Quando a água recua, ficam os impactos sociais e a falta de um jornalismo comprometido com a educação climática

Pelotas – Rio Grande do Sul, Julho/2024. Foto: Myke Sena/DPU


Por Carine Massierer*

As consequências econômicas, ambientais, físicas e emocionais dos desastres climáticos ficam registradas a partir das narrativas e das percepções tornadas públicas pela imprensa, como houve com a inundação de maio de 2024. O evento climático atingiu várias regiões do Rio Grande do Sul, incluindo não só a capital, mas intensamente os Vales do Taquari e Rio Pardo. A tragédia que deixou 185 mortos e 23 pessoas desaparecidas completa dois anos em maio de 2026 e a incidência do fenômeno El Niño deixa apreensivos todos aqueles que de alguma forma sofreram as consequências.

Entre a tragédia e a narrativa da imprensa está a pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari”, feita pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), que foi recentemente divulgada.

Nas matérias a imprensa deu bom espaço para o estudo que traz a percepção de 389 moradores de 11 municípios atingidos pelas cheias nos Vales do Rio Pardo e Taquari. Os conteúdos podem ser conferidos em Portal Arauto, Folha do Mate, AHora, Brasil de Fato e Extraclasse.

O Instagram e Facebook dos veículos também foram utilizados para a ampliação de espaços de divulgação da pesquisa como é o caso do Portal Arauto, em que a postagem não teve nenhuma interação escrita. 

No caso do Grupo A Hora, a matéria consta no link  do Facebook: https://www.facebook.com/grupoahoraoficial/videos/-a-experi%C3%AAncia-das-enchentes-de-202324-mudou-a-forma-como-a-popula%C3%A7%C3%A3o-enxerga-as/2248617299301585/ e o que chama a atenção é que a empresa tem 265 mil seguidores na plataforma e a postagem recebeu apenas quatro comentários, sendo três abordando a tristeza e o sofrimento do povo e um de cunho político. A publicação conta com imagens em vídeo e informações em tela refletindo os principais resultados da pesquisa, mostrando que o conteúdo foi visualizado por 7.7 mil. Dentre os canais de televisão, apenas o programa Jornal do Almoço, que possui edição regional, veiculou a pesquisa pelo Grupo RBS/Globo.

Observa-se que além da imprensa regional, outros veículos que se ativeram a temática foram os de comunicação independentes e alinhados a pautas e movimentos sociais, como o Extra Classe e o Brasil de Fato, que tem abrangência nacional e atuação popular. Os canais de televisão vinculados a imprensa hegemônica não deram espaço e novos sentidos e apropriações da pesquisa ocorreram por parte de políticos e outras autoridades que acabaram fazendo podcasts e outras publicações incluindo a participação dos coordenadores da pesquisa. 

Segundo a pesquisa as inundações alteraram a percepção da população sobre as mudanças climáticas pois 90% dos entrevistados relacionam o agravamento dos eventos extremos à ação humana e ao aquecimento global. Além disso, 54,9% dos participantes percebem uma relação forte entre as enchentes e as mudanças climáticas. Assim, o estudo revela nuances interessantes mostrando que as pessoas associam eventos extremos e água a emoções negativas e destruição, mas apenas 26,9% dos entrevistados acreditam que as mudanças climáticas têm causas humanas e 15% apontam que os motivos são divinos ou naturais.

Mesmo sendo muito relevantes, os resultados da pesquisa mostram que os sentidos se alteram ao entrarem na esfera pública virtual. E, ainda, que vai depender do reconhecimento do público para que o tema permaneça nas arenas de discussão e, sobretudo, cheguem até a imprensa hegemônica e consigam romper com a bolha regional de divulgação. 

A recorrência de eventos climáticos extremos requer o investimento em educação para preservar vidas, especialmente, uma educação climática. Espera-se que a imprensa hegemônica participe contribuindo com amplas estratégias de mobilização, também em espaços virtuais, para capilarizar as informações das cidades aos rincões. E, de fato, levar a ações coletivas em prol de melhores condições de vida e de resiliência climática. 

*Carine Massierer é jornalista, assessora de Comunicação, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental 

Deixe um comentário