Voo químico sobre vidas humanas em Nova Santa Rita

Por Sérgio Pereira*

Poucos dias após conquistarem uma liminar na Justiça Federal, produtores de orgânicos da pequena Nova Santa Rita (RS) ficaram surpresos ao avistarem uma aeronave sobrevoando as suas casas. Afinal, o recurso judicial justamente impedia a aplicação aérea de agrotóxicos em propriedades vizinhas devido à contaminação de seus cultivos pela chamada deriva (quando a aplicação de herbicida é levada pelo vento para fora do local desejado e atinge outras áreas). O mais surpreendente foi que o bimotor começou a dar rasantes sobre o assentamento Santa Rita de Cássia II do MST, pulverizando plantações, moradias, estufas e pessoas.
O caso, ocorrido no dia 16 de março, resultou em um boletim de ocorrência na Polícia Civil e em diversos atendimentos em uma unidade básica de saúde próxima. Produtores e familiares relataram que sentiram sintomas como náuseas, irritação nas vias respiratórias e dores de cabeça após terem inalado o produto liberado do avião. Além do prejuízo financeiro com o despejo de veneno sobre as plantações de orgânicos.
Na semana passada, a informação era que a Polícia Federal, a partir de um pedido do Ministério Público Federal, deve investigar a denúncia, que se confirmada revelará, na verdade, não apenas um crime, mas também uma estratégia revoltante nesta guerra entre grandes produtores e pequenos agricultores de orgânicos: o uso deliberado de pesticida como arma química sobre vidas humanas.
A notícia de Nova Santa Rita, divulgada dois dias depois do ocorrido no site do MST, não teve o mesmo interesse por parte da imprensa gaúcha, apesar de envolver a aplicação de veneno diretamente sobre as casas do assentamento e pelos casos de intoxicação, cujas consequências à saúde poderiam ser mais graves. O jornal Correio do Povo, por exemplo, ignorou a denúncia em suas versões impressa e digital.
Zero Hora, o jornal de maior repercussão no Estado, também não deu espaços para a notícia em sua versão on-line. Já em sua edição impressa, publicou na coluna de agronegócio um tópico na edição conjunta de 20 e 21 de março, cinco dias após o ocorrido e com o título genérico “Pulverização em área de orgânicos”. A nota apresenta como fonte o advogado das famílias de assentados e deixa a entender apenas que houve o descumprimento da liminar deferida pela Justiça Federal.
Na edição seguinte, no entanto, ZH abriu espaço idêntico para a manifestação dos acusados. O texto “Pulverização em Nova Santa Rita” traz a versão apresentada pelo advogado dos grandes produtores. Em sua defesa, eles alegam que o bimotor era usado somente para treinamento e negam a aplicações de pesticidas diretamente sobre o Santa Rita de Cássia II.
O jornal Diário de Canoas, que cobre o município de Nova Santa Rita, publicou em seu site uma notícia mais aprofundada no dia 22: “PC investiga avião que pulverizou agrotóxicos de forma irregular”. As fontes citadas eram a prefeita do município, um delegado de Polícia e um diretor do sindicato que representa as empresas de aviação agrícola. Nenhum agricultor do assentamento foi ouvido. Dois dias depois, o mesmo DC abriu página de sua versão impressa com o título “Não existem provas de pulverização irregular”, novamente sem citar declarações das vítimas e dando amplo espaço para o advogado dos acusados e o sindicato das empresas de aviação. A mesma notícia também foi postada no site do DC no mesmo dia.


O melhor exemplo de cobertura por parte da imprensa foi do site do jornal Extra Classe, ligado ao Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) e de circulação restrita. Dois dias após o ataque, o portal já denunciava o caso, ouvindo os agricultores e seu advogado e trazendo o seguinte título: “Aeronave clandestina pulveriza veneno sobre assentamento do MST em Nova Santa Rita”.
Os grandes veículos de imprensa em geral reservam sua cobertura rural para o modelo do chamado agribussines, desviando de temas considerados polêmicos e abrindo generosos espaços somente após tragédias de grande repercussão. Lamentável, no entanto, é terem desconsiderado o risco às vidas humanas envolvidas neste caso de Nova Santa Rita e não buscarem uma cobertura menos superficial e mais próxima da verdade.

  • Jornalista, mestrando em Comunicação e Informação. E-mail: spimprensa@gmail.com

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