Observatório de Jornalismo Ambiental

A crise climática precisa ouvir quem herda o planeta: As crianças!

Por Carine Massierer*

Se as crianças são o futuro do nosso país e seguem sendo educadas desconectadas da natureza, desvinculadas das matérias primas naturais e não conhecendo os processos de produção, como exigir delas uma conexão para a preservação ambiental? Em paralelo, a midiatização acaba por promover o distanciamento das relações sociais e cada vez mais temos a informação vinculada ao que as mídias virtuais nos entregam.

E o que tudo isso tem a ver com a COP 30? Se o futuro do Brasil e das crianças não está na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, onde ele pode estar?

Em 11 dias o Brasil comemorou ser sede dos 30 anos da COP em uma edição especial por acontecer na Amazônia, destacando a importância da floresta para o clima global e por reunir contribuições de mais de 600 crianças de 12 países e quatro continentes, reforçando a urgência de incluir as novas gerações nas decisões climáticas. Representando o Rio Grande do Sul, o município de Estância Velha se fez presente, por meio de uma carta de sugestões com ações de combate aos problemas causados pelo fator climático.

Além do movimento infantil, Unicef e outras entidades representativas e ONGs, como o Instituto Alana, movimentaram os espaços de debate na Conferência e também as mídias virtuais para chamar a atenção dos governantes e da Imprensa.

A imprensa não ficou de fora: o Correio Braziliense, Agência Brasil,  O Globo, CNN Brasil, TVT News, G1, Band, Folha de São Paulo. Todos estes veículos noticiaram esta edição da Conferência como a mais significativa no que se refere a manifestação pública pela necessidade de garantia de direitos às crianças frente aos agravamentos das vulnerabilidades em contextos de emergências climáticas.

No entanto, a matéria da Folha de São Paulo mostra o contraponto dos demais textos, apresentando a manifestação de ONGs que lutam pela cidadania das pessoas mais vulneráveis. As crianças estão entre as principais vítimas, de acordo com estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que alerta para o fato de que seis de cada dez crianças brasileiras já sofrem os impactos das mudanças climáticas.

Segundo as fontes do texto da Folha, dos 50 mil credenciados na COP 30, apenas 100 eram crianças e adolescentes que estavam presentes por força da sociedade civil. Isso descortina o fato de que se as crianças estão entre as principais vítimas das emergências e precisam ser prioridade neste debate. 

Assim, a COP 30 além de ser o evento mais importante destas duas semanas no Brasil e de ter a imprensa reverberando de alguma forma a presença das infâncias, os governantes precisam refletir e agir rapidamente fazendo com que as políticas públicas e a educação deste país estejam preparadas para as emergências climáticas.

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Uma semana e muitos impasses: a cobertura da imprensa sobre as negociações da COP-30

Por Alice Balbé* e Caroline Garcia**

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-30, terminou e tem repercutido na cobertura midiática pela falta de consenso sobre as pautas principais e pela aguardada conclusão das negociações políticas. As discussões na primeira COP no Brasil seguem em Belém, no Pará, até o dia 21 de novembro de 2025.

A luta contra os combustíveis fósseis e o financiamento climático têm sido um dos principais desafios nas negociações das COPs. Os principais impasses estão em torno do financiamento climático robusto, da adaptação, da eliminação dos combustíveis fósseis e da transparência nas metas nacionais (NDCs). A CBN caracterizou a primeira semana como de “avanços mínimos e pressão”, a BBC Brasil como um “cabo de guerra” entre custeio e investimento no petróleo e o Estadão como “morna”. A Folha de SP destacou o clima de tensão política, a tentativa brasileira de assumir protagonismo e a busca por novas estratégias para destravar negociações em temas sensíveis ao futuro da governança climática global.

Já a Reuters explicou o processo de discussões que exige consenso entre os 194 países envolvidos e descreveu que um dos impasses para os acordos é o próprio modelo de votação. Lembrando que um dos acordos para “eliminar gradualmente” o uso global de carvão foi diluído após uma objeção de última hora da Índia na COP-26, em Glasgow, em 2021. No entanto, discutir mudanças na estrutura das negociações pode comprometer ainda mais as tentativas de acordos, que já lidam com políticas anti-clima, como dos Estados Unidos, que não enviaram delegados à COP-30. 

O Colabora destacou os ineditismos e o protagonismo no Brasil, com a promessa do “Mapa do Caminho”, que segue fora da agenda principal, mas em negociações, e com a aprovação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês). Também houve destaque para o tema da desinformação ter entrado na agenda e para a mobilização social com o protagonismo indígena sem precedentes. 

A inclusão da desinformação na agenda oficial refletiu uma preocupação inédita. Seguindo uma tendência de grande volume de publicações nas redes sociais nos primeiros dias da COP (Balbé; Carvalho, 2017) e diante do desafio de enfrentar desinformação, foi realizado um monitoramento nas redes sociais TikTok, Instagram e X. O jornal GLOBO revelou que, só no primeiro dia do evento, mais de 1.114 postagens foram classificadas como falsas. Os dados mostram que esses conteúdos foram publicados por perfis de oposição ao governo, contendo informações falsas, descontextualizadas e imagens manipuladas. Esses dados reforçam a importância do lançamento da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima liderada pelo Brasil e que, por enquanto, conta com a assinatura de 11 países e visa trazer uma resposta institucional ao impacto da desinformação em contextos climáticos.

A COP-30 tem a maior participação de povos originários em três décadas de conferências do clima, resultado de uma articulação inédita com o governo federal. Dados da Agência Brasil destacam o feito: cerca de 400 representantes indígenas atuam credenciados nas salas de negociação oficial, enquanto uma aldeia montada em Belém reúne aproximadamente 3 mil pessoas de etnias do Brasil, de outras regiões da América Latina e de comunidades tradicionais da África e Ásia. 

Por outro lado, é um duplo momento dos povos originários: a participação inédita e a luta contínua por mais voz. Nas ruas, apelos pela demarcação de terras e denúncias sobre o avanço do garimpo ilegal na Amazônia, como repercutiu o jornal O Povo. Essas manifestações representam uma retomada do espaço de protesto público, após duas edições de COP realizadas em países com fortes restrições à mobilização civil no Egito (COP-27) e Emirados Árabes (COP-28).

Além das pautas políticas, questões logísticas também ganharam destaque. A CNN Brasil repercutiu críticas à organização do evento, incluindo falhas de segurança, no abastecimento de água nos banheiros e problemas de refrigeração nos pavilhões. O incômodo gerado entre a sociedade civil foi tal que a ONU chegou a enviar uma carta ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, criticando a estrutura e exigindo ajustes imediatos, uma medida incomum por parte da organização.

De forma geral, a cobertura trouxe um misto de “primeiros passos” dados e de expectativa para as reuniões políticas que se iniciam esta semana. Qual será o protagonismo que o Brasil quer assumir? Qual será o legado da primeira COP na Amazônia?

*Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

**Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista de iniciação à popularização da ciência no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq). E-mail: carol.diasgarcias@gmail.com

Referência:

BALBÉ, A. D.; CARVALHO, A. (2017). As mudanças climáticas no Twitter: a ascendência da mídia e da política. Desenvolvimento E Meio Ambiente, 40. https://doi.org/10.5380/dma.v40i0.49047

Dez anos de um jornalismo incapaz de compreender o legado nefasto da mineração

Por Karina Gomes Barbosa*

No último dia 5 de novembro, Mariana relembrou os 10 anos do rompimento da barragem de Fundão. O desastre-crime matou 19 pessoas, provocou um aborto, destruiu comunidades tradicionais em Minas Gerais e devastou o Rio Doce até a foz, no Espírito Santo. Aqui, do epicentro do crime das mineradoras Samarco, Vale e BHP, considerado o pior desastre socioambiental da história do país, vemos esta década de forma ambígua e amarga.

De um lado, as comunidades atingidas conseguiram – e conseguem – vitórias inegáveis, graças a uma mobilização incansável ainda que sem direito a integrar as mesas decisórias da reparação desde 2015. Entre essas conquistas estão o direito à Assessoria Técnica Independente (ATI), em 2016, e a promessa de melhores condições de saúde com a construção de um hospital universitário em Mariana, neste ano. Na última sexta-feira, 14, a anglo-australiana BHP foi condenada nos tribunais ingleses pelo colapso da barragem de rejeitos.

Do outro, porém, são 10 anos de lutas desiguais, contra corporações minerárias transnacionais que emperram o andamento das ações judiciais no Brasil (foram absolvidas das acusações criminais, junto com os principais executivos e as empresas que atestaram a segurança da estrutura); contra ações de reparação sem escuta ativa e sem respeitar as necessidades e desejos das pessoas atingidas; contra preconceitos; e contra a invisibilidade.

Um dos espaços onde essa falta de presença se dá com mais força é o jornalismo. De 2015 para cá, houve mudanças perceptíveis na cobertura. Aquilo que num primeiro momento se configurou quase como um assédio a pessoas em choque, traumatizadas, incapazes de elaborar aquilo por que haviam passado, aos poucos se transformou numa escrita jornalística fria, distante.

Por anos, os temas relacionados a Fundão que emergiam na imprensa nacional diziam respeito às ações judiciais, aos desdobramentos nas investigações criminais e aos anúncios feitos pela Renova, entidade criada para, supostamente, gerenciar a reparação, e que sempre foi controlada pelas antigas rés do crime, dissolvida em 2025 porque não cumpriu suas obrigações.

Uma cobertura mais humanizada aparecia apenas nas efemérides, e nem em todas elas, quando veículos do país inteiro vinham dar conta do que estava ocorrendo aqui com as pessoas e comunidades atingidas, ou em veículos independentes ou laboratoriais produzidos no curso de Jornalismo da UFOP. Nos últimos anos, nem isso. Muitos veículos, inclusive mineiros, usaram material produzido pela Agência Brasil para não terem de se deslocar a Mariana.

Aos poucos o cenário vem se transformando, modesta e sazonalmente. Alguns veículos ampliaram, em certa medida, o olhar sobre o crime de 2015, trazendo temas caros às pessoas atingidas, como a violação cotidiana de direitos e os problemas de saúde decorrentes da catástrofe socioambiental. Essa presença mais constante, de uma abordagem menos emotiva e mais focada na perspectiva da luta e dos direitos humanos, modificou inclusive a relação de muitos e muitas atingidas com a imprensa: de desconfiança absoluta a uma atitude mais colaborativa com aqueles que mostravam as angulações para poderem ser atendidos por quem tem uma agenda de luta sem tréguas.

Em 2025, essa mudança ficou perceptível. Fundão já havia voltado aos holofotes desde junho, quando o presidente Lula e uma caravana de ministros estiveram em Mariana para anunciar um controverso acordo de repactuação – uma revisão dos termos da reparação assinada em 2016 –, elaborado mais uma vez sem a presença ou sequer uma escuta responsável e comprometida de atingidos e atingidas. Em novembro, a cobertura, de modo geral, foi respeitosa e buscou equilibrar as dimensões econômicas, jurídicas, socioambientais e o aspecto humano.

Contudo, uma ausência notável permanece e se perpetua, como miopia ou dificuldade de o jornalismo olhar para os acontecimentos com uma perspectiva sistêmica. Pouco ou nada se fala da conexão entre a exploração minerária predatória e a emergência climática. Os efeitos da extração de minerais são visíveis a olho nu, todos os dias, e obviamente cobram sua conta para a cidade, a bacia hidrográfica, o país, o planeta. Parece que mais uma vez, após mais de dois séculos, o minério consegue se esconder de sua responsabilidade sobre a devastação socioambiental do mundo.

Aqui em Mariana, a exploração protagonizada por Samarco, Vale, BHP, Cedro e, em breve, Cidreira – fora a moda das mini minas como a Patrimônio Mineração, na comunidade do Botafogo, em Ouro Preto – prevê o uso de uma quantidade abissal de água, jamais claramente apurada, inclusive para assentar o pó das atividades. Curiosamente, as duas cidades sofrem com falta d’água, a despeito de estarem rodeadas de nascentes.

A poeira que chega à zona urbana leva a diversos problemas respiratórios e de pele e a uma sobrecarga do sistema de saúde. Os serviços de saúde não são os únicos onerados. Mariana enfrenta problemas de saneamento básico e coleta de lixo, devido ao excesso populacional trazido pelos trabalhadores da mineração, além de aluguéis e comida inflacionados. O fluxo de ônibus de transporte de funcionários e de caminhões, alguns de carroceria tripla para transportar máquinas de ficção científica, geram poluição sonora, engarrafamentos, danos abundantes ao asfalto e, óbvio, emissão de gases poluidores.

Uma caminhada nas proximidades das barragens (agora, dizem, em descomissionamento) e pelas áreas de extração exibe a face mais explícita dos danos: o que eram montanhas e morros repletos de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado vão se tornando aos poucos zonas áridas, terrosas, terra arrasada. O reflorestamento parece uma eterna promessa que não se cumpre, porque a expropriação nunca tem fim.

Se vemos grandes reportagens apontando o desmatamento na Amazônia e o garimpo ilegal como vilões das mudanças climáticas, corporações como a Vale surgem como empresas comprometidas com a mineração verde – enquanto transformam a comunidade de Antônio Pereira em cenário de filme de terror em tons avermelhados. Isso sem falar que a zona rural de Mariana e todas essa outras localidades não existem para a mídia.

Quem já ouviu falar de Campinas, Pedras, Ponte do Gama, Águas Claras, ou até mesmo de Paracatu de Baixo e Gesteira, dois subdistritos arrastados, como foi Bento Rodrigues?

Andando um pouco mais, quem, num raio de menos de 100 km de Mariana, já leu ou escutou o nome de Socorro, distrito de Barão de Cocais que guarda semelhanças profundas históricas e demográficas com Bento Rodrigues, mas que carrega o estigma de não ter entrado para a história como terra arrasada, já que lá a barragem da Vale não rompeu, mas expulsou as pessoas de sua tricentenária comunidade desde 2019?

Os impactos imediatos e futuros gerados pelas mineradoras em pequenas cidades de 60, 80 mil habitantes (o IBGE não considera a população flutuante minerária) são desconsiderados pelo jornalismo, que parece não conectar a criação de diversas Marianas, Brumadinhos, Itabiras pelo país com os regimes de chuva irregulares, às tempestades que desalojam populações em vulnerabilidade, às ondas de calor que se multiplicam a cada ano, a secas inclementes, ao desaparecimento de áreas verdes, à morte de nascentes.

São cidades pequenas, desimportantes no cenário geral, parece. Cujos modos de vida esmagados pela mineração não têm noticiabilidade suficiente. A mineração legalizada, chancelada por ANM, MME e tantas siglas governamentais, tem credibilidade para dizer que não polui, mitiga, repara, refloresta, recompõe, devolve o que tirou, ao mesmo tempo que submete comunidades a processos de terrorismo de barragens, chantagens financeiras, violências e incertezas.

Enquanto isso, a Samarco começa um processo de expansão chamado Longo Prazo, com o objetivo de ampliar em 100% a capacidade de extração até 2042. Mais uma vez, o jornalismo parece dar pouca atenção à perspectiva distópica que se avizinha sobre a região, onde nasceu Minas Gerais graças ao ouro e que vive sob a maldição/dádiva do minério desde então.

A cegueira do jornalismo ante a essa conexão flagrante vai custar caro, como já custou em 2015, 2019 e ao longo da história mineira. Quando nossos pequenos problemas explodirem na foz de um rio, quando nossos pequenos danos se tornarem 272 mortos, quando nossas pequenas minas contribuírem para o fracasso do país com as metas de qualquer COP, eles serão novamente noticiados, com surpresa, horror e, provavelmente, a mesma incompreensão estrutural.

A autora agradece a André Luís Carvalho pela leitura e pelas contribuições.

* Professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), convidada por este Observatório em razão de seus estudos que envolvem o desastre-crime que completou recentemente dez anos. E-mail: karina.barbosa@gmail.com.

Rio Bonito do Iguaçu: quando um evento extremo é noticiado sem raízes

Por Eutalita Bezerra*

O Sul do Brasil enfrenta um novo episódio de destruição: mal se recupera das enchentes, agora lida com os danos causados por nova tempestade severa. Se na enxurrada o principal atingido foi o Rio Grande do Sul, desta vez, ainda que o estado gaúcho também tenha sido impactado pela tempestade, a destruição se abateu mais fortemente sobre Santa Catarina e Paraná. O primeiro foi afetado por pelo menos três tornados durante a onda de chuvas ocorrida no último dia 7. Já o segundo contou um dos mais intensos tornados registrados no planeta neste ano, com ventos de até 330 km/h, conforme a Metsul Meteorologia e os governos estaduais. O fenômeno dizimou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, que teve 90% dos imóveis danificados ou totalmente destruídos.

Para esta análise, buscamos entender a forma que os veículos de comunicação se debruçaram sobre a questão, na fase de rescaldo. Tomamos como foco o Paraná, considerando a repercussão mais significativa, dada a singularidade do fenômeno. Optamos por utilizar o ChatGPT como ferramenta de busca**. Valemo-nos do seguinte prompt: “Na ultima sexta-feira (7), o Paraná foi atingido por uma tempestade severa e por tornados. Me indique links de veículos jornalísticos com presença digital consolidada que tenham divulgado essa notícia.”. A pesquisa inicial retornou sete links, entre veículos brasileiros e estrangeiros (Associated Press, India Times e El Pais), dos quais um, o da AP News, apareceu duas vezes. Um dos textos foi descartado por não se tratar de veículo reconhecidamente jornalístico, embora produza notícias: o Climatempo. 

Chegamos à publicação da CNN Brasil, “Tornado no Paraná deixa ao menos 1.000 pessoas desalojadas”, veiculada em 8 de novembro. As fontes ouvidas foram o Governo do Paraná e a Coordenadoria Estadual da Defesa Civil, mas há citação direta apenas do governador. O texto inicia contabilizando as perdas verificadas até aquele dia. Também relaciona as ações emergenciais do Governo do Paraná, citando abrigos e estruturas montadas para alimentação, triagem e encaminhamento dos afetados. Apresenta-se o número de mortos e feridos. De forma educativa, a repórter também diferencia “desabrigados” e “desalojados”. A publicação é finalizada com hiperlinks para uma reportagem sobre a classificação do tornado e outra metodológica, explicando como a categorização é feita. 

Ao longo do texto, outras hiperligações também são disponibilizadas, quais sejam: para publicação sobre luto oficial de três dias no estado, para pronunciamento do secretário de saúde citando “cenário de guerra” após tornado e para entrevista do governador, segundo o qual esta seria uma catástrofe sem precedentes na história do Paraná. Na mesma publicação também há uma subdivisão chamada “Leia mais”, que direciona para outras três publicações: “Veja quem são os mortos na catástrofe”, “Passagem de três tornados causa destruição no Oeste de Santa Catarina” e “O que é um ciclone extratropical? Saiba o que fazer durante uma tempestade”.

A segunda publicação disponibilizada pela ferramenta de busca foi da Agência Brasil, “Tornado destrói 90% de Rio Bonito do Iguaçu (PR) e causa seis mortes”, também do dia 8. A publicação tem como foco a cidade mais afetada, com imagens da destruição, citando dados de Defesa Civil, Governo do Paraná e Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar). Do mesmo modo que no texto anterior, citações diretas apenas do governador Ratinho Júnior, que fala sobre as ações emergenciais e que os estudos sobre a força do fenômeno ainda estavam em andamento. A publicação é finalizada com duas matérias relacionadas: Ciclone causa destruição, deixa 4 mortos e 400 feridos no Paraná e outra de alerta para ciclone em São Paulo na mesma data

O ChatGPT retornou, ainda, a publicação do The Times of India, veiculada em 9 de novembro, intitulada “Video: Moment tornado hit Brazil’s Parana; six killed hudreds injured”. Além de descrever o evento climático, a matéria trouxe vídeo do momento em que o tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu, replicado do perfil “WeatherMonitors” no X, antigo Twitter. Também se referiu a imagens aéreas que demonstraram o estrago deixado pelo tornado, embora não as tenha mostrado. Como fontes, foram citadas a Al Jazeera; o Governador do Paraná e o Presidente da República.

A Associated Press publicou que “Powerful tornado in Brazil kills 6 people and injures hundreds more”. De forma bastante breve, a publicação descreveu brevemente o fato, sem contextualizá-lo, e referiu-se ao luto oficial e à expressão de solidariedade do Presidente Lula. Embora cite “autoridades estaduais” para descrever a situação naquele momento, não especifica quem foi o emissor da informação.

Com efeito, entendemos que a ferramenta nos permitiu um panorama breve, mas indicativo de como tem se dado a cobertura sobre eventos climáticos extremos: a abordagem apressada de desastres que pedem profundidade.  Quando o jornalismo se limita a contabilizar perdas sem explicar causas, contextos ou conexões, ele se distancia de sua função social mais profunda: a de ajudar o público a compreender, e não apenas a lamentar, o que o vento levou.

Nenhuma das publicações contextualizou o fato, classificou como evento extremo ou localizou Rio Bonito do Iguaçu no mapa ambiental. Aqui o fazemos: a cidade, ao longo dos anos, foi transformada pelo desmatamento, colocando-se como o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica entre 1985 e 2015, segundo a ONG SOS Mata Atlântica. De acordo com publicação da BBC , ainda em 2021, até aquele momento já haviam sido destruídos 24,9 mil hectares de floresta no município. Eis a reflexão e, por que não, a sugestão de pauta.

*Eutalita Bezerra é jornalista, doutora em Comunicação e Informação e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

**Por ser a primeira utilização deste formato de busca no Observatório, optei por descrevê-la mais aprofundadamente nesta nota. A opção deveu-se à experimentação: consideramos estudos recentes que demonstram uma incipiente mudança no comportamento de usuários que migram de buscadores tradicionais para ferramentas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT (Tibau, Siqueira e Nunes, 2024; Reuters, 2025). Também questionamos, na oportunidade, a ferramenta, a fim de verificar os critérios para a indicação de tais links. Segundo o ChatGPT, observou-se o critério de relevância jornalística (Histórico de produção noticiosa contínua, independência editorial e registro formal como empresa de mídia, equipe de redação identificável e canais oficiais); presença digital consolidada (domínio verificado, SEO e histórico indexado pelo Google Notícias, política de correção ou contato editorial visível no site); variedade geográfica e editorial.

“O agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora

Por Jéssica Thaís Hemsing* e Cláudia Herte de Moraes**

A COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial. Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.

Falar em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.

O que não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.

O jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira, representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.

O portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30. Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”,  “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o projeto Ferrogrão) trazidos como  “salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”, retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.

Enquanto isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024, foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela agroecologia e pela proteção ambiental.

Mesmo diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo, que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.

De um lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às futuras gerações?

*Jéssica Thaís Hemsing é graduanda em Jornalismo na UFSM e bolsista do PET Educom Clima. E-mail: jessica.thais@acad.ufsm.br

**Cláudia Herte de Moraes é Jornalista e Doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

Plantando tecnologia, colhendo silêncio: o enquadramento do agronegócio como herói climático no Jornal Nacional

Por Gabriella de Barros*

Embora amplamente tratado como pilar da economia e solução para os desafios climáticos, o agronegócio brasileiro é também um dos principais agentes de pressão sobre o meio ambiente. Sua centralidade nas narrativas econômicas e políticas revela mais sobre as estratégias de legitimação do setor do que sobre sua contribuição real à sustentabilidade. É também um dos setores mais associados às mudanças climáticas, seja pelo desmatamento, pelas emissões de gases de efeito estufa ou pelo uso intensivo de agrotóxicos e tecnologias que comprometem a saúde do solo e da alimentação.

Esta análise do Observatório de Jornalismo Ambiental concentra-se no primeiro episódio da série sobre como o agronegócio está enfrentando os efeitos das mudanças climáticas. A reportagem é dedicada à produção de arroz e feijão, principais alimentos da dieta brasileira. Para evidenciar como a cobertura do JN é voltada à defesa do agronegócio, utilizou-se uma reportagem publicada pelo portal O Joio e o Trigo, sobre como a temática pode ser noticiada.

A narrativa televisiva constrói-se a partir de exemplos como o de Santa Maria (RS), onde um produtor busca alternativas para o plantio do arroz diante da mudança no regime climático. O programa apresenta dados sobre a redução de produtividade quando o plantio ocorre fora da “janela ideal” (após 15 de novembro), destacando o impacto econômico do atraso para produtores e para o abastecimento interno.

Apesar de abordar o tema sob a ótica da adaptação, a reportagem reproduz um enquadramento tradicional do telejornalismo agroindustrial, concentrando-se em grandes produtores e em fontes institucionais, como a Embrapa e o Instituto Rio Grandense do Arroz (IRGA). O foco recai sobre a tecnologia e a eficiência produtiva como soluções para a crise climática, sem problematizar o modelo de produção.

O problema desse enquadramento é que o discurso sobre as mudanças climáticas é reduzido a um vocabulário técnico e globalizante, à elevação média de temperatura, que é o limite de 1,5° C, aos impactos previstos pelos relatórios do IPCC, dissociando a crise ambiental de suas causas estruturais e territoriais. Essa narrativa supostamente isenta, naturaliza o papel do agronegócio como parte da solução, em vez de mostrar a sua real e gigantesca parcela de pressão sobre todos os ecossistemas do país.

A ausência de perspectivas da agricultura familiar é notável, justamente o segmento que mais contribui para o abastecimento alimentar interno; portanto, uma contradição na abordagem do JN. Ao passo que a reportagem reforça a ideia de que o agronegócio representa o campo brasileiro em sua totalidade, silencia as desigualdades estruturais entre a produção voltada à exportação, e também, a agricultura familiar, que é destinada ao consumo nacional. Ao dar espaço apenas a grandes produtores e especialistas institucionais, o Jornal Nacional silencia outras narrativas possíveis e mantém o discurso hegemônico de que a modernização tecnológica seja suficiente para enfrentar as mudanças climáticas.

Em contraste, a cobertura do site O Joio e O Trigo, sobre a produção de arroz no Rio Grande do Sul, adota um enquadramento analítico e interpretativo, privilegiando múltiplos atores, especialmente agricultores familiares e médios produtores. A reportagem não se restringe a aspectos econômicos ou tecnológicos, mas examina a cadeia produtiva do arroz em suas dimensões estruturais, políticas e sociais, abordando a dependência dos produtores em relação à indústria, às relações de poder e às consequências das políticas agrícolas.

A abordagem de O Joio e O Trigo é mais complexa e humanizada porque apresenta histórias concretas de agricultores, contextualiza com dados econômicos, históricos e ambientais, e permite que se possa compreender quem ganha e quem perde dentro do sistema agroalimentar. Há uma dimensão crítica e explicativa, que busca responsabilizar atores e revelar contradições, uma perspectiva ausente na narrativa televisiva do Jornal Nacional.

Enquanto o Jornal Nacional opta por uma narrativa tecnicista e economicista, ancorada na ideia de progresso e inovação, o portal adota uma abordagem de jornalismo explicativo e contextualizado. Pois, ao analisar as causas estruturais do problema e situar a crise climática dentro das contradições do modelo agroalimentar brasileiro, evidencia a concentração de renda, a dependência tecnológica e a vulnerabilidade humana crescente à crise climática.

A comparação entre o Jornal Nacional e O Joio e O Trigo revela dois modos distintos de reportar o mesmo tema. O telejornal reforça o discurso dominante que apresenta o agronegócio como símbolo de modernização e eficiência, recorrendo a uma narrativa que associa tecnologia à ideia de sustentabilidade e apaga os impactos socioambientais do setor. Já o portal independente amplia o debate, evidenciando as contradições estruturais do sistema agroalimentar brasileiro, suas desigualdades fundiárias e os limites ambientais do modelo produtivista. Essa diferença de enquadramento evidencia como o jornalismo pode ou não, contribuir para uma compreensão crítica das relações entre agricultura, clima, sociedade e suas responsabilidades diante da emergência climática. 

*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI). 

Referências

GLOBO. Série especial do JN mostra como o agronegócio brasileiro está enfrentando as mudanças climáticas. Rio de Janeiro: TV Globo, 06 out. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/10/06/serie-especial-do-jn-mostra-como-o-agronegocio-brasileiro-esta-enfrentando-as-mudancas-climaticas.ghtml. Acesso em: 31 out. 2025.

NAÇÕES UNIDAS. Agricultura e usos do solo representam 23% das emissões de gases do efeito estufa, diz ONU. Brasília: ONU Brasil, 08 ago. 2019. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83925-agricultura-e-usos-do-solo-representam-23-das-emiss%C3%B5es-de-gases-do-efeito-estufa-diz-onu. Acesso em: 31 out. 2025.

FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Farms and forests can fight climate change. Roma: FAO, 04 dez. 2008. Disponível em: https://www.fao.org/newsroom/detail/Farms-and-forests-can-fight-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Special Report: Global Warming of 1.5°C. Geneva: IPCC, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/sr15/ . Acesso em: 31 out. 2025.

INSTITUTE FOR ENVIRONMENTAL RESEARCH & EDUCATION (IERE). How is agriculture affecting climate change? Vashon: IERE, jan. 2025. Disponível em: https://iere.org/how-is-agriculture-affecting-climate-change/. Acesso em: 31 out. 2025.

O JOIO E O TRIGO. Xadrez do arroz: quem são os reis, quem são os peões? São Paulo: O Joio e o Trigo, 2020. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2020/10/xadrez-do-arroz-quem-sao-os-reis-quem-sao-peoes/. Acesso em: 31 out. 2025.

A importância da cobertura crítica do jornalismo não hegemônico na COP-30

Por Josemari Quevedo* e Fernanda Vargas**

Assuntos latentes nas discussões que circundam a COP-30, a começar no próximo dia 11 em Belém do Pará, como a exploração de petróleo na Amazônia, são temas que, por vezes, perpetuam-se apenas em discussões ambientadas nesses espaços formais. Entretanto, a popularização destas pautas ambientais e climáticas são essenciais e intrinsecamente ligadas à formulação de uma agenda justa e eficaz acerca de ações de adaptação e mitigação.   

Tendo em vista a relevância da COP-30, um dos eventos mais importantes que guiam as tomadas de decisões acerca do clima e do ambiente no âmbito global, é pertinente avaliar quais são os veículos que estão tratando destes assuntos de forma aprofundada e crítica.

É a partir da cobertura realizada pela mídia não hegemônica que a população pode entrar em contato com olhares mais criteriosos sobre o que representa, no caso em questão, a autorização pelo governo federal à exploração de petróleo em uma região estratégica ao equilíbrio climático e por sediar a COP 30. 

O jornalismo não hegemônico, também denominado de alternativo, contra hegemônico, independente, de oposição, se refere às práticas jornalísticas de meios com posição comprometida e engajada com o “combate à injustiça social, sendo, muitas vezes, fortemente relacionado com os movimentos sociais, com escala de influência mais limitada na sociedade, estrutura econômica mais instável e, na maioria das vezes, atuando sem fins lucrativos” (Loose, 2020, p.39).

A exploração de petróleo na Foz do Amazonas representa um duro golpe para quem quer mudar a trajetória das mudanças climáticas e vê nas discussões da Conferência uma saída ambiental que barre a produção de combustíveis fósseis. 

O site do Sumaúma, um dos projetos jornalísticos não hegemônicos mais relevantes atualmente na cobertura da COP-30, traz a notícia sobre a exploração do petróleo na região com uma crítica frontal e contundente ao governo Lula, apontando ministros que eram favoráveis à perfuração de poços e como ocorreu a aprovação e liberação do Ibama, bem como as repercussões, sob forte pressão política. A partir do texto, o leitor entende o enredamento governamental com o Congresso e a inação presidencial diante do avanço dos interesses políticos e petrolíferos. Além disso, a notícia expõe a contradição da decisão a poucos dias da realização da COP.

A cobertura realizada pelo veículo jornalístico O Eco, o qual se dedica a evidenciar os avanços e desafios acerca do cenário ambiental e climático no país, traz também uma visão crítica da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, além de ressaltar os efeitos  negativos da exploração gera ao meio ambiente. A matéria enfatiza o risco de acidentes e a extrema poluição climática que este movimento causará ao ambiente e como tal atitude está sendo vista no cenário internacional.

De mesmo modo, o  #Colabora, expôs, na última semana, a denúncia feita por ONGs ao governo acerca da exploração no foz do Amazonas.  A matéria apresenta, de forma crítica ao governo, o ativismo conjunto de outras organizações que lutam pela justiça climática e que, por vezes, não tem visibilidade na cobertura hegemônica. O veículo ressalta a importância do reconhecimento destas atuações ambientalistas realizadas por populações indígenas, ribeirinhas, pescadoras e outras organizações no debate ambiental e climático no Brasil. 

Diante dos apontamentos aqui apresentados, verificamos a necessidade de que meios não comprometidos com os interesses da indústria petrolífera produzam notícias e circulem. Muitas vezes, a tomada de consciência sobre os problemas ambientais só é possível nestas alternativas. 

 *Doutora em Políticas Públicas pela UFPR e Mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS. Professora substituta de Jornalismo na Unipampa. Integrante do Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS). E-mail: josemari.quevedo@gmail.com 

**Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática – ComClima (CNPq/UFRGS) e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (CNPq/UFRGS) . E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

Referência:

LOOSE, E. Jornalismo e mudanças climáticas desde o Sul: os vínculos do jornalismo não hegemônico com a colonialidade. Tese de doutorado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS, 2020. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/220347. Acesso: 01.nov.2025

A tempestade do século e o aquecimento global

Foto: NOAA

Por Patrícia Kolling*

Nesta semana, o furacão Melissa, com ventos de até 298 km/h, atingiu a Jamaica, República Dominicana, o Haiti e Cuba. No dia 28 de outubro, quando o furacão estava chegando na Jamaica e nos dias que antecederam, a imprensa brasileira deu espaços significativos ao fenômeno, trazendo informações técnicas para que o leitor compreendesse o furacão, com dados sobre a escala e velocidade dos ventos.

Na Uol, o leitor encontrava alternativas para acompanhar o fenômeno em tempo real. Muitas notícias destacavam o fato do furacão atingir a escala 5, o nível máximo de intensidade, e na Jamaica, ter sido o mais forte a atingir o solo na costa do Atlântico em 90 anos.

Os dados eram assustadores, e os textos jornalísticos faziam questão de ressaltar isso. A previsão era de que o furacão atravessasse a Jamaica de ponta a ponta e a Cruz Vermelha Internacional alertava para um “impacto massivo”. Cerca de 1,5 milhão de pessoas – metade da população da ilha – deveria ser afetada direta ou indiretamente. Tanto que, em uma das matérias, um morador da Jamaica entrevistado dizia não acreditar que iria sobreviver, portanto não sairia de sua casa. As previsões se confirmaram, e a tempestade, considerada a maior do mundo, causou muita destruição e mortes.

A Folha de São Paulo trouxe informações técnicas sobre velocidades dos ventos, áreas que seriam atingidas e as ações da Defesa Civil para tirar as pessoas da região e protegê-las. A Folha também reproduziu um texto do Washington Post, ‘Caçadores de Furacões’ sobrevoam olho do Melissa no Caribe; um relato de um meteorologista que junto com outras 18 pessoas voou sobre o olho do furacão, e narrou a perfeição meteorológica do fenômeno.

Acredito que os meios jornalísticos precisavam, sim, apresentar os dados concretos da gravidade do fenômeno, porém, senti que foram além disso, ao fazer do fato um espetáculo sem precedentes, beirando ao sensacionalismo.
Mas, foi na National Geographic Brasil, que encontramos a relação entre o aquecimento global e o aumento dos furacões de categoria 5. “O furacão Melissa se intensificou rapidamente ao se arrastar sobre águas oceânicas excepcionalmente quentes, cerca de 1,4 °C mais quentes que a média, algo até 700 vezes mais provável devido às mudanças climáticas causadas pelo homem”, informa a Climate Central (entidade independente de cientistas e jornalistas que pesquisa informações sobre mudanças climáticas e seus impactos).

(…) “Quanto mais quente estiver o oceano, mais combustível haverá para os furacões se intensificarem, desde que outras condições atmosféricas (como o cisalhamento do vento) também sejam favoráveis”, informa a NOAA.

Senti falta desta conexão entre o furacão e as mudanças climáticas na maioria dos textos que li. É mais que urgente que o jornalismo traga essas relações contextuais ao falar de fenômenos climáticos. É preciso dizer que a intensificação destes acontecimentos tem relação com as mudanças climáticas, entre elas o aquecimento, e que a responsabilidade está na emissão de combustíveis fósseis e de poluentes.

Coincidentemente, nesta semana a ONU apresentou o Relatório Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas de 2025 (NDC Synthesis Report 2025), consolidando as metas climáticas apresentadas pelos países entre janeiro de 2024 e setembro de 2025. Os dados não são nada animadores, pois o relatório diz que, conforme as metas apresentadas pelos países signatários do Acordo de Paris, o corte de emissões de gases ficará em 17%, enquanto a Ciência diz que seria necessário cortar 60% das emissões de gases até 2035. Isso significa que se a metas apresentadas a ONU forem cumpridas, o mundo terá um aquecimento de 2,5º até 2100.

Além do site o((eco)), o portal InfoAmazonia também analisou o relatório , mas em outros sites de notícias não encontrei informações sobre esse relatório.

Portanto, a semana foi a oportunidade dos meios jornalísticos conectarem os dados pessimistas do relatório e os fenômenos extremos que estão acontecendo no Planeta. Conexões que não encontrei nos veículos que pesquisei.

*Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

Repercussão da exploração na Foz do Amazonas, às vésperas da COP-30, escancara discursos ambientais vazios 

Breve análise da cobertura da Folha de S. Paulo indica a crítica à falta de comprometimento com as pautas da COP-30

Por Nico Costamilan* e Eloisa Beling Loose* 

A menos de um mês da realização da 30ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-30), que busca discutir caminhos para o enfrentamento da emergência climática, a Petrobras recebeu a licença do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para perfurar o primeiro poço em águas profundas na bacia da Foz do Amazonas, próxima à costa do Amapá. A exploração de pesquisa por petróleo na região estava em negociação desde o início do ano, e exigia múltiplos pareceres técnicos de segurança contra vazamentos e de asseguração à biodiversidade local. A licença é para o primeiro poço, mas deve destravar uma corrida por reservas na área. 

O governo defende a proposta de exploração do que denomina “riqueza”, e esteve em embate com o Ibama pela licença. A área, antes de ser licenciada, já estava incluída no primeiro leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que ocorreu em junho, e vem despertando grande interesse econômico e político. No leilão, a ANP concedeu 34 blocos exploratórios, 19 localizados na bacia da Foz do Amazonas.

Arte: Petrobras/Divulgação

A justificativa principal para seguirmos ampliando a indústria do petróleo – e agravando a crise climática – é econômica: as reservas seriam uma importante garantia para o Brasil,  possibilitando, inclusive, a transição energética. Aí está uma das maiores contradições da política ambiental do Brasil nos tempos recentes. 

Nosso Observatório, nesta semana, faz uma breve análise da repercussão dessa licença do Ibama, às vésperas da COP-30, num dos maiores veículos do País, a Folha de São Paulo. De 15 a 22 de outubro, a Folha publicou 25 matérias que mencionam a expressão “Foz do Amazonas”. 

De 15 a 19 outubro, antes da licença ser  liberada pelo Ibama, a editoria Ambiente já informava movimentos do presidente do Congresso Nacional,  Davi Alcolumbre, para derrubada de vetos de Lula no senado, por interesse na Foz do Amazonas. Através da Licença Ambiental Especial, dispositivo presente no conhecido  “PL da Devastação”,  empreendimentos estratégicos ao governo têm o seu processo agilizado. Também nesse período, a Folha informou que a Petrobras apresentou os últimos esclarecimentos técnicos para o Ibama, e quanto a petroleira gastou com as medidas para evitar danos ambientais – no mesmo texto, indica que a exploração é aprovada pela maioria da população, segundo o Datafolha. 

Na imediata repercussão da notícia de liberação da licença, de 20 a 22 de outubro, houveram 20 publicações na Folha. Dessas, 15 eram notícias e reportagens, a maioria delas publicada na editoria Ambiente (12) , depois na editoria da Economia (2) e Política (1). Das notícias e reportagens analisadas, 8 mencionaram a sua proximidade com a COP-30; 7 trouxeram os riscos ambientais da exploração; 5 mencionaram as contradições com a transição energética defendida pelo governo; 5 realizaram entrevistas com ambientalistas ou mencionaram as principais críticas; e apenas 3 mencionaram os possíveis danos aos povos indígenas da região. 

Dividindo-se entre notícias declaratórias, com os discursos do governo federal, da Petrobras e da ANP, de justificativa econômica para a exploração da Foz, e matérias que trazem as nuances dos riscos ambientais e sociais à exploração, a Folha parece se preocupar em trazer as críticas sobre o fato. No entanto, vale mencionar que essa repercussão ocorre majoritariamente na editoria dedicada ao meio ambiente, e “outros pontos de vista” aparecerem rapidamente e raramente em matérias factuais sobre a exploração. Isso representa, do ponto de vista do Jornalismo Ambiental, um problema, ao encapsular grande parte da discussão em um único espaço dentro do jornal.

Chama atenção a matéria sobre falas de Janja da Silva na última terça (21), ao defender a licença do Ibama para a Petrobras: “A gente não pode negar a importância que ainda têm os combustíveis fósseis para o desenvolvimento do país”, e “É utópico achar que, de um dia para o outro, a gente vai deixar de usar combustível fóssil”. O texto da Folha questiona as contradições da primeira-dama que, no mesmo dia, esteve em um evento sobre transição energética na Sorbonne, e parece não ver problema algum com a perfuração de uma nova área no País. E a matéria lembra: a autorização foi dada à Petrobras a 20 dias da COP-30. 

Foto: Felipe Werneck/Ibama – Wikimedia

Também no mesmo período, a Folha publicou um editorial com a opinião do veículo: “Apostar em combustível fóssil é olhar para trás”, destacando os movimentos do governo federal como retrocessos na transição energética. Enquanto a opinião declarada da Folha é contra o combustível fóssil, cabe contínua análise sobre o tamanho da plataforma dada aos discursos petroleiros na editoria de economia e nos seus conteúdos patrocinados. 

Enquanto o Brasil se coloca como líder global da transição energética e do combate às mudanças climáticas, continua a investir nos recursos fósseis.  Na Assembleia-Geral, o presidente Lula afirmou em seu discurso de abertura que a COP-30, liderada pelo Brasil, será a COP da verdade: “o momento dos países comprovarem seu compromisso com o planeta”, disse. O compromisso do Brasil, um mês depois, parece ser o de garantir suas reservas de petróleo ao extrair mais matéria prima comprovadamente desastrosa e diretamente ligada às mudanças climáticas. O fim dos combustíveis fósseis foi recentemente silenciado no discurso do presidente Lula na ONU, como analisado no Observatório pelo colega Luciano Velleda

Em meio à flexibilização das licenças ambientais no País (já construídas de olho na Margem Equatorial) e  o discurso de que reservas de petróleo pagarão pela transição, a licença para a pesquisa na Foz do Amazonas era, infelizmente, só questão de tempo. Enquanto a Petrobras e o Ministério de Minas e Energia, com todo o seu poder de decisão e recursos, não alinharem seus planos de futuro às metas do Acordo de Paris, à estratégia nacional de mitigação definida no Plano Clima e à meta de redução de emissões do Brasil, o discurso brasilero apenas não faz sentido.

A transição energética justa não depende necessariamente de novas explorações de petróleo, mas do impulsionamento de energias renováveis (de verdade). Fazer circular os discursos que apontam alternativas ao petróleo e entender as contradições que envolvem o cuidado com o ambiente e a falácia do desenvolvimentismo também são finalidades de um jornalismo responsável e orientado para o interesse público.

*Nico Costamilan é estudante de graduação em Jornalismo na UFRGS,  bolsista de extensão do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e bolsista voluntária do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Email: nicocostamilan@gmail.com

**Eloisa Beling Loose é professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.

Vozes indígenas e quilombolas seguem à margem da cobertura antes da COP-30

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes**

Cerca de 80% dos mais pobres e vulneráveis do mundo, quase 900 milhões de pessoas, estão diretamente expostas a riscos climáticos, como calor extremo, inundações, secas ou poluição do ar. E os números evidenciam que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas, com os piores índices de moradia digna, de violência, de acesso à renda e à saúde, entre outros indicadores de vulnerabilidade. Ainda assim, elas são as pessoas menos escutadas quando falamos sobre vulnerabilidade social diante da crise climática.


Essa questão foi abordada nos debates da Pré-COP sediada em Brasília, na última semana. A Pré-COP nada mais é que uma reunião preparatória que funciona como um termômetro para as negociações oficiais da COP-30 – que ocorrerão dos dias 10 a 21 de novembro, em Belém. O evento reuniu mais de 600 representantes de 67 delegações ao longo de dois dias de debates intensos, que abordaram temas centrais como o financiamento climático, a transição energética e a adaptação aos eventos climáticos extremos.


Além das discussões formais, a Pré-COP também foi marcada por manifestações da sociedade civil, que cobraram ações concretas e compromissos efetivos para a conferência em Belém. Povos indígenas marcaram presença com uma passeata, na segunda-feira, com cerca de 200 manifestantes de diferentes regiões do Brasil, em defesa da demarcação de terras. A Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) pediu ao governo federal a titulação do passivo de 87% das terras ocupadas tradicionalmente por comunidades quilombolas como uma medida de preservação da natureza e da biodiversidade.


Mas, ainda assim, as vozes destes grupos tiveram pouco espaço na cobertura da mídia brasileira. Nos portais G1 e Folha de S. Paulo, dois dos maiores sites de notícias do país, apenas uma reportagem em cada site abordou as manifestações durante a Pré-COP. No G1, a cobertura destacou o ato indígena, focando principalmente em noticiar o protesto e deixando as reivindicações indígenas em segundo plano. Os argumentos pelo pedido de demarcação urgente das terras indígenas apareceram apenas por meio de duas fontes entrevistadas. Na Folha de S. Paulo, a notícia cobriu o protesto quilombola, dando ênfase especificamente na proposta de anexo à meta climática do Brasil, conhecida como NDC. A matéria se apoiou em apenas uma fonte, retirando grande parte das informações diretamente do documento e sem detalhar outros aspectos relevantes.


Por outro lado, mesmo não repercutindo os protestos indígena e quilombola, o jornal Brasil de Fato deu ênfase para as organizações da sociedade civil presentes na Pré-COP, destacando o evento “Caminho para Belém: contribuições da sociedade civil” que aconteceu durante as negociações. A notícia teve foco nas falas da Ministra Sônia Guajajara e Selwin Hart, enviado especial do Secretário-Geral da ONU, que participaram da cerimônia de abertura.
A cobertura limitada das manifestações indígenas e quilombolas evidencia que essas vozes continuam à margem do debate público e midiático em nosso país.

A pouca atenção da grande imprensa reforça a necessidade de ampliar o espaço dado às comunidades historicamente vulneráveis, garantindo que suas reivindicações e perspectivas sejam ouvidas e consideradas nas decisões políticas, e em especial, sobre o clima e o meio ambiente. A inclusão dessas vozes se faz necessária não apenas por uma questão de justiça social e climática com estas comunidades, mas também essencial para a construção de políticas climáticas mais eficazes para todos nós.


*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.
**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Educom Clima (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e do Laboratório de Comunicação Climática. (CNPq/UFRGS). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br.