autoridades técnicas e ambientais (Ibama, MMA, ONGs) demonstrando que o saber ambiental foi uma lente importante para a apuração. Observei que há um tom de alerta e advertência, ao preverem o aumento do desmatamento e a insegurança jurídica, diretamente alinhado com o Princípio da Precaução. O Jornalismo, neste caso, atua como um sistema de alarme social, amplificando as vozes que buscam antecipar e evitar o dano irreversível.

Embora as reportagens tragam informações importantes e contextualizadas, diante do cenário de destruição, constatei que ainda há espaço para aprofundamentos, especialmente em direção à transformação social. Os textos citam o argumento dos defensores do PL (que apontam maior “segurança jurídica” e/ou a possibilidade de maior “desenvolvimento”) de forma superficial, geralmente em uma única frase. O indicado é aprofundar a lógica por trás do lobby e dos argumentos pró-flexibilização. É fundamental entender o que o chamado setor produtivo espera e como essa agenda se articula no Congresso, expondo, por exemplo, os interesses da bancada ruralista. A reportagem deve investigar se esses interesses são contemplados economicamente e até mesmo se o produto do agro brasileiro, sem fiscalização, perde valor e competitividade em mercados externos exigentes.

Percebi que a complexidade da derrubada de vetos (56 de 63) e dos mecanismos legais (LAC, regionalização dos critérios) pode ser densa para o público leigo. A indicação aqui seria melhorar a qualidade da informação com o uso estratégico de recursos visuais que detalhem o retrocesso ambiental e a dinâmica dos vetos de forma mais didática e acessível.

Adotar o tom da derrota do Executivo pode ser um risco, desviando o foco do problema estrutural. A ideia é que o Jornalismo assuma a responsabilidade de ir além da reação política imediata. Para isso, é preciso manter a cobertura constante sobre os impactos concretos da nova lei, associados ao aumento do desmatamento e a novos desastres socioambientais. Cobrar a responsabilização dos parlamentares que derrubaram os vetos, e sugerir alternativas e soluções é uma proposição da função política do jornalismo ambiental, servindo para orientar a ação do cidadão, e não apenas sua indignação.

 Em conclusão, posso afirmar que as duas reportagens representam um avanço na cobertura ambiental brasileira, agindo com as lentes do jornalismo ambiental ao expor a gravidade de uma decisão legislativa que foi contrária à posição de inúmeras organizações sociais, ambientalistas e científicas. Mas, para consolidar-se como agente para a mudança de pensamento e não apenas de informação, deve refinar sua prática na desconstrução das narrativas do lobby (a partir da pluralidade de perspectivas e da qualificação da informação), trazendo para si o compromisso com o monitoramento a longo prazo dos impactos, garantindo que a “vitória” do Congresso sobre os vetos não se torne uma derrota permanente para o interesse público.

*Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (UFSM). Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br 

Como a imprensa brasileira avaliou a COP30: tensões, omissões e avanços limitados

Por Nadja Nobre*

A cobertura da COP30 pela imprensa brasileira expôs uma fratura clara entre o discurso político que buscava apresentar a conferência como um marco de implementação e a percepção jornalística de que o encontro terminou com mais promessas do que caminhos concretos. Ao analisar o conjunto de reportagens, percebe-se que jornalistas privilegiaram explicitar tensões, contradições e omissões do texto final, especialmente num contexto em que a COP ocorria na Amazônia e sob grande expectativa global.

Entre os veículos analisados, o enquadramento mais recorrente foi o da frustração com o resultado. A agência de notícias independente, Amazônia Real, descreveu com clareza essa ambivalência, afirmando que a repercussão da conferência oscilou “entre frustração e avanço possível”, com destaque para a sensação de que a COP30 não entregou a virada estrutural compatível com a urgência climática e com a expectativa gerada pelo Brasil como anfitrião.

Essa leitura crítica é aprofundada pelo Valor Econômico, que trouxe bastidores tensos na reportagem “A noite em que a COP30 quase colapsou”. A matéria revelou a fragilidade política das negociações finais e o risco real de ruptura por falta de consenso sobre combustíveis fósseis e financiamento, mostrando uma conferência marcada por improvisações e divergências profundas.

O tema mais criticado pela imprensa foi a omissão do compromisso de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final, contradição central em uma COP que se pretendia de implementação.

A CNN Brasil destacou a frustração do próprio governo brasileiro com essa ausência, descrevendo o acordo como “decepcionante” para as expectativas criadas em torno da conferência.

Adicionalmente, a Folha de S. Paulo, na matéria intitulada: “COP30 termina com acordo que exclui plano de Lula contra fósseis, atende Europa e tem menção inédita a afrodescendentes”, reforçou o diagnóstico de que o texto final representa um retrocesso em termos de ambição climática. O texto evidencia que, apesar de pedidos por aumento de verba para adaptação, o plano original de eliminação dos combustíveis fósseis, defendido anteriormente pelo governo, foi suprimido do acordo. Isso alimentou debates críticos sobre o real comprometimento global com a transição energética.

A repetição desse enquadramento entre veículos de formatos e linhas editoriais tão distintas indica um consenso significativo que para a imprensa brasileira, o texto final da COP30 ficou muito aquém do que a crise climática exige.

Apesar das críticas, parte da cobertura também reconheceu avanços, ainda que percebidos como insuficientes.

No O Globo, Miriam Leitão descreveu a COP30 como a soma de “avanços históricos e frustrações”, destacando o protagonismo brasileiro na agenda de florestas e adaptação, mas alertando para a ausência de mecanismos concretos que sustentem esses compromissos.

Já a Sumaúma colocou em primeiro plano a mobilização indígena, evidenciando como as pressões sociais foram fundamentais para evitar retrocessos em temas como justiça climática e proteção territorial. O veículo destacou que a atuação de povos indígenas no evento foi uma das forças políticas mais organizadas e visíveis dentro e fora da plenária. Esses elementos mostram que parte do jornalismo ambiental e independente também buscou deslocar o foco das diplomacias formais para as dinâmicas territoriais e sociais que moldam a agenda climática.

A leitura conjunta das matérias revela que a imprensa brasileira optou por um enquadramento crítico da COP30, privilegiando a identificação de omissões e inconsistências do acordo final. Em vez de se limitar a reproduzir o discurso diplomático, os veículos se dedicaram a situar o encontro em seu contexto político e territorial. Realizada na Amazônia, território-símbolo das tensões climáticas, a conferência foi acompanhada por um jornalismo que buscou medir a distância entre anúncio e ação, promessa e entrega.

* Jornalista, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e integrante do Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: nadja.rnobre@gmail.com.

Oceano perde destaque na decisão final da COP30, mas entra no radar da cobertura jornalística

Foto: samsommer/unsplash

Por Débora Gallas*

Berçário da vida na Terra, hoje o oceano é o principal viabilizador da sobrevivência de nossa e de muitas espécies – mesmo as que, como a nossa, vivem em solo firme. O oceano é responsável por absorver cerca de 30% dos gases causadores do efeito estufa da atmosfera e mais de 90% do excesso de calor gerado por essas emissões. Assim, consegue produzir mais de 50% do oxigênio do planeta. Porém, o aquecimento desenfreado das águas por conta das mudanças climáticas está prejudicando sua capacidade de regular o clima global.

É curioso, portanto, que somente na 30ª Conferência do Clima da ONU tenha recebido mais destaque. De maneira inédita, o tema contou com uma enviada especial, Marinez Scherer, professora da Universidade Federal de Santa Catarina. A Conferência também propôs uma agenda de ação climática, que consiste em caminhos propostos para a implementação de soluções, considerando o oceano como um de seus eixos temáticos.

Durante a COP30, houve, por exemplo, o lançamento da Força-Tarefa Oceânica, liderada por Brasil e França, um esforço de 17 países para incluírem a preservação das áreas marinhas e costeiras nas suas metas voluntárias para o clima, as chamadas NDCs. Também ocorreu o anúncio do Pacote Azul, uma espécie de portifólio de soluções para o oceano já em curso em todo o mundo, em áreas como gestão de resíduos, pesca sustentável e restauração ambiental, a fim de monitorar e acelerar sua implementação.

Questões relacionadas ao oceano também foram pautadas pelo conselho científico da COP30 e em espaços como o Pavilhão da Ciência Planetária e o Pavilhão do Oceano, na Zona Azul – que recebe os participantes credenciados.

Dentro das salas de negociação, o esforço pode não ter obtido os resultados esperados, visto que o oceano foi timidamente citado no documento final – a Decisão Mutirão. Mas o jornalismo notou o tema ao longo da Conferência, ainda que em coberturas pontuais. Verificamos esse interesse através da pesquisa, no Google Notícias, pelos termos “oceano” + “COP30” publicadas entre 6 e 27 de novembro.

A atuação de uma enviada especial para o oceano foi notícia em sites como Agência Brasil, Um Só Planeta, Envolverde e Repórter Brasil. Este, aliás, foi um dos poucos veículos que apresentou algum tipo de continuidade na cobertura sobre o tema, publicando matérias de Vinícius Konchinski. A primeira aborda a ausência de discussões sobre o plástico na agenda da COP30 – muito embora uma reação coordenada dos países sobre a questão tenha sido frustrada também em agosto deste ano com a suspensão das negociações sobre um tratado internacional contra a poluição plástica.

Já a reportagem seguinte traz um balanço final de especialistas sobre o avanço da pauta na COP30. A enviada especial Marinez Scherer avalia que esta edição foi um ponto de virada para o oceano por conta da Força-Tarefa Oceânica e do Pacote Azul. Já o professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo Alexander Turra considerou frustrantes os diversos debates sobre oceano na Conferência não estarem contemplados na declaração final. O Portal NeoMondo, por sua vez, publicou boletins diários do professor sobre sua participação na Conferência.

Publicada antes do encerramento da COP30, em 21 de novembro, a reportagem de Herton Escobar para o Jornal da USP também relatou a expectativa dos especialistas em relação ao tema, mas ainda em um tom mais otimista, em que os entrevistados destacam a edição de Belém como uma arena fundamental para visibilizar a contribuição do oceano no combate às mudanças climáticas. 

Já veículos da imprensa hegemônica, como UOL e O Globo, repercutiram sobretudo as cifras que envolvem o Pacote Azul, antecipado por reportagem de Jéssica Maes para a Folha de S.Paulo em 6 de novembro. O documento prevê investimentos de ao menos 116 bilhões de dólares nos eixos conservação, alimentos, energia renovável, transporte e turismo.

Embora não apareçam nos resultados da pesquisa no Google Notícias, destacamos, ainda, a cobertura de outros veículos que, como Repórter Brasil, integraram a iniciativa da Casa do Jornalismo Socioambiental, na qual mais de 20 iniciativas de jornalismo independente de todo o Brasil organizaram sua cobertura e a publicação conjunta de conteúdos produzidos pelas equipes.

Alice Martins Morais, do Amazônia Vox, conversou com o representante de Tuvalu na COP30, um arquipélago no Oceano Pacífico que corre o risco de desaparecer por conta do aumento do nível do mar. Já Meghie Rodrigues e Chloé Pinheiro, do podcast Ciência Suja e da newsletter Polígono, conversaram com as cientistas Marina Hirota e Regina Rodrigues (UFSC) sobre o papel da ciência na COP. As convidadas abordaram o papel do corpo de cientistas fornecendo e organizando as evidências disponibilizadas aos tomadores de decisão – e mencionam perdas irreversíveis relacionadas ao oceano e ocasionadas pelo aquecimento global, como o branqueamento de corais e o colapso da corrente marítima AMOC, que regula a temperatura climática global.

Sabemos que o aquecimento das águas do oceano está relacionado à maior recorrência e intensidade de eventos climáticos extremos, como ciclones e furacões, além de causar erosão costeira, aumento do nível do mar e impacto direto em atividades produtivas como pesca e turismo. Por isso, é fundamental que não somente sua participação cresça nas próximas decisões multilaterais sobre o meio ambiente, mas que a imprensa siga acompanhando o tema de forma constante e transversal.

Para sensibilizar a população sobre a importância do oceano e gerar mobilizações sociais que alcancem os tomadores de decisão, um caminho incontornável é conectar questões ambientais como a degradação das águas e dos ecossistemas que nela vivem a temas cotidianos dos campos político, econômico e cultural. Como discurso que orienta o olhar coletivo, o jornalismo é essencial nesse processo.

*Jornalista, doutora em comunicação, integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental UFRGS/CNPq e da Rede Ressoa Oceano, pela qual acompanhou a COP30 em Belém.