Pela maior inclusão da ecologia no debate progressista: responsabilidades e confluências políticas e jornalísticas

Fonte: Pixabay

Inimigo de maior urgência da sociedade global hoje, a pandemia do novo coronavírus não está desassociada a fatores ambientais de diversas esferas, cuja discussão já foi abordada neste Observatório. Sabemos, ainda, que a redução prevista de cerca de 7% nas emissões de carbono em virtude da recessão causada pela pandemia, embora positiva para uma “conta climática” de 2020, não será suficiente na luta contra as mudanças climáticas, caso a retomada econômica permaneça — como foi no pós-crise de 2008 — ainda baseada em combustíveis fósseis e nos velhos modelos de desenvolvimento. 

Assistimos ainda, como contraponto à onda populista e negacionista que se alastrou e elegeu políticos de altos escalões em muitos países, os partidos ecológicos ganharem paulatinamente maior espaço na Europa, com capacidade de influenciar positivamente o debate sobre um pacto verde para a retomada econômica no continente. Já nos Estados Unidos, a antes utópica — e já rejeitada no Senado americano — proposta de um Green New Deal parece ressurgir no programa democrata de Joe Biden para as eleições deste ano. A coluna de Mathias Alencastro para a Folha de São Paulo passa por esses pontos para afirmar que, no contexto brasileiro, a pauta ecológica e a urgência climática estão ausentes dos debates e de tentativas de criação de um Frente Ampla progressista no país. Argumenta-se que apesar dos ataques estarem concentrados, com razão, na criminosa gestão de Salles e em temas consensuais como o desmatamento, pouco se fala sobre a “necessidade de um programa de reorganização industrial e financeira adaptado ao desafio ecológico”.

 Para além de nossas fronteiras e problemas domésticos, uma notícia que correu o mundo nas últimas semanas foi o recorde de 38ºC registrado numa cidade da Sibéria. A pequena notícia da Associated Press, publicada pelo portal G1, permanece na superfície do tema e sequer menciona o aquecimento global. A matéria da Folha sobre o mesmo assunto, ao contrário, contextualiza e amplia as dimensões ligadas às mudanças climática naquela região, como chuvas torrenciais, incêndios e uma explosão de mariposas devoradora de árvores. 

Ainda segundo a coluna da Folha citada anteriormente, notícias como o superaquecimento do Ártico são frequentemente ignoradas pelas redes sociais de políticos progressistas brasileiros. De fato, falar em reorganização econômica verde no desastroso cenário político de um país em frangalhos parece soar totalmente descolado da realidade nacional. Mas se mesmo líderes políticos de oposição custam a se apropriarem da pauta, cabe ao jornalismo, como importante impulsionador do debate político, cumprir seu papel social e trazer à tona, com profundidade, as nuances do maior desafio de nossos tempos. 

Se entendemos que uma maior inserção do debate climático no Brasil passa, necessariamente, pelas responsabilidades e confluências das searas política e jornalística, cabe nossa menção a um importante personagem que fará falta justamente pela capacidade de introdução da pauta ambiental nestas duas esferas: Alfredo Sirkis, jornalista, ex-deputado federal, ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, falecido dias após lançar “Descarbonário”, seu novo livro que trata de mudanças climáticas. Sirkis vinha militando pela colocação, na pauta nacional e mundial, do debate sobre a valoração econômica do “menos carbono”, expostas nesta entrevista ao jornal Le Monde e traduzida pelo portal da think thank Centro Brasil no Clima. Militância e propostas ousadas, como devem ser, para um desafio urgente que se descortinará ao crepúsculo da atual pandemia, e que deve habitar redações e parlamentos mundo à fora. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

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