Jornalismo é oferecer polêmicas, sem abandonar o contexto

Fotos Públicas/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Sérgio Pereira*

A imprensa brasileira é um espelho da visão elitizada da sociedade no que se refere à representatividade. Em outras palavras: integrantes dos denominados grupos minorizados têm sempre mais chances de virar notícia nas páginas policiais. Já em certas editorias, como política, cultura e economia por exemplo, os casos são raros. E, quando ocorre, estamos diante de um fenômeno bissexto e que serve apenas para afiançar a regra. Mas, como poderia ter dito Forrest Gump, um jornal é como uma caixa de chocolates: você nunca sabe o que vai encontrar.

Em sua edição impressa do dia 16 de abril, por exemplo, o diário rio-grandense Zero Hora deu voz, em sua valorizada página 2, a uma integrante dos povos originários do Brasil. A participação da influencer Ysani Kalapalo em um fórum de debates realizado em Porto Alegre seis dias antes foi o gancho para justificar a matéria. Em formato pingue-pongue, a entrevista também foi disponibilizada no digital GZH um dia antes.

O título não poderia despertar mais a atenção, como recomendam os manuais de redação: Culturalmente, os princípios de direita se assemelham mais à cultura indígena, diz influenciadora digital Ysani Kalapalo”. Pra quem não conhece, a entrevistada se apresenta nas redes sociais como “ativista, comunicadora, liderança indígena do Alto Xingu e mato-grossense com orgulho”, com quase 300 mil seguidores no Instagram. Ela se declara abertamente eleitora de candidatos da extrema direita, como indica a chamada de ZH.

Não deixa de ser peculiar a posição da entrevistada. Afinal, as principais lutas indígenas são, entre outras, pela conservação e delimitação de suas áreas, a proteção dos biomas onde vivem, políticas públicas específicas para a saúde e educação (intercultural e bilíngue) e uma maior representação na política. E, com certeza, essas não são pautas da direita brasileira. Que o diga o povo da etnia yanomami, cujo número de mortes por desnutrição aumentou 331% nos quatro anos do governo Bolsonaro.

Ineditismo, porém, é uma das características do jornalismo. A velha máxima ensinava que um homem precisa morder um cachorro para virar notícia. Já no caso da “ativista” de GZH, a singularidade está em sua posição política, equivalente à de um líder sindical pregando a implantação de robôs nas linhas de montagem. Mas estamos experimentando tempos atípicos em que quase nada mais causa espanto.  

Antes de Ysani, ZH perdeu a oportunidade de ouvir outra liderança dos povos originários, essa muito mais famosa e reconhecida, inclusive internacionalmente. Ailton Krenak, autor de sucessos livreiros como “Ideias para adiar o fim do mundo”, imortal da Academia brasileira de Letras (ABL) e com mais de 412 mil seguidores na mesma rede social.

Uma das maiores vozes indígenas do país com livros traduzidos para mais de 19 países, Krenak veio à capital gaúcha para a aula inaugural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizada no dia 9 de março passado. GZH, que não deixou de noticiar a vinda do escritor, perdeu a oportunidade de dar aos seus leitores uma visão legítima dos movimentos indígenas nacionais e uma mostra da sabedoria ancestral do autor. 

Já em 21 de abril, GZH postou pingue-pongue com a ex-ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, com questões envolvendo temas como racismo ambiental, demarcação de terras e marco temporal. O material, assinado pelo jornalista Eduardo Rosa, foi produzido a partir da participação da agora deputada federal no programa digital da mesma RBS “Conversas Cruzadas” do dia 20, por conta do Dia dos Povos Indígenas (19 de abril). A entrevista, no entanto, não constava em nenhuma versão impressa de ZH até o dia 22. 

O primeiro pressuposto do Jornalismo Ambiental é a ênfase na contextualização. Essa característica epistemológica busca superar a fragmentação e a descontinuidade dos textos, sugerindo uma visão ampla, profunda e crítica (tecendo relações de causas e consequências) e apresentando uma perspectiva sistêmica (Girardi et al., 2020, p. 284-285). Na entrevista com Ysani Kalapalo, ZH poderia ter oferecido aos leitores as contradições no posicionamento da influencer, as críticas que recebe e as polêmicas em que se envolve. Também poderia informar que ela é vista como uma “traidora da causa” por entidades representativas dos povos originários.

A produção de um veículo impresso exige escolhas. Os editores decidem o que será publicado e o que será engolido pelos fatos. Para fazer essa triagem, critérios são primordiais e definir parâmetros sólidos e bem-fundamentados significa navegar com precisão mesmo em águas turbulentas. Em tempos em que quase tudo suscita polêmica, equilíbrio, bom-senso e contexto se transformam em equipamentos de proteção para o jornalismo. Fica a recomendação: não edite sem eles.

Revisão: Ilza Girardi, integrante do GPJA

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, doutorando em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com

Referências

FORREST GUMP: O contador de histórias. Direção: Robert Zemeckis. Produção: Wendy Finerman, Steve Tisch, Steve Starkey. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1994. 1 DVD (142 min).

GIRARDI, Ilza Maria Tourinho; LOOSE, Eloisa Beling; STEIGLEDER, Débora Gallas; BELMONTE, Roberto Villar; MASSIERER, Carine. (2020). A contribuição do princípio da precaução para a epistemologia do Jornalismo Ambiental. RECIIS, 14(2). Disponível em: https://doi.org/10.29397/reciis.v14i2.2053.

Deixe um comentário