Floresta Camboatá, você já ouviu falar?

Fonte: Captura de tela do site da Revista Piauí

Cláudia Herte de Moraes*

Desde junho de 2018, conforme histórico publicado pelo site Globo Esporte, a cidade do Rio de Janeiro planeja a construção de um autódromo para receber as grandiosas competições internacionais de Fórmula 1. A construção do Autódromo de Deodoro está cercada de dúvidas e controvérsias, com atuação do Ministério Público Estadual e Federal indicando que a obra é contrária ao interesse público, na medida em que vai destruir parte de Mata Atlântica, protegida por lei, conforme artigo de Sônia Rabello republicado no Estadão.  Em 18 de julho de 2020, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Tofolli, autorizou a realização de audiência pública, requisito necessário para o andamento do projeto. Em 22 de julho, a referida reunião foi marcada para 7 de agosto, em formato virtual.  

A Floresta Camboatá então reapareceu no noticiário, com as ressalvas trazidas pelos movimentos ambientalistas, que indicam a completa falta de senso ao propor uma obra de tamanho impacto junto a uma floresta que está descrita pela revista Piauí como “uma área de 2 milhões de metros quadrados, no subúrbio carioca de Marechal Deodoro, onde habitam capivaras, tatus, guaxinins, jacarés, papagaios, corujas e pelo menos 180 mil árvores (há dezoito espécies em extinção, de acordo com uma listagem municipal).” Além disso, a realização de audiências é prevista na legislação para dar oportunidade de participação social nas ações relacionadas ao meio ambiente com uma discussão qualificada do relatório de impacto ambiental. Em meio à pandemia e em formato virtual, este modelo atende a essa previsão legal?

Sobre a Floresta Camboatá, poucos veículos estão de fato repercutindo, com algumas exceções, especialmente pelo trabalho das reportagens da Piauí que acompanha com detalhes o envolvimento do poder público e da política (prefeito, governador e presidente concordam com a obra), do consórcio Rio Motorsports e do grupo Movimento SOS Floresta do Camboatá e do Ministério Público. O jornalismo de forma geral segue o caminho factual e repercute os pontos em que aos agentes públicos agem em relação às pautas. 

Além do ataque à Floresta Camboatá, quantos outros projetos estão tramitando para a destruição ambiental? Como dar conta desta crise em meio a tantas outras? Em 18 de julho, o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) completou 20 anos, e a notícia foi dada apenas em mídias ambientais, como O Eco, que destacou a destruição ambiental em curso: “Um dos golpes mais duros propostos foi recortar em uma tacada só 60 unidades de conservação para acomodar a construção de estradas, ferrovias, portos e aeroportos”.

Entre outros exemplos e denúncias, observamos que o desministro Salles segue firme tentando fazer passar a boiada (leia aqui a crítica do Observatório feita pelo colega Roberto Belmonte). Com estes dois temas (Camboatá e SNUC) confirmamos o papel fundamental das mídias ambientais e do jornalismo especializado em meio ambiente para enfrentar o desmonte das políticas ambientais. Aprofundar e qualificar o debate é função social do jornalismo, o que envolve, cada mais mais, tanto a busca da informação relevante quanto o enfrentamento à desinformação. A propósito,  destacamos uma iniciativa recente: a criação de um consórcio contra a desinformação ambiental – o chamado ‘Fakebook.eco’, lançado em junho, com o objetivo de checar mitos, discursos de autoridades públicas e informações falsas que circulam sobre a temática. Trabalho não vai faltar.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Email: claudia.moraes@ufsm.br

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