Observação do tema desastre climático nas eleições de Porto Alegre constata descompasso entre a campanha e a preocupação da população

Por Sara Feitosa*, Fiorenza Carnielli**, Ana Noronha***, Ângelo Rockenbach****, Marihá Maris Maria***** e Matheus Oliveira******

O desastre climático que atingiu o Rio Grande do Sul e, especificamente a cidade de Porto Alegre, em maio de 2024,  e como o tema repercute nas eleições municipais na capital gaúcha é o foco de um estudo realizado pelo Observatório de Jornalismo Ambiental e Observatório de Comunicação Pública (OBCOMP) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O tema que mobilizou a agenda pública entre os meses de maio e junho é importante pela sua magnitude expressa nos números de atingidos. Em Porto Alegre, segundo dados da prefeitura, foram 160 mil e 210 pessoas atingidas; 39 mil e 422 edificações; dez bairros (Sarandi, Menino Deus, Farrapos, Humaitá, Cidade Baixa, Floresta, Ponta Grossa, Centro Histórico,São Geraldo e Arquipélago). Mais de 29 mil serviços e 5 mil 496 estabelecimentos industriais tiveram suas atividades interrompidas. Os dados indicam, ainda, que 31 unidades entre hospitais, farmácias populares e clínicas da família  e 160 escolas foram impactadas. O abastecimento de água foi suspenso para cerca de 70% da população e mais de 100 mil imóveis ficaram sem energia elétrica. 

As inundações representaram a maior catástrofe climática já registrada em Porto Alegre. O nível do lago Guaíba atingiu 5,33 metros, ultrapassando a capacidade do sistema municipal de proteção contra enchentes. A inundação foi relacionada às mudanças climáticas, que tendem a intensificar e aumentar a frequência de eventos climáticos extremos. Uma pesquisa divulgada em junho pelo centro de estudos World Weather Attribution indicou que o aquecimento global duplicou a probabilidade de chuvas intensas no Rio Grande do Sul. Além disso, o fenômeno climático El Niño, que terminou em meados de 2024, também teve impacto nesse evento. No entanto, diversos especialistas apontaram falhas na manutenção do sistema anti cheias que protege Porto Alegre. 

Considerando que 2024 é ano de eleição municipal e que a crise do clima já é algo presente no cotidiano das cidades brasileiras, decidimos observar durante a campanha eleitoral como o tema das enchentes – de modo específico – e a crise do clima – de maneira mais ampla – aparece como pauta na agenda pública, seja no discurso dos candidatos ou na cobertura jornalística. Juntamos os conhecimentos de pesquisadores e estudantes da Faculdade de Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS) integrantes de dois observatórios, o de Comunicação Pública (OBCOMP) e o de Jornalismo Ambiental, para realizar um estudo durante as eleições. 

O estudo se justifica tanto pelos dados já elencados neste texto, quanto pelo fato de ser a principal preocupação da população de Porto Alegre, de acordo com os dados da pesquisa realizada pelo Instituto Quaest, divulgada em 27 de agosto de 2024, em que se questionou aos eleitores “quais são os problemas mais graves da cidade” e o tema das enchentes apareceu em primeiro lugar com 33%, como mostra o gráfico abaixo. 

Gráfico 1 – Pesquisa Quaest aponta problemas de Porto Alegre segundo eleitores

Fonte: Quaest 


Estamos realizando a observação divididos em duas equipes de pesquisadores de acordo com o material de coleta e análise, ou seja, um grupo do Observatório de Comunicação Pública acompanha a propaganda eleitoral no Horário Gratuito de Propaganda  Eleitoral (HGPE) e a equipe do Observatório de Jornalismo Ambiental observa a cobertura jornalística da GZH, Correio do Povo, Matinal Jornalismo e Sul21. Além das entrevistas concedidas pelos oito candidatos à prefeitura de Porto Alegre ao Jornal do Almoço, da RBSTV, ocorridas entre os dias 23 e 27 de setembro. 

Uma dificuldade na coleta da propaganda eleitoral do HGPE é o fato de não haver nenhuma obrigação dos candidatos de manter um repositório público da propaganda eleitoral, desse modo, tivemos que buscar os programas veiculados em vários canais além dos perfis oficiais dos candidatos em redes sociais. Como não há nenhuma normatização de disponibilização posterior dos programas levados ao ar constatamos que não houve regularidade e alguns programas não foram postados em canais de mídias sociais. As plataformas utilizadas para a coleta do HGPE foram o YouTube e o reels do Instagram. 

A observação dos programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) do primeiro turno dos candidatos à prefeitura de Porto Alegre mostrou que o problema público do desastre climático não foi tema predominante nas campanhas. No primeiro turno, entre 30/08/2024 e 03/10/2024, houve 30 dias de HGPE (excluindo-se os domingos em que não há programas eleitorais). Como foram três os candidatos à prefeitura com direito ao horário gratuito, o universo de observação foi de 90 programas, um de cada candidato em cada um dos 30 dias. A amostra de análise, no entanto, foi composta por 86 programas, pois não foi possível ter acesso aos programas veiculados nos dias 06/09, 28/09, 29/09 e 01/10 da candidata Juliana Brizola. 

Dos 86 programas analisados, em 44 deles, mais da metade, não há menção às enchentes, seja em relação a aspectos de causas, enfrentamento, consequências ou prevenção. O candidato que abordou o tema em menos programas foi Sebastião Melo, 11 do total de 30. O tema foi tratado em mais programas pela candidata Maria do Rosário, 19 do total de 30. A candidata Juliana Brizola incluiu o assunto em 12 dos seus 26 programas analisados. Os dados completos da observação, que vai se estender pelo segundo turno, permitirão também quantificar o tempo dedicado ao tema, a abordagem das causas, efeitos e soluções para o desastre climático, além de aspectos estratégicos da performance de cada candidato sobre o assunto. Por ora, os dados prévios permitem indicar um descompasso entre a preocupação da população expressa na pesquisa Quaest e a escolha estratégica de campanhas para a abordagem do tema das enchentes. É possível afirmar que no primeiro turno das eleições a intensidade da presença do tema da enchente na propaganda eleitoral não refletiu a força avassaladora de sua presença sobre a cidade.  

*Sara Feitosa é professora de Jornalismo e Publicidade e Propaganda na Unipampa, pesquisadora do NUCOP e coordenadora de Notícias do OBCOMP.

**Fiorenza Carnielli é professora de Comunicação na UFRGS, pesquisadora do NUCOP e coordenadora executiva do OBCOMP.

***Ana Noronha é graduanda de Relações Públicas na UFRGS e observadora voluntária do OBCOMP.

****Ângelo Rockenbach é graduando de jornalismo da UFRGS e observador voluntário do OBCOMP.

*****Marihá Maris Maria é graduanda de jornalismo da UFRGS e observadora voluntária do OBCOMP.

******Matheus Oliveira é graduando de Relações Públicas na UFRGS e observador voluntário do OBCOMP.

*******Este texto foi publicado originalmente no Observatório da Comunicação (OBCOM) e republicado pelo Observatório de Jornalismo Ambiental (OJA). Ambos os observatórios estão atuando em parceria durante as Eleições Municipais de 2024, vigilantes na cobertura e análise dos acontecimentos.

Lembrança do desastre climático que atingiu Porto Alegre foi para o ralo de onde saíram as águas fétidas que inundaram a cidade 

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Isabelle Rieger* e Ilza Maria Tourinho Girardi**

Para esta análise escolhemos algumas publicações do jornal Zero Hora, em sua edição digital, e do Sul21, que colocaram em circulação informações que poderiam ter auxiliado os eleitores na escolha da pessoa que vai governar a cidade no próximo período, caso a questão climática e o desastre que atingiu Porto Alegre não fossem esquecidos por quase 50% dos porto-alegrenses na hora de apertar o botão na urna eleitoral.

Com o título “Porto Alegre lança Plano de Ação Climática para reduzir emissão de gases do efeito estufa e diminuir impactos de eventos extremos”, Zero Hora publicou no dia 26 de setembro uma matéria apresentando os detalhes do plano: “(…) é resultado de cooperação técnica entre a prefeitura de Porto Alegre e o Banco Mundial, firmada durante a Conferência Mundial pelo Clima (COP27)”. Conforme o jornal, a “parceria viabilizou a contratação de uma consultoria técnica formada pela WayCarbon, em consórcio com o ICLEI América do Sul, e as empresas Ludovino Lopes Advogados e Ecofinance Negócios”. ZH informa que o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre reconheceu que o plano já deveria ter sido lançado e que o Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do governo do Estado não foi consultado para a elaboração do plano, pois o comitê foi lançado há três meses. Estranhamente, o plano foi lançado no final da campanha eleitoral, quando na verdade já deveria estar pronto há anos.

Para quem já esqueceu, vamos aos fatos.

No dia 29 de janeiro de 2016, Porto Alegre foi atingida por uma forte tempestade com ventos de até 100 km/h, provocando grandes danos nos parques, nas ruas, nas residências, prédios comerciais, hospitais, além de muito pavor nos porto-alegrenses. O evento denominado de microexplosão aconteceu por volta das 22h, quando a temperatura atingia em torno de 40 graus e grande número de pessoas estava nas ruas e nos bares da cidade.

 A cidade ficou sem luz, sem internet, sem sinal de celular, com vias interrompidas devido à queda de árvores. O Parque Marinha do Brasil foi devastado e muita gente precisou ser atendida no Pronto Socorro devido aos ferimentos. Outras cidades gaúchas já haviam passado pelo problema em outros momentos ou passaram depois.

Anos antes, em 27 de março de 2004, a cidade de Torres e o sul de Santa Catarina foram atingidos pelo furacão Catarina, com ventos de 180 km/h, assustando, provocando grandes danos e deixando 11 mortos e pessoas feridas.

Em 2006, o Greenpeace lançou o documentário e o relatório Mudanças do clima, mudanças de vida, com depoimento de pessoas atingidas pelos efeitos “das mudanças climáticas na Amazônia, no Nordeste, no Sul e na zona litorânea brasileira. (…) O relatório e o documentário mostram ainda as relações entre a destruição da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e o aquecimento global, e como o desmatamento e as queimadas fazem do Brasil o quarto maior emissor de gás carbônico do planeta.” O lançamento do documentário em Porto Alegre impactou ambientalistas e a imprensa que compareceram na solenidade.

Voltando para 2024, em 26 de abril o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), emitiu um alerta de tempestades para o estado. Durante o mês de maio vivemos a maior tragédia climática de todos os tempos.

Vários foram os eventos extremos, relatórios da ONU, alertas dos cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e das universidades brasileiras, mas o negacionismo climático dos políticos brasileiros deram o tom para que o país, estados e cidades retardassem o planejamento das medidas de enfrentamento e adaptação para orientar a população no momento da emergência. O ranço atingiu até a forma como o movimento ecológico foi tratado. No entanto, em pleno período eleitoral, Porto Alegre lança seu Plano de Ação Climática.

Retomando a análise, notamos que o desastre climático que atingiu a cidade não teve a presença qualificada ao longo da campanha. O tema foi mencionado em editoriais, em notícias quase sempre de forma superficial. Em raras exceções o tema foi aprofundado. O assunto deveria estar no radar dos candidatos, eleitores e veículos da imprensa. Deveria ser tratado com profundidade diariamente.

Poucas matérias se destacaram na última semana relacionando as inundações e enchentes de maio às mudanças climáticas e à flexibilização da legislação ambiental.

Na edição de 4 de outubro, o Sul21 traz a matéria “Eleições 2024: gestão de risco deve ser prioridade em Porto Alegre”, produzida pela Agência Brasil, destacando a avaliação do professor Rualdo Menegat, do Instituto de Geociências da UFRGS sobre a campanha eleitoral. Para ele, o desastre que atingiu Porto Alegre não está tendo a centralidade merecida nas campanhas eleitorais. “Esse tema deveria estar de modo central, porque não se trata apenas de recuperar e fazer obras de proteção, mas se trata fundamentalmente de ter uma agenda política e administrativa que possa mostrar para a cidade que é possível enfrentar tempos severos no século 21 morando aqui em Porto Alegre. E isso é um tema que não pode ficar para um outro momento que não esse, que é o momento de definição do destino da cidade”.

Para o professor Menegat, a pauta está presente de um modo muito fraco tanto por parte dos candidatos a prefeito quando dos candidatos à Câmara dos Vereadores. Para ele, a comunidade deve participar da elaboração das estratégias de gestão de risco da cidade. “Precisa ser articulado de um ponto de vista científico e comunitário. Precisa estar na palma da mão dos moradores de cada comunidade, que deve saber dos riscos, das vulnerabilidades do lugar em que vivem e principalmente também em termos de elaborar planos de emergência, planos de prevenção, de desenvolver uma inteligência social do lugar que habilite essas comunidades a terem uma perspectiva de segurança e ao mesmo tempo de saber agir quando é necessário”.

Em matérias publicadas em setembro por GZH, os candidatos que foram para o segundo turno em Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT) apresentam visões distintas quanto à preservação ambiental e gestão dos recursos naturais da cidade, especialmente no contexto das recorrentes enchentes e da crise climática.

Sebastião Melo, atual prefeito, destacou a importância da governança climática em seu discurso. Propôs a criação de um plano de contingência para mitigar desastres, mencionando a recuperação e manutenção dos sistemas de drenagem e proteção contra cheias. No entanto, essa proposta contrasta fortemente com a realidade enfrentada durante sua gestão. As enchentes de maio de 2024 expuseram falhas críticas em sua administração, evidenciando a incapacidade do governo municipal em cumprir promessas de manutenção e melhorias na infraestrutura. Muitos dos sistemas de drenagem permanecem negligenciados, as casas de bombas sem funcionamento adequado, e a falta de uma política preventiva eficaz contribuiu para a vulnerabilidade da cidade frente às chuvas intensas.

Além disso, a visão de Sebastião Melo em relação ao meio ambiente tem se mostrado insuficiente para enfrentar os desafios climáticos de maneira abrangente. A proposta de combinar crescimento urbano com preservação ambiental não tem sido bem-sucedida na prática, resultando em degradação dos recursos naturais, como morros, banhados e cursos d’água. O enfoque excessivo em respostas emergenciais, em vez de planejamento e prevenção, revela uma compreensão limitada da complexidade da crise ambiental. O modelo de desenvolvimento promovido por Melo frequentemente favorece projetos de expansão urbana sem a devida consideração dos impactos ambientais de longo prazo.

Em contraste, Maria do Rosário adotou uma postura mais crítica ao modelo de gestão atual e à visão de Melo sobre o meio ambiente. Defendeu um novo modelo de governança ambiental que não apenas reaja aos desastres, mas que também previna e integre a sustentabilidade ao planejamento urbano. Sua proposta de transformar Porto Alegre em uma “cidade esponja” e criar corredores verdes reflete uma abordagem mais sistêmica e integrada, voltada para a adaptação da cidade às mudanças climáticas. Rosário também critica a falta de manutenção contínua dos sistemas de drenagem e a terceirização de responsabilidades na gestão pública, práticas que ela identifica como causas centrais para os desastres recentes.

A gestão ambiental de Porto Alegre, especialmente durante o período de Melo, tem deixado a desejar, conforme Rosário. Embora discursos sobre governança climática sejam recorrentes, a falta de ações concretas e sustentáveis tem resultado em consequências graves para a cidade. Para que Porto Alegre se torne verdadeiramente resiliente, é fundamental que a administração municipal adote práticas que priorizem a preservação ambiental de forma proativa, com políticas que vão além das respostas emergenciais e que integrem o meio ambiente ao planejamento urbano, em vez de tratá-lo como uma questão secundária.

Já o jornal Sul21 publicou no dia 3 de outubro entrevistas com os candidatos Felipe Camozzato, do Partido Novo, e Maria do Rosário, do PT. Os demais candidatos se recusaram a dar entrevista.

Maria do Rosário criticou a forma com a atual administração lida com a questão ambiental. Disse que a falta de conservação do sistema de defesa de enchentes de Porto Alegre gerou uma tragédia que tem “uma dimensão ambiental, que é o resultado de toda a falta de cuidado global com a natureza, mas aqui em Porto Alegre temos uma tragédia de gestão, que chegou ao seu esgotamento”. Afirmou também que não vai terceirizar responsabilidades, nem privatizar os espaços públicos. Pretende inaugurar um novo sistema de gestão com profundo compromisso ambiental, com corredores verde, cidade esponja, que já existe aqui e com o funcionamento do Comitê da Bacia do Guaíba. Afirmou ainda que pretende valorizar a inteligência pública para antecipar os problemas e fazer a gestão de risco da cidade.

Felipe Camozzato mencionou a responsabilidade do atual prefeito pela falta de manutenção do sistema de proteção contra as enchentes, mas também de administrações anteriores. Disse que pretende reconstruir e manter o sistema de proteção contra cheias da cidade e combinar a preservação ambiental cuidando dos morros, cursos d’água, banhados e matas, mesclando com o crescimento urbano.

Esperávamos encontrar matérias nas quais os jornalistas fossem mais incisivos e demonstrassem engajamento, como ocorreu no jornal Sul 21.

As investigações realizadas pelo Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS apontam várias indicações de como fazer uma cobertura de temas ambientais de forma adequada. Uma delas é o engajamento do jornalista na defesa do meio ambiente, o que exige saber ambiental e o comprometimento com a mudança de pensamento. O jornalista uruguaio Victor Bacchetta inspira o fazer jornalístico afirmando que o jornalismo ambiental “considera os efeitos da atividade humana, desde a ciência e a tecnologia em particular, sobre o planeta e a humanidade. Deve contribuir, portanto, com a difusão de temas complexos e análise de suas implicações políticas, culturais e éticas. É um jornalismo que procura desenvolver a capacidade das pessoas para participar e decidir sobre sua forma de vida na Terra, para assumir em definitivo sua cidadania planetária”. (Bacchetta, p.18, 2000)

Na cobertura até o segundo turno é importante que o jornalismo cumpra a sua função de informar e explore os modelos de gestão que estão em disputa. Não devemos esquecer que para estar de acordo com os compromissos assumidos na COP 211, de limitar o aumento da temperatura do planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais, todas as cidades devem voltar-se para a preservação ambiental e o prefeito deverá administrar com a natureza e não contra ela.

Referências

BACCHETA, Victor. El Periodismo Ambiental. In: BACCHETTA, Victor.(coord.) Ciudadania Planetária: temas y desafios del periodismo ambiental. Montevideo, IFEJ, 2000.

1COP 21 é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorreu em Paris em 2015, quando os 195 países presentes, se comprometeram a limitar o aumento da temperatura do Planeta até 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais.

*Isabelle Rieger é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: belle.rieger@gmail.com.

**Ilza Maria Tourinho Girardi é jornalista, professora titular aposentada/UFRGS, professora convidada no PPGCOM/UFRGS e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental CNPq/UFRGS e coordenadora do Observatório do Jornalismo Ambiental/Fabico/UFRGS. E-mail: ilza.girardi@gmail.com.

Como Zero Hora pauta a questão climática no contexto eleitoral de POA

Imagem:  Isabelle Rieger/Sul21

Por Daniela Neves* e Caroline Fraga **

Fortes chuvas voltaram ao Rio Grande do Sul nesta semana, reforçando a importância de discutir a gestão ambiental e preventiva dos municípios e do governo. A uma semana das eleições municipais, é possível fazer uma análise de como um dos principais periódicos do Estado, o Zero Hora, pautou o tema das enchentes associado com as eleições.

Esta análise é feita dentro do conceito de agenda setting (Traquina, 1995) que indica a forma com que a mídia tradicional agenda alguns temas, em detrimento de outros. Os estudos de definição de agenda midiática partem do princípio de que, quando o assunto é pautado, ajuda a despertar interesse nas questões salientadas pela mídia (Brasil e Capella, 2015).

Como pesquisadoras que acompanham a interface das eleições com o clima, no âmbito do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental, analisamos as edições impressas entre 16 de agosto, início oficial da campanha, e 23 de setembro, em um total de 39 dias. O foco foi observar como a questão climática e a repercussão do desastre que eclodiu em maio em Porto Alegre aparecem na cobertura das eleições municipais.

Nas edições da primeira semana de campanha, o periódico não produziu material que relacionasse as eleições à enchente. Porém, na segunda semana, a partir de 25 de agosto, o tema apareceu na fala dos candidatos. Na edição do dia 25, em publicação que relatava a campanha de rua dos prefeituráveis, o texto cita uma fala do atual prefeito Sebastião Melo (MDB) dizendo que a atual gestão não poderia ser “a única responsável pelo sistema de proteção contra cheias”. Ainda declarou que “já tem soluções em andamento, como as obras de recuperação dos diques do Sarandi, na Zona Norte” .

Nos dias 28 e 29, ganha destaque em ZH o resultado de uma pesquisa eleitoral, pela qual os porto-alegrenses opinam sobre as maiores preocupações, o que exigirá atenção do futuro prefeito: a enchente foi citada por 33% dos eleitores (Pesquisa Quest – Período: de 24 a 26 de agosto; amostra: 900 entrevistados; margem de erro: três pontos percentuais para mais ou menos, nível de confiança: 95%; registro: RS-09561/2024 no TSE).

Na terceira semana avaliada, três matérias falaram sobre o pleito: início do horário eleitoral, conteúdo dos planos de governo e a cobertura de uma reunião dos candidatos com entidades. Os conteúdos foram mais “expositivos”, além de nenhum ter sido exclusivamente referente à enchente.

Entre o final de agosto e 5 de setembro, apenas duas publicações falavam sobre eleições e enchentes.

O jornal ZH pautou claramente o assunto no dia 10 de setembro, ao falar sobre a substituição, ou não, do Muro da Mauá. Contextualiza sobre os projetos para modificação do muro de contenção e, após esse texto amplo da situação, pergunta aos quatro candidatos (as) se são a favor ou contrários à substituição do muro.

Na semana de 16 a 23 de setembro, chama atenção como a enchente aparece em discussões diversas em eventos de campanha, como encontro com entidades empresariais. No evento, os candidatos se posicionam sobre a responsabilidade pelos estragos ocorridos na cidade. O atual prefeito volta a afirmar que a gestão não pode ser responsabilizada, enquanto candidatos de oposição dizem que o desastre não foi uma surpresa e que a gestão municipal poderia ter agido para prevenir e gerir melhor a situação.

Das edições analisadas no período, em uma o tema partiu da redação, na pergunta realizada aos candidatos sobre o Muro da Mauá. No restante, algumas declarações de candidatos sobre a questão enchente aparecem dentro de publicações cujos ganchos das matérias são outros assuntos.

Referências

BRASIL, Felipe G., CAPELLA, Ana Cláudia. O Processo de Agenda-Setting para os Estudos das Políticas Públicas. Revista de Pesquisa em Políticas Públicas. Edição nº 06 – 1º Semestre de 2015.

TRAQUINA, Nelson. “O paradigma da agenda-setting: Redescoberta do poder do jornalismo”. In: Revista ComunIcação e Linguagens. Lisboa: 1995.

*Daniela Neves é doutora em Ciência Política e professora do curso de Administração Pública e Políticas Públicas da Universidade Federal da Integração Latino Americana (UNILA).

**Caroline Fraga é estudante do curso de Jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis – Uniritter.

Jornalismo e o “espírito da época” nas cheias de maio

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Sérgio Pereira*

O jornal, a revista que não tenha conseguido mais manter sua conexão com o espírito da época se acaba sem poder ser salvo” (Groth, 2006, p. 207) Essa frase do jornalista alemão, publicada na década de 1960, parece dizer o óbvio, mas a história da humanidade é uma contínua repetição de equívocos óbvios.

No caso da imprensa gaúcha em setembro de 2024, a citação de Otto Groth nos remete à maior catástrofe climática já vivida no Estado e, claro, sua repercussão nas eleições municipais deste ano.

Estamos a 16 dias das urnas e grande parte dos cenários ainda parece incerto na maioria das capitais brasileiras. É o caso de Porto Alegre, com as pesquisas, até o momento, indicando que provavelmente haverá segundo turno. O fator que todos imaginavam que seria fundamental na balança de votos – era o que se dizia há algumas semanas– seria a catástrofe ambiental de maio deste ano, a maior enchente registrada na história do Rio Grande do Sul. Afinal, foram mais de 170 mortos, milhares de famílias desabrigadas e mais de 400 cidades atingidas.

Na verdade, só saberemos o verdadeiro peso das cheias e inundações nas urnas após a contagem final dos votos, ainda na noite de 6 de outubro ou no dia 27 do mesmo mês, caso se confirme o segundo turno na capital gaúcha. Pesquisa espontânea, registrada na Justiça Eleitoral com o número RS-02917/2024, publicada na página 3 da edição de 4 de setembro do Correio do Povo (veja aqui a postagem no site do jornal) apontava que há cerca de 40% de eleitores que ainda não sabem em quem irão votar. E outros 13% indicam que votarão branco ou nulo.

A pesquisa espontânea, cabe lembrar, pergunta em quem o entrevistado votará, sem apresentar a lista de concorrentes como no caso da estimulada. A espontânea é aplicada para verificar a lembrança do eleitor em relação candidatos e também ajuda a aferir o grau de importância que dá ao assunto. O panorama, portanto, é de mais incertezas do que confirmações.

Enquanto isso, em uma breve análise, os veículos de imprensa hegemônicos do RS, aparentemente com a desculpa de não tentar influenciar os eleitores, têm tratado o maio de 2024 de forma burocrática, com raras exceções. As matérias sobre o tema agora estão mais restritas a expor a demora na chegada e aplicação dos recursos financeiros prometidos. Pouco se escreve sobre responsabilização, que é o ponto reforçado pelos(as) principais oponentes ao atual mandatário da capital gaúcha.

Numa análise da cobertura da imprensa gaúcha envolvendo as tags “eleições” e “enchente”, um dos destaques positivos fica por conta do Correio do Povo, que entre os dias 20 e 21 de agosto entrevistou os quatro principais concorrentes à prefeitura de Porto Alegre especificamente sobre a catástrofe deste ano. Com a cartola “Os candidatos e as cheias”, o impresso reservou uma página e meia para cada um dos principais disputantes do pleito responderem sobre alguns pontos das chuvas severas de maio. As matérias, assinadas pelas jornalistas Flavia Bemfica e Mauren Xavier, abordaram questões como soluções emergenciais, projetos futuros, recursos financeiros para as obras, muro da Mauá, o retorno ou não do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), sistema de alertas, casas de bombas, parcerias privadas, entre outras. A série pode ser acessada nos links, pela ordem de postagem: candidato 1, candidata 2, candidata 3, candidato 4.

Já de 27 a 30 de agosto, o CP entrevistou os quatro postulantes a vice-prefeito. O material, creditado ao jornalista Diego Nuñez, foi mais generalista, com o objetivo principal de apresentar esses concorrentes, muitas vezes não tão conhecidos, mas que eventualmente podem até acabar assumindo no lugar do titular por um grande período. Desta vez, o tema “cheias”, em alguns casos, sequer apareceu, ou por ausência de questionamento ou por omissão dos próprios entrevistados, já que todos tiveram a chance de responder sobre os principais desafios da cidade. Vídeos com as entrevistas dos vices podem ser conferidas em “Eleições 2024: conheça os candidatos à vice-prefeitura de Porto Alegre”.

O Correio do Povo merece reconhecimento principalmente pelas entrevistas com os quatro concorrentes majoritários enfocando a enchente. O leitor do CP teve a oportunidade de tomar conhecimento sobre a visão do seu candidato em relação à pior tragédia climática vivida pelos habitantes de Porto Alegre. Aqui, o jornal cumpriu com eficiência a sua finalidade de informar. Como nos lembra Mar de Fontcuberta (apud REGINATO, 2019 p. 34), “uma pessoa desinformada é incapaz de tomar decisões adequadas nos diversos âmbitos da vida”. E é justamente isso que estamos precisando agora, mais do que nunca, de informação qualificada que nos permita não esquecer o “espírito da época” e tomar as decisões mais importantes. Como nos ensinaram as cheias de maio, uma escolha equivocada agora poderá ser fatal mais adiante.

Referências

GROTH, Otto. Tarefas da pesquisa da ciência da cultura. In: MAROCCO, B.; BERGER, C. (Orgs.) A Era Glacial do Jornalismo: teorias sociais da imprensa. Porto Alegre: Sulina. v. 1 (2006). p.182-310.

REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do Jornalismo. Florianópolis: Editora Insular, 2019.

*Sérgio Pereira é jornalista, servidor público, mestre em Comunicação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (UFRGS/CNPq). E-mail: sergiorobpereira@gmail.com.


Há cortina de fumaça nas eleições municipais?

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Eutalita Bezerra*

Nas homes dos portais de notícia do Rio Grande do Sul, não é difícil visualizar menções à fumaça das queimadas que chegou ao estado nos últimos dias, mudando o horizonte de Porto Alegre. Por outro lado, quando se colocam em perspectiva as publicações destes veículos sobre as eleições que irão ditar os rumos da gestão ambiental no município nos próximos anos, a questão climática ainda é pouco abordada. Já a fumaça sequer existe.

Numa avaliação das publicações feitas por GZH em setembro, apenas quatro publicações abordaram a pauta eleitoral fazendo menção a qualquer tema relacionado ao meio ambiente. Nenhuma delas abordou as queimadas. Fizemos, então, um exercício contrário: o de observar como as publicações sobre as queimadas implicavam o ente público. O levantamento apontou 18 publicações sobre o assunto, dos quais três traziam fontes da administração pública, sendo estado e município.

Todas as inserções, cabe dizer, foram feitas no mesmo dia, 10/9. Citando a administração pública municipal no que concerne às queimadas, a primeira publicação afirma que “A instalação de medidores da qualidade do ar em Porto Alegre, prometida pela prefeitura na COP 28, não tem data para ocorrer”. A publicação contextualiza a situação, questionando a gestão municipal sobre o assunto. O órgão a se manifestar é a Secretaria de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), que explica sobre a etapa de aquisição do referido material – ainda sequer entrou em fase licitatória. O órgão, em nota, ainda transfere a responsabilidade pelo monitoramento do ar ao estado.

A resposta do estado é a mesma utilizada na notícia “Em dia com sol alaranjado, Porto Alegre tem qualidade do ar “insalubre”, segundo agência suíça”. Nesta, o repórter traz como uma das fontes a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Estado. Em nota, o órgão afirma que a qualidade do ar no município é boa, conforme monitoramento da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), informação que contrasta com a de outra fonte citada na matéria, a agência suíça IQ Air, segundo a qual “a qualidade do ar em Porto Alegre nesta terça-feira (10) está “insalubre””.

Imagem: Print da matéria da GZH

A terceira publicação está focada no município. Em “Secretaria da Saúde de Porto Alegre divulga orientações para população se proteger do efeito das fumaças no RS” ,  a administração municipal assume protagonismo, indicando como os afetados pela situação podem mitigar seus impactos. O comunicado filia-se ao Ministério da Saúde ao admitir condutas simples que podem proteger a população dos efeitos nocivos da fumaça. Percebemos, com esta análise, que, mesmo que se avalie a situação das queimadas como uma questão maior que o município, é também nele – e a partir dele – que as repercussões na saúde pública mais se manifestarão. Desta forma, ao jornalismo, quando atua no tema “Eleições”, caberia questionar os candidatos sobre problemas ambientais, não excluindo estes que já nos afetam de maneira urgente, permitindo, também, que a população entenda a quem e como se pode cobrar atenção a estes problemas.

*Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, membro do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental.

Enchentes e seus desdobramentos na disputa pelos votos na eleição de Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger / Sul21

Por Patrícia Kolling*

Na sexta-feira, dia 30, iniciou a propaganda eleitoral de rádio e televisão dos candidatos à prefeitura do Porto Alegre. Como era de se esperar, as ações para evitar futuras enchentes foram abordadas pelos três candidatos com propaganda no rádio e tv. A imprensa noticiou o conteúdo dos primeiros programas, descrevendo cenários e reproduzindo falas e deu espaço para a questão ambiental. No site e  jornal Correio do Povo o tema esteve na manchete “Enchentes pautam o primeiro dia da propaganda no rádio e tv”. Já na Zero Hora a chamada foi: “Como foi o primeiro programa de TV dos candidatos a prefeito de Porto Alegre”.

O Correio do Povo destacou a abordagem diferenciada de cada um dos candidatos sobre o tema. A candidata Juliana Brizola, conforme o jornal, “tratou o trauma das enchentes de um modo suave, falando de um sentimento “ferido” que a cidade precisa recuperar, destacando a importância de recomeçar e construir uma vida nova”. Conforme o jornal, a candidata citou novamente as enchentes ao enfatizar: “É hora de saber quem segurou a tua mão e quem largou a tua mão nestes últimos tempos. Porto Alegre precisa de confiança, de alguém que garanta segurança”. O jornal Zero Hora não relacionou a fala de Juliana Brizola sobre confiança com as enchentes.

O candidato e atual prefeito Sebastião Melo, conforme o Correio do Povo, iniciou o programa ressaltando os eventos climáticos enfrentados por nações de todo o mundo. O site cita Melo evidenciando que os eventos de maio foram “a maior enchente”, e que “não precisa de culpados, mas de soluções”. O material ainda mostra Melo solidário diante de pessoas que perderam bens, casas e negócios e agradecendo aos voluntários. O Jornal Zero Hora também destacou os eventos climáticos no resto do mundo e a solidariedade do candidato aos atingidos.

O Correio do Povo informou que a candidata Maria do Rosário reforçou a necessidade constante da manutenção do sistema contra as cheias. A notícia reforça que a candidata elencou ações iniciais que pretende adotar contra novas inundações. O Jornal Zero Hora destacou Rosário ressaltando providências que pretende tomar para prevenir as cheias e realizar obras de proteção da cidade.

Os textos publicados pela Zero Hora e o Correio do Povo trazem literalmente uma descrição dos programas da propaganda eleitoral dos candidatos, em nenhum momento contextualizando ou questionando as falas. Provavelmente, o imediatismo da publicação e a proposta da pauta, de noticiar o que foi apresentado nos programas, impediram a abordagem mais crítica. Precisamos considerar que nos programas, os candidatos não aprofundaram as temáticas, não especificando como iriam efetivar muitas das promessas e nem detalhando projetos de cuidados ambientais a longo prazo. Espera-se que os dois maiores veículos de comunicação do Estado, nas próximas semanas, façam uma análise aprofundada, considerando a complexidade ambiental.

O site de notícias Sul 21 e o Matinal não trouxeram nenhuma notícia sobre a propaganda eleitoral no rádio e tv, porém, ambos noticiaram como as enchentes aparecem nos planos de governo dos candidatos. O Sul 21 fez isso em matéria publicada no dia 28 de agosto, descrevendo as propostas de cada candidato e contabilizando quantas vezes as palavras enchente e dique aparecem nos planos.

Já o Matinal reproduziu um texto da Agência Pública, em 05/09, com a manchete: “Após tragédia, clima entra nos planos de candidatos a Porto Alegre, mas com limitações”. Para produzir o texto a Agência Pública acessou os planos de governo, acompanhou debates e entrevistas e ouviu especialistas.

O texto destaca que a tragédia fez com que os candidatos inserissem em seus planos propostas mais ou menos concretas para lidar com a mudança do clima. Porém, os especialistas alertam que os candidatos não deixam claro como as medidas serão implementadas ou atualizadas e trazem poucas alternativas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, Guilherme Marques, destaca a falta de atenção às ações mais ligadas à governança, como planos de contingência, revisão do Plano Diretor, criação de órgãos voltados a questão do clima e implantação de sistemas de monitoramento e alerta.

A abordagem do site Matinal, uma análise crítica e questionadora dos planos dos candidatos, com a participação de especialistas, permite ao eleitor compreender o que há de concreto e o que são apenas promessas nas falas/planos dos candidatos.  Além disso, oportuniza pensar o meio ambiente em toda a sua complexidade, pensando que as cheias não podem ser vistas como algo isolado, mas como consequência de todo um desequilíbrio ambiental. Seria interessante, porém, se o site tivesse apresentado uma análise mais detalhada de cada plano de governo.

Para encerrar citamos as entrevistas que a Rádio Gaúcha, programa Atualidades, está fazendo com os candidatos do dia 02 a 11 de setembro. Até ontem, dia 05, quatro candidatos haviam sido entrevistados. A primeira pergunta em todas as entrevistas foi sobre as enchentes, instigando os candidatos a falarem sobre as medidas que tomariam para evitar problemas com as chuvas. Os candidatos citam obras e ações que irão fazer, se eleitos. Uma pergunta dos jornalistas chamou atenção: houve questionamento sobre medidas especiais para preservar o aeroporto e as estações de trens. Porém, não faltaria uma pergunta sobre medidas especiais para preservar os bairros mais carentes do município e certamente muito afetados?

Como formadora de opinião, a imprensa precisa superar a superficialidade, e questionar os candidatos sobre as possíveis atitudes para prevenir e mitigar as causas e consequências dos desastres ambientais, tão urgente no mundo, e especialmente no RS, que ainda sofre com os efeitos da tragédia. Esperava-se que jornalistas, que estiveram à frente da cobertura, estivessem mais incisivos nos questionamentos aos candidatos, trazendo ao debate as responsabilidades, as causas, as relações com a crise climática e as ações de que podem promover mudanças a médio e longo prazo, além de questões sobre justiça climática.

Patrícia Kolling, doutora em Comunicação pela UFRGS, docente no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus do Araguaia, integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: patikolling@gmail.com

A questão climática no centro das eleições de Porto Alegre

Imagem: Isabelle Rieger/Sul21

Por Clara Aguiar* e Eloisa Beling Loose **

A capital gaúcha, assim como centenas de cidades do Rio Grande do Sul, foi fortemente afetada pelo desastre climático que eclodiu no início de maio. Um impacto que persiste de diferentes maneiras a depender da região e das condições socioeconômicas de quem perdeu muito. Com o calendário das eleições municipais já anunciado, partidos e políticos tiveram que rever suas estratégias e incluir um rol de palavras que até então pouco apareciam nos discursos e propostas de governo, como mitigação, adaptação e resiliência.

Já no final de junho, GZH reportava que os pré-candidatos estavam reavaliando alianças e propostas a fim de contemplar em suas campanhas a perspectiva da prevenção aos riscos climáticos e também medidas para reconstruir Porto Alegre. Na reportagem é mencionado que “[a] despeito das diferenças políticas e ideológicas, todas as candidaturas procuraram o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) para auxiliar na busca por maior proteção aos eventos climáticos”. O IPH, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tornou-se um dos protagonistas no gerenciamento das enchentes, como referência para a tomada de decisões acerca do enfrentamento do desastre.

A dinâmica eleitoral alterou-se, ainda que não existam novidades em termos de candidatos. A pauta das eleições voltou-se para os desafios impostos pela crise climática a partir das consequências das enchentes. Desde falar sobre a manutenção das casas de bombas, o reforço das estruturas de contenção das cheias e a melhoria do sistema de alerta até a adequada destinação dos resíduos. Vários veículos (GZH, Correio do Povo, Folha de S.Paulo, Gazeta do Povo e Sul21, por exemplo) destacaram que as eleições de Porto Alegre devem discutir respostas para a tragédia climática sentida na pele pelos moradores.

Em uma entrevista concedida à Agência Pública sobre como os desastres climáticos podem influenciar a eleição de prefeitos, o pesquisador da Fundação Getúlio Vargas Ítalo Soares destacou que já existem estudos significativos mostrando que os eleitores consideram fenômenos climáticos ao escolher seus líderes. Secas e enchentes podem ser vistas como falhas na gestão de políticas públicas, como planejamento urbano, saneamento básico, manejo de resíduos e fluxos de água, entre outros. Com o agravamento dos fenômenos climáticos extremos, a relação entre eles e as eleições deve se tornar cada vez mais evidente.

Os desastres podem ser entendidos como eventos externos ao sistema político que exigem uma resposta do Estado. Eles introduzem na agenda governamental situações que necessitam de gerenciamento rápido e podem expor falhas crônicas do governo, como deficiência técnica, falta de orçamento, corrupção e violência estatal. Nesse contexto, a crise climática pode representar um fator constante de tensão na democracia, desafiando a legitimidade do sistema político. Nesse sentido, o jornalismo precisa dar visibilidade às disputas que cercam o debate sobre clima, desastres e governança de riscos.

No cenário eleitoral de Porto Alegre, a série de entrevistas “Os Candidatos e as Cheias”, do Correio do Povo, visa descobrir as propostas para ações emergenciais diante das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, como reparação de diques, casas de bombas e fechamento de comportas, além de questões sistêmicas mais amplas. Perguntas como “O que o senhor/senhora fará a partir de 1º de janeiro para evitar novas enchentes na cidade?” e “O Muro da Mauá será mantido ou removido?” buscam entender as medidas estruturais que podem impactar tanto a curto quanto a médio prazo, dependendo de sua manutenção ou remoção.

Há também perguntas sobre a gestão dos recursos hídricos, como “O senhor/senhora pretende privatizar o Dmae?” e “O senhor/senhora considera recriar o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) ou uma estrutura similar?”. Para propostas de longo prazo, a série questiona sobre sistemas de alerta e a viabilidade financeira das ações, com perguntas como “Como financiar essas ações? Como garantir recursos para isso?” e “O senhor/senhora contratará consultorias internacionais?”. Além disso, há questões sobre o início das ações e a responsabilidade pela drenagem pluvial urbana, como “Por onde o senhor/senhora começará as ações?” e “Quem será responsável pela drenagem pluvial urbana?”. Muitas dessas perguntas abordam medidas que podem parecer paliativas, se não forem integradas em um plano abrangente.

Importante notar que, embora exista uma ênfase sobre os desdobramentos do desastre e o que seria necessário para evitar outros, as causas acerca do que nos trouxe até aqui, relacionadas ao que se entende hegemonicamente como desenvolvimento, não foram questionadas e nem trazidas pelos candidatos. Quanto da vegetação nativa foi suprimida no RS, agravando as consequências das enchentes? Como a flexibilização das normas ambientais está relacionada com os impactos das chuvas intensas? Por que o cuidado ambiental é desvinculado das respostas mais imediatistas sobre enfrentamento da crise climática?

Percebe-se que as perguntas e respostas da série “Os Candidatos e as Cheias”, assim como grande parte dos enquadramentos jornalísticos, tendem a abordar predominantemente aspectos técnicos, sem promover uma discussão mais profunda e ampliada, que extrapole soluções mais imediatistas. Esse enfoque acaba por limitar o papel do jornalismo no debate sobre a educação ambiental diante dos eventos extremos e a necessária mudança de mentalidade diante da emergência climática. Esta é uma visão recorrente daqueles que ainda fragmentam as pautas e os conhecimentos, dificultando que os públicos percebam que há relações entre as decisões econômicas, políticas, sociais, culturais e ambientais. Um dos esforços do Jornalismo Ambiental é evidenciar uma leitura sistêmica dos acontecimentos, visibilizando as conexões ocultas mencionadas por Fritjof Capra.

Além das ações emergenciais para lidar com as cheias, os jornalistas poderiam ter questionado os candidatos sobre estratégias integradas para enfrentar as causas dos eventos extremos e a formação de uma cultura de percepção de riscos de desastres. Questionamentos sobre a implementação de campanhas educativas sobre riscos climáticos e a organização de exercícios de simulação de desastres para preparar a população a fim de fornecer instruções claras sobre o que se deve fazer em situações de iminência ou ocorrência de desastres. Poderiam trazer à tona a falta de cultura de prevenção. Debater os fatores que geraram a vulnerabilização das pessoas e que ampliaram sua exposição às chuvas e enchentes também é algo que requer mais atenção dos jornalistas, sobretudo em tempos de campanha eleitoral. Não há como falar de soluções para um problema sem expor e rever o que desencadeou o contexto para a eclosão do desastre.

*Clara Aguiar é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: claraaguiar14@hotmail.com.

**Eloisa Beling Loose é jornalista e pesquisadora na área de Comunicação de Riscos e Desastres. Vice-líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). E-mail: eloisa.beling@gmail.com.

A ponte informacional e o jornalismo independente na resistência do povo Guarani-Kaiowá

Imagem: Pedro Alves/Solidariedade Guarani-Kaiowá

Por Leda Evangelista* e Cláudia Herte de Moraes **

Como forma de valorizar o jornalismo independente e focado nos problemas reais dos povos originários, trazemos o caso das retomadas em Mato Grosso do Sul. As chamadas retomadas, são ações organizadas para garantir a efetivação dos direitos às terras da população indígena brasileira. O Brasil de Fato aponta que, com o agravamento do descumprimento constitucional em demarcar os TI no prazo de cinco anos – contando com a promulgação de 1988 – e o uso da tese do marco temporal – que reinterpreta a Constituição e afirma que os indígenas só teriam direito às terras se houvesse a data de promulgação de 5 de outubro de 1988 – surgiram as retomadas. 

Durante a noite de sábado, 3 de agosto, ao menos 11 Guarani-Kaiowá foram feridos em Douradina (MS), por capangas na retomada Kurupa’yty. O ataque foi denunciado à Força Nacional na segunda-feira, 29 de julho, que ignorou o chamado até o dia 9 de agosto. Acompanhada pelo Intercept Brasil, a retomada da Terra Indígena (TI) Panambi, em Lagoa Rica, teve início em 13 de julho, além da Kurupa’yty, foram realizadas duas ocupações ao longo de julho: Yvy Ajere e Pikyxy’yn.  

Como informa a Agência Pública, a trajetória dos Guarani-Kaiowá pela demarcação da TI Panambi começou em 2011, quando 12,1 mil hectares do território foram identificados e demarcados.  Entretanto, o processo está paralisado no Tribunal Regional Federal da 3° Região, em segunda instância da Justiça Federal. 

Em contramão, a Lei 14.703 e a PEC 40 buscam implementar a tese do marco temporal sobre os Kaiowá desde 2016. No mesmo ano, o juiz federal Moisés Anderson Costa Rodrigues da Silva, da primeira Vara Federal de Dourados, anulou o processo de demarcação da TI Panambi – a pedido de um fazendeiro – com a justificativa apresentada no marco temporal.

Assim, deu-se início à ocupação do TI Panambi em Lagoa Rica, que fica entre dois territórios retomados: Gwa’aroka e Guyra Kambiy. Em nota, o povo Guarani-Kaiowá relata o adoecimento de seu povo “ilhados pela soja, veneno e pela devastação”, a invisibilidade de um futuro às crianças e jovens Kaiowá decorrentes: da fome, de ameaças atravessadas pela milícia e a prisão estatal. 

Durante os meses de julho e agosto de 2024, o jornalista Leandro Barbosa acompanhou a retomada, a denúncia e o ataque em Douradina, e documentou em seu perfil do X (@Barbosa_Leandro) a rotina junto aos Kaiowá.  Em conjunto à sua cobertura, o fotógrafo Gabriel Schlickmann documentou a investida dos pistoleiros, as agressões e os relatos do povo Guarani-Kaiowá. 

Ao se apresentar em um das paisagens do pós-ataque, dia 3 de agosto, Leandro atribuí ao Intercept, que está em colaboração com os profissionais na cobertura, “o único veículo presente numa retomada inidígena que tem sido violentamente atacada”. O período de um mês e meio na Retomada Kurupa’yty trouxe uma reportagem de denúncia. Nomeada Depois do tiro, a fome, o texto do The Intercept Brasil, constrói, justamente, o “após” ao ataque e a permanência da comunidade.

No ataque de sábado, 3, ao menos onze indígenas foram feridos a bala por milicianos ruralistas e seus capangas. “A noite ontem foi pesada, triste e revoltante. Hoje sigo acompanhando os desdobramentos desse ataque previsto aos Kaiowá, porém ignorado pelas forças de segurança estadual e federal…”, tuita Leandro no dia seguinte, 4 de agosto, com registro de Gabriel aos cuidados de um Kaiowá.

As publicações de Leandro no X atingiram quase 500 mil usuários da rede, além dos relatos do jornalista e dos Kaiowá, “A importância de se investir no jornalismo independente tá nisso. A gente consegue trabalhar, produzir e ajudar a pautar temas por vezes invisibilizados”, escreve Leandro. O jornalista também realizou uma vaquinha para compra de alimento ao povo Guarani-Kaiowá, que arrecadou dinheiro suficiente para, pelo menos, três meses de medicação a um Kaiowá que foi vítima de uma bala na cabeça e, aproximadamente, 3 mil em comida e mobilidade.

Outro fato grave é que, segundo o  Conselho Indigenista Missionário – CIMI, os ataques são uma reação provocada por vídeos de desinformação, como reportado por Leandro Barbosa, na Agência Pública em 19 de agosto: as informações falsas correm em grupos de mensagens, e apontam cometimento de crimes sem comprovação pelos indígena, enquanto que os desmentidos não diminuem a violência contra os territórios. Aleḿ disso, a “desinformação alimenta movimentos ideológicos que têm atuado para promover despejos ilegais, como o movimento Invasão Zero, citado com recorrência por produtores rurais e políticos do estado”.

Fazer jornalismo é uma forma de apurar, trazer para o debate público e fomentar o engajamento em causas socioambientais de extrema importância. Podemos entender mais sobre a grande ofensiva que sofrem os povos originários há séculos, neste relato dos jornalistas Leandro Barbosa e Gabriel Schlickmann. Os jornalistas buscam ocupar as redes para fazer chegar as informações apuradas junto aos povos em luta, fatos que são quase sempre sonegados ou trazidos muito rapidamente em veículos de comunicação corporativos. Neste sentido, o Jornalismo Ambiental se faz presente de forma fundamental, em seu compromisso com a escuta de vozes que denunciam a ferocidade do avanço da economia intrusiva, responsável pela ameaça constante às diversidades biológica e sociocultural. 

 *Graduanda em Jornalismo na UFSM, voluntária de Iniciação Científica no Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: leda.evangelista@ufsm.br

** Jornalista, doutora em Comunicação e Informação, professora na UFSM, Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS). Líder do Grupo Mão na Mídia (CNPq/UFSM). E-mail: claudia.moraes@ufsm.br

O LIXO – do luxo de ser manchete ao silenciamento do Jornalismo no pós-enchente

Toneladas de lixo foram geradas durante a calamidade que assolou o estado / Imagem: Carine Massierer

Por Carine Massierer*

Memórias e histórias de gaúchos foram parar no lixo quando a água ocupou os lares, durante as enchentes de maio e junho de 2024, tornando-se a maior calamidade vivida até então. Montanhas de resíduos passaram a integrar a realidade visual de ruas e parques transformados em espaços de descarte dos bens materiais que sobraram quando a água tomou o seu leito em muitos rios do Rio Grande do Sul. Estes despojos e seu destino representam um risco à população se não houver um planejamento adequado.

A geração de resíduos pós enchentes tomou as páginas de jornais em maio e impressionou os cidadãos que andavam pelas ruas dos municípios: O que fazer; qual o destino dos entulhos no Rio Grande do Sul? (uol.com.br); Enchentes deixam 47 milhões de toneladas de entulho no RS, aponta levantamento | CNN Brasil; Enchentes deixarão quase 47 milhões de toneladas de lixo no RS | Metrópoles (metropoles.com); Volume de entulho de construção gerado no RS pelas enchentes pode chegar a 46 milhões de toneladas, mostra levantamento  | GZH (clicrbs.com.br), Cuidados após enchentes: especialistas orientam sobre a limpeza da casa e o que fazer com móveis e utensílios | Fantástico | G1 (globo.com), Imagens mostram Porto Alegre tomada por lixo após água começar a baixar (correiobraziliense.com.br), Lixo das chuvas no RS: catadores não conseguem trabalhar (apublica.org), dentre outros.

Em junho a situação ainda chocava a população e a imprensa repercutia o tema, mas já não com tanto espaço comparado ao mês anterior: Lixo após inundações em Porto Alegre gera montanhas de entulho e medo de contaminação – BBC News Brasil; Após um mês de calamidade, gaúchos não conseguem retomar rotina | Agência Brasil (ebc.com.br), Inundações no Rio Grande do Sul: ‘Olhar para tudo isso é desesperador’; a rotina de um gari em meio à limpeza dos restos das enchentes – BBC News Brasil .

Em julho o tema sofreu um arrefecimento e poucos textos retrataram os encaminhamentos quanto ao lixo gerado pós enchentes: Resíduos recolhidos após enchente em Porto Alegre representam 30 campos de futebol com 1 metro de altura, diz prefeitura | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), Aterro que recebia entulhos da enchente tem operação suspensa no RS; entenda os motivos | Rio Grande do Sul | G1 (globo.com), As enchentes no Rio Grande do Sul e os impactos sanitários (synergiaconsultoria.com.br). Neste mês, somente em Porto Alegre, foram coletadas 92 mil toneladas de resíduos e em São Leopoldo, 285 mil. Além destes, outros tantos municípios foram afetados e não se têm números que evidenciem a relevância desta pauta.

Em agosto o tema parece ter sido silenciado pela falta de registros de matérias na internet até então. Isto preocupa porque as montanhas de lixo seguem visíveis e o seu destino não parece integrar uma política ambiental (conforme relatam matéria de maio, junho e julho), o que faz com que o tema seja esquecido na agenda pública. “Fixar a agenda é fixar o calendário dos acontecimentos. É definir o que é importante e o que não é. […] É criar o clima no qual será recebida a informação. É fixar não só o que vai ser discutido, mas como e por quem” (Barros Filho, 2008, p. 159).

Kitzinger e Reilly (2002) apontam que, embora haja preocupação dos jornalistas, os temas de risco não atraem tanto para a cobertura em razão da falta de concretude da pauta ou por não ter entrado na agenda pública ou política, gerando algum valor-notícia atrativo ao jornalismo. Além disto, o risco refere-se a projeções e os jornalistas trabalham com acontecimentos, mas a manifestação do risco pode ser um gatilho necessário para a produção jornalística. É, por isso, que riscos ambientais e consequências são geralmente apresentados somente durante os desastres e catástrofes – e agora estão sendo silenciados.

Desta forma, é preciso que o jornalismo esteja presente fazendo o seu papel social na comunicação de riscos e acompanhando também as consequências ao meio ambiente e aos seres humanos, como é o caso do destino adequado deste expressivo volume de resíduos.

*Carine Massierer é jornalista, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

** Edição de Eliege Fante. Jornalista, mestra e doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS e integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

Referências:

BARROS FILHO, Clóvis de. Ética na comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 2008.

KITZINGER, Jenny; REILLY, Jacquie. Ascensão e queda de notícias de risco. Coimbra: Edições Minerva Coimbra, 2002

Eleições no horizonte: pauta ambiental municipal e o papel do jornalismo

Imagem: Pixabay

Por Michel Misse Filho*

Eleições municipais no radar, e as pautas mais comuns começam a se suceder: transporte público, guardas municipais, creches, filas nos postos de saúde etc. — assuntos da maior importância, é claro. O que nem sempre aparece como prioridade, contudo, são as pautas ambientais urbanas. Do acesso às áreas verdes ao esgotamento sanitário, da dragagem de rios à prevenção de desastres, a tendência é a pauta ambiental urbana ficar no segundo plano do debate, com a possível e triste exceção de cidades que passaram por desastres climáticos recentes e têm o assunto em alta.

A histórica negligência com que o tema é tratado no Brasil não é exatamente uma novidade. Talvez uma possível resposta esteja nas desigualdades arraigadas na sociedade brasileira: se por um lado as pautas ambientais mais ligadas a uma natureza “pura” e à preservação de ecossistemas parecem distantes da maior parte da população — ainda que sua degradação produza imagens chocantes de incêndios e desmatamentos transmitidas na televisão —, por outro lado há uma miríade de problemas ambientas básicos atingindo a maior parte da população, mas justamente a parcela com menor voz do debate público. É, também, a mesma população que sofre com os outros muitos problemas das cidades brasileiros e que dividem o noticiário.

Se a pauta ambiental urbana, em tese, mais urgente para uma parcela da sociedade — aquela ausente de saneamento, convivendo com lixões, esgoto a céu aberto e ilhas de calor — do que para a parcela prevalecente do debate público, é papel do jornalismo inverter as estruturas de poder e prioridades, dando a devida atenção ao tema. Ainda que raro, um ótimo exemplo é esta reportagem da Folha de São Paulo advertindo para o descumprimento do prazo de municípios brasileiros para acabarem com os lixões até o atual ano — meta estabelecida no longínquo ano de 2010. A matéria aponta que ainda restam mais de 1500 lixões e quase 600 aterros controlados, locais de armazenamento de 43% do lixo gerado em 2022, o equivalente a mais de 33 milhões de toneladas de resíduos. Ainda que não aprofunde na questão, a matéria apresenta um ótimo mapa-gráfico que evidencia as desigualdades subjacentes aos territórios: a proporção de lixões é maior nos estados do Norte e Nordeste. Não é difícil supor que, mesmo dentro dessas cidades, é nos bairros mais pobres que os lixões estão localizados.

O papel do jornalismo em produzir reportagens sobre estes problemas é contínuo, ao longo de todo o ano evidenciando o absurdo urbano-ambiental de nossas cidades. No entanto, em meses de eleições municipais a responsabilidade é ainda maior: é preciso levar essas pautas aos debates eleitorais e estimular sua introdução nas campanhas.

*Jornalista, doutorando em Sociologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ) e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e do Laboratório de Estudos Sociais dos Resíduos (Residualab – UERJ). E-mail: michelmisse93@gmail.com.