Amazônia à venda e outras circunstâncias de um retrocesso

Imagem: BBC Brasil. Madeireiro derruba árvore em área protegida nos arredores de Porto Velho.

Por Mathias Lengert*

O Brasil, um país com meio milênio de apropriação de terras, vê seu legado obscuro avançar com a grilagem na Amazônia. Tal como nos tempos ditatoriais, a floresta – cuja destruição conta com a simpatia do sistema político – é considerada um obstáculo para o desenvolvimento. A eleição de Carla Zambelli (PSL-SP) para a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados testemunha esse desinteresse com uma ferida aberta que tarda a ser tratada. “Foi uma circunstância”, afirmou a deputada ao minimizar a responsabilidade do Governo no aumento de focos de incêndio na Amazônia nos últimos dois anos. Em entrevista, concedida ao Estadão após a sua nomeação, Zambelli culpou as narrativas da oposição pela imagem negativa que o país possui na gestão ambiental.

Entre disputas políticas que lançam o debate público a uma espiral de desinformação e retrocesso, esperamos do jornalismo um alento. Que ele seja capaz de questionar deputados negacionistas sobre o desmatamento ilegal que insiste em ser escondido, com uma posição de escuta às vozes que a grilagem e o garimpo ameaçam calar, mobilizando, assim, leituras críticas do mundo. Observa-se, no entanto, que o Estadão assumiu uma postura de frágil contestação na entrevista, sem questionar o alinhamento dos membros da Comissão de Meio Ambiente com as agendas de Ricardo Salles e da bancada ruralista.

Em contrapartida, o fôlego da investigação jornalística do documentário da BBC Brasil sobre a negociação de pedaços da floresta amazônica no Facebook consolidou em si um espaço de denúncia. Muitas das áreas à venda pertenciam a unidades de conservação ou terras indígenas – especialmente da tribo Uru Eu Wau Wau. Os lotes oferecidos não possuíam títulos públicos. Três dias depois da publicação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso, determinou a investigação deste mercado ilegal.

A produção revela ainda que o esquema de grilagem de terras tem a anuência de políticos. Entre os citados, a investigação evidencia um nome que ressoa entre os recentes acontecimentos da Câmara. Trata-se do Coronel Chrisóstomo (PSL-RO), apontado por grileiros como um aliado em Brasília. No dia 12 de março, duas semanas após a publicação do documentário, o deputado federal foi eleito vice de Zambelli na Comissão de Meio Ambiente. Alguns dos parlamentares não parecem se constranger em nomear políticos que são a antítese dos cargos que irão ocupar.

O exercício investigativo da BBC, por sua vez, é um reduto de resistência às narrativas daqueles que compartilham das posições de Zambelli e Chrisóstomo, sinalizando não apenas a ocorrência dos crimes, como também promovendo as reivindicações de povos indígenas. O jornalismo ambiental é constituído desse ato da escuta do outro, assumindo um posicionamento sensível e crítico. E, para tanto, é necessário indicar as interconexões de questões socioambientais complexas, sem se abster de referenciar projetos políticos ecocidas.

*Mathias Lengert é jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s