Os desafios do Brasil como anfitrião: expectativas internacionais e contradições internas expostas

Por Fernanda Vargas* e Alice Balbé**

Em novembro de 2025, o Brasil sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30), reunindo líderes globais para discutir o enfrentamento da crise climática. Para além das discussões acerca da mitigação, adaptação, financiamento e transição energética justa, o preparo e o gerenciamento da COP-30, em Belém, no Pará, têm sido intensamente discutidos e criticados no país e internacionalmente, especificamente no que tange como o país sede da conferência lida com a emergência climática em seu próprio território. O jornal alemão DW já questionou: “O Brasil está abandonando suas promessas climáticas?”. A menos de cinco meses da COP-30, também discutem-se as armadilhas diplomáticas que precisarão ser desfeitas para o avanço em acordos climáticos centrais como a eliminação dos combustíveis fósseis e a redução do desmatamento. 

No começo de 2025, se confirmou a construção da estrada de quatro faixas que cortará dezenas de milhares de hectares da Floresta Amazônica. Segundo o governo, a ação se deve para facilitar o trânsito do evento que vai receber mais de 50 mil pessoas. O fato não repercutiu de forma positiva na cobertura internacional pela incoerência com as políticas ambientais que precisam ser tomadas pelo Brasil, tendo sido motivo de piada em Portugal em comentário na Rádio Comercial.

A repercussão negativa cresceu no mês de julho com a aprovação, na Câmara dos Deputados, do projeto de lei que flexibiliza o licenciamento ambiental, chamado de “Lei da Devastação”. No jornal português Público, é referida essa aprovação, dizendo que “coloca o presidente Lula numa “saia justa” perante a comunidade internacional”. No espanhol El País, a aprovação foi considerada uma “ameaça ao planeta”. O jornal The Guardian explica que essa proposta desmantela a regulamentação “na agricultura, na mineração e na energia, aumentando o risco de destruição generalizada” indo contra os compromissos do país no combate às mudanças climáticas. 

Apesar da diminuição do desmatamento em 32% no ano passado, segundo o MapBiomas, o governo decepcionou ambientalistas em outras áreas, especialmente pela defesa à exploração de petróleo. O jornal britânico ainda refere-se ao Brasil como realizador de um “leilão do direito à exploração de petróleo meses antes de sediar a Cúpula Climática da ONU”, ação apoiada pelo presidente Lula que visa transformar o país no quarto produtor de petróleo do mundo.

Com a repercussão internacional em grande parte negativa sobre o gerenciamento de pautas e o planejamento técnico do Brasil para sediar a cúpula, questiona-se, a partir desses espaços de cobertura, quais as reais possibilidades e contradições que um evento desse porte evidencia. Mais do que isso, nos mostra quais são os verdadeiros desafios políticos e econômicos que rondam o debate acerca das disputas climáticas vigentes na COP-30. 

* Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática e no Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental e no grupo de pesquisa TEMAS – Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. E-mail: zfernandafvargas@gmail.com

** Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Portugal) e Mestre em Ciências da Comunicação com Especialização em Informação e Jornalismo. Colaboradora no Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS). E-mail: alicedb.jornal@gmail.com 

Clima tenso: guerras comerciais e militares ofuscam e comprometem combate à crise climática

Foto: Reprodução/Instagram/@realdonaldtrump

Por Heverton Lacerda*

Em uma semana dominada por notícias sobre os reflexos econômicos do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil e a relação com a tornozeleira de Jair Bolsonaro, pautas sobre questões climáticas e a COP-30 perderam espaço na imprensa brasileira.

No entanto, uma importante matéria da jornalista Eliane Oliveira, publicada nas edições impressa e digital de O Globo no dia 23 de junho, indica que a pressão do presidente dos Estados Unidos por mais gastos militares de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ameaça verbas contra mudança climática na COP. Ela informa que os gastos militares totalizaram cerca de R$15,3 trilhões em 2024, considerando a soma dos valores de todos os países. A meta de investimento para combater a crise climática é chegar a “algo em torno de R$7 trilhões por ano, até 2035, conforme acordado em 2024, durante a COP-29, no Azerbaijão”. 

Conforme a matéria, embaixadores europeus e o presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, expressaram a preocupação de que essa realocação de verbas possa ter um impacto direto nos investimentos ambientais, inclusive nas preparações e nos resultados da COP-30, que será sediada em Belém, no Brasil, em novembro.

A diretora-executiva da COP, Ana Toni, uma das entrevistadas por Oliveira, metaforicamente descreve a crise climática como uma “guerra silenciosa” que intensifica a pobreza e a desigualdade, argumentando que os conflitos comerciais e militares não só causam destruição, mas também desviam fundos da “batalha mais urgente” contra as mudanças climáticas.

A entrevistada ainda afirma que o setor de defesa contribui para as emissões de gases poluentes, mas suas emissões não são contabilizadas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), o que impede um monitoramento completo de seu impacto ambiental. Neste ponto, percebe-se um bom aproveitamento do espaço editorial para analisar um elemento que pode ser significativo nos cálculos sobre o tempo que nos resta para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

Afinal, é preciso considerar que ultrapassamos o limite de 1,5ºC acima da média pré-industrial seis anos antes do previsto pelo IPCC. Ainda que não esteja configurada uma nova média, o pico antecipado acima de 1.5ºC é preocupante e precisa ser considerado um fator relevante para revisões de cenários.

As guerras, assim como os gastos militares ampliados, precisam ser inseridos nos cálculos, pois podem representar mais emissões de gases poluentes e menos recursos para ajudar a solucionar a crise climática.

Outro ponto relevante da matéria é o fato de que manter em pauta questões climáticas, mesmo sem a relação direta com notícias factuais – em especial as tragédias -, é positivo. Isso ajuda a contextualizar o tema a partir de uma perspectiva sistêmica, um pressuposto do Jornalismo Ambiental que busca superar a fragmentação e a descontinuidade da cobertura jornalística.  

*Jornalista, especialista em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia, mestrando em Comunicação (PPGCOM/UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq) e presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

O jornalismo precisa pautar o debate climático desde a América Latina

Por Bruna Einecke Cabreira* e Cláudia Herte de Moraes** 

A preocupação com a geopolítica, quando o assunto é a realização da 30º Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) em Belém, acendeu o alerta sobre os desafios que estão postos, entre eles, a postura do presidente Trump ao retirar novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris. A tarefa do Brasil como país sede e um dos líderes do debate climático é ainda maior, como analisado pelo site Brasil de Fato, em função da necessidade de que os BRICS, bloco econômico que reúne países emergentes ao redor do mundo, sejam atraídos para a pauta ambiental, fazendo frente aos desafios globais.

Na primeira semana de julho, os países do BRICS enviaram um importante recado à comunidade internacional: países do Norte Global teriam que assumir mais protagonismo e responsabilidade na luta contra o aquecimento global. Em uma declaração divulgada em conjunto, o bloco cobra a ampliação da  participação dos países mais ricos nas metas de financiamento climático, reivindicando US$1,3 trilhões de dólares em investimento até a COP-30. 

Esse apelo relembra uma dura realidade: enquanto os países do Norte Global estão entre os que mais emitem gases de efeito estufa, quem ainda está mais vulnerável aos efeitos da crise climática são os países do Sul Global. Secas prolongadas, enchentes devastadoras, queimadas mais constantes e destrutivas afetam cada vez mais regiões que, como a América Latina, já enfrentam desigualdades sociais profundas. 

O governo brasileiro busca influenciar o debate para a questão climática com várias iniciativas, como noticiou o portal G1, quando o presidente Lula pautou o tema junto ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. Também o site Opera Mundi relatou os esforços do Brasil em dar prioridade para o debate climático em razão da realização da COP, até mesmo como uma bandeira da política externa do governo federal. No entanto, a pauta econômica é ainda o foco principal da atualidade, especialmente pelo aumento de tarifas ao comércio internacional, impostas pelo governo estadunidense, o que dificulta que o meio ambiente receba maior ênfase entre os desafios regionais dos blocos econômicos e políticos.

Vale lembrar que os países latino-americanos, mais que apenas vulneráveis ao aquecimento global, também aparecem como protagonistas na busca por soluções para esta crise. Da Amazônia à Cordilheira dos Andes, o continente latino-americano tem uma das regiões mais biodiversas do planeta. Sediar a COP-30 dentro da maior floresta tropical do mundo não é apenas importante simbolicamente, mas estrategicamente. Assim, podemos dizer que a COP-30 representa um espaço mais plural aos países latino-americanos e reacende uma integração regional em torno da luta contra as mudanças climáticas.

A América Latina pode se tornar referência em um desenvolvimento verde, mais justo e que respeite suas especificidades sociais, culturais, econômicas e ecológicas. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), 60% da eletricidade da América Latina é gerada a partir de energia renovável, posicionando-a como uma das redes elétricas mais limpas do mundo. Países como Brasil, México e Chile lideram o caminho para diversificação de fontes de energia eólicas e solares. A agroecologia, por sua vez, também está se enraizando cada vez mais nos países latino-americanos. Um estudo realizado em quase duas mil propriedades rurais na América Central constatou que os locais onde são implementadas práticas agroecológicas têm um solo mais arável, com mais umidade e menos erosão, e sofrem menos perdas do que os sistemas convencionais. A agroecologia representa uma alternativa ao modelo agroindustrial e propõe novas economias centrada no cuidado das pessoas e da natureza. 

A COP-30 pode ser o recomeço para pensarmos em uma sustentabilidade menos colonialista. Enquanto não olharmos para quem mais sofre com as mudanças climáticas, não poderemos desenvolver ações mais justas e eficazes para enfrentá-las. Ser mais sustentável talvez tenha a ver com assumir a latinidade de forma ampla, o que inclui perceber a rica diversidade biológica e cultural, seus povos originários, as influências diversas e saberes construídos coletivamente. Para o jornalismo ambiental importa trazer esse debate de forma aprofundada, pautando o papel da América Latina, como tratado por Um Só Planeta. A inclusão de um sentido de engajamento regional ao enfrentamento da crise climática passa por entender os caminhos possíveis desde os nossos territórios.

*Graduanda em Jornalismo na UFSM, bolsista do PET Educom Clima. E-mail: bruna.cabreira@acad.ufsm.br.

**Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM. Tutora do PET Educom Clima (UFSM) e líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Comunicação Climática. E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

IA também pode ser pauta para o jornalismo ambiental

Foto: Freepik

Por Débora Gallas*

Proferida em 26 de junho, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determina a remoção proativa de conteúdos ilegais pelas plataformas digitais deu novo fôlego à discussão sobre os limites e responsabilidades desses serviços. No jornalismo ambiental, que se baseia no princípio da precaução, o tempo das redes é incompatível com o do bom exercício profissional. Assim, a tensão entre o jornalismo e as big techs já mereceria atenção porque a lógica das redes confunde, distrai e aliena, prejudicando o entendimento sobre a complexidade do mundo e sobre a conexão entre os fenômenos.

Contudo, há também um impacto material que precisa ser repercutido pelo jornalismo: a infraestrutura necessária para processar o volume cada vez maior de dados compartilhados através de plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X e Youtube – potencializados pela popularização da inteligência artificial generativa.

Por isso, é oportuna a série de reportagens “A boiada da IA”, do site The Intercept Brasil em colaboração com a AI Accountability Network, iniciativa do Pulitzer Center. Assinado por Laís Martins, o especial investiga o impacto de projetos para instalação de data centers no Brasil. Os data centers são edificações que demandam uso intensivo de recursos naturais – da energia para que suas máquinas sejam capazes de atender aos comandos dos usuários de serviços digitais à água para resfriar os equipamentos.

A quarta reportagem da série, publicada em 23 de junho, revela o projeto de instalação de data center no município gaúcho de Eldorado do Sul, que teve mais de 80% das residências atingidas pelas inundações de maio de 2024. Chama a atenção a aquisição, pela empresa Scala AI, de terreno fora da área de risco de alagamento enquanto a população afetada pelo desastre segue no aguardo de moradias em lugar seguro. O poder público, por sua vez, se limita a comemorar a transformação do município em um polo tecnológico.

Segundo a quinta reportagem, publicada em 3 de julho, um projeto de data center no município cearense de Caucaia estima que o consumo diário de energia das instalações será equivalente ao consumo diário residencial de 2,2 milhões de brasileiros. Quem assina oficialmente o projeto é a empresa Casa dos Ventos, mas investigação anterior do site apontou que a empresa chinesa ByteDance, dona do TikTok, é quem irá ocupar as instalações.

A reportagem acerta ao ponderar a alegação da Casa dos Ventos de que o abastecimento de energia será realizado por parques eólicos e solares. Afinal, o fato de a geração de energia não causar a emissão de gases de efeito estufa não significa geração sem impactos ambientais. É papel do jornalismo se debruçar sobre as consequências, na vida da população, de iniciativas do setor privado e de decisões políticas que as corroboram.

Por isso, mais investigações jornalísticas são bem-vindas para ajudar o público a dimensionar a crescente presença da inteligência artificial e das plataformas digitais em nosso cotidiano – inclusive suas repercussões ambientais.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: deborasteigleder@gmail.com.

O valor da hospedagem em pauta: Quais são as implicações para o enfrentamento climático?

Por Letícia Pasuch* e Eloisa Beling Loose**

A pouco mais de quatro meses da COP-30 (30ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climática), que pela primeira vez acontece no Brasil e tem como sede Belém, os altos preços de hospedagem na capital do Pará têm sido um entrave debatido em âmbito internacional. A situação foi amplamente discutida no encontro da Convenção do Clima das Nações Unidas, que encerrou em 26 de junho em Bonn, na Alemanha. Os preços de locações estão três vezes mais altos do que a média cobrada em conferências dos anos anteriores, condição que pode prejudicar a participação dos países e delegações ativistas da sociedade civil que apresentam menos recursos financeiros. O governo federal chegou a anunciar uma plataforma de hospedagem que concentraria informações mais detalhadas, mas, até o momento, não houve avanços, gerando incertezas de ONGs e órgãos internacionais sobre a vinda ao evento. 

Os impasses decorrentes da situação foram divulgados pela imprensa, mas em grande parte, principalmente nos veículos hegemônicos, apenas tratando da crise diplomática e de como o país está sendo visto internacionalmente. Entre as notícias analisadas sobre o tema nas últimas semanas, de 25 de maio a 1º de julho, O Globo trouxe a informação de que, caso não haja rapidez na solução para hospedagem, o Brasil pode receber a formalização de um pedido de mudança de sede da conferência. 

No entanto, verificou-se que a cobertura prioriza a tensão entre o setor hoteleiro, o governo federal e os relatos de representantes de delegações internacionais, com declarações e posicionamentos entre a Secretaria Nacional do Consumidor, o Sindicato de Hotéis e Restaurantes de Belém e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Pará (ABIH-PA). Uma das matérias encontradas para esta análise ouviu um representante de uma ONG internacional ambientalista, que afirma temer que o cenário impossibilite a participação de países em desenvolvimento na discussão do financiamento climático.

O Estadão tratou dos desafios logísticos da conferência, como falta de leitos e alto preço cobrado das estadias, o que levaria delegações a reduzir o tamanho de participantes. Porém, apesar da infraestrutura ter problemas, a presidência do Brasil para o evento foi “muito bem vista” nas reuniões preparatórias para a COP realizadas em Bonn. O destaque dado para a visão da presidência reforça a ideia de que o problema da hospedagem é algo que tem menor peso diante das vantagens de trazer o evento para a Amazônia. Isso também pode ser refletido em matéria do UOL, que traz fala do presidente da COP-30, André Corrêa do Lago, em Bonn, minimizando as dificuldades decorrentes dessa questão, afirmando que a “dimensão simbólica” do evento é mais importante. Essa ideia ignora os impasses econômicos e sociais existentes em Belém e que colocam em risco a participação popular e acessível nas discussões climáticas, pelos visíveis problemas logísticos e de infraestrutura, ressaltando a imagem que o país pode passar. 

Apenas uma reportagem do Estadão voltou-se para as dificuldades financeiras impedirem as participações ao ouvir um embaixador da Noruega, país que mais doa para o Fundo Amazônia, que afirma que os altos custos em Belém são motivo de preocupação, com risco real de que muitos países e representantes da sociedade civil não consigam arcar com os custos de participação. A matéria afirma que lideranças de outros países, como China, Alemanha e Reino Unido, têm expressado ao governo brasileiro temores sobre a infraestrutura para receber as comitivas oficiais e representantes da sociedade civil.

A Folha de S.Paulo informou sobre o atraso da plataforma de hospedagem da COP-30, e que países enviaram cartas expressando preocupação quanto às acomodações,  mas não recebem respostas adequadas do Brasil. Uma fonte ouvida pela reportagem, que representa organizações civis, comenta que a questão do alojamento também envolve inclusão, mas o comentário é breve. 

Outra matéria, também priorizando as polêmicas, relata que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, notificou cada um dos grandes hotéis da cidade, pedindo dados detalhados sobre a evolução anual das tarifas e comparações entre os valores praticados na festa anual do Círio de Nazaré, e em resposta, o Sindicato dos Hotéis acusou o governo federal de querer fazer “imposição de preços”. 

A mídia alternativa expandiu a pauta para debater as consequências de uma possível ausência de atores-chave na tomada de decisões na conferência por conta dos altos valores. O portal Sumaúma, além de informar que os encontros fechados em Bonn levantaram dúvidas sobre a viabilidade da realização da COP em Belém e que países podem formalizar pedido para a mudança da sede, também lembrou que os preços em Belém são três vezes mais altos do que a média cobrada nas conferências passadas, podendo inviabilizar a participação dos países com menos recursos e de ativistas da sociedade civil.

Uma matéria do Brasil de Fato destacou como os problemas logísticos podem afetar ambientalistas e ativistas que não dispõem de financiamento, gerando incerteza sobre quem conseguirá participar. Ainda chama a atenção para o fato dos recursos estarem sendo empregados na faixa da cidade com infraestrutura já consolidada, ressaltando que os leitos provisórios não darão origem a habitações permanentes. 

A matéria traz o debate da falta de política habitacional para Belém ao detalhar que, ao mesmo tempo que é a segunda capital do Brasil com aluguel mais caro – com o risco de que o valor do aluguel siga alto após a conferência –, mais da metade da população da região metropolitana vive em favelas com ausência de sistema de esgoto e abastecimento de água, convivendo com o racismo ambiental. Este Observatório já identificou como as desigualdades estão presentes na cobertura preparatória da COP-30.

A escolha de Belém como sede da COP-30 representa um momento simbólico para o país. Ainda que os desafios logísticos possam acontecer em outras conferências e em outros países, é pertinente recordar que a capital é uma das que sofre com a emergência climática e com a injustiça ambiental. Essa realidade reforça a necessidade de atenção de autoridades para a cidade, não apenas para uma conferência – como o fato da capital do Pará estar “reempacotando” obras antigas de macrodrenagem e saneamento, para drenagem pluvial e urbanização de ruas, que são essenciais para minimizar alagamentos, como retrata reportagem do Infoamazônia em parceria com a Carta Amazônia, mas que foram paralisadas diversas vezes ao longo de quase três décadas. 

Mais do que evidenciar as capacidades de uma cidade sediar ou não um evento internacional, cabe sublinhar que as manifestações da sociedade civil são parte das COPs. O impedimento da participação em razão dos altos custos de acomodação é mais uma barreira impedindo um debate mais amplo do enfrentamento acerca da emergência climática. Do que adianta trazer uma COP para o Brasil se até mesmo os brasileiros estão sendo afastados da conferência? Afinal, esta COP é para quem?

* Jornalista, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: leticiampasuch@gmail.com.

** Professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integrante do Grupo e Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.loose@ufrgs.br.