O jornalismo segue submerso dois anos depois da inundação de 2024

Foto: Isabelle Rieger

Por Luciano Velleda*

Na primeira semana que marcou os dois anos da tragédia climática que devastou o Rio Grande do Sul, em maio de 2024, o portal GZH, site do maior grupo de comunicação do estado, foi escolhido para analisar quantas reportagens ou colunas trataram do tema das obras de proteção contra futuras enchentes e inundações. Ao todo, entre os dias 24 de abril e 3 de maio, foram publicados sete textos, sendo quatro de colunistas e três matérias.

Principal colunista de política do Grupo RBS, Rosane de Oliveira assinou três das quatro colunas publicadas no período. Em todas, a essência do texto é declaratória em relação as afirmações das fontes oficiais, sem contraponto ou visão crítica. O governador Eduardo Leite é a autoridade com maior visibilidade, sendo o personagem central em quatro dos sete textos publicados. Só a entrevista do governador, no último dia 29 de abril, ao programa “Gaúcha Atualidade”, da rádio Gaúcha, foi desdobrada em três publicações. Apenas uma reportagem, assinada pelas jornalistas Gabriela Plentz e Isadora Garcia, trouxe um panorama crítico da situação das obras dos sistemas de proteção de Eldorado do Sul e Canoas, duas das cidades mais atingidas em 2024.

O primeiro texto traz a cobertura de uma agenda oficial do governo estadual, um balanço das ações executadas até o momento. O título reproduz a afirmação do governador no ato, ao dizer que o “estado está muito preparado para enfrentar novos episódios”. A matéria informa que o governo estadual, por meio do Plano Rio Grande, empenhou R$ 13,9 bilhões na “reconstrução de estruturas e locais atingidos, sem acrescentar outros investimentos feitos, como pelo governo federal”. Na sequência, o texto elenca as ações desenvolvidas por tópicos: infraestrutura; rodovias; governança; gestão e habitação. Entretanto, as informações são apresentadas sem detalhes e contextos, dando a impressão de apenas reproduzirem os dados divulgados pelo governo.

Eduardo Leite

No dia 29 de abril, a entrevista do governador na rádio Gaúcha ganha a primeira repercussão no veículo online em texto assinado por Paulo Rocha. O destaque é o sistema de proteção da cidade de Eldorado do Sul, sem abordar outros projetos de proteção pendentes no RS. O texto, novamente, apenas reproduz as falas de Eduardo Leite na entrevista, sem contraponto ou análise crítica. É anunciada a apresentação, oito meses após a contratação, da atualização do anteprojeto de proteção de Eldorado do Sul. Agora, o governo estadual precisa contratar os projetos básico e executivo, fazer os estudos ambientais e então, depois destas novas etapas, começar a execução da obra.

Na esteira da entrevista ao programa “Gaúcha Atualidade”, no mesmo dia 29 de abril, Rosane de Oliveira publica sua primeira coluna sobre a efeméride dos dois anos da tragédia climática. O texto entrega o que o título promete: “Governador quer mais destaque ao que foi feito depois da enchente”. Pedido feito, pedido aceito.

“O governador reconhece que ainda há muito por ser feito, mas diz que prefere celebrar o que conseguiu entregar. Destaca que o Rio Grande do Sul tem carência de engenheiros, o que afeta o ritmo das empresas e do andamento de projetos, como os que envolvem as bacias dos rios Gravataí e Caí, citados por Leite como exemplos de trabalhos que estão sendo desenvolvidos pelas mesmas equipes”, diz o texto.

Falta, entretanto, um contraponto, como as críticas dos Comitês de Bacia Hidrográfica do estado, em que muitos gestores reclamaram da falta de diálogo e apoio do governo Leite antes e depois da enchente. Por outro lado, a coluna ressaltou os R$ 300 milhões investidos pelo governo estadual na dragagem de rios, canais e córregos menores de 145 municípios.

No mesmo dia 29 de abril, a colunista de política dá visibilidade ao ato da prefeitura de Canoas, que fez agenda oficial para entregar o chamado “muro da Cassol”, com pouco mais de 100 metros de extensão e dois de largura. A construção, no bairro Rio Branco, foi noticiada como a “primeira obra de reconstrução e fortalecimento do sistema de proteção contra cheias da cidade”. O muro deve integrar a estrutura do dique Rio Branco, com a finalidade de proteger parte da cidade contra o aumento do nível do Rio Gravataí. Porém, mais uma vez, a coluna não abre espaço para críticas relacionadas a obra, algo que vai aparecer na reportagem de Gabriela Plentz e Isadora Garcia.

Ainda no dia 29 de abril, dessa vez é a colunista de economia, Giane Guerra, que retoma num curtíssimo texto de apenas dois parágrafos, a entrevista concedida pelo governador à rádio Gaúcha. O foco é a proteção (ou a falta de) do aeroporto Salgado Filho. A colunista enfatiza que Leite se comprometeu a liberar, “imediatamente”, R$ 30 milhões para a obra que irá proteger o aeroporto de futuras enchentes e inundações.

“Mas os prazos preocupam porque há a previsão de que o El Niño provoque chuvas fortes em setembro. Para a obra ficar pronta até lá, teria que começar em julho e ainda não se sabe nem se o Exército aceitará fazer o serviço. Questionado pela coluna sobre esta apreensão, o governador disse que ajudará na articulação”, diz trecho do primeiro parágrafo. O segundo parágrafo é uma frase do governador afirmando que ajudará na articulação para a obra ser liberada. Sem contexto, sem melhores explicações sobre os motivos que fazem uma obra tão importante nem ter sido iniciada, a coluna acaba. Para saber mais, o leitor precisa ouvir a entrevista de 30 minutos anexada ao texto.

A terceira e última coluna de Rosane de Oliveira no período analisado, foi publicada dia 3 de maio. Assim como nos exemplos anteriores, é uma coluna declaratória, sem ponderação ou contraditório. O texto trata da agenda do prefeito Sebastião Melo, que acompanhou o teste das comportas do sistema de proteção da Capital. O teste virou lei em 2024 e deve ser feito anualmente no dia 3 de maio.

“Melo acompanhou o fechamento das comportas 1, na Usina do Gasômetro, e 2, no Cais Embarcadero, que receberam melhorias de vedação e mobilidade – assim como as comportas 4 e 6, na Avenida Mauá”, descreve trecho da coluna. Na sequência, dá voz ao prefeito: “Assumimos o compromisso de qualificarmos o sistema de proteção contra cheias e temos cumprido esse objetivo com transparência e agilidade. Estamos mais preparados do que antes”, disse Melo.

A coluna informa que a comporta 9 deve ser fechada completamente, assim como outras sete já foram fechadas definitivamente, enquanto as comportas 11 e 12 devem ser substituídas até junho. O texto não aborda o status de nenhuma outra obra ou melhoria do sistema de proteção de Porto Alegre.

Jornalismo

A reportagem publicada no dia 30 de abril por Gabriela Plentz e Isadora Garcia é a única digna de ser chamada pelo nome, sendo o primeiro texto a citar as mudanças climáticas. O destaque são os projetos do sistema de proteção das cidades de Canoas e Eldorado do Sul. O tom é mais crítico, não meramente declaratório como os anteriores.

A reportagem também é a primeira a dar nome e imagem ao drama vivido pelos gaúchos, ao contar um pouco da história da moradora de Eldorado do Sul que perdeu a casa e vive, com o marido e três filhos, num módulo provisório enquanto espera a casa nova ficar pronta. A reportagem conta também um pouco da rotina sob o medo de moradores de Canoas.

“Enquanto o governo do Estado sustenta que o Rio Grande do Sul está mais preparado, quem mora nos dois municípios convive com o descompasso entre o cronograma oficial de obras e o medo de cada nova chuva”, diz trecho da matéria, que segue: “Conforme a Secretaria da Reconstrução Gaúcha, nenhum dos projetos novos do sistema de proteção teve a construção iniciada. Mas parte das estruturas já existentes foram reformadas e outras reforçadas”.

Ao se referir ao dique de Eldorado do Sul, a reportagem explica que a proteção, uma estrutura de 8,6 quilômetros ao redor do município, “ainda não saiu do papel”.

Em Canoas, cidade que já contava com um sistema de proteção (que se mostrou insuficiente), a reportagem narra a união dos moradores dos bairros Fátima, Rio Branco e Mato Grande para fiscalizar as obras. “Eles reclamam ao ver estruturas incompletas e dizem que há pouco ou nenhum avanço no dia a dia”, conta o texto. Em relação ao andamento do dique do bairro Rio Branco, a matéria traz fragilidades na execução do trabalho de proteção, além de apontar outras obras que nem iniciaram, como a estrutura de contenção próximo à empresa Bianchini, as casas de bombas nº 9 e 10, além do dique do bairro São Luís, que ainda precisa de projeto.

A matéria encerra destacando a previsão de que o sistema de proteção na Região Metropolitana seja concluído até 2031. E abre espaço para o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, afirmar que a segurança envolve também treinar a sociedade para lidar com as mudanças climáticas. “Não existe proteção total baseada em obra de infraestrutura. E isso é fundamental que a sociedade saiba”, diz ele. Enfim, jornalismo.

*Luciano M. Velleda é jornalista, mestrando em Comunicação e Informação na UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental

Deixe um comentário