
Por Gabriella de Barros*
Embora à primeira vista pareçam temas distantes, a guerra no Oriente Médio pode gerar impactos diretos na alimentação no Brasil, especialmente quando observada sob uma perspectiva ambiental. A relação comercial entre Brasil e Irã ajuda a explicar essa conexão: o Irã está entre os principais compradores do milho brasileiro, cuja produção se concentra em estados como Goiás e Mato Grosso, regiões marcadas por expansão agrícola e pressões sobre biomas como o Cerrado.
Ao mesmo tempo, o Irã também se destaca como fornecedor de fertilizantes nitrogenados, em especial a ureia, insumo que ajuda a sustentar o atual modelo de produção agrícola. De acordo com a CNN, os dados de 2025 mostram que Irã e Omã tiveram participação relevante no fornecimento de ureia ao Brasil, respondendo por 18,4% das importações, o que corresponde a aproximadamente 1,5 milhões de toneladas de um total de 8,2 milhões.
Como grande parte dessas exportações depende de rotas que atravessam o Golfo Pérsico, eventuais tensões na região podem comprometer a logística e elevar custos. Esse encarecimento não afeta apenas o mercado, mas reforça a dependência de insumos externos e intensivos em impactos ambientais, colocando em evidência a fragilidade do sistema produtivo, como é apontado pelo estudo de Ana Luíza Cordeiro Lima, da Universidade Federal de Uberlândia, em que cerca de 66% das emissões de óxido nitroso (N₂O) estão ligadas à agricultura, um percentual que abrange não apenas práticas agrícolas, mas também a produção industrial de fertilizantes. O uso excessivo de fertilizantes nitrogenados desregula o ciclo do nitrogênio e está associado a impactos ambientais duradouros.
Para entender como esse assunto repercutiu na imprensa, a análise do Observatório de Jornalismo Ambiental, examinou as abordagens de dois portais sobre os possíveis desdobramentos da guerra nos preços dos alimentos e nos insumos do agronegócio brasileiro.
No portal independente Instituto Conhecimento Liberta (ICL), o tema aparece em um programa do dia 06 de março, no YouTube, que discute como o conflito pode influenciar o acesso à alimentação. A conversa aponta que instabilidades geopolíticas tendem a elevar custos logísticos e produtivos, o que pode dificultar ainda mais o acesso a alimentos. A professora da FGV, Carla Beni, destacou possíveis efeitos sobre a produção agrícola global e o aumento recente nos preços dos fertilizantes. Ainda que o debate avance ao relacionar economia e acesso à comida, há pouco aprofundamento sobre os impactos ambientais associados a esse modelo produtivo dependente de insumos químicos.
Já na cobertura de O Globo, a ênfase recai sobre dados econômicos e projeções de mercado. A notícia indica que milho e soja podem registrar aumentos mais rápidos que produtos de origem animal, embora o encarecimento da ração possa, ao longo do tempo, pressionar também carnes e ovos. As informações se baseiam em dados de entidades do agronegócio e instituições financeiras, como CNA, Anda e Rabobank. No entanto, a análise se concentra no comportamento de preços e na dinâmica do mercado, sem explorar de forma mais ampla as implicações ambientais desse cenário, como o uso intensivo de fertilizantes e seus efeitos sobre o solo e os ecossistemas.
Ao comparar as duas abordagens, percebe-se uma diferença de enquadramento. O ICL busca aproximar o tema da realidade social, enquanto O Globo prioriza indicadores econômicos. Ainda assim, ambas as coberturas deixam em segundo plano a dimensão ambiental do problema, tratando os fertilizantes principalmente como variáveis de custo, e não como elementos centrais de um modelo agrícola com impactos ecológicos relevantes.
Outra lacuna importante está na ausência de contextualização sobre a dependência estrutural do Brasil em relação a insumos importados. Esse fator não apenas expõe a vulnerabilidade do país diante de crises internacionais, mas também levanta questionamentos sobre a sustentabilidade de longo prazo do atual padrão produtivo. Alternativas como a diversificação de fontes, o incentivo a práticas agroecológicas ou a redução do uso de insumos químicos praticamente não aparecem nas narrativas analisadas.
Também chama atenção a limitada diversidade de fontes. Predominam representantes do setor econômico e do agronegócio, enquanto especialistas em meio ambiente, segurança alimentar e políticas públicas são pouco ou nada ouvidos. Essa escolha restringe o debate e reforça um olhar voltado ao mercado, deixando em segundo plano discussões sobre acesso à alimentação, desigualdade social e impactos socioambientais.
Esse enquadramento contribui para uma cobertura que prioriza custos e projeções, mas oferece pouca reflexão sobre quem será mais afetado pelo aumento dos preços e quais são as consequências ambientais desse modelo. Em um contexto de desigualdade, a elevação no valor dos alimentos tende a atingir de forma mais intensa as populações vulneráveis, ao mesmo tempo em que a intensificação produtiva pode ampliar pressões sobre recursos naturais.
Dessa forma, embora as reportagens ajudem a compreender os possíveis efeitos da guerra sobre o mercado agrícola, ainda há espaço para uma abordagem mais integrada. Incorporar dimensões ambientais e sociais permitiria avançar na compreensão das relações entre geopolítica, produção agrícola e segurança alimentar, elementos centrais para o jornalismo ambiental.
*Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestra em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com graduação em Jornalismo pela mesma instituição (2021). Participante no Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e doLaboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mídias Digitais (GEMIDI).
**Revisão: Carine Massierer, integrante do GPJA
Referências
CASTRO, Mayra. Guerra no Oriente Médio já tem impacto em fertilizantes e preço dos alimentos pode subir no Brasil. O Globo, 11 mar. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/03/11/guerra-no-oriente-medio-ja-tem-impacto-em-fertilizantes-e-preco-dos-alimentos-pode-subir-no-brasil.ghtml. Acesso em: 13 mar. 2026.
CNN BRASIL. Ureia dispara e mercado reduz negociações em meio à guerra do Irã. CNN Brasil, [s.d.]. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/ureia-dispara-e-mercado-reduz-negociacoes-em-meio-a-guerra-do-ira/. Acesso em: 17 mar. 2026.
INSTITUTO CONHECIMENTO LIBERTA (ICL). Guerra no Oriente Médio pode encarecer alimentos no Brasil. YouTube, 2026. Disponível em: https://youtu.be/j3HmXbLbaZw. Acesso em: 13 mar. 2026.
LIMA, Ana Luíza Cordeiro. Fertilizantes nitrogenados: uma revisão bibliográfica sobre impactos ambientais. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Química Industrial) – Instituto de Química, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2024. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/42062/1/FertilizantesNitrogenadosUma.pdf. Acesso em: 17 mar. 2026.
