Para além dos desastres: integrando a pauta ambiental à agenda nacional cotidiana

Fonte: Captura de tela e Amanda Perobelli/Reuters

Por Michel Misse Filho*

A destruição criminosa do pantanal pelas chamas, numa calamidade sem precedentes para a biodiversidade brasileira, tem recebido destaque da mídia nas últimas semanas. No embalo da catástrofe pantaneira, os focos de incêndio na Amazônia — também recorrentes no noticiário nacional — chamam, assim como em 2019, a atenção do mundo para o Brasil, num amálgama de dados: hectares, valores econômicos, número de focos de incêndios e retrospectivas de séries históricas. 

    Este é também um daqueles momentos em que, infelizmente pelas piores razões, a pauta ambiental extrapola seu próprio nicho e se desenrola por toda a agenda nacional em múltiplas nuances. Torna-se enredo dramático e heroico, no combate às chamas e resgate de animais; policial-investigativo, na busca pela origem do fogo; político, alavancado por um governo federal marcado pelo desmonte ambiental; econômico, pelo oportunismo verde de conglomerados empresariais e projeções para o agronegócio brasileiro; diplomático, na esteira do discurso do presidente da República na Assembleia Geral da ONU; e ético, também como desdobramento do negacionismo explícito que paira sobre o Planalto Central.

    Em termos jornalísticos, a cobertura é importante por ultrapassar as barreiras do que seria um “nicho ambiental”, embora percebamos, com isso, um dilema recorrente: o meio ambiente é pautado quando excede a si mesmo — efeito de um já naturalizado modus operandi jornalístico. E o problema é que, como já foi destacado em pesquisas da área e neste observatório, na ampla maioria dos casos, essa extrapolação se dá em situações de desastres ambientais, reforçando a ideia de que o meio ambiente só vira notícia quando sofre perigo. 

    O olhar para o futuro (capacidade de projetar cenários) pode ser uma das saídas possíveis a esse dilema, dispondo de visão sistêmica não motivada, necessariamente, pelo acontecimento factual de um desastre como os incêndios — mesmo que essa projeção se dê em função de evitar o agravamento futuro de situações já calamitosas. A projeção é um recurso interessante, desde que atenta para não se distanciar espacial e temporalmente do leitor. No caso da emergência climática, decorrente do aquecimento global, por exemplo, é comum a perspectiva de longo prazo, como nesta matéria da BBC publicada pelo G1, que mostra os mapas de previsões dos impactos até 2100. O texto peca, no entanto, ao negligenciar os impactos sociais, dando a impressão de problemas restritos à uma “natureza” (termo que, aliás, nomeia esta editoria do G1) e não à sociedade, como se este tipo de distinção fosse possível. 

    Mais interessante para a nossa análise é a notícia da France Presse (também publicada no G1), de que o 1% mais rico da população mundial emite o dobro de CO2 que a metade mais pobre, esta última justamente a que mais sofrerá com a emergência climática. Coloca-se o assunto, assim, na alçada da justiça social e aumenta seu interesse público. Para ficar apenas nos veículos da mídia tradicional, vale pontuar também o debate promovido e publicado pelo jornal O Globo, que aborda potenciais econômicos e desafios ambientais da Baía de Guanabara. Sem entrar no mérito das propostas, a iniciativa é interessante por, justamente, integrar um assunto ambiental à sociedade numa perspectiva cotidiana — por vezes invisível à lógica jornalística — de um olhar de médio prazo, sem a necessidade de um desastre ambiental que alavanque a pauta. 

Descortinar os impactos positivos, isto é, o potencial que a preservação ambiental pode legar à vida social, parece ser um caminho promissor para tratar daquilo que é eminentemente socioambiental, interseccionando as justiças ambiental, social e racial. 


* Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: michelmisse93@gmail.com

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