A articulação entre meio ambiente e saúde para um mundo pandêmico

Fonte: Wikimedia Commons
Por Michel Misse Filho*

Uma breve visita aos principais jornais e sites do Brasil e do mundo mostra, indubitavelmente, que quase não há outro assunto possível senão a pandemia instalada em função do novo coronavírus. A pauta ambiental chegou a conseguir algum espaço na grande mídia, sobretudo com as supostas “boas notícias” das claras águas dos canais de Veneza e a diminuição da poluição do ar – temas já tratados neste Observatório.

Tendo em vista sua capacidade de letalidade em curto prazo, o alastramento da pandemia assusta o mundo, em poucos meses, talvez de forma mais intensa do que a própria crise climática. Não nos confundamos, contudo: é fato de que se trata de assuntos complementares, não excludentes. A conexão é feita, por exemplo, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ao identificar o coronavírus como zoonótico (transmitido de animais para pessoas) e, portanto, “reflexo da degradação ambiental”. Aproveitemos a oportunidade para realçar o caráter interdisciplinar que compreende a questão ecológica, umbilicalmente ligada às áreas de saúde e ciência. No jornalismo não é diferente, tendo em vista a raiz comum do jornalismo científico, a que as áreas de saúde e meio ambiente se nutriram enquanto especialização temática.

Importa saber que, concomitantemente, problemas ambientais são também problemas de saúde pública. Lembremos, por exemplo, uma matéria de janeiro do G1, na editoria de “Ciência e Saúde”, sobre o descobrimento de 28 vírus desconhecidos nas geleiras do Tibete. A notícia – que sequer menciona o covid-19- alerta para a possibilidade de que, com a crise climática e o derretimento dos gelos glaciais, uma série de vírus sejam liberados e contaminem seres humanos. O perigo do derretimento do permafrost não é um assunto totalmente novo, mas que talvez ganhe outra dimensão no cenário pós-pandemia. A relação entre preservação ambiental e a disseminação de doenças também foi abordada por esta reportagem do canal “Repórter ECO”, de 25 de março, cujo foco é na disseminação de vírus a partir da destruição de habitats específicos aos quais ficavam restritos. 

O contrário é igualmente verdadeiro: problemas de saúde também dizem respeito ao meio ambiente. Vemos como exemplo, nesta notícia do site O Eco, publicada dia 25 de março, a preocupação de cientistas para a proteção dos grandes símios (chimpanzés, gorilas, bonobos e orangotangos), ameaçados de extinção, e possivelmente suscetíveis a patógenos que afetam seres humanos. A carta foi publicada por 26 cientistas na revista Nature e, apesar de sugerirem o fechamento de parques nacionais e reservas, a questão se torna ainda mais complexa pela possibilidade de, sem presença humana, aumentar o risco de caça a esses animais.   

    Parece-nos ainda cedo para especular sobre como os assuntos ambientais serão tratados após a atual crise. Cenários de generalizada conscientização global a favor das pautas ambientais podem soar otimistas e utópicos em excesso, apesar de serem o horizonte a ser buscado. Independente de projeções, fica o alerta para o tratamento da questão ambiental em sua dimensão mais ampla, lado a lado com a saúde, sempre guiados pelo conhecimento científico. 

* Jornalista, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

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